Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Charles Bukowski
Torres de Metralhadora & Relógios de Ponto
sinto-me logrado por néscios
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
716
Charles Bukowski
Torres de Metralhadora & Relógios de Ponto
sinto-me logrado por néscios
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
716
Charles Bukowski
Grama
da janela
vejo um homem com um
poderoso cortador de grama
os sons de seu trabalho correm como
moscas e abelhas
no papel de parede,
é como um fogo reconfortante, e
é melhor que comer um bife,
e a grama é verde o suficiente
e o sol é sol o suficiente
e o que resta de minha vida
fica ali
conferindo os lampejos voadores do verde;
trata-se de um gigantesco desnudar do
cuidado, um tropeço na lógica do
trabalho.
de súbito entendo
os antigos homens feito morcegos
nas cavernas do Colorado
pequenos piolhos se arrastando
para dentro dos olhos de pássaros mortos.
de lá para cá
ele segue o som de sua
gasolina. é
interessante o suficiente,
com
as ruas
estendidas sobre suas costas primaveris
e sorridentes.
vejo um homem com um
poderoso cortador de grama
os sons de seu trabalho correm como
moscas e abelhas
no papel de parede,
é como um fogo reconfortante, e
é melhor que comer um bife,
e a grama é verde o suficiente
e o sol é sol o suficiente
e o que resta de minha vida
fica ali
conferindo os lampejos voadores do verde;
trata-se de um gigantesco desnudar do
cuidado, um tropeço na lógica do
trabalho.
de súbito entendo
os antigos homens feito morcegos
nas cavernas do Colorado
pequenos piolhos se arrastando
para dentro dos olhos de pássaros mortos.
de lá para cá
ele segue o som de sua
gasolina. é
interessante o suficiente,
com
as ruas
estendidas sobre suas costas primaveris
e sorridentes.
1 312
Charles Bukowski
Grama
da janela
vejo um homem com um
poderoso cortador de grama
os sons de seu trabalho correm como
moscas e abelhas
no papel de parede,
é como um fogo reconfortante, e
é melhor que comer um bife,
e a grama é verde o suficiente
e o sol é sol o suficiente
e o que resta de minha vida
fica ali
conferindo os lampejos voadores do verde;
trata-se de um gigantesco desnudar do
cuidado, um tropeço na lógica do
trabalho.
de súbito entendo
os antigos homens feito morcegos
nas cavernas do Colorado
pequenos piolhos se arrastando
para dentro dos olhos de pássaros mortos.
de lá para cá
ele segue o som de sua
gasolina. é
interessante o suficiente,
com
as ruas
estendidas sobre suas costas primaveris
e sorridentes.
vejo um homem com um
poderoso cortador de grama
os sons de seu trabalho correm como
moscas e abelhas
no papel de parede,
é como um fogo reconfortante, e
é melhor que comer um bife,
e a grama é verde o suficiente
e o sol é sol o suficiente
e o que resta de minha vida
fica ali
conferindo os lampejos voadores do verde;
trata-se de um gigantesco desnudar do
cuidado, um tropeço na lógica do
trabalho.
de súbito entendo
os antigos homens feito morcegos
nas cavernas do Colorado
pequenos piolhos se arrastando
para dentro dos olhos de pássaros mortos.
de lá para cá
ele segue o som de sua
gasolina. é
interessante o suficiente,
com
as ruas
estendidas sobre suas costas primaveris
e sorridentes.
1 312
Charles Bukowski
O Padre E o Matador
no lento ar mexicano assisto o touro morrer
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
1 103
Charles Bukowski
Eu Também Tenho a Cueca Carimbada
escuto suas vozes do lado de fora:
“ele sempre bate à máquina até tão
tarde?”
“não, é bastante incomum.”
“ele não deveria bater a essa
hora.”
“isso quase nunca acontece.”
“ele bebe?”
“acho que sim.”
“ontem ele foi até a caixa
do correio só de cuecas.”
“eu também vi.”
“ele não tem amigos.”
“está velho.”
“não deveria bater a esta hora.”
eles entram e começa
a chover enquanto
3 disparos soam a meia quadra
de distância e
um dos arranha-céus no
centro de L.A. começa
a arder
em chamas de 8 metros que lambem a escuridão
da noite.
“ele sempre bate à máquina até tão
tarde?”
“não, é bastante incomum.”
“ele não deveria bater a essa
hora.”
“isso quase nunca acontece.”
“ele bebe?”
“acho que sim.”
“ontem ele foi até a caixa
do correio só de cuecas.”
“eu também vi.”
“ele não tem amigos.”
“está velho.”
“não deveria bater a esta hora.”
eles entram e começa
a chover enquanto
3 disparos soam a meia quadra
de distância e
um dos arranha-céus no
centro de L.A. começa
a arder
em chamas de 8 metros que lambem a escuridão
da noite.
1 139
Charles Bukowski
A Bela Jovem Passando Pelo Cemitério –
paro meu carro no semáforo
vejo-a passando pelo cemitério –
enquanto ela segue junto à grade de ferro
posso ver para além das barras
vejo as lápides
e o gramado verde.
o corpo dela se mexe em frente à grade de ferro
as lápides não se mexem.
penso,
será que mais alguém vê isso?
penso,
será que ela vê essas lápides?
se vê,
ela possuiu uma sabedoria de que não disponho
pois parece ignorá-las.
seu corpo se move com
mágica fluidez
e sua longa cabeleira é iluminada
pelo sol das 3 da tarde.
o sinal muda
ela cruza a rua na direção oeste
dirijo para oeste.
sigo costeando o oceano
desço
e corro pra lá e pra cá
em frente ao mar por 35 minutos
vendo pessoas aqui e acolá
com olhos e ouvidos e dedos
e várias outras partes.
ninguém parece se importar.
vejo-a passando pelo cemitério –
enquanto ela segue junto à grade de ferro
posso ver para além das barras
vejo as lápides
e o gramado verde.
o corpo dela se mexe em frente à grade de ferro
as lápides não se mexem.
penso,
será que mais alguém vê isso?
penso,
será que ela vê essas lápides?
se vê,
ela possuiu uma sabedoria de que não disponho
pois parece ignorá-las.
seu corpo se move com
mágica fluidez
e sua longa cabeleira é iluminada
pelo sol das 3 da tarde.
o sinal muda
ela cruza a rua na direção oeste
dirijo para oeste.
sigo costeando o oceano
desço
e corro pra lá e pra cá
em frente ao mar por 35 minutos
vendo pessoas aqui e acolá
com olhos e ouvidos e dedos
e várias outras partes.
ninguém parece se importar.
1 183
Charles Bukowski
Medo
ele se aproxima do meu Fusca
depois que já estacionei
e segue pra lá
e pra cá
rindo ao redor de seu
charuto.
“ei, Hank, tenho reparado
nas mulheres que têm frequentado
sua casa ultimamente... só coisa
fina; você está fazendo seu trabalho
direitinho.”
“Sam”, eu digo, “isso não é
verdade; sou um dos homens mais solitários
que Deus pôs neste mundo.”
“temos umas garotas bacanas no
puteiro, você devia experimentar uma
delas.”
“tenho medo desses lugares,
Sam, não posso nem entrar.”
“eu lhe mando uma garota então,
artigo de luxo.”
“Sam, não me mande uma puta,
eu sempre me apaixono por
elas.”
“certo, amigo”, ele diz,
“me avise se mudar
de ideia.”
eu o vejo se afastar.
alguns homens estão sempre
no controle do seu jogo.
para mim, a maior parte do tempo
é confusão.
ele pode partir um homem
ao meio
e não sabe quem é
Mozart.
de todo modo
quem quer ouvir
música
numa noite chuvosa de
quarta-feira?
depois que já estacionei
e segue pra lá
e pra cá
rindo ao redor de seu
charuto.
“ei, Hank, tenho reparado
nas mulheres que têm frequentado
sua casa ultimamente... só coisa
fina; você está fazendo seu trabalho
direitinho.”
“Sam”, eu digo, “isso não é
verdade; sou um dos homens mais solitários
que Deus pôs neste mundo.”
“temos umas garotas bacanas no
puteiro, você devia experimentar uma
delas.”
“tenho medo desses lugares,
Sam, não posso nem entrar.”
“eu lhe mando uma garota então,
artigo de luxo.”
“Sam, não me mande uma puta,
eu sempre me apaixono por
elas.”
“certo, amigo”, ele diz,
“me avise se mudar
de ideia.”
eu o vejo se afastar.
alguns homens estão sempre
no controle do seu jogo.
para mim, a maior parte do tempo
é confusão.
ele pode partir um homem
ao meio
e não sabe quem é
Mozart.
de todo modo
quem quer ouvir
música
numa noite chuvosa de
quarta-feira?
736
Charles Bukowski
Hora da Cagada
meio bêbado
deixei a casa dela
suas cobertas quentes
e eu estava de ressaca
não sabia sequer que cidade era
aquela.
saí caminhando sem conseguir
achar meu carro.
mas eu sabia que ele tinha que estar em algum lugar.
e logo eu também estava
perdido.
caminhei a esmo. era a
manhã de uma quarta-feira e eu podia
ver o oceano ao sul.
mas toda aquela bebida:
a merda estava prestes a escorrer
para fora de mim.
segui em direção ao
mar.
avistei uma estrutura de tijolos
marrons nos limites
da rebentação.
entrei. havia um
velho gemendo em um
dos reservados.
“olá, meu chapa”, ele disse.
“olá”, eu disse.
“está um inferno lá fora,
não?”, o velho
perguntou.
“sim”, respondi.
“precisa de um trago?”
“nunca bebo antes do meio-dia.”
“que horas você tem aí?”
“11h58”
“temos dois minutos.”
me limpei, dei a descarga, subi minhas
calças e me afastei.
o velho continuava no seu reservado,
gemendo.
apontou para uma garrafa de vinho
junto a seus pés
quase vazia
e eu a apanhei e tomei cerca de metade
do que ainda restava.
estiquei para ele uma nota de dólar, velha e
amassada
então segui para o lado de fora e vomitei
num gramado.
olhei para o oceano e o
oceano parecia bom, cheio de azuis e
verdes e tubarões.
saí dali e refiz o caminho
até a rua
determinado a encontrar meu automóvel.
custou-me uma hora e quinze minutos
e quando finalmente consegui encontrá-lo
entrei e dei a partida
fingindo saber tanto quanto
o homem
ao lado.
deixei a casa dela
suas cobertas quentes
e eu estava de ressaca
não sabia sequer que cidade era
aquela.
saí caminhando sem conseguir
achar meu carro.
mas eu sabia que ele tinha que estar em algum lugar.
e logo eu também estava
perdido.
caminhei a esmo. era a
manhã de uma quarta-feira e eu podia
ver o oceano ao sul.
mas toda aquela bebida:
a merda estava prestes a escorrer
para fora de mim.
segui em direção ao
mar.
avistei uma estrutura de tijolos
marrons nos limites
da rebentação.
entrei. havia um
velho gemendo em um
dos reservados.
“olá, meu chapa”, ele disse.
“olá”, eu disse.
“está um inferno lá fora,
não?”, o velho
perguntou.
“sim”, respondi.
“precisa de um trago?”
“nunca bebo antes do meio-dia.”
“que horas você tem aí?”
“11h58”
“temos dois minutos.”
me limpei, dei a descarga, subi minhas
calças e me afastei.
o velho continuava no seu reservado,
gemendo.
apontou para uma garrafa de vinho
junto a seus pés
quase vazia
e eu a apanhei e tomei cerca de metade
do que ainda restava.
estiquei para ele uma nota de dólar, velha e
amassada
então segui para o lado de fora e vomitei
num gramado.
olhei para o oceano e o
oceano parecia bom, cheio de azuis e
verdes e tubarões.
saí dali e refiz o caminho
até a rua
determinado a encontrar meu automóvel.
custou-me uma hora e quinze minutos
e quando finalmente consegui encontrá-lo
entrei e dei a partida
fingindo saber tanto quanto
o homem
ao lado.
1 167
Charles Bukowski
Orador Debaixo de Mau Tempo
por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
1 156
Charles Bukowski
Chuva Ou Sol
os abutres no zoo
(todos os 3)
sentam-se bastante tranquilos em sua
árvore enjaulada
e abaixo
no chão
há postas de carne podre.
os abutres estão empanturrados
nossos impostos os têm mantido
bem alimentados.
seguimos para a próxima
jaula.
um homem está ali
sentado no chão
comendo
a própria merda.
reconheço a figura
de nosso antigo carteiro.
sua expressão favorita
sempre fora:
“tenha um ótimo dia”.
naquele dia, foi o que me aconteceu.
(todos os 3)
sentam-se bastante tranquilos em sua
árvore enjaulada
e abaixo
no chão
há postas de carne podre.
os abutres estão empanturrados
nossos impostos os têm mantido
bem alimentados.
seguimos para a próxima
jaula.
um homem está ali
sentado no chão
comendo
a própria merda.
reconheço a figura
de nosso antigo carteiro.
sua expressão favorita
sempre fora:
“tenha um ótimo dia”.
naquele dia, foi o que me aconteceu.
1 079
Charles Bukowski
$$$$$$
sempre tive problemas com
dinheiro.
num dos lugares em que trabalhei
todos comiam cachorro-quente
e batatas fritas
na cantina da empresa
3 dias antes de cada
pagamento.
eu queria uns bifes,
cheguei inclusive a procurar o gerente
da cantina e
exigir que ele servisse
uns bifes. ele se recusou.
Eu esqueci do dia do pagamento.
eu tinha um alto grau de indiferença e
o dia do pagamento chegava e todos
não falavam em outra
coisa.
“pagamento?” eu dizia, “diabo, hoje é dia de
receber? me esqueci de pegar meu
último cheque...”
“pare de falar merda, cara...”
“não, não, é sério...”
eu me erguia e ia até o caixa
e claro que o cheque estava lá
e na volta eu o mostrava
a todos eles. “Jesus Cristo, esqueci completamente
do negócio...”
por alguma razão isso os deixava
furiosos. então o funcionário do caixa
aparecia. eu tinha dois
cheques. “Jesus”, eu dizia, “dois cheques”.
e eles ficavam
furiosos.
alguns deles mantinham
dois empregos.
No pior dos dias
chovia pesadamente
eu não tinha uma capa de chuva então
vesti um velho casaco que eu não usava havia
meses e
cheguei um pouco atrasado
quando eles já estavam no batente.
procurei por cigarros nos bolsos
e num deles encontrei uma nota de
cinco dólares:
“ei, vejam”, eu disse, “acabo de encontrar cinco pratas
que eu não sabia que tinha, que
beleza”.
“ei, cara, não venha com essa
merda!”
“não, não, estou falando sério, de verdade, lembro
de ter vestido este casaco quando
estava bêbado e vagando de bar
em bar. já me tomaram dinheiro muitas vezes,
fiquei desconfiado... tiro o dinheiro da
minha carteira e o escondo em
outras partes.”
“sente de uma vez e comece a
trabalhar.”
meti a mão num bolso interno:
“ei, vejam, tem um VINTÃO aqui! Deus, não sabia
que tinha este VINTÃO!
estou
RICO!”
“ninguém está achando graça, seu
filho da puta...”
“ei, meu Deus, aqui tem mais OUTRA
de vinte! é muita, muita muita
grana... eu sabia que não tinha gasto todo o
dinheiro naquela noite. pensei que tinham me
levado os cobres outra vez...”
continuei vasculhando o
casaco. “ei, aqui tem uma de dez e
aqui mais um cinquinho! meu Deus...”
“escute, já disse pra você sentar
e calar a boca...”
“meu Deus, estou RICO... não preciso nem mais
deste emprego...”
“cara, senta aí...”
achei mais outra de dez depois que me sentei
mas não disse
nada.
podia sentir as ondas de ódio e
estava confuso,
eles achavam que eu tinha
armado toda aquela história
apenas para fazê-los se
sentirem mal. não era o que eu
queria. pessoas que tem que passar a cachorros-quentes e
batatas fritas por
3 dias antes de sair o pagamento
já se sentem mal o
suficiente.
sentei-me
inclinei-me para a frente e
comecei a
trabalhar.
do lado de fora
continuava
chovendo.
dinheiro.
num dos lugares em que trabalhei
todos comiam cachorro-quente
e batatas fritas
na cantina da empresa
3 dias antes de cada
pagamento.
eu queria uns bifes,
cheguei inclusive a procurar o gerente
da cantina e
exigir que ele servisse
uns bifes. ele se recusou.
Eu esqueci do dia do pagamento.
eu tinha um alto grau de indiferença e
o dia do pagamento chegava e todos
não falavam em outra
coisa.
“pagamento?” eu dizia, “diabo, hoje é dia de
receber? me esqueci de pegar meu
último cheque...”
“pare de falar merda, cara...”
“não, não, é sério...”
eu me erguia e ia até o caixa
e claro que o cheque estava lá
e na volta eu o mostrava
a todos eles. “Jesus Cristo, esqueci completamente
do negócio...”
por alguma razão isso os deixava
furiosos. então o funcionário do caixa
aparecia. eu tinha dois
cheques. “Jesus”, eu dizia, “dois cheques”.
e eles ficavam
furiosos.
alguns deles mantinham
dois empregos.
No pior dos dias
chovia pesadamente
eu não tinha uma capa de chuva então
vesti um velho casaco que eu não usava havia
meses e
cheguei um pouco atrasado
quando eles já estavam no batente.
procurei por cigarros nos bolsos
e num deles encontrei uma nota de
cinco dólares:
“ei, vejam”, eu disse, “acabo de encontrar cinco pratas
que eu não sabia que tinha, que
beleza”.
“ei, cara, não venha com essa
merda!”
“não, não, estou falando sério, de verdade, lembro
de ter vestido este casaco quando
estava bêbado e vagando de bar
em bar. já me tomaram dinheiro muitas vezes,
fiquei desconfiado... tiro o dinheiro da
minha carteira e o escondo em
outras partes.”
“sente de uma vez e comece a
trabalhar.”
meti a mão num bolso interno:
“ei, vejam, tem um VINTÃO aqui! Deus, não sabia
que tinha este VINTÃO!
estou
RICO!”
“ninguém está achando graça, seu
filho da puta...”
“ei, meu Deus, aqui tem mais OUTRA
de vinte! é muita, muita muita
grana... eu sabia que não tinha gasto todo o
dinheiro naquela noite. pensei que tinham me
levado os cobres outra vez...”
continuei vasculhando o
casaco. “ei, aqui tem uma de dez e
aqui mais um cinquinho! meu Deus...”
“escute, já disse pra você sentar
e calar a boca...”
“meu Deus, estou RICO... não preciso nem mais
deste emprego...”
“cara, senta aí...”
achei mais outra de dez depois que me sentei
mas não disse
nada.
podia sentir as ondas de ódio e
estava confuso,
eles achavam que eu tinha
armado toda aquela história
apenas para fazê-los se
sentirem mal. não era o que eu
queria. pessoas que tem que passar a cachorros-quentes e
batatas fritas por
3 dias antes de sair o pagamento
já se sentem mal o
suficiente.
sentei-me
inclinei-me para a frente e
comecei a
trabalhar.
do lado de fora
continuava
chovendo.
656
Charles Bukowski
Scarlet
fico feliz quando elas chegam
e feliz quando se vão
feliz quando escuto os saltos
se aproximando de minha porta
feliz quando esses saltos
se afastam
feliz por foder
feliz por me importar
feliz quando tudo termina
e
desde que as coisas ou estão
começando ou terminando
fico feliz
a maior parte do tempo
e os gatos caminham pra cima e pra baixo
e a terra gira em torno do sol
e o telefone toca:
“é a Scarlet”.
“quem?”
“Scarlet.”
“certo, pinta aí.”
e desligo pensando
talvez seja isso
entro
dou uma cagada rápida
me barbeio
me banho
me visto
ponho o lixo
e as caixas cheias de garrafas vazias
pra fora
me sento ao som dos
saltos se aproximando
parecendo mais a aproximação de um exército
do que o som da vitória
é Scarlet
e na minha cozinha a torneira
continua pingando
precisando de conserto.
cuidarei disso mais
tarde.
e feliz quando se vão
feliz quando escuto os saltos
se aproximando de minha porta
feliz quando esses saltos
se afastam
feliz por foder
feliz por me importar
feliz quando tudo termina
e
desde que as coisas ou estão
começando ou terminando
fico feliz
a maior parte do tempo
e os gatos caminham pra cima e pra baixo
e a terra gira em torno do sol
e o telefone toca:
“é a Scarlet”.
“quem?”
“Scarlet.”
“certo, pinta aí.”
e desligo pensando
talvez seja isso
entro
dou uma cagada rápida
me barbeio
me banho
me visto
ponho o lixo
e as caixas cheias de garrafas vazias
pra fora
me sento ao som dos
saltos se aproximando
parecendo mais a aproximação de um exército
do que o som da vitória
é Scarlet
e na minha cozinha a torneira
continua pingando
precisando de conserto.
cuidarei disso mais
tarde.
1 275
Charles Bukowski
Barata
a barata rastejou
sobre os ladrilhos
enquanto eu estava mijando e
ao virar minha cabeça
ela enfiou o traseiro
numa fenda.
peguei o inseticida e disparei o aerossol
e disparei e disparei
e finalmente a barata saiu
e me lançou um olhar muito nojento.
então desabou dentro
da banheira e fiquei assistindo à
sua morte
com um prazer sutil
pois eu pagava o aluguel
e ela não.
recolhi-a com
um tipo de papel higiênico
azul-esverdeado e joguei-a
na descarga. era tudo o que se
tinha a fazer, exceto que
nas redondezas de Hollywood e
Western temos que seguir
fazendo isso.
dizem que algum dia essa
tribo herdará
a terra
mas faremos com que
esperem mais
alguns meses.
sobre os ladrilhos
enquanto eu estava mijando e
ao virar minha cabeça
ela enfiou o traseiro
numa fenda.
peguei o inseticida e disparei o aerossol
e disparei e disparei
e finalmente a barata saiu
e me lançou um olhar muito nojento.
então desabou dentro
da banheira e fiquei assistindo à
sua morte
com um prazer sutil
pois eu pagava o aluguel
e ela não.
recolhi-a com
um tipo de papel higiênico
azul-esverdeado e joguei-a
na descarga. era tudo o que se
tinha a fazer, exceto que
nas redondezas de Hollywood e
Western temos que seguir
fazendo isso.
dizem que algum dia essa
tribo herdará
a terra
mas faremos com que
esperem mais
alguns meses.
1 138
Charles Bukowski
Dama Melancólica
ela fica ali sentada
bebendo vinho
enquanto seu marido
está no trabalho.
ela considera
de suma importância
que seus poemas sejam
publicados
nas pequenas
revistas.
possui dois
ou três de pequenos
volumes de sua poesia
mimeografados.
tem dois ou
três filhos
com idades que vão
de 6 a 15.
já não é mais
a linda mulher que
costumava ser. manda
fotos em que aparece
sentada sobre uma pedra
junto ao oceano
sozinha e condenada.
podia ter estado com ela
uma vez. me pergunto
se ela acha que eu
poderia
salvá-la?
em todos os seus poemas
seu marido jamais
é mencionado.
mas costuma
falar sobre seu
jardim
assim sabemos que está
lá, de alguma maneira,
e que talvez ela
trepe com os botões de rosa
e os tentilhões
antes de escrever
seus poemas.
bebendo vinho
enquanto seu marido
está no trabalho.
ela considera
de suma importância
que seus poemas sejam
publicados
nas pequenas
revistas.
possui dois
ou três de pequenos
volumes de sua poesia
mimeografados.
tem dois ou
três filhos
com idades que vão
de 6 a 15.
já não é mais
a linda mulher que
costumava ser. manda
fotos em que aparece
sentada sobre uma pedra
junto ao oceano
sozinha e condenada.
podia ter estado com ela
uma vez. me pergunto
se ela acha que eu
poderia
salvá-la?
em todos os seus poemas
seu marido jamais
é mencionado.
mas costuma
falar sobre seu
jardim
assim sabemos que está
lá, de alguma maneira,
e que talvez ela
trepe com os botões de rosa
e os tentilhões
antes de escrever
seus poemas.
1 175
Charles Bukowski
Aprisionado
no inverno caminhando em meu
teto meus olhos do tamanho de luzes de
poste. tenho quatro patas como um rato mas
lavo minhas roupas íntimas – barbeado e
de ressaca e de pau duro e sem advogado.
tenho cara de esfregão. canto
canções de amor e carrego aço.
preferiria morrer a chorar. não suporto
a matilha não posso viver sem ela.
inclino minha cabeça contra o refrigerador
branco e quero gritar como
o último lamento de vida para todo sempre mas
sou maior do que as montanhas.
teto meus olhos do tamanho de luzes de
poste. tenho quatro patas como um rato mas
lavo minhas roupas íntimas – barbeado e
de ressaca e de pau duro e sem advogado.
tenho cara de esfregão. canto
canções de amor e carrego aço.
preferiria morrer a chorar. não suporto
a matilha não posso viver sem ela.
inclino minha cabeça contra o refrigerador
branco e quero gritar como
o último lamento de vida para todo sempre mas
sou maior do que as montanhas.
1 337
Charles Bukowski
Junkies
“ela aplicou no pescoço”, ela me
disse. eu disse que era para me aplicar
na bunda e ela tentou e disse, “oh-oh”,
e eu disse, “que merda está acontecendo?”
ela disse, “nada, este é o modo Nova York
de fazer a coisa”, e tentou enfiar a agulha de novo e disse,
“oh, merda”. Peguei o negócio e tentei me aplicar
no braço, consegui injetar uma parte.
“não sei por que as pessoas
se metem com isso, não há nada
de mais. acho que são todos uns coitados
e querem realmente chegar ao fundo do poço. não
há saída, é como se eles não conseguissem
chegar onde querem ou pretendem
e não tivessem outra saída.
isso tinha que ser assim.
ela aplicou no pescoço.”
“eu sei”, eu disse. “liguei pra ela, ela
mal conseguia falar, disse que estava com
laringite. tome um pouco deste vinho.”
era vinho branco e 4h20 da manhã e sua
filha dormia no quarto. a tevê
a cabo estava ligada sem volume e
um enorme pôster com um John Wayne ainda jovem
nos velava, e não nos beijamos nem sequer fizemos
amor e acabei saindo de lá às 6h15
depois que a cerveja e o vinho acabaram
e também para que sua filha não acordasse para ir ao
colégio e me encontrasse ali sentado na
cama de sua mãe
com o John Wayne e a noite encerrada
e sem quaisquer esperanças para quem quer que fosse...
disse. eu disse que era para me aplicar
na bunda e ela tentou e disse, “oh-oh”,
e eu disse, “que merda está acontecendo?”
ela disse, “nada, este é o modo Nova York
de fazer a coisa”, e tentou enfiar a agulha de novo e disse,
“oh, merda”. Peguei o negócio e tentei me aplicar
no braço, consegui injetar uma parte.
“não sei por que as pessoas
se metem com isso, não há nada
de mais. acho que são todos uns coitados
e querem realmente chegar ao fundo do poço. não
há saída, é como se eles não conseguissem
chegar onde querem ou pretendem
e não tivessem outra saída.
isso tinha que ser assim.
ela aplicou no pescoço.”
“eu sei”, eu disse. “liguei pra ela, ela
mal conseguia falar, disse que estava com
laringite. tome um pouco deste vinho.”
era vinho branco e 4h20 da manhã e sua
filha dormia no quarto. a tevê
a cabo estava ligada sem volume e
um enorme pôster com um John Wayne ainda jovem
nos velava, e não nos beijamos nem sequer fizemos
amor e acabei saindo de lá às 6h15
depois que a cerveja e o vinho acabaram
e também para que sua filha não acordasse para ir ao
colégio e me encontrasse ali sentado na
cama de sua mãe
com o John Wayne e a noite encerrada
e sem quaisquer esperanças para quem quer que fosse...
791
Charles Bukowski
Cupons
cigarros umedecidos por cerveja
da noite passada
você acende um
se engasga
abre a porta em busca de ar
e junto à entrada
está um pardal morto
sua cabeça e seu peito
arrancados.
pendurado à maçaneta
há um anúncio da All American
Burger
que consiste de alguns cupons
que
dizem
que na compra
de um hambúrguer
de 12 de fev. a 15 de fev.
você ganha de graça
um pacote de batatas
fritas médio e um
copo pequeno de coca-cola.
pego o anúncio
embrulho o pardal com ele
levo até a lata de lixo
e despejo lá
dentro.
veja:
renunciando a batatas fritas e coca
para ajudar a manter
minha cidade
limpa.
da noite passada
você acende um
se engasga
abre a porta em busca de ar
e junto à entrada
está um pardal morto
sua cabeça e seu peito
arrancados.
pendurado à maçaneta
há um anúncio da All American
Burger
que consiste de alguns cupons
que
dizem
que na compra
de um hambúrguer
de 12 de fev. a 15 de fev.
você ganha de graça
um pacote de batatas
fritas médio e um
copo pequeno de coca-cola.
pego o anúncio
embrulho o pardal com ele
levo até a lata de lixo
e despejo lá
dentro.
veja:
renunciando a batatas fritas e coca
para ajudar a manter
minha cidade
limpa.
1 187
Charles Bukowski
Cão
um cão apenas
caminhando sozinho numa calçada quente em pleno
verão
parece ter mais poder
do que dez mil deuses.
por que isso?
caminhando sozinho numa calçada quente em pleno
verão
parece ter mais poder
do que dez mil deuses.
por que isso?
1 387
Charles Bukowski
Um Poema Para a Armadura Peitoral
tenho um ditado, “os duros sempre retornam”.
mas Vera era mais doce do que a maioria,
e assim fiquei surpreso quando
ela chegou naquela noite
dizendo, “me deixe entrar”.
“não, não, estou trabalhando num soneto.”
“ficarei só um minuto, depois me
vou.”
“Vera, se eu deixar você entrar sei que só sairá daqui
em 3 ou 4 dias.”
era noite e eu não acendera
a luz da varanda e assim não pude vê-la
se aproximar
mas
ela lançou uma direita que
explodiu bem no centro do meu
peito.
“baby, esse foi um soco lindo.
agora caia fora.”
então fechei a porta.
ela voltou 5 minutos depois:
“Hank, não consigo achar meu carro, eu
juro que não consigo achar. me ajude
a encontrá-lo!”
vi meu amigo Bobby-the-Riff
caminhando. “ei, Bobby ajude
essa aí a achar o carro. nos
falamos depois.”
foram juntos.
mais tarde Bobby disse que encontraram
o carro na frente do pátio de alguém,
motor e luzes
ligados.
não ouvi mais falar de Vera
desde então
a não ser que seja ela
quem me liga
às 2 e 3 e 4 da manhã
e não responde quando eu
digo “alô”.
mas Bobby diz que
pode cuidar dela
então decidi deixá-la
para Bobby.
ela mora numa rua lateral em algum lugar de
Glendale
e eu o ajudo a abrir o
mapa rodoviário enquanto bebemos nossas
Schlitz dietéticas.
mas Vera era mais doce do que a maioria,
e assim fiquei surpreso quando
ela chegou naquela noite
dizendo, “me deixe entrar”.
“não, não, estou trabalhando num soneto.”
“ficarei só um minuto, depois me
vou.”
“Vera, se eu deixar você entrar sei que só sairá daqui
em 3 ou 4 dias.”
era noite e eu não acendera
a luz da varanda e assim não pude vê-la
se aproximar
mas
ela lançou uma direita que
explodiu bem no centro do meu
peito.
“baby, esse foi um soco lindo.
agora caia fora.”
então fechei a porta.
ela voltou 5 minutos depois:
“Hank, não consigo achar meu carro, eu
juro que não consigo achar. me ajude
a encontrá-lo!”
vi meu amigo Bobby-the-Riff
caminhando. “ei, Bobby ajude
essa aí a achar o carro. nos
falamos depois.”
foram juntos.
mais tarde Bobby disse que encontraram
o carro na frente do pátio de alguém,
motor e luzes
ligados.
não ouvi mais falar de Vera
desde então
a não ser que seja ela
quem me liga
às 2 e 3 e 4 da manhã
e não responde quando eu
digo “alô”.
mas Bobby diz que
pode cuidar dela
então decidi deixá-la
para Bobby.
ela mora numa rua lateral em algum lugar de
Glendale
e eu o ajudo a abrir o
mapa rodoviário enquanto bebemos nossas
Schlitz dietéticas.
1 163
Charles Bukowski
12:18 A.M.
decapitado no meio da
noite
coçando os lados do meu corpo
estou coberto de mordidas
livro aos chutes minhas pernas brancas dos lençóis
enquanto as sirenes soam
há um disparo de arma de fogo.
vou à cozinha
em busca de um copo d’água
destruir o devaneio de uma barata
destruir a própria barata.
um vendaval vem do norte
enquanto o homem no apartamento
da frente
enfia seu pau no rabo de sua
filha de 4
anos.
escuto os gritos
acendo um charuto
enfio-o nos lábios de minha
cabeça decapitada.
é um corona
envelhecido
um Medalist Naturáles, Nº 7.
retorno ao banheiro
com um inseticida.
aperto a válvula.
sai o spray. tenho
náuseas,
penso em antigas batalhas
em amores mortos.
tanta coisa acontece na escuridão
ainda que amanhã
o sol continue seguindo seu rumo,
você receberá uma multa se estacionar
do lado sul de uma rua numa
quinta-feira
ou do lado norte na
sexta.
a eficiência do sol e da
lei
protege a sanidade.
alguma coisa me morde.
disparo
enlouquecidamente o spray em meus
lençóis.
volto-me
vejo o espelho na escuridão –
o charuto
a pança flácida
meu reflexo
envelhecido.
dou uma risada.
é bom que eles não
saibam.
pego minha cabeça
coloco-a novamente em meu
pescoço
entro sob os lençóis e
não consigo dormir.
noite
coçando os lados do meu corpo
estou coberto de mordidas
livro aos chutes minhas pernas brancas dos lençóis
enquanto as sirenes soam
há um disparo de arma de fogo.
vou à cozinha
em busca de um copo d’água
destruir o devaneio de uma barata
destruir a própria barata.
um vendaval vem do norte
enquanto o homem no apartamento
da frente
enfia seu pau no rabo de sua
filha de 4
anos.
escuto os gritos
acendo um charuto
enfio-o nos lábios de minha
cabeça decapitada.
é um corona
envelhecido
um Medalist Naturáles, Nº 7.
retorno ao banheiro
com um inseticida.
aperto a válvula.
sai o spray. tenho
náuseas,
penso em antigas batalhas
em amores mortos.
tanta coisa acontece na escuridão
ainda que amanhã
o sol continue seguindo seu rumo,
você receberá uma multa se estacionar
do lado sul de uma rua numa
quinta-feira
ou do lado norte na
sexta.
a eficiência do sol e da
lei
protege a sanidade.
alguma coisa me morde.
disparo
enlouquecidamente o spray em meus
lençóis.
volto-me
vejo o espelho na escuridão –
o charuto
a pança flácida
meu reflexo
envelhecido.
dou uma risada.
é bom que eles não
saibam.
pego minha cabeça
coloco-a novamente em meu
pescoço
entro sob os lençóis e
não consigo dormir.
896
Charles Bukowski
Boletim do Tempo
suponho que esteja chovendo em alguma cidade espanhola
neste momento
enquanto me sinto mal
deste jeito;
gosto de pensar nisso
agora.
vamos a um vilarejo mexicano –
isso soa bem:
um vilarejo mexicano
enquanto me sinto mal
deste jeito
as paredes amareladas pelo tempo –
aquela chuva
lá fora,
um porco se movendo em seu chiqueiro à noite
incomodado pela chuva,
os olhos diminutos como pontas de cigarro,
e seu maldito rabo:
pode vê-lo?
não consigo imaginar as pessoas.
talvez elas também estejam se sentindo mal,
quase tão mal quanto eu.
pergunto-me o que elas fazem quando se sentem
assim?
provavelmente não o mencionam.
dizem apenas,
“veja, está chovendo”.
Assim é melhor mesmo.
neste momento
enquanto me sinto mal
deste jeito;
gosto de pensar nisso
agora.
vamos a um vilarejo mexicano –
isso soa bem:
um vilarejo mexicano
enquanto me sinto mal
deste jeito
as paredes amareladas pelo tempo –
aquela chuva
lá fora,
um porco se movendo em seu chiqueiro à noite
incomodado pela chuva,
os olhos diminutos como pontas de cigarro,
e seu maldito rabo:
pode vê-lo?
não consigo imaginar as pessoas.
talvez elas também estejam se sentindo mal,
quase tão mal quanto eu.
pergunto-me o que elas fazem quando se sentem
assim?
provavelmente não o mencionam.
dizem apenas,
“veja, está chovendo”.
Assim é melhor mesmo.
1 127
Charles Bukowski
Um Poema Para a Velha Dente-Podre
conheço uma mulher
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
1 410
Charles Bukowski
Inverno
um cachorro grande, sujo e ferido
atingido por um carro e caminhando
em direção ao meio-fio
emitindo enormes
sons
seu corpo curvado
vermelho explodindo pelo
cu e pela boca.
olho para ele e
sigo em frente
pois como seria
para mim segurar
um cão moribundo junto a
um meio-fio em Arcadia,
o sangue escorrendo por minha
camisa e calças e
cueca e meias e meus
sapatos? pareceria apenas
uma tolice.
além disso, pus o olho no cavalo
número 2 no primeiro páreo
e queria fazer uma dobradinha
com o número 9
no segundo. estudei o jornal para
pagar algo em torno de $ 140
assim eu tinha que deixar aquele
cachorro morrer ali sozinho
bem defronte ao
shopping center
com as senhoras à
procura de pechinchas
enquanto o primeiro floco de
neve caía sobre a
Sierra Madre.
atingido por um carro e caminhando
em direção ao meio-fio
emitindo enormes
sons
seu corpo curvado
vermelho explodindo pelo
cu e pela boca.
olho para ele e
sigo em frente
pois como seria
para mim segurar
um cão moribundo junto a
um meio-fio em Arcadia,
o sangue escorrendo por minha
camisa e calças e
cueca e meias e meus
sapatos? pareceria apenas
uma tolice.
além disso, pus o olho no cavalo
número 2 no primeiro páreo
e queria fazer uma dobradinha
com o número 9
no segundo. estudei o jornal para
pagar algo em torno de $ 140
assim eu tinha que deixar aquele
cachorro morrer ali sozinho
bem defronte ao
shopping center
com as senhoras à
procura de pechinchas
enquanto o primeiro floco de
neve caía sobre a
Sierra Madre.
1 129