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Poemas neste tema

Natureza e Elementos

Herberto Helder

Herberto Helder

Em Marte Aparece a Tua Cabeça -

Em marte aparece a tua cabeça —
eu queria dizer. No lugar onde
desapareceu a janela,
a cabeça de vaca de fogo, aparece
a cabeça. Onde era a cortina fria,
de pássaro escutando.
Em marte, como a roupa bate no vento
e na terra as ferraduras batem
no meu cabelo.
Como o fogo dentro da pedra turquesa,
em marte aparece a tua
cabeça de vaca. Por detrás da fria cortina —
eu queria dizer.

Agora sei que devo saber, só.
As letras da chuva loucas nas costas —
escrevendo, escrevendo.
Só, eu sei a dormir. Com um ramo
de peixes e um violino
no meio dos 11, dos mm, dos ii
da chuva.
Com meu ramo de violinos, só eu
no meio da chuva. Agora
sei que devo escrever os meus peixes.
A tua cabeça
aparece na janela de marte em fogo.
O fogo que anda em ti que andas como uma
pedra turquesa,
ao lado da fria cortina. Olhando, escutando
como um pássaro, onde chove.
Como só agora sei com as letras.

A chuva abre-te, o dia bate, a roupa
tropeça com as ferraduras
no meu cabelo. E só agora fazes
teu gesto com chuva, no meio das letras.
Abre-te, oh abre-te. Na cortina,
agora, a tua cabeça ao lado dos peixes —
escutando, escrevendo,
como só agora eu sei: o meu ramo
de violinos.

Escuta: o copo, a catedral, o livro,
o candeeiro.
Eu agora sei escrevendo de lado o fogo
da cabeça. Escuta: descasco
maçãs, cômo maçãs, as maçãs
aparecem na sua cor ao meio — e juntam-se
entre si, e vão sonhar. Escuta:
chovendo, escutando, escrevendo.
A roupa bate no vento.
Escuta como só agora bate a cor
nas maçãs. Atua cabeça, a cortina fria.

Dou-te as letras dos peixes, escutando —
só agora, só agora.
Escutando em ti, abrindo
com a tua chave todas as tuas maçãs
na sua cor. Só agora
escrevendo eu sei.
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Herberto Helder

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Em Marte Aparece a Tua Cabeça -

Em marte aparece a tua cabeça —
eu queria dizer. No lugar onde
desapareceu a janela,
a cabeça de vaca de fogo, aparece
a cabeça. Onde era a cortina fria,
de pássaro escutando.
Em marte, como a roupa bate no vento
e na terra as ferraduras batem
no meu cabelo.
Como o fogo dentro da pedra turquesa,
em marte aparece a tua
cabeça de vaca. Por detrás da fria cortina —
eu queria dizer.

Agora sei que devo saber, só.
As letras da chuva loucas nas costas —
escrevendo, escrevendo.
Só, eu sei a dormir. Com um ramo
de peixes e um violino
no meio dos 11, dos mm, dos ii
da chuva.
Com meu ramo de violinos, só eu
no meio da chuva. Agora
sei que devo escrever os meus peixes.
A tua cabeça
aparece na janela de marte em fogo.
O fogo que anda em ti que andas como uma
pedra turquesa,
ao lado da fria cortina. Olhando, escutando
como um pássaro, onde chove.
Como só agora sei com as letras.

A chuva abre-te, o dia bate, a roupa
tropeça com as ferraduras
no meu cabelo. E só agora fazes
teu gesto com chuva, no meio das letras.
Abre-te, oh abre-te. Na cortina,
agora, a tua cabeça ao lado dos peixes —
escutando, escrevendo,
como só agora eu sei: o meu ramo
de violinos.

Escuta: o copo, a catedral, o livro,
o candeeiro.
Eu agora sei escrevendo de lado o fogo
da cabeça. Escuta: descasco
maçãs, cômo maçãs, as maçãs
aparecem na sua cor ao meio — e juntam-se
entre si, e vão sonhar. Escuta:
chovendo, escutando, escrevendo.
A roupa bate no vento.
Escuta como só agora bate a cor
nas maçãs. Atua cabeça, a cortina fria.

Dou-te as letras dos peixes, escutando —
só agora, só agora.
Escutando em ti, abrindo
com a tua chave todas as tuas maçãs
na sua cor. Só agora
escrevendo eu sei.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Astro Assoprado

Astro assoprado, sombria ligeireza, dom: eu sei.
Nada me toca.
Apenas um dedo de mármore na cabeça.
Trespassa-a, têmpora a têmpora, coroa de uma agonia
na escuridão das camas. Para dançar.
A roupa treme ao choque do sangue,
magnetizada,
viva repentinamente. Ninguém me diz como
se tece o casulo, e a seda
transpira de si mesma. O arpão de mármore traz,
directa do coração,
a ferida. Depois danço, e carne e roupa
são a mesma coisa, a coisa que dança, a chaga
dessa leveza. Prodígio
do talento pontuado à força de branca pedra
demoníaca.

Que me dê essa coroa, que me levante
da sonolência, da obscura inocência
que em mim corre também, entre os lençóis e o tremendo
esplendor das vísceras. Das partes negras,
da queimadura
na boca, os intestinos onde brilha o alimento,
o ânus que me fundamenta
nas trevas, e
dentre a raiz dos membros — arranca
um planeta que dance, limpo, apenas com um anel
saturnino à volta. E o eixo
de mármore implacável.

Que tenha Deus um sonho em carne viva.
Uma noite que trema pelo poder astronómico.
Mas que me poupe assim concêntrico
ao campo, e divagante, a curva
tensa:
o arco, o braço.
E as chispas súbitas, frechas
tão ferozmente pela carne dentro até ao escuro
do próprio astro, deixando um orifício
fulgurante:
um tubo de som,
sopro de ponta a ponta
— aquela baixa música mortal.
Vêm os animais, alvorecendo, os cornos a rasgarem a cabeça
outra espécie de luxo,
de melancolia.
E o corpo é uma harpa de repente.

Animal de Deus, eu.

Uma ferida.
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Herberto Helder

Herberto Helder

3.

Esta ciência selvagem de investigar a força
por dentro dos olhos:
a treva parada numa parte: do outro lado faiscando
todos os astros:
as obturações as
aberturas na carne: não sei ver nos livros a aparição do rosto
todo cercado por uma casa:
não conheço quando nasce a ribeira no meio:
quando nasce quando
a ribeira de uma montanha
no meio
brilhante:
a maldade da linguagem se o cinema mostra
as janelas das paisagens:
e essa forma repleta de passos para indagar:
e então é preciso outra maneira de poema: uma
espécie furiosa de pessoa comentando
com muito pormenor:
cabeças cheias de raiva e murmúrios no escuro:
a intensidade dos cabelos em volta dos cornos: e logo o poema
traz as coisas para o quarto: coloca
tudo mais perto do centro:
vê-se a teia que vai da fronte às coxas com os braços reluzentes
por cima
e no meio um remoinho cego:
o sexo: a estrela
tumefacta:
esta ciência é um movimento das mãos contra o espelho:
a parte de trás da cabeça onde vibra o meteoro: é
a onda aproximada: uma porta na sala
que fecha de estrela a estrela:
apenas o sangue e a testa um pouco louca entre os dedos:
copo de mármore:
planeta de aço:
uma flor rija ascensional com os pulmões chamejando
na terra:
essa velocidade que há na noite de lado a lado:
e a testa fervente abismada no mundo: e os pólos
do corpo:
clareira
cerrada à volta: esse modo secreto de tudo mexer
com uma finura viva:
não sei que dedos no estilo para queimar a cara forte
paralisada: a combustão
dentro da fotografia: a sibilante cara:
a cara:
e a maneira sagaz de trazer cada coisa até à própria labareda:
as mãos enxutas muito abertas: o
medo sem um só grito
em frente da noite cosida: camisa
redonda: e este saber
que vê passar os animais fundos e claros e tem
a sua loucura para alimento:
e a casa
para morrer e falar durante o sono e andar
de um canto para outro
com os dedos alumiando limpamente: o circuito magnético entre as
têmporas:
a raiz da ciência desde os pés até aos olhos
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Herberto Helder

Herberto Helder

5.

Não se pode tocar na dança. Toda essa fogueira.
Uma paisagem temível vista depressa
desaparecida.
Porque é tudo sublevado para o olhar.
E é profundo quando vibra um colar de água
no coração da pedra muito limpa.
A dança de baixo para cima. Nunca
uma árvore pôde assim respirar tão entranhada.
Constelação que palpita
em sua imagem
de raízes carnais. E as grandes frutas imóveis
como rostos
contemplados aqui. O sono ferve na cabeça dos mortos.
Os diamantes. Os cabelos
torcidos como garras. Baixos. Violentos.
Ainda.
E o fogo arrasta as serpentes para fora. Alua move
as portas. O sangue brilha no fundo
da boca. Isto é o incêndio
dos braços entreabertos, das espáduas.
Porque tudo caminha inspirado em si mesmo.
Jardins em arco, as casas.
E a dança desde o umbigo puxa os tentáculos à volta.
O dia expulsa as estrelas
das poças. Que os chifres
estremeçam sob as lunações giratórias.
O leite nas tetas. O pêlo amansa.
Pode-se ver a onda a bater nas omoplatas. As coxas
rodando os seus lentos planetas que se afastam.
Da terra,
do meio. Explode a estação mais branca.
Branca no ano.
Vergam-se os quartos. E as caras
demenciais docemente quando aparecem
massacradas.
Onde a luz acaba e a treva toda se volta.
Uma camisa torácica
posta apanhada a cada clarão. Isso com as unhas
a luzir. Em cima os dedos nas mãos. As cobras
hipnóticas.
Dizem que o mel novo enlouquece as pessoas. A dança
arrasta os mortos. Simétricos,
fechados como laços,
como jóias.
Até às ressacas das paisagens que se movem
dia a dia. Pelos incêndios dentro dos animais. Solenes
pedras
sumptuárias. A dança
guiando as montanhas sobre as águas.
Navios cegos.
Branca floresta.


1977.
568
Herberto Helder

Herberto Helder

5.

Não se pode tocar na dança. Toda essa fogueira.
Uma paisagem temível vista depressa
desaparecida.
Porque é tudo sublevado para o olhar.
E é profundo quando vibra um colar de água
no coração da pedra muito limpa.
A dança de baixo para cima. Nunca
uma árvore pôde assim respirar tão entranhada.
Constelação que palpita
em sua imagem
de raízes carnais. E as grandes frutas imóveis
como rostos
contemplados aqui. O sono ferve na cabeça dos mortos.
Os diamantes. Os cabelos
torcidos como garras. Baixos. Violentos.
Ainda.
E o fogo arrasta as serpentes para fora. Alua move
as portas. O sangue brilha no fundo
da boca. Isto é o incêndio
dos braços entreabertos, das espáduas.
Porque tudo caminha inspirado em si mesmo.
Jardins em arco, as casas.
E a dança desde o umbigo puxa os tentáculos à volta.
O dia expulsa as estrelas
das poças. Que os chifres
estremeçam sob as lunações giratórias.
O leite nas tetas. O pêlo amansa.
Pode-se ver a onda a bater nas omoplatas. As coxas
rodando os seus lentos planetas que se afastam.
Da terra,
do meio. Explode a estação mais branca.
Branca no ano.
Vergam-se os quartos. E as caras
demenciais docemente quando aparecem
massacradas.
Onde a luz acaba e a treva toda se volta.
Uma camisa torácica
posta apanhada a cada clarão. Isso com as unhas
a luzir. Em cima os dedos nas mãos. As cobras
hipnóticas.
Dizem que o mel novo enlouquece as pessoas. A dança
arrasta os mortos. Simétricos,
fechados como laços,
como jóias.
Até às ressacas das paisagens que se movem
dia a dia. Pelos incêndios dentro dos animais. Solenes
pedras
sumptuárias. A dança
guiando as montanhas sobre as águas.
Navios cegos.
Branca floresta.


1977.
568
Herberto Helder

Herberto Helder

5.

Não se pode tocar na dança. Toda essa fogueira.
Uma paisagem temível vista depressa
desaparecida.
Porque é tudo sublevado para o olhar.
E é profundo quando vibra um colar de água
no coração da pedra muito limpa.
A dança de baixo para cima. Nunca
uma árvore pôde assim respirar tão entranhada.
Constelação que palpita
em sua imagem
de raízes carnais. E as grandes frutas imóveis
como rostos
contemplados aqui. O sono ferve na cabeça dos mortos.
Os diamantes. Os cabelos
torcidos como garras. Baixos. Violentos.
Ainda.
E o fogo arrasta as serpentes para fora. Alua move
as portas. O sangue brilha no fundo
da boca. Isto é o incêndio
dos braços entreabertos, das espáduas.
Porque tudo caminha inspirado em si mesmo.
Jardins em arco, as casas.
E a dança desde o umbigo puxa os tentáculos à volta.
O dia expulsa as estrelas
das poças. Que os chifres
estremeçam sob as lunações giratórias.
O leite nas tetas. O pêlo amansa.
Pode-se ver a onda a bater nas omoplatas. As coxas
rodando os seus lentos planetas que se afastam.
Da terra,
do meio. Explode a estação mais branca.
Branca no ano.
Vergam-se os quartos. E as caras
demenciais docemente quando aparecem
massacradas.
Onde a luz acaba e a treva toda se volta.
Uma camisa torácica
posta apanhada a cada clarão. Isso com as unhas
a luzir. Em cima os dedos nas mãos. As cobras
hipnóticas.
Dizem que o mel novo enlouquece as pessoas. A dança
arrasta os mortos. Simétricos,
fechados como laços,
como jóias.
Até às ressacas das paisagens que se movem
dia a dia. Pelos incêndios dentro dos animais. Solenes
pedras
sumptuárias. A dança
guiando as montanhas sobre as águas.
Navios cegos.
Branca floresta.


1977.
568
Herberto Helder

Herberto Helder

5.

Não se pode tocar na dança. Toda essa fogueira.
Uma paisagem temível vista depressa
desaparecida.
Porque é tudo sublevado para o olhar.
E é profundo quando vibra um colar de água
no coração da pedra muito limpa.
A dança de baixo para cima. Nunca
uma árvore pôde assim respirar tão entranhada.
Constelação que palpita
em sua imagem
de raízes carnais. E as grandes frutas imóveis
como rostos
contemplados aqui. O sono ferve na cabeça dos mortos.
Os diamantes. Os cabelos
torcidos como garras. Baixos. Violentos.
Ainda.
E o fogo arrasta as serpentes para fora. Alua move
as portas. O sangue brilha no fundo
da boca. Isto é o incêndio
dos braços entreabertos, das espáduas.
Porque tudo caminha inspirado em si mesmo.
Jardins em arco, as casas.
E a dança desde o umbigo puxa os tentáculos à volta.
O dia expulsa as estrelas
das poças. Que os chifres
estremeçam sob as lunações giratórias.
O leite nas tetas. O pêlo amansa.
Pode-se ver a onda a bater nas omoplatas. As coxas
rodando os seus lentos planetas que se afastam.
Da terra,
do meio. Explode a estação mais branca.
Branca no ano.
Vergam-se os quartos. E as caras
demenciais docemente quando aparecem
massacradas.
Onde a luz acaba e a treva toda se volta.
Uma camisa torácica
posta apanhada a cada clarão. Isso com as unhas
a luzir. Em cima os dedos nas mãos. As cobras
hipnóticas.
Dizem que o mel novo enlouquece as pessoas. A dança
arrasta os mortos. Simétricos,
fechados como laços,
como jóias.
Até às ressacas das paisagens que se movem
dia a dia. Pelos incêndios dentro dos animais. Solenes
pedras
sumptuárias. A dança
guiando as montanhas sobre as águas.
Navios cegos.
Branca floresta.


1977.
568
Herberto Helder

Herberto Helder

5.

Não se pode tocar na dança. Toda essa fogueira.
Uma paisagem temível vista depressa
desaparecida.
Porque é tudo sublevado para o olhar.
E é profundo quando vibra um colar de água
no coração da pedra muito limpa.
A dança de baixo para cima. Nunca
uma árvore pôde assim respirar tão entranhada.
Constelação que palpita
em sua imagem
de raízes carnais. E as grandes frutas imóveis
como rostos
contemplados aqui. O sono ferve na cabeça dos mortos.
Os diamantes. Os cabelos
torcidos como garras. Baixos. Violentos.
Ainda.
E o fogo arrasta as serpentes para fora. Alua move
as portas. O sangue brilha no fundo
da boca. Isto é o incêndio
dos braços entreabertos, das espáduas.
Porque tudo caminha inspirado em si mesmo.
Jardins em arco, as casas.
E a dança desde o umbigo puxa os tentáculos à volta.
O dia expulsa as estrelas
das poças. Que os chifres
estremeçam sob as lunações giratórias.
O leite nas tetas. O pêlo amansa.
Pode-se ver a onda a bater nas omoplatas. As coxas
rodando os seus lentos planetas que se afastam.
Da terra,
do meio. Explode a estação mais branca.
Branca no ano.
Vergam-se os quartos. E as caras
demenciais docemente quando aparecem
massacradas.
Onde a luz acaba e a treva toda se volta.
Uma camisa torácica
posta apanhada a cada clarão. Isso com as unhas
a luzir. Em cima os dedos nas mãos. As cobras
hipnóticas.
Dizem que o mel novo enlouquece as pessoas. A dança
arrasta os mortos. Simétricos,
fechados como laços,
como jóias.
Até às ressacas das paisagens que se movem
dia a dia. Pelos incêndios dentro dos animais. Solenes
pedras
sumptuárias. A dança
guiando as montanhas sobre as águas.
Navios cegos.
Branca floresta.


1977.
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