Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Charles Bukowski
Usando a Coleira
moro com uma dama e quatro gatos
e há certos dias em que todos nos damos
bem.
há certos dias em que tenho problemas com
um dos
gatos.
há outros dias em que tenho problemas com
dois dos
gatos.
outros dias,
três.
há certos dias em que tenho problemas com
todos os quatro
gatos
e a
dama:
dez olhos me fitando
como se eu fosse um cachorro.
e há certos dias em que todos nos damos
bem.
há certos dias em que tenho problemas com
um dos
gatos.
há outros dias em que tenho problemas com
dois dos
gatos.
outros dias,
três.
há certos dias em que tenho problemas com
todos os quatro
gatos
e a
dama:
dez olhos me fitando
como se eu fosse um cachorro.
1 305
Charles Bukowski
A Festa Acabou
depois que você arrancou a toalha de mesa com
os pratos cheios de comida
e quebrou as janelas
e tirou a máscara dos
idiotas
e falou verdadeiras e terríveis
palavras
e
enxotou a turba porta
afora –
aí vem o grande e
sereno momento: você se senta sozinho
e
serve aquela quieta dose.
o mundo é melhor sem
eles.
só as plantas e os animais são
verdadeiros camaradas.
eu bebo à saúde deles e com
eles.
eles esperam enquanto encho seus
copos.
os pratos cheios de comida
e quebrou as janelas
e tirou a máscara dos
idiotas
e falou verdadeiras e terríveis
palavras
e
enxotou a turba porta
afora –
aí vem o grande e
sereno momento: você se senta sozinho
e
serve aquela quieta dose.
o mundo é melhor sem
eles.
só as plantas e os animais são
verdadeiros camaradas.
eu bebo à saúde deles e com
eles.
eles esperam enquanto encho seus
copos.
1 405
Charles Bukowski
Um Gato É Um Gato É Um Gato É Um Gato
ela está assobiando e batendo palma
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
1 402
Charles Bukowski
Um Gato É Um Gato É Um Gato É Um Gato
ela está assobiando e batendo palma
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
para os gatos
às 2 da manhã
enquanto fico aqui sentado
com meu vinho e meu
Beethoven.
“estão só rondando”, eu
digo a ela...
Beethoven chocalha seus ossos,
majestoso
e os malditos gatos
não estão nem se lixando
para
nada disso
e
caso se lixassem
eu não gostaria deles
tanto
assim:
as coisas começam a perder seu
valor natural
quando vão se aproximando
da empreitada
humana.
nada contra
Beethoven:
ele foi ótimo
sendo o que
era
mas eu nunca ia querer
Beethoven
no meu tapete
com uma perna
por cima da cabeça
enquanto
ficava
lambendo
o saco.
1 402
Charles Bukowski
Invasão
eu não sabia que
havia algo
no closet
embora em certas noites
meu sono fosse
interrompido por estranhos
sons retumbantes
mas
sempre achei
que fossem
leves
terremotos.
o closet era
o que ficava
no fim do corredor
e
raramente era
usado.
o curioso
para mim
era que
os gatos
(eu tinha
4)
pareciam estar
deixando
enormes
excrementos
pela casa
(e eles eram
domesticados).
então
os gatos
desapareceram
um por
um
mas os excrementos
frescos
continuaram
aparecendo.
foi certa noite
enquanto eu
lia as
cotações
da bolsa de valores
que eu
ergui a cabeça
e
lá estava
o
leão
no vão da porta
do quarto.
eu estava
na cama
acomodado
em
alguns
travesseiros
e bebendo um
chocolate
quente.
ora
ninguém
acreditaria
num leão
em um
quarto –
pelo menos
não
numa cidade
de algum
tamanho.
portanto
fiquei apenas
olhando para o
leão
sem
acreditar
muito.
então
ele se virou e
desceu a
escada.
eu
o segui –
uns bons
cinco metros
atrás –
segurando firme meu
taco de beisebol
numa
das mãos
e minha
faca de lâmina curta
na
outra.
observei o
leão descendo a
escada
e depois
atravessando a sala
da frente
ele parou
diante das grandes
portas
deslizantes
de vidro recozido
que davam para o
pátio e a
rua.
elas estavam
fechadas.
o leão
emitiu um
rosnado
impaciente
e
saltou através do
vidro
estilhaçando a porta
para entrar na
noite.
eu me sentei
no sofá
no
escuro
ainda incapaz
de acreditar
naquilo
que eu
vira.
então
escutei
um grito
de tão extremo
sofrimento e
terror
que
por um
momento
não consegui
nem
ver
nem respirar nem
compreender.
eu me levantei,
voltei para
me entrincheirar
no
quarto
e o que vi foram
3 pequenos
filhotes de leão
tropeçando
escada
abaixo –
felinos
fofos
e diabólicos.
enquanto a
mãe
retornava
pela
noite e pela
porta de vidro
estilhaçada
meio arrastando
meio carregando
um homem
ensanguentado
ao longo do
tapete
deixando um
rastro
vermelho
os filhotes
se precipitaram
em frente
e a
lua
entrou na casa
para iluminar
o
turbilhonante
banquete.
havia algo
no closet
embora em certas noites
meu sono fosse
interrompido por estranhos
sons retumbantes
mas
sempre achei
que fossem
leves
terremotos.
o closet era
o que ficava
no fim do corredor
e
raramente era
usado.
o curioso
para mim
era que
os gatos
(eu tinha
4)
pareciam estar
deixando
enormes
excrementos
pela casa
(e eles eram
domesticados).
então
os gatos
desapareceram
um por
um
mas os excrementos
frescos
continuaram
aparecendo.
foi certa noite
enquanto eu
lia as
cotações
da bolsa de valores
que eu
ergui a cabeça
e
lá estava
o
leão
no vão da porta
do quarto.
eu estava
na cama
acomodado
em
alguns
travesseiros
e bebendo um
chocolate
quente.
ora
ninguém
acreditaria
num leão
em um
quarto –
pelo menos
não
numa cidade
de algum
tamanho.
portanto
fiquei apenas
olhando para o
leão
sem
acreditar
muito.
então
ele se virou e
desceu a
escada.
eu
o segui –
uns bons
cinco metros
atrás –
segurando firme meu
taco de beisebol
numa
das mãos
e minha
faca de lâmina curta
na
outra.
observei o
leão descendo a
escada
e depois
atravessando a sala
da frente
ele parou
diante das grandes
portas
deslizantes
de vidro recozido
que davam para o
pátio e a
rua.
elas estavam
fechadas.
o leão
emitiu um
rosnado
impaciente
e
saltou através do
vidro
estilhaçando a porta
para entrar na
noite.
eu me sentei
no sofá
no
escuro
ainda incapaz
de acreditar
naquilo
que eu
vira.
então
escutei
um grito
de tão extremo
sofrimento e
terror
que
por um
momento
não consegui
nem
ver
nem respirar nem
compreender.
eu me levantei,
voltei para
me entrincheirar
no
quarto
e o que vi foram
3 pequenos
filhotes de leão
tropeçando
escada
abaixo –
felinos
fofos
e diabólicos.
enquanto a
mãe
retornava
pela
noite e pela
porta de vidro
estilhaçada
meio arrastando
meio carregando
um homem
ensanguentado
ao longo do
tapete
deixando um
rastro
vermelho
os filhotes
se precipitaram
em frente
e a
lua
entrou na casa
para iluminar
o
turbilhonante
banquete.
1 260
Charles Bukowski
Invasão
eu não sabia que
havia algo
no closet
embora em certas noites
meu sono fosse
interrompido por estranhos
sons retumbantes
mas
sempre achei
que fossem
leves
terremotos.
o closet era
o que ficava
no fim do corredor
e
raramente era
usado.
o curioso
para mim
era que
os gatos
(eu tinha
4)
pareciam estar
deixando
enormes
excrementos
pela casa
(e eles eram
domesticados).
então
os gatos
desapareceram
um por
um
mas os excrementos
frescos
continuaram
aparecendo.
foi certa noite
enquanto eu
lia as
cotações
da bolsa de valores
que eu
ergui a cabeça
e
lá estava
o
leão
no vão da porta
do quarto.
eu estava
na cama
acomodado
em
alguns
travesseiros
e bebendo um
chocolate
quente.
ora
ninguém
acreditaria
num leão
em um
quarto –
pelo menos
não
numa cidade
de algum
tamanho.
portanto
fiquei apenas
olhando para o
leão
sem
acreditar
muito.
então
ele se virou e
desceu a
escada.
eu
o segui –
uns bons
cinco metros
atrás –
segurando firme meu
taco de beisebol
numa
das mãos
e minha
faca de lâmina curta
na
outra.
observei o
leão descendo a
escada
e depois
atravessando a sala
da frente
ele parou
diante das grandes
portas
deslizantes
de vidro recozido
que davam para o
pátio e a
rua.
elas estavam
fechadas.
o leão
emitiu um
rosnado
impaciente
e
saltou através do
vidro
estilhaçando a porta
para entrar na
noite.
eu me sentei
no sofá
no
escuro
ainda incapaz
de acreditar
naquilo
que eu
vira.
então
escutei
um grito
de tão extremo
sofrimento e
terror
que
por um
momento
não consegui
nem
ver
nem respirar nem
compreender.
eu me levantei,
voltei para
me entrincheirar
no
quarto
e o que vi foram
3 pequenos
filhotes de leão
tropeçando
escada
abaixo –
felinos
fofos
e diabólicos.
enquanto a
mãe
retornava
pela
noite e pela
porta de vidro
estilhaçada
meio arrastando
meio carregando
um homem
ensanguentado
ao longo do
tapete
deixando um
rastro
vermelho
os filhotes
se precipitaram
em frente
e a
lua
entrou na casa
para iluminar
o
turbilhonante
banquete.
havia algo
no closet
embora em certas noites
meu sono fosse
interrompido por estranhos
sons retumbantes
mas
sempre achei
que fossem
leves
terremotos.
o closet era
o que ficava
no fim do corredor
e
raramente era
usado.
o curioso
para mim
era que
os gatos
(eu tinha
4)
pareciam estar
deixando
enormes
excrementos
pela casa
(e eles eram
domesticados).
então
os gatos
desapareceram
um por
um
mas os excrementos
frescos
continuaram
aparecendo.
foi certa noite
enquanto eu
lia as
cotações
da bolsa de valores
que eu
ergui a cabeça
e
lá estava
o
leão
no vão da porta
do quarto.
eu estava
na cama
acomodado
em
alguns
travesseiros
e bebendo um
chocolate
quente.
ora
ninguém
acreditaria
num leão
em um
quarto –
pelo menos
não
numa cidade
de algum
tamanho.
portanto
fiquei apenas
olhando para o
leão
sem
acreditar
muito.
então
ele se virou e
desceu a
escada.
eu
o segui –
uns bons
cinco metros
atrás –
segurando firme meu
taco de beisebol
numa
das mãos
e minha
faca de lâmina curta
na
outra.
observei o
leão descendo a
escada
e depois
atravessando a sala
da frente
ele parou
diante das grandes
portas
deslizantes
de vidro recozido
que davam para o
pátio e a
rua.
elas estavam
fechadas.
o leão
emitiu um
rosnado
impaciente
e
saltou através do
vidro
estilhaçando a porta
para entrar na
noite.
eu me sentei
no sofá
no
escuro
ainda incapaz
de acreditar
naquilo
que eu
vira.
então
escutei
um grito
de tão extremo
sofrimento e
terror
que
por um
momento
não consegui
nem
ver
nem respirar nem
compreender.
eu me levantei,
voltei para
me entrincheirar
no
quarto
e o que vi foram
3 pequenos
filhotes de leão
tropeçando
escada
abaixo –
felinos
fofos
e diabólicos.
enquanto a
mãe
retornava
pela
noite e pela
porta de vidro
estilhaçada
meio arrastando
meio carregando
um homem
ensanguentado
ao longo do
tapete
deixando um
rastro
vermelho
os filhotes
se precipitaram
em frente
e a
lua
entrou na casa
para iluminar
o
turbilhonante
banquete.
1 260
Charles Bukowski
Chip Intel 8088 de 16 Bits
com um Apple Macintosh
você não pode rodar os programas do Radio Shack
em seu drive.
tampouco um drive de Commodore 64
consegue ler um arquivo
que você criou num
IBM Personal Computer.
os computadores Kaypro e Osborne usam ambos
o sistema operacional CP/M
mas não conseguem ler as caligrafias
um do outro
pois formatam (escrevem
em) discos de diferentes
modos.
o Tandy 2000 roda MS-DOS mas
não consegue usar a maioria dos programas produzidos para
o IBM Personal Computer
a menos que certos
bits e bytes sejam
alterados
mas o vento ainda sopra sobre
Savannah
e na primavera
o urubu-caçador marcha e
se pavoneia diante de suas
fêmeas.
você não pode rodar os programas do Radio Shack
em seu drive.
tampouco um drive de Commodore 64
consegue ler um arquivo
que você criou num
IBM Personal Computer.
os computadores Kaypro e Osborne usam ambos
o sistema operacional CP/M
mas não conseguem ler as caligrafias
um do outro
pois formatam (escrevem
em) discos de diferentes
modos.
o Tandy 2000 roda MS-DOS mas
não consegue usar a maioria dos programas produzidos para
o IBM Personal Computer
a menos que certos
bits e bytes sejam
alterados
mas o vento ainda sopra sobre
Savannah
e na primavera
o urubu-caçador marcha e
se pavoneia diante de suas
fêmeas.
1 046
Charles Bukowski
Chip Intel 8088 de 16 Bits
com um Apple Macintosh
você não pode rodar os programas do Radio Shack
em seu drive.
tampouco um drive de Commodore 64
consegue ler um arquivo
que você criou num
IBM Personal Computer.
os computadores Kaypro e Osborne usam ambos
o sistema operacional CP/M
mas não conseguem ler as caligrafias
um do outro
pois formatam (escrevem
em) discos de diferentes
modos.
o Tandy 2000 roda MS-DOS mas
não consegue usar a maioria dos programas produzidos para
o IBM Personal Computer
a menos que certos
bits e bytes sejam
alterados
mas o vento ainda sopra sobre
Savannah
e na primavera
o urubu-caçador marcha e
se pavoneia diante de suas
fêmeas.
você não pode rodar os programas do Radio Shack
em seu drive.
tampouco um drive de Commodore 64
consegue ler um arquivo
que você criou num
IBM Personal Computer.
os computadores Kaypro e Osborne usam ambos
o sistema operacional CP/M
mas não conseguem ler as caligrafias
um do outro
pois formatam (escrevem
em) discos de diferentes
modos.
o Tandy 2000 roda MS-DOS mas
não consegue usar a maioria dos programas produzidos para
o IBM Personal Computer
a menos que certos
bits e bytes sejam
alterados
mas o vento ainda sopra sobre
Savannah
e na primavera
o urubu-caçador marcha e
se pavoneia diante de suas
fêmeas.
1 046
Charles Bukowski
Supostamente Famoso
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada,
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
1 132
Charles Bukowski
Concreto
ele tinha organizado a
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
1 125
Charles Bukowski
Concreto
ele tinha organizado a
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
1 125
Charles Bukowski
O Vinho da Eternidade
relendo um pouco do
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.
a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.
as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.
que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...
os deuses não têm
favoritos.
larguei o livro
ao meu lado.
livro num lado,
gato no
outro...
John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.
mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.
a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.
as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.
que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...
os deuses não têm
favoritos.
larguei o livro
ao meu lado.
livro num lado,
gato no
outro...
John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.
mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
1 377
Charles Bukowski
Um Cara Engraçado
Schopenhauer não suportava as massas,
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
elas o deixavam louco
mas ele era capaz de dizer
“pelo menos não sou elas”
e isso o consolava em certa
medida
e creio que um de seus textos mais divertidos
foi aquele no qual protestou contra certo homem que
inutilmente estalava seu chicote
sobre seu cavalo
destruindo completamente um raciocínio
que Arthur estava
desenvolvendo.
mas o homem com o chicote era uma parte do
todo
não importando quão aparentemente inútil e
estúpido
e pensamentos um dia geniais
muitas vezes com o tempo
se tornam inúteis e
estúpidos.
mas a fúria de Schopenhauer era tão
bela
tão bem colocada que eu ri
alto
e então
o larguei
ao lado de Nietzsche
que também era
demasiado
humano.
1 156
Charles Bukowski
Não Registrado
meu cavalo era o cinza
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
1 196
Charles Bukowski
O Tempora! o Mores!
venho recebendo revistas de mulherzinha no correio porque
estou escrevendo contos para elas de novo
e aqui nestas páginas aparecem essas damas
expondo suas caixas de joias –
parece mais um periódico de
ginecologia –
tudo descarada e clinicamente
exposto
sob fisionomias insípidas e entediadas.
é um brochante de gigantescas
proporções:
o segredo está na imaginação –
elimine isso e você terá carne
morta.
um século atrás
um homem podia ser levado à loucura
por um tornozelo
bem torneado, e
por que não?
você podia imaginar
que o resto
seria
mágico
sem dúvida!
agora nos empurram tudo como se fosse
um hambúrguer do McDonald’s
numa bandeja.
não há praticamente nada mais lindo do que
uma mulher de vestido longo
nem mesmo o nascer do sol
nem mesmo os gansos voando para o sul
na longa formação em V
na brilhante frescura
da manhã.
estou escrevendo contos para elas de novo
e aqui nestas páginas aparecem essas damas
expondo suas caixas de joias –
parece mais um periódico de
ginecologia –
tudo descarada e clinicamente
exposto
sob fisionomias insípidas e entediadas.
é um brochante de gigantescas
proporções:
o segredo está na imaginação –
elimine isso e você terá carne
morta.
um século atrás
um homem podia ser levado à loucura
por um tornozelo
bem torneado, e
por que não?
você podia imaginar
que o resto
seria
mágico
sem dúvida!
agora nos empurram tudo como se fosse
um hambúrguer do McDonald’s
numa bandeja.
não há praticamente nada mais lindo do que
uma mulher de vestido longo
nem mesmo o nascer do sol
nem mesmo os gansos voando para o sul
na longa formação em V
na brilhante frescura
da manhã.
1 187
Charles Bukowski
O Tempora! o Mores!
venho recebendo revistas de mulherzinha no correio porque
estou escrevendo contos para elas de novo
e aqui nestas páginas aparecem essas damas
expondo suas caixas de joias –
parece mais um periódico de
ginecologia –
tudo descarada e clinicamente
exposto
sob fisionomias insípidas e entediadas.
é um brochante de gigantescas
proporções:
o segredo está na imaginação –
elimine isso e você terá carne
morta.
um século atrás
um homem podia ser levado à loucura
por um tornozelo
bem torneado, e
por que não?
você podia imaginar
que o resto
seria
mágico
sem dúvida!
agora nos empurram tudo como se fosse
um hambúrguer do McDonald’s
numa bandeja.
não há praticamente nada mais lindo do que
uma mulher de vestido longo
nem mesmo o nascer do sol
nem mesmo os gansos voando para o sul
na longa formação em V
na brilhante frescura
da manhã.
estou escrevendo contos para elas de novo
e aqui nestas páginas aparecem essas damas
expondo suas caixas de joias –
parece mais um periódico de
ginecologia –
tudo descarada e clinicamente
exposto
sob fisionomias insípidas e entediadas.
é um brochante de gigantescas
proporções:
o segredo está na imaginação –
elimine isso e você terá carne
morta.
um século atrás
um homem podia ser levado à loucura
por um tornozelo
bem torneado, e
por que não?
você podia imaginar
que o resto
seria
mágico
sem dúvida!
agora nos empurram tudo como se fosse
um hambúrguer do McDonald’s
numa bandeja.
não há praticamente nada mais lindo do que
uma mulher de vestido longo
nem mesmo o nascer do sol
nem mesmo os gansos voando para o sul
na longa formação em V
na brilhante frescura
da manhã.
1 187
Charles Bukowski
A Lâmina
não havia estacionamento perto da agência dos correios onde
eu trabalhava à noite
então encontrei um lugar esplêndido
(ninguém parecia gostar de estacionar ali)
numa estrada de chão atrás de um
matadouro
e ali sentado no meu carro
pouco antes do trabalho
fumando um último cigarro
eu era entretido com a mesma
cena
enquanto cada noitinha afundava em
noite –
os porcos eram pastoreados para fora dos
cercados
e ao longo de rampas
por um homem fazendo sons de porco e
agitando uma grande lona
e os porcos corriam alucinados
pela rampa
rumo à lâmina
que os esperava,
e várias noites
depois de ver aquilo
depois de terminar meu
cigarro
eu simplesmente ligava o carro
recuava dali e
acelerava para longe do meu
emprego.
meu absentismo atingiu tão espantosas
proporções
que precisei afinal
estacionar
a certo custo
atrás de um bar chinês
onde tudo que eu podia ver eram minúsculas janelas
fechadas
com letreiros em neon anunciando certa
libação
oriental.
parecia menos real, e era disso
que se
precisava.
eu trabalhava à noite
então encontrei um lugar esplêndido
(ninguém parecia gostar de estacionar ali)
numa estrada de chão atrás de um
matadouro
e ali sentado no meu carro
pouco antes do trabalho
fumando um último cigarro
eu era entretido com a mesma
cena
enquanto cada noitinha afundava em
noite –
os porcos eram pastoreados para fora dos
cercados
e ao longo de rampas
por um homem fazendo sons de porco e
agitando uma grande lona
e os porcos corriam alucinados
pela rampa
rumo à lâmina
que os esperava,
e várias noites
depois de ver aquilo
depois de terminar meu
cigarro
eu simplesmente ligava o carro
recuava dali e
acelerava para longe do meu
emprego.
meu absentismo atingiu tão espantosas
proporções
que precisei afinal
estacionar
a certo custo
atrás de um bar chinês
onde tudo que eu podia ver eram minúsculas janelas
fechadas
com letreiros em neon anunciando certa
libação
oriental.
parecia menos real, e era disso
que se
precisava.
1 144
Charles Bukowski
Outro Acidente
gato foi atropelado
agora parafuso de prata mantendo unido um fêmur
quebrado
perna direita
envolta em rubra e brilhante
atadura
trouxe meu gato de volta do veterinário
tirei meu olho
dele por
um instante
ele correu pelo piso
arrastando sua rubra
perna
perseguindo a
gata
pior coisa que o
filho da puta podia
fazer
está preso
de castigo
agora
esfriando
a cabeça
ele é igualzinho ao
resto de
nós
ele tem uns grandes
olhos amarelos
fitando fixamente
querendo apenas
viver a
vida
boa.
agora parafuso de prata mantendo unido um fêmur
quebrado
perna direita
envolta em rubra e brilhante
atadura
trouxe meu gato de volta do veterinário
tirei meu olho
dele por
um instante
ele correu pelo piso
arrastando sua rubra
perna
perseguindo a
gata
pior coisa que o
filho da puta podia
fazer
está preso
de castigo
agora
esfriando
a cabeça
ele é igualzinho ao
resto de
nós
ele tem uns grandes
olhos amarelos
fitando fixamente
querendo apenas
viver a
vida
boa.
1 175
Charles Bukowski
Tempestade Para Os Vivos E Para Os Mortos
você não me pega, a chuva está entrando pela
porta e estou na frente do computador enquanto
ouço Rachmaninov no rádio,
a chuva entrando de lado pela porta,
pancadas dela e sopro fumaça de charuto nela e
sorrio.
depois da porta tem uma sacadinha e há
uma cadeira lá.
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas vão
mal aqui.
(caramba está caindo água agora!
ótimo! ensopando meu assento de madeira
lá fora!
as árvores balançam na chuva e os
fios telefônicos.)
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas
vão mal
e bebo cerveja lá fora,
olho os carros da noite na autoestrada,
também noto quantas luzes são necessárias
numa cidade, tantas.
e fico lá sentado e penso, bem, pode
ser um momento estagnado
mas pelo menos você não está morando na rua.
você não está nem no cemitério ainda.
ânimo, garotão, você já superou
coisa pior...
beba sua cerveja.
mas hoje estou aqui,
e Rachmaninov ainda toca para mim.
quando eu era jovem em São
Francisco, ou razoavelmente jovem, eu era
um pouco mentalmente desequilibrado, achava
que era um grande artista e passava fome por
isso.
estou querendo dizer é que Rachmaninov ainda
estava vivo na época
e de algum modo eu poupara dinheiro
suficiente para ir vê-lo tocar no
auditório.
só que quando cheguei lá
anunciaram que ele estava doente
e que um substituto iria
tocar no lugar dele.
fiquei com raiva.
não deveria ter ficado pois dentro
de uma semana ele estava
morto.
mas ele está tocando para mim agora.
uma de suas próprias composições,
e se saindo muito bem.
com a chuva batendo nesta sala,
agora um vento de temporal escancara
totalmente a porta.
papéis voam pela sala.
há uma batida na porta,
a porta atrás de mim.
ela se abre.
minha esposa entra.
“é um furacão!”, ela diz,
“um furacão de gelo, você vai morrer
congelado!”
“não, não”, digo a ela, “estou bem!”
ela toca os meus braços,
eles estão quentes.
ela fica me encarando.
às vezes ela se pergunta.
eu também.
agora estou sozinho.
Rachmaninov terminou
e a chuva
parou.
e o vento.
agora sinto frio.
eu me levanto e visto um roupão de banho.
sou um velho escritor.
uma conta de telefone olha para mim
de ponta-cabeça.
a festa acabou.
San Pedro, 1993,
no Senhor do nosso
Ano.
sentado aqui.
porta e estou na frente do computador enquanto
ouço Rachmaninov no rádio,
a chuva entrando de lado pela porta,
pancadas dela e sopro fumaça de charuto nela e
sorrio.
depois da porta tem uma sacadinha e há
uma cadeira lá.
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas vão
mal aqui.
(caramba está caindo água agora!
ótimo! ensopando meu assento de madeira
lá fora!
as árvores balançam na chuva e os
fios telefônicos.)
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas
vão mal
e bebo cerveja lá fora,
olho os carros da noite na autoestrada,
também noto quantas luzes são necessárias
numa cidade, tantas.
e fico lá sentado e penso, bem, pode
ser um momento estagnado
mas pelo menos você não está morando na rua.
você não está nem no cemitério ainda.
ânimo, garotão, você já superou
coisa pior...
beba sua cerveja.
mas hoje estou aqui,
e Rachmaninov ainda toca para mim.
quando eu era jovem em São
Francisco, ou razoavelmente jovem, eu era
um pouco mentalmente desequilibrado, achava
que era um grande artista e passava fome por
isso.
estou querendo dizer é que Rachmaninov ainda
estava vivo na época
e de algum modo eu poupara dinheiro
suficiente para ir vê-lo tocar no
auditório.
só que quando cheguei lá
anunciaram que ele estava doente
e que um substituto iria
tocar no lugar dele.
fiquei com raiva.
não deveria ter ficado pois dentro
de uma semana ele estava
morto.
mas ele está tocando para mim agora.
uma de suas próprias composições,
e se saindo muito bem.
com a chuva batendo nesta sala,
agora um vento de temporal escancara
totalmente a porta.
papéis voam pela sala.
há uma batida na porta,
a porta atrás de mim.
ela se abre.
minha esposa entra.
“é um furacão!”, ela diz,
“um furacão de gelo, você vai morrer
congelado!”
“não, não”, digo a ela, “estou bem!”
ela toca os meus braços,
eles estão quentes.
ela fica me encarando.
às vezes ela se pergunta.
eu também.
agora estou sozinho.
Rachmaninov terminou
e a chuva
parou.
e o vento.
agora sinto frio.
eu me levanto e visto um roupão de banho.
sou um velho escritor.
uma conta de telefone olha para mim
de ponta-cabeça.
a festa acabou.
San Pedro, 1993,
no Senhor do nosso
Ano.
sentado aqui.
1 170
Charles Bukowski
Um Mágico Desaparecido...
eles vão um por um e conforme vão indo isso chega mais perto
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu jamais tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
dançarinos de balé
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 1-10-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu jamais tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
dançarinos de balé
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 1-10-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
1 152
Charles Bukowski
1813-1883
ouvindo Wagner
e lá fora no escuro o vento sopra uma chuva fria as
árvores oscilam e balançam luzes se
apagam e acendem as paredes rangem e os gatos correm para baixo da
cama...
Wagner enfrenta os tormentos, ele é sentimental mas
sólido, é o lutador supremo, gigante num mundo de
pigmeus, ele se joga de frente, rompe
barreiras
uma
espantosa FORÇA sonora enquanto
tudo aqui balança
treme
verga
estoura
em feroz aposta
sim, Wagner e a tempestade se misturam com o vinho quando
noites como esta sobem dos meus pulsos até a cabeça e
recaem nas
tripas
certos homens nunca
morrem
e certos homens nunca
vivem
mas estamos todos vivos
nesta noite.
e lá fora no escuro o vento sopra uma chuva fria as
árvores oscilam e balançam luzes se
apagam e acendem as paredes rangem e os gatos correm para baixo da
cama...
Wagner enfrenta os tormentos, ele é sentimental mas
sólido, é o lutador supremo, gigante num mundo de
pigmeus, ele se joga de frente, rompe
barreiras
uma
espantosa FORÇA sonora enquanto
tudo aqui balança
treme
verga
estoura
em feroz aposta
sim, Wagner e a tempestade se misturam com o vinho quando
noites como esta sobem dos meus pulsos até a cabeça e
recaem nas
tripas
certos homens nunca
morrem
e certos homens nunca
vivem
mas estamos todos vivos
nesta noite.
1 623
Charles Bukowski
Dando Um Jeito
nesta manhã fumegante Hades bate palma com suas mãos de Herpes e
uma mulher canta pelo meu rádio, sua voz vem escalando
pela fumaça e pelas emanações do vinho...
é um momento solitário, ela canta, e você não é
meu e isso me deixa tão mal,
essa coisa de ser eu...
consigo escutar carros na autoestrada, é como um mar distante
com sedimentos de pessoas
e por sobre o meu outro ombro, lá longe na 7th street
perto da Western
está o hospital, aquela casa do suplício –
lençóis e urinóis e braços e cabeças e
expirações;
tudo é tão docemente medonho, tão contínua e
docemente medonho: a arte da consumação: a vida comendo
a vida...
certa vez num sonho eu vi uma cobra engolindo sua própria
cauda, ela engoliu e engoliu até completar
meia-volta, e ali parou e
ali ficou, ela estava estufada de si
mesma. que situação.
só temos nós mesmos para ir em frente, e é o
bastante...
desço a escada pra pegar outra garrafa, ligo a
tevê a cabo e eis Greg Peck fingindo ser
F. Scott e ele está muito empolgado e está lendo seu
manuscrito para sua dama.
desligo o
aparelho.
que tipo de escritor é esse? lendo suas páginas para
uma dama? isso é uma violação...
volto ao andar de cima e meus dois gatos me seguem, eles são
bons camaradas, não temos desentendimentos, não
temos discussões, ouvimos a mesma música, nunca votamos para
presidente.
um dos meus gatos, o grande, salta no encosto
da minha cadeira, se esfrega em meus ombros e meu
pescoço.
“não adianta”, digo a ele, “não vou
ler pra você esse
poema.”
ele salta para o chão e sai pela
sacada e seu amigo
segue atrás.
eles sentam e olham a noite; nós temos o
poder da sanidade aqui.
nestas primeiras horas da manhã, quando quase todo mundo
está dormindo, pequenos insetos noturnos, coisas aladas
entram e circulam e giram.
a máquina zumbe seu zumbido elétrico, e tendo
aberto e provado a nova garrafa eu bato o próximo
verso. você
pode lê-lo para sua dama e ela provavelmente lhe dirá
que é bobagem. ela estará
lendo Suave é a
noite.
uma mulher canta pelo meu rádio, sua voz vem escalando
pela fumaça e pelas emanações do vinho...
é um momento solitário, ela canta, e você não é
meu e isso me deixa tão mal,
essa coisa de ser eu...
consigo escutar carros na autoestrada, é como um mar distante
com sedimentos de pessoas
e por sobre o meu outro ombro, lá longe na 7th street
perto da Western
está o hospital, aquela casa do suplício –
lençóis e urinóis e braços e cabeças e
expirações;
tudo é tão docemente medonho, tão contínua e
docemente medonho: a arte da consumação: a vida comendo
a vida...
certa vez num sonho eu vi uma cobra engolindo sua própria
cauda, ela engoliu e engoliu até completar
meia-volta, e ali parou e
ali ficou, ela estava estufada de si
mesma. que situação.
só temos nós mesmos para ir em frente, e é o
bastante...
desço a escada pra pegar outra garrafa, ligo a
tevê a cabo e eis Greg Peck fingindo ser
F. Scott e ele está muito empolgado e está lendo seu
manuscrito para sua dama.
desligo o
aparelho.
que tipo de escritor é esse? lendo suas páginas para
uma dama? isso é uma violação...
volto ao andar de cima e meus dois gatos me seguem, eles são
bons camaradas, não temos desentendimentos, não
temos discussões, ouvimos a mesma música, nunca votamos para
presidente.
um dos meus gatos, o grande, salta no encosto
da minha cadeira, se esfrega em meus ombros e meu
pescoço.
“não adianta”, digo a ele, “não vou
ler pra você esse
poema.”
ele salta para o chão e sai pela
sacada e seu amigo
segue atrás.
eles sentam e olham a noite; nós temos o
poder da sanidade aqui.
nestas primeiras horas da manhã, quando quase todo mundo
está dormindo, pequenos insetos noturnos, coisas aladas
entram e circulam e giram.
a máquina zumbe seu zumbido elétrico, e tendo
aberto e provado a nova garrafa eu bato o próximo
verso. você
pode lê-lo para sua dama e ela provavelmente lhe dirá
que é bobagem. ela estará
lendo Suave é a
noite.
1 454
Charles Bukowski
Parabéns, Chinaski
conforme me aproximo dos 70
recebo cartas, cartões, presentinhos
de pessoas estranhas.
felicitações, elas me
dizem,
felicitações.
sei o que querem dizer:
do jeito que vivi
eu deveria ter morrido em metade
do tempo.
empilhei sobre mim uma montanha de
grandioso abuso, fui
descuidado comigo mesmo
quase ao nível da
loucura,
ainda estou aqui
debruçado nesta máquina
nesta sala impregnada de fumaça,
a grande lata de lixo à minha
esquerda
cheia de embalagens
vazias.
os médicos não têm respostas
e os deuses estão
calados.
felicitações, morte,
por sua paciência.
eu te ajudei o máximo que
pude.
agora mais um poema
e uma volta na sacada,
que bela noite aqui.
estou usando cueca e meias,
coço suavemente minha velha
barriga,
olho lá fora
olho além do lá fora
onde o escuro encontra o escuro
tem sido uma loucura
esse jogo.
recebo cartas, cartões, presentinhos
de pessoas estranhas.
felicitações, elas me
dizem,
felicitações.
sei o que querem dizer:
do jeito que vivi
eu deveria ter morrido em metade
do tempo.
empilhei sobre mim uma montanha de
grandioso abuso, fui
descuidado comigo mesmo
quase ao nível da
loucura,
ainda estou aqui
debruçado nesta máquina
nesta sala impregnada de fumaça,
a grande lata de lixo à minha
esquerda
cheia de embalagens
vazias.
os médicos não têm respostas
e os deuses estão
calados.
felicitações, morte,
por sua paciência.
eu te ajudei o máximo que
pude.
agora mais um poema
e uma volta na sacada,
que bela noite aqui.
estou usando cueca e meias,
coço suavemente minha velha
barriga,
olho lá fora
olho além do lá fora
onde o escuro encontra o escuro
tem sido uma loucura
esse jogo.
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Charles Bukowski
Venice, Calif., Nov. 1977:
leary se foi faz tempo e a área dos desajustados que ele criou:
os drogados, os doidos, os fanáticos, o afluxo
de idiotas em geral há muito foi corrigido pelas
instituições, incluindo a instituição da morte.
lsd está quase fora, anfetamina é padrão, barbitúricos são raros,
baseados não são valentes, cocaína e H são caras demais,
patins e raquetebol estão na moda; menos violões,
menos bongôs, menos negros; os nativos agora mascateiam bagagem
e pequenas mercadorias em vans enquanto seus estéreos
já não tocam Bob Dylan, eles viraram pequenos
capitalistas, nada exaustivo, só uma febre, e a
bicicleta de dez marchas, eles pedalam a bicicleta de dez marchas como
no sonho, todas as revoluções acabaram mas resta
um ou outro anarquista sob as palmeiras, calcando seus
cachimbos e planejando explodir qualquer coisa em absoluto por
nenhuma razão em absoluto e o mar vem e vai, vai e vem,
e em Santa Monica os musculosos continuam lá,
embora não sejam os mesmos musculosos, e o mar
vem e vai, e não há Vietnã para protestar, praticamente
nada pra fazer, raquetebol, patins e dez marchas,
e trepar é quase uma chatice, dá problema, sabe,
e vinho barato está na moda, e você pode lavar o carro no
faça-você-mesmo por vinte e cinco centavos.
os drogados, os doidos, os fanáticos, o afluxo
de idiotas em geral há muito foi corrigido pelas
instituições, incluindo a instituição da morte.
lsd está quase fora, anfetamina é padrão, barbitúricos são raros,
baseados não são valentes, cocaína e H são caras demais,
patins e raquetebol estão na moda; menos violões,
menos bongôs, menos negros; os nativos agora mascateiam bagagem
e pequenas mercadorias em vans enquanto seus estéreos
já não tocam Bob Dylan, eles viraram pequenos
capitalistas, nada exaustivo, só uma febre, e a
bicicleta de dez marchas, eles pedalam a bicicleta de dez marchas como
no sonho, todas as revoluções acabaram mas resta
um ou outro anarquista sob as palmeiras, calcando seus
cachimbos e planejando explodir qualquer coisa em absoluto por
nenhuma razão em absoluto e o mar vem e vai, vai e vem,
e em Santa Monica os musculosos continuam lá,
embora não sejam os mesmos musculosos, e o mar
vem e vai, e não há Vietnã para protestar, praticamente
nada pra fazer, raquetebol, patins e dez marchas,
e trepar é quase uma chatice, dá problema, sabe,
e vinho barato está na moda, e você pode lavar o carro no
faça-você-mesmo por vinte e cinco centavos.
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