Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
José Saramago
10
Certos homens embora não adaptados morfologicamente passaram a viver debaixo do chão
Utilizaram a técnica da toupeira a céu fechado por sofrerem de limitações físicas semelhantes
E se é verdade que com o tempo desenvolveram as unhas em comprimento e resistência
Nunca puderam cavar galerias profundas
Custar-lhes-ia provavelmente distanciarem-se do sol
Caso em que teriam muito mais razão do que a toupeira que é cega ou quase e o homem não ainda que nesse sentido tenha feito alguns progressos
Por isso é fácil descobrir os túneis cavados por estes homens que se afastaram do mundo exterior
Com a preocupação de romperem caminho tão perto da luz estalam a crosta da terra e são como os avestruzes que se supõem escondidos
Os perseguidores nem mesmo hesitam entre os dois extremos do túnel como se poderia hesitar perante o risco feito na areia por aqueles bivalves de água doce que acreditam no destino
Porque onde a terra estiver mais fresca ali estará agitando-se devagar o oculto
Uma lança cravada a pique ou uma estaca trespassam pelas costas o homem de unhas longas e coragem insuficiente
Boa armadilha seria porém a galeria cavada à superfície
Se os homens que assim escolheram viver compreendessem que têm de cavar para baixo e fundo um poço antes que venham a lança e a estaca
Para que o perseguidor morra enterrado no preciso momento em que iria matar e para que comecem a igualar-se as perdas
Em nome da simples e necessária justiça
Utilizaram a técnica da toupeira a céu fechado por sofrerem de limitações físicas semelhantes
E se é verdade que com o tempo desenvolveram as unhas em comprimento e resistência
Nunca puderam cavar galerias profundas
Custar-lhes-ia provavelmente distanciarem-se do sol
Caso em que teriam muito mais razão do que a toupeira que é cega ou quase e o homem não ainda que nesse sentido tenha feito alguns progressos
Por isso é fácil descobrir os túneis cavados por estes homens que se afastaram do mundo exterior
Com a preocupação de romperem caminho tão perto da luz estalam a crosta da terra e são como os avestruzes que se supõem escondidos
Os perseguidores nem mesmo hesitam entre os dois extremos do túnel como se poderia hesitar perante o risco feito na areia por aqueles bivalves de água doce que acreditam no destino
Porque onde a terra estiver mais fresca ali estará agitando-se devagar o oculto
Uma lança cravada a pique ou uma estaca trespassam pelas costas o homem de unhas longas e coragem insuficiente
Boa armadilha seria porém a galeria cavada à superfície
Se os homens que assim escolheram viver compreendessem que têm de cavar para baixo e fundo um poço antes que venham a lança e a estaca
Para que o perseguidor morra enterrado no preciso momento em que iria matar e para que comecem a igualar-se as perdas
Em nome da simples e necessária justiça
985
José Saramago
10
Certos homens embora não adaptados morfologicamente passaram a viver debaixo do chão
Utilizaram a técnica da toupeira a céu fechado por sofrerem de limitações físicas semelhantes
E se é verdade que com o tempo desenvolveram as unhas em comprimento e resistência
Nunca puderam cavar galerias profundas
Custar-lhes-ia provavelmente distanciarem-se do sol
Caso em que teriam muito mais razão do que a toupeira que é cega ou quase e o homem não ainda que nesse sentido tenha feito alguns progressos
Por isso é fácil descobrir os túneis cavados por estes homens que se afastaram do mundo exterior
Com a preocupação de romperem caminho tão perto da luz estalam a crosta da terra e são como os avestruzes que se supõem escondidos
Os perseguidores nem mesmo hesitam entre os dois extremos do túnel como se poderia hesitar perante o risco feito na areia por aqueles bivalves de água doce que acreditam no destino
Porque onde a terra estiver mais fresca ali estará agitando-se devagar o oculto
Uma lança cravada a pique ou uma estaca trespassam pelas costas o homem de unhas longas e coragem insuficiente
Boa armadilha seria porém a galeria cavada à superfície
Se os homens que assim escolheram viver compreendessem que têm de cavar para baixo e fundo um poço antes que venham a lança e a estaca
Para que o perseguidor morra enterrado no preciso momento em que iria matar e para que comecem a igualar-se as perdas
Em nome da simples e necessária justiça
Utilizaram a técnica da toupeira a céu fechado por sofrerem de limitações físicas semelhantes
E se é verdade que com o tempo desenvolveram as unhas em comprimento e resistência
Nunca puderam cavar galerias profundas
Custar-lhes-ia provavelmente distanciarem-se do sol
Caso em que teriam muito mais razão do que a toupeira que é cega ou quase e o homem não ainda que nesse sentido tenha feito alguns progressos
Por isso é fácil descobrir os túneis cavados por estes homens que se afastaram do mundo exterior
Com a preocupação de romperem caminho tão perto da luz estalam a crosta da terra e são como os avestruzes que se supõem escondidos
Os perseguidores nem mesmo hesitam entre os dois extremos do túnel como se poderia hesitar perante o risco feito na areia por aqueles bivalves de água doce que acreditam no destino
Porque onde a terra estiver mais fresca ali estará agitando-se devagar o oculto
Uma lança cravada a pique ou uma estaca trespassam pelas costas o homem de unhas longas e coragem insuficiente
Boa armadilha seria porém a galeria cavada à superfície
Se os homens que assim escolheram viver compreendessem que têm de cavar para baixo e fundo um poço antes que venham a lança e a estaca
Para que o perseguidor morra enterrado no preciso momento em que iria matar e para que comecem a igualar-se as perdas
Em nome da simples e necessária justiça
985
José Saramago
25
Embora houvesse já muito tempo que não nasciam crianças não se perdera por completo a lembrança de um mundo fértil
E acontecera mesmo que algumas tribos mais sedentárias redescobriram certas práticas mágicas que vinham de tempos antiquíssimos
Por isso nos campos cultivados faziam correr as mulheres menstruadas pra que o sangue escorrendo ao longo das pernas embebesse o chão com sangue de vida e não de morte
Nuas corriam deixando um rasto que os homens cobriam cuidadosamente de terra para que nem uma gota secasse sob o calor agora nocivo do sol
E um dia vinda de longe uma mulher grávida quase no fim do tempo chegou e pediu que a deixassem ficar ali até parir
Porém preciosa era aquela criança que estava para nascer e a sua mãe foi dada a melhor cabana e duas mulheres de mais experiência ficaram com ela para a assistirem no parto
Mas antes que a criança nascesse um homem escolhido da tribo uniu-se carnalmente à mulher grávida
E desta maneira tudo começou naquele lugar e não noutro com aquela gente e não outra apenas com o presente e o futuro não o passado
Alguns dias mais tarde nasceu uma criança e houve as melancólicas festas de então e todas as mulheres se declararam grávidas
Mas a mãe da criança desapareceu nessa mesma noite enquanto longe dali as tribos que haviam atravessado a montanha começavam a mover-se na planície em direcção à cidade armada
E acontecera mesmo que algumas tribos mais sedentárias redescobriram certas práticas mágicas que vinham de tempos antiquíssimos
Por isso nos campos cultivados faziam correr as mulheres menstruadas pra que o sangue escorrendo ao longo das pernas embebesse o chão com sangue de vida e não de morte
Nuas corriam deixando um rasto que os homens cobriam cuidadosamente de terra para que nem uma gota secasse sob o calor agora nocivo do sol
E um dia vinda de longe uma mulher grávida quase no fim do tempo chegou e pediu que a deixassem ficar ali até parir
Porém preciosa era aquela criança que estava para nascer e a sua mãe foi dada a melhor cabana e duas mulheres de mais experiência ficaram com ela para a assistirem no parto
Mas antes que a criança nascesse um homem escolhido da tribo uniu-se carnalmente à mulher grávida
E desta maneira tudo começou naquele lugar e não noutro com aquela gente e não outra apenas com o presente e o futuro não o passado
Alguns dias mais tarde nasceu uma criança e houve as melancólicas festas de então e todas as mulheres se declararam grávidas
Mas a mãe da criança desapareceu nessa mesma noite enquanto longe dali as tribos que haviam atravessado a montanha começavam a mover-se na planície em direcção à cidade armada
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José Saramago
23
Os ordenadores utilizados pelo ocupante são alimentados a carne humana porque a electrónica não pode bastar a tudo
E também porque desse modo se introduz um rito sacrificial que com o tempo dará talvez uma religião útil ao ocupante por voluntária aceitação das vítimas
É porém sabido que nenhuma parcela de cérebro humano convirá que entre na câmara de alimentação dos ordenadores
Caso contrário ocorreriam perturbações no complicado sistema de destruição dos homens fora e dentro das cidades que procede tanto por meios imediatos e grosseiros como por outros subtis e mais para diante
A fim de prevenir esta perigosa eventualidade os melhores anatomistas do ocupante foram promovidos a inspectores da fiscalização alimentar dos ordenadores
Com a obrigação de examinarem minuciosamente a carne humana atirada três vezes ao dia para dentro da câmara esterilizada forrada de dentes de aço
Graças a estes cuidados a administração geral tem funcionado com regularidade e os resultados obtidos correspondem aos previstos com a aproximação de duas décimas milésimas
A carne humana ainda é tempo de o dizer é o melhor que existe para alimentar o domínio de quaisquer ocupantes se exceptuarmos o cérebro
Porém hoje sem que o inspector de serviço se apercebesse uma certa mão cortada metida na câmara apertava no oco dos dedos uma pasta acinzentada contendo algumas centenas de milhões de neurónios
E se é verdade que até agora não chegaram notícias extraordinárias de fora da cidade
Pela primeira vez dentro dela um soldado ocupante se enforcou deixando uma carta que não chegou a ser lida pelo seu comandante porque o soldado que a levava foi apanhado e morto na primeira emboscada
Entretanto o ordenador modifica dentro de si todos os programas substitui todas as memórias e prepara secretamente a ofensiva
Neste preciso momento o responsável pela segurança anota a hora da ronda e escreve no registo nada a assinalar
E também porque desse modo se introduz um rito sacrificial que com o tempo dará talvez uma religião útil ao ocupante por voluntária aceitação das vítimas
É porém sabido que nenhuma parcela de cérebro humano convirá que entre na câmara de alimentação dos ordenadores
Caso contrário ocorreriam perturbações no complicado sistema de destruição dos homens fora e dentro das cidades que procede tanto por meios imediatos e grosseiros como por outros subtis e mais para diante
A fim de prevenir esta perigosa eventualidade os melhores anatomistas do ocupante foram promovidos a inspectores da fiscalização alimentar dos ordenadores
Com a obrigação de examinarem minuciosamente a carne humana atirada três vezes ao dia para dentro da câmara esterilizada forrada de dentes de aço
Graças a estes cuidados a administração geral tem funcionado com regularidade e os resultados obtidos correspondem aos previstos com a aproximação de duas décimas milésimas
A carne humana ainda é tempo de o dizer é o melhor que existe para alimentar o domínio de quaisquer ocupantes se exceptuarmos o cérebro
Porém hoje sem que o inspector de serviço se apercebesse uma certa mão cortada metida na câmara apertava no oco dos dedos uma pasta acinzentada contendo algumas centenas de milhões de neurónios
E se é verdade que até agora não chegaram notícias extraordinárias de fora da cidade
Pela primeira vez dentro dela um soldado ocupante se enforcou deixando uma carta que não chegou a ser lida pelo seu comandante porque o soldado que a levava foi apanhado e morto na primeira emboscada
Entretanto o ordenador modifica dentro de si todos os programas substitui todas as memórias e prepara secretamente a ofensiva
Neste preciso momento o responsável pela segurança anota a hora da ronda e escreve no registo nada a assinalar
944
José Saramago
23
Os ordenadores utilizados pelo ocupante são alimentados a carne humana porque a electrónica não pode bastar a tudo
E também porque desse modo se introduz um rito sacrificial que com o tempo dará talvez uma religião útil ao ocupante por voluntária aceitação das vítimas
É porém sabido que nenhuma parcela de cérebro humano convirá que entre na câmara de alimentação dos ordenadores
Caso contrário ocorreriam perturbações no complicado sistema de destruição dos homens fora e dentro das cidades que procede tanto por meios imediatos e grosseiros como por outros subtis e mais para diante
A fim de prevenir esta perigosa eventualidade os melhores anatomistas do ocupante foram promovidos a inspectores da fiscalização alimentar dos ordenadores
Com a obrigação de examinarem minuciosamente a carne humana atirada três vezes ao dia para dentro da câmara esterilizada forrada de dentes de aço
Graças a estes cuidados a administração geral tem funcionado com regularidade e os resultados obtidos correspondem aos previstos com a aproximação de duas décimas milésimas
A carne humana ainda é tempo de o dizer é o melhor que existe para alimentar o domínio de quaisquer ocupantes se exceptuarmos o cérebro
Porém hoje sem que o inspector de serviço se apercebesse uma certa mão cortada metida na câmara apertava no oco dos dedos uma pasta acinzentada contendo algumas centenas de milhões de neurónios
E se é verdade que até agora não chegaram notícias extraordinárias de fora da cidade
Pela primeira vez dentro dela um soldado ocupante se enforcou deixando uma carta que não chegou a ser lida pelo seu comandante porque o soldado que a levava foi apanhado e morto na primeira emboscada
Entretanto o ordenador modifica dentro de si todos os programas substitui todas as memórias e prepara secretamente a ofensiva
Neste preciso momento o responsável pela segurança anota a hora da ronda e escreve no registo nada a assinalar
E também porque desse modo se introduz um rito sacrificial que com o tempo dará talvez uma religião útil ao ocupante por voluntária aceitação das vítimas
É porém sabido que nenhuma parcela de cérebro humano convirá que entre na câmara de alimentação dos ordenadores
Caso contrário ocorreriam perturbações no complicado sistema de destruição dos homens fora e dentro das cidades que procede tanto por meios imediatos e grosseiros como por outros subtis e mais para diante
A fim de prevenir esta perigosa eventualidade os melhores anatomistas do ocupante foram promovidos a inspectores da fiscalização alimentar dos ordenadores
Com a obrigação de examinarem minuciosamente a carne humana atirada três vezes ao dia para dentro da câmara esterilizada forrada de dentes de aço
Graças a estes cuidados a administração geral tem funcionado com regularidade e os resultados obtidos correspondem aos previstos com a aproximação de duas décimas milésimas
A carne humana ainda é tempo de o dizer é o melhor que existe para alimentar o domínio de quaisquer ocupantes se exceptuarmos o cérebro
Porém hoje sem que o inspector de serviço se apercebesse uma certa mão cortada metida na câmara apertava no oco dos dedos uma pasta acinzentada contendo algumas centenas de milhões de neurónios
E se é verdade que até agora não chegaram notícias extraordinárias de fora da cidade
Pela primeira vez dentro dela um soldado ocupante se enforcou deixando uma carta que não chegou a ser lida pelo seu comandante porque o soldado que a levava foi apanhado e morto na primeira emboscada
Entretanto o ordenador modifica dentro de si todos os programas substitui todas as memórias e prepara secretamente a ofensiva
Neste preciso momento o responsável pela segurança anota a hora da ronda e escreve no registo nada a assinalar
944
José Saramago
23
Os ordenadores utilizados pelo ocupante são alimentados a carne humana porque a electrónica não pode bastar a tudo
E também porque desse modo se introduz um rito sacrificial que com o tempo dará talvez uma religião útil ao ocupante por voluntária aceitação das vítimas
É porém sabido que nenhuma parcela de cérebro humano convirá que entre na câmara de alimentação dos ordenadores
Caso contrário ocorreriam perturbações no complicado sistema de destruição dos homens fora e dentro das cidades que procede tanto por meios imediatos e grosseiros como por outros subtis e mais para diante
A fim de prevenir esta perigosa eventualidade os melhores anatomistas do ocupante foram promovidos a inspectores da fiscalização alimentar dos ordenadores
Com a obrigação de examinarem minuciosamente a carne humana atirada três vezes ao dia para dentro da câmara esterilizada forrada de dentes de aço
Graças a estes cuidados a administração geral tem funcionado com regularidade e os resultados obtidos correspondem aos previstos com a aproximação de duas décimas milésimas
A carne humana ainda é tempo de o dizer é o melhor que existe para alimentar o domínio de quaisquer ocupantes se exceptuarmos o cérebro
Porém hoje sem que o inspector de serviço se apercebesse uma certa mão cortada metida na câmara apertava no oco dos dedos uma pasta acinzentada contendo algumas centenas de milhões de neurónios
E se é verdade que até agora não chegaram notícias extraordinárias de fora da cidade
Pela primeira vez dentro dela um soldado ocupante se enforcou deixando uma carta que não chegou a ser lida pelo seu comandante porque o soldado que a levava foi apanhado e morto na primeira emboscada
Entretanto o ordenador modifica dentro de si todos os programas substitui todas as memórias e prepara secretamente a ofensiva
Neste preciso momento o responsável pela segurança anota a hora da ronda e escreve no registo nada a assinalar
E também porque desse modo se introduz um rito sacrificial que com o tempo dará talvez uma religião útil ao ocupante por voluntária aceitação das vítimas
É porém sabido que nenhuma parcela de cérebro humano convirá que entre na câmara de alimentação dos ordenadores
Caso contrário ocorreriam perturbações no complicado sistema de destruição dos homens fora e dentro das cidades que procede tanto por meios imediatos e grosseiros como por outros subtis e mais para diante
A fim de prevenir esta perigosa eventualidade os melhores anatomistas do ocupante foram promovidos a inspectores da fiscalização alimentar dos ordenadores
Com a obrigação de examinarem minuciosamente a carne humana atirada três vezes ao dia para dentro da câmara esterilizada forrada de dentes de aço
Graças a estes cuidados a administração geral tem funcionado com regularidade e os resultados obtidos correspondem aos previstos com a aproximação de duas décimas milésimas
A carne humana ainda é tempo de o dizer é o melhor que existe para alimentar o domínio de quaisquer ocupantes se exceptuarmos o cérebro
Porém hoje sem que o inspector de serviço se apercebesse uma certa mão cortada metida na câmara apertava no oco dos dedos uma pasta acinzentada contendo algumas centenas de milhões de neurónios
E se é verdade que até agora não chegaram notícias extraordinárias de fora da cidade
Pela primeira vez dentro dela um soldado ocupante se enforcou deixando uma carta que não chegou a ser lida pelo seu comandante porque o soldado que a levava foi apanhado e morto na primeira emboscada
Entretanto o ordenador modifica dentro de si todos os programas substitui todas as memórias e prepara secretamente a ofensiva
Neste preciso momento o responsável pela segurança anota a hora da ronda e escreve no registo nada a assinalar
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José Saramago
22
E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu
Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade
O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão
Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos
Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros
Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu
E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam
Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam
Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor
E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
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José Saramago
West Side Story
Os jardins de Verona redivivos
No cimento cinzento desta era:
Um recado passado a outra mão,
Uma nova experiência, outra espera.
No cimento cinzento desta era:
Um recado passado a outra mão,
Uma nova experiência, outra espera.
962
José Saramago
Demissão
Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.
1 241
José Saramago
Demissão
Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.
1 241
José Saramago
Demissão
Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.
1 241
José Saramago
Mãos Limpas
Do gesto de matar a ambas mãos
O jeito de amassar não é diferente
(Que bom este progresso, que descanso:
O botão da direita dá o pão,
Com o botão da esquerda, facilmente,
Disparo, sem olhar, o foguetão,
E o inimigo alcanço).
O jeito de amassar não é diferente
(Que bom este progresso, que descanso:
O botão da direita dá o pão,
Com o botão da esquerda, facilmente,
Disparo, sem olhar, o foguetão,
E o inimigo alcanço).
1 029
José Saramago
Mãos Limpas
Do gesto de matar a ambas mãos
O jeito de amassar não é diferente
(Que bom este progresso, que descanso:
O botão da direita dá o pão,
Com o botão da esquerda, facilmente,
Disparo, sem olhar, o foguetão,
E o inimigo alcanço).
O jeito de amassar não é diferente
(Que bom este progresso, que descanso:
O botão da direita dá o pão,
Com o botão da esquerda, facilmente,
Disparo, sem olhar, o foguetão,
E o inimigo alcanço).
1 029
José Saramago
Mãos Limpas
Do gesto de matar a ambas mãos
O jeito de amassar não é diferente
(Que bom este progresso, que descanso:
O botão da direita dá o pão,
Com o botão da esquerda, facilmente,
Disparo, sem olhar, o foguetão,
E o inimigo alcanço).
O jeito de amassar não é diferente
(Que bom este progresso, que descanso:
O botão da direita dá o pão,
Com o botão da esquerda, facilmente,
Disparo, sem olhar, o foguetão,
E o inimigo alcanço).
1 029
José Saramago
Contracanto
Aqui, longe do sol, que mais farei
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.
Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.
Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.
Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.
Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.
1 324
José Saramago
Não Das Águas do Mar
Não das águas do mar, mas destas outras,
Dos lentos remoinhos, onde as folhas
Desprendidas e mortas se balouçam;
Do irisado gás gorgolejante,
Que o respirar do lodo vai soltando,
É que a vida dos homens se formou
De sombra e de mistério amalgamada.
Na vastidão do mar nasceram deuses:
Somos frutos da lama, a água turvada.
Dos lentos remoinhos, onde as folhas
Desprendidas e mortas se balouçam;
Do irisado gás gorgolejante,
Que o respirar do lodo vai soltando,
É que a vida dos homens se formou
De sombra e de mistério amalgamada.
Na vastidão do mar nasceram deuses:
Somos frutos da lama, a água turvada.
1 220
José Saramago
Criação
Deus não existe ainda, nem sei quando
Sequer o esboço, a cor se afirmará
No desenho confuso da passagem
De gerações inúmeras nesta esfera.
Nenhum gesto se perde, nenhum traço,
Que o sentido da vida é este só:
Fazer da Terra um Deus que nos mereça,
E dar ao Universo o Deus que espera.
Sequer o esboço, a cor se afirmará
No desenho confuso da passagem
De gerações inúmeras nesta esfera.
Nenhum gesto se perde, nenhum traço,
Que o sentido da vida é este só:
Fazer da Terra um Deus que nos mereça,
E dar ao Universo o Deus que espera.
1 282
José Saramago
Negócio
Quanto de mim é ouro, não se vende.
O resto desprezado, com o ouro,
Eu o darei a quem o ouro entende.
O resto desprezado, com o ouro,
Eu o darei a quem o ouro entende.
1 263
José Saramago
Julieta a Romeu
É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
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José Saramago
Julieta a Romeu
É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.
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José Saramago
Os Inquiridores
Está o mundo coberto de piolhos:
Não há palmo de terra onde não suguem,
Não há segredo de alma que não espreitem
Nem sonho que não mordam e pervertam.
Nos seus lombos peludos se divertem
Todas as cores que, neles, são ameaças:
Há-os castanhos, verdes, amarelos,
Há-os negros, vermelhos e cinzentos.
E todos se encarniçam, comem todos,
Concertados, vorazes, no seu tento
De deixar, como restos de banquete,
No deserto da terra ossos esburgados.
Não há palmo de terra onde não suguem,
Não há segredo de alma que não espreitem
Nem sonho que não mordam e pervertam.
Nos seus lombos peludos se divertem
Todas as cores que, neles, são ameaças:
Há-os castanhos, verdes, amarelos,
Há-os negros, vermelhos e cinzentos.
E todos se encarniçam, comem todos,
Concertados, vorazes, no seu tento
De deixar, como restos de banquete,
No deserto da terra ossos esburgados.
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José Saramago
Sancho
Capaz de medos, sim, mas não de assombros.
Para assombros outra alma se precisa
Mais nua e desarmada.
Mas dessa bruta mão cai a semente
Que a teu amo sustenta, e sem o pão,
Até assombro é nada.
Para assombros outra alma se precisa
Mais nua e desarmada.
Mas dessa bruta mão cai a semente
Que a teu amo sustenta, e sem o pão,
Até assombro é nada.
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