Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
Ele Atacou Os Moinhos de Vento, Sim
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo
agora que as leiteiras gritam obscenidades
em dialetos diversos,
o moinho foi fechado,
há assassinatos em massa nas
lanchonetes,
o frade Tuck está ferrado,
os Estados Unidos aparecem em 17o nas
nações com maior longevidade do
indivíduo,
e ninguém limpa o para-brisa.
a besta dorme em Beverly Hills,
Van Gogh é um bilionário ausente,
o Homem de Marte dá um ás de
espadas,
Hollywood vira novela,
o cavalo cavalga o jóquei,
a puta chupa o congresso,
o gato tem só uma vida restante,
a rua sem saída é um psiquiatra,
a mesa está servida com fantasias da cabeça do peixe,
o sonho bate como um porrete na latrina
dos homens,
os sem-teto são roubados,
os dados são viciados,
a cortina está baixada,
os assentos estão vazios,
o vigia se suicidou,
as luzes estão apagadas,
ninguém espera por Godot
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo,
absurdamente,
agora mesmo
na floresta em chamas
no mar moribundo
nos sonetos maçantes
e nos desperdiçados
nasceres do sol,
algo é necessário
aqui
além dessa música
podre,
dessas décadas ceifadas,
desse lugar desse jeito,
desse tempo,
o seu,
mutilado, cuspido
para longe,
as costas de um espelho, a
teta de uma porca;
semente sobre rocha,
fria,
nem mesmo a morte de
uma barata
agora.
ao extremo
agora que as leiteiras gritam obscenidades
em dialetos diversos,
o moinho foi fechado,
há assassinatos em massa nas
lanchonetes,
o frade Tuck está ferrado,
os Estados Unidos aparecem em 17o nas
nações com maior longevidade do
indivíduo,
e ninguém limpa o para-brisa.
a besta dorme em Beverly Hills,
Van Gogh é um bilionário ausente,
o Homem de Marte dá um ás de
espadas,
Hollywood vira novela,
o cavalo cavalga o jóquei,
a puta chupa o congresso,
o gato tem só uma vida restante,
a rua sem saída é um psiquiatra,
a mesa está servida com fantasias da cabeça do peixe,
o sonho bate como um porrete na latrina
dos homens,
os sem-teto são roubados,
os dados são viciados,
a cortina está baixada,
os assentos estão vazios,
o vigia se suicidou,
as luzes estão apagadas,
ninguém espera por Godot
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo,
absurdamente,
agora mesmo
na floresta em chamas
no mar moribundo
nos sonetos maçantes
e nos desperdiçados
nasceres do sol,
algo é necessário
aqui
além dessa música
podre,
dessas décadas ceifadas,
desse lugar desse jeito,
desse tempo,
o seu,
mutilado, cuspido
para longe,
as costas de um espelho, a
teta de uma porca;
semente sobre rocha,
fria,
nem mesmo a morte de
uma barata
agora.
973
Charles Bukowski
Ele Atacou Os Moinhos de Vento, Sim
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo
agora que as leiteiras gritam obscenidades
em dialetos diversos,
o moinho foi fechado,
há assassinatos em massa nas
lanchonetes,
o frade Tuck está ferrado,
os Estados Unidos aparecem em 17o nas
nações com maior longevidade do
indivíduo,
e ninguém limpa o para-brisa.
a besta dorme em Beverly Hills,
Van Gogh é um bilionário ausente,
o Homem de Marte dá um ás de
espadas,
Hollywood vira novela,
o cavalo cavalga o jóquei,
a puta chupa o congresso,
o gato tem só uma vida restante,
a rua sem saída é um psiquiatra,
a mesa está servida com fantasias da cabeça do peixe,
o sonho bate como um porrete na latrina
dos homens,
os sem-teto são roubados,
os dados são viciados,
a cortina está baixada,
os assentos estão vazios,
o vigia se suicidou,
as luzes estão apagadas,
ninguém espera por Godot
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo,
absurdamente,
agora mesmo
na floresta em chamas
no mar moribundo
nos sonetos maçantes
e nos desperdiçados
nasceres do sol,
algo é necessário
aqui
além dessa música
podre,
dessas décadas ceifadas,
desse lugar desse jeito,
desse tempo,
o seu,
mutilado, cuspido
para longe,
as costas de um espelho, a
teta de uma porca;
semente sobre rocha,
fria,
nem mesmo a morte de
uma barata
agora.
ao extremo
agora que as leiteiras gritam obscenidades
em dialetos diversos,
o moinho foi fechado,
há assassinatos em massa nas
lanchonetes,
o frade Tuck está ferrado,
os Estados Unidos aparecem em 17o nas
nações com maior longevidade do
indivíduo,
e ninguém limpa o para-brisa.
a besta dorme em Beverly Hills,
Van Gogh é um bilionário ausente,
o Homem de Marte dá um ás de
espadas,
Hollywood vira novela,
o cavalo cavalga o jóquei,
a puta chupa o congresso,
o gato tem só uma vida restante,
a rua sem saída é um psiquiatra,
a mesa está servida com fantasias da cabeça do peixe,
o sonho bate como um porrete na latrina
dos homens,
os sem-teto são roubados,
os dados são viciados,
a cortina está baixada,
os assentos estão vazios,
o vigia se suicidou,
as luzes estão apagadas,
ninguém espera por Godot
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo,
absurdamente,
agora mesmo
na floresta em chamas
no mar moribundo
nos sonetos maçantes
e nos desperdiçados
nasceres do sol,
algo é necessário
aqui
além dessa música
podre,
dessas décadas ceifadas,
desse lugar desse jeito,
desse tempo,
o seu,
mutilado, cuspido
para longe,
as costas de um espelho, a
teta de uma porca;
semente sobre rocha,
fria,
nem mesmo a morte de
uma barata
agora.
973
Charles Bukowski
Diversão
veja bem, ela disse, estirada na cama, eu não quero nada
pessoal, vamos só transar, eu não quero me envolver,
sacou?
ela chutou pra longe os sapatos de salto alto...
claro, ele disse, de pé ali, vamos só fingir que
já transamos, não existe nada menos envolvido do que isso,
existe?
que diabos você quer dizer?, ela perguntou.
quero dizer, ele disse, que prefiro beber
de qualquer maneira.
e ele se serviu de bebida.
era uma noite péssima em Vegas e ele foi até a janela e
olhou as luzes estúpidas lá fora.
você é bicha? ela perguntou, você é bicha, seu
desgraçado?
não, ele disse.
você não precisa agir como um bosta, ela disse, só porque perdeu nas
mesas – dirigimos todo esse caminho até aqui em busca de diversão e
agora olha só você: sugando esse trago, cê podia tê feito isso em
L.A.!
certo, ele disse, se tem uma coisa com a qual eu gosto de me envolver é a
maldita garrafa.
eu quero que você me leve pra casa, ela disse.
com todo prazer, ele disse, vamos
nessa.
foi uma dessas ocasiões em que nada se perdeu porque nada
tinha sido encontrado e enquanto ela se vestia foi triste para
ele
não por causa dele e da mulher mas por causa de todos os milhões como ele e a mulher
enquanto as luzes piscavam lá fora, tudo tão facilmente falso.
ela se aprontou depressa: vamos dar o fora daqui, ela
disse.
certo, ele disse, e os dois saíram pela porta juntos.
pessoal, vamos só transar, eu não quero me envolver,
sacou?
ela chutou pra longe os sapatos de salto alto...
claro, ele disse, de pé ali, vamos só fingir que
já transamos, não existe nada menos envolvido do que isso,
existe?
que diabos você quer dizer?, ela perguntou.
quero dizer, ele disse, que prefiro beber
de qualquer maneira.
e ele se serviu de bebida.
era uma noite péssima em Vegas e ele foi até a janela e
olhou as luzes estúpidas lá fora.
você é bicha? ela perguntou, você é bicha, seu
desgraçado?
não, ele disse.
você não precisa agir como um bosta, ela disse, só porque perdeu nas
mesas – dirigimos todo esse caminho até aqui em busca de diversão e
agora olha só você: sugando esse trago, cê podia tê feito isso em
L.A.!
certo, ele disse, se tem uma coisa com a qual eu gosto de me envolver é a
maldita garrafa.
eu quero que você me leve pra casa, ela disse.
com todo prazer, ele disse, vamos
nessa.
foi uma dessas ocasiões em que nada se perdeu porque nada
tinha sido encontrado e enquanto ela se vestia foi triste para
ele
não por causa dele e da mulher mas por causa de todos os milhões como ele e a mulher
enquanto as luzes piscavam lá fora, tudo tão facilmente falso.
ela se aprontou depressa: vamos dar o fora daqui, ela
disse.
certo, ele disse, e os dois saíram pela porta juntos.
1 206
Charles Bukowski
Minha América, 1936
você não tem pegada,
disse o meu pai,
você sabe quanto dinheiro
eu gastei pra te criar?
sabe o custo de comprar roupa?
o custo de comprar comida?
você só fica no seu maldito
quarto deprimindo essa
bunda morta!
16 anos de idade e você age
como um morto!
o que é que você vai fazer
quando sair no mundo?
olha o Benny Halsey, ele é
porteiro num
cinema!
Billy Evans vende jornais
na esquina da Crenshaw
com Olympic
e você fala que não consegue
arranjar emprego!
bem, a verdade é que você simplesmente
não quer um emprego!
eu tenho um emprego!
qualquer um que realmente quiser um
emprego consegue arranjar um emprego!
eu penso cada vez mais na porra de uma
bela ideia de te botar pra
rua,
tudo que você faz é ficar atirado se
deprimindo!
não acredito que você seja o meu
filho!
sua mãe tem vergonha
de você!
você está matando a sua mãe!
eu penso cada vez mais na porra de uma bela ideia de
te cagar na porrada, só pra
te acordar!
o quê?
não fala comigo desse jeito!
eu sou seu pai!
nunca mais fale
comigo desse jeito!
o quê?
tá bom, tá bom,
fora dessa casa!
você tá na rua!
rua!
rua!
mãe, eu tô botando
esse filho da puta
na rua!
mãe!
disse o meu pai,
você sabe quanto dinheiro
eu gastei pra te criar?
sabe o custo de comprar roupa?
o custo de comprar comida?
você só fica no seu maldito
quarto deprimindo essa
bunda morta!
16 anos de idade e você age
como um morto!
o que é que você vai fazer
quando sair no mundo?
olha o Benny Halsey, ele é
porteiro num
cinema!
Billy Evans vende jornais
na esquina da Crenshaw
com Olympic
e você fala que não consegue
arranjar emprego!
bem, a verdade é que você simplesmente
não quer um emprego!
eu tenho um emprego!
qualquer um que realmente quiser um
emprego consegue arranjar um emprego!
eu penso cada vez mais na porra de uma
bela ideia de te botar pra
rua,
tudo que você faz é ficar atirado se
deprimindo!
não acredito que você seja o meu
filho!
sua mãe tem vergonha
de você!
você está matando a sua mãe!
eu penso cada vez mais na porra de uma bela ideia de
te cagar na porrada, só pra
te acordar!
o quê?
não fala comigo desse jeito!
eu sou seu pai!
nunca mais fale
comigo desse jeito!
o quê?
tá bom, tá bom,
fora dessa casa!
você tá na rua!
rua!
rua!
mãe, eu tô botando
esse filho da puta
na rua!
mãe!
891
Charles Bukowski
Batendo Pé No Savoy
agora ouça, Capitão, eu quero os andantes feridos em
seus postos, não podemos poupar um só homem, se esses
chucrutes soubessem que nossas fileiras estão escasseando eles
nos comeriam vivos e estuprariam nossas mulheres e crianças
e, deus nos ajude, nossos bichinhos
também!
sem água? faça com que bebam o próprio sangue!
o que você acha que isso é, um maldito
piquenique?
vou te dar um piquenique enfiado no teu
rabo! tá
entendendo?
agora ouça... nós atraímos eles, flanqueamos,
eles vão engolir a própria merda de
pânico!
usaremos seus ossos pra fazer estacadas!
vocês serão heróis para nossas damas, elas
lamberão suas bolas com gratidão Eternidade adentro!
entendeu?
desistentes não vencem, e além disso, qualquer
homem que eu ver recuando eu vou abrir nele um
buraco tão grande que você vai poder ver
o cu da sua vó colhendo margaridas em
Petaluma!
tá me ouvindo?
ah, merda! me acertaram! chama o doutor! chama todos
os doutores!
veado! quem podia imaginar? deu sorte!
esses chucrutes não acertam um sonho molhado a
3 passos!
Capitão! você está no comando! se você fizer
cagada eu torço suas pernas e meto
as duas no seu traseiro idiota! entendeu?
não quero esses chucrutes enfiando os dedos na Melba
na varanda!
Deus está do nosso lado! Ele me disse uma vez, “Ouça,
esses chucrutes precisam ter fim! eles não lavam
os sovacos e penteiam os cabelos com
geleia de pêssego!”
Capitão! acho que vou indo! chame uma enfermeira
aqui, preciso de um boquete! e depressa! essa
guerra não pode esperar o dia todo!
seus postos, não podemos poupar um só homem, se esses
chucrutes soubessem que nossas fileiras estão escasseando eles
nos comeriam vivos e estuprariam nossas mulheres e crianças
e, deus nos ajude, nossos bichinhos
também!
sem água? faça com que bebam o próprio sangue!
o que você acha que isso é, um maldito
piquenique?
vou te dar um piquenique enfiado no teu
rabo! tá
entendendo?
agora ouça... nós atraímos eles, flanqueamos,
eles vão engolir a própria merda de
pânico!
usaremos seus ossos pra fazer estacadas!
vocês serão heróis para nossas damas, elas
lamberão suas bolas com gratidão Eternidade adentro!
entendeu?
desistentes não vencem, e além disso, qualquer
homem que eu ver recuando eu vou abrir nele um
buraco tão grande que você vai poder ver
o cu da sua vó colhendo margaridas em
Petaluma!
tá me ouvindo?
ah, merda! me acertaram! chama o doutor! chama todos
os doutores!
veado! quem podia imaginar? deu sorte!
esses chucrutes não acertam um sonho molhado a
3 passos!
Capitão! você está no comando! se você fizer
cagada eu torço suas pernas e meto
as duas no seu traseiro idiota! entendeu?
não quero esses chucrutes enfiando os dedos na Melba
na varanda!
Deus está do nosso lado! Ele me disse uma vez, “Ouça,
esses chucrutes precisam ter fim! eles não lavam
os sovacos e penteiam os cabelos com
geleia de pêssego!”
Capitão! acho que vou indo! chame uma enfermeira
aqui, preciso de um boquete! e depressa! essa
guerra não pode esperar o dia todo!
985
Charles Bukowski
Coisa da Boa
sugando este charuto,
tomando garrafa após garrafa de cerveja da
República Popular da
China,
são os primeiros momentos da escura manhã
e estou celebrando a existência de
todos nós,
todos nós cabeças de trapo, sugadores de ruína
habitantes desta monstruosa
bola de estrume que é a
terra.
digo a vocês, todos, todo mundo, que estou
orgulhoso de vocês
por não cortarem suas gargantas toda
manhã quando acordam para enfrentá-la
de novo.
claro, alguns de vocês cortam, vocês dão
no pé, vão embora e nos deixam com o
fedorento pós-queda, para lidarmos com
os mutilados, os meio-assassinados, os
incompetentes, os loucos, os vis, as
massas.
mas sopro fumaça azul e sugo
estas garrafas verdes
em celebração dos que perduram,
seja lá como, confusos e
incongruentes mas aguentando,
o arremessador disparando a bola
na cara a 156 q.p.h
o motorista de ônibus moendo suas gengivas
em carne viva para chegar no horário.
os mexicanos ilegais que me acordam às
7 da manhã com seus sopradores de folhas.
sua mãe, a mãe de alguém,
seu filho, o filho de alguém, certa
irmã, certo primo, certo velhote
num andador, todos lá.
dá uma olhada neles.
eu saúdo aqueles que retêm o traiço-
eiro controle.
abro uma nova garrafa verde, faísco
meu charuto morto de volta à vida com meu isqueiro
amarelo.
precisamos de pessoas para limpar nossas
latrinas.
precisamos da misericórdia da respiração,
vida em movimento
mesmo que na maior parte ela seja
incontinente.
cerveja da China,
pensa só.
esta é uma madrugada e tanto
César e Platão avultam nas
sombras e eu amo todos vocês
por um breve
momento.
tomando garrafa após garrafa de cerveja da
República Popular da
China,
são os primeiros momentos da escura manhã
e estou celebrando a existência de
todos nós,
todos nós cabeças de trapo, sugadores de ruína
habitantes desta monstruosa
bola de estrume que é a
terra.
digo a vocês, todos, todo mundo, que estou
orgulhoso de vocês
por não cortarem suas gargantas toda
manhã quando acordam para enfrentá-la
de novo.
claro, alguns de vocês cortam, vocês dão
no pé, vão embora e nos deixam com o
fedorento pós-queda, para lidarmos com
os mutilados, os meio-assassinados, os
incompetentes, os loucos, os vis, as
massas.
mas sopro fumaça azul e sugo
estas garrafas verdes
em celebração dos que perduram,
seja lá como, confusos e
incongruentes mas aguentando,
o arremessador disparando a bola
na cara a 156 q.p.h
o motorista de ônibus moendo suas gengivas
em carne viva para chegar no horário.
os mexicanos ilegais que me acordam às
7 da manhã com seus sopradores de folhas.
sua mãe, a mãe de alguém,
seu filho, o filho de alguém, certa
irmã, certo primo, certo velhote
num andador, todos lá.
dá uma olhada neles.
eu saúdo aqueles que retêm o traiço-
eiro controle.
abro uma nova garrafa verde, faísco
meu charuto morto de volta à vida com meu isqueiro
amarelo.
precisamos de pessoas para limpar nossas
latrinas.
precisamos da misericórdia da respiração,
vida em movimento
mesmo que na maior parte ela seja
incontinente.
cerveja da China,
pensa só.
esta é uma madrugada e tanto
César e Platão avultam nas
sombras e eu amo todos vocês
por um breve
momento.
1 079
Charles Bukowski
Coisa da Boa
sugando este charuto,
tomando garrafa após garrafa de cerveja da
República Popular da
China,
são os primeiros momentos da escura manhã
e estou celebrando a existência de
todos nós,
todos nós cabeças de trapo, sugadores de ruína
habitantes desta monstruosa
bola de estrume que é a
terra.
digo a vocês, todos, todo mundo, que estou
orgulhoso de vocês
por não cortarem suas gargantas toda
manhã quando acordam para enfrentá-la
de novo.
claro, alguns de vocês cortam, vocês dão
no pé, vão embora e nos deixam com o
fedorento pós-queda, para lidarmos com
os mutilados, os meio-assassinados, os
incompetentes, os loucos, os vis, as
massas.
mas sopro fumaça azul e sugo
estas garrafas verdes
em celebração dos que perduram,
seja lá como, confusos e
incongruentes mas aguentando,
o arremessador disparando a bola
na cara a 156 q.p.h
o motorista de ônibus moendo suas gengivas
em carne viva para chegar no horário.
os mexicanos ilegais que me acordam às
7 da manhã com seus sopradores de folhas.
sua mãe, a mãe de alguém,
seu filho, o filho de alguém, certa
irmã, certo primo, certo velhote
num andador, todos lá.
dá uma olhada neles.
eu saúdo aqueles que retêm o traiço-
eiro controle.
abro uma nova garrafa verde, faísco
meu charuto morto de volta à vida com meu isqueiro
amarelo.
precisamos de pessoas para limpar nossas
latrinas.
precisamos da misericórdia da respiração,
vida em movimento
mesmo que na maior parte ela seja
incontinente.
cerveja da China,
pensa só.
esta é uma madrugada e tanto
César e Platão avultam nas
sombras e eu amo todos vocês
por um breve
momento.
tomando garrafa após garrafa de cerveja da
República Popular da
China,
são os primeiros momentos da escura manhã
e estou celebrando a existência de
todos nós,
todos nós cabeças de trapo, sugadores de ruína
habitantes desta monstruosa
bola de estrume que é a
terra.
digo a vocês, todos, todo mundo, que estou
orgulhoso de vocês
por não cortarem suas gargantas toda
manhã quando acordam para enfrentá-la
de novo.
claro, alguns de vocês cortam, vocês dão
no pé, vão embora e nos deixam com o
fedorento pós-queda, para lidarmos com
os mutilados, os meio-assassinados, os
incompetentes, os loucos, os vis, as
massas.
mas sopro fumaça azul e sugo
estas garrafas verdes
em celebração dos que perduram,
seja lá como, confusos e
incongruentes mas aguentando,
o arremessador disparando a bola
na cara a 156 q.p.h
o motorista de ônibus moendo suas gengivas
em carne viva para chegar no horário.
os mexicanos ilegais que me acordam às
7 da manhã com seus sopradores de folhas.
sua mãe, a mãe de alguém,
seu filho, o filho de alguém, certa
irmã, certo primo, certo velhote
num andador, todos lá.
dá uma olhada neles.
eu saúdo aqueles que retêm o traiço-
eiro controle.
abro uma nova garrafa verde, faísco
meu charuto morto de volta à vida com meu isqueiro
amarelo.
precisamos de pessoas para limpar nossas
latrinas.
precisamos da misericórdia da respiração,
vida em movimento
mesmo que na maior parte ela seja
incontinente.
cerveja da China,
pensa só.
esta é uma madrugada e tanto
César e Platão avultam nas
sombras e eu amo todos vocês
por um breve
momento.
1 079
Charles Bukowski
Vivo Para Escrever E Agora Estou Morrendo
já contei antes e nunca foi publicado então
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.
mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.
depois
pra quem mais?
o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.
e o editor da Esquire
e a Atlantic Monthly
e Harper’s.
“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...
e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.
pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...
levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.
pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:
vivo para escrever e agora estou
morrendo.
e
cada dia
eu achava que seria
meu último.
eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.
eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.
eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.
um dia frio era seguido por outro,
lentamente.
a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum
só
conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”
então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”
ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?
e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.
mas Caresse
Crosby?
black sun press?
eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”
dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”
no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.
só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.
é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...
e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.
não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.
vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.
mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.
depois
pra quem mais?
o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.
e o editor da Esquire
e a Atlantic Monthly
e Harper’s.
“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...
e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.
pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...
levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.
pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:
vivo para escrever e agora estou
morrendo.
e
cada dia
eu achava que seria
meu último.
eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.
eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.
eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.
um dia frio era seguido por outro,
lentamente.
a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum
só
conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”
então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”
ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?
e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.
mas Caresse
Crosby?
black sun press?
eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”
dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”
no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.
só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.
é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...
e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.
não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.
vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
1 247
Charles Bukowski
Vivo Para Escrever E Agora Estou Morrendo
já contei antes e nunca foi publicado então
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.
mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.
depois
pra quem mais?
o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.
e o editor da Esquire
e a Atlantic Monthly
e Harper’s.
“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...
e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.
pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...
levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.
pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:
vivo para escrever e agora estou
morrendo.
e
cada dia
eu achava que seria
meu último.
eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.
eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.
eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.
um dia frio era seguido por outro,
lentamente.
a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum
só
conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”
então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”
ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?
e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.
mas Caresse
Crosby?
black sun press?
eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”
dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”
no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.
só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.
é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...
e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.
não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.
vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.
mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.
depois
pra quem mais?
o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.
e o editor da Esquire
e a Atlantic Monthly
e Harper’s.
“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...
e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.
pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...
levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.
pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:
vivo para escrever e agora estou
morrendo.
e
cada dia
eu achava que seria
meu último.
eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.
eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.
eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.
um dia frio era seguido por outro,
lentamente.
a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum
só
conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”
então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”
ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?
e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.
mas Caresse
Crosby?
black sun press?
eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”
dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”
no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.
só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.
é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...
e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.
não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.
vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
1 247
Charles Bukowski
É Por Isso Que Os Enterros São Tão Tristes
ele tem todas as ferramentas mas é preguiçoso, não tem
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
896
Charles Bukowski
É Por Isso Que Os Enterros São Tão Tristes
ele tem todas as ferramentas mas é preguiçoso, não tem
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
896
Charles Bukowski
É Por Isso Que Os Enterros São Tão Tristes
ele tem todas as ferramentas mas é preguiçoso, não tem
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
896
Charles Bukowski
Escuridão
a escuridão cai sobre a Humanidade
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
822
Charles Bukowski
Escuridão
a escuridão cai sobre a Humanidade
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
822
Charles Bukowski
Ovo Desestrelado
NADA. sentados num café tomando café da manhã. NADA. a garçonete,
e as pessoas comendo. o tráfego passa. não importa o que
Napoleão fez, o que Platão fez. Turguêniev poderia ter sido uma mosca. estamos
esgotados, esperança erradicada. pegamos xícaras de café como os robôs que tomarão em breve
o nosso lugar. coragem em Salerno, banhos de sangue no front oriental não
importaram. sabemos que estamos derrotados. NADA. agora é só uma questão de
continuar
de alguma maneira –
mastigar a comida e ler o jornal. nós
lemos sobre nós mesmos. a notícia é
ruim. algo sobre
NADA.
Joe Louis morto há muito enquanto a mosca-da-fruta invade Beverly Hills.
bem, pelo menos podemos sentar e
comer. tem sido uma viagem
árdua. poderia ser
pior. poderia ser pior do que
NADA.
peçamos mais café à
garçonete.
a vadia! ela sabe que estamos tentando chamar sua
atenção.
ela só fica lá parada fazendo
NADA.
não importa que o príncipe Charles caia do cavalo
ou que o beija-flor seja tão raramente
visto
ou que sejamos insensatos demais para
enlouquecer.
café. sirvam-nos mais desse café do
NADA.
e as pessoas comendo. o tráfego passa. não importa o que
Napoleão fez, o que Platão fez. Turguêniev poderia ter sido uma mosca. estamos
esgotados, esperança erradicada. pegamos xícaras de café como os robôs que tomarão em breve
o nosso lugar. coragem em Salerno, banhos de sangue no front oriental não
importaram. sabemos que estamos derrotados. NADA. agora é só uma questão de
continuar
de alguma maneira –
mastigar a comida e ler o jornal. nós
lemos sobre nós mesmos. a notícia é
ruim. algo sobre
NADA.
Joe Louis morto há muito enquanto a mosca-da-fruta invade Beverly Hills.
bem, pelo menos podemos sentar e
comer. tem sido uma viagem
árdua. poderia ser
pior. poderia ser pior do que
NADA.
peçamos mais café à
garçonete.
a vadia! ela sabe que estamos tentando chamar sua
atenção.
ela só fica lá parada fazendo
NADA.
não importa que o príncipe Charles caia do cavalo
ou que o beija-flor seja tão raramente
visto
ou que sejamos insensatos demais para
enlouquecer.
café. sirvam-nos mais desse café do
NADA.
1 145
Charles Bukowski
A Vida Estradeira
um idiota ficou me fechando e por fim consegui passar por ele, e na
exaltação da liberdade eu acelerei até 135 (naturalmente, não sem antes ver no retrovisor
se havia presença dos nossos protetores de uniforme azul); aí senti e ouvi o CHOQUE de um objeto
duro contra o fundo do meu carro, mas querendo chegar a tempo ao hipódromo me convenci
a ignorá-lo (como se isso eliminasse o problema) muito embora eu começasse a sentir
o cheiro de gasolina.
conferi o medidor do tanque e o nível parecia estável...
já tinha sido uma semana terrível
mas, sabe como é, a derrota pode fortalecer assim como a vitória pode enfraquecer, e se
você tiver a devida sorte e a santa paciência os deuses até poderão conceder
a devida dose...
aí
o tráfego se congestionou e parou, e aí o cheiro de gasolina ficou forte pra valer e eu vi meu
medidor despencando rapidamente, aí meu rádio me informou que um homem 5 quilômetros adiante
no viaduto de Vernon estava sentado na grade de proteção e ameaçava
suicídio,
e assim me vi sob ameaça de ser mandado ao inferno numa explosão
com as pessoas me gritando que meu tanque estava rachado e vazando gasolina;
sim, eu assentia em resposta, eu sei, eu sei...
enquanto isso, enxotando carros com a mão e abrindo caminho rumo à faixa externa
pensando, eles estão mais aterrorizados do que eu:
se eu me ferrar, quem estiver perto é capaz de se ferrar também.
não havia o menor movimento no tráfego – o suicida ainda tentava se
decidir e o meu medidor de gasolina caiu no vermelho
e aí a necessidade de ser um cidadão exemplar e de esperar pela oportunidade
desapareceu e tratei de manobrar
por cima de um anteparo de cimento
entortando minha roda dianteira direita
consegui chegar à saída da autoestrada que estava totalmente
livre
aí rodei como deu até um posto de gasolina na Imperial Highway
estacionei
ainda pingando gasolina, saí, fui até o telefone, chamei um
guincho, não demorou nem um pouco, bela carona de volta com um camarada
negro que me contou histórias estranhas sobre motoristas em apuros...
(como certa mulher, suas mãos estavam grudadas no volante, levaram 15 minutos
conversando e forçando até fazê-la soltar.)
peguei o carro de volta uns dois dias depois, estava voltando do hipódromo,
pisei no freio e o pedal não descia, por sorte eu não estava na autoestrada
mesmo assim desliguei o motor, deslizei até o meio-fio, notei que a cobertura
da coluna de direção havia se soltado e bloqueado o freio, arranquei ela dali, aí
arranquei um pouco mais para garantir, aí jorrou todo um emaranhado de fios,
m e r d a...
girei a chave, pisei no acelerador mas o motor PEGOU
e saí rodando com os fios pendentes derramados na minha perna
pensando
será que essas coisas acontecem com as outras
pessoas ou sou
eu justamente o escolhido?
decidi que era o segundo caso e entrei na autoestrada onde
um cara num fusca me cortou a frente e trancou minha
faixa
consequentemente eu costurei para passar o filho da puta e pisei até
120, 130, 140...
pensando, a coragem necessária para sair da cama toda
manhã
para encarar as mesmas coisas
outra e outra vez
era
enorme.
exaltação da liberdade eu acelerei até 135 (naturalmente, não sem antes ver no retrovisor
se havia presença dos nossos protetores de uniforme azul); aí senti e ouvi o CHOQUE de um objeto
duro contra o fundo do meu carro, mas querendo chegar a tempo ao hipódromo me convenci
a ignorá-lo (como se isso eliminasse o problema) muito embora eu começasse a sentir
o cheiro de gasolina.
conferi o medidor do tanque e o nível parecia estável...
já tinha sido uma semana terrível
mas, sabe como é, a derrota pode fortalecer assim como a vitória pode enfraquecer, e se
você tiver a devida sorte e a santa paciência os deuses até poderão conceder
a devida dose...
aí
o tráfego se congestionou e parou, e aí o cheiro de gasolina ficou forte pra valer e eu vi meu
medidor despencando rapidamente, aí meu rádio me informou que um homem 5 quilômetros adiante
no viaduto de Vernon estava sentado na grade de proteção e ameaçava
suicídio,
e assim me vi sob ameaça de ser mandado ao inferno numa explosão
com as pessoas me gritando que meu tanque estava rachado e vazando gasolina;
sim, eu assentia em resposta, eu sei, eu sei...
enquanto isso, enxotando carros com a mão e abrindo caminho rumo à faixa externa
pensando, eles estão mais aterrorizados do que eu:
se eu me ferrar, quem estiver perto é capaz de se ferrar também.
não havia o menor movimento no tráfego – o suicida ainda tentava se
decidir e o meu medidor de gasolina caiu no vermelho
e aí a necessidade de ser um cidadão exemplar e de esperar pela oportunidade
desapareceu e tratei de manobrar
por cima de um anteparo de cimento
entortando minha roda dianteira direita
consegui chegar à saída da autoestrada que estava totalmente
livre
aí rodei como deu até um posto de gasolina na Imperial Highway
estacionei
ainda pingando gasolina, saí, fui até o telefone, chamei um
guincho, não demorou nem um pouco, bela carona de volta com um camarada
negro que me contou histórias estranhas sobre motoristas em apuros...
(como certa mulher, suas mãos estavam grudadas no volante, levaram 15 minutos
conversando e forçando até fazê-la soltar.)
peguei o carro de volta uns dois dias depois, estava voltando do hipódromo,
pisei no freio e o pedal não descia, por sorte eu não estava na autoestrada
mesmo assim desliguei o motor, deslizei até o meio-fio, notei que a cobertura
da coluna de direção havia se soltado e bloqueado o freio, arranquei ela dali, aí
arranquei um pouco mais para garantir, aí jorrou todo um emaranhado de fios,
m e r d a...
girei a chave, pisei no acelerador mas o motor PEGOU
e saí rodando com os fios pendentes derramados na minha perna
pensando
será que essas coisas acontecem com as outras
pessoas ou sou
eu justamente o escolhido?
decidi que era o segundo caso e entrei na autoestrada onde
um cara num fusca me cortou a frente e trancou minha
faixa
consequentemente eu costurei para passar o filho da puta e pisei até
120, 130, 140...
pensando, a coragem necessária para sair da cama toda
manhã
para encarar as mesmas coisas
outra e outra vez
era
enorme.
1 118
Charles Bukowski
O Homem do Terno Marrom
porra, ele era pequeno
talvez 1 e 60,
60 quilos,
eu não gostava
dele,
ele ficava em sua mesa
lá no
banco
e enquanto eu esperava na fila
ele parecia ter um jeito
de olhar pra
mim
e eu encarava
de volta,
não sei o que
era
que causava a
animosidade.
ele tinha um bigodinho
que caía
nas pontas,
tinha uns quarenta e poucos anos
e como a maioria das pessoas que trabalhavam
em bancos
tinha uma personalidade
descompromissada mas
cheia de si.
um dia eu quase
pulei a grade
para lhe perguntar
que diabos
ele estava
olhando?
hoje entrei
e fiquei na fila
e o vi se afastar da
mesa.
uma das caixas estava
tendo problemas
com um homem
em seu
guichê
e o homem
do terno marrom
começou a trocar
ideia com os
dois.
de repente
o homem do terno marrom
saltou a
grade
parou atrás do outro
enlaçou seus braços
nos dele
então o arrastou
até uma passagem
com tranca
adiante na grade
esticou a mão
desenganchou a tranca
conseguindo mesmo assim
manter o homem
imobilizado.
então o arrastou
para dentro
trancou o
portão
e segurando ainda o
homem
disse para uma das
garotas
“Chame a
polícia”.
o homem que ele estava segurando era
negro, tinha uns 20 anos, uns bons 1 e 90,
talvez 85 quilos,
e eu pensei, ei,
cara, se solta, cadeia não é
brincadeira.
mas ele só ficou
ali
sendo
imobilizado.
saí antes que a
polícia
chegasse.
quando fui
de novo ao banco
o homem do terno marrom
estava atrás de sua
mesa.
e quando ele me lançou um
olhar
eu sorri só um
pouquinho.
talvez 1 e 60,
60 quilos,
eu não gostava
dele,
ele ficava em sua mesa
lá no
banco
e enquanto eu esperava na fila
ele parecia ter um jeito
de olhar pra
mim
e eu encarava
de volta,
não sei o que
era
que causava a
animosidade.
ele tinha um bigodinho
que caía
nas pontas,
tinha uns quarenta e poucos anos
e como a maioria das pessoas que trabalhavam
em bancos
tinha uma personalidade
descompromissada mas
cheia de si.
um dia eu quase
pulei a grade
para lhe perguntar
que diabos
ele estava
olhando?
hoje entrei
e fiquei na fila
e o vi se afastar da
mesa.
uma das caixas estava
tendo problemas
com um homem
em seu
guichê
e o homem
do terno marrom
começou a trocar
ideia com os
dois.
de repente
o homem do terno marrom
saltou a
grade
parou atrás do outro
enlaçou seus braços
nos dele
então o arrastou
até uma passagem
com tranca
adiante na grade
esticou a mão
desenganchou a tranca
conseguindo mesmo assim
manter o homem
imobilizado.
então o arrastou
para dentro
trancou o
portão
e segurando ainda o
homem
disse para uma das
garotas
“Chame a
polícia”.
o homem que ele estava segurando era
negro, tinha uns 20 anos, uns bons 1 e 90,
talvez 85 quilos,
e eu pensei, ei,
cara, se solta, cadeia não é
brincadeira.
mas ele só ficou
ali
sendo
imobilizado.
saí antes que a
polícia
chegasse.
quando fui
de novo ao banco
o homem do terno marrom
estava atrás de sua
mesa.
e quando ele me lançou um
olhar
eu sorri só um
pouquinho.
1 073
Charles Bukowski
Educação
naquela pequena mesa com tinteiro embutido
eu quebrava minha cabeça com as palavras
sing e sign.*
não sei por que
mas
sing e sign:
elas
me
incomodavam.
os outros prosseguiram e aprenderam
coisas novas
mas eu fiquei ali sentado
pensando sobre
sing e sign.
havia algo ali
que eu não conseguia
superar.
o que aquilo me deu foi uma
dor de barriga enquanto
eu olhava as nucas de todas aquelas
cabeças.
a professora tinha um
rosto muito feroz
ele convergia rispidamente até um
ponto
sob grossa camada de pó
branco.
certa tarde
ela pediu à minha mãe para vir
conversar
e eu me sentei com elas
na sala de aula
enquanto elas
conversavam.
“ele não está aprendendo
nada”, a professora
disse à minha
mãe.
“por favor dê uma chance
a ele, sra. Sims!”
“ele não está se esforçando, sra.
Chinaski!”
minha mãe começou a
chorar.
a sra. Sims ficou imóvel
encarando
a minha mãe.
aquilo durou alguns
minutos.
então a sra. Sims disse:
“bem, veremos o que
podemos fazer...”
depois eu estava andando com
a minha mãe
estávamos andando na
frente da escola,
havia bastante grama verde
e depois a
calçada.
“ah, Henry”, minha mãe disse,
“seu pai está tão desapontado com
você, eu não sei o que vamos
fazer!”
pai, minha mente dizia,
pai e pai e
pai.
palavras assim.
decidi não aprender nada
naquela
escola.
minha mãe caminhava
ao meu lado.
ela não era nada em
absoluto.
e eu tinha uma dor de barriga
e até mesmo as árvores sob as quais
caminhávamos
pareciam não ser exatamente
árvores
mas antes qualquer outra
coisa.
* Respectivamente “cantar” e “assinar”. (N.T.)
eu quebrava minha cabeça com as palavras
sing e sign.*
não sei por que
mas
sing e sign:
elas
me
incomodavam.
os outros prosseguiram e aprenderam
coisas novas
mas eu fiquei ali sentado
pensando sobre
sing e sign.
havia algo ali
que eu não conseguia
superar.
o que aquilo me deu foi uma
dor de barriga enquanto
eu olhava as nucas de todas aquelas
cabeças.
a professora tinha um
rosto muito feroz
ele convergia rispidamente até um
ponto
sob grossa camada de pó
branco.
certa tarde
ela pediu à minha mãe para vir
conversar
e eu me sentei com elas
na sala de aula
enquanto elas
conversavam.
“ele não está aprendendo
nada”, a professora
disse à minha
mãe.
“por favor dê uma chance
a ele, sra. Sims!”
“ele não está se esforçando, sra.
Chinaski!”
minha mãe começou a
chorar.
a sra. Sims ficou imóvel
encarando
a minha mãe.
aquilo durou alguns
minutos.
então a sra. Sims disse:
“bem, veremos o que
podemos fazer...”
depois eu estava andando com
a minha mãe
estávamos andando na
frente da escola,
havia bastante grama verde
e depois a
calçada.
“ah, Henry”, minha mãe disse,
“seu pai está tão desapontado com
você, eu não sei o que vamos
fazer!”
pai, minha mente dizia,
pai e pai e
pai.
palavras assim.
decidi não aprender nada
naquela
escola.
minha mãe caminhava
ao meu lado.
ela não era nada em
absoluto.
e eu tinha uma dor de barriga
e até mesmo as árvores sob as quais
caminhávamos
pareciam não ser exatamente
árvores
mas antes qualquer outra
coisa.
* Respectivamente “cantar” e “assinar”. (N.T.)
1 366
Charles Bukowski
A Única Vida
eu era como um daqueles doidos dos séculos passados, eu era
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.
ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.
ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.
ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.
ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
1 022
Charles Bukowski
A Única Vida
eu era como um daqueles doidos dos séculos passados, eu era
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.
ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.
ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.
ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.
ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
1 022
Charles Bukowski
55 Camas Na Mesma Direção
essas meias-noites brilhantes
cobras de gabardine passando através
de paredes, sons
interrompidos por batidas de carros de bêbados em
carros de dez anos de idade
você sabe que sujou de novo e depois
de novo
é nessas meias-noites brilhantes
em meio à luta contra mariposas e minúsculos
mosquitos,
sua mulher atrás de você
se retorcendo nos cobertores
pensando que você não a ama mais;
não é verdade, claro,
mas as paredes são familiares e
já gostei de paredes
já louvei paredes:
me dá uma parede que eu te dou um caminho –
isso é tudo o que pedi em
troca. mas acho que eu queria dizer:
eu te dou o meu
caminho.
é muito difícil escrever um
soneto enquanto você dorme num albergue noturno com
55 homens roncando
em 55 camas todas elas apontadas na mesma direção.
vou contar o que eu pensava:
esses homens perderam tanto a chance quanto a
imaginação.
dá pra descobrir tanto sobre os homens pelo
modo como eles roncam quanto pelo modo como eles
andam, mas por outro lado
nunca fui grande coisa nos sonetos.
mas outrora eu achava que encontraria todos os grandes homens na
rua da amargura,
outrora eu achava que encontraria grandes homens por lá
homens fortes que haviam descartado a sociedade,
em vez disso encontrei homens que a sociedade havia
consumido.
eles eram embotados
ineptos e
ainda
ambiciosos.
os chefes me pareceram mais
interessantes e mais vivos dos que os
escravos.
e isso não era muito romântico. costumamos gostar mais de coisas
românticas.
55 camas apontadas na mesma
direção e
eu não conseguia dormir
minhas costas doíam
e havia uma sensação invariável na minha
testa como um pedaço de
chapa de metal.
realmente não era muito terrível mas de certo modo
era muito impossível.
e eu pensei,
todos esses corpos e todos esses dedos nos pés e todas
essas unhas e todos esses pelos nos
cus e todo esse fedor
imaculada e aceita malhação das
coisas,
não podemos fazer algo a respeito?
sem chance, veio a resposta, eles não
querem.
então, olhando tudo em volta
todas aquelas 55 camas apontadas na mesma
direção
eu pensei,
todos esses homens foram bebês um dia
todos esses homens foram fofinhos e
rosados (com exceção dos pretos e dos amarelos
e dos vermelhos e dos outros).
eles choravam e sentiam,
tinham um caminho.
agora viraram
sofisticados e
fleumáticos
indesejados.
eu
saí.
eu me meti entre 4 paredes
sozinho.
eu me dei uma brilhante
meia-noite. outras meias-noites brilhantes
chegaram. não era tão
difícil.
mas se eles tivessem estado lá:
(aqueles homens) eu teria ficado lá com
eles.
se isso puder poupar você dos mesmos anos de erro
permita-me:
o segredo está nas paredes
ouvir um pequeno rádio
enrolar cigarros
beber
café
cerveja
água
suco de uva
uma lâmpada ardendo perto de você
tudo vem de arrasto –
os nomes
a história
um fluxo um fluxo
o olhar da psique de cima pra baixo
o efeito zunidor
a queima de macacos.
as brilhantes paredes da meia-noite:
não há como parar nem mesmo quando sua cabeça rola
embaixo da cama e o gato enterra
as fezes.
cobras de gabardine passando através
de paredes, sons
interrompidos por batidas de carros de bêbados em
carros de dez anos de idade
você sabe que sujou de novo e depois
de novo
é nessas meias-noites brilhantes
em meio à luta contra mariposas e minúsculos
mosquitos,
sua mulher atrás de você
se retorcendo nos cobertores
pensando que você não a ama mais;
não é verdade, claro,
mas as paredes são familiares e
já gostei de paredes
já louvei paredes:
me dá uma parede que eu te dou um caminho –
isso é tudo o que pedi em
troca. mas acho que eu queria dizer:
eu te dou o meu
caminho.
é muito difícil escrever um
soneto enquanto você dorme num albergue noturno com
55 homens roncando
em 55 camas todas elas apontadas na mesma direção.
vou contar o que eu pensava:
esses homens perderam tanto a chance quanto a
imaginação.
dá pra descobrir tanto sobre os homens pelo
modo como eles roncam quanto pelo modo como eles
andam, mas por outro lado
nunca fui grande coisa nos sonetos.
mas outrora eu achava que encontraria todos os grandes homens na
rua da amargura,
outrora eu achava que encontraria grandes homens por lá
homens fortes que haviam descartado a sociedade,
em vez disso encontrei homens que a sociedade havia
consumido.
eles eram embotados
ineptos e
ainda
ambiciosos.
os chefes me pareceram mais
interessantes e mais vivos dos que os
escravos.
e isso não era muito romântico. costumamos gostar mais de coisas
românticas.
55 camas apontadas na mesma
direção e
eu não conseguia dormir
minhas costas doíam
e havia uma sensação invariável na minha
testa como um pedaço de
chapa de metal.
realmente não era muito terrível mas de certo modo
era muito impossível.
e eu pensei,
todos esses corpos e todos esses dedos nos pés e todas
essas unhas e todos esses pelos nos
cus e todo esse fedor
imaculada e aceita malhação das
coisas,
não podemos fazer algo a respeito?
sem chance, veio a resposta, eles não
querem.
então, olhando tudo em volta
todas aquelas 55 camas apontadas na mesma
direção
eu pensei,
todos esses homens foram bebês um dia
todos esses homens foram fofinhos e
rosados (com exceção dos pretos e dos amarelos
e dos vermelhos e dos outros).
eles choravam e sentiam,
tinham um caminho.
agora viraram
sofisticados e
fleumáticos
indesejados.
eu
saí.
eu me meti entre 4 paredes
sozinho.
eu me dei uma brilhante
meia-noite. outras meias-noites brilhantes
chegaram. não era tão
difícil.
mas se eles tivessem estado lá:
(aqueles homens) eu teria ficado lá com
eles.
se isso puder poupar você dos mesmos anos de erro
permita-me:
o segredo está nas paredes
ouvir um pequeno rádio
enrolar cigarros
beber
café
cerveja
água
suco de uva
uma lâmpada ardendo perto de você
tudo vem de arrasto –
os nomes
a história
um fluxo um fluxo
o olhar da psique de cima pra baixo
o efeito zunidor
a queima de macacos.
as brilhantes paredes da meia-noite:
não há como parar nem mesmo quando sua cabeça rola
embaixo da cama e o gato enterra
as fezes.
698
Charles Bukowski
29 Uvas Geladas
o processo de aprender é tortuoso
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
654
Charles Bukowski
29 Uvas Geladas
o processo de aprender é tortuoso
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
654
Charles Bukowski
Língua Cortada
ele mora nos fundos e aparece na minha porta
carregando a espingarda numa das mãos.
“escuta”, ele diz, “tinha um cara sentado
no seu sofá na varanda enquanto você estava
fora. agindo estranho. perguntei o que ele
queria, ele disse que queria falar com você.
falei que você não estava. você conhece um
negro alto chamado ‘Dave’?”
“não conheço ninguém assim...”
“vi esse cara na rua depois e
perguntei o que ele estava fazendo na vizi-
nhança.”
“não conheço nenhum negro alto chamado ‘Dave’.”
“andei vigiando sua casa. botei pra correr um par
daqueles alemães. você não quer saber de alemão nenhum,
quer?”
“não, Max, não gosto de alemães, franceses e sobretudo
não gosto de ingleses. os mexicanos e os gregos são
ok mas tem algo que me desagrada na expressão que eles têm no
rosto.”
“tem aparecido mais alemães do que qualquer outro tipo.”
“bota pra correr...”
“tá bom, pode deixar... quando você viaja de novo?”
“amanhã.”
“amanhã...?”
“amanhã, sim, e se você encontrar um filho da puta sentado no
meu sofá da varanda, pode estourar a porra da cabeça dele...”
“tá bom, pode deixar...”
“obrigado, Max...”
“sem problema...”
ele volta para o pátio dele nos fundos com sua
espingarda e
entra.
“meu deus”, diz Linda Lee, “sabe o que você
fez?”
“sim”, eu digo.
“ele acredita em você. quando a gente voltar vai ter
um cadáver na varanda.”
“tudo bem...”
“você não lembra quando eu tirei meu dia de silêncio?
você disse pra ele que tinha cortado minha língua... e ele
levou a sério...”
“Max é o único amigão de verdade que eu
tenho...”
“você é um cúmplice...”
“não gosto de caras não convidados sentados no meu sofá
da varanda esperando por mim...”
“digamos que seja um poeta, um cara que admira a sua
obra?”
“como eu disse, ‘Max é o único amigão de verdade que eu tenho.’
vamos fazer as malas...”
“o que houve com meu vestido verde?”,
ela pergunta.
carregando a espingarda numa das mãos.
“escuta”, ele diz, “tinha um cara sentado
no seu sofá na varanda enquanto você estava
fora. agindo estranho. perguntei o que ele
queria, ele disse que queria falar com você.
falei que você não estava. você conhece um
negro alto chamado ‘Dave’?”
“não conheço ninguém assim...”
“vi esse cara na rua depois e
perguntei o que ele estava fazendo na vizi-
nhança.”
“não conheço nenhum negro alto chamado ‘Dave’.”
“andei vigiando sua casa. botei pra correr um par
daqueles alemães. você não quer saber de alemão nenhum,
quer?”
“não, Max, não gosto de alemães, franceses e sobretudo
não gosto de ingleses. os mexicanos e os gregos são
ok mas tem algo que me desagrada na expressão que eles têm no
rosto.”
“tem aparecido mais alemães do que qualquer outro tipo.”
“bota pra correr...”
“tá bom, pode deixar... quando você viaja de novo?”
“amanhã.”
“amanhã...?”
“amanhã, sim, e se você encontrar um filho da puta sentado no
meu sofá da varanda, pode estourar a porra da cabeça dele...”
“tá bom, pode deixar...”
“obrigado, Max...”
“sem problema...”
ele volta para o pátio dele nos fundos com sua
espingarda e
entra.
“meu deus”, diz Linda Lee, “sabe o que você
fez?”
“sim”, eu digo.
“ele acredita em você. quando a gente voltar vai ter
um cadáver na varanda.”
“tudo bem...”
“você não lembra quando eu tirei meu dia de silêncio?
você disse pra ele que tinha cortado minha língua... e ele
levou a sério...”
“Max é o único amigão de verdade que eu
tenho...”
“você é um cúmplice...”
“não gosto de caras não convidados sentados no meu sofá
da varanda esperando por mim...”
“digamos que seja um poeta, um cara que admira a sua
obra?”
“como eu disse, ‘Max é o único amigão de verdade que eu tenho.’
vamos fazer as malas...”
“o que houve com meu vestido verde?”,
ela pergunta.
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