Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Affonso Romano de Sant'Anna
A Paineira E a Favela
Para Sérgio Faraco
Essa paineira na entrada da favela ao lado
está florindo
– e não é primavera.
Sob a rosada copa passam pivetes em fuga
e cruzam tiros de escopeta e AR-15.
À noite
são balas luminosas com seus rastros
traficando angústia na vizinhança.
Só uma vez, vi um cadáver baixar do morro.
Amanhece
e de minha janela vejo o mar.
O mar
e essa paineira florindo
– luminosa
embora não seja primavera.
Essa paineira na entrada da favela ao lado
está florindo
– e não é primavera.
Sob a rosada copa passam pivetes em fuga
e cruzam tiros de escopeta e AR-15.
À noite
são balas luminosas com seus rastros
traficando angústia na vizinhança.
Só uma vez, vi um cadáver baixar do morro.
Amanhece
e de minha janela vejo o mar.
O mar
e essa paineira florindo
– luminosa
embora não seja primavera.
1 052
Affonso Romano de Sant'Anna
Tumba Celta
Há cinco mil anos,
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
1 046
Affonso Romano de Sant'Anna
Tumba Celta
Há cinco mil anos,
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
1 046
Affonso Romano de Sant'Anna
Tumba Celta
Há cinco mil anos,
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
na Irlanda do Sul
– sempre no solstício de inverno –
um fino raio de Sol
atravessa a noite das pedras
e ilumina, certeiro, o centro
do templo-tumba
que os celtas, em New Grange, construíram.
E é então que o fora e o dentro
a luz e a treva
o homem e o cosmos
se complementam.
Já estive em templos e tumbas imensos
arquitetados por imperadores e faraós.
Às vezes, é preciso internalizar-se
na escuridão da pedra
para merecer um raio de luz.
1 046
Affonso Romano de Sant'Anna
Os Bois
De madrugada matam os bois
que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.
que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.
1 131
Affonso Romano de Sant'Anna
Da Janela do Hospital
Para Pedro Henrique Paiva
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
1 188
Affonso Romano de Sant'Anna
Da Janela do Hospital
Para Pedro Henrique Paiva
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
Da janela deste hospital
vejo uma nesga da floresta:
as folhas com seu denso discurso verde
acenando com a vida
ao vento.
Ali, miríades de répteis e insetos
estão numa batalha viva
como aqui no hospital, as bactérias no meu corpo.
Procurando a vida saio pelo corredor
com fios de plástico transitando soro e seiva para o meu tronco.
Pareço um folião e seu clínico estandarte.
A enfermeira no seu relatório registrou:
“o paciente do 203 tem estranhas atitudes
deambulatórias”.
Sou uma árvore móvel.
Sou uma árvore que anda, que anda
e para dentro frutifica.
Quando começa a madrugada
pássaros às vezes cantam nos meus ombros.
1 188
Affonso Romano de Sant'Anna
Carta a Virgílio
Caro Virgílio:
atrasado 2066 anos
chego à sua Mântova
e hospedo-me no Hotel Dante.
Sou um pobre homem
do Caminho Novo das Gerais
sentado nesta praça medieval
em tempos a que chamam pós-modernos.
E imagino de que brincava você, menino,
nas ruas da outrora Mântova
naquela Roma Imperial.
Em minha cidade, além dos jogos secretos
com as ninfas-meninas
havia a amarelinha, o arco, o finco,
o mês de agosto com pandorgas
que os chineses no seu tempo já alçavam.
Olho o céu. Uma lua crescente
– a mesma que você via –
é a única ligação entre nós
além da poesia.
atrasado 2066 anos
chego à sua Mântova
e hospedo-me no Hotel Dante.
Sou um pobre homem
do Caminho Novo das Gerais
sentado nesta praça medieval
em tempos a que chamam pós-modernos.
E imagino de que brincava você, menino,
nas ruas da outrora Mântova
naquela Roma Imperial.
Em minha cidade, além dos jogos secretos
com as ninfas-meninas
havia a amarelinha, o arco, o finco,
o mês de agosto com pandorgas
que os chineses no seu tempo já alçavam.
Olho o céu. Uma lua crescente
– a mesma que você via –
é a única ligação entre nós
além da poesia.
518
Affonso Romano de Sant'Anna
Vida Aliterária
Como cantam as aves!
Algumas estridentes
outras melodiosas
cada qual com o canto
que lhe é próprio.
Não competem entre si.
Com o canto que sabem
comem, alimentam seus filhotes
defendem-se de ataques
seduzem para o amor
e a natureza as ouve a todas
sem ter que premiar nenhuma.
Algumas estridentes
outras melodiosas
cada qual com o canto
que lhe é próprio.
Não competem entre si.
Com o canto que sabem
comem, alimentam seus filhotes
defendem-se de ataques
seduzem para o amor
e a natureza as ouve a todas
sem ter que premiar nenhuma.
1 208
Affonso Romano de Sant'Anna
Alta Noite Em Mântova
Aconteceu-me alta noite entrar na Piazza delle Erbe,
em Mântova
caminhar sob suas arcadas
em silêncio
e, de repente, vislumbrar a
Torre dell’Orologio
o Palazzo della Ragione
a Rotonda di San Lourenzo.
Mântova dormia.
Na igreja de Sant’Andrea
repousava o corpo de Mantegna
velado por afrescos de Correggio.
Quando cheguei à praça
onde o Palazzo Ducale e o Castello di San Giorgio
me esperavam
– petrificado ante tanta beleza
na neblina passei a ser
apenas
uma das pedras que o luar reverberava.
em Mântova
caminhar sob suas arcadas
em silêncio
e, de repente, vislumbrar a
Torre dell’Orologio
o Palazzo della Ragione
a Rotonda di San Lourenzo.
Mântova dormia.
Na igreja de Sant’Andrea
repousava o corpo de Mantegna
velado por afrescos de Correggio.
Quando cheguei à praça
onde o Palazzo Ducale e o Castello di San Giorgio
me esperavam
– petrificado ante tanta beleza
na neblina passei a ser
apenas
uma das pedras que o luar reverberava.
1 032
Affonso Romano de Sant'Anna
Villa Serbelloni, Peônias
Estas peônias floriram
há uma semana
sabendo que sua vida é curta
e se chover é morte certa.
Chove
e caem pétalas na terra.
Por que poeta!
deveria teu poema ser eterno?
há uma semana
sabendo que sua vida é curta
e se chover é morte certa.
Chove
e caem pétalas na terra.
Por que poeta!
deveria teu poema ser eterno?
919
Affonso Romano de Sant'Anna
Cena Na Lagoa
Movida por dez braços
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
– múltipla flecha –
uma canoa avança
no crepúsculo da lagoa.
Atletas conduzem
a centopeia aquática
com seus potentes músculos
fecundando o ocaso.
Anoitece.
Com duas mãos
(apenas)
também remo
(parado)
na escuridão.
1 023
Affonso Romano de Sant'Anna
Dilema
Sempre que volto de viagem
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
1 144
Affonso Romano de Sant'Anna
Dilema
Sempre que volto de viagem
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
1 144
Affonso Romano de Sant'Anna
Morte No Jardim
Ondulando anéis rubros e negros, a cobra
era bela
e vinha deslizando no jardim
quando a vi
– num misto de temor e êxtase.
Venceu em mim, no entanto, o selvagem
que saiu à caça da presa
que se enroscava
mimetizando-se
com as flores no gramado.
Atiro-lhe na luta a lança
corto-lhe o corpo em uma
duas
três
partes
e nauseado
com o veneno do remorso
afasto-me
deixando atrás a beleza destroçada.
A tarde enrolava rubros e negros anéis sobre as montanhas
e o Sol morria perplexo sobre os crisântemos e dálias.
– A poesia
não resgata
– o que matamos no jardim.
era bela
e vinha deslizando no jardim
quando a vi
– num misto de temor e êxtase.
Venceu em mim, no entanto, o selvagem
que saiu à caça da presa
que se enroscava
mimetizando-se
com as flores no gramado.
Atiro-lhe na luta a lança
corto-lhe o corpo em uma
duas
três
partes
e nauseado
com o veneno do remorso
afasto-me
deixando atrás a beleza destroçada.
A tarde enrolava rubros e negros anéis sobre as montanhas
e o Sol morria perplexo sobre os crisântemos e dálias.
– A poesia
não resgata
– o que matamos no jardim.
1 195
Affonso Romano de Sant'Anna
Morte No Jardim
Ondulando anéis rubros e negros, a cobra
era bela
e vinha deslizando no jardim
quando a vi
– num misto de temor e êxtase.
Venceu em mim, no entanto, o selvagem
que saiu à caça da presa
que se enroscava
mimetizando-se
com as flores no gramado.
Atiro-lhe na luta a lança
corto-lhe o corpo em uma
duas
três
partes
e nauseado
com o veneno do remorso
afasto-me
deixando atrás a beleza destroçada.
A tarde enrolava rubros e negros anéis sobre as montanhas
e o Sol morria perplexo sobre os crisântemos e dálias.
– A poesia
não resgata
– o que matamos no jardim.
era bela
e vinha deslizando no jardim
quando a vi
– num misto de temor e êxtase.
Venceu em mim, no entanto, o selvagem
que saiu à caça da presa
que se enroscava
mimetizando-se
com as flores no gramado.
Atiro-lhe na luta a lança
corto-lhe o corpo em uma
duas
três
partes
e nauseado
com o veneno do remorso
afasto-me
deixando atrás a beleza destroçada.
A tarde enrolava rubros e negros anéis sobre as montanhas
e o Sol morria perplexo sobre os crisântemos e dálias.
– A poesia
não resgata
– o que matamos no jardim.
1 195
Affonso Romano de Sant'Anna
Enquete
– O que estás lendo?
A caligrafia dos insetos nas folhas.
O emblema das constelações.
O folhetim tempestuoso das nuvens.
Os arabescos dos siris na areia.
E o ideograma das revoluções.
A caligrafia dos insetos nas folhas.
O emblema das constelações.
O folhetim tempestuoso das nuvens.
Os arabescos dos siris na areia.
E o ideograma das revoluções.
1 075
Affonso Romano de Sant'Anna
Enquete
– O que estás lendo?
A caligrafia dos insetos nas folhas.
O emblema das constelações.
O folhetim tempestuoso das nuvens.
Os arabescos dos siris na areia.
E o ideograma das revoluções.
A caligrafia dos insetos nas folhas.
O emblema das constelações.
O folhetim tempestuoso das nuvens.
Os arabescos dos siris na areia.
E o ideograma das revoluções.
1 075
Affonso Romano de Sant'Anna
Villa Serbelloni, Primavera
Quando cheguei não havia flores, só promessas.
Primeiro disseminaram-se margaridas pela encosta
e cobriram-se de rosada luz as amendoeiras
logo, iridescentes, a copa das pereiras e pessegueiros,
pareciam fogos de artifício perfumados,
íris e tulipas bailavam nos canteiros
sob o aplauso de violetas e amarílis,
foi quando as glicínias e peônias de vez ensandeceram
e sobre teu corpo eu desabei inteiro.
Primeiro disseminaram-se margaridas pela encosta
e cobriram-se de rosada luz as amendoeiras
logo, iridescentes, a copa das pereiras e pessegueiros,
pareciam fogos de artifício perfumados,
íris e tulipas bailavam nos canteiros
sob o aplauso de violetas e amarílis,
foi quando as glicínias e peônias de vez ensandeceram
e sobre teu corpo eu desabei inteiro.
970
Affonso Romano de Sant'Anna
Villa Serbelloni, Primavera
Quando cheguei não havia flores, só promessas.
Primeiro disseminaram-se margaridas pela encosta
e cobriram-se de rosada luz as amendoeiras
logo, iridescentes, a copa das pereiras e pessegueiros,
pareciam fogos de artifício perfumados,
íris e tulipas bailavam nos canteiros
sob o aplauso de violetas e amarílis,
foi quando as glicínias e peônias de vez ensandeceram
e sobre teu corpo eu desabei inteiro.
Primeiro disseminaram-se margaridas pela encosta
e cobriram-se de rosada luz as amendoeiras
logo, iridescentes, a copa das pereiras e pessegueiros,
pareciam fogos de artifício perfumados,
íris e tulipas bailavam nos canteiros
sob o aplauso de violetas e amarílis,
foi quando as glicínias e peônias de vez ensandeceram
e sobre teu corpo eu desabei inteiro.
970
Affonso Romano de Sant'Anna
Certaldo
Um lagarto passeia sobre os muros medievais da cidadela
sua mínima e inexpressiva história.
Como eu
a minha pequena, pequeníssima
quase história.
Bate o sino deste burgo medieval.
Junto às pedras do moinho
rosas e gerânios desbordam
de grandes vasos vermelhos,
um pé de figo ao lado se oferece
e estou sob uma videira que desde os tempos de Boccaccio
me dá sombra e cresce.
sua mínima e inexpressiva história.
Como eu
a minha pequena, pequeníssima
quase história.
Bate o sino deste burgo medieval.
Junto às pedras do moinho
rosas e gerânios desbordam
de grandes vasos vermelhos,
um pé de figo ao lado se oferece
e estou sob uma videira que desde os tempos de Boccaccio
me dá sombra e cresce.
957
Affonso Romano de Sant'Anna
Certaldo
Um lagarto passeia sobre os muros medievais da cidadela
sua mínima e inexpressiva história.
Como eu
a minha pequena, pequeníssima
quase história.
Bate o sino deste burgo medieval.
Junto às pedras do moinho
rosas e gerânios desbordam
de grandes vasos vermelhos,
um pé de figo ao lado se oferece
e estou sob uma videira que desde os tempos de Boccaccio
me dá sombra e cresce.
sua mínima e inexpressiva história.
Como eu
a minha pequena, pequeníssima
quase história.
Bate o sino deste burgo medieval.
Junto às pedras do moinho
rosas e gerânios desbordam
de grandes vasos vermelhos,
um pé de figo ao lado se oferece
e estou sob uma videira que desde os tempos de Boccaccio
me dá sombra e cresce.
957
Pablo Neruda
V - Os Frutos
Doces oliveiras verdes de Frascati,
polidas como puros mamilos,
frescas como gotas de oceano,
reconcentrada, terrenal essência!
Da velha terra
sulcada e cantada,
renovados em cada primavera,
com a mesma argamassa
dos seres humanos,
com a mesma matéria
de nossa eternidade, perecíveis
e nascedores, repetidos
e novos, olivais
das secas terras da Itália,
do generoso ventre
que através da dor
continua parindo delícia.
Aquele dia a oliveira,
o vinho novo,
a canção de meu amigo,
meu amor à distância,
a terra umedecida,
tudo tão simples,
tão eterno
como o grão de trigo,
ali em Frascati
os muros perfurados
pela morte,
os olhos da guerra nas janelas,
mas a paz me recebia
com um sabor de azeite e vinho,
enquanto tudo era simples como o povo
que me entregava
seu tesouro verde:
as pequenas oliveiras,
frescor, sabor puro,
medida deliciosa,
mamilo do dia azul,
amor terrestre.
polidas como puros mamilos,
frescas como gotas de oceano,
reconcentrada, terrenal essência!
Da velha terra
sulcada e cantada,
renovados em cada primavera,
com a mesma argamassa
dos seres humanos,
com a mesma matéria
de nossa eternidade, perecíveis
e nascedores, repetidos
e novos, olivais
das secas terras da Itália,
do generoso ventre
que através da dor
continua parindo delícia.
Aquele dia a oliveira,
o vinho novo,
a canção de meu amigo,
meu amor à distância,
a terra umedecida,
tudo tão simples,
tão eterno
como o grão de trigo,
ali em Frascati
os muros perfurados
pela morte,
os olhos da guerra nas janelas,
mas a paz me recebia
com um sabor de azeite e vinho,
enquanto tudo era simples como o povo
que me entregava
seu tesouro verde:
as pequenas oliveiras,
frescor, sabor puro,
medida deliciosa,
mamilo do dia azul,
amor terrestre.
1 193
Pablo Neruda
Solidões
Estava redonda a lua e estático o círculo negro
do fuzilado silêncio regido por um palpitante grupo:
o lácteo infinito que cruza como um rio branco a sombra,
os úberes do céu espargiram a extensa substância ou Andrômeda
e Sírio jogaram deixando semeado de sêmen celeste a noite do Sul.
Fragrantes estrelas abertas voando sem pressa e atadas
à misteriosa ordem da viagem dos universos,
vespas metálicas, elétricos números, prismáticas rosas com pétalas de água ou de neve,
e ali fulgurando e pulsando a noite eletrônica nua e vestida, povoada e vazia,
cheia de nações e páramos, planetas e um céu detrás de outro céu,
ali, incorruptíveis brilhavam os olhos perdidos do tempo com os utensílios do orbe,
cozinhas com fogo, ferraduras que viram rodar o sombrio cavalo, martelos, níveis, espadas,
ali circulava a noite nua apesar do austral atavio, de suas amarelas alfaias.
A quem pertence minha fronte, meus pés ou meu exame remoto?
De que me serviu o alvedrio, a rouca advertência da vontade enterrada?
Por que me disputam a terra e a sombra e a que materiais que ainda não conheço
estão destinados meus ossos e a destruição de meu sangue?
E eu, estremecido na viagem, com o coração constelado
baixei a cabeça e fechando os olhos guardei o que pude,
um negro fragmento do ferro noturno, um jasmim
penetrante do céu.
E ainda mais misterioso como um nascimento infinito de abelhas
o dia prepara seus ovos de ouro, seus firmes favos dispõe no útero escuro do mundo
e na claridade, sobre o mar despertou a baleia bestial e pintou com um negro pincel
uma linha noturna na aurora que sai do mar trêmula
e caminha no labirinto o fermento do tifo que está
encarcerado
e saem do banho à rua os peixes simultâneos de Montevidéu
ou descem escadas em Valparaíso as roupas azuis da multidão
para os mercados e os escritórios, os embarcadouros, farmácias, navio
para a razão e a dúvida, os ciúmes, a tenra rotina dos inocentes:
um dia, um quebranto entre duas longas noites copiosas de estrelas ou chuva,
uma quebradura de sol soberano que desencadeia
explosões de espigas.
do fuzilado silêncio regido por um palpitante grupo:
o lácteo infinito que cruza como um rio branco a sombra,
os úberes do céu espargiram a extensa substância ou Andrômeda
e Sírio jogaram deixando semeado de sêmen celeste a noite do Sul.
Fragrantes estrelas abertas voando sem pressa e atadas
à misteriosa ordem da viagem dos universos,
vespas metálicas, elétricos números, prismáticas rosas com pétalas de água ou de neve,
e ali fulgurando e pulsando a noite eletrônica nua e vestida, povoada e vazia,
cheia de nações e páramos, planetas e um céu detrás de outro céu,
ali, incorruptíveis brilhavam os olhos perdidos do tempo com os utensílios do orbe,
cozinhas com fogo, ferraduras que viram rodar o sombrio cavalo, martelos, níveis, espadas,
ali circulava a noite nua apesar do austral atavio, de suas amarelas alfaias.
A quem pertence minha fronte, meus pés ou meu exame remoto?
De que me serviu o alvedrio, a rouca advertência da vontade enterrada?
Por que me disputam a terra e a sombra e a que materiais que ainda não conheço
estão destinados meus ossos e a destruição de meu sangue?
E eu, estremecido na viagem, com o coração constelado
baixei a cabeça e fechando os olhos guardei o que pude,
um negro fragmento do ferro noturno, um jasmim
penetrante do céu.
E ainda mais misterioso como um nascimento infinito de abelhas
o dia prepara seus ovos de ouro, seus firmes favos dispõe no útero escuro do mundo
e na claridade, sobre o mar despertou a baleia bestial e pintou com um negro pincel
uma linha noturna na aurora que sai do mar trêmula
e caminha no labirinto o fermento do tifo que está
encarcerado
e saem do banho à rua os peixes simultâneos de Montevidéu
ou descem escadas em Valparaíso as roupas azuis da multidão
para os mercados e os escritórios, os embarcadouros, farmácias, navio
para a razão e a dúvida, os ciúmes, a tenra rotina dos inocentes:
um dia, um quebranto entre duas longas noites copiosas de estrelas ou chuva,
uma quebradura de sol soberano que desencadeia
explosões de espigas.
760