Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Manuel Bandeira
O Brigadeiro
Depois de tamanhas dores,
De tão duro cativeiro
Às mãos dos interventores,
Que quer o Brasil inteiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro de verdade!
E o que quer o mau patriota
Que não ama a liberdade,
Que prefere andar na sota?
— Quer a nota!
À nota tirada ao povo
Pelo estado quitandeiro
Rotulado Estado Novo.
Quem lhe porá um paradeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da esperança,
Brigadeiro da lisura,
Que há nele que tanto afiança
À sua candidatura?
— Alma pura!
Pergunto ao homem do Norte,
Do Centro e Sul: Companheiro,
Quem dos Dezoito do Forte
É o mais legítimo herdeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro do ar Eduardo
Gomes, oh glória castiça!
Que promete se chegar
Ao posto que não cobiça?
— À justiça!
O Brasil, barco tão grande
Perdido em denso nevoeiro,
Pede mão firme que o mande:
Deus manda que timoneiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da virtude,
Brigadeiro da decência,
Quem o ergueu a essa altitude,
Lhe brindou tal ascendência?
— A consciência!
Abaixo a politicalha!
Abaixo o politiqueiro!
Votemos em quem nos valha:
Quem nos vale, brasileiro?
— O Brigadeiro!
De tão duro cativeiro
Às mãos dos interventores,
Que quer o Brasil inteiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro de verdade!
E o que quer o mau patriota
Que não ama a liberdade,
Que prefere andar na sota?
— Quer a nota!
À nota tirada ao povo
Pelo estado quitandeiro
Rotulado Estado Novo.
Quem lhe porá um paradeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da esperança,
Brigadeiro da lisura,
Que há nele que tanto afiança
À sua candidatura?
— Alma pura!
Pergunto ao homem do Norte,
Do Centro e Sul: Companheiro,
Quem dos Dezoito do Forte
É o mais legítimo herdeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro do ar Eduardo
Gomes, oh glória castiça!
Que promete se chegar
Ao posto que não cobiça?
— À justiça!
O Brasil, barco tão grande
Perdido em denso nevoeiro,
Pede mão firme que o mande:
Deus manda que timoneiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da virtude,
Brigadeiro da decência,
Quem o ergueu a essa altitude,
Lhe brindou tal ascendência?
— A consciência!
Abaixo a politicalha!
Abaixo o politiqueiro!
Votemos em quem nos valha:
Quem nos vale, brasileiro?
— O Brigadeiro!
1 395
Manuel Bandeira
O Brigadeiro
Depois de tamanhas dores,
De tão duro cativeiro
Às mãos dos interventores,
Que quer o Brasil inteiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro de verdade!
E o que quer o mau patriota
Que não ama a liberdade,
Que prefere andar na sota?
— Quer a nota!
À nota tirada ao povo
Pelo estado quitandeiro
Rotulado Estado Novo.
Quem lhe porá um paradeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da esperança,
Brigadeiro da lisura,
Que há nele que tanto afiança
À sua candidatura?
— Alma pura!
Pergunto ao homem do Norte,
Do Centro e Sul: Companheiro,
Quem dos Dezoito do Forte
É o mais legítimo herdeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro do ar Eduardo
Gomes, oh glória castiça!
Que promete se chegar
Ao posto que não cobiça?
— À justiça!
O Brasil, barco tão grande
Perdido em denso nevoeiro,
Pede mão firme que o mande:
Deus manda que timoneiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da virtude,
Brigadeiro da decência,
Quem o ergueu a essa altitude,
Lhe brindou tal ascendência?
— A consciência!
Abaixo a politicalha!
Abaixo o politiqueiro!
Votemos em quem nos valha:
Quem nos vale, brasileiro?
— O Brigadeiro!
De tão duro cativeiro
Às mãos dos interventores,
Que quer o Brasil inteiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro de verdade!
E o que quer o mau patriota
Que não ama a liberdade,
Que prefere andar na sota?
— Quer a nota!
À nota tirada ao povo
Pelo estado quitandeiro
Rotulado Estado Novo.
Quem lhe porá um paradeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da esperança,
Brigadeiro da lisura,
Que há nele que tanto afiança
À sua candidatura?
— Alma pura!
Pergunto ao homem do Norte,
Do Centro e Sul: Companheiro,
Quem dos Dezoito do Forte
É o mais legítimo herdeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro do ar Eduardo
Gomes, oh glória castiça!
Que promete se chegar
Ao posto que não cobiça?
— À justiça!
O Brasil, barco tão grande
Perdido em denso nevoeiro,
Pede mão firme que o mande:
Deus manda que timoneiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da virtude,
Brigadeiro da decência,
Quem o ergueu a essa altitude,
Lhe brindou tal ascendência?
— A consciência!
Abaixo a politicalha!
Abaixo o politiqueiro!
Votemos em quem nos valha:
Quem nos vale, brasileiro?
— O Brigadeiro!
1 395
Manuel Bandeira
Variações Sobre o Nome de Mário de Andrade
Mário
Inteligência
Sabor
Surpresa
As neblinas paulistas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais
Mas nas sombras mais fundas ficaram os docementes dos nanquins mais melancólicos!...
Como será São Paulo...
O Paraná com os pinhais intratáveis?
(Não servem para uma exploração regular da indústria do papel)
Goiás! Ilha do Bananal!
Mas os índios? Os mosquitos?
Os botocudos e os borrachudos...
Como será o Brasil?...
Como será São Paulo?
São Paulo era a Sé Velha
Cercada de sobradinhos coloniais
Na Rua de São João a escala cromática dos pára-sóis dos engraxates
Progredior Politeama
A Casa Garraux vendia também objetos de arte
Camilo Castelo Branco não sabia ainda da existência dos piraquaras do Paraíba
Não havia ainda Vasco Porcalho livreiro-editor encomendando a toda a gente uma novela safada
Havia sim a Avenida Tiradentes espapaçada ao sol como um feriado nacional
E o edifício do Liceu implorando baixinho que o deixassem em tijolo aparente
(Lá dentro eu desenhando a bico de pena motivos arquitetônicos do Renascimento...
As minhas arquiteturas corroídas!...)
Duas vezes por semana música no Jardim da Luz
A banda do maestro Antão
A primeira da América do Sul
O samba de Alexandre Levi
Bis! Bis!
O namorozinho nacional passeando cheio de dengue entre os zincos lambuzados de cerveja
Não havia guaraná bebida depurativa e tônico-refrigerante
Quem fazia o policiamento era a torre da Inglesa
O relógio grande batia os quartos um dois três quatro e recomeçava indefinidamente sem compreender como aquela gente podia ainda ouvir Puccini
E em torno dele a garoa paulistana irônica silenciosa encharcava todos os minutos
Mas as garoas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais:
Mário de Andrade!
Como será São Paulo?
Não havia mais bandeirantes
Nem a lembrança de Álvares de Azevedo
O antigo Largo de São Bento com as árvores nuas e magrinhas
Pedia tanto um pouco de neve que lhe desse um arzinho de Paris
Os filhos de Bernardino de Campos faziam parte do cordão
Nem Teatro Municipal nem Esplanada Hotel
Só havia um viaduto:
Anhangabaú dos suicídios passionais!
Ponte Grande!
Cambuci!
E o cemitério da Consolação...
Mário um cigarro
O punho forte do subconsciente campeia e conjuga os relâmpagos mais díspares
Os ritmos mais dissolutos
Raivas
Testamentos de Heiligenstadt
Amores fantasmagorias carnavais porrada
Coisas absolutamente incompreensíveis
Como as obras de Deus
Raivas raivas
Bondade
A girândola do último dia de novena
Tudo
Para todos os lados
CATÓLICO
Mário um cigarro
Positivamente esta quarta-feira está cotidiana demais
O leite da manhã tinha mais água
O sol está banal como uma taça de campeonato
Como os bronzes comerciais que representam o Trabalho
Eu não sei latim
Não sei cálculo diferencial e integral
Não sei tocar piano (por causa de uma sonatina de Steibelt)
Não compreendo absolutamente Fichte Schelling e Hegel
Victor Hugo é pau
Byron é pau
Mário um cigarro
CAPORAL LAVADO!
Numa pia de igreja em Bizâncio está gravada esta inscrição
NIPSONANOMHMATAMHMONANOSPIN
Soletrada da direita para a esquerda recompõe o mesmo sentido
Lava os pecados não laves só a cara
Mário eles não lavam nem os pecados nem a cara
Os homens são horríveis
POR ISSO HÁ QUE OS AMAR
Com os docementes dos nanquins mais melancólicos
Brasil
Como será o Brasil?
MÁRIO DE ANDRADE
Inteligência
Sabor
Surpresa
As neblinas paulistas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais
Mas nas sombras mais fundas ficaram os docementes dos nanquins mais melancólicos!...
Como será São Paulo...
O Paraná com os pinhais intratáveis?
(Não servem para uma exploração regular da indústria do papel)
Goiás! Ilha do Bananal!
Mas os índios? Os mosquitos?
Os botocudos e os borrachudos...
Como será o Brasil?...
Como será São Paulo?
São Paulo era a Sé Velha
Cercada de sobradinhos coloniais
Na Rua de São João a escala cromática dos pára-sóis dos engraxates
Progredior Politeama
A Casa Garraux vendia também objetos de arte
Camilo Castelo Branco não sabia ainda da existência dos piraquaras do Paraíba
Não havia ainda Vasco Porcalho livreiro-editor encomendando a toda a gente uma novela safada
Havia sim a Avenida Tiradentes espapaçada ao sol como um feriado nacional
E o edifício do Liceu implorando baixinho que o deixassem em tijolo aparente
(Lá dentro eu desenhando a bico de pena motivos arquitetônicos do Renascimento...
As minhas arquiteturas corroídas!...)
Duas vezes por semana música no Jardim da Luz
A banda do maestro Antão
A primeira da América do Sul
O samba de Alexandre Levi
Bis! Bis!
O namorozinho nacional passeando cheio de dengue entre os zincos lambuzados de cerveja
Não havia guaraná bebida depurativa e tônico-refrigerante
Quem fazia o policiamento era a torre da Inglesa
O relógio grande batia os quartos um dois três quatro e recomeçava indefinidamente sem compreender como aquela gente podia ainda ouvir Puccini
E em torno dele a garoa paulistana irônica silenciosa encharcava todos os minutos
Mas as garoas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais:
Mário de Andrade!
Como será São Paulo?
Não havia mais bandeirantes
Nem a lembrança de Álvares de Azevedo
O antigo Largo de São Bento com as árvores nuas e magrinhas
Pedia tanto um pouco de neve que lhe desse um arzinho de Paris
Os filhos de Bernardino de Campos faziam parte do cordão
Nem Teatro Municipal nem Esplanada Hotel
Só havia um viaduto:
Anhangabaú dos suicídios passionais!
Ponte Grande!
Cambuci!
E o cemitério da Consolação...
Mário um cigarro
O punho forte do subconsciente campeia e conjuga os relâmpagos mais díspares
Os ritmos mais dissolutos
Raivas
Testamentos de Heiligenstadt
Amores fantasmagorias carnavais porrada
Coisas absolutamente incompreensíveis
Como as obras de Deus
Raivas raivas
Bondade
A girândola do último dia de novena
Tudo
Para todos os lados
CATÓLICO
Mário um cigarro
Positivamente esta quarta-feira está cotidiana demais
O leite da manhã tinha mais água
O sol está banal como uma taça de campeonato
Como os bronzes comerciais que representam o Trabalho
Eu não sei latim
Não sei cálculo diferencial e integral
Não sei tocar piano (por causa de uma sonatina de Steibelt)
Não compreendo absolutamente Fichte Schelling e Hegel
Victor Hugo é pau
Byron é pau
Mário um cigarro
CAPORAL LAVADO!
Numa pia de igreja em Bizâncio está gravada esta inscrição
NIPSONANOMHMATAMHMONANOSPIN
Soletrada da direita para a esquerda recompõe o mesmo sentido
Lava os pecados não laves só a cara
Mário eles não lavam nem os pecados nem a cara
Os homens são horríveis
POR ISSO HÁ QUE OS AMAR
Com os docementes dos nanquins mais melancólicos
Brasil
Como será o Brasil?
MÁRIO DE ANDRADE
810
Manuel Bandeira
Variações Sobre o Nome de Mário de Andrade
Mário
Inteligência
Sabor
Surpresa
As neblinas paulistas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais
Mas nas sombras mais fundas ficaram os docementes dos nanquins mais melancólicos!...
Como será São Paulo...
O Paraná com os pinhais intratáveis?
(Não servem para uma exploração regular da indústria do papel)
Goiás! Ilha do Bananal!
Mas os índios? Os mosquitos?
Os botocudos e os borrachudos...
Como será o Brasil?...
Como será São Paulo?
São Paulo era a Sé Velha
Cercada de sobradinhos coloniais
Na Rua de São João a escala cromática dos pára-sóis dos engraxates
Progredior Politeama
A Casa Garraux vendia também objetos de arte
Camilo Castelo Branco não sabia ainda da existência dos piraquaras do Paraíba
Não havia ainda Vasco Porcalho livreiro-editor encomendando a toda a gente uma novela safada
Havia sim a Avenida Tiradentes espapaçada ao sol como um feriado nacional
E o edifício do Liceu implorando baixinho que o deixassem em tijolo aparente
(Lá dentro eu desenhando a bico de pena motivos arquitetônicos do Renascimento...
As minhas arquiteturas corroídas!...)
Duas vezes por semana música no Jardim da Luz
A banda do maestro Antão
A primeira da América do Sul
O samba de Alexandre Levi
Bis! Bis!
O namorozinho nacional passeando cheio de dengue entre os zincos lambuzados de cerveja
Não havia guaraná bebida depurativa e tônico-refrigerante
Quem fazia o policiamento era a torre da Inglesa
O relógio grande batia os quartos um dois três quatro e recomeçava indefinidamente sem compreender como aquela gente podia ainda ouvir Puccini
E em torno dele a garoa paulistana irônica silenciosa encharcava todos os minutos
Mas as garoas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais:
Mário de Andrade!
Como será São Paulo?
Não havia mais bandeirantes
Nem a lembrança de Álvares de Azevedo
O antigo Largo de São Bento com as árvores nuas e magrinhas
Pedia tanto um pouco de neve que lhe desse um arzinho de Paris
Os filhos de Bernardino de Campos faziam parte do cordão
Nem Teatro Municipal nem Esplanada Hotel
Só havia um viaduto:
Anhangabaú dos suicídios passionais!
Ponte Grande!
Cambuci!
E o cemitério da Consolação...
Mário um cigarro
O punho forte do subconsciente campeia e conjuga os relâmpagos mais díspares
Os ritmos mais dissolutos
Raivas
Testamentos de Heiligenstadt
Amores fantasmagorias carnavais porrada
Coisas absolutamente incompreensíveis
Como as obras de Deus
Raivas raivas
Bondade
A girândola do último dia de novena
Tudo
Para todos os lados
CATÓLICO
Mário um cigarro
Positivamente esta quarta-feira está cotidiana demais
O leite da manhã tinha mais água
O sol está banal como uma taça de campeonato
Como os bronzes comerciais que representam o Trabalho
Eu não sei latim
Não sei cálculo diferencial e integral
Não sei tocar piano (por causa de uma sonatina de Steibelt)
Não compreendo absolutamente Fichte Schelling e Hegel
Victor Hugo é pau
Byron é pau
Mário um cigarro
CAPORAL LAVADO!
Numa pia de igreja em Bizâncio está gravada esta inscrição
NIPSONANOMHMATAMHMONANOSPIN
Soletrada da direita para a esquerda recompõe o mesmo sentido
Lava os pecados não laves só a cara
Mário eles não lavam nem os pecados nem a cara
Os homens são horríveis
POR ISSO HÁ QUE OS AMAR
Com os docementes dos nanquins mais melancólicos
Brasil
Como será o Brasil?
MÁRIO DE ANDRADE
Inteligência
Sabor
Surpresa
As neblinas paulistas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais
Mas nas sombras mais fundas ficaram os docementes dos nanquins mais melancólicos!...
Como será São Paulo...
O Paraná com os pinhais intratáveis?
(Não servem para uma exploração regular da indústria do papel)
Goiás! Ilha do Bananal!
Mas os índios? Os mosquitos?
Os botocudos e os borrachudos...
Como será o Brasil?...
Como será São Paulo?
São Paulo era a Sé Velha
Cercada de sobradinhos coloniais
Na Rua de São João a escala cromática dos pára-sóis dos engraxates
Progredior Politeama
A Casa Garraux vendia também objetos de arte
Camilo Castelo Branco não sabia ainda da existência dos piraquaras do Paraíba
Não havia ainda Vasco Porcalho livreiro-editor encomendando a toda a gente uma novela safada
Havia sim a Avenida Tiradentes espapaçada ao sol como um feriado nacional
E o edifício do Liceu implorando baixinho que o deixassem em tijolo aparente
(Lá dentro eu desenhando a bico de pena motivos arquitetônicos do Renascimento...
As minhas arquiteturas corroídas!...)
Duas vezes por semana música no Jardim da Luz
A banda do maestro Antão
A primeira da América do Sul
O samba de Alexandre Levi
Bis! Bis!
O namorozinho nacional passeando cheio de dengue entre os zincos lambuzados de cerveja
Não havia guaraná bebida depurativa e tônico-refrigerante
Quem fazia o policiamento era a torre da Inglesa
O relógio grande batia os quartos um dois três quatro e recomeçava indefinidamente sem compreender como aquela gente podia ainda ouvir Puccini
E em torno dele a garoa paulistana irônica silenciosa encharcava todos os minutos
Mas as garoas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais:
Mário de Andrade!
Como será São Paulo?
Não havia mais bandeirantes
Nem a lembrança de Álvares de Azevedo
O antigo Largo de São Bento com as árvores nuas e magrinhas
Pedia tanto um pouco de neve que lhe desse um arzinho de Paris
Os filhos de Bernardino de Campos faziam parte do cordão
Nem Teatro Municipal nem Esplanada Hotel
Só havia um viaduto:
Anhangabaú dos suicídios passionais!
Ponte Grande!
Cambuci!
E o cemitério da Consolação...
Mário um cigarro
O punho forte do subconsciente campeia e conjuga os relâmpagos mais díspares
Os ritmos mais dissolutos
Raivas
Testamentos de Heiligenstadt
Amores fantasmagorias carnavais porrada
Coisas absolutamente incompreensíveis
Como as obras de Deus
Raivas raivas
Bondade
A girândola do último dia de novena
Tudo
Para todos os lados
CATÓLICO
Mário um cigarro
Positivamente esta quarta-feira está cotidiana demais
O leite da manhã tinha mais água
O sol está banal como uma taça de campeonato
Como os bronzes comerciais que representam o Trabalho
Eu não sei latim
Não sei cálculo diferencial e integral
Não sei tocar piano (por causa de uma sonatina de Steibelt)
Não compreendo absolutamente Fichte Schelling e Hegel
Victor Hugo é pau
Byron é pau
Mário um cigarro
CAPORAL LAVADO!
Numa pia de igreja em Bizâncio está gravada esta inscrição
NIPSONANOMHMATAMHMONANOSPIN
Soletrada da direita para a esquerda recompõe o mesmo sentido
Lava os pecados não laves só a cara
Mário eles não lavam nem os pecados nem a cara
Os homens são horríveis
POR ISSO HÁ QUE OS AMAR
Com os docementes dos nanquins mais melancólicos
Brasil
Como será o Brasil?
MÁRIO DE ANDRADE
810
Manuel Bandeira
Variações Sobre o Nome de Mário de Andrade
Mário
Inteligência
Sabor
Surpresa
As neblinas paulistas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais
Mas nas sombras mais fundas ficaram os docementes dos nanquins mais melancólicos!...
Como será São Paulo...
O Paraná com os pinhais intratáveis?
(Não servem para uma exploração regular da indústria do papel)
Goiás! Ilha do Bananal!
Mas os índios? Os mosquitos?
Os botocudos e os borrachudos...
Como será o Brasil?...
Como será São Paulo?
São Paulo era a Sé Velha
Cercada de sobradinhos coloniais
Na Rua de São João a escala cromática dos pára-sóis dos engraxates
Progredior Politeama
A Casa Garraux vendia também objetos de arte
Camilo Castelo Branco não sabia ainda da existência dos piraquaras do Paraíba
Não havia ainda Vasco Porcalho livreiro-editor encomendando a toda a gente uma novela safada
Havia sim a Avenida Tiradentes espapaçada ao sol como um feriado nacional
E o edifício do Liceu implorando baixinho que o deixassem em tijolo aparente
(Lá dentro eu desenhando a bico de pena motivos arquitetônicos do Renascimento...
As minhas arquiteturas corroídas!...)
Duas vezes por semana música no Jardim da Luz
A banda do maestro Antão
A primeira da América do Sul
O samba de Alexandre Levi
Bis! Bis!
O namorozinho nacional passeando cheio de dengue entre os zincos lambuzados de cerveja
Não havia guaraná bebida depurativa e tônico-refrigerante
Quem fazia o policiamento era a torre da Inglesa
O relógio grande batia os quartos um dois três quatro e recomeçava indefinidamente sem compreender como aquela gente podia ainda ouvir Puccini
E em torno dele a garoa paulistana irônica silenciosa encharcava todos os minutos
Mas as garoas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais:
Mário de Andrade!
Como será São Paulo?
Não havia mais bandeirantes
Nem a lembrança de Álvares de Azevedo
O antigo Largo de São Bento com as árvores nuas e magrinhas
Pedia tanto um pouco de neve que lhe desse um arzinho de Paris
Os filhos de Bernardino de Campos faziam parte do cordão
Nem Teatro Municipal nem Esplanada Hotel
Só havia um viaduto:
Anhangabaú dos suicídios passionais!
Ponte Grande!
Cambuci!
E o cemitério da Consolação...
Mário um cigarro
O punho forte do subconsciente campeia e conjuga os relâmpagos mais díspares
Os ritmos mais dissolutos
Raivas
Testamentos de Heiligenstadt
Amores fantasmagorias carnavais porrada
Coisas absolutamente incompreensíveis
Como as obras de Deus
Raivas raivas
Bondade
A girândola do último dia de novena
Tudo
Para todos os lados
CATÓLICO
Mário um cigarro
Positivamente esta quarta-feira está cotidiana demais
O leite da manhã tinha mais água
O sol está banal como uma taça de campeonato
Como os bronzes comerciais que representam o Trabalho
Eu não sei latim
Não sei cálculo diferencial e integral
Não sei tocar piano (por causa de uma sonatina de Steibelt)
Não compreendo absolutamente Fichte Schelling e Hegel
Victor Hugo é pau
Byron é pau
Mário um cigarro
CAPORAL LAVADO!
Numa pia de igreja em Bizâncio está gravada esta inscrição
NIPSONANOMHMATAMHMONANOSPIN
Soletrada da direita para a esquerda recompõe o mesmo sentido
Lava os pecados não laves só a cara
Mário eles não lavam nem os pecados nem a cara
Os homens são horríveis
POR ISSO HÁ QUE OS AMAR
Com os docementes dos nanquins mais melancólicos
Brasil
Como será o Brasil?
MÁRIO DE ANDRADE
Inteligência
Sabor
Surpresa
As neblinas paulistas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais
Mas nas sombras mais fundas ficaram os docementes dos nanquins mais melancólicos!...
Como será São Paulo...
O Paraná com os pinhais intratáveis?
(Não servem para uma exploração regular da indústria do papel)
Goiás! Ilha do Bananal!
Mas os índios? Os mosquitos?
Os botocudos e os borrachudos...
Como será o Brasil?...
Como será São Paulo?
São Paulo era a Sé Velha
Cercada de sobradinhos coloniais
Na Rua de São João a escala cromática dos pára-sóis dos engraxates
Progredior Politeama
A Casa Garraux vendia também objetos de arte
Camilo Castelo Branco não sabia ainda da existência dos piraquaras do Paraíba
Não havia ainda Vasco Porcalho livreiro-editor encomendando a toda a gente uma novela safada
Havia sim a Avenida Tiradentes espapaçada ao sol como um feriado nacional
E o edifício do Liceu implorando baixinho que o deixassem em tijolo aparente
(Lá dentro eu desenhando a bico de pena motivos arquitetônicos do Renascimento...
As minhas arquiteturas corroídas!...)
Duas vezes por semana música no Jardim da Luz
A banda do maestro Antão
A primeira da América do Sul
O samba de Alexandre Levi
Bis! Bis!
O namorozinho nacional passeando cheio de dengue entre os zincos lambuzados de cerveja
Não havia guaraná bebida depurativa e tônico-refrigerante
Quem fazia o policiamento era a torre da Inglesa
O relógio grande batia os quartos um dois três quatro e recomeçava indefinidamente sem compreender como aquela gente podia ainda ouvir Puccini
E em torno dele a garoa paulistana irônica silenciosa encharcava todos os minutos
Mas as garoas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais:
Mário de Andrade!
Como será São Paulo?
Não havia mais bandeirantes
Nem a lembrança de Álvares de Azevedo
O antigo Largo de São Bento com as árvores nuas e magrinhas
Pedia tanto um pouco de neve que lhe desse um arzinho de Paris
Os filhos de Bernardino de Campos faziam parte do cordão
Nem Teatro Municipal nem Esplanada Hotel
Só havia um viaduto:
Anhangabaú dos suicídios passionais!
Ponte Grande!
Cambuci!
E o cemitério da Consolação...
Mário um cigarro
O punho forte do subconsciente campeia e conjuga os relâmpagos mais díspares
Os ritmos mais dissolutos
Raivas
Testamentos de Heiligenstadt
Amores fantasmagorias carnavais porrada
Coisas absolutamente incompreensíveis
Como as obras de Deus
Raivas raivas
Bondade
A girândola do último dia de novena
Tudo
Para todos os lados
CATÓLICO
Mário um cigarro
Positivamente esta quarta-feira está cotidiana demais
O leite da manhã tinha mais água
O sol está banal como uma taça de campeonato
Como os bronzes comerciais que representam o Trabalho
Eu não sei latim
Não sei cálculo diferencial e integral
Não sei tocar piano (por causa de uma sonatina de Steibelt)
Não compreendo absolutamente Fichte Schelling e Hegel
Victor Hugo é pau
Byron é pau
Mário um cigarro
CAPORAL LAVADO!
Numa pia de igreja em Bizâncio está gravada esta inscrição
NIPSONANOMHMATAMHMONANOSPIN
Soletrada da direita para a esquerda recompõe o mesmo sentido
Lava os pecados não laves só a cara
Mário eles não lavam nem os pecados nem a cara
Os homens são horríveis
POR ISSO HÁ QUE OS AMAR
Com os docementes dos nanquins mais melancólicos
Brasil
Como será o Brasil?
MÁRIO DE ANDRADE
810
Manuel Bandeira
Oração a Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Antigamente o bonde era no Largo da Carioca atrás do chafariz
Na estação tinha uma casa de frutas
Onde o chefe de família
Podia comprar a quarta de manteiga sem sal
A lata de biscoitos Aimoré
A língua do Rio Grande
O homem das balas recebia recados, guardava embrulhos
De vez em quando havia um desastre na manobra do reboque
Bom tempo em que havia desastre na manobra do reboque!
Porque hoje é ali no duro
Na ladeira dos fundos do Teatro Lírico.
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa,
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Rogai por nós junto ao prefeito da cidade.
Rogai pelos tísicos
Rogai pelos cardíacos
Rogai pelos tabéticos
Rogai pela gente de fôlego curto
Rogai por mim e pelo pintor Artur Lucas.
Nos fundos do Teatro Lírico
Tem um mictório
Rogai pelas donzelas do morro obrigadas a passar diariamente em frente do mictório.
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Estamos comendo da banda podre
Faz um ano.
Moradores de Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Antigamente o bonde era no Largo da Carioca atrás do chafariz
Na estação tinha uma casa de frutas
Onde o chefe de família
Podia comprar a quarta de manteiga sem sal
A lata de biscoitos Aimoré
A língua do Rio Grande
O homem das balas recebia recados, guardava embrulhos
De vez em quando havia um desastre na manobra do reboque
Bom tempo em que havia desastre na manobra do reboque!
Porque hoje é ali no duro
Na ladeira dos fundos do Teatro Lírico.
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa,
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Rogai por nós junto ao prefeito da cidade.
Rogai pelos tísicos
Rogai pelos cardíacos
Rogai pelos tabéticos
Rogai pela gente de fôlego curto
Rogai por mim e pelo pintor Artur Lucas.
Nos fundos do Teatro Lírico
Tem um mictório
Rogai pelas donzelas do morro obrigadas a passar diariamente em frente do mictório.
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Estamos comendo da banda podre
Faz um ano.
946
Manuel Bandeira
Oração a Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Antigamente o bonde era no Largo da Carioca atrás do chafariz
Na estação tinha uma casa de frutas
Onde o chefe de família
Podia comprar a quarta de manteiga sem sal
A lata de biscoitos Aimoré
A língua do Rio Grande
O homem das balas recebia recados, guardava embrulhos
De vez em quando havia um desastre na manobra do reboque
Bom tempo em que havia desastre na manobra do reboque!
Porque hoje é ali no duro
Na ladeira dos fundos do Teatro Lírico.
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa,
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Rogai por nós junto ao prefeito da cidade.
Rogai pelos tísicos
Rogai pelos cardíacos
Rogai pelos tabéticos
Rogai pela gente de fôlego curto
Rogai por mim e pelo pintor Artur Lucas.
Nos fundos do Teatro Lírico
Tem um mictório
Rogai pelas donzelas do morro obrigadas a passar diariamente em frente do mictório.
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Estamos comendo da banda podre
Faz um ano.
Moradores de Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Antigamente o bonde era no Largo da Carioca atrás do chafariz
Na estação tinha uma casa de frutas
Onde o chefe de família
Podia comprar a quarta de manteiga sem sal
A lata de biscoitos Aimoré
A língua do Rio Grande
O homem das balas recebia recados, guardava embrulhos
De vez em quando havia um desastre na manobra do reboque
Bom tempo em que havia desastre na manobra do reboque!
Porque hoje é ali no duro
Na ladeira dos fundos do Teatro Lírico.
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa,
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Rogai por nós junto ao prefeito da cidade.
Rogai pelos tísicos
Rogai pelos cardíacos
Rogai pelos tabéticos
Rogai pela gente de fôlego curto
Rogai por mim e pelo pintor Artur Lucas.
Nos fundos do Teatro Lírico
Tem um mictório
Rogai pelas donzelas do morro obrigadas a passar diariamente em frente do mictório.
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Estamos comendo da banda podre
Faz um ano.
946
Manuel Bandeira
Idílio na Praia
Nudez anatômica
Onde madrugais
Areia dormente!
Quem vem lá, Vinícius
Não o de Morais
Mas o de imorais
Poemas vai perdido
Tão perdidamente
Pela bomba atômica.
E diz-lhe ao ouvido:
— Ai bombinha atômica
Vem comigo vem!
Sou tão delicado
Sou um monstrozinho
De delicadeza!
Meu amor meu bem
Me ama me possui
Me faz em pedaços!
Já não sou Vinícius
Sou o que jamais
Fui: Mar de Sargaços
Cabo Guardafui!
Cantarei na lira
Casimiriana
Versos que esqueceram
Às musas de Gôngora!
E te chamarei
Cupincha Nux Vomica
Oriana Ariana!
Ah mal sei que e é igual
a mc2
Perdão bomba atômica!
Sou um sórdido poeta
Fundo em matemática
E te amo ai de mim!
Vem ó pomba atômica!
Vem minha bombinha
Pombinha rolinha
Do meu coração!
Vem como és agora:
Te quero novinha
Donzela pucela
Antes da ebaente
Desintegração!
Onde madrugais
Areia dormente!
Quem vem lá, Vinícius
Não o de Morais
Mas o de imorais
Poemas vai perdido
Tão perdidamente
Pela bomba atômica.
E diz-lhe ao ouvido:
— Ai bombinha atômica
Vem comigo vem!
Sou tão delicado
Sou um monstrozinho
De delicadeza!
Meu amor meu bem
Me ama me possui
Me faz em pedaços!
Já não sou Vinícius
Sou o que jamais
Fui: Mar de Sargaços
Cabo Guardafui!
Cantarei na lira
Casimiriana
Versos que esqueceram
Às musas de Gôngora!
E te chamarei
Cupincha Nux Vomica
Oriana Ariana!
Ah mal sei que e é igual
a mc2
Perdão bomba atômica!
Sou um sórdido poeta
Fundo em matemática
E te amo ai de mim!
Vem ó pomba atômica!
Vem minha bombinha
Pombinha rolinha
Do meu coração!
Vem como és agora:
Te quero novinha
Donzela pucela
Antes da ebaente
Desintegração!
1 179
Manuel Bandeira
Idílio na Praia
Nudez anatômica
Onde madrugais
Areia dormente!
Quem vem lá, Vinícius
Não o de Morais
Mas o de imorais
Poemas vai perdido
Tão perdidamente
Pela bomba atômica.
E diz-lhe ao ouvido:
— Ai bombinha atômica
Vem comigo vem!
Sou tão delicado
Sou um monstrozinho
De delicadeza!
Meu amor meu bem
Me ama me possui
Me faz em pedaços!
Já não sou Vinícius
Sou o que jamais
Fui: Mar de Sargaços
Cabo Guardafui!
Cantarei na lira
Casimiriana
Versos que esqueceram
Às musas de Gôngora!
E te chamarei
Cupincha Nux Vomica
Oriana Ariana!
Ah mal sei que e é igual
a mc2
Perdão bomba atômica!
Sou um sórdido poeta
Fundo em matemática
E te amo ai de mim!
Vem ó pomba atômica!
Vem minha bombinha
Pombinha rolinha
Do meu coração!
Vem como és agora:
Te quero novinha
Donzela pucela
Antes da ebaente
Desintegração!
Onde madrugais
Areia dormente!
Quem vem lá, Vinícius
Não o de Morais
Mas o de imorais
Poemas vai perdido
Tão perdidamente
Pela bomba atômica.
E diz-lhe ao ouvido:
— Ai bombinha atômica
Vem comigo vem!
Sou tão delicado
Sou um monstrozinho
De delicadeza!
Meu amor meu bem
Me ama me possui
Me faz em pedaços!
Já não sou Vinícius
Sou o que jamais
Fui: Mar de Sargaços
Cabo Guardafui!
Cantarei na lira
Casimiriana
Versos que esqueceram
Às musas de Gôngora!
E te chamarei
Cupincha Nux Vomica
Oriana Ariana!
Ah mal sei que e é igual
a mc2
Perdão bomba atômica!
Sou um sórdido poeta
Fundo em matemática
E te amo ai de mim!
Vem ó pomba atômica!
Vem minha bombinha
Pombinha rolinha
Do meu coração!
Vem como és agora:
Te quero novinha
Donzela pucela
Antes da ebaente
Desintegração!
1 179
Manuel Bandeira
Bodas de Ouro
Bondade é coisa que na vida
— Nesta vida decepcionante —
Nenhum prêmio, nenhum tesouro,
Nenhuma recompensa paga:
Bondade de Mestre Aguinaga,
À quem, depois das bodas de ouro,
Desejamos as de brilhante.
(Depois as do céu, na outra vida...)
— Nesta vida decepcionante —
Nenhum prêmio, nenhum tesouro,
Nenhuma recompensa paga:
Bondade de Mestre Aguinaga,
À quem, depois das bodas de ouro,
Desejamos as de brilhante.
(Depois as do céu, na outra vida...)
1 187
Manuel Bandeira
Três Letras para Melodias de Villa-lobos
1/ MARCHINHA DAS TRÊS MARIAS
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
1 345
Manuel Bandeira
Sapo-cururu
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Oh que sapo gordo!
Oh que sapo feio!
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Quando o sapo coaxa,
Povoléu tem frio.
Que sapo mais danado,
Ó maninha, ó maninha!
Sapo-cururu é o bicho
Pra comer de sobreposse.
Sapo-cururu
Da barriga inchada.
Vóte! Brinca com ele...
Sapo-cururu é senador da República.
Da beira do rio.
Oh que sapo gordo!
Oh que sapo feio!
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Quando o sapo coaxa,
Povoléu tem frio.
Que sapo mais danado,
Ó maninha, ó maninha!
Sapo-cururu é o bicho
Pra comer de sobreposse.
Sapo-cururu
Da barriga inchada.
Vóte! Brinca com ele...
Sapo-cururu é senador da República.
1 751
Manuel Bandeira
Sapo-cururu
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Oh que sapo gordo!
Oh que sapo feio!
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Quando o sapo coaxa,
Povoléu tem frio.
Que sapo mais danado,
Ó maninha, ó maninha!
Sapo-cururu é o bicho
Pra comer de sobreposse.
Sapo-cururu
Da barriga inchada.
Vóte! Brinca com ele...
Sapo-cururu é senador da República.
Da beira do rio.
Oh que sapo gordo!
Oh que sapo feio!
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Quando o sapo coaxa,
Povoléu tem frio.
Que sapo mais danado,
Ó maninha, ó maninha!
Sapo-cururu é o bicho
Pra comer de sobreposse.
Sapo-cururu
Da barriga inchada.
Vóte! Brinca com ele...
Sapo-cururu é senador da República.
1 751
Manuel Bandeira
Maria Cândida
Disse um poeta de renome
(vai num beijo aqui a lição):
"Quem é Cândida no nome
deve-o ser no coração."
Cândida Maria Cândida
foi, que era minha irmãzinha.
Assim tu, cândida, cândida
hás de ser, pois que és Candinha.
(vai num beijo aqui a lição):
"Quem é Cândida no nome
deve-o ser no coração."
Cândida Maria Cândida
foi, que era minha irmãzinha.
Assim tu, cândida, cândida
hás de ser, pois que és Candinha.
1 296
Manuel Bandeira
Augusto Frederico Schmidt
O poeta Augusto Frederico
Schmidt, de quem dizem que está rico,
Foi homem pobre, certifico,
Mas o poeta sempre foi rico.
Schmidt, de quem dizem que está rico,
Foi homem pobre, certifico,
Mas o poeta sempre foi rico.
803
Manuel Bandeira
Soneto Parnasiano e Acróstico em Louvor de Helena Oliveira
Houve na Grécia antiga uma beleza rara
(Em versos de ouro o grande Homero celebrou-a),
Linda mais do que a mente humana imaginara,
E cuja fama sem rival inda ressoa.
Não a compararei porém (quem a compara?)
À que celebro aqui: a outra não era boa.
O esplendor da beleza é sol que só me aclara
Luzindo sob o véu do pudor que afeiçoa.
Inspiremo-nos, pois, não na Helena de Tróia,
Versátil coração, frio como uma jóia,
Em cujo lume ardeu uma cidade inteira.
Inspiremo-nos, sim, de uma Helena mais pura.
Ronsard mostrou na sua uma flor de ternura:
A mesma flor que orna esta Helena brasileira.
(Em versos de ouro o grande Homero celebrou-a),
Linda mais do que a mente humana imaginara,
E cuja fama sem rival inda ressoa.
Não a compararei porém (quem a compara?)
À que celebro aqui: a outra não era boa.
O esplendor da beleza é sol que só me aclara
Luzindo sob o véu do pudor que afeiçoa.
Inspiremo-nos, pois, não na Helena de Tróia,
Versátil coração, frio como uma jóia,
Em cujo lume ardeu uma cidade inteira.
Inspiremo-nos, sim, de uma Helena mais pura.
Ronsard mostrou na sua uma flor de ternura:
A mesma flor que orna esta Helena brasileira.
997
Manuel Bandeira
Temístocles da Graça Aranha
A aranha morde. A graça arranha
E vale o gládio nu de Têmis.
Logo se vê que tu não temes,
Temístocles da Graça Aranha.
E vale o gládio nu de Têmis.
Logo se vê que tu não temes,
Temístocles da Graça Aranha.
1 320
Manuel Bandeira
Jaime Cortesão
Honra ao que, bom português,
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.
577
Manuel Bandeira
Jaime Cortesão
Honra ao que, bom português,
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.
577
Manuel Bandeira
Jaime Cortesão
Honra ao que, bom português,
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.
577
Manuel Bandeira
O Martelo
As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
2 343
Manuel Bandeira
O Martelo
As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
2 343
Manuel Bandeira
Mangue
Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande
O Morro do Pinto morre de espanto
Passam estivadores de torso nu suando facas de ponta
Café baixo
Trapiches alfandegados
Catraias de abacaxis e de bananas
A Light fazendo crusvaldina com resíduos de coque
Há macumbas no piche
Eh cagira mia pai
Eh cagira
E o luar é uma coisa só
Houve tempo em que a Cidade Nova era mais subúrbio do que todas as Meritis da Baixada
Pátria amada idolatrada de empregadinhos de repartições públicas
Gente que vive porque é teimosa
Cartomantes da Rua Carmo Neto
Cirurgiões-dentistas com raízes gregas nas tabuletas avulsivas
O Senador Eusébio e o Visconde de Itaúna já se olhavam com rancor
(Por isso
Entre os dois
Dom João VI plantou quatro renques de palmeiras imperiais)
Casinhas tão térreas onde tantas vezes meu Deus fui funcionário público casado com mulher feia e morri de tuberculose pulmonar
Muitas palmeiras se suicidaram porque não viviam num píncaro azulado.
Era aqui que choramingavam os primeiros choros dos carnavais cariocas
Sambas da Tia Ciata
Cadê mais Tia Ciata
Talvez em Dona Clara meu branco
Ensaiando cheganças pra o Natal
O menino Jesus — Quem sois tu?
O preto — Eu sou aquele preto principá do centro do cafange do fundo do rebolo. Quem sois tu?
O Menino Jesus — Eu sou o fio da Virge Maria...
O preto — Entonces como é fio dessa senhora obedeço.
O menino Jesus — Entonces cuma você obedece, reze aqui um terceto pr'esse exerço vê.
O Mangue era simplesinho
Mas as inundações dos solstícios de verão
Trouxeram para Mata-Porcos todas as uiaras da Serra da Carioca
Uiaras do Trapicheiro
Do Maracanã
Do rio Joana
E vieram também sereias de além-mar jogadas pela ressaca nos aterrados da Gamboa
Hoje há transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
O Senador e o Visconde arranjaram capangas
Hoje se fala numa porção de ruas em que dantes ninguém acreditava
E há partidas para o Mangue
Com choros de cavaquinho, pandeiro e reco-reco
Ês mulher
És mulher e nada mais
OFERTA
Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Meriti meretriz
Mangue enfim verdadeiramente Cidade Nova
Com transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
Linda como Juiz de Fora.
Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande
O Morro do Pinto morre de espanto
Passam estivadores de torso nu suando facas de ponta
Café baixo
Trapiches alfandegados
Catraias de abacaxis e de bananas
A Light fazendo crusvaldina com resíduos de coque
Há macumbas no piche
Eh cagira mia pai
Eh cagira
E o luar é uma coisa só
Houve tempo em que a Cidade Nova era mais subúrbio do que todas as Meritis da Baixada
Pátria amada idolatrada de empregadinhos de repartições públicas
Gente que vive porque é teimosa
Cartomantes da Rua Carmo Neto
Cirurgiões-dentistas com raízes gregas nas tabuletas avulsivas
O Senador Eusébio e o Visconde de Itaúna já se olhavam com rancor
(Por isso
Entre os dois
Dom João VI plantou quatro renques de palmeiras imperiais)
Casinhas tão térreas onde tantas vezes meu Deus fui funcionário público casado com mulher feia e morri de tuberculose pulmonar
Muitas palmeiras se suicidaram porque não viviam num píncaro azulado.
Era aqui que choramingavam os primeiros choros dos carnavais cariocas
Sambas da Tia Ciata
Cadê mais Tia Ciata
Talvez em Dona Clara meu branco
Ensaiando cheganças pra o Natal
O menino Jesus — Quem sois tu?
O preto — Eu sou aquele preto principá do centro do cafange do fundo do rebolo. Quem sois tu?
O Menino Jesus — Eu sou o fio da Virge Maria...
O preto — Entonces como é fio dessa senhora obedeço.
O menino Jesus — Entonces cuma você obedece, reze aqui um terceto pr'esse exerço vê.
O Mangue era simplesinho
Mas as inundações dos solstícios de verão
Trouxeram para Mata-Porcos todas as uiaras da Serra da Carioca
Uiaras do Trapicheiro
Do Maracanã
Do rio Joana
E vieram também sereias de além-mar jogadas pela ressaca nos aterrados da Gamboa
Hoje há transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
O Senador e o Visconde arranjaram capangas
Hoje se fala numa porção de ruas em que dantes ninguém acreditava
E há partidas para o Mangue
Com choros de cavaquinho, pandeiro e reco-reco
Ês mulher
És mulher e nada mais
OFERTA
Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Meriti meretriz
Mangue enfim verdadeiramente Cidade Nova
Com transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
Linda como Juiz de Fora.
1 473
Manuel Bandeira
Mangue
Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande
O Morro do Pinto morre de espanto
Passam estivadores de torso nu suando facas de ponta
Café baixo
Trapiches alfandegados
Catraias de abacaxis e de bananas
A Light fazendo crusvaldina com resíduos de coque
Há macumbas no piche
Eh cagira mia pai
Eh cagira
E o luar é uma coisa só
Houve tempo em que a Cidade Nova era mais subúrbio do que todas as Meritis da Baixada
Pátria amada idolatrada de empregadinhos de repartições públicas
Gente que vive porque é teimosa
Cartomantes da Rua Carmo Neto
Cirurgiões-dentistas com raízes gregas nas tabuletas avulsivas
O Senador Eusébio e o Visconde de Itaúna já se olhavam com rancor
(Por isso
Entre os dois
Dom João VI plantou quatro renques de palmeiras imperiais)
Casinhas tão térreas onde tantas vezes meu Deus fui funcionário público casado com mulher feia e morri de tuberculose pulmonar
Muitas palmeiras se suicidaram porque não viviam num píncaro azulado.
Era aqui que choramingavam os primeiros choros dos carnavais cariocas
Sambas da Tia Ciata
Cadê mais Tia Ciata
Talvez em Dona Clara meu branco
Ensaiando cheganças pra o Natal
O menino Jesus — Quem sois tu?
O preto — Eu sou aquele preto principá do centro do cafange do fundo do rebolo. Quem sois tu?
O Menino Jesus — Eu sou o fio da Virge Maria...
O preto — Entonces como é fio dessa senhora obedeço.
O menino Jesus — Entonces cuma você obedece, reze aqui um terceto pr'esse exerço vê.
O Mangue era simplesinho
Mas as inundações dos solstícios de verão
Trouxeram para Mata-Porcos todas as uiaras da Serra da Carioca
Uiaras do Trapicheiro
Do Maracanã
Do rio Joana
E vieram também sereias de além-mar jogadas pela ressaca nos aterrados da Gamboa
Hoje há transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
O Senador e o Visconde arranjaram capangas
Hoje se fala numa porção de ruas em que dantes ninguém acreditava
E há partidas para o Mangue
Com choros de cavaquinho, pandeiro e reco-reco
Ês mulher
És mulher e nada mais
OFERTA
Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Meriti meretriz
Mangue enfim verdadeiramente Cidade Nova
Com transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
Linda como Juiz de Fora.
Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande
O Morro do Pinto morre de espanto
Passam estivadores de torso nu suando facas de ponta
Café baixo
Trapiches alfandegados
Catraias de abacaxis e de bananas
A Light fazendo crusvaldina com resíduos de coque
Há macumbas no piche
Eh cagira mia pai
Eh cagira
E o luar é uma coisa só
Houve tempo em que a Cidade Nova era mais subúrbio do que todas as Meritis da Baixada
Pátria amada idolatrada de empregadinhos de repartições públicas
Gente que vive porque é teimosa
Cartomantes da Rua Carmo Neto
Cirurgiões-dentistas com raízes gregas nas tabuletas avulsivas
O Senador Eusébio e o Visconde de Itaúna já se olhavam com rancor
(Por isso
Entre os dois
Dom João VI plantou quatro renques de palmeiras imperiais)
Casinhas tão térreas onde tantas vezes meu Deus fui funcionário público casado com mulher feia e morri de tuberculose pulmonar
Muitas palmeiras se suicidaram porque não viviam num píncaro azulado.
Era aqui que choramingavam os primeiros choros dos carnavais cariocas
Sambas da Tia Ciata
Cadê mais Tia Ciata
Talvez em Dona Clara meu branco
Ensaiando cheganças pra o Natal
O menino Jesus — Quem sois tu?
O preto — Eu sou aquele preto principá do centro do cafange do fundo do rebolo. Quem sois tu?
O Menino Jesus — Eu sou o fio da Virge Maria...
O preto — Entonces como é fio dessa senhora obedeço.
O menino Jesus — Entonces cuma você obedece, reze aqui um terceto pr'esse exerço vê.
O Mangue era simplesinho
Mas as inundações dos solstícios de verão
Trouxeram para Mata-Porcos todas as uiaras da Serra da Carioca
Uiaras do Trapicheiro
Do Maracanã
Do rio Joana
E vieram também sereias de além-mar jogadas pela ressaca nos aterrados da Gamboa
Hoje há transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
O Senador e o Visconde arranjaram capangas
Hoje se fala numa porção de ruas em que dantes ninguém acreditava
E há partidas para o Mangue
Com choros de cavaquinho, pandeiro e reco-reco
Ês mulher
És mulher e nada mais
OFERTA
Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Meriti meretriz
Mangue enfim verdadeiramente Cidade Nova
Com transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
Linda como Juiz de Fora.
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