Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Manuel Bandeira
Elegia de Agosto
Não os decepcionarei.
Jânio Quadros, São Paulo, 6.X.60
A nação elegeu-o seu Presidente
Certa de que ele jamais a decepcionaria.
De fato,
Durante seis meses,
O eleito governou com honestidade,
Com desvelo,
Com bravura.
Mas um dia,
De repente,
Lhe deu a louca
E ele renunciou.
Renunciou sem ouvir ninguém.
Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos.
Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Explicou: "Não nasci presidente.
Nasci com a minha consciência.
Quero ficar em paz com a minha consciência."
Agora vai viajar.
Vai viajar longamente no exterior.
Está em paz com a sua consciência.
Ouviram bem?
ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA
E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Jânio Quadros, São Paulo, 6.X.60
A nação elegeu-o seu Presidente
Certa de que ele jamais a decepcionaria.
De fato,
Durante seis meses,
O eleito governou com honestidade,
Com desvelo,
Com bravura.
Mas um dia,
De repente,
Lhe deu a louca
E ele renunciou.
Renunciou sem ouvir ninguém.
Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos.
Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Explicou: "Não nasci presidente.
Nasci com a minha consciência.
Quero ficar em paz com a minha consciência."
Agora vai viajar.
Vai viajar longamente no exterior.
Está em paz com a sua consciência.
Ouviram bem?
ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA
E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
935
Manuel Bandeira
Elegia de Agosto
Não os decepcionarei.
Jânio Quadros, São Paulo, 6.X.60
A nação elegeu-o seu Presidente
Certa de que ele jamais a decepcionaria.
De fato,
Durante seis meses,
O eleito governou com honestidade,
Com desvelo,
Com bravura.
Mas um dia,
De repente,
Lhe deu a louca
E ele renunciou.
Renunciou sem ouvir ninguém.
Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos.
Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Explicou: "Não nasci presidente.
Nasci com a minha consciência.
Quero ficar em paz com a minha consciência."
Agora vai viajar.
Vai viajar longamente no exterior.
Está em paz com a sua consciência.
Ouviram bem?
ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA
E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Jânio Quadros, São Paulo, 6.X.60
A nação elegeu-o seu Presidente
Certa de que ele jamais a decepcionaria.
De fato,
Durante seis meses,
O eleito governou com honestidade,
Com desvelo,
Com bravura.
Mas um dia,
De repente,
Lhe deu a louca
E ele renunciou.
Renunciou sem ouvir ninguém.
Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos.
Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Explicou: "Não nasci presidente.
Nasci com a minha consciência.
Quero ficar em paz com a minha consciência."
Agora vai viajar.
Vai viajar longamente no exterior.
Está em paz com a sua consciência.
Ouviram bem?
ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA
E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
935
Manuel Bandeira
Elegia de Agosto
Não os decepcionarei.
Jânio Quadros, São Paulo, 6.X.60
A nação elegeu-o seu Presidente
Certa de que ele jamais a decepcionaria.
De fato,
Durante seis meses,
O eleito governou com honestidade,
Com desvelo,
Com bravura.
Mas um dia,
De repente,
Lhe deu a louca
E ele renunciou.
Renunciou sem ouvir ninguém.
Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos.
Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Explicou: "Não nasci presidente.
Nasci com a minha consciência.
Quero ficar em paz com a minha consciência."
Agora vai viajar.
Vai viajar longamente no exterior.
Está em paz com a sua consciência.
Ouviram bem?
ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA
E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Jânio Quadros, São Paulo, 6.X.60
A nação elegeu-o seu Presidente
Certa de que ele jamais a decepcionaria.
De fato,
Durante seis meses,
O eleito governou com honestidade,
Com desvelo,
Com bravura.
Mas um dia,
De repente,
Lhe deu a louca
E ele renunciou.
Renunciou sem ouvir ninguém.
Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos.
Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Explicou: "Não nasci presidente.
Nasci com a minha consciência.
Quero ficar em paz com a minha consciência."
Agora vai viajar.
Vai viajar longamente no exterior.
Está em paz com a sua consciência.
Ouviram bem?
ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA
E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
935
Manuel Bandeira
Balada de Santa Maria Egipcíaca
Santa Maria Egipcíaca seguia
Em peregrinação à terra do Senhor.
Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir...
Santa Maria Egipcíaca chegou
À beira de um grande rio.
Era tão longe a outra margem!
E estava junto à ribanceira,
Num barco,
Um homem de olhar duro.
Santa Maria Egipcíaca rogou:
— Leva-me à outra parte do rio.
Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
O homem duro fitou-a sem dó.
Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir...
— Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
Leva-me à outra parte.
O homem duro escarneceu: — Não tens dinheiro,
Mulher, mas tens teu corpo. Dá-me o teu corpo, e vou levar-te.
E fez um gesto. E a santa sorriu,
Na graça divina, ao gesto que ele fez.
Santa Maria Egipcíaca despiu
O manto, e entregou ao barqueiro
A santidade da sua nudez.
Em peregrinação à terra do Senhor.
Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir...
Santa Maria Egipcíaca chegou
À beira de um grande rio.
Era tão longe a outra margem!
E estava junto à ribanceira,
Num barco,
Um homem de olhar duro.
Santa Maria Egipcíaca rogou:
— Leva-me à outra parte do rio.
Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
O homem duro fitou-a sem dó.
Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir...
— Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
Leva-me à outra parte.
O homem duro escarneceu: — Não tens dinheiro,
Mulher, mas tens teu corpo. Dá-me o teu corpo, e vou levar-te.
E fez um gesto. E a santa sorriu,
Na graça divina, ao gesto que ele fez.
Santa Maria Egipcíaca despiu
O manto, e entregou ao barqueiro
A santidade da sua nudez.
1 993
Manuel Bandeira
Saudades do Rio Antigo
Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá o rei não será deposto
E lá sou amigo do rei.
Aqui eu não sou feliz
A vida está cada vez
Mais cara, e a menor besteira
Nos custa os olhos da cara.
O trânsito é uma miséria:
Sair a pé pelas ruas
Desta capital cidade
É quase temeridade.
E eu não tenho cadilac
Para em vez de atropelado,
Atropelar sem piedade
Meus pedestres semelhantes.
Oh! que saudade que eu tenho
Do Rio como era dantes!
O Rio que tinha apenas
Quinhentos mil habitantes.
O Rio que conheci
Quando vim prá cá menino:
Meu velho Rio gostoso,
Cujos dias revivi
Lendo deliciadamente
O livro de Coaraci.
Cidade onde, rico ou pobre
Dava gosto se viver.
Hoje ninguém está contente.
Hoje, meu Deus, todo mundo
Traz na boca a cinza amarga
Da frustração... Minha gente,
Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá o rei não será deposto
E lá sou amigo do rei.
Aqui eu não sou feliz
A vida está cada vez
Mais cara, e a menor besteira
Nos custa os olhos da cara.
O trânsito é uma miséria:
Sair a pé pelas ruas
Desta capital cidade
É quase temeridade.
E eu não tenho cadilac
Para em vez de atropelado,
Atropelar sem piedade
Meus pedestres semelhantes.
Oh! que saudade que eu tenho
Do Rio como era dantes!
O Rio que tinha apenas
Quinhentos mil habitantes.
O Rio que conheci
Quando vim prá cá menino:
Meu velho Rio gostoso,
Cujos dias revivi
Lendo deliciadamente
O livro de Coaraci.
Cidade onde, rico ou pobre
Dava gosto se viver.
Hoje ninguém está contente.
Hoje, meu Deus, todo mundo
Traz na boca a cinza amarga
Da frustração... Minha gente,
Vou-me embora pra Pasárgada.
1 237
Manuel Bandeira
Saudades do Rio Antigo
Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá o rei não será deposto
E lá sou amigo do rei.
Aqui eu não sou feliz
A vida está cada vez
Mais cara, e a menor besteira
Nos custa os olhos da cara.
O trânsito é uma miséria:
Sair a pé pelas ruas
Desta capital cidade
É quase temeridade.
E eu não tenho cadilac
Para em vez de atropelado,
Atropelar sem piedade
Meus pedestres semelhantes.
Oh! que saudade que eu tenho
Do Rio como era dantes!
O Rio que tinha apenas
Quinhentos mil habitantes.
O Rio que conheci
Quando vim prá cá menino:
Meu velho Rio gostoso,
Cujos dias revivi
Lendo deliciadamente
O livro de Coaraci.
Cidade onde, rico ou pobre
Dava gosto se viver.
Hoje ninguém está contente.
Hoje, meu Deus, todo mundo
Traz na boca a cinza amarga
Da frustração... Minha gente,
Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá o rei não será deposto
E lá sou amigo do rei.
Aqui eu não sou feliz
A vida está cada vez
Mais cara, e a menor besteira
Nos custa os olhos da cara.
O trânsito é uma miséria:
Sair a pé pelas ruas
Desta capital cidade
É quase temeridade.
E eu não tenho cadilac
Para em vez de atropelado,
Atropelar sem piedade
Meus pedestres semelhantes.
Oh! que saudade que eu tenho
Do Rio como era dantes!
O Rio que tinha apenas
Quinhentos mil habitantes.
O Rio que conheci
Quando vim prá cá menino:
Meu velho Rio gostoso,
Cujos dias revivi
Lendo deliciadamente
O livro de Coaraci.
Cidade onde, rico ou pobre
Dava gosto se viver.
Hoje ninguém está contente.
Hoje, meu Deus, todo mundo
Traz na boca a cinza amarga
Da frustração... Minha gente,
Vou-me embora pra Pasárgada.
1 237
Manuel Bandeira
Portugal, Meu Avozinho
Como foi que temperaste,
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?
Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
— Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?
Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho.
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!
Tu de um lado, e do outro lado
Nós... No meio o mar profundo...
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.
Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes...
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!
Ai, Portugal, de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?
Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
— Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?
Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho.
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!
Tu de um lado, e do outro lado
Nós... No meio o mar profundo...
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.
Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes...
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!
Ai, Portugal, de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!
1 904
Manuel Bandeira
Portugal, Meu Avozinho
Como foi que temperaste,
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?
Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
— Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?
Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho.
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!
Tu de um lado, e do outro lado
Nós... No meio o mar profundo...
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.
Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes...
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!
Ai, Portugal, de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?
Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
— Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?
Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho.
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!
Tu de um lado, e do outro lado
Nós... No meio o mar profundo...
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.
Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes...
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!
Ai, Portugal, de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!
1 904
Manuel Bandeira
Cantiga de Amor
Mulheres neste mundo de meu Deus
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
1 228
Manuel Bandeira
À Maneira de Alberto de Oliveira
Esse que em moço ao Velho Continente
Entrou de rosto erguido e descoberto,
E ascendeu em balão e, mão tenente,
Foi quem primeiro o sol viu mais de perto;
Águia da Torre Eiffel, da Itu contente
Rebento mais ilustre e mais diserto,
Ê o florão que nos falta (e não no tente
Glória maior), Santos Dumont Alberto!
Ah que antes de morrer, como soldado
Que mal-ferido da refrega a poeira
Beija do chão natal, me fora dado
Vê-lo (tal Febo esplende e é luz e é dia)
Na que chamais de Letras Brasileira,
Ou melhor nome tenha, Academia.
Entrou de rosto erguido e descoberto,
E ascendeu em balão e, mão tenente,
Foi quem primeiro o sol viu mais de perto;
Águia da Torre Eiffel, da Itu contente
Rebento mais ilustre e mais diserto,
Ê o florão que nos falta (e não no tente
Glória maior), Santos Dumont Alberto!
Ah que antes de morrer, como soldado
Que mal-ferido da refrega a poeira
Beija do chão natal, me fora dado
Vê-lo (tal Febo esplende e é luz e é dia)
Na que chamais de Letras Brasileira,
Ou melhor nome tenha, Academia.
1 127
Manuel Bandeira
O Obelisco
Um obelisco monolítico é a verdade nua em praça pública. A nudez dos obeliscos é mais inteira, mais estreme, mais escorreita, mais franca, mais sincera, mais lisa, mais pura, mais ingênua do que a da mulher mais bem feita.
Ingênua como a de Susana surpreendida pelos juízes.
Pura como a de Santa Maria Egipcíaca despindo-se para o barqueiro.
Todo obelisco é uma lição de verticalidade física e moral, de retidão, de ascetismo.
Homem que não suportas a solidão (grande fraqueza!)
Aprende com os obeliscos a ser só.
Os egípcios erguiam obeliscos à entrada de seus templos, de seus túmulos, e neles gravavam apenas
Discretamente,
O nome do rei construtor ou do deus referenciado.
O obelisco aponta aos mortais as coisas mais altas: o céu, a lua, o sol, as estrelas — Deus.
O obelisco da Avenida Rio Branco não veio do Egito como o que está na Praça da Concórdia em Paris:
Nem por isso merece menos respeito.
Obelisco não é mourão em que se amarram cavalos.
Não é manequim para camisolas de anúncio.
Não é andaime para farandulagens de carnaval.
(Já o fantasiaram de baiana, oh afronta!
Já lhe quebraram o ápice de agulha,
Já o chamuscaram de alto a baixo.)
Que o obelisco esteja sempre nu e limpo, apontando as coisas mais altas — o céu, a lua, o sol e as estrelas.
Ingênua como a de Susana surpreendida pelos juízes.
Pura como a de Santa Maria Egipcíaca despindo-se para o barqueiro.
Todo obelisco é uma lição de verticalidade física e moral, de retidão, de ascetismo.
Homem que não suportas a solidão (grande fraqueza!)
Aprende com os obeliscos a ser só.
Os egípcios erguiam obeliscos à entrada de seus templos, de seus túmulos, e neles gravavam apenas
Discretamente,
O nome do rei construtor ou do deus referenciado.
O obelisco aponta aos mortais as coisas mais altas: o céu, a lua, o sol, as estrelas — Deus.
O obelisco da Avenida Rio Branco não veio do Egito como o que está na Praça da Concórdia em Paris:
Nem por isso merece menos respeito.
Obelisco não é mourão em que se amarram cavalos.
Não é manequim para camisolas de anúncio.
Não é andaime para farandulagens de carnaval.
(Já o fantasiaram de baiana, oh afronta!
Já lhe quebraram o ápice de agulha,
Já o chamuscaram de alto a baixo.)
Que o obelisco esteja sempre nu e limpo, apontando as coisas mais altas — o céu, a lua, o sol e as estrelas.
1 288
Manuel Bandeira
Improviso
Glória aos poetas de Portugal.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garrett, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
— Glória a Teixeira de Pascoais.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garrett, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
— Glória a Teixeira de Pascoais.
1 357
Manuel Bandeira
Improviso
Glória aos poetas de Portugal.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garrett, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
— Glória a Teixeira de Pascoais.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garrett, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
— Glória a Teixeira de Pascoais.
1 357
Manuel Bandeira
Elegia Inútil
Lágrimas, duas a duas,
choraram dentro de mim,
ao ler que o Prefeito Alvim
mudou o nome de muitas ruas.
Nomes de ruas que havia
no Rio de antigamente!
(A respeito, minha gente,
ainda há a Rua da Alegria?)
Eram tão lindos! Assim:
Rua Bela da Princesa
(que distinção, que beleza!
nome que cheira a jardim).
Rua Direita da Sé:
nome firme, nome nobre;
nome em que nada há que dobre;
nome-afirmação de fé!
Havia as ruas de ofício:
Dos Ourives, dos Latoeiros...
Becos: Beco dos Ferreiros...
E havia as ruas do vício...
Muito nome foi mudado,
mas o novo não pegou:
nunca ninguém não falou
senão Largo do Machado.
(Este nome pode ser,
quando muito, acrescentado,
assim, Largo do Machado
de Assis gosto de dizer.
Na do Catete, contou-me
Z.., o mestre escreveu Brás Cubas.
Darás na casa se subas
pela rua do seu nome.)
Esta Rua do Ouvidor
já foi Caminho do Mar!
(Ouvidor pode passar,
mas o antigo era melhor.)
Não tens laranjas, mas cheiras
aos frutos da minha infância:
ah inesquecível fragrância
da que ainda és das Laranjeiras!
O Largo da Mãe do Bispo
há muito tempo acabou-se.
(E hoje acabou o que era doce
ainda: a Rua do Bispo...)
Vais ter um nome pequeno,
Rua do Jogo da Bola!
Vais ter um nome pachola,
ai Travessa do Sereno!
choraram dentro de mim,
ao ler que o Prefeito Alvim
mudou o nome de muitas ruas.
Nomes de ruas que havia
no Rio de antigamente!
(A respeito, minha gente,
ainda há a Rua da Alegria?)
Eram tão lindos! Assim:
Rua Bela da Princesa
(que distinção, que beleza!
nome que cheira a jardim).
Rua Direita da Sé:
nome firme, nome nobre;
nome em que nada há que dobre;
nome-afirmação de fé!
Havia as ruas de ofício:
Dos Ourives, dos Latoeiros...
Becos: Beco dos Ferreiros...
E havia as ruas do vício...
Muito nome foi mudado,
mas o novo não pegou:
nunca ninguém não falou
senão Largo do Machado.
(Este nome pode ser,
quando muito, acrescentado,
assim, Largo do Machado
de Assis gosto de dizer.
Na do Catete, contou-me
Z.., o mestre escreveu Brás Cubas.
Darás na casa se subas
pela rua do seu nome.)
Esta Rua do Ouvidor
já foi Caminho do Mar!
(Ouvidor pode passar,
mas o antigo era melhor.)
Não tens laranjas, mas cheiras
aos frutos da minha infância:
ah inesquecível fragrância
da que ainda és das Laranjeiras!
O Largo da Mãe do Bispo
há muito tempo acabou-se.
(E hoje acabou o que era doce
ainda: a Rua do Bispo...)
Vais ter um nome pequeno,
Rua do Jogo da Bola!
Vais ter um nome pachola,
ai Travessa do Sereno!
1 239
Manuel Bandeira
Craveiro, Dá-me Uma Rosa
Craveiro, dá-me uma rosa!
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!
Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!
Não cravo de Juscelino,
Nem de nenhum general!
Não cravo (se há lá já cravos!)
Da futura capital.
Mando o puro cravo branco
Da pátria não oficial:
Cravo de amor, — sem política,
Só de amor, meu General.
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!
Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!
Não cravo de Juscelino,
Nem de nenhum general!
Não cravo (se há lá já cravos!)
Da futura capital.
Mando o puro cravo branco
Da pátria não oficial:
Cravo de amor, — sem política,
Só de amor, meu General.
1 441
Manuel Bandeira
Craveiro, Dá-me Uma Rosa
Craveiro, dá-me uma rosa!
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!
Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!
Não cravo de Juscelino,
Nem de nenhum general!
Não cravo (se há lá já cravos!)
Da futura capital.
Mando o puro cravo branco
Da pátria não oficial:
Cravo de amor, — sem política,
Só de amor, meu General.
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!
Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!
Não cravo de Juscelino,
Nem de nenhum general!
Não cravo (se há lá já cravos!)
Da futura capital.
Mando o puro cravo branco
Da pátria não oficial:
Cravo de amor, — sem política,
Só de amor, meu General.
1 441
Manuel Bandeira
Embolada do Brigadeiro
— Não voto no militar; voto no homem escandaloso.
— Ué, compadre, quem é o homem escandoloso?
— O Brigadeiro.
— Escandaloso?
— Escandaloso.
— Escandaloso por quê?
— Ora, ouça lá o meu corrido:
Homem mesmo escandaloso,
Pois não mata,
Pois não furta,
Pois não mente,
Não engana, nem intriga,
Tem preceito, tem ensino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não tem mancha,
Não tem medo,
Quem não sente?
Brigadeiro da fiúza,
Sem agacho, sem empino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não é bruto,
Ambicioso,
Maldizente,
Nunca diz um disparate,
Nunca faz um desatino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não zunzuna
Nem não fala
Atoamente:
Será nosso Presidente,
Estava no seu destino
Desde que ele era tenente,
Desde que ele era menino!
— Tem razão, compadre, vamos votar nele.
— Ué, compadre, quem é o homem escandoloso?
— O Brigadeiro.
— Escandaloso?
— Escandaloso.
— Escandaloso por quê?
— Ora, ouça lá o meu corrido:
Homem mesmo escandaloso,
Pois não mata,
Pois não furta,
Pois não mente,
Não engana, nem intriga,
Tem preceito, tem ensino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não tem mancha,
Não tem medo,
Quem não sente?
Brigadeiro da fiúza,
Sem agacho, sem empino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não é bruto,
Ambicioso,
Maldizente,
Nunca diz um disparate,
Nunca faz um desatino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não zunzuna
Nem não fala
Atoamente:
Será nosso Presidente,
Estava no seu destino
Desde que ele era tenente,
Desde que ele era menino!
— Tem razão, compadre, vamos votar nele.
1 186
Manuel Bandeira
Embolada do Brigadeiro
— Não voto no militar; voto no homem escandaloso.
— Ué, compadre, quem é o homem escandoloso?
— O Brigadeiro.
— Escandaloso?
— Escandaloso.
— Escandaloso por quê?
— Ora, ouça lá o meu corrido:
Homem mesmo escandaloso,
Pois não mata,
Pois não furta,
Pois não mente,
Não engana, nem intriga,
Tem preceito, tem ensino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não tem mancha,
Não tem medo,
Quem não sente?
Brigadeiro da fiúza,
Sem agacho, sem empino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não é bruto,
Ambicioso,
Maldizente,
Nunca diz um disparate,
Nunca faz um desatino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não zunzuna
Nem não fala
Atoamente:
Será nosso Presidente,
Estava no seu destino
Desde que ele era tenente,
Desde que ele era menino!
— Tem razão, compadre, vamos votar nele.
— Ué, compadre, quem é o homem escandoloso?
— O Brigadeiro.
— Escandaloso?
— Escandaloso.
— Escandaloso por quê?
— Ora, ouça lá o meu corrido:
Homem mesmo escandaloso,
Pois não mata,
Pois não furta,
Pois não mente,
Não engana, nem intriga,
Tem preceito, tem ensino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não tem mancha,
Não tem medo,
Quem não sente?
Brigadeiro da fiúza,
Sem agacho, sem empino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não é bruto,
Ambicioso,
Maldizente,
Nunca diz um disparate,
Nunca faz um desatino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não zunzuna
Nem não fala
Atoamente:
Será nosso Presidente,
Estava no seu destino
Desde que ele era tenente,
Desde que ele era menino!
— Tem razão, compadre, vamos votar nele.
1 186
Manuel Bandeira
Rondó do Atribulado do Tribobó
No vale do Tribobó
Tinha uma casa bonita
Com varanda por dois lados
Várias cadeiras de lona
Redes rangendo gostosas
E dentro pelas paredes
Uns quadrinhos mozarlescos
Como os cocôs de Clarinha...
Mas era um calor danado!
Lá fora em frente da casa
Tinha um bosque muito agradável
Todo de madeira de lei
— Cedros jacarandás paus-d'arco —
Debaixo de cuja sombra
Era bom ficar fumando
Embalançando nas redes
Contando bobagens...
Mas era um calor danado!
Dentro de casa o conforto não deixava nada a desejar:
Luz elétrica gelo instalações sanitárias completas
Água quente de serpentina a qualquer hora do dia
Comida ótima
A mulher do homem que estava passando uns tempos no sítio era uma senhora distintíssima.
Tinha três filhos: Rodrigo Luís que quando se referia aos planetas dizia o Vênus, o Mártir, etc. Joaquim Pedro bonitinho pra burro mas muito encabulado; e Clarinha a mesma de cujos cocôs já falei atrás.
Os meninos viviam de espingardas caçando tatuíras
O atribulado achava tudo isso delicioso familiar bucólico repousante...
Mas era um calor danado!
Na véspera da partida
Faltou água, vejam só!
Foi um pânico tremendo
No sítio do Tribobó.
O atribulado desceu
Sacudido num fordeco
Pra Maria Paula Baldeadouro Cova da Onça Fonseca Niterói
E embarafustou numa barca
Onde por cúmulo do azar
Surgiu o Martins Errado!
(Não havia possibilidade de evasão
Nascer de novo não adiantava
Todas as agências postais estavam fechadas
Fazia um calor danado!)
Tinha uma casa bonita
Com varanda por dois lados
Várias cadeiras de lona
Redes rangendo gostosas
E dentro pelas paredes
Uns quadrinhos mozarlescos
Como os cocôs de Clarinha...
Mas era um calor danado!
Lá fora em frente da casa
Tinha um bosque muito agradável
Todo de madeira de lei
— Cedros jacarandás paus-d'arco —
Debaixo de cuja sombra
Era bom ficar fumando
Embalançando nas redes
Contando bobagens...
Mas era um calor danado!
Dentro de casa o conforto não deixava nada a desejar:
Luz elétrica gelo instalações sanitárias completas
Água quente de serpentina a qualquer hora do dia
Comida ótima
A mulher do homem que estava passando uns tempos no sítio era uma senhora distintíssima.
Tinha três filhos: Rodrigo Luís que quando se referia aos planetas dizia o Vênus, o Mártir, etc. Joaquim Pedro bonitinho pra burro mas muito encabulado; e Clarinha a mesma de cujos cocôs já falei atrás.
Os meninos viviam de espingardas caçando tatuíras
O atribulado achava tudo isso delicioso familiar bucólico repousante...
Mas era um calor danado!
Na véspera da partida
Faltou água, vejam só!
Foi um pânico tremendo
No sítio do Tribobó.
O atribulado desceu
Sacudido num fordeco
Pra Maria Paula Baldeadouro Cova da Onça Fonseca Niterói
E embarafustou numa barca
Onde por cúmulo do azar
Surgiu o Martins Errado!
(Não havia possibilidade de evasão
Nascer de novo não adiantava
Todas as agências postais estavam fechadas
Fazia um calor danado!)
702
Manuel Bandeira
Astéria
O Mestre me ensinou:
Fáculas nitentes
Como metal luzidio
Bordam as manchas
— Abismos de remoinhos electromagnéticos
A verrumar a espessura solar.
Massas de nuvens
Em colunatas coesas de fímbrias froculares
Atestam lá longe a despesa ignescente da estrela
No vômito de suas ondas
Despedidas e soltas.
O oceano celeste
Outrora tido por oco
Está cheio dessas como lavas vulcânicas
Pairando invisíveis no cosmos.
E eu as detecto no meu registro natural e inédito
— O esqueleto e modelo exterior do corpo radiário de Astéria.
Fáculas nitentes
Como metal luzidio
Bordam as manchas
— Abismos de remoinhos electromagnéticos
A verrumar a espessura solar.
Massas de nuvens
Em colunatas coesas de fímbrias froculares
Atestam lá longe a despesa ignescente da estrela
No vômito de suas ondas
Despedidas e soltas.
O oceano celeste
Outrora tido por oco
Está cheio dessas como lavas vulcânicas
Pairando invisíveis no cosmos.
E eu as detecto no meu registro natural e inédito
— O esqueleto e modelo exterior do corpo radiário de Astéria.
1 074
Manuel Bandeira
Petição Ao Prefeito
Governador desta cidade,
Excelentíssimo Prefeito
General Mendes de Morais,
Ouça o que digo, e tenho que há de
Mover-se-lhe o sensível peito
Dado às coisas municipais!
Há no interior do quarteirão
Formado pelas avenidas
Antônio Carlos, Beira-Mar,
Wilson e Calógeras, tão
Bem traçadas e bem construídas,
Um pântano que é de amargar!
Não suponha que eu exagero,
Excelência: é a verdade pura,
Sem nenhum véu de fantasia.
Já o pintei uma vez: não quero
Fabricar mais literatura
Sobre tamanha porcaria!
Reporters, a quem nada escapa,
Escreveram sueltos diversos
Sobre esse foco de infecção.
Fotógrafos bateram chapa...
Coisas melhores que os meus versos
De velho poeta solteirão!
Fiz, por sanear-se esta marema,
Uma carta desesperada
Ao seu ilustre antecessor,
Uma carta em forma de poema:
O homem saiu sem fazer nada...
Pelo martírio do Senhor,
Ponha o pátio, insigne Prefeito,
Limpo como o olhar da inocência,
Limpo como — feita a ressalva
Da muita atenção e respeito
Devidos a Vossa Excelência —
Sua excelentíssima calva!
Excelentíssimo Prefeito
General Mendes de Morais,
Ouça o que digo, e tenho que há de
Mover-se-lhe o sensível peito
Dado às coisas municipais!
Há no interior do quarteirão
Formado pelas avenidas
Antônio Carlos, Beira-Mar,
Wilson e Calógeras, tão
Bem traçadas e bem construídas,
Um pântano que é de amargar!
Não suponha que eu exagero,
Excelência: é a verdade pura,
Sem nenhum véu de fantasia.
Já o pintei uma vez: não quero
Fabricar mais literatura
Sobre tamanha porcaria!
Reporters, a quem nada escapa,
Escreveram sueltos diversos
Sobre esse foco de infecção.
Fotógrafos bateram chapa...
Coisas melhores que os meus versos
De velho poeta solteirão!
Fiz, por sanear-se esta marema,
Uma carta desesperada
Ao seu ilustre antecessor,
Uma carta em forma de poema:
O homem saiu sem fazer nada...
Pelo martírio do Senhor,
Ponha o pátio, insigne Prefeito,
Limpo como o olhar da inocência,
Limpo como — feita a ressalva
Da muita atenção e respeito
Devidos a Vossa Excelência —
Sua excelentíssima calva!
1 109
Manuel Bandeira
Petição Ao Prefeito
Governador desta cidade,
Excelentíssimo Prefeito
General Mendes de Morais,
Ouça o que digo, e tenho que há de
Mover-se-lhe o sensível peito
Dado às coisas municipais!
Há no interior do quarteirão
Formado pelas avenidas
Antônio Carlos, Beira-Mar,
Wilson e Calógeras, tão
Bem traçadas e bem construídas,
Um pântano que é de amargar!
Não suponha que eu exagero,
Excelência: é a verdade pura,
Sem nenhum véu de fantasia.
Já o pintei uma vez: não quero
Fabricar mais literatura
Sobre tamanha porcaria!
Reporters, a quem nada escapa,
Escreveram sueltos diversos
Sobre esse foco de infecção.
Fotógrafos bateram chapa...
Coisas melhores que os meus versos
De velho poeta solteirão!
Fiz, por sanear-se esta marema,
Uma carta desesperada
Ao seu ilustre antecessor,
Uma carta em forma de poema:
O homem saiu sem fazer nada...
Pelo martírio do Senhor,
Ponha o pátio, insigne Prefeito,
Limpo como o olhar da inocência,
Limpo como — feita a ressalva
Da muita atenção e respeito
Devidos a Vossa Excelência —
Sua excelentíssima calva!
Excelentíssimo Prefeito
General Mendes de Morais,
Ouça o que digo, e tenho que há de
Mover-se-lhe o sensível peito
Dado às coisas municipais!
Há no interior do quarteirão
Formado pelas avenidas
Antônio Carlos, Beira-Mar,
Wilson e Calógeras, tão
Bem traçadas e bem construídas,
Um pântano que é de amargar!
Não suponha que eu exagero,
Excelência: é a verdade pura,
Sem nenhum véu de fantasia.
Já o pintei uma vez: não quero
Fabricar mais literatura
Sobre tamanha porcaria!
Reporters, a quem nada escapa,
Escreveram sueltos diversos
Sobre esse foco de infecção.
Fotógrafos bateram chapa...
Coisas melhores que os meus versos
De velho poeta solteirão!
Fiz, por sanear-se esta marema,
Uma carta desesperada
Ao seu ilustre antecessor,
Uma carta em forma de poema:
O homem saiu sem fazer nada...
Pelo martírio do Senhor,
Ponha o pátio, insigne Prefeito,
Limpo como o olhar da inocência,
Limpo como — feita a ressalva
Da muita atenção e respeito
Devidos a Vossa Excelência —
Sua excelentíssima calva!
1 109
Manuel Bandeira
Petição Ao Prefeito
Governador desta cidade,
Excelentíssimo Prefeito
General Mendes de Morais,
Ouça o que digo, e tenho que há de
Mover-se-lhe o sensível peito
Dado às coisas municipais!
Há no interior do quarteirão
Formado pelas avenidas
Antônio Carlos, Beira-Mar,
Wilson e Calógeras, tão
Bem traçadas e bem construídas,
Um pântano que é de amargar!
Não suponha que eu exagero,
Excelência: é a verdade pura,
Sem nenhum véu de fantasia.
Já o pintei uma vez: não quero
Fabricar mais literatura
Sobre tamanha porcaria!
Reporters, a quem nada escapa,
Escreveram sueltos diversos
Sobre esse foco de infecção.
Fotógrafos bateram chapa...
Coisas melhores que os meus versos
De velho poeta solteirão!
Fiz, por sanear-se esta marema,
Uma carta desesperada
Ao seu ilustre antecessor,
Uma carta em forma de poema:
O homem saiu sem fazer nada...
Pelo martírio do Senhor,
Ponha o pátio, insigne Prefeito,
Limpo como o olhar da inocência,
Limpo como — feita a ressalva
Da muita atenção e respeito
Devidos a Vossa Excelência —
Sua excelentíssima calva!
Excelentíssimo Prefeito
General Mendes de Morais,
Ouça o que digo, e tenho que há de
Mover-se-lhe o sensível peito
Dado às coisas municipais!
Há no interior do quarteirão
Formado pelas avenidas
Antônio Carlos, Beira-Mar,
Wilson e Calógeras, tão
Bem traçadas e bem construídas,
Um pântano que é de amargar!
Não suponha que eu exagero,
Excelência: é a verdade pura,
Sem nenhum véu de fantasia.
Já o pintei uma vez: não quero
Fabricar mais literatura
Sobre tamanha porcaria!
Reporters, a quem nada escapa,
Escreveram sueltos diversos
Sobre esse foco de infecção.
Fotógrafos bateram chapa...
Coisas melhores que os meus versos
De velho poeta solteirão!
Fiz, por sanear-se esta marema,
Uma carta desesperada
Ao seu ilustre antecessor,
Uma carta em forma de poema:
O homem saiu sem fazer nada...
Pelo martírio do Senhor,
Ponha o pátio, insigne Prefeito,
Limpo como o olhar da inocência,
Limpo como — feita a ressalva
Da muita atenção e respeito
Devidos a Vossa Excelência —
Sua excelentíssima calva!
1 109