Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Charles Bukowski
O Amante da Flor
nas Montanhas Valquíria
entre os pavões garbosos
encontrei uma flor
tão grande quanto minha
cabeça
e quando a apanhei para cheirá-la
perdi um lóbulo
parte do meu nariz
um olho
e meio maço de
cigarros.
retornei no
dia seguinte
para arrancar a maldita
mas
achei-a tão bonita
que resolvi
matar um
pavão
em seu lugar.
entre os pavões garbosos
encontrei uma flor
tão grande quanto minha
cabeça
e quando a apanhei para cheirá-la
perdi um lóbulo
parte do meu nariz
um olho
e meio maço de
cigarros.
retornei no
dia seguinte
para arrancar a maldita
mas
achei-a tão bonita
que resolvi
matar um
pavão
em seu lugar.
1 065
Charles Bukowski
Como Todos Os Anos Perdidos
ontem a Alice gambá
me deu
um pote de geleia de figo
e hoje ela
assobia
para o gato
mas
ele não
virá –
ele está com os cavalos
em uma
banheira de cerveja
ou
no quarto 21
no Crown Hill
Hotel
ou ele está no
Crocker
Citizens National
Bank
ou
chegou em
Nova York às
5:30 da tarde
com uma mala de papelão
e
$7.
próximo a Alice
em seu quintal
um ganso de papel
caminha
de cabeça para baixo
num painel que diz:
Laranjas da
Califórnia.
os assobios bêbados de Alice.
nada bons, nada bons.
trabalham devagar.
todo mundo dá duro
menos os
deuses.
Alice entra para uma
birita, volta a
aparecer.
assobia de novo
o caminho inteiro até
o banco da praça em
El Paso –
e seu amor surge
correndo de entre os
arbustos
os olhos brilhantes como num
filme a cores
e sem esperar
pela
segunda-feira.
nós entramos
juntos.
me deu
um pote de geleia de figo
e hoje ela
assobia
para o gato
mas
ele não
virá –
ele está com os cavalos
em uma
banheira de cerveja
ou
no quarto 21
no Crown Hill
Hotel
ou ele está no
Crocker
Citizens National
Bank
ou
chegou em
Nova York às
5:30 da tarde
com uma mala de papelão
e
$7.
próximo a Alice
em seu quintal
um ganso de papel
caminha
de cabeça para baixo
num painel que diz:
Laranjas da
Califórnia.
os assobios bêbados de Alice.
nada bons, nada bons.
trabalham devagar.
todo mundo dá duro
menos os
deuses.
Alice entra para uma
birita, volta a
aparecer.
assobia de novo
o caminho inteiro até
o banco da praça em
El Paso –
e seu amor surge
correndo de entre os
arbustos
os olhos brilhantes como num
filme a cores
e sem esperar
pela
segunda-feira.
nós entramos
juntos.
1 104
Charles Bukowski
Briga de Cachorro
é um bicho raquítico
ele rosna e arranha
corre atrás dos carros
gane durante o sono
e tem uma estrela perfeita sobre cada sobrancelha
a gente o escuta lá fora:
aterrorizando alguma coisa com pelo menos
5 vezes seu
tamanho
é o cachorro do professor do outro lado da rua
aquele caríssimo cão de raça adestrado
ô, isto seria problema para todo mundo
eu os separo
e nós corremos para dentro com o raquítico
trancamos a porta
apagamos as luzes
e os vemos atravessar a rua
imaculados e preocupados
parecem ser 7 ou 8 pessoas
chegando para pegar seu
cão
aquele enorme saco de banha peludo
deveria saber mais do que meramente cruzar
os trilhos da ferrovia.
ele rosna e arranha
corre atrás dos carros
gane durante o sono
e tem uma estrela perfeita sobre cada sobrancelha
a gente o escuta lá fora:
aterrorizando alguma coisa com pelo menos
5 vezes seu
tamanho
é o cachorro do professor do outro lado da rua
aquele caríssimo cão de raça adestrado
ô, isto seria problema para todo mundo
eu os separo
e nós corremos para dentro com o raquítico
trancamos a porta
apagamos as luzes
e os vemos atravessar a rua
imaculados e preocupados
parecem ser 7 ou 8 pessoas
chegando para pegar seu
cão
aquele enorme saco de banha peludo
deveria saber mais do que meramente cruzar
os trilhos da ferrovia.
999
Charles Bukowski
Sobre Sair Para Apanhar a Correspondência
o ridículo meio-dia
quando esquadrões de minhocas surgem nuas
como dançarinas
para serem estupradas por melros.
eu saio
e ao longo de toda a rua
os exércitos verdes disparam cores
como um 4 de julho eterno,
e eu também pareço me inflamar por dentro
um tipo de explosão desconhecida, uma
sensação, talvez, de que não há nenhum
inimigo
em nenhum lugar.
e eu enfio a mão na caixa
e não há
nada – nem sequer uma
carta da cia. de gás dizendo que irão
cortar mais uma vez
o fornecimento.
nem mesmo um bilhete da minha ex-mulher
se pavoneando de sua atual
felicidade.
minha mão vasculha a caixa de correspondência
numa espécie de descrença mesmo depois da cabeça há muito
já ter desistido.
não havia nem mesmo uma mosca morta
lá dentro.
sou um idiota, penso, eu deveria saber que
assim são as coisas.
entro enquanto todas as flores se projetam no espaço para
me agradar.
alguma coisa? a mulher
pergunta.
nada, respondo, o que tem para o
café da manhã?
quando esquadrões de minhocas surgem nuas
como dançarinas
para serem estupradas por melros.
eu saio
e ao longo de toda a rua
os exércitos verdes disparam cores
como um 4 de julho eterno,
e eu também pareço me inflamar por dentro
um tipo de explosão desconhecida, uma
sensação, talvez, de que não há nenhum
inimigo
em nenhum lugar.
e eu enfio a mão na caixa
e não há
nada – nem sequer uma
carta da cia. de gás dizendo que irão
cortar mais uma vez
o fornecimento.
nem mesmo um bilhete da minha ex-mulher
se pavoneando de sua atual
felicidade.
minha mão vasculha a caixa de correspondência
numa espécie de descrença mesmo depois da cabeça há muito
já ter desistido.
não havia nem mesmo uma mosca morta
lá dentro.
sou um idiota, penso, eu deveria saber que
assim são as coisas.
entro enquanto todas as flores se projetam no espaço para
me agradar.
alguma coisa? a mulher
pergunta.
nada, respondo, o que tem para o
café da manhã?
1 180
Charles Bukowski
Sobre Sair Para Apanhar a Correspondência
o ridículo meio-dia
quando esquadrões de minhocas surgem nuas
como dançarinas
para serem estupradas por melros.
eu saio
e ao longo de toda a rua
os exércitos verdes disparam cores
como um 4 de julho eterno,
e eu também pareço me inflamar por dentro
um tipo de explosão desconhecida, uma
sensação, talvez, de que não há nenhum
inimigo
em nenhum lugar.
e eu enfio a mão na caixa
e não há
nada – nem sequer uma
carta da cia. de gás dizendo que irão
cortar mais uma vez
o fornecimento.
nem mesmo um bilhete da minha ex-mulher
se pavoneando de sua atual
felicidade.
minha mão vasculha a caixa de correspondência
numa espécie de descrença mesmo depois da cabeça há muito
já ter desistido.
não havia nem mesmo uma mosca morta
lá dentro.
sou um idiota, penso, eu deveria saber que
assim são as coisas.
entro enquanto todas as flores se projetam no espaço para
me agradar.
alguma coisa? a mulher
pergunta.
nada, respondo, o que tem para o
café da manhã?
quando esquadrões de minhocas surgem nuas
como dançarinas
para serem estupradas por melros.
eu saio
e ao longo de toda a rua
os exércitos verdes disparam cores
como um 4 de julho eterno,
e eu também pareço me inflamar por dentro
um tipo de explosão desconhecida, uma
sensação, talvez, de que não há nenhum
inimigo
em nenhum lugar.
e eu enfio a mão na caixa
e não há
nada – nem sequer uma
carta da cia. de gás dizendo que irão
cortar mais uma vez
o fornecimento.
nem mesmo um bilhete da minha ex-mulher
se pavoneando de sua atual
felicidade.
minha mão vasculha a caixa de correspondência
numa espécie de descrença mesmo depois da cabeça há muito
já ter desistido.
não havia nem mesmo uma mosca morta
lá dentro.
sou um idiota, penso, eu deveria saber que
assim são as coisas.
entro enquanto todas as flores se projetam no espaço para
me agradar.
alguma coisa? a mulher
pergunta.
nada, respondo, o que tem para o
café da manhã?
1 180
Charles Bukowski
No 6
vou mesmo com o cavalo no 6
numa tarde chuvosa
um copo de papel com café
na mão
falta ainda um pouco,
o vento fazendo voejar em espiral
pequenas cambaxirras do
telhado da arquibancada superior,
os jóqueis surgindo
para uma meia corrida
em silêncio
e a chuva mansa fazendo
tudo
de uma só vez
parecer quase igual,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu estou na parte coberta da arquibancada
ansiando por
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos se aproximam
levando seus homenzinhos
dali –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o abrir
das flores.
numa tarde chuvosa
um copo de papel com café
na mão
falta ainda um pouco,
o vento fazendo voejar em espiral
pequenas cambaxirras do
telhado da arquibancada superior,
os jóqueis surgindo
para uma meia corrida
em silêncio
e a chuva mansa fazendo
tudo
de uma só vez
parecer quase igual,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu estou na parte coberta da arquibancada
ansiando por
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos se aproximam
levando seus homenzinhos
dali –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o abrir
das flores.
1 237
Charles Bukowski
No 6
vou mesmo com o cavalo no 6
numa tarde chuvosa
um copo de papel com café
na mão
falta ainda um pouco,
o vento fazendo voejar em espiral
pequenas cambaxirras do
telhado da arquibancada superior,
os jóqueis surgindo
para uma meia corrida
em silêncio
e a chuva mansa fazendo
tudo
de uma só vez
parecer quase igual,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu estou na parte coberta da arquibancada
ansiando por
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos se aproximam
levando seus homenzinhos
dali –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o abrir
das flores.
numa tarde chuvosa
um copo de papel com café
na mão
falta ainda um pouco,
o vento fazendo voejar em espiral
pequenas cambaxirras do
telhado da arquibancada superior,
os jóqueis surgindo
para uma meia corrida
em silêncio
e a chuva mansa fazendo
tudo
de uma só vez
parecer quase igual,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu estou na parte coberta da arquibancada
ansiando por
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos se aproximam
levando seus homenzinhos
dali –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o abrir
das flores.
1 237
Charles Bukowski
Crucifixo Em Uma Mão Morta
sim, elas começam a surgir a partir de um salgueiro, penso
as montanhas enrijecidas começam no salgueiro
e seguem erguendo-se sem qualquer consideração por
pumas e nectarinas
de algum modo essas montanhas são como
uma velha senhora com má memória e
um cesto de compras.
estamos numa depressão. esta é a
ideia. mergulhada na areia e entre alamedas,
esta terra progrediu, soqueou, dividiu,
retida como um crucifixo numa mão morta,
esta terra comprou, revendeu, voltou a comprar e
vendeu de novo, tantas e longas guerras,
os espanhóis refazendo o caminho de volta até a Espanha
mais uma vez os ilhós, e agora
corretores, locadores, sublocadores, engenheiros que discutem
à beira de autoestradas. esta é a terra deles e
eu caminho sobre ela, vivo nela um pouco
perto de Hollywood aqui eu vejo jovens em seus quartos
escutando discos gastos
e também penso em velhos fartos de música
fartos de tudo, e a morte como suicídio
às vezes penso que é voluntário, e que para conseguir
se agarrar a esta terra é melhor voltar ao
Grande Mercado Central, ver as velhas mexicanas,
os pobres... tenho certeza de que você já viu essas mulheres
anos e anos a fio
brigando
com os mesmos e jovens atendentes japoneses
argutos, sábios e dourados
entre seus sublimes estoques de laranjas, maçãs
abacates, tomates, pepinos –
e você sabe o aspecto desses, parecem ótimos
se você pudesse comer todos eles
acender um charuto e numa baforada exalar o mundo mau.
de modo que é melhor retornar para os bares, os mesmos bares
amadeirados, fedidos, implacáveis, verdes
pela presença de jovens policiais que os invadem
assustados e em busca de confusão,
e a cerveja continuará um lixo
com aquele gosto final que é mistura de vômito e
decadência, e mergulhado nas sombras você tem que ser forte
para ignorá-lo, ignorar os pobres e a si mesmo
e a sacola de compras entre suas pernas
ali no chão e se sentindo bem com seus abacates e
laranjas e peixe fresco e garrafas de vinho, quem precisa
de um inverno em Fort Lauderdale?
25 anos atrás costumava haver uma puta ali
com um filme sobre um dos olhos, gorda ao extremo
que fazia pequenas sinetas com o papel laminado do
maço de cigarro. o sol parecia esquentar mais então
ainda que isso dificilmente seja
verdade, e você apanha sua sacola de compras
e sai a caminhar pela rua
e a cerveja verde fica ali
pairando na boca de seu estômago como
uma curta e vergonhosa mantilha, e
você dá uma olhada ao redor e já não
vê nenhum
velho.
as montanhas enrijecidas começam no salgueiro
e seguem erguendo-se sem qualquer consideração por
pumas e nectarinas
de algum modo essas montanhas são como
uma velha senhora com má memória e
um cesto de compras.
estamos numa depressão. esta é a
ideia. mergulhada na areia e entre alamedas,
esta terra progrediu, soqueou, dividiu,
retida como um crucifixo numa mão morta,
esta terra comprou, revendeu, voltou a comprar e
vendeu de novo, tantas e longas guerras,
os espanhóis refazendo o caminho de volta até a Espanha
mais uma vez os ilhós, e agora
corretores, locadores, sublocadores, engenheiros que discutem
à beira de autoestradas. esta é a terra deles e
eu caminho sobre ela, vivo nela um pouco
perto de Hollywood aqui eu vejo jovens em seus quartos
escutando discos gastos
e também penso em velhos fartos de música
fartos de tudo, e a morte como suicídio
às vezes penso que é voluntário, e que para conseguir
se agarrar a esta terra é melhor voltar ao
Grande Mercado Central, ver as velhas mexicanas,
os pobres... tenho certeza de que você já viu essas mulheres
anos e anos a fio
brigando
com os mesmos e jovens atendentes japoneses
argutos, sábios e dourados
entre seus sublimes estoques de laranjas, maçãs
abacates, tomates, pepinos –
e você sabe o aspecto desses, parecem ótimos
se você pudesse comer todos eles
acender um charuto e numa baforada exalar o mundo mau.
de modo que é melhor retornar para os bares, os mesmos bares
amadeirados, fedidos, implacáveis, verdes
pela presença de jovens policiais que os invadem
assustados e em busca de confusão,
e a cerveja continuará um lixo
com aquele gosto final que é mistura de vômito e
decadência, e mergulhado nas sombras você tem que ser forte
para ignorá-lo, ignorar os pobres e a si mesmo
e a sacola de compras entre suas pernas
ali no chão e se sentindo bem com seus abacates e
laranjas e peixe fresco e garrafas de vinho, quem precisa
de um inverno em Fort Lauderdale?
25 anos atrás costumava haver uma puta ali
com um filme sobre um dos olhos, gorda ao extremo
que fazia pequenas sinetas com o papel laminado do
maço de cigarro. o sol parecia esquentar mais então
ainda que isso dificilmente seja
verdade, e você apanha sua sacola de compras
e sai a caminhar pela rua
e a cerveja verde fica ali
pairando na boca de seu estômago como
uma curta e vergonhosa mantilha, e
você dá uma olhada ao redor e já não
vê nenhum
velho.
1 041
Charles Bukowski
O Lado do Sol
os touros são grandes como o lado do sol
e ainda que os matem para as multidões apodrecidas,
é o touro que faz queimar o fogo,
e ainda que haja touros covardes como
há matadores covardes e homens covardes,
o touro em geral permanece puro
e morre puro
intocado por símbolos e conchavos e falsos amores,
e quando eles o arrastam
nada está morto
alguma coisa passou
e o fedor eventual
é o mundo.
e ainda que os matem para as multidões apodrecidas,
é o touro que faz queimar o fogo,
e ainda que haja touros covardes como
há matadores covardes e homens covardes,
o touro em geral permanece puro
e morre puro
intocado por símbolos e conchavos e falsos amores,
e quando eles o arrastam
nada está morto
alguma coisa passou
e o fedor eventual
é o mundo.
1 194
Charles Bukowski
O Pássaro
com os olhos vermelhos e tonto como eu
o pássaro chegou voando
após percorrer o caminho todo desde o Egito
às cinco da manhã,
e Maria quase tropeçou nos sapatos de salto:
o que foi isso, um foguete?
e nós subimos.
servi duas taças de porto
e ficamos ali sentados enquanto os sovinas
são expelidos de seus ninhos miseráveis
e Maria entrou e lançou água
no vaso
e eu me sentei ali cofiando minha barba de três dias
pensando no pássaro louco
e foi assim que saiu:
tudo o que de fato importava era
ir para algum lugar
quanto mais rápido melhor
porque isso reduz a espera
pela morte. Maria voltou
e puxou as cobertas
e eu arranquei minhas roupas sebosas
e me arrastei para dentro dos lençóis suados,
fechando meus olhos para o som e a luz do sol,
e ouvi o modo como se desfez dos sapatos de salto
e seus dedos gelados percorreram a parte de trás de minhas panturrilhas
e eu batizei o pássaro de
Sr. América
e então caí no sono com rapidez.
o pássaro chegou voando
após percorrer o caminho todo desde o Egito
às cinco da manhã,
e Maria quase tropeçou nos sapatos de salto:
o que foi isso, um foguete?
e nós subimos.
servi duas taças de porto
e ficamos ali sentados enquanto os sovinas
são expelidos de seus ninhos miseráveis
e Maria entrou e lançou água
no vaso
e eu me sentei ali cofiando minha barba de três dias
pensando no pássaro louco
e foi assim que saiu:
tudo o que de fato importava era
ir para algum lugar
quanto mais rápido melhor
porque isso reduz a espera
pela morte. Maria voltou
e puxou as cobertas
e eu arranquei minhas roupas sebosas
e me arrastei para dentro dos lençóis suados,
fechando meus olhos para o som e a luz do sol,
e ouvi o modo como se desfez dos sapatos de salto
e seus dedos gelados percorreram a parte de trás de minhas panturrilhas
e eu batizei o pássaro de
Sr. América
e então caí no sono com rapidez.
1 170
Charles Bukowski
Hurra Dizem As Rosas
hurra dizem as rosas, hoje é culpa-feira
e estamos vermelhas como sangue.
hurra dizem as rosas, hoje é quarta-feira
e florescemos onde caíram os soldados,
e também os amantes,
e a cobra devorou a palavra.
hurra dizem as rosas, a escuridão chega
de uma só vez, como luzes que se apagam,
o sol deixa continentes escuros
e filas de pedras.
hurra dizem as rosas, canhões e espirais,
pássaros, abelhas, bombardeiros, hoje é sexta-feira
a mão segura uma medalha para fora da janela,
uma mariposa passa, a meia milha por hora,
hurra hurra
hurra dizem as rosas
temos impérios em nossas hastes,
o sol move a boca:
hurra hurra hurra
e é por isso que vocês gostam de nós.
e estamos vermelhas como sangue.
hurra dizem as rosas, hoje é quarta-feira
e florescemos onde caíram os soldados,
e também os amantes,
e a cobra devorou a palavra.
hurra dizem as rosas, a escuridão chega
de uma só vez, como luzes que se apagam,
o sol deixa continentes escuros
e filas de pedras.
hurra dizem as rosas, canhões e espirais,
pássaros, abelhas, bombardeiros, hoje é sexta-feira
a mão segura uma medalha para fora da janela,
uma mariposa passa, a meia milha por hora,
hurra hurra
hurra dizem as rosas
temos impérios em nossas hastes,
o sol move a boca:
hurra hurra hurra
e é por isso que vocês gostam de nós.
1 193
Charles Bukowski
Pequenos Tigres Por Toda Parte
Sam, o putanheiro,
tem sapatos que estalam
e ele caminha pra lá e pra cá
pelo quintal
estalando e conversando com
os gatos.
pesa 140 quilos,
um assassino
e conversa com os gatos.
ele frequenta as mulheres na casa
de massagem e não tem namoradas
ou automóvel
não bebe ou se chapa
seus maiores vícios são
mastigar um charuto e
alimentar todos os gatos
da vizinhança.
algumas das gatas ficam
prenhes
e depois por fim aparecem
mais e mais gatos e
toda a vez que abro minha porta
um ou dois gatos entram
correndo e algumas vezes acabo
esquecendo que eles estão ali e
eles cagam debaixo da cama
ou me desperto no meio da noite
com sons estranhos
pulo da cama com minha faca
entro na cozinha e lá
está um dos gatos de Sam, o putanheiro,
circulando em volta
da pia ou sentado sobre
a geladeira.
Sam administra o puteiro
da esquina
e suas garotas ficam paradas
na varanda ao sol
e o semáforo vai do
vermelho ao verde e do vermelho ao verde
e todos os gatos do Sam
possuem parte do significado
assim como fazem os dias e as noites.
tem sapatos que estalam
e ele caminha pra lá e pra cá
pelo quintal
estalando e conversando com
os gatos.
pesa 140 quilos,
um assassino
e conversa com os gatos.
ele frequenta as mulheres na casa
de massagem e não tem namoradas
ou automóvel
não bebe ou se chapa
seus maiores vícios são
mastigar um charuto e
alimentar todos os gatos
da vizinhança.
algumas das gatas ficam
prenhes
e depois por fim aparecem
mais e mais gatos e
toda a vez que abro minha porta
um ou dois gatos entram
correndo e algumas vezes acabo
esquecendo que eles estão ali e
eles cagam debaixo da cama
ou me desperto no meio da noite
com sons estranhos
pulo da cama com minha faca
entro na cozinha e lá
está um dos gatos de Sam, o putanheiro,
circulando em volta
da pia ou sentado sobre
a geladeira.
Sam administra o puteiro
da esquina
e suas garotas ficam paradas
na varanda ao sol
e o semáforo vai do
vermelho ao verde e do vermelho ao verde
e todos os gatos do Sam
possuem parte do significado
assim como fazem os dias e as noites.
1 122
Charles Bukowski
Viagem À Praia
os homens fortes
os homens musculosos
lá na praia eles
se sentam
bronzeados como chocolate
os pesos
espalhados ao seu redor e
intocados
ficam sentados enquanto
as ondas avançam e
recuam
ficam sentados enquanto o
mercado de ações
ergue e destrói
homens e famílias
ficam sentados enquanto
um apertar de botão
poderia transformar
seus caralhos
em palitos de fósforos
pretos e enrugados
ficam sentados enquanto
suicidas em quartos verdes
os trocam por espaço
ficam sentados enquanto antigas
Miss Américas
choram diante de espelhos
enrugados
ficam sentados
ficam sentados com menos
vivacidade que macacos
e minha mulher para e
os olha:
“uuuu uuuu uuuu”, ela
diz.
me afasto com
minha mulher enquanto as ondas
avançam e recuam.
“há alguma coisa errada
com eles”, ela diz, “o que
é?”
“o amor deles só corre em
uma direção.”
as gaivotas giram e
o mar avança e recua
e nós os abandonamos
lá atrás
desperdiçando o tempo que lhes
resta
o momento presente
as gaivotas
o mar
a areia.
os homens musculosos
lá na praia eles
se sentam
bronzeados como chocolate
os pesos
espalhados ao seu redor e
intocados
ficam sentados enquanto
as ondas avançam e
recuam
ficam sentados enquanto o
mercado de ações
ergue e destrói
homens e famílias
ficam sentados enquanto
um apertar de botão
poderia transformar
seus caralhos
em palitos de fósforos
pretos e enrugados
ficam sentados enquanto
suicidas em quartos verdes
os trocam por espaço
ficam sentados enquanto antigas
Miss Américas
choram diante de espelhos
enrugados
ficam sentados
ficam sentados com menos
vivacidade que macacos
e minha mulher para e
os olha:
“uuuu uuuu uuuu”, ela
diz.
me afasto com
minha mulher enquanto as ondas
avançam e recuam.
“há alguma coisa errada
com eles”, ela diz, “o que
é?”
“o amor deles só corre em
uma direção.”
as gaivotas giram e
o mar avança e recua
e nós os abandonamos
lá atrás
desperdiçando o tempo que lhes
resta
o momento presente
as gaivotas
o mar
a areia.
1 235
Charles Bukowski
Um Cavalo de 340 Dólares E Uma Puta de Cem
jamais tenha para si que sou um poeta; você pode me ver
semibêbado nas corridas todos os dias
apostando em todos os tipos de cavalos,
mas deixe eu dizer uma coisa a você, há algumas mulheres lá
que vão aonde o dinheiro está, e às vezes quando você
olha para essas putas essas putas de cem dólares
você por vezes se pergunta se a natureza não está de brincadeira
esbanjando tanto peito e rabo no modo como
estão reunidos, você olha e olha e
olha e não consegue acreditar; há mulheres ordinárias
e então há alguma coisa a mais que faz você querer
rasgar pinturas e quebrar discos de Beethoven
na parte dos fundos no banheiro; de todo modo, a temporada
ia se arrastando e os grandes figurões não paravam de se ferrar,
todos os amadores, os produtores, os operadores de câmeras,
os traficantes de Maria, os vendedores de pele, os proprietários
em pessoa, e Saint Louie estava correndo neste dia:
um cavalo que conseguiu romper no final;
corria com a cabeça baixa e era mau e feio
e pagava 35 por 1, e eu tinha apostado dez nele.
o jóquei lançou-o para a extremidade
colando-o na cerca onde avançaria sozinho
mesmo que tivesse de percorrer uma distância quatro vezes maior,
e foi assim que ele seguiu
o trajeto todo até a cerca exterior
avançando três quilômetros em um só
e ele venceu como se estivesse possuído pelo demônio
e não estava sequer cansado,
e a maior de todas as loiras
feita de quase nada além de peitos e bunda
foi até o guichê de pagamento comigo.
naquela noite eu não pude acabar com ela
ainda que as molas disparassem faíscas
e golpeassem as paredes.
mais tarde ela se sentou apenas de calcinha
bebendo um Old Grandad
e ela disse
o que um cara como você faz
vivendo num buraco como este?
e eu disse
sou um poeta
e ela jogou sua bela cabeça para trás e gargalhou.
você? você... um poeta?
acho que você está certa, eu disse, acho que você está certa.
mas ainda assim ela parecia legal para mim, continuava parecendo legal,
e tudo graças a um cavalo feioso
que escreveu este poema.
semibêbado nas corridas todos os dias
apostando em todos os tipos de cavalos,
mas deixe eu dizer uma coisa a você, há algumas mulheres lá
que vão aonde o dinheiro está, e às vezes quando você
olha para essas putas essas putas de cem dólares
você por vezes se pergunta se a natureza não está de brincadeira
esbanjando tanto peito e rabo no modo como
estão reunidos, você olha e olha e
olha e não consegue acreditar; há mulheres ordinárias
e então há alguma coisa a mais que faz você querer
rasgar pinturas e quebrar discos de Beethoven
na parte dos fundos no banheiro; de todo modo, a temporada
ia se arrastando e os grandes figurões não paravam de se ferrar,
todos os amadores, os produtores, os operadores de câmeras,
os traficantes de Maria, os vendedores de pele, os proprietários
em pessoa, e Saint Louie estava correndo neste dia:
um cavalo que conseguiu romper no final;
corria com a cabeça baixa e era mau e feio
e pagava 35 por 1, e eu tinha apostado dez nele.
o jóquei lançou-o para a extremidade
colando-o na cerca onde avançaria sozinho
mesmo que tivesse de percorrer uma distância quatro vezes maior,
e foi assim que ele seguiu
o trajeto todo até a cerca exterior
avançando três quilômetros em um só
e ele venceu como se estivesse possuído pelo demônio
e não estava sequer cansado,
e a maior de todas as loiras
feita de quase nada além de peitos e bunda
foi até o guichê de pagamento comigo.
naquela noite eu não pude acabar com ela
ainda que as molas disparassem faíscas
e golpeassem as paredes.
mais tarde ela se sentou apenas de calcinha
bebendo um Old Grandad
e ela disse
o que um cara como você faz
vivendo num buraco como este?
e eu disse
sou um poeta
e ela jogou sua bela cabeça para trás e gargalhou.
você? você... um poeta?
acho que você está certa, eu disse, acho que você está certa.
mas ainda assim ela parecia legal para mim, continuava parecendo legal,
e tudo graças a um cavalo feioso
que escreveu este poema.
1 255
Charles Bukowski
Assombrado Com a Vida Como Fogo
em severa divindade meu gato
dá voltas
ele dá voltas e mais voltas
com
um rabo elétrico e
olhos feito
botões de pressão
ele está
vivo e
felpudo e
definitivo como uma ameixeira
nenhum de nós entende
catedrais ou
o homem lá fora
regando o
gramado
se eu fosse completo como homem
do modo como ele é
gato –
se houvesse homens
assim
o mundo poderia
começar
ele se levanta de um salto do sofá
e cruza
os pórticos da minha
admiração.
dá voltas
ele dá voltas e mais voltas
com
um rabo elétrico e
olhos feito
botões de pressão
ele está
vivo e
felpudo e
definitivo como uma ameixeira
nenhum de nós entende
catedrais ou
o homem lá fora
regando o
gramado
se eu fosse completo como homem
do modo como ele é
gato –
se houvesse homens
assim
o mundo poderia
começar
ele se levanta de um salto do sofá
e cruza
os pórticos da minha
admiração.
1 158
Charles Bukowski
O Estado Das Coisas do Mundo Vistas a Partir da Janela de Um 3O Andar
olho para uma garota vestindo um
suéter verde-claro, shorts azuis, longas meias negras;
usa algum tipo de colar
mas seus seios são pequenos, pobrezinha,
e ela confere as unhas
enquanto seu cachorro branco e encardido fareja a grama
em erráticos círculos;
um pombo também está por ali, circulando,
semimorto com seu cérebro de ervilha
e eu estou andares acima em minha roupa de baixo,
barba de 3 dias, servindo uma cerveja e esperando
que alguma coisa literária ou simbólica aconteça;
mas eles seguem circulando, circulando, e um homem velho e magro
em seu último inverno desliza puxado por uma garota
com um uniforme de escola católica;
para algum lugar além há os Alpes, e navios
cruzam agora mesmo o mar;
há pilhas e mais pilhas de bombas-H e -A,
suficientes para explodir cinquenta vezes o mundo e Marte junto,
mas eles seguem circulando,
a garota movimentando o traseiro,
e as colinas de Hollywood mantêm-se lá, mantêm-se lá
cheias de bêbados e pessoas insanas e
muitos beijos nos automóveis,
mas isso nada resolve: che sera, sera:
seu cachorro branco e encardido não cagará,
e com um último olhar para as unhas
ela, fazendo rebolar ao máximo o traseiro
desce em direção ao pátio
seguida por seu cachorro constipado (simplesmente sem se importar),
deixando-me a ver o pombo mais antissinfônico.
bem, quanto ao balanço das coisas, relaxe:
as bombas nunca vão ser detonadas.
suéter verde-claro, shorts azuis, longas meias negras;
usa algum tipo de colar
mas seus seios são pequenos, pobrezinha,
e ela confere as unhas
enquanto seu cachorro branco e encardido fareja a grama
em erráticos círculos;
um pombo também está por ali, circulando,
semimorto com seu cérebro de ervilha
e eu estou andares acima em minha roupa de baixo,
barba de 3 dias, servindo uma cerveja e esperando
que alguma coisa literária ou simbólica aconteça;
mas eles seguem circulando, circulando, e um homem velho e magro
em seu último inverno desliza puxado por uma garota
com um uniforme de escola católica;
para algum lugar além há os Alpes, e navios
cruzam agora mesmo o mar;
há pilhas e mais pilhas de bombas-H e -A,
suficientes para explodir cinquenta vezes o mundo e Marte junto,
mas eles seguem circulando,
a garota movimentando o traseiro,
e as colinas de Hollywood mantêm-se lá, mantêm-se lá
cheias de bêbados e pessoas insanas e
muitos beijos nos automóveis,
mas isso nada resolve: che sera, sera:
seu cachorro branco e encardido não cagará,
e com um último olhar para as unhas
ela, fazendo rebolar ao máximo o traseiro
desce em direção ao pátio
seguida por seu cachorro constipado (simplesmente sem se importar),
deixando-me a ver o pombo mais antissinfônico.
bem, quanto ao balanço das coisas, relaxe:
as bombas nunca vão ser detonadas.
1 060
Charles Bukowski
Lírios No Meu Cérebro
os lírios assaltam meu cérebro
por deus por deus
como as tropas de assalto nazistas
você acha que estou ficando
perturbado?
seu suéter azul
com os peitos pendendo
soltos, e
eu penso vagamente em Cristo
na cruz, não sei
porquê, e em casquinhas
de sorvete. neste dia de julho
lírios assaltam meu cérebro
lembraria disto
mas
somente se eu tivesse uma
câmera
ou um cachorro grande caminhando ao meu
lado. os cachorros grandes tornam as coisas
concretas
não é verdade?
um cachorrão para franzir seu
nariz ranhento
como este lago usurpado em
sua clara superfície
por um vento rápido e
esperto.
você está aqui, mas eu estou triste outra
vez. sinto minhas costelas de costeleta de porco
sobre meu coração de costeleta de cordeiro ugh
ingênuos e dedicados
intestinos, pênis prostrado
bexiga de goma de mascar
fígado se transformando em gordura
como uma velha rameira de rua
bunda vergonhosa
ouvidos práticos
mãos que parecem mariposas
nariz de peixe-espada
boca de desabamento de terras e
o resto. o resto:
lírios no meu cérebro
esperando por melhores tempos
lembrando de velhos tempos:
Capone e os diamantes
Charlie Chaplin
Laurel e Hardy
Clara Bow
o resto.
nunca aconteceu
mas parecia possível
houve tempos em que o apodrecimento
parou
aguardando como um bonde pela abertura
do sinal.
agora eu
como um desses marginais de filme
(lírios lá bem alto)
tomo sua mão
e nós seguimos em frente
para alugar um barco
para afundar. eu respiro o vento, flexiono meus músculos
mas apenas minha pança
se move de mansinho.
entramos
o motor agita o
lodo.
os prédios da cidade
mergulham como bocas de
avestruzes
e esvaziam
nossos cérebros
ainda assim o sol
aparece
zap! zap! zap!
germes brilhantes rastejam por nossas
carnes gretadas. minha
eu sinto como se estivesse na
igreja: tudo
fede. seguro as laterais emborrachadas
de toda a parte
minhas bolas são bolas de neve
vejo o repicar dos sinos da malária
homens velhos indo para a
cama, entrando em Fords modelo-T
enquanto os peixes nadam abaixo de nós
cheios de palavrões e macarronada
e palavras cruzadas
e a minha morte, a sua e
a das crianças
de ressaca.
por deus por deus
como as tropas de assalto nazistas
você acha que estou ficando
perturbado?
seu suéter azul
com os peitos pendendo
soltos, e
eu penso vagamente em Cristo
na cruz, não sei
porquê, e em casquinhas
de sorvete. neste dia de julho
lírios assaltam meu cérebro
lembraria disto
mas
somente se eu tivesse uma
câmera
ou um cachorro grande caminhando ao meu
lado. os cachorros grandes tornam as coisas
concretas
não é verdade?
um cachorrão para franzir seu
nariz ranhento
como este lago usurpado em
sua clara superfície
por um vento rápido e
esperto.
você está aqui, mas eu estou triste outra
vez. sinto minhas costelas de costeleta de porco
sobre meu coração de costeleta de cordeiro ugh
ingênuos e dedicados
intestinos, pênis prostrado
bexiga de goma de mascar
fígado se transformando em gordura
como uma velha rameira de rua
bunda vergonhosa
ouvidos práticos
mãos que parecem mariposas
nariz de peixe-espada
boca de desabamento de terras e
o resto. o resto:
lírios no meu cérebro
esperando por melhores tempos
lembrando de velhos tempos:
Capone e os diamantes
Charlie Chaplin
Laurel e Hardy
Clara Bow
o resto.
nunca aconteceu
mas parecia possível
houve tempos em que o apodrecimento
parou
aguardando como um bonde pela abertura
do sinal.
agora eu
como um desses marginais de filme
(lírios lá bem alto)
tomo sua mão
e nós seguimos em frente
para alugar um barco
para afundar. eu respiro o vento, flexiono meus músculos
mas apenas minha pança
se move de mansinho.
entramos
o motor agita o
lodo.
os prédios da cidade
mergulham como bocas de
avestruzes
e esvaziam
nossos cérebros
ainda assim o sol
aparece
zap! zap! zap!
germes brilhantes rastejam por nossas
carnes gretadas. minha
eu sinto como se estivesse na
igreja: tudo
fede. seguro as laterais emborrachadas
de toda a parte
minhas bolas são bolas de neve
vejo o repicar dos sinos da malária
homens velhos indo para a
cama, entrando em Fords modelo-T
enquanto os peixes nadam abaixo de nós
cheios de palavrões e macarronada
e palavras cruzadas
e a minha morte, a sua e
a das crianças
de ressaca.
1 142
Charles Bukowski
Lírios No Meu Cérebro
os lírios assaltam meu cérebro
por deus por deus
como as tropas de assalto nazistas
você acha que estou ficando
perturbado?
seu suéter azul
com os peitos pendendo
soltos, e
eu penso vagamente em Cristo
na cruz, não sei
porquê, e em casquinhas
de sorvete. neste dia de julho
lírios assaltam meu cérebro
lembraria disto
mas
somente se eu tivesse uma
câmera
ou um cachorro grande caminhando ao meu
lado. os cachorros grandes tornam as coisas
concretas
não é verdade?
um cachorrão para franzir seu
nariz ranhento
como este lago usurpado em
sua clara superfície
por um vento rápido e
esperto.
você está aqui, mas eu estou triste outra
vez. sinto minhas costelas de costeleta de porco
sobre meu coração de costeleta de cordeiro ugh
ingênuos e dedicados
intestinos, pênis prostrado
bexiga de goma de mascar
fígado se transformando em gordura
como uma velha rameira de rua
bunda vergonhosa
ouvidos práticos
mãos que parecem mariposas
nariz de peixe-espada
boca de desabamento de terras e
o resto. o resto:
lírios no meu cérebro
esperando por melhores tempos
lembrando de velhos tempos:
Capone e os diamantes
Charlie Chaplin
Laurel e Hardy
Clara Bow
o resto.
nunca aconteceu
mas parecia possível
houve tempos em que o apodrecimento
parou
aguardando como um bonde pela abertura
do sinal.
agora eu
como um desses marginais de filme
(lírios lá bem alto)
tomo sua mão
e nós seguimos em frente
para alugar um barco
para afundar. eu respiro o vento, flexiono meus músculos
mas apenas minha pança
se move de mansinho.
entramos
o motor agita o
lodo.
os prédios da cidade
mergulham como bocas de
avestruzes
e esvaziam
nossos cérebros
ainda assim o sol
aparece
zap! zap! zap!
germes brilhantes rastejam por nossas
carnes gretadas. minha
eu sinto como se estivesse na
igreja: tudo
fede. seguro as laterais emborrachadas
de toda a parte
minhas bolas são bolas de neve
vejo o repicar dos sinos da malária
homens velhos indo para a
cama, entrando em Fords modelo-T
enquanto os peixes nadam abaixo de nós
cheios de palavrões e macarronada
e palavras cruzadas
e a minha morte, a sua e
a das crianças
de ressaca.
por deus por deus
como as tropas de assalto nazistas
você acha que estou ficando
perturbado?
seu suéter azul
com os peitos pendendo
soltos, e
eu penso vagamente em Cristo
na cruz, não sei
porquê, e em casquinhas
de sorvete. neste dia de julho
lírios assaltam meu cérebro
lembraria disto
mas
somente se eu tivesse uma
câmera
ou um cachorro grande caminhando ao meu
lado. os cachorros grandes tornam as coisas
concretas
não é verdade?
um cachorrão para franzir seu
nariz ranhento
como este lago usurpado em
sua clara superfície
por um vento rápido e
esperto.
você está aqui, mas eu estou triste outra
vez. sinto minhas costelas de costeleta de porco
sobre meu coração de costeleta de cordeiro ugh
ingênuos e dedicados
intestinos, pênis prostrado
bexiga de goma de mascar
fígado se transformando em gordura
como uma velha rameira de rua
bunda vergonhosa
ouvidos práticos
mãos que parecem mariposas
nariz de peixe-espada
boca de desabamento de terras e
o resto. o resto:
lírios no meu cérebro
esperando por melhores tempos
lembrando de velhos tempos:
Capone e os diamantes
Charlie Chaplin
Laurel e Hardy
Clara Bow
o resto.
nunca aconteceu
mas parecia possível
houve tempos em que o apodrecimento
parou
aguardando como um bonde pela abertura
do sinal.
agora eu
como um desses marginais de filme
(lírios lá bem alto)
tomo sua mão
e nós seguimos em frente
para alugar um barco
para afundar. eu respiro o vento, flexiono meus músculos
mas apenas minha pança
se move de mansinho.
entramos
o motor agita o
lodo.
os prédios da cidade
mergulham como bocas de
avestruzes
e esvaziam
nossos cérebros
ainda assim o sol
aparece
zap! zap! zap!
germes brilhantes rastejam por nossas
carnes gretadas. minha
eu sinto como se estivesse na
igreja: tudo
fede. seguro as laterais emborrachadas
de toda a parte
minhas bolas são bolas de neve
vejo o repicar dos sinos da malária
homens velhos indo para a
cama, entrando em Fords modelo-T
enquanto os peixes nadam abaixo de nós
cheios de palavrões e macarronada
e palavras cruzadas
e a minha morte, a sua e
a das crianças
de ressaca.
1 142
Charles Bukowski
O Eu Singular
há esses pequenos penhascos
sobre o mar
e é noite, noite alta;
eu não vinha conseguindo dormir,
e com meu carro acima de mim
como uma mãe de aço
eu desço me arrastando pelos penhascos,
quebrando cascalhos
e sendo arranhado por plantas marinhas
tolas e nojentas,
encontro meu caminho descendo
desajeitado, deslocado,
um ser estranho na praia,
e em toda a minha volta estão os amantes,
as bestas bicéfalas
voltando-se para ver
a loucura
de um eu singular:
envergonhado, sigo a me mover entre eles
para escalar uma fileira de pedras úmidas que
quebram as ondas do mar
em coberturas brancas;
a luz do luar se faz úmida
na pedra calva
e agora que estou aqui
não quero estar aqui
o mar fede
e faz sons de descarga
como uma privada
é um mau lugar para morrer;
qualquer lugar é um mau lugar para morrer,
mas é melhor um quarto amarelo
com paredes conhecidas e pantalhas
empoeiradas; então...
ainda assim uma idiotice fora de mão
como um chacal em uma terra de leões,
refaço meu caminho por onde vim
cruzando por eles, por seus cobertores
e fogos e beijos e amassos,
de volta pelo penhasco eu subo
com menos sorte, resvalando
e para além o céu negro, o mar negro
atrás de mim
perdido no jogo,
e deixei meus sapatos lá embaixo
com eles 2 sapatos vazios,
e no carro
dou a partida,
os faróis ligados eu me afasto,
fazendo uma curva à esquerda na direção leste,
tomando o pequeno aclive e sumindo,
os pés descalços na borracha gasta dos pedais
sumindo dali
procurando por
algum novo lugar.
sobre o mar
e é noite, noite alta;
eu não vinha conseguindo dormir,
e com meu carro acima de mim
como uma mãe de aço
eu desço me arrastando pelos penhascos,
quebrando cascalhos
e sendo arranhado por plantas marinhas
tolas e nojentas,
encontro meu caminho descendo
desajeitado, deslocado,
um ser estranho na praia,
e em toda a minha volta estão os amantes,
as bestas bicéfalas
voltando-se para ver
a loucura
de um eu singular:
envergonhado, sigo a me mover entre eles
para escalar uma fileira de pedras úmidas que
quebram as ondas do mar
em coberturas brancas;
a luz do luar se faz úmida
na pedra calva
e agora que estou aqui
não quero estar aqui
o mar fede
e faz sons de descarga
como uma privada
é um mau lugar para morrer;
qualquer lugar é um mau lugar para morrer,
mas é melhor um quarto amarelo
com paredes conhecidas e pantalhas
empoeiradas; então...
ainda assim uma idiotice fora de mão
como um chacal em uma terra de leões,
refaço meu caminho por onde vim
cruzando por eles, por seus cobertores
e fogos e beijos e amassos,
de volta pelo penhasco eu subo
com menos sorte, resvalando
e para além o céu negro, o mar negro
atrás de mim
perdido no jogo,
e deixei meus sapatos lá embaixo
com eles 2 sapatos vazios,
e no carro
dou a partida,
os faróis ligados eu me afasto,
fazendo uma curva à esquerda na direção leste,
tomando o pequeno aclive e sumindo,
os pés descalços na borracha gasta dos pedais
sumindo dali
procurando por
algum novo lugar.
826
Charles Bukowski
O Eu Singular
há esses pequenos penhascos
sobre o mar
e é noite, noite alta;
eu não vinha conseguindo dormir,
e com meu carro acima de mim
como uma mãe de aço
eu desço me arrastando pelos penhascos,
quebrando cascalhos
e sendo arranhado por plantas marinhas
tolas e nojentas,
encontro meu caminho descendo
desajeitado, deslocado,
um ser estranho na praia,
e em toda a minha volta estão os amantes,
as bestas bicéfalas
voltando-se para ver
a loucura
de um eu singular:
envergonhado, sigo a me mover entre eles
para escalar uma fileira de pedras úmidas que
quebram as ondas do mar
em coberturas brancas;
a luz do luar se faz úmida
na pedra calva
e agora que estou aqui
não quero estar aqui
o mar fede
e faz sons de descarga
como uma privada
é um mau lugar para morrer;
qualquer lugar é um mau lugar para morrer,
mas é melhor um quarto amarelo
com paredes conhecidas e pantalhas
empoeiradas; então...
ainda assim uma idiotice fora de mão
como um chacal em uma terra de leões,
refaço meu caminho por onde vim
cruzando por eles, por seus cobertores
e fogos e beijos e amassos,
de volta pelo penhasco eu subo
com menos sorte, resvalando
e para além o céu negro, o mar negro
atrás de mim
perdido no jogo,
e deixei meus sapatos lá embaixo
com eles 2 sapatos vazios,
e no carro
dou a partida,
os faróis ligados eu me afasto,
fazendo uma curva à esquerda na direção leste,
tomando o pequeno aclive e sumindo,
os pés descalços na borracha gasta dos pedais
sumindo dali
procurando por
algum novo lugar.
sobre o mar
e é noite, noite alta;
eu não vinha conseguindo dormir,
e com meu carro acima de mim
como uma mãe de aço
eu desço me arrastando pelos penhascos,
quebrando cascalhos
e sendo arranhado por plantas marinhas
tolas e nojentas,
encontro meu caminho descendo
desajeitado, deslocado,
um ser estranho na praia,
e em toda a minha volta estão os amantes,
as bestas bicéfalas
voltando-se para ver
a loucura
de um eu singular:
envergonhado, sigo a me mover entre eles
para escalar uma fileira de pedras úmidas que
quebram as ondas do mar
em coberturas brancas;
a luz do luar se faz úmida
na pedra calva
e agora que estou aqui
não quero estar aqui
o mar fede
e faz sons de descarga
como uma privada
é um mau lugar para morrer;
qualquer lugar é um mau lugar para morrer,
mas é melhor um quarto amarelo
com paredes conhecidas e pantalhas
empoeiradas; então...
ainda assim uma idiotice fora de mão
como um chacal em uma terra de leões,
refaço meu caminho por onde vim
cruzando por eles, por seus cobertores
e fogos e beijos e amassos,
de volta pelo penhasco eu subo
com menos sorte, resvalando
e para além o céu negro, o mar negro
atrás de mim
perdido no jogo,
e deixei meus sapatos lá embaixo
com eles 2 sapatos vazios,
e no carro
dou a partida,
os faróis ligados eu me afasto,
fazendo uma curva à esquerda na direção leste,
tomando o pequeno aclive e sumindo,
os pés descalços na borracha gasta dos pedais
sumindo dali
procurando por
algum novo lugar.
826
Charles Bukowski
O Dia Em Que Choveu No Museu do Condado de Los Angeles
o judeu se curvou e
morreu. 99 metralhadoras
foram embarcadas para a França. alguém ganhou o 3o páreo
enquanto eu inspecionava
a hélice de um antigo monoplano
um homem se aproximou com uma faixa sobre o olho. começou a
chover. choveu e choveu e as ambulâncias seguiam
juntas
pelas ruas, e ainda que
tudo fosse apropriadamente monótono
curti o momento
como a temporada em Nova Orleans
vivendo de barras de chocolate
e observando os pombos
em uma ruela com nome francês
enquanto às minhas costas o rio se tornava
um golfo
e as nuvens se moviam enfermas por
um céu já morto
por volta da época em que César fora apunhalado,
e prometi a mim mesmo que
algum dia eu lembraria daquilo
tal qual aconteceu.
um homem se aproximou e tossiu.
será que para de chover? ele disse.
não respondi. toquei a
velha hélice e escutei as
formigas no teto dispararem apressadas
em direção ao fim do mundo. saia daqui, eu disse,
saia daqui ou chamarei
o guarda.
morreu. 99 metralhadoras
foram embarcadas para a França. alguém ganhou o 3o páreo
enquanto eu inspecionava
a hélice de um antigo monoplano
um homem se aproximou com uma faixa sobre o olho. começou a
chover. choveu e choveu e as ambulâncias seguiam
juntas
pelas ruas, e ainda que
tudo fosse apropriadamente monótono
curti o momento
como a temporada em Nova Orleans
vivendo de barras de chocolate
e observando os pombos
em uma ruela com nome francês
enquanto às minhas costas o rio se tornava
um golfo
e as nuvens se moviam enfermas por
um céu já morto
por volta da época em que César fora apunhalado,
e prometi a mim mesmo que
algum dia eu lembraria daquilo
tal qual aconteceu.
um homem se aproximou e tossiu.
será que para de chover? ele disse.
não respondi. toquei a
velha hélice e escutei as
formigas no teto dispararem apressadas
em direção ao fim do mundo. saia daqui, eu disse,
saia daqui ou chamarei
o guarda.
1 057
Charles Bukowski
Eu Estou Morto Mas Sei Que Os Mortos Não São Desse Jeito
os mortos podem dormir
eles não acordam e se enfurecem
eles não têm uma esposa.
o rosto branco dela
como uma flor numa janela
fechada se eleva e
olha para mim.
a cortina fuma um cigarro
e uma mariposa morre num
acidente na autoestrada
enquanto examino as sombras de minhas
mãos.
uma coruja, do tamanho de um relógio de bebê
bate por mim, vamos vamos
ela diz enquanto Jerusalém é arrastada
por saguões manchados por corrimento.
a erva das 5 da manhã é nasal agora
em sussurros de cruzadores e vales
na luz estuprada que traz consigo
os pássaros fascistas.
apago a lâmpada e entro na cama
ao lado dela, ela pensa que estou ali
murmura uma gratidão rósea
enquanto estendo minhas pernas
à medida de um caixão
entro e nado para longe
de sapos e fortunas.
eles não acordam e se enfurecem
eles não têm uma esposa.
o rosto branco dela
como uma flor numa janela
fechada se eleva e
olha para mim.
a cortina fuma um cigarro
e uma mariposa morre num
acidente na autoestrada
enquanto examino as sombras de minhas
mãos.
uma coruja, do tamanho de um relógio de bebê
bate por mim, vamos vamos
ela diz enquanto Jerusalém é arrastada
por saguões manchados por corrimento.
a erva das 5 da manhã é nasal agora
em sussurros de cruzadores e vales
na luz estuprada que traz consigo
os pássaros fascistas.
apago a lâmpada e entro na cama
ao lado dela, ela pensa que estou ali
murmura uma gratidão rósea
enquanto estendo minhas pernas
à medida de um caixão
entro e nado para longe
de sapos e fortunas.
1 223
Charles Bukowski
A Corrida
é assim que funciona
quando você vai desacelerando,
parando como uma daquelas vitrolas a manivela
(lembra delas?)
e você vai para o centro
e assiste às lutas dos garotos
mas as loiraças sentam
com outras pessoas
e você envelheceu como um bandido de filme:
crânio com charuto, pança,
mas nenhum dinheiro,
sem saber os atalhos, sem mundanidade,
mas como sempre
a maior parte das lutas é ruim,
e depois disso
de volta ao estacionamento
você se senta e os vê partir,
acende o último charuto,
e então dá a partida no carro velho,
carro velho, e um homem já não tão jovem
percorrendo as ruas
detido por um sinal vermelho
como se o tempo não fosse um problema,
e eles encostam em você:
um carro cheio de jovens,
às gargalhadas,
e você os vê partir
até
que alguém atrás buzina
e você é trazido de volta
ao que restou
de sua vida.
penuriosa, pena de si próprio,
e você gruda o pé no acelerador
e você alcança os jovens,
você ultrapassa os jovens
e aferrado ao volante como a todo amor perdido
você corre até a praia
com eles
brandindo seu charuto e sua lataria,
gargalhando,
você vai levá-los para o oceano
até a última sereia,
algas marinhas e tubarão, baleia faceira,
fim da carne e da hora e do horror,
e por fim eles param
e você segue em frente
em direção ao seu oceano,
o charuto mordendo seus lábios
do jeito que o amor costumava fazer.
quando você vai desacelerando,
parando como uma daquelas vitrolas a manivela
(lembra delas?)
e você vai para o centro
e assiste às lutas dos garotos
mas as loiraças sentam
com outras pessoas
e você envelheceu como um bandido de filme:
crânio com charuto, pança,
mas nenhum dinheiro,
sem saber os atalhos, sem mundanidade,
mas como sempre
a maior parte das lutas é ruim,
e depois disso
de volta ao estacionamento
você se senta e os vê partir,
acende o último charuto,
e então dá a partida no carro velho,
carro velho, e um homem já não tão jovem
percorrendo as ruas
detido por um sinal vermelho
como se o tempo não fosse um problema,
e eles encostam em você:
um carro cheio de jovens,
às gargalhadas,
e você os vê partir
até
que alguém atrás buzina
e você é trazido de volta
ao que restou
de sua vida.
penuriosa, pena de si próprio,
e você gruda o pé no acelerador
e você alcança os jovens,
você ultrapassa os jovens
e aferrado ao volante como a todo amor perdido
você corre até a praia
com eles
brandindo seu charuto e sua lataria,
gargalhando,
você vai levá-los para o oceano
até a última sereia,
algas marinhas e tubarão, baleia faceira,
fim da carne e da hora e do horror,
e por fim eles param
e você segue em frente
em direção ao seu oceano,
o charuto mordendo seus lábios
do jeito que o amor costumava fazer.
1 146
Charles Bukowski
Torres de Metralhadora & Relógios de Ponto
sinto-me logrado por néscios
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
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