Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Herberto Helder
31
os animais fazem tremer o chão se passam debaixo dela
— e a laranja cai do seu fogo,
e tu apanha-la:
deixa salitre de ouro na ponta dos dedos,
troca a ordem dos dedos com o peso
da luz trazida ao escuro
dos teus números: fruta,
uma, abrupta; dedos, cinco, poucos para contar qualidades e coisas,
e os fundamentos:
e a idade que tens quando aparece
o mundo arrancado aos limbos,
assim: água irrompendo do fundo da luz; e a beleza mamífera,
a carne e a sua graça complexa; ocupações: todas —
e tu andas em torno com a laranja entre os dedos
— nada existe para lá do poder desse campo:
curvas cruzadas dos olhos e das formas: esta
simetria dos ofícios:
faca, laranja, boca,
e o hausto e o bafo circundam numa volta
as obras, as pequenas
obras gerais: só
tuas: nada de nada, e tudo, eximiamente com
muita força
— e a laranja cai do seu fogo,
e tu apanha-la:
deixa salitre de ouro na ponta dos dedos,
troca a ordem dos dedos com o peso
da luz trazida ao escuro
dos teus números: fruta,
uma, abrupta; dedos, cinco, poucos para contar qualidades e coisas,
e os fundamentos:
e a idade que tens quando aparece
o mundo arrancado aos limbos,
assim: água irrompendo do fundo da luz; e a beleza mamífera,
a carne e a sua graça complexa; ocupações: todas —
e tu andas em torno com a laranja entre os dedos
— nada existe para lá do poder desse campo:
curvas cruzadas dos olhos e das formas: esta
simetria dos ofícios:
faca, laranja, boca,
e o hausto e o bafo circundam numa volta
as obras, as pequenas
obras gerais: só
tuas: nada de nada, e tudo, eximiamente com
muita força
1 057
Herberto Helder
Elegia Múltipla - V
Não posso ouvir cantar tão friamente. Cantam
sobre a minha vida.
Trouxeram a taciturna pureza das grandes noites
do mundo.
Do antigo elemento do silêncio subiu essa canção
devastadora. Oh feroz mundo puro,
oh vida incomparável. Cantam, cantam.
Abro os olhos debaixo das águas silenciosas,
e vejo que a minha lembrança é mais remota
que tudo. Cantam friamente.
Não posso ouvir cantar.
Se dissessem: a tua vida é uma roseira. Vê
como bebe no anónimo da estação.
O sangue escorrega por ti quando é altura de rosas.
Ouve: não te maravilha
a subtileza de espinhos e folhas pequeníssimas?
— Se dissessem alguma coisa, eu ficaria rico
de um nome extremo.
Não cantem, não floresçam.
Não posso sentir encher-se assim a vida
como uma canção fria e uma roseira
tão espalhada em mim.
Pode ser que fosse ilesa esta época do ano,
e minha existência de repente se tomasse
por todo esse fervor.
Vejo minha ardente agudeza escoar-se até à maturidade
confluente
de um minuto de verão. — Estaria eu
completo para a morte?
Não, não cantem essa lembrança de tudo.
Nem roseira na sangrenta delicadeza
da carne, nem o verão com seus
símbolos de feroz plenitude.
Gostaria de pensar cada um dos meus dedos,
esta cítara descida dentro da obra.
Toda a tristeza como uma vida admirável
enchendo a eternidade.
As frias canções despovoam-me, e as roseiras
tornam desavindas as rosas
recuadas. Ouve: na tristeza do estio enorme
alui-se-me o uno sangue.
Eu próprio poderia cantar um nome masculino,
a minha vida inteira
tão forte e impura, tão preenchida pelo quente silêncio
do que se não sabe.
Não se canta e floresce. Ninguém
amadurece no meio da sua vida.
Toca-se lentamente uma parte suspensa do corpo,
e a alta tristeza purifica os dedos.
Porque um homem não é uma canção fria ou
uma roseira. Não
é um fruto como entre folhas inspiradoras.
Um homem vive uma profunda eternidade que se fecha
sobre ele, mas onde o corpo
arde para além de qualquer símbolo, sem alma e puro
como um sacrifício antigo.
— Por sobre frias canções e roseiras aterradoras,
minha carne ligada nutre o silêncio maravilhoso
de uma grande vida.
Pode ser que tudo esteja bem no plural
de um mundo intenso. Mas
o amor é outro poder, a carne
vive de sua absorta permanência. Esta vida
de que falo
não se escoa, não alimenta os superlativos
diários. E única
e perene sobre a escondida fluência
dos movimentos.
— Uma roseira, mesmo
incomparável, cobre tudo com a sua distracção vermelha.
Por detrás da noite de pendidas
rosas, a carne é triste e perfeita
como um livro.
sobre a minha vida.
Trouxeram a taciturna pureza das grandes noites
do mundo.
Do antigo elemento do silêncio subiu essa canção
devastadora. Oh feroz mundo puro,
oh vida incomparável. Cantam, cantam.
Abro os olhos debaixo das águas silenciosas,
e vejo que a minha lembrança é mais remota
que tudo. Cantam friamente.
Não posso ouvir cantar.
Se dissessem: a tua vida é uma roseira. Vê
como bebe no anónimo da estação.
O sangue escorrega por ti quando é altura de rosas.
Ouve: não te maravilha
a subtileza de espinhos e folhas pequeníssimas?
— Se dissessem alguma coisa, eu ficaria rico
de um nome extremo.
Não cantem, não floresçam.
Não posso sentir encher-se assim a vida
como uma canção fria e uma roseira
tão espalhada em mim.
Pode ser que fosse ilesa esta época do ano,
e minha existência de repente se tomasse
por todo esse fervor.
Vejo minha ardente agudeza escoar-se até à maturidade
confluente
de um minuto de verão. — Estaria eu
completo para a morte?
Não, não cantem essa lembrança de tudo.
Nem roseira na sangrenta delicadeza
da carne, nem o verão com seus
símbolos de feroz plenitude.
Gostaria de pensar cada um dos meus dedos,
esta cítara descida dentro da obra.
Toda a tristeza como uma vida admirável
enchendo a eternidade.
As frias canções despovoam-me, e as roseiras
tornam desavindas as rosas
recuadas. Ouve: na tristeza do estio enorme
alui-se-me o uno sangue.
Eu próprio poderia cantar um nome masculino,
a minha vida inteira
tão forte e impura, tão preenchida pelo quente silêncio
do que se não sabe.
Não se canta e floresce. Ninguém
amadurece no meio da sua vida.
Toca-se lentamente uma parte suspensa do corpo,
e a alta tristeza purifica os dedos.
Porque um homem não é uma canção fria ou
uma roseira. Não
é um fruto como entre folhas inspiradoras.
Um homem vive uma profunda eternidade que se fecha
sobre ele, mas onde o corpo
arde para além de qualquer símbolo, sem alma e puro
como um sacrifício antigo.
— Por sobre frias canções e roseiras aterradoras,
minha carne ligada nutre o silêncio maravilhoso
de uma grande vida.
Pode ser que tudo esteja bem no plural
de um mundo intenso. Mas
o amor é outro poder, a carne
vive de sua absorta permanência. Esta vida
de que falo
não se escoa, não alimenta os superlativos
diários. E única
e perene sobre a escondida fluência
dos movimentos.
— Uma roseira, mesmo
incomparável, cobre tudo com a sua distracção vermelha.
Por detrás da noite de pendidas
rosas, a carne é triste e perfeita
como um livro.
1 084
Herberto Helder
Ao Vento Deste Outono
d’après Issa
ao vento deste outono
avanço
para que inferno?
ao vento deste outono
avanço
para que inferno?
628
Herberto Helder
Prefácio
Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
— Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.
Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes —
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.
Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?
Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
— Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.
Falemos de casas. E verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas.
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros —
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.
Só um instante em cada primavera se encontravam
com o junquilbo original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
— E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva — tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.
— E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.
Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
celestes que fulguram lentamente
até uma baía fria — que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.
Falemos de casas como quem fala da sua alma,
entre um incêndio,
junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
— Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.
Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes —
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.
Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?
Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
— Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.
Falemos de casas. E verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas.
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros —
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.
Só um instante em cada primavera se encontravam
com o junquilbo original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
— E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva — tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.
— E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.
Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
celestes que fulguram lentamente
até uma baía fria — que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.
Falemos de casas como quem fala da sua alma,
entre um incêndio,
junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.
897
Herberto Helder
Levanto À Vista o Que Foi a Terra Magnífica
levanto à vista o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas,
e estou tão leve porque não tenho nenhum segredo,
e tão oculto porque daqui a nada já posso dizer tudo,
daqui a uma pouca ciência saberei pensar
que algum pouco depois estarei morto,
e só de o pensar já nem respiro,
já quase em nada toco,
já só vejo no fundo das mãos daquilo que fica escrito
que escrevi coisa nenhuma do mundo até ao esquecimento,
e movendo-me com as unhas movo os nomes inúmeros
para dizer que mal nasci logo me deram por morto,
e não fui tido nem havido na razão do episódio
de um rosto ter passado por um espelho
e ter desaparecido,
portanto não me venha ninguém falar de nada,
sei bastante do que sabem todos,
vejo a água a mover-se contra si mesma, tão marítima,
e acho até que é bonito,
cada qual morre do quanto alcança e não alcança,
e ninguém compreende,
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas
e passa, a água fácil, sem retorno,
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
(não só o máximo mas também o mínimo)
e as estações mais bêbedas,
e estou tão leve porque não tenho nenhum segredo,
e tão oculto porque daqui a nada já posso dizer tudo,
daqui a uma pouca ciência saberei pensar
que algum pouco depois estarei morto,
e só de o pensar já nem respiro,
já quase em nada toco,
já só vejo no fundo das mãos daquilo que fica escrito
que escrevi coisa nenhuma do mundo até ao esquecimento,
e movendo-me com as unhas movo os nomes inúmeros
para dizer que mal nasci logo me deram por morto,
e não fui tido nem havido na razão do episódio
de um rosto ter passado por um espelho
e ter desaparecido,
portanto não me venha ninguém falar de nada,
sei bastante do que sabem todos,
vejo a água a mover-se contra si mesma, tão marítima,
e acho até que é bonito,
cada qual morre do quanto alcança e não alcança,
e ninguém compreende,
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas
e passa, a água fácil, sem retorno,
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
(não só o máximo mas também o mínimo)
1 024
Herberto Helder
Cada Vez Que Adormece É Para Que a Noite
cada vez que adormece é para que a noite tome conta dele desde os pés até à cabeça,
já a noite se encheu de iodo e espuma,
se for um barco já uma estrela o queimou proa e pôpa
cada vez que de si vai acordar fecha-o uma estrela,
a água canta, jubila,
cada vez que puxa o sono lençol sobre lençol mais acima do mundo até ao pescoço,
quando vê a maravilha que lhe acode,
a primeira,
o dia desarrumado, a noite já muito varrida,
a água para andar em cima dela,
quem vai pelo sono abaixo sem nunca encontrar pé,
de pé — queria ele,
e, passada a água,
só os outros, de manhã, quando estranham a manhã tão comprida,
e vão ver, e ele já virou a cara,
já virou o corpo,
boca aberta,
interrompida a canção ininterrupta
já a noite se encheu de iodo e espuma,
se for um barco já uma estrela o queimou proa e pôpa
cada vez que de si vai acordar fecha-o uma estrela,
a água canta, jubila,
cada vez que puxa o sono lençol sobre lençol mais acima do mundo até ao pescoço,
quando vê a maravilha que lhe acode,
a primeira,
o dia desarrumado, a noite já muito varrida,
a água para andar em cima dela,
quem vai pelo sono abaixo sem nunca encontrar pé,
de pé — queria ele,
e, passada a água,
só os outros, de manhã, quando estranham a manhã tão comprida,
e vão ver, e ele já virou a cara,
já virou o corpo,
boca aberta,
interrompida a canção ininterrupta
553
Herberto Helder
Logo Pela Manhã É Um Corrupio Funerário
logo pela manhã é um corrupio funerário nos telefones,
um quer enterrar o pai todo nu embrulhado num lençol branco,
outro que o filho seja cremado e as cinzas espalhadas
sobre as rosas do jardim botânico,
outro vai suicidar-se e pede que o enterrem de cabeça para baixo
(diz: há entre mim e as minhas mãos um rastro de sangue),
outro quer ainda que seja eu próprio a morrer com os braços abertos,
que seja levado para um penhasco abraçado pela espuma,
no Índico longínquo, no mar do norte atlântico,
que o sal me cubra,
que o sol me curta,
que as águas vibrem contra o meu coração devorado
— eu que sou tão subtil e acerbo,
eu que nunca escapo
um quer enterrar o pai todo nu embrulhado num lençol branco,
outro que o filho seja cremado e as cinzas espalhadas
sobre as rosas do jardim botânico,
outro vai suicidar-se e pede que o enterrem de cabeça para baixo
(diz: há entre mim e as minhas mãos um rastro de sangue),
outro quer ainda que seja eu próprio a morrer com os braços abertos,
que seja levado para um penhasco abraçado pela espuma,
no Índico longínquo, no mar do norte atlântico,
que o sal me cubra,
que o sol me curta,
que as águas vibrem contra o meu coração devorado
— eu que sou tão subtil e acerbo,
eu que nunca escapo
1 024
Herberto Helder
Presumir Não Das Grandes Partes da Noite
presumir não das grandes partes da noite mas entre elas apenas de uma risca de luz
alguém lhe chamaria
plausível?
por um lado vem a noite das águas,
pelo outro vem o dia das colinas e das matas bravas:
e na luz suposta ao meio, alta, sumptuosa,
morro da sua risca exacta,
ou morro da minha vida nenhuma
ah quem tem o tempo todo para vivê-lo e morrê-lo
assim:
turvo no rosto e nas mãos através
do mais limpo do mundo?
alguém lhe chamaria
plausível?
por um lado vem a noite das águas,
pelo outro vem o dia das colinas e das matas bravas:
e na luz suposta ao meio, alta, sumptuosa,
morro da sua risca exacta,
ou morro da minha vida nenhuma
ah quem tem o tempo todo para vivê-lo e morrê-lo
assim:
turvo no rosto e nas mãos através
do mais limpo do mundo?
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Herberto Helder
Presumir Não Das Grandes Partes da Noite
presumir não das grandes partes da noite mas entre elas apenas de uma risca de luz
alguém lhe chamaria
plausível?
por um lado vem a noite das águas,
pelo outro vem o dia das colinas e das matas bravas:
e na luz suposta ao meio, alta, sumptuosa,
morro da sua risca exacta,
ou morro da minha vida nenhuma
ah quem tem o tempo todo para vivê-lo e morrê-lo
assim:
turvo no rosto e nas mãos através
do mais limpo do mundo?
alguém lhe chamaria
plausível?
por um lado vem a noite das águas,
pelo outro vem o dia das colinas e das matas bravas:
e na luz suposta ao meio, alta, sumptuosa,
morro da sua risca exacta,
ou morro da minha vida nenhuma
ah quem tem o tempo todo para vivê-lo e morrê-lo
assim:
turvo no rosto e nas mãos através
do mais limpo do mundo?
1 083
Herberto Helder
Fonte - Iv
Mal se empina a cabra com as patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.
E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apoio.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.
Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.
E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram —surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.
— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.
E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apoio.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.
Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.
E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram —surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.
— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.
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Herberto Helder
Fonte - Iv
Mal se empina a cabra com as patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.
E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apoio.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.
Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.
E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram —surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.
— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.
E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apoio.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.
Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.
E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram —surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.
— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.
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Herberto Helder
Já Me Custa No Chão do Inferno
já me custa no chão do inferno,
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
554
Herberto Helder
Colinas Amarelas, Árvores Vermelhas
colinas amarelas, árvores vermelhas,
crua água pelas pedras frias fora e transparente abaixo delas,
e o júbilo imediato de ver apenas isso,
e isso por si só estar tão certo,
e nem um instante me ocorrer que a força destas coisas é um instante apenas da força da sua morte,
e que essas mortes uma a uma são a minha própria morte
somada erradamente
crua água pelas pedras frias fora e transparente abaixo delas,
e o júbilo imediato de ver apenas isso,
e isso por si só estar tão certo,
e nem um instante me ocorrer que a força destas coisas é um instante apenas da força da sua morte,
e que essas mortes uma a uma são a minha própria morte
somada erradamente
1 119
Herberto Helder
Colinas Amarelas, Árvores Vermelhas
colinas amarelas, árvores vermelhas,
crua água pelas pedras frias fora e transparente abaixo delas,
e o júbilo imediato de ver apenas isso,
e isso por si só estar tão certo,
e nem um instante me ocorrer que a força destas coisas é um instante apenas da força da sua morte,
e que essas mortes uma a uma são a minha própria morte
somada erradamente
crua água pelas pedras frias fora e transparente abaixo delas,
e o júbilo imediato de ver apenas isso,
e isso por si só estar tão certo,
e nem um instante me ocorrer que a força destas coisas é um instante apenas da força da sua morte,
e que essas mortes uma a uma são a minha própria morte
somada erradamente
1 119
Herberto Helder
Elegia Múltipla - Ii
Sobre o meu coração ainda vibram seus pés: a alta
formosura do ouro. E se acordo e me agito,
minha mão entreabre o subtil arbusto
de fogo — e eu estou imensamente vivo.
Se com a neve e o mosto dei ao tempo
a medida secreta, na minha vida tumultuam
os rostos mais antigos. Não sei
o que é a morte. Enchia com meu desejo
o vestíbulo da primavera, eu próprio me tornava uma árvore
abismada e cantante. E a beleza é uma chama
solitária, um dardo que atravessa
o sono doloroso. Nada sei dos mortos.
Deixaram em mim os pés sombrios, um súbito
fulgor de ausência. — De mim, vivo e ofegante,
sei uma flor de coral: delicada, vermelha.
Porque morrem assim no interior do vinho quando
se extasiam e cantam? Porque escurecem os ombros onde
as videiras se derramavam e subiam as escadas?
Uma um vão nascendo meus pensamentos
nocturnos, e eu digo: porque morrem
os que tinham a carne com seu peso e milagre e sorriam
sobre a mesa
como seres imortais?
E agora é a minha vida que assombrada se fecha.
A vida funda e selvagem. Porque um dia,
como se apaga a labareda de um cacho,
o brilho se apagará onde estava a minha letra.
Dançarei uma só vez em redor da taça,
festejando a última estação. Hoje
nada sei. Correm em mim os mortos, como água —
com o murmúrio gelado da sua incalculável ausência.
E digo: não refulgia a carne quando
a primavera inclinava a cabeça sobre a sua confusão?
Não dormiam junto ao mosto com lírios no pensamento?
Ei-los em mim, os mortos longos, e digo: se havia
tanto ouro dentro e fora deles, porque
se extinguiram?
Nada sei dos mortos.
Um dia hei-de ser como espuma absorta em volta
de um coração, e dele se erguerá uma onda de púrpura,
um amor terrível.
— Porque era de ouro firme, e ressoava.
formosura do ouro. E se acordo e me agito,
minha mão entreabre o subtil arbusto
de fogo — e eu estou imensamente vivo.
Se com a neve e o mosto dei ao tempo
a medida secreta, na minha vida tumultuam
os rostos mais antigos. Não sei
o que é a morte. Enchia com meu desejo
o vestíbulo da primavera, eu próprio me tornava uma árvore
abismada e cantante. E a beleza é uma chama
solitária, um dardo que atravessa
o sono doloroso. Nada sei dos mortos.
Deixaram em mim os pés sombrios, um súbito
fulgor de ausência. — De mim, vivo e ofegante,
sei uma flor de coral: delicada, vermelha.
Porque morrem assim no interior do vinho quando
se extasiam e cantam? Porque escurecem os ombros onde
as videiras se derramavam e subiam as escadas?
Uma um vão nascendo meus pensamentos
nocturnos, e eu digo: porque morrem
os que tinham a carne com seu peso e milagre e sorriam
sobre a mesa
como seres imortais?
E agora é a minha vida que assombrada se fecha.
A vida funda e selvagem. Porque um dia,
como se apaga a labareda de um cacho,
o brilho se apagará onde estava a minha letra.
Dançarei uma só vez em redor da taça,
festejando a última estação. Hoje
nada sei. Correm em mim os mortos, como água —
com o murmúrio gelado da sua incalculável ausência.
E digo: não refulgia a carne quando
a primavera inclinava a cabeça sobre a sua confusão?
Não dormiam junto ao mosto com lírios no pensamento?
Ei-los em mim, os mortos longos, e digo: se havia
tanto ouro dentro e fora deles, porque
se extinguiram?
Nada sei dos mortos.
Um dia hei-de ser como espuma absorta em volta
de um coração, e dele se erguerá uma onda de púrpura,
um amor terrível.
— Porque era de ouro firme, e ressoava.
653
Herberto Helder
Tríptico - Iii
Todas as coisas são mesa para os pensamentos
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
—Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos — meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.
E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.
Ela explica tudo, e o vir para mim —
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
— é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.
Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
— E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
—Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos — meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.
E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.
Ela explica tudo, e o vir para mim —
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
— é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.
Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
— E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.
808
Herberto Helder
A Água Desceu As Escadas
a água desceu as escadas,
a noite pode subi-las,
e a lua violenta a trabalhar lá em cima
¿ah de que matéria se faria o sono que me não visita sequer duas horas, ou uma, ou sequer metade de uma,
de que maneira poderia eu trabalhar a morte sempre tão difícil,
dedos, ritmos, respiração e o silêncio audível,
de que maneira a infusa fria,
a urna,
a água que desce e a noite que sobe
e o clarão que me envolve,
poderia eu trabalhar as cinzas,
para sempre o fogo no fundo das mãos sensíveis,
poderia eu de que maneira estremece este poema apenas,
o poema fremente?
a noite pode subi-las,
e a lua violenta a trabalhar lá em cima
¿ah de que matéria se faria o sono que me não visita sequer duas horas, ou uma, ou sequer metade de uma,
de que maneira poderia eu trabalhar a morte sempre tão difícil,
dedos, ritmos, respiração e o silêncio audível,
de que maneira a infusa fria,
a urna,
a água que desce e a noite que sobe
e o clarão que me envolve,
poderia eu trabalhar as cinzas,
para sempre o fogo no fundo das mãos sensíveis,
poderia eu de que maneira estremece este poema apenas,
o poema fremente?
701
Herberto Helder
Narração de Um Homem Em Maio
Estou deitado no nome: maio, e sou uma pessoa
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atravessado pelo movimento.
E a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
Apropria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores oubichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Mexo aboca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
1953-60
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atravessado pelo movimento.
E a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
Apropria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores oubichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Mexo aboca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
1953-60
1 150
Herberto Helder
O Poema - Iii
Às vezes estou à mesa: e cômo ou sonho ou estou
somente imóvel entre a aérea
felicidade da noite. O sangue do mundo corre
e brilha. Porque a minha carne se distrai
entre as coisas altas da primavera nocturna.
Ocupo-me nos símbolos, e gostaria
que meu coração
entontecesse lentamente, que meu coração
caísse numa espécie de extática e sagrada loucura.
E enquanto estou só e o céu rodeado de lírios
amarelos, e animais de luz, e fabulosos
órgãos de silêncio, descansa
sobre os meus ombros
seu doce peso antigo — eu penso
que haveria uma palavra vingativa e pura,
uma esfera com espinhos de fogo que me ferisse
primeiro na voz ou na claridade
ou na tenebrosa
fantasia, e que depois me ferisse
na minha própria morte, sob a intensa
profusão celeste.
Penso que deve existir para cada um
uma só palavra que a inspiração dos povos deixasse
virgem de sentido e que,
vinda de um ponto fogoso da treva, batesse
como um raio
nos telhados de uma vida, e o céu
com águas e astros
caísse sobre esse rosto dormente, essa fechada
exaltação.
Que palavra seria, ignoro. O nome talvez
de um instrumento antigo, um nome ligado
à morte—veneno, punhal, rio
bárbaro onde
os afogados aparecem cegamente abraçados a enormes
luas impassíveis.
Um abstracto nome de mulher ou pássaro.
Quem sabe? — Espelho, Cotovia, ou a desconhecida
palavra Amor.
Sei que minha vida estremeceria, que
os braços sonâmbulos
iriam para o alto e queimariam a ligeira
noite de junho, ou que o meu
coração ficaria profundamente louco. E nessa
loucura
cada coisa tomaria seu próprio nome e espírito,
e cada nome seria iluminado
por todos os outros nomes da terra, e tudo
arderia num só fogo, entre o espaço violento
do mês de primavera e a terra
baixa e magnífica.
Com grandes dedos eu tocaria as trémulas
campânulas dos signos, e beijaria
as rodas excitadas do ar.
Ferveriam os pequenos vulcões dos frutos.
Dentro dos tanques tombaria a água
infantil da aurora. Comer ou sonhar ou estar à mesa
da fantasia nocturna
seria para um homem, sob a abóbada da cabeça, como
o espírito caído dentro da forma
e a forma incrustada, como uma lâmpada,
na inspiração da cabeça.
— Cada boca pousada sobre a terra
pousaria
sobre a voz universal de outra boca.
somente imóvel entre a aérea
felicidade da noite. O sangue do mundo corre
e brilha. Porque a minha carne se distrai
entre as coisas altas da primavera nocturna.
Ocupo-me nos símbolos, e gostaria
que meu coração
entontecesse lentamente, que meu coração
caísse numa espécie de extática e sagrada loucura.
E enquanto estou só e o céu rodeado de lírios
amarelos, e animais de luz, e fabulosos
órgãos de silêncio, descansa
sobre os meus ombros
seu doce peso antigo — eu penso
que haveria uma palavra vingativa e pura,
uma esfera com espinhos de fogo que me ferisse
primeiro na voz ou na claridade
ou na tenebrosa
fantasia, e que depois me ferisse
na minha própria morte, sob a intensa
profusão celeste.
Penso que deve existir para cada um
uma só palavra que a inspiração dos povos deixasse
virgem de sentido e que,
vinda de um ponto fogoso da treva, batesse
como um raio
nos telhados de uma vida, e o céu
com águas e astros
caísse sobre esse rosto dormente, essa fechada
exaltação.
Que palavra seria, ignoro. O nome talvez
de um instrumento antigo, um nome ligado
à morte—veneno, punhal, rio
bárbaro onde
os afogados aparecem cegamente abraçados a enormes
luas impassíveis.
Um abstracto nome de mulher ou pássaro.
Quem sabe? — Espelho, Cotovia, ou a desconhecida
palavra Amor.
Sei que minha vida estremeceria, que
os braços sonâmbulos
iriam para o alto e queimariam a ligeira
noite de junho, ou que o meu
coração ficaria profundamente louco. E nessa
loucura
cada coisa tomaria seu próprio nome e espírito,
e cada nome seria iluminado
por todos os outros nomes da terra, e tudo
arderia num só fogo, entre o espaço violento
do mês de primavera e a terra
baixa e magnífica.
Com grandes dedos eu tocaria as trémulas
campânulas dos signos, e beijaria
as rodas excitadas do ar.
Ferveriam os pequenos vulcões dos frutos.
Dentro dos tanques tombaria a água
infantil da aurora. Comer ou sonhar ou estar à mesa
da fantasia nocturna
seria para um homem, sob a abóbada da cabeça, como
o espírito caído dentro da forma
e a forma incrustada, como uma lâmpada,
na inspiração da cabeça.
— Cada boca pousada sobre a terra
pousaria
sobre a voz universal de outra boca.
851
Herberto Helder
Em Certas Estações Obsessivas
Em certas estações obsessivas
insondáveis
pela doçura e a desordem, eu vi
sobre
o barulho dos buracos terrestres
as caras
engolfadas fulgurando até ao sangue, sua teia
de ossos fechada
por membranas que respiram com luz
própria.
O luxo do espaço é um talento da árvore,
a arte do mundo húmido.
Por dentro da terra
o ouro cresce
em cadeia. Vi
a massa arterial das casas
contorcendo-se
no fundo
da luz,
onde o dia faz uma ressaca onde
gira a noite com seu tronco de planetas.
Eram
rápidas,
fortes,
espaçosas
as noites do poder. O alimento vinha
com o apuro do mel. O dom
desenvolvia em mim esses mesmos rostos
abertos a meio, com a lua
e o sol dentro e fora.
Lanho a lanho
cerrara-se a carne em seu tecido
redondo.
Vêem-se as raízes animais dos cancros, mas
no coração estrangulado, assim
estrangulada a água por circuitos
cegos,
quem vê a queimadura
do ouro
inteiro?
As caras irrompem
dos nós de sangue, dos rins, de uma
coluna
enraizada, uma
constelação calcária.
Às vezes
o mármore reflui numa onda muscular,
e sobre a torsão
interna
as mãos cruas ardem.
E o golpe que me abre desde a uretra
à garganta
brilha
como o abismo venoso da terra.
A pupila deste animal grande como uma pálpebra
ao espelho, nua, a dormir,
sob as radiações
brancas.
Longas estrelas rodam entre os pólos
das salas, voltam-se
as camisas
na translação dos dias ópticos, todo o ar se enche
de noites
largas.
O braço enxuto plantado.
Na límpida teia das mãos,
a colher que se arqueia
desde
a traça alimentar à costura cirúrgica
da garganta
onde a voz rebenta
num buraco de sangue. Mas as cabeças, que olham
pelos lados
novos
de gárgulas jorrando toda a força
da luz interna,
vivem da energia
da nossa graça, da ferida
da elegância. A violência envenena-me.
As aberturas
que os braços fazem na água, aquilo
que eu fecho quando
o sono me corrompe ou quando
incito ou afugento as paisagens,
o que alimenta
as musas
abismadas
é tudo quanto me cega.
Também as mulheres se alumiam
pela abundância, pela
boca até ao fundo, o pêlo que salta,
omoplatas,
mãos redondas, os borbotões
da seda
escoada.
Têm
caras ascensionais, magnéticas. Inspira-as
o movimento dos quartos, a matriz
secreta
do ouro afundada entre
a vulva e o coração,
a órbita
das laranjas à volta
estuante
da estaca.
A estrela voltaica queimando
a minha obra
morosa afina sombriamente cada cara
soldada
ponto a ponto,
sobre as válvulas, sobre
a luz que se abre e se fecha
na carne
lunar, implacável.
Tudo faísca: a fruta
que se apanha, o feixe
vertebral, os orifícios de sangue
entre os poros
da madeira.
Respira,
dói.
Como uma artéria radial,
a atenção
que dói de baixo para o alto, as meninges
abertas
por fendas luminosas.
Alimentava-me
dos rostos minados pela rede dos nervos
negros e das veias
até à raiz cravada
da voz
— o terrífico
aparelho da fome. Toda a obra.
Dói.
A memória maneja a sua luz, os dedos,
a matéria.
É mais forte assim
queimada no écran onde brilha
o buraco da carne,
os espelhos
fechados
de repente vivos como oceanos sob
os antebraços, as mãos.
Desta cadeira vejo
a marcenaria da árvore.
Os fulcros do ouro, o hausto
do meio da terra.
O som espacial da pedra cai
no fundo do dia,
pulsa
a noite vascular, estendida
como uma toalha.
E dentro dessa noite cheia de ar negro,
os planetas
luzem
como rostos que se aproximam com as fendas
de sangue.
Às vezes
meu sangue enreda-se no fundo dos mortos.
O ar,
abraçam-no as grandes constelações
tácteis.
A noite
é uma árvore crua,
voraz,
entranhada.
Se a estrela transborda da boca,
a água
vivente
torce-se entre os braços ferozes. E das crateras
arranca-se
o rosto com os poros brancos
a toda a volta.
Quando
as veias dos mortos fazem um nó furioso
com as minhas veias,
a voz
costura-se com as linhas de sangue
da sua fala. E os dedos gravitacionais
sobre a queimadura
manobram os pequenos sóis
enxameados e baixos.
Com a fundura cristalográfica das caras
enervadas
na claridade, a estrela oficinal
crepitando
sobre
a ressaca redonda da carne.
O ouro fundido nos pulmões, cortado
na boca. Respira
o buraco onde o ar se incendeia.
E o equilíbrio
lunar
do sono, do poder.
Eu movo-me no mundo
como púrpura, a vara
das maçãs fechadas.
E escoa-se em mim o caudal
nuclear dos astros. Remoinhos de mel
obscuro. Os filões do álcool.
Esta golfada de luz pela ferida de um espelho.
E o rosto fendido e a claridade
arrancada
ao interior mais forte
da imagem.
Constelação de sangue,
o halo
de um orifício nocturno.
Os sóis turbilhonam entre
as espáduas.
Este é o dia rítmico e abundante.
Olho a brancura espasmódica,
a queimadura central
dessa imagem.
Meu sangue envolve os mortos
como um braço profundo.
Solda-os.
E toda a fruta está soldada à potência
da sua árvore.
Engolfo-me no espelho como a água
que pulsa num rosto, nessa abertura
salgada. Recebo a cara nos feixes
da minha cara, entre
constelações vertebrais, o fundo
das artérias.
Vi
dorsos torcerem-se à volta da sua dor.
No meio
o sorvedouro fazia um laço
de carne. Rodava em torno das válvulas negras
a estrela atómica.
Afronte
ao alto da beleza áspera,
labaredas
vazadas de lado a lado do corpo
como uma corola cesariana.
E nessa
carne focal
curva,
o toque de um ferro vivo, um dedo, um osso
fechado,
no centro das aberturas onde a energia
se desencadeia.
E é cruel surpreender
a inocência
frenética, a taciturna doçura
com que devora:
às vezes
a força dos rostos que tem contra Deus.
Assim:
o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra.
22-23.XI.77.
insondáveis
pela doçura e a desordem, eu vi
sobre
o barulho dos buracos terrestres
as caras
engolfadas fulgurando até ao sangue, sua teia
de ossos fechada
por membranas que respiram com luz
própria.
O luxo do espaço é um talento da árvore,
a arte do mundo húmido.
Por dentro da terra
o ouro cresce
em cadeia. Vi
a massa arterial das casas
contorcendo-se
no fundo
da luz,
onde o dia faz uma ressaca onde
gira a noite com seu tronco de planetas.
Eram
rápidas,
fortes,
espaçosas
as noites do poder. O alimento vinha
com o apuro do mel. O dom
desenvolvia em mim esses mesmos rostos
abertos a meio, com a lua
e o sol dentro e fora.
Lanho a lanho
cerrara-se a carne em seu tecido
redondo.
Vêem-se as raízes animais dos cancros, mas
no coração estrangulado, assim
estrangulada a água por circuitos
cegos,
quem vê a queimadura
do ouro
inteiro?
As caras irrompem
dos nós de sangue, dos rins, de uma
coluna
enraizada, uma
constelação calcária.
Às vezes
o mármore reflui numa onda muscular,
e sobre a torsão
interna
as mãos cruas ardem.
E o golpe que me abre desde a uretra
à garganta
brilha
como o abismo venoso da terra.
A pupila deste animal grande como uma pálpebra
ao espelho, nua, a dormir,
sob as radiações
brancas.
Longas estrelas rodam entre os pólos
das salas, voltam-se
as camisas
na translação dos dias ópticos, todo o ar se enche
de noites
largas.
O braço enxuto plantado.
Na límpida teia das mãos,
a colher que se arqueia
desde
a traça alimentar à costura cirúrgica
da garganta
onde a voz rebenta
num buraco de sangue. Mas as cabeças, que olham
pelos lados
novos
de gárgulas jorrando toda a força
da luz interna,
vivem da energia
da nossa graça, da ferida
da elegância. A violência envenena-me.
As aberturas
que os braços fazem na água, aquilo
que eu fecho quando
o sono me corrompe ou quando
incito ou afugento as paisagens,
o que alimenta
as musas
abismadas
é tudo quanto me cega.
Também as mulheres se alumiam
pela abundância, pela
boca até ao fundo, o pêlo que salta,
omoplatas,
mãos redondas, os borbotões
da seda
escoada.
Têm
caras ascensionais, magnéticas. Inspira-as
o movimento dos quartos, a matriz
secreta
do ouro afundada entre
a vulva e o coração,
a órbita
das laranjas à volta
estuante
da estaca.
A estrela voltaica queimando
a minha obra
morosa afina sombriamente cada cara
soldada
ponto a ponto,
sobre as válvulas, sobre
a luz que se abre e se fecha
na carne
lunar, implacável.
Tudo faísca: a fruta
que se apanha, o feixe
vertebral, os orifícios de sangue
entre os poros
da madeira.
Respira,
dói.
Como uma artéria radial,
a atenção
que dói de baixo para o alto, as meninges
abertas
por fendas luminosas.
Alimentava-me
dos rostos minados pela rede dos nervos
negros e das veias
até à raiz cravada
da voz
— o terrífico
aparelho da fome. Toda a obra.
Dói.
A memória maneja a sua luz, os dedos,
a matéria.
É mais forte assim
queimada no écran onde brilha
o buraco da carne,
os espelhos
fechados
de repente vivos como oceanos sob
os antebraços, as mãos.
Desta cadeira vejo
a marcenaria da árvore.
Os fulcros do ouro, o hausto
do meio da terra.
O som espacial da pedra cai
no fundo do dia,
pulsa
a noite vascular, estendida
como uma toalha.
E dentro dessa noite cheia de ar negro,
os planetas
luzem
como rostos que se aproximam com as fendas
de sangue.
Às vezes
meu sangue enreda-se no fundo dos mortos.
O ar,
abraçam-no as grandes constelações
tácteis.
A noite
é uma árvore crua,
voraz,
entranhada.
Se a estrela transborda da boca,
a água
vivente
torce-se entre os braços ferozes. E das crateras
arranca-se
o rosto com os poros brancos
a toda a volta.
Quando
as veias dos mortos fazem um nó furioso
com as minhas veias,
a voz
costura-se com as linhas de sangue
da sua fala. E os dedos gravitacionais
sobre a queimadura
manobram os pequenos sóis
enxameados e baixos.
Com a fundura cristalográfica das caras
enervadas
na claridade, a estrela oficinal
crepitando
sobre
a ressaca redonda da carne.
O ouro fundido nos pulmões, cortado
na boca. Respira
o buraco onde o ar se incendeia.
E o equilíbrio
lunar
do sono, do poder.
Eu movo-me no mundo
como púrpura, a vara
das maçãs fechadas.
E escoa-se em mim o caudal
nuclear dos astros. Remoinhos de mel
obscuro. Os filões do álcool.
Esta golfada de luz pela ferida de um espelho.
E o rosto fendido e a claridade
arrancada
ao interior mais forte
da imagem.
Constelação de sangue,
o halo
de um orifício nocturno.
Os sóis turbilhonam entre
as espáduas.
Este é o dia rítmico e abundante.
Olho a brancura espasmódica,
a queimadura central
dessa imagem.
Meu sangue envolve os mortos
como um braço profundo.
Solda-os.
E toda a fruta está soldada à potência
da sua árvore.
Engolfo-me no espelho como a água
que pulsa num rosto, nessa abertura
salgada. Recebo a cara nos feixes
da minha cara, entre
constelações vertebrais, o fundo
das artérias.
Vi
dorsos torcerem-se à volta da sua dor.
No meio
o sorvedouro fazia um laço
de carne. Rodava em torno das válvulas negras
a estrela atómica.
Afronte
ao alto da beleza áspera,
labaredas
vazadas de lado a lado do corpo
como uma corola cesariana.
E nessa
carne focal
curva,
o toque de um ferro vivo, um dedo, um osso
fechado,
no centro das aberturas onde a energia
se desencadeia.
E é cruel surpreender
a inocência
frenética, a taciturna doçura
com que devora:
às vezes
a força dos rostos que tem contra Deus.
Assim:
o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra.
22-23.XI.77.
1 190
Herberto Helder
Os Cães Gerais Ladram Às Luas Que Lavram
os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora,
mas a gota de água treme e brilha,
não uses as unhas senão nas linhas mais puras,
e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia
e de fogo,
e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,
e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível
contra a turva sede da matilha,
com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, o ar cego:
e queres apenas
aquela gota viva entre as unhas,
enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros
à procura do ouro
mas a gota de água treme e brilha,
não uses as unhas senão nas linhas mais puras,
e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia
e de fogo,
e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,
e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível
contra a turva sede da matilha,
com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, o ar cego:
e queres apenas
aquela gota viva entre as unhas,
enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros
à procura do ouro
1 201
Herberto Helder
Os Cães Gerais Ladram Às Luas Que Lavram
os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora,
mas a gota de água treme e brilha,
não uses as unhas senão nas linhas mais puras,
e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia
e de fogo,
e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,
e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível
contra a turva sede da matilha,
com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, o ar cego:
e queres apenas
aquela gota viva entre as unhas,
enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros
à procura do ouro
mas a gota de água treme e brilha,
não uses as unhas senão nas linhas mais puras,
e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia
e de fogo,
e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,
e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível
contra a turva sede da matilha,
com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, o ar cego:
e queres apenas
aquela gota viva entre as unhas,
enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros
à procura do ouro
1 201
Herberto Helder
Que Floresce Uma Só Vez Na Vida, Agaué! Dez Metros
que floresce uma só vez na vida, agaué! dez metros, escarpada, branca, brusca, brava, encarnada,
e lava a língua às crianças,
e põe-lhes a fala cantante,
e nunca esperes que se repita no deserto da vida,
não esperes,
não nunca esperes pelo regresso do sistema das maravilhas,
porque morreu do mundo uma só vez prodigiosa,
e adormeces e acordas,
e a espera enche os dias,
e quebram-se o ar e a água,
porque rente à cara respirando do chão quente batem fundo como se água e ar se amarrassem,
abecedária,
desamarrassem,
e o sal e o ouro moído e a escarlata
pousam camada a camada — e
giram logo acima da pulsação da terra para que os colham e recolham
e o sopro unido vem à volta: estrelas, ondas,
trigos às faíscas,
aberturas,
e o teu rosto mortal iluminado e as pequenas artes do triunfo das palavras:
as criaturas, e a sua morte,
e os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e os grandes anéis das estações e os grandes animais,
e a tua morte de alto a baixo e dentro e fora,
a morte floral, dez metros de sangue compacto e espuma extraordinária,
fria fria luz como uma guerra de lâminas,
fria nas rápidas colinas tomadas pelo estio e a primavera,
pelas estações vertiginosas,
agaué! quando a luz as toma uma só vez na vida e as levanta até onde
ninguém respira,
ninguém brilha,
nunca ninguém ressuscita, agaué! e amanhã e ontem e agora,
os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e a sua morte
e lava a língua às crianças,
e põe-lhes a fala cantante,
e nunca esperes que se repita no deserto da vida,
não esperes,
não nunca esperes pelo regresso do sistema das maravilhas,
porque morreu do mundo uma só vez prodigiosa,
e adormeces e acordas,
e a espera enche os dias,
e quebram-se o ar e a água,
porque rente à cara respirando do chão quente batem fundo como se água e ar se amarrassem,
abecedária,
desamarrassem,
e o sal e o ouro moído e a escarlata
pousam camada a camada — e
giram logo acima da pulsação da terra para que os colham e recolham
e o sopro unido vem à volta: estrelas, ondas,
trigos às faíscas,
aberturas,
e o teu rosto mortal iluminado e as pequenas artes do triunfo das palavras:
as criaturas, e a sua morte,
e os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e os grandes anéis das estações e os grandes animais,
e a tua morte de alto a baixo e dentro e fora,
a morte floral, dez metros de sangue compacto e espuma extraordinária,
fria fria luz como uma guerra de lâminas,
fria nas rápidas colinas tomadas pelo estio e a primavera,
pelas estações vertiginosas,
agaué! quando a luz as toma uma só vez na vida e as levanta até onde
ninguém respira,
ninguém brilha,
nunca ninguém ressuscita, agaué! e amanhã e ontem e agora,
os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e a sua morte
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Herberto Helder
Que Floresce Uma Só Vez Na Vida, Agaué! Dez Metros
que floresce uma só vez na vida, agaué! dez metros, escarpada, branca, brusca, brava, encarnada,
e lava a língua às crianças,
e põe-lhes a fala cantante,
e nunca esperes que se repita no deserto da vida,
não esperes,
não nunca esperes pelo regresso do sistema das maravilhas,
porque morreu do mundo uma só vez prodigiosa,
e adormeces e acordas,
e a espera enche os dias,
e quebram-se o ar e a água,
porque rente à cara respirando do chão quente batem fundo como se água e ar se amarrassem,
abecedária,
desamarrassem,
e o sal e o ouro moído e a escarlata
pousam camada a camada — e
giram logo acima da pulsação da terra para que os colham e recolham
e o sopro unido vem à volta: estrelas, ondas,
trigos às faíscas,
aberturas,
e o teu rosto mortal iluminado e as pequenas artes do triunfo das palavras:
as criaturas, e a sua morte,
e os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e os grandes anéis das estações e os grandes animais,
e a tua morte de alto a baixo e dentro e fora,
a morte floral, dez metros de sangue compacto e espuma extraordinária,
fria fria luz como uma guerra de lâminas,
fria nas rápidas colinas tomadas pelo estio e a primavera,
pelas estações vertiginosas,
agaué! quando a luz as toma uma só vez na vida e as levanta até onde
ninguém respira,
ninguém brilha,
nunca ninguém ressuscita, agaué! e amanhã e ontem e agora,
os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e a sua morte
e lava a língua às crianças,
e põe-lhes a fala cantante,
e nunca esperes que se repita no deserto da vida,
não esperes,
não nunca esperes pelo regresso do sistema das maravilhas,
porque morreu do mundo uma só vez prodigiosa,
e adormeces e acordas,
e a espera enche os dias,
e quebram-se o ar e a água,
porque rente à cara respirando do chão quente batem fundo como se água e ar se amarrassem,
abecedária,
desamarrassem,
e o sal e o ouro moído e a escarlata
pousam camada a camada — e
giram logo acima da pulsação da terra para que os colham e recolham
e o sopro unido vem à volta: estrelas, ondas,
trigos às faíscas,
aberturas,
e o teu rosto mortal iluminado e as pequenas artes do triunfo das palavras:
as criaturas, e a sua morte,
e os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e os grandes anéis das estações e os grandes animais,
e a tua morte de alto a baixo e dentro e fora,
a morte floral, dez metros de sangue compacto e espuma extraordinária,
fria fria luz como uma guerra de lâminas,
fria nas rápidas colinas tomadas pelo estio e a primavera,
pelas estações vertiginosas,
agaué! quando a luz as toma uma só vez na vida e as levanta até onde
ninguém respira,
ninguém brilha,
nunca ninguém ressuscita, agaué! e amanhã e ontem e agora,
os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e a sua morte
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