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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Charles Bukowski

Charles Bukowski

É Engraçado, Não É? #1

nós estávamos ali de pé
numa festa de aniversário
num restaurante
chique

e
havia
muitas pessoas especiais
em volta
pavoneando sua
fama.

eu queria sair
correndo

quando um homem
parado perto de nós
disse algo
exatamente apropriado
para a
ocasião.

“ei”, eu disse à
minha esposa, “esse
cara vale a
pena. quando formos
sentar
vamos tentar
sentar perto
dele.”

fizemos isso e enquanto
as bebidas eram
servidas
o homem começou
a falar

ele começou uma
longa história
que estava
se encaminhando para uma
frase
de efeito.

o problema
era que
eu já adivinhava
qual
iria ser
a
frase de efeito.

e
ele falou
e
falou

e aí
soltou a
frase.

“que merda”, eu
disse a ele, “essa
foi horrível, você
realmente
me
decepcionou...”

ele
apenas começou
a contar outra
história.

eu fui até
outra mesa
e parei atrás
do agora
grande
astro do cinema.

“olha só,
quando nós nos
conhecemos
você não passava de um amável
garoto alemão.
agora
você se transformou
num
otário
presunçoso. você
realmente
me
decepcionou.”

o grande astro do
cinema (que era um
homem
de poderosa
musculatura) rosnou
e
deu de
ombros.

aí eu fui até
a mesa
onde a dama aniversariante estava
sentada
cercada por
um monte de
gente da
mídia.

“olhar pra
vocês”, eu disse, “me dá
vontade de
vomitar
em cima das
suas
ineptas
plausibilidades!”

“ah”, disse a dama
para seus
convidados, “ele
sempre fala
desse
jeito!”

e ela deu uma
risada, pobre
coitada.

então
eu disse “Feliz
aniversário,
mas
eu tinha avisado
a você que nunca deveria
me convidar para essas
coisas.”


eu retornei à
minha mesa

gesticulei para o garçom
trazer
mais uma
bebida.

o homem
estava contando
mais uma
história

mas
ela não era nem
de longe
tão boa
quanto

esta
aqui.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Morte Sentou No Meu Colo E Rachou de Rir

eu estava escrevendo três contos por semana
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).

de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.

nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.

meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão

e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.

era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.

e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Morte Sentou No Meu Colo E Rachou de Rir

eu estava escrevendo três contos por semana
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).

de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.

nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.

meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão

e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.

era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.

e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
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Charles Bukowski

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Tempos Difíceis

quando desci do meu carro no cais
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.

“tem algo incomodando vocês?”

“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.

“você não se lembra da gente?”

“não tenho certeza...”

“nós pintamos a sua casa.”

“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”

nós fomos até um café.

“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”

“é?”

“é, você ficava nos trazendo cerveja...”

nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.

“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.

“moro. como andam vocês?”

“não tem trabalho agora...”

tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.

“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”

“obrigado.”

ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.

eu terminei minha cerveja.

“bem, rapazes, preciso ir.”

“pra onde você vai?”

“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.

ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.

às vezes é difícil saber
o que
fazer.
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Charles Bukowski

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Tempos Difíceis

quando desci do meu carro no cais
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.

“tem algo incomodando vocês?”

“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.

“você não se lembra da gente?”

“não tenho certeza...”

“nós pintamos a sua casa.”

“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”

nós fomos até um café.

“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”

“é?”

“é, você ficava nos trazendo cerveja...”

nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.

“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.

“moro. como andam vocês?”

“não tem trabalho agora...”

tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.

“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”

“obrigado.”

ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.

eu terminei minha cerveja.

“bem, rapazes, preciso ir.”

“pra onde você vai?”

“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.

ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.

às vezes é difícil saber
o que
fazer.
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