Sociedade e Mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fragmento de «Os Gracos»
Os ricos nunca perdem a jogada
Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros
São hábeis e sábios
Têm uma longa experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham
Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena
«………………………………………………»
(Os Gracos, I Acto, II Cena, 1968)
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fragmento de «Os Gracos»
Os ricos nunca perdem a jogada
Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros
São hábeis e sábios
Têm uma longa experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham
Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena
«………………………………………………»
(Os Gracos, I Acto, II Cena, 1968)
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fragmento de «Os Gracos»
Os ricos nunca perdem a jogada
Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros
São hábeis e sábios
Têm uma longa experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham
Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena
«………………………………………………»
(Os Gracos, I Acto, II Cena, 1968)
Sophia de Mello Breyner Andresen
Xvii. Estilo Manuelino
Não a nave românica onde a regra
Da semente sobe da terra
Nem o fuste de espiga
Da coluna grega
Mas a flor dos encontros que a errância
Em sua deriva agrega
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. Dos Homens Nus E Negros Contarei
E de como não havendo já connosco
Quem de seu falar algo entendesse
Juntos dançámos pra nos entendermos
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. Dos Homens Nus E Negros Contarei
E de como não havendo já connosco
Quem de seu falar algo entendesse
Juntos dançámos pra nos entendermos
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
Esteira E Cesto
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto
Mas seu humano casamento com a terra
Sophia de Mello Breyner Andresen
Esteira E Cesto
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto
Mas seu humano casamento com a terra
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. Navegação Abstracta
Fito como um peixe o voo segue a rota
Vista de cima tornou-se a terra um mapa
Porém subitamente
Atravessámos do Oriente a grande porta
De safiras azuis no mar luzente
1977
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Príncipe Bastardo
Morreu no exílio não conquistou seu reino
E aqueles que invocou não o coroaram
Entre ele e seu destino havia um outro
Perdido em batalha tão confusa
Que ninguém sabe se está vivo ou morto
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Príncipe Bastardo
Morreu no exílio não conquistou seu reino
E aqueles que invocou não o coroaram
Entre ele e seu destino havia um outro
Perdido em batalha tão confusa
Que ninguém sabe se está vivo ou morto
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. Eu Vos Direi a Grande Praia Branca
E os homens nus e negros que dançavam
Pra sustentar o céu com suas lanças
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
Projecto Ii
Do dia primordial. Reencontrar a inteireza
Reencontrar o acordo livre e justo
E recomeçar cada coisa a partir do princípio
Em sua empresa falharam e o relato
De sua errância erros e derrotas
De seus desencontros e desencontradas lutas
É moroso e confuso
Porém restam
Do quebrado projecto de sua empresa em ruína
Canto e pranto clamor palavras harpas
Que de geração em geração ecoam
Em contínua memória de um projecto
Que sem cessar de novo tentaremos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Projecto Ii
Do dia primordial. Reencontrar a inteireza
Reencontrar o acordo livre e justo
E recomeçar cada coisa a partir do princípio
Em sua empresa falharam e o relato
De sua errância erros e derrotas
De seus desencontros e desencontradas lutas
É moroso e confuso
Porém restam
Do quebrado projecto de sua empresa em ruína
Canto e pranto clamor palavras harpas
Que de geração em geração ecoam
Em contínua memória de um projecto
Que sem cessar de novo tentaremos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Xv. Inversa Navegação
Tédio já sem Tejo
Cinzento hostil dos quartos
Ruas desoladas
Verso a verso
Lisboa anti-pátria da vida
1978
Sophia de Mello Breyner Andresen
Xi. Olhos Abertos do Navegador
Mudam aqui a luz a sombra a cor
E também faces e gestos se modulam
Segundo elaboradas estranhezas
Outro o recorte da vaga e do penedo
Caudas de dragões seguem os barcos
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tripoli 76
Cruzam-se muitas e diversas gentes
Vindas de muitos e diversos mundos
Vestindo muitas e diversas roupas
Falando muitas e diversas línguas
Vêm de muitos e diversos ritos
E cultos e culturas e paragens
II
O recitador entoa a palavra modulada
Rouca de deserto e sol e imensidão
Entoa a veemência nua da palavra
Fronteira de puro Deus e puro nada
III
E Leptis Magna em sua pedra cor de trigo
E em seu chão de laje pelo sol varrido
Guarda o matinal no mais antigo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tripoli 76
Cruzam-se muitas e diversas gentes
Vindas de muitos e diversos mundos
Vestindo muitas e diversas roupas
Falando muitas e diversas línguas
Vêm de muitos e diversos ritos
E cultos e culturas e paragens
II
O recitador entoa a palavra modulada
Rouca de deserto e sol e imensidão
Entoa a veemência nua da palavra
Fronteira de puro Deus e puro nada
III
E Leptis Magna em sua pedra cor de trigo
E em seu chão de laje pelo sol varrido
Guarda o matinal no mais antigo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tripoli 76
Cruzam-se muitas e diversas gentes
Vindas de muitos e diversos mundos
Vestindo muitas e diversas roupas
Falando muitas e diversas línguas
Vêm de muitos e diversos ritos
E cultos e culturas e paragens
II
O recitador entoa a palavra modulada
Rouca de deserto e sol e imensidão
Entoa a veemência nua da palavra
Fronteira de puro Deus e puro nada
III
E Leptis Magna em sua pedra cor de trigo
E em seu chão de laje pelo sol varrido
Guarda o matinal no mais antigo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Açores
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior
Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação
Mas este convés
É de terra escura
É de lés a lés
Prado agricultura
É terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores
Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa
As casas são brancas
Em luz de pintor
Quem pintou as barras
Afinou a cor
Aqui o antigo
Tem o limpo do novo —
É o mar que traz
Do largo o renovo
E como num convés
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e clareza
É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz
As ilhas na mão
Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas
E foi na Terceira
Com o mar à proa
Que nasceu a mãe
Do poeta Pessoa
Em cujo poema
Respiro amplidão
E me cerca a luz
Da navegação
Em cujo poema
Como num convés
A limpeza extrema
Luz de lés a lés
Poema onde está
A palavra pura
De um povo cindido
Por tanta aventura
Poema onde está
A palavra extrema
Que une e reconhece —
Pois só no poema
Um povo amanhece
1976
Sophia de Mello Breyner Andresen
Açores
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior
Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação
Mas este convés
É de terra escura
É de lés a lés
Prado agricultura
É terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores
Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa
As casas são brancas
Em luz de pintor
Quem pintou as barras
Afinou a cor
Aqui o antigo
Tem o limpo do novo —
É o mar que traz
Do largo o renovo
E como num convés
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e clareza
É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz
As ilhas na mão
Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas
E foi na Terceira
Com o mar à proa
Que nasceu a mãe
Do poeta Pessoa
Em cujo poema
Respiro amplidão
E me cerca a luz
Da navegação
Em cujo poema
Como num convés
A limpeza extrema
Luz de lés a lés
Poema onde está
A palavra pura
De um povo cindido
Por tanta aventura
Poema onde está
A palavra extrema
Que une e reconhece —
Pois só no poema
Um povo amanhece
1976
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. Navegámos Para Oriente
A longa costa
Era de um verde espesso e sonolento
Um verde imóvel sob o nenhum vento
Até à branca praia cor de rosas
Tocada pelas águas transparentes
Então surgiram as ilhas luminosas
De um azul tão puro e tão violento
Que excedia o fulgor do firmamento
Navegado por garças milagrosas
E extinguiram-se em nós memória e tempo
1977
Sophia de Mello Breyner Andresen
Notas
1. Os poemas I e III são invocações da voz de Camões.
2. O poema VII é um poema sobre Dom Sebastião.
DERIVA
3. O poema IV é uma invocação de Bartolomeu Dias, o maior de todos os navegadores.
4. O poema V é uma glosa livre da Carta de Pêro Vaz de Caminha.
5. O poema XIII é uma invocação de Pessoa, que disse pertencer ao número daqueles portugueses que depois da descoberta da Índia ficaram sem emprego.
6. O poema XIV é uma invocação de Jorge de Sena.
7. O poema XV é um poema sobre as diversas Reboleiras de Lisboa, atro-zes e sem Tejo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Notas
1. Os poemas I e III são invocações da voz de Camões.
2. O poema VII é um poema sobre Dom Sebastião.
DERIVA
3. O poema IV é uma invocação de Bartolomeu Dias, o maior de todos os navegadores.
4. O poema V é uma glosa livre da Carta de Pêro Vaz de Caminha.
5. O poema XIII é uma invocação de Pessoa, que disse pertencer ao número daqueles portugueses que depois da descoberta da Índia ficaram sem emprego.
6. O poema XIV é uma invocação de Jorge de Sena.
7. O poema XV é um poema sobre as diversas Reboleiras de Lisboa, atro-zes e sem Tejo.