Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
É Engraçado, Não É? #1
nós estávamos ali de pé
numa festa de aniversário
num restaurante
chique
e
havia
muitas pessoas especiais
em volta
pavoneando sua
fama.
eu queria sair
correndo
quando um homem
parado perto de nós
disse algo
exatamente apropriado
para a
ocasião.
“ei”, eu disse à
minha esposa, “esse
cara vale a
pena. quando formos
sentar
vamos tentar
sentar perto
dele.”
fizemos isso e enquanto
as bebidas eram
servidas
o homem começou
a falar
ele começou uma
longa história
que estava
se encaminhando para uma
frase
de efeito.
o problema
era que
eu já adivinhava
qual
iria ser
a
frase de efeito.
e
ele falou
e
falou
e aí
soltou a
frase.
“que merda”, eu
disse a ele, “essa
foi horrível, você
realmente
me
decepcionou...”
ele
apenas começou
a contar outra
história.
eu fui até
outra mesa
e parei atrás
do agora
grande
astro do cinema.
“olha só,
quando nós nos
conhecemos
você não passava de um amável
garoto alemão.
agora
você se transformou
num
otário
presunçoso. você
realmente
me
decepcionou.”
o grande astro do
cinema (que era um
homem
de poderosa
musculatura) rosnou
e
deu de
ombros.
aí eu fui até
a mesa
onde a dama aniversariante estava
sentada
cercada por
um monte de
gente da
mídia.
“olhar pra
vocês”, eu disse, “me dá
vontade de
vomitar
em cima das
suas
ineptas
plausibilidades!”
“ah”, disse a dama
para seus
convidados, “ele
sempre fala
desse
jeito!”
e ela deu uma
risada, pobre
coitada.
então
eu disse “Feliz
aniversário,
mas
eu tinha avisado
a você que nunca deveria
me convidar para essas
coisas.”
aí
eu retornei à
minha mesa
gesticulei para o garçom
trazer
mais uma
bebida.
o homem
estava contando
mais uma
história
mas
ela não era nem
de longe
tão boa
quanto
esta
aqui.
numa festa de aniversário
num restaurante
chique
e
havia
muitas pessoas especiais
em volta
pavoneando sua
fama.
eu queria sair
correndo
quando um homem
parado perto de nós
disse algo
exatamente apropriado
para a
ocasião.
“ei”, eu disse à
minha esposa, “esse
cara vale a
pena. quando formos
sentar
vamos tentar
sentar perto
dele.”
fizemos isso e enquanto
as bebidas eram
servidas
o homem começou
a falar
ele começou uma
longa história
que estava
se encaminhando para uma
frase
de efeito.
o problema
era que
eu já adivinhava
qual
iria ser
a
frase de efeito.
e
ele falou
e
falou
e aí
soltou a
frase.
“que merda”, eu
disse a ele, “essa
foi horrível, você
realmente
me
decepcionou...”
ele
apenas começou
a contar outra
história.
eu fui até
outra mesa
e parei atrás
do agora
grande
astro do cinema.
“olha só,
quando nós nos
conhecemos
você não passava de um amável
garoto alemão.
agora
você se transformou
num
otário
presunçoso. você
realmente
me
decepcionou.”
o grande astro do
cinema (que era um
homem
de poderosa
musculatura) rosnou
e
deu de
ombros.
aí eu fui até
a mesa
onde a dama aniversariante estava
sentada
cercada por
um monte de
gente da
mídia.
“olhar pra
vocês”, eu disse, “me dá
vontade de
vomitar
em cima das
suas
ineptas
plausibilidades!”
“ah”, disse a dama
para seus
convidados, “ele
sempre fala
desse
jeito!”
e ela deu uma
risada, pobre
coitada.
então
eu disse “Feliz
aniversário,
mas
eu tinha avisado
a você que nunca deveria
me convidar para essas
coisas.”
aí
eu retornei à
minha mesa
gesticulei para o garçom
trazer
mais uma
bebida.
o homem
estava contando
mais uma
história
mas
ela não era nem
de longe
tão boa
quanto
esta
aqui.
1 013
Charles Bukowski
Amigos Em Meio À Escuridão
eu me lembro de passar fome num
quartinho numa cidade estranha
cortinas baixadas, ouvindo
música clássica
eu era jovem eu era tão jovem que doía como uma faca
por dentro
porque não havia alternativa exceto ficar escondido pelo maior
tempo possível –
não por autopiedade mas com desalento sob minhas chances limitadas:
tentando me conectar.
os velhos compositores – Mozart, Bach, Beethoven,
Brahms eram os únicos que me diziam alguma coisa e
eles estavam mortos.
por fim, faminto e derrotado, precisei sair
às ruas e ser entrevistado para empregos
monótonos
de baixa remuneração
por homens estranhos atrás de mesas
homens sem olhos homens sem rostos
que pegavam as minhas horas
e as destruíam e
mijavam nelas.
agora eu trabalho para os editores os leitores os
críticos
mas ainda bato papo e bebo com
Mozart, Bach, Brahms e o
Bee
que amigões
que homens
às vezes tudo de que precisamos para poder continuar sozinhos
são os mortos
chocalhando as paredes
que nos encerram.
quartinho numa cidade estranha
cortinas baixadas, ouvindo
música clássica
eu era jovem eu era tão jovem que doía como uma faca
por dentro
porque não havia alternativa exceto ficar escondido pelo maior
tempo possível –
não por autopiedade mas com desalento sob minhas chances limitadas:
tentando me conectar.
os velhos compositores – Mozart, Bach, Beethoven,
Brahms eram os únicos que me diziam alguma coisa e
eles estavam mortos.
por fim, faminto e derrotado, precisei sair
às ruas e ser entrevistado para empregos
monótonos
de baixa remuneração
por homens estranhos atrás de mesas
homens sem olhos homens sem rostos
que pegavam as minhas horas
e as destruíam e
mijavam nelas.
agora eu trabalho para os editores os leitores os
críticos
mas ainda bato papo e bebo com
Mozart, Bach, Brahms e o
Bee
que amigões
que homens
às vezes tudo de que precisamos para poder continuar sozinhos
são os mortos
chocalhando as paredes
que nos encerram.
1 228
Charles Bukowski
Algumas Sugestões
além da inveja e do rancor de alguns dos
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.
isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.
não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.
só estar morto já seria bastante
justo.
e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.
imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.
isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.
não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.
só estar morto já seria bastante
justo.
e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.
imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
1 086
Charles Bukowski
Um Cara Engraçado
Schopenhauer não suportava as massas,
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
1 156
Charles Bukowski
Um Cara Engraçado
Schopenhauer não suportava as massas,
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
1 156
Charles Bukowski
Implacável Como a Tarântula
não vão deixar você
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
ocupar uma mesa de frente
num café qualquer na Europa
sob o sol do meio da tarde.
se você fizer isso, alguém vai
passar de carro e
pulverizar as suas tripas com uma
submetralhadora.
não vão deixar você
se sentir bem
por muito tempo
em lugar algum.
as forças não vão
deixar você ficar à toa
coçando o saco e
relaxando.
você precisa agir
como eles mandam.
os infelizes, os amargos e os
vingativos
precisam manter o
vício – que é
ver você ou alguém
qualquer um
em sofrimento, ou
melhor ainda
morto, jogado em algum
buraco.
enquanto existirem
seres humanos por aí
nunca existirá
nenhuma paz
para nenhum indivíduo
nesta terra (ou
em qualquer outro lugar
para onde eventualmente
alguém possa escapar).
tudo que você pode fazer
é talvez obter
dez minutos de sorte
aqui
ou talvez uma hora
ali.
algo
está trabalhando contra você
neste exato momento, e
me refiro a você
e ninguém senão
você.
1 570
Charles Bukowski
Para Os Meus Amigos da Ivy League:
muitos daqueles que conheci nos circuitos de leitura ou dos quais me falaram nos circuitos
de leitura nos velhos tempos são agora ou professores ou poetas-residentes
e amealharam Guggenheims e N.E.A.s** e diversas outras bolsas.
bem, eu mesmo já tentei obter uma Gugg certa vez, ganhei inclusive um N.E.A. de modo que não posso
criticar o golpe
mas
você tinha que ver os caras naquela época: maltrapilhos, olhos esbugalhados, vociferando
contra o sistema
agora
foram ingeridos, digeridos, polidos
escrevem resenhas para os periódicos
escrevem poesia bem trabalhada, serena, inofensiva
editam tantas das revistas que nem sei para onde eu deveria mandar este
poema
já que eles atacam meu trabalho com alarmante regularidade
e
não consigo ler os deles
porém seus ataques a mim foram eficazes neste país
e
se não fosse pela Europa eu provavelmente ainda seria um escritor passando fome
ou morando na rua
ou arrancando ervas daninhas no seu jardim
ou...?
bem
você conhece o velho ditado: gosto não se
discute
e
ou eles estão certos e eu errado ou então estou certo e eles todos estão
errados
ou
talvez seja algo no meio disso.
a maioria das pessoas no mundo não dá a mínima
e
com frequência sinto a mesma
coisa.
** National Endowment for the Arts. (N.T.)
de leitura nos velhos tempos são agora ou professores ou poetas-residentes
e amealharam Guggenheims e N.E.A.s** e diversas outras bolsas.
bem, eu mesmo já tentei obter uma Gugg certa vez, ganhei inclusive um N.E.A. de modo que não posso
criticar o golpe
mas
você tinha que ver os caras naquela época: maltrapilhos, olhos esbugalhados, vociferando
contra o sistema
agora
foram ingeridos, digeridos, polidos
escrevem resenhas para os periódicos
escrevem poesia bem trabalhada, serena, inofensiva
editam tantas das revistas que nem sei para onde eu deveria mandar este
poema
já que eles atacam meu trabalho com alarmante regularidade
e
não consigo ler os deles
porém seus ataques a mim foram eficazes neste país
e
se não fosse pela Europa eu provavelmente ainda seria um escritor passando fome
ou morando na rua
ou arrancando ervas daninhas no seu jardim
ou...?
bem
você conhece o velho ditado: gosto não se
discute
e
ou eles estão certos e eu errado ou então estou certo e eles todos estão
errados
ou
talvez seja algo no meio disso.
a maioria das pessoas no mundo não dá a mínima
e
com frequência sinto a mesma
coisa.
** National Endowment for the Arts. (N.T.)
1 047
Charles Bukowski
Ajudar Os Mais Velhos
eu estava parado na fila do banco hoje
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
1 140
Charles Bukowski
Ajudar Os Mais Velhos
eu estava parado na fila do banco hoje
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
1 140
Charles Bukowski
A Louca Verdade
o doido de traje vermelho
vinha andando pela rua
conversando sozinho
quando um maioral num carro
esportivo
dobrou numa travessa
bem na frente do doido
que berrou “EI, MIJO DE CÃO!
MERDA DE PORCO! VOCÊ TEM AMENDOINS NO LUGAR DOS
MIOLOS?”
o maioral freou seu carro
esportivo, deu ré até o doido,
parou,
disse: “O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE,
AMIGÃO?’”
“eu disse ‘É MELHOR
DAR NO PÉ ENQUANTO PODE,
BABACA!”
o maioral estava acompanhado de sua
namorada no carro e começou a
abrir a porta.
“É MELHOR VOCÊ NÃO SAIR DESSE
CARRO, MIOLO DE AMENDOIM!”
a porta se fechou e o carro esportivo
se foi
rugindo.
o doido de traje vermelho então
continuou andando pela
rua.
“NÃO TEM NADA EM LUGAR NENHUM”,
ele disse, “E A CADA SEGUNDO TÁ
FICANDO MENOS DO QUE
NADA!”
foi um grande dia
lá na 7th Street logo depois da
Weymouth
Drive.
vinha andando pela rua
conversando sozinho
quando um maioral num carro
esportivo
dobrou numa travessa
bem na frente do doido
que berrou “EI, MIJO DE CÃO!
MERDA DE PORCO! VOCÊ TEM AMENDOINS NO LUGAR DOS
MIOLOS?”
o maioral freou seu carro
esportivo, deu ré até o doido,
parou,
disse: “O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE,
AMIGÃO?’”
“eu disse ‘É MELHOR
DAR NO PÉ ENQUANTO PODE,
BABACA!”
o maioral estava acompanhado de sua
namorada no carro e começou a
abrir a porta.
“É MELHOR VOCÊ NÃO SAIR DESSE
CARRO, MIOLO DE AMENDOIM!”
a porta se fechou e o carro esportivo
se foi
rugindo.
o doido de traje vermelho então
continuou andando pela
rua.
“NÃO TEM NADA EM LUGAR NENHUM”,
ele disse, “E A CADA SEGUNDO TÁ
FICANDO MENOS DO QUE
NADA!”
foi um grande dia
lá na 7th Street logo depois da
Weymouth
Drive.
1 208
Charles Bukowski
A Lâmina
não havia estacionamento perto da agência dos correios onde
eu trabalhava à noite
então encontrei um lugar esplêndido
(ninguém parecia gostar de estacionar ali)
numa estrada de chão atrás de um
matadouro
e ali sentado no meu carro
pouco antes do trabalho
fumando um último cigarro
eu era entretido com a mesma
cena
enquanto cada noitinha afundava em
noite –
os porcos eram pastoreados para fora dos
cercados
e ao longo de rampas
por um homem fazendo sons de porco e
agitando uma grande lona
e os porcos corriam alucinados
pela rampa
rumo à lâmina
que os esperava,
e várias noites
depois de ver aquilo
depois de terminar meu
cigarro
eu simplesmente ligava o carro
recuava dali e
acelerava para longe do meu
emprego.
meu absentismo atingiu tão espantosas
proporções
que precisei afinal
estacionar
a certo custo
atrás de um bar chinês
onde tudo que eu podia ver eram minúsculas janelas
fechadas
com letreiros em neon anunciando certa
libação
oriental.
parecia menos real, e era disso
que se
precisava.
eu trabalhava à noite
então encontrei um lugar esplêndido
(ninguém parecia gostar de estacionar ali)
numa estrada de chão atrás de um
matadouro
e ali sentado no meu carro
pouco antes do trabalho
fumando um último cigarro
eu era entretido com a mesma
cena
enquanto cada noitinha afundava em
noite –
os porcos eram pastoreados para fora dos
cercados
e ao longo de rampas
por um homem fazendo sons de porco e
agitando uma grande lona
e os porcos corriam alucinados
pela rampa
rumo à lâmina
que os esperava,
e várias noites
depois de ver aquilo
depois de terminar meu
cigarro
eu simplesmente ligava o carro
recuava dali e
acelerava para longe do meu
emprego.
meu absentismo atingiu tão espantosas
proporções
que precisei afinal
estacionar
a certo custo
atrás de um bar chinês
onde tudo que eu podia ver eram minúsculas janelas
fechadas
com letreiros em neon anunciando certa
libação
oriental.
parecia menos real, e era disso
que se
precisava.
1 144
Charles Bukowski
A Lâmina
não havia estacionamento perto da agência dos correios onde
eu trabalhava à noite
então encontrei um lugar esplêndido
(ninguém parecia gostar de estacionar ali)
numa estrada de chão atrás de um
matadouro
e ali sentado no meu carro
pouco antes do trabalho
fumando um último cigarro
eu era entretido com a mesma
cena
enquanto cada noitinha afundava em
noite –
os porcos eram pastoreados para fora dos
cercados
e ao longo de rampas
por um homem fazendo sons de porco e
agitando uma grande lona
e os porcos corriam alucinados
pela rampa
rumo à lâmina
que os esperava,
e várias noites
depois de ver aquilo
depois de terminar meu
cigarro
eu simplesmente ligava o carro
recuava dali e
acelerava para longe do meu
emprego.
meu absentismo atingiu tão espantosas
proporções
que precisei afinal
estacionar
a certo custo
atrás de um bar chinês
onde tudo que eu podia ver eram minúsculas janelas
fechadas
com letreiros em neon anunciando certa
libação
oriental.
parecia menos real, e era disso
que se
precisava.
eu trabalhava à noite
então encontrei um lugar esplêndido
(ninguém parecia gostar de estacionar ali)
numa estrada de chão atrás de um
matadouro
e ali sentado no meu carro
pouco antes do trabalho
fumando um último cigarro
eu era entretido com a mesma
cena
enquanto cada noitinha afundava em
noite –
os porcos eram pastoreados para fora dos
cercados
e ao longo de rampas
por um homem fazendo sons de porco e
agitando uma grande lona
e os porcos corriam alucinados
pela rampa
rumo à lâmina
que os esperava,
e várias noites
depois de ver aquilo
depois de terminar meu
cigarro
eu simplesmente ligava o carro
recuava dali e
acelerava para longe do meu
emprego.
meu absentismo atingiu tão espantosas
proporções
que precisei afinal
estacionar
a certo custo
atrás de um bar chinês
onde tudo que eu podia ver eram minúsculas janelas
fechadas
com letreiros em neon anunciando certa
libação
oriental.
parecia menos real, e era disso
que se
precisava.
1 144
Charles Bukowski
Meu Truque do Desaparecimento
quando eu enchia o saco de ficar no bar
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
1 073
Charles Bukowski
Alegre Parri
os cafés em Paris são bem como você imagina
que são:
pessoas muito bem-vestidas, esnobes, e
o garçom-esnobe vem e anota o seu
pedido
como se você fosse um
leproso.
mas depois de tomar o seu vinho
você se sente melhor
você mesmo começa a se sentir um
esnobe
e lança para o cara da mesa ao lado
um olhar de soslaio
ele flagra o seu olhar e
você torce o nariz
meio como se você tivesse acabado de cheirar
merda de cachorro
então você
desvia o olhar.
e a comida
quando chega
tem sempre um sabor suave demais.
os franceses são delicados com seus
temperos.
e
enquanto vai comendo e bebendo
você percebe que todo mundo está
aterrorizado:
que pena
que pena
uma cidade tão adorável
cheia de
covardes.
então
mais vinho gera mais
percepção:
Paris é o mundo e o mundo
é
Paris.
beba à saúde disso
e
por causa
disso.
que são:
pessoas muito bem-vestidas, esnobes, e
o garçom-esnobe vem e anota o seu
pedido
como se você fosse um
leproso.
mas depois de tomar o seu vinho
você se sente melhor
você mesmo começa a se sentir um
esnobe
e lança para o cara da mesa ao lado
um olhar de soslaio
ele flagra o seu olhar e
você torce o nariz
meio como se você tivesse acabado de cheirar
merda de cachorro
então você
desvia o olhar.
e a comida
quando chega
tem sempre um sabor suave demais.
os franceses são delicados com seus
temperos.
e
enquanto vai comendo e bebendo
você percebe que todo mundo está
aterrorizado:
que pena
que pena
uma cidade tão adorável
cheia de
covardes.
então
mais vinho gera mais
percepção:
Paris é o mundo e o mundo
é
Paris.
beba à saúde disso
e
por causa
disso.
1 109
Charles Bukowski
Alegre Parri
os cafés em Paris são bem como você imagina
que são:
pessoas muito bem-vestidas, esnobes, e
o garçom-esnobe vem e anota o seu
pedido
como se você fosse um
leproso.
mas depois de tomar o seu vinho
você se sente melhor
você mesmo começa a se sentir um
esnobe
e lança para o cara da mesa ao lado
um olhar de soslaio
ele flagra o seu olhar e
você torce o nariz
meio como se você tivesse acabado de cheirar
merda de cachorro
então você
desvia o olhar.
e a comida
quando chega
tem sempre um sabor suave demais.
os franceses são delicados com seus
temperos.
e
enquanto vai comendo e bebendo
você percebe que todo mundo está
aterrorizado:
que pena
que pena
uma cidade tão adorável
cheia de
covardes.
então
mais vinho gera mais
percepção:
Paris é o mundo e o mundo
é
Paris.
beba à saúde disso
e
por causa
disso.
que são:
pessoas muito bem-vestidas, esnobes, e
o garçom-esnobe vem e anota o seu
pedido
como se você fosse um
leproso.
mas depois de tomar o seu vinho
você se sente melhor
você mesmo começa a se sentir um
esnobe
e lança para o cara da mesa ao lado
um olhar de soslaio
ele flagra o seu olhar e
você torce o nariz
meio como se você tivesse acabado de cheirar
merda de cachorro
então você
desvia o olhar.
e a comida
quando chega
tem sempre um sabor suave demais.
os franceses são delicados com seus
temperos.
e
enquanto vai comendo e bebendo
você percebe que todo mundo está
aterrorizado:
que pena
que pena
uma cidade tão adorável
cheia de
covardes.
então
mais vinho gera mais
percepção:
Paris é o mundo e o mundo
é
Paris.
beba à saúde disso
e
por causa
disso.
1 109
Charles Bukowski
A Noite Deles
nunca consegui ler Suave é a
noite
mas fizeram uma
adaptação televisiva do
livro
e ela está passando
faz várias
noites
e tenho dedicado
dez minutos
aqui e ali
acompanhando as tribulações
dos ricos
enquanto eles se recostam
em suas cadeiras de praia
em Nice
ou passeiam por seus
amplos aposentos
bebida na mão enquanto
fazem
declarações
filosóficas
ou
dando vexame
no
jantar social
ou no
jantar dançante
eles realmente não fazem a menor
ideia
do que fazer consigo
mesmos:
nadar?
tênis?
subir de carro
o litoral?
descer
o litoral?
achar
camas novas?
se desfazer das
velhas?
ou
foder com as
artes e os
artistas?
não tendo nada para
enfrentar
eles não têm nada para
defender.
os ricos são diferentes
são mesmo
assim como o lêmure-
da-cauda-
anelada e a
pulga-
do-mar.
noite
mas fizeram uma
adaptação televisiva do
livro
e ela está passando
faz várias
noites
e tenho dedicado
dez minutos
aqui e ali
acompanhando as tribulações
dos ricos
enquanto eles se recostam
em suas cadeiras de praia
em Nice
ou passeiam por seus
amplos aposentos
bebida na mão enquanto
fazem
declarações
filosóficas
ou
dando vexame
no
jantar social
ou no
jantar dançante
eles realmente não fazem a menor
ideia
do que fazer consigo
mesmos:
nadar?
tênis?
subir de carro
o litoral?
descer
o litoral?
achar
camas novas?
se desfazer das
velhas?
ou
foder com as
artes e os
artistas?
não tendo nada para
enfrentar
eles não têm nada para
defender.
os ricos são diferentes
são mesmo
assim como o lêmure-
da-cauda-
anelada e a
pulga-
do-mar.
1 132
Charles Bukowski
A Noite Deles
nunca consegui ler Suave é a
noite
mas fizeram uma
adaptação televisiva do
livro
e ela está passando
faz várias
noites
e tenho dedicado
dez minutos
aqui e ali
acompanhando as tribulações
dos ricos
enquanto eles se recostam
em suas cadeiras de praia
em Nice
ou passeiam por seus
amplos aposentos
bebida na mão enquanto
fazem
declarações
filosóficas
ou
dando vexame
no
jantar social
ou no
jantar dançante
eles realmente não fazem a menor
ideia
do que fazer consigo
mesmos:
nadar?
tênis?
subir de carro
o litoral?
descer
o litoral?
achar
camas novas?
se desfazer das
velhas?
ou
foder com as
artes e os
artistas?
não tendo nada para
enfrentar
eles não têm nada para
defender.
os ricos são diferentes
são mesmo
assim como o lêmure-
da-cauda-
anelada e a
pulga-
do-mar.
noite
mas fizeram uma
adaptação televisiva do
livro
e ela está passando
faz várias
noites
e tenho dedicado
dez minutos
aqui e ali
acompanhando as tribulações
dos ricos
enquanto eles se recostam
em suas cadeiras de praia
em Nice
ou passeiam por seus
amplos aposentos
bebida na mão enquanto
fazem
declarações
filosóficas
ou
dando vexame
no
jantar social
ou no
jantar dançante
eles realmente não fazem a menor
ideia
do que fazer consigo
mesmos:
nadar?
tênis?
subir de carro
o litoral?
descer
o litoral?
achar
camas novas?
se desfazer das
velhas?
ou
foder com as
artes e os
artistas?
não tendo nada para
enfrentar
eles não têm nada para
defender.
os ricos são diferentes
são mesmo
assim como o lêmure-
da-cauda-
anelada e a
pulga-
do-mar.
1 132
Charles Bukowski
A Morte Sentou No Meu Colo E Rachou de Rir
eu estava escrevendo três contos por semana
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
1 193
Charles Bukowski
A Morte Sentou No Meu Colo E Rachou de Rir
eu estava escrevendo três contos por semana
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
1 193
Charles Bukowski
Tempos Difíceis
quando desci do meu carro no cais
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.
“tem algo incomodando vocês?”
“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.
“você não se lembra da gente?”
“não tenho certeza...”
“nós pintamos a sua casa.”
“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”
nós fomos até um café.
“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”
“é?”
“é, você ficava nos trazendo cerveja...”
nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.
“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.
“moro. como andam vocês?”
“não tem trabalho agora...”
tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.
“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”
“obrigado.”
ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.
eu terminei minha cerveja.
“bem, rapazes, preciso ir.”
“pra onde você vai?”
“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.
ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.
às vezes é difícil saber
o que
fazer.
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.
“tem algo incomodando vocês?”
“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.
“você não se lembra da gente?”
“não tenho certeza...”
“nós pintamos a sua casa.”
“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”
nós fomos até um café.
“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”
“é?”
“é, você ficava nos trazendo cerveja...”
nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.
“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.
“moro. como andam vocês?”
“não tem trabalho agora...”
tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.
“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”
“obrigado.”
ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.
eu terminei minha cerveja.
“bem, rapazes, preciso ir.”
“pra onde você vai?”
“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.
ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.
às vezes é difícil saber
o que
fazer.
1 312
Charles Bukowski
Tempos Difíceis
quando desci do meu carro no cais
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.
“tem algo incomodando vocês?”
“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.
“você não se lembra da gente?”
“não tenho certeza...”
“nós pintamos a sua casa.”
“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”
nós fomos até um café.
“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”
“é?”
“é, você ficava nos trazendo cerveja...”
nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.
“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.
“moro. como andam vocês?”
“não tem trabalho agora...”
tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.
“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”
“obrigado.”
ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.
eu terminei minha cerveja.
“bem, rapazes, preciso ir.”
“pra onde você vai?”
“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.
ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.
às vezes é difícil saber
o que
fazer.
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.
“tem algo incomodando vocês?”
“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.
“você não se lembra da gente?”
“não tenho certeza...”
“nós pintamos a sua casa.”
“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”
nós fomos até um café.
“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”
“é?”
“é, você ficava nos trazendo cerveja...”
nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.
“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.
“moro. como andam vocês?”
“não tem trabalho agora...”
tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.
“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”
“obrigado.”
ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.
eu terminei minha cerveja.
“bem, rapazes, preciso ir.”
“pra onde você vai?”
“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.
ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.
às vezes é difícil saber
o que
fazer.
1 312
Charles Bukowski
Caixa Postal 11946, Fresno, Calif. 93776
voltei de carro do hipódromo depois de perder $50.
um dia quente por lá
eles espremem gente nos sábados;
meus pés doíam e eu tinha dores no pescoço
e pelos ombros –
nervos: grandes multidões mais do que
me abalam.
subi a entrada da garagem e peguei a
correspondência
avancei e estacionei
entrei e abri a carta da Receita Federal
formulário 525 (SC) (Rec. 9-83)
li
e fui informado de que eu devia
DOZE MIL SEISCENTOSEQUATRO DÓLARES E
SETENTA E OITO CENTAVOS
do meu imposto de renda de 1981 mais
DOIS MIL OITOCENTOSEOITENTAETRÊS DÓLARES
E DOZE CENTAVOS de juros
e esses juros adicionais estavam sendo
reajustados
DIARIAMENTE.
entrei na cozinha e me servi uma
bebida.
a vida na América era uma coisa
curiosa.
bem, eu poderia deixar que os juros
aumentassem
isso era o que o governo
fazia
mas depois de um tempo eles
viriam atrás de mim
ou de fosse lá o que me
restasse.
pelo menos aquele prejuízo de $50 no
hipódromo não parecia mais
tão ruim.
eu teria de voltar no dia seguinte e
ganhar $15.487,90 mais
o reajuste diário
dos juros.
brindei a isso,
lamentando não ter comprado um
Programa das Corridas
na
saída.
um dia quente por lá
eles espremem gente nos sábados;
meus pés doíam e eu tinha dores no pescoço
e pelos ombros –
nervos: grandes multidões mais do que
me abalam.
subi a entrada da garagem e peguei a
correspondência
avancei e estacionei
entrei e abri a carta da Receita Federal
formulário 525 (SC) (Rec. 9-83)
li
e fui informado de que eu devia
DOZE MIL SEISCENTOSEQUATRO DÓLARES E
SETENTA E OITO CENTAVOS
do meu imposto de renda de 1981 mais
DOIS MIL OITOCENTOSEOITENTAETRÊS DÓLARES
E DOZE CENTAVOS de juros
e esses juros adicionais estavam sendo
reajustados
DIARIAMENTE.
entrei na cozinha e me servi uma
bebida.
a vida na América era uma coisa
curiosa.
bem, eu poderia deixar que os juros
aumentassem
isso era o que o governo
fazia
mas depois de um tempo eles
viriam atrás de mim
ou de fosse lá o que me
restasse.
pelo menos aquele prejuízo de $50 no
hipódromo não parecia mais
tão ruim.
eu teria de voltar no dia seguinte e
ganhar $15.487,90 mais
o reajuste diário
dos juros.
brindei a isso,
lamentando não ter comprado um
Programa das Corridas
na
saída.
1 054
Charles Bukowski
Caixa Postal 11946, Fresno, Calif. 93776
voltei de carro do hipódromo depois de perder $50.
um dia quente por lá
eles espremem gente nos sábados;
meus pés doíam e eu tinha dores no pescoço
e pelos ombros –
nervos: grandes multidões mais do que
me abalam.
subi a entrada da garagem e peguei a
correspondência
avancei e estacionei
entrei e abri a carta da Receita Federal
formulário 525 (SC) (Rec. 9-83)
li
e fui informado de que eu devia
DOZE MIL SEISCENTOSEQUATRO DÓLARES E
SETENTA E OITO CENTAVOS
do meu imposto de renda de 1981 mais
DOIS MIL OITOCENTOSEOITENTAETRÊS DÓLARES
E DOZE CENTAVOS de juros
e esses juros adicionais estavam sendo
reajustados
DIARIAMENTE.
entrei na cozinha e me servi uma
bebida.
a vida na América era uma coisa
curiosa.
bem, eu poderia deixar que os juros
aumentassem
isso era o que o governo
fazia
mas depois de um tempo eles
viriam atrás de mim
ou de fosse lá o que me
restasse.
pelo menos aquele prejuízo de $50 no
hipódromo não parecia mais
tão ruim.
eu teria de voltar no dia seguinte e
ganhar $15.487,90 mais
o reajuste diário
dos juros.
brindei a isso,
lamentando não ter comprado um
Programa das Corridas
na
saída.
um dia quente por lá
eles espremem gente nos sábados;
meus pés doíam e eu tinha dores no pescoço
e pelos ombros –
nervos: grandes multidões mais do que
me abalam.
subi a entrada da garagem e peguei a
correspondência
avancei e estacionei
entrei e abri a carta da Receita Federal
formulário 525 (SC) (Rec. 9-83)
li
e fui informado de que eu devia
DOZE MIL SEISCENTOSEQUATRO DÓLARES E
SETENTA E OITO CENTAVOS
do meu imposto de renda de 1981 mais
DOIS MIL OITOCENTOSEOITENTAETRÊS DÓLARES
E DOZE CENTAVOS de juros
e esses juros adicionais estavam sendo
reajustados
DIARIAMENTE.
entrei na cozinha e me servi uma
bebida.
a vida na América era uma coisa
curiosa.
bem, eu poderia deixar que os juros
aumentassem
isso era o que o governo
fazia
mas depois de um tempo eles
viriam atrás de mim
ou de fosse lá o que me
restasse.
pelo menos aquele prejuízo de $50 no
hipódromo não parecia mais
tão ruim.
eu teria de voltar no dia seguinte e
ganhar $15.487,90 mais
o reajuste diário
dos juros.
brindei a isso,
lamentando não ter comprado um
Programa das Corridas
na
saída.
1 054
Charles Bukowski
Café
eu estava tomando café no
balcão
quando um homem
3 ou 4 banquinhos abaixo
me perguntou
“vem cá, não era você o
cara que estava
pendurado pelos
calcanhares
daquele quarto de hotel
no quarto andar
outra
noite?”
“sim”, eu respondi, “eu
mesmo.”
“o que te levou a fazer
aquilo?”, ele perguntou.
“bem, é bastante
complicado.”
então ele virou a
cara.
a garçonete
que tinha ficado
ali parada
me perguntou
“ele estava brincando,
não
estava?”
“não”, eu
disse.
paguei, levantei, fui
até a porta,
abri.
ouvi o homem
dizendo “esse cara é
maluco”.
na rua eu fui
andando para o norte
me sentindo
curiosamente
homenageado.
balcão
quando um homem
3 ou 4 banquinhos abaixo
me perguntou
“vem cá, não era você o
cara que estava
pendurado pelos
calcanhares
daquele quarto de hotel
no quarto andar
outra
noite?”
“sim”, eu respondi, “eu
mesmo.”
“o que te levou a fazer
aquilo?”, ele perguntou.
“bem, é bastante
complicado.”
então ele virou a
cara.
a garçonete
que tinha ficado
ali parada
me perguntou
“ele estava brincando,
não
estava?”
“não”, eu
disse.
paguei, levantei, fui
até a porta,
abri.
ouvi o homem
dizendo “esse cara é
maluco”.
na rua eu fui
andando para o norte
me sentindo
curiosamente
homenageado.
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