Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Pablo Neruda
O Grande Urinador
O grande urinador era amarelo
e o jorro que caiu
era uma chuva cor de bronze
sobre as cúpulas das igrejas,
sobre o teto dos automóveis,
sobre as fábricas e os cemitérios,
sobre a multidão e seus jardins.
Quem era, onde estava?
Era uma densidade, líquido espesso
e que caía
como de um cavalo
e assustados transeuntes
sem guarda-chuvas
buscavam lá no céu,
enquanto as avenidas se inundavam
e por baixo das portas
entravam as urinas incansáveis
que iam enchendo canais, corrompendo
pisos de mármore, tapetes,
escadas.
Nada se divisava.
Onde estava o perigo?
Que ia acontecer no mundo?
O grande urinador de suas alturas
calava e urinava.
Que quer dizer isto?
Sou um simples poeta,
não tenho empenho em decifrar enigmas,
nem em propor guarda-chuvas especiais.
Até logo! Cumprimento e me retiro
para um país onde não me façam perguntas.
e o jorro que caiu
era uma chuva cor de bronze
sobre as cúpulas das igrejas,
sobre o teto dos automóveis,
sobre as fábricas e os cemitérios,
sobre a multidão e seus jardins.
Quem era, onde estava?
Era uma densidade, líquido espesso
e que caía
como de um cavalo
e assustados transeuntes
sem guarda-chuvas
buscavam lá no céu,
enquanto as avenidas se inundavam
e por baixo das portas
entravam as urinas incansáveis
que iam enchendo canais, corrompendo
pisos de mármore, tapetes,
escadas.
Nada se divisava.
Onde estava o perigo?
Que ia acontecer no mundo?
O grande urinador de suas alturas
calava e urinava.
Que quer dizer isto?
Sou um simples poeta,
não tenho empenho em decifrar enigmas,
nem em propor guarda-chuvas especiais.
Até logo! Cumprimento e me retiro
para um país onde não me façam perguntas.
984
Pablo Neruda
Morte E Perseguição Dos Pardais
Eu estava na China
naqueles dias,
quando Mao Tsé-Tung, sem entusiasmo,
decretou o imediato
falecimento de todos os pardais.
Com a mesma admirável
disciplina
com que se construiu a grande muralha
a multichina se multiplicou
e cada chinês procurou o inimigo.
Os meninos, os soldados, os astrônomos,
as meninas, as soldadas, as astrônomas,
os aviadores, os coveiros,
os cozinheiros chineses, os poetas,
os inventores da pólvora, os
camponeses do arroz sagrado,
os inventores de brinquedos, os
políticos de sorriso chinês,
todos se dirigiram
ao pardal
e este caiu com milionária morte
até que o último, um pardal supremo,
foi fuzilado por Mao Tsé-Tung.
Com admirável disciplina então
cada chinês partiu com um pardal,
com um triste, pequeno cadáver de pardal
no bolso,
cada um
de setecentos e trinta
milhões de
cidadãos chineses
com um pardal em
cada um
de setecentos e trinta
milhões de bolsos,
todos marcharam entoando antigos
hinos de glória e guerra
para enterrar lá longe,
nas montanhas da Lua Verde
um por um os pardais mortos.
Durante dezessete anos seguidos
cada um em pequeno mausoléu,
ossário individual, tumba florida
ou rápido cemitério coletivo
um por um sucessivamente
ficaram sepultados
completamente os pardais chineses.
Mas aconteceu algo estranho.
Quando se foram os enterradores
cantaram os pequenos enterrados:
um trovão de pardais
passou trovejando pela terra chinesa:
a voz de uma trombeta planetária.
E aquela voz despertou os mortais,
os antigos mortos,
os séculos de chineses enterrados.
Voltaram às suas vidas
aos seus arados, à sua economia.
Não faço censuras. Deixem-me tranquilo.
Mas assim fica bem claro
porque há mais chineses e menos pardais
a cada dia no mundo.
naqueles dias,
quando Mao Tsé-Tung, sem entusiasmo,
decretou o imediato
falecimento de todos os pardais.
Com a mesma admirável
disciplina
com que se construiu a grande muralha
a multichina se multiplicou
e cada chinês procurou o inimigo.
Os meninos, os soldados, os astrônomos,
as meninas, as soldadas, as astrônomas,
os aviadores, os coveiros,
os cozinheiros chineses, os poetas,
os inventores da pólvora, os
camponeses do arroz sagrado,
os inventores de brinquedos, os
políticos de sorriso chinês,
todos se dirigiram
ao pardal
e este caiu com milionária morte
até que o último, um pardal supremo,
foi fuzilado por Mao Tsé-Tung.
Com admirável disciplina então
cada chinês partiu com um pardal,
com um triste, pequeno cadáver de pardal
no bolso,
cada um
de setecentos e trinta
milhões de
cidadãos chineses
com um pardal em
cada um
de setecentos e trinta
milhões de bolsos,
todos marcharam entoando antigos
hinos de glória e guerra
para enterrar lá longe,
nas montanhas da Lua Verde
um por um os pardais mortos.
Durante dezessete anos seguidos
cada um em pequeno mausoléu,
ossário individual, tumba florida
ou rápido cemitério coletivo
um por um sucessivamente
ficaram sepultados
completamente os pardais chineses.
Mas aconteceu algo estranho.
Quando se foram os enterradores
cantaram os pequenos enterrados:
um trovão de pardais
passou trovejando pela terra chinesa:
a voz de uma trombeta planetária.
E aquela voz despertou os mortais,
os antigos mortos,
os séculos de chineses enterrados.
Voltaram às suas vidas
aos seus arados, à sua economia.
Não faço censuras. Deixem-me tranquilo.
Mas assim fica bem claro
porque há mais chineses e menos pardais
a cada dia no mundo.
627
Pablo Neruda
Morte E Perseguição Dos Pardais
Eu estava na China
naqueles dias,
quando Mao Tsé-Tung, sem entusiasmo,
decretou o imediato
falecimento de todos os pardais.
Com a mesma admirável
disciplina
com que se construiu a grande muralha
a multichina se multiplicou
e cada chinês procurou o inimigo.
Os meninos, os soldados, os astrônomos,
as meninas, as soldadas, as astrônomas,
os aviadores, os coveiros,
os cozinheiros chineses, os poetas,
os inventores da pólvora, os
camponeses do arroz sagrado,
os inventores de brinquedos, os
políticos de sorriso chinês,
todos se dirigiram
ao pardal
e este caiu com milionária morte
até que o último, um pardal supremo,
foi fuzilado por Mao Tsé-Tung.
Com admirável disciplina então
cada chinês partiu com um pardal,
com um triste, pequeno cadáver de pardal
no bolso,
cada um
de setecentos e trinta
milhões de
cidadãos chineses
com um pardal em
cada um
de setecentos e trinta
milhões de bolsos,
todos marcharam entoando antigos
hinos de glória e guerra
para enterrar lá longe,
nas montanhas da Lua Verde
um por um os pardais mortos.
Durante dezessete anos seguidos
cada um em pequeno mausoléu,
ossário individual, tumba florida
ou rápido cemitério coletivo
um por um sucessivamente
ficaram sepultados
completamente os pardais chineses.
Mas aconteceu algo estranho.
Quando se foram os enterradores
cantaram os pequenos enterrados:
um trovão de pardais
passou trovejando pela terra chinesa:
a voz de uma trombeta planetária.
E aquela voz despertou os mortais,
os antigos mortos,
os séculos de chineses enterrados.
Voltaram às suas vidas
aos seus arados, à sua economia.
Não faço censuras. Deixem-me tranquilo.
Mas assim fica bem claro
porque há mais chineses e menos pardais
a cada dia no mundo.
naqueles dias,
quando Mao Tsé-Tung, sem entusiasmo,
decretou o imediato
falecimento de todos os pardais.
Com a mesma admirável
disciplina
com que se construiu a grande muralha
a multichina se multiplicou
e cada chinês procurou o inimigo.
Os meninos, os soldados, os astrônomos,
as meninas, as soldadas, as astrônomas,
os aviadores, os coveiros,
os cozinheiros chineses, os poetas,
os inventores da pólvora, os
camponeses do arroz sagrado,
os inventores de brinquedos, os
políticos de sorriso chinês,
todos se dirigiram
ao pardal
e este caiu com milionária morte
até que o último, um pardal supremo,
foi fuzilado por Mao Tsé-Tung.
Com admirável disciplina então
cada chinês partiu com um pardal,
com um triste, pequeno cadáver de pardal
no bolso,
cada um
de setecentos e trinta
milhões de
cidadãos chineses
com um pardal em
cada um
de setecentos e trinta
milhões de bolsos,
todos marcharam entoando antigos
hinos de glória e guerra
para enterrar lá longe,
nas montanhas da Lua Verde
um por um os pardais mortos.
Durante dezessete anos seguidos
cada um em pequeno mausoléu,
ossário individual, tumba florida
ou rápido cemitério coletivo
um por um sucessivamente
ficaram sepultados
completamente os pardais chineses.
Mas aconteceu algo estranho.
Quando se foram os enterradores
cantaram os pequenos enterrados:
um trovão de pardais
passou trovejando pela terra chinesa:
a voz de uma trombeta planetária.
E aquela voz despertou os mortais,
os antigos mortos,
os séculos de chineses enterrados.
Voltaram às suas vidas
aos seus arados, à sua economia.
Não faço censuras. Deixem-me tranquilo.
Mas assim fica bem claro
porque há mais chineses e menos pardais
a cada dia no mundo.
627
Pablo Neruda
XIII. Cochrane do Chile
E agora pergunto ao vazio, ao passado de sombra, quem era
este cavaleiro intranquilo da liberdade e das ondas?
É este quem seus inimigos revestem de escuras cores?
É este o desviado que esconde uma bolsa de ouro na selva de Londres?
É esta a espada expulsa das abadias patrícias?
É este quem ainda o encarniçado inimigo persegue através dos livros?
Almirante, teus olhos se abrem saindo do mar cada dia!
Com teu invulnerável esplendor se ilumina o delgado hemisfério
e na noite teus olhos se fecham sobre as cordilheiras do Chile!
este cavaleiro intranquilo da liberdade e das ondas?
É este quem seus inimigos revestem de escuras cores?
É este o desviado que esconde uma bolsa de ouro na selva de Londres?
É esta a espada expulsa das abadias patrícias?
É este quem ainda o encarniçado inimigo persegue através dos livros?
Almirante, teus olhos se abrem saindo do mar cada dia!
Com teu invulnerável esplendor se ilumina o delgado hemisfério
e na noite teus olhos se fecham sobre as cordilheiras do Chile!
995
Pablo Neruda
Vi - Os Homens
Eu sou Ramón Gonzáles Barbagelata, de qualquer parte,
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
1 017
Pablo Neruda
Vi - Os Homens
Eu sou Ramón Gonzáles Barbagelata, de qualquer parte,
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
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Pablo Neruda
Vi - Os Homens
Eu sou Ramón Gonzáles Barbagelata, de qualquer parte,
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
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Pablo Neruda
Vi - Os Homens
Eu sou Ramón Gonzáles Barbagelata, de qualquer parte,
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
1 017
Pablo Neruda
Iii - Quando do Chile
Oh Chile, longa pétala
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.
O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.
Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.
Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?
Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.
Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?
Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?
Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.
Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.
Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.
O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.
Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.
Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?
Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.
Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?
Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?
Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.
Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.
Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
2 151
Pablo Neruda
Iii - Quando do Chile
Oh Chile, longa pétala
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.
O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.
Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.
Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?
Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.
Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?
Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?
Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.
Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.
Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.
O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.
Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.
Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?
Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.
Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?
Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?
Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.
Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.
Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
2 151
Pablo Neruda
Iii - Quando do Chile
Oh Chile, longa pétala
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.
O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.
Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.
Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?
Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.
Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?
Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?
Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.
Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.
Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.
O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.
Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.
Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?
Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.
Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?
Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?
Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.
Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.
Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
2 151
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
566
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
566
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
566
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
566
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
566
Pablo Neruda
Passou Por Aqui
Que companheiro saudável!
Dá voltas pelo picadeiro
de minha república, e me parece
que seu sorriso já caía
lá do tablado, da bicicleta,
ou na praça taurina, planetária,
maior ainda sob a luz política,
e nada, nunca, sempre o impertérrito.
o intergérrimo e sua dentadura.
Este outro com sua verdade e a minha,
a verdade verdadeira,
amarrada a um lenho, a uma ameaça,
buscando a quem acertar na cabeça
com o frágil nariz da justiça.
E assim, através de séculos, que saúde
este meu amigo na verdade, e o outro
em outro picadeiro, e na mentira.
Assim aplaudo e bem, com reticência,
certo pudor de pobre que vai ao circo
e tem que voltar de noite à aldeia
pelos maus caminhos de minha terra.
E ao outro, saudável e adversário,
frenético malvado, com seu círculo
sim, sim, de estupefatos roedores,
eu, sectário, condeno e destituo.
Com quem, irmão de manhã,
com quem me ficarás, te ficarei?
Qual das duas metades energúmenas
terá seu monumento no caminho?
Façamos com que se juntem a fogo e lágrimas,
que se reúnam de uma vez por todas
e não molestem com tanta bondade
nem com tanta maldade: já compreendemos
que nunca conseguiremos ser tão bons,
nem chegaremos a ser tão perversos:
muito cuidado com mudar a vida
e ficarmos vivendo de um só lado!
Dá voltas pelo picadeiro
de minha república, e me parece
que seu sorriso já caía
lá do tablado, da bicicleta,
ou na praça taurina, planetária,
maior ainda sob a luz política,
e nada, nunca, sempre o impertérrito.
o intergérrimo e sua dentadura.
Este outro com sua verdade e a minha,
a verdade verdadeira,
amarrada a um lenho, a uma ameaça,
buscando a quem acertar na cabeça
com o frágil nariz da justiça.
E assim, através de séculos, que saúde
este meu amigo na verdade, e o outro
em outro picadeiro, e na mentira.
Assim aplaudo e bem, com reticência,
certo pudor de pobre que vai ao circo
e tem que voltar de noite à aldeia
pelos maus caminhos de minha terra.
E ao outro, saudável e adversário,
frenético malvado, com seu círculo
sim, sim, de estupefatos roedores,
eu, sectário, condeno e destituo.
Com quem, irmão de manhã,
com quem me ficarás, te ficarei?
Qual das duas metades energúmenas
terá seu monumento no caminho?
Façamos com que se juntem a fogo e lágrimas,
que se reúnam de uma vez por todas
e não molestem com tanta bondade
nem com tanta maldade: já compreendemos
que nunca conseguiremos ser tão bons,
nem chegaremos a ser tão perversos:
muito cuidado com mudar a vida
e ficarmos vivendo de um só lado!
661
Pablo Neruda
Passou Por Aqui
Que companheiro saudável!
Dá voltas pelo picadeiro
de minha república, e me parece
que seu sorriso já caía
lá do tablado, da bicicleta,
ou na praça taurina, planetária,
maior ainda sob a luz política,
e nada, nunca, sempre o impertérrito.
o intergérrimo e sua dentadura.
Este outro com sua verdade e a minha,
a verdade verdadeira,
amarrada a um lenho, a uma ameaça,
buscando a quem acertar na cabeça
com o frágil nariz da justiça.
E assim, através de séculos, que saúde
este meu amigo na verdade, e o outro
em outro picadeiro, e na mentira.
Assim aplaudo e bem, com reticência,
certo pudor de pobre que vai ao circo
e tem que voltar de noite à aldeia
pelos maus caminhos de minha terra.
E ao outro, saudável e adversário,
frenético malvado, com seu círculo
sim, sim, de estupefatos roedores,
eu, sectário, condeno e destituo.
Com quem, irmão de manhã,
com quem me ficarás, te ficarei?
Qual das duas metades energúmenas
terá seu monumento no caminho?
Façamos com que se juntem a fogo e lágrimas,
que se reúnam de uma vez por todas
e não molestem com tanta bondade
nem com tanta maldade: já compreendemos
que nunca conseguiremos ser tão bons,
nem chegaremos a ser tão perversos:
muito cuidado com mudar a vida
e ficarmos vivendo de um só lado!
Dá voltas pelo picadeiro
de minha república, e me parece
que seu sorriso já caía
lá do tablado, da bicicleta,
ou na praça taurina, planetária,
maior ainda sob a luz política,
e nada, nunca, sempre o impertérrito.
o intergérrimo e sua dentadura.
Este outro com sua verdade e a minha,
a verdade verdadeira,
amarrada a um lenho, a uma ameaça,
buscando a quem acertar na cabeça
com o frágil nariz da justiça.
E assim, através de séculos, que saúde
este meu amigo na verdade, e o outro
em outro picadeiro, e na mentira.
Assim aplaudo e bem, com reticência,
certo pudor de pobre que vai ao circo
e tem que voltar de noite à aldeia
pelos maus caminhos de minha terra.
E ao outro, saudável e adversário,
frenético malvado, com seu círculo
sim, sim, de estupefatos roedores,
eu, sectário, condeno e destituo.
Com quem, irmão de manhã,
com quem me ficarás, te ficarei?
Qual das duas metades energúmenas
terá seu monumento no caminho?
Façamos com que se juntem a fogo e lágrimas,
que se reúnam de uma vez por todas
e não molestem com tanta bondade
nem com tanta maldade: já compreendemos
que nunca conseguiremos ser tão bons,
nem chegaremos a ser tão perversos:
muito cuidado com mudar a vida
e ficarmos vivendo de um só lado!
661
Pablo Neruda
Passou Por Aqui
Que companheiro saudável!
Dá voltas pelo picadeiro
de minha república, e me parece
que seu sorriso já caía
lá do tablado, da bicicleta,
ou na praça taurina, planetária,
maior ainda sob a luz política,
e nada, nunca, sempre o impertérrito.
o intergérrimo e sua dentadura.
Este outro com sua verdade e a minha,
a verdade verdadeira,
amarrada a um lenho, a uma ameaça,
buscando a quem acertar na cabeça
com o frágil nariz da justiça.
E assim, através de séculos, que saúde
este meu amigo na verdade, e o outro
em outro picadeiro, e na mentira.
Assim aplaudo e bem, com reticência,
certo pudor de pobre que vai ao circo
e tem que voltar de noite à aldeia
pelos maus caminhos de minha terra.
E ao outro, saudável e adversário,
frenético malvado, com seu círculo
sim, sim, de estupefatos roedores,
eu, sectário, condeno e destituo.
Com quem, irmão de manhã,
com quem me ficarás, te ficarei?
Qual das duas metades energúmenas
terá seu monumento no caminho?
Façamos com que se juntem a fogo e lágrimas,
que se reúnam de uma vez por todas
e não molestem com tanta bondade
nem com tanta maldade: já compreendemos
que nunca conseguiremos ser tão bons,
nem chegaremos a ser tão perversos:
muito cuidado com mudar a vida
e ficarmos vivendo de um só lado!
Dá voltas pelo picadeiro
de minha república, e me parece
que seu sorriso já caía
lá do tablado, da bicicleta,
ou na praça taurina, planetária,
maior ainda sob a luz política,
e nada, nunca, sempre o impertérrito.
o intergérrimo e sua dentadura.
Este outro com sua verdade e a minha,
a verdade verdadeira,
amarrada a um lenho, a uma ameaça,
buscando a quem acertar na cabeça
com o frágil nariz da justiça.
E assim, através de séculos, que saúde
este meu amigo na verdade, e o outro
em outro picadeiro, e na mentira.
Assim aplaudo e bem, com reticência,
certo pudor de pobre que vai ao circo
e tem que voltar de noite à aldeia
pelos maus caminhos de minha terra.
E ao outro, saudável e adversário,
frenético malvado, com seu círculo
sim, sim, de estupefatos roedores,
eu, sectário, condeno e destituo.
Com quem, irmão de manhã,
com quem me ficarás, te ficarei?
Qual das duas metades energúmenas
terá seu monumento no caminho?
Façamos com que se juntem a fogo e lágrimas,
que se reúnam de uma vez por todas
e não molestem com tanta bondade
nem com tanta maldade: já compreendemos
que nunca conseguiremos ser tão bons,
nem chegaremos a ser tão perversos:
muito cuidado com mudar a vida
e ficarmos vivendo de um só lado!
661
Pablo Neruda
Vii - Os Outros Homens
Em troca eu, pecador pescador,
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
986
Pablo Neruda
Vii - Os Outros Homens
Em troca eu, pecador pescador,
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
986
Pablo Neruda
Vii - Os Outros Homens
Em troca eu, pecador pescador,
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
986
Pablo Neruda
Vii - Os Outros Homens
Em troca eu, pecador pescador,
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
986
Pablo Neruda
Chegou Homero
H. Arce e do Chile. Senhor meu,
que distância e que parco cavalheiro:
parecia que não, que não podia
sair do Chile, minha pátria espinhosa,
minha pátria rochosa e movediça.
Dali até aqui, formalmente trajado
de gravata e calça bem passada
atlântico chegou, depois de tudo,
sem comentar a heroica travessia,
em um avião repleto,
o passageiro de primeira vez.
Tem de se levar em conta
sua identidade estática e poética,
o quieto numeral de cada dia
que manteve em repouso
o nobre fogo de sua poesia.
Tem de se saber as coisas destes homens
que por grandes que são dissimulam-se
menosprezando as hegemonias
tão integrais quanto a madeira
das antigas vigas suavizadas
pelo tato do tempo e do decoro.
Agora está aqui outra vez meu
companheiro.
E como o conheço não lhe digo
nada além de “Bom dia”.
que distância e que parco cavalheiro:
parecia que não, que não podia
sair do Chile, minha pátria espinhosa,
minha pátria rochosa e movediça.
Dali até aqui, formalmente trajado
de gravata e calça bem passada
atlântico chegou, depois de tudo,
sem comentar a heroica travessia,
em um avião repleto,
o passageiro de primeira vez.
Tem de se levar em conta
sua identidade estática e poética,
o quieto numeral de cada dia
que manteve em repouso
o nobre fogo de sua poesia.
Tem de se saber as coisas destes homens
que por grandes que são dissimulam-se
menosprezando as hegemonias
tão integrais quanto a madeira
das antigas vigas suavizadas
pelo tato do tempo e do decoro.
Agora está aqui outra vez meu
companheiro.
E como o conheço não lhe digo
nada além de “Bom dia”.
1 160