Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
O Efémero Paraíso
Um mundo onde a ignorância é primavera
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
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António Ramos Rosa
O Efémero Paraíso
Um mundo onde a ignorância é primavera
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
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António Ramos Rosa
O Tempo
Que dizer quando o tempo se esquece e há um nimbo
verde que abriga num claro sortilégio?
Estamos tão atentos que vemos os minúsculos
matizes. É talvez a nascente que cintila.
O sangue ascende até ao cimo das árvores.
Todo o mundo é música de água ou transparência.
A inteligência é o sabor completo do silêncio.
Onde estamos é a insondável delicadeza de uma estrela.
A criança está com a mãe numa nebulosa dourada.
O desejo de união encontra a terra fluida.
Alguns sons vêm da sombra e formam uma esfera.
Algumas palavras se juntam e são pétalas abertas.
Todo o nosso saber é uma ignorância fértil.
O ritmo das nuvens ordena as nossas mesas.
Por toda a parte radiosos, minúsculos afluentes.
verde que abriga num claro sortilégio?
Estamos tão atentos que vemos os minúsculos
matizes. É talvez a nascente que cintila.
O sangue ascende até ao cimo das árvores.
Todo o mundo é música de água ou transparência.
A inteligência é o sabor completo do silêncio.
Onde estamos é a insondável delicadeza de uma estrela.
A criança está com a mãe numa nebulosa dourada.
O desejo de união encontra a terra fluida.
Alguns sons vêm da sombra e formam uma esfera.
Algumas palavras se juntam e são pétalas abertas.
Todo o nosso saber é uma ignorância fértil.
O ritmo das nuvens ordena as nossas mesas.
Por toda a parte radiosos, minúsculos afluentes.
684
António Ramos Rosa
O Tempo
Que dizer quando o tempo se esquece e há um nimbo
verde que abriga num claro sortilégio?
Estamos tão atentos que vemos os minúsculos
matizes. É talvez a nascente que cintila.
O sangue ascende até ao cimo das árvores.
Todo o mundo é música de água ou transparência.
A inteligência é o sabor completo do silêncio.
Onde estamos é a insondável delicadeza de uma estrela.
A criança está com a mãe numa nebulosa dourada.
O desejo de união encontra a terra fluida.
Alguns sons vêm da sombra e formam uma esfera.
Algumas palavras se juntam e são pétalas abertas.
Todo o nosso saber é uma ignorância fértil.
O ritmo das nuvens ordena as nossas mesas.
Por toda a parte radiosos, minúsculos afluentes.
verde que abriga num claro sortilégio?
Estamos tão atentos que vemos os minúsculos
matizes. É talvez a nascente que cintila.
O sangue ascende até ao cimo das árvores.
Todo o mundo é música de água ou transparência.
A inteligência é o sabor completo do silêncio.
Onde estamos é a insondável delicadeza de uma estrela.
A criança está com a mãe numa nebulosa dourada.
O desejo de união encontra a terra fluida.
Alguns sons vêm da sombra e formam uma esfera.
Algumas palavras se juntam e são pétalas abertas.
Todo o nosso saber é uma ignorância fértil.
O ritmo das nuvens ordena as nossas mesas.
Por toda a parte radiosos, minúsculos afluentes.
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António Ramos Rosa
O Tempo
Que dizer quando o tempo se esquece e há um nimbo
verde que abriga num claro sortilégio?
Estamos tão atentos que vemos os minúsculos
matizes. É talvez a nascente que cintila.
O sangue ascende até ao cimo das árvores.
Todo o mundo é música de água ou transparência.
A inteligência é o sabor completo do silêncio.
Onde estamos é a insondável delicadeza de uma estrela.
A criança está com a mãe numa nebulosa dourada.
O desejo de união encontra a terra fluida.
Alguns sons vêm da sombra e formam uma esfera.
Algumas palavras se juntam e são pétalas abertas.
Todo o nosso saber é uma ignorância fértil.
O ritmo das nuvens ordena as nossas mesas.
Por toda a parte radiosos, minúsculos afluentes.
verde que abriga num claro sortilégio?
Estamos tão atentos que vemos os minúsculos
matizes. É talvez a nascente que cintila.
O sangue ascende até ao cimo das árvores.
Todo o mundo é música de água ou transparência.
A inteligência é o sabor completo do silêncio.
Onde estamos é a insondável delicadeza de uma estrela.
A criança está com a mãe numa nebulosa dourada.
O desejo de união encontra a terra fluida.
Alguns sons vêm da sombra e formam uma esfera.
Algumas palavras se juntam e são pétalas abertas.
Todo o nosso saber é uma ignorância fértil.
O ritmo das nuvens ordena as nossas mesas.
Por toda a parte radiosos, minúsculos afluentes.
684
António Ramos Rosa
Antes Que Tudo Seja
Por ela os animais entram tão íntimos e lentos
no insondado centro onde invisíveis pastam.
Que clemência antiga, que cuidados suaves!
Sente uma alegria obscura, uma quase íntima glória.
Está assim contemplando a substância da inocência
e suspendendo intensos os círculos do desejo
treme da fome de ser em tudo antes que tudo
seja. Vê o inviolável por onde se move nua.
O orvalho cintila sobre os seus cabelos, os animais jubilam.
Descobre-se tão perto de onde está que principia.
Acende-se e já não sonha porque tudo é sempre o corpo
que liberta o lamento e a apaga e a levanta
e a leva por espaços transparentes onde o sopro
parece só sonhado e é o hálito da terra
que na simplicidade coroa a volúpia do desejo.
no insondado centro onde invisíveis pastam.
Que clemência antiga, que cuidados suaves!
Sente uma alegria obscura, uma quase íntima glória.
Está assim contemplando a substância da inocência
e suspendendo intensos os círculos do desejo
treme da fome de ser em tudo antes que tudo
seja. Vê o inviolável por onde se move nua.
O orvalho cintila sobre os seus cabelos, os animais jubilam.
Descobre-se tão perto de onde está que principia.
Acende-se e já não sonha porque tudo é sempre o corpo
que liberta o lamento e a apaga e a levanta
e a leva por espaços transparentes onde o sopro
parece só sonhado e é o hálito da terra
que na simplicidade coroa a volúpia do desejo.
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António Ramos Rosa
O Corpo Lúcido
No sítio onde se desenha o sono e a solidão
se perfaz o reino. Somos altura e atenção de antena
no corpo lúcido que se compenetra
no ardor de estar abrindo-se a um poder imenso
e circular que o liga à clareira incandescente.
Conhecemos o inviolável nos seus anéis e lâmpadas
e frutos. Estremecemos na passagem imóvel
em uníssono com as recém-nascidas vozes
que ténues sobem de um planeta verde.
Cada onda se eleva lenta e arredonda
e reúne o ouro e a tristeza num profuso
círculo. Aqui a atenção se esquece e ilumina
as sombras mais distantes, e o vento insufla
a embriaguez de estar sendo apenas uma folha
que estremece ao alto, acesa e frágil.
se perfaz o reino. Somos altura e atenção de antena
no corpo lúcido que se compenetra
no ardor de estar abrindo-se a um poder imenso
e circular que o liga à clareira incandescente.
Conhecemos o inviolável nos seus anéis e lâmpadas
e frutos. Estremecemos na passagem imóvel
em uníssono com as recém-nascidas vozes
que ténues sobem de um planeta verde.
Cada onda se eleva lenta e arredonda
e reúne o ouro e a tristeza num profuso
círculo. Aqui a atenção se esquece e ilumina
as sombras mais distantes, e o vento insufla
a embriaguez de estar sendo apenas uma folha
que estremece ao alto, acesa e frágil.
1 000
António Ramos Rosa
Descoberta
Ela procura o sílex e a pura sombra sossegada.
Um aroma nasce entre os cabelos, entre as páginas.
A cabeça ligeira inclina-se para uma incerta música.
Escreve com o seu hálito entre a espuma fugidia.
Sente o mundo rodar sob os seus pés, pressente o espaço.
Amanhece nos ombros ou é o mar nos ombros
e quase está no cimo. Ouvem-se pássaros silvestres
na espessura do estio. A sua garganta acende-se.
Quase feliz, beijada, ela descobre o mundo.
Sente o corpo vivo no vento, como um arbusto leve.
Já não existe e existe, o seu segredo abriu-se inteiro
no espaço. É um corpo quase transparente
que canta porque encontrou o mar. Não clama, não grita.
Toda a sua alegria é o silêncio de uma pedra ardente.
À beira de água é uma nuvem que se levanta de si mesma.
Um aroma nasce entre os cabelos, entre as páginas.
A cabeça ligeira inclina-se para uma incerta música.
Escreve com o seu hálito entre a espuma fugidia.
Sente o mundo rodar sob os seus pés, pressente o espaço.
Amanhece nos ombros ou é o mar nos ombros
e quase está no cimo. Ouvem-se pássaros silvestres
na espessura do estio. A sua garganta acende-se.
Quase feliz, beijada, ela descobre o mundo.
Sente o corpo vivo no vento, como um arbusto leve.
Já não existe e existe, o seu segredo abriu-se inteiro
no espaço. É um corpo quase transparente
que canta porque encontrou o mar. Não clama, não grita.
Toda a sua alegria é o silêncio de uma pedra ardente.
À beira de água é uma nuvem que se levanta de si mesma.
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António Ramos Rosa
Descoberta
Ela procura o sílex e a pura sombra sossegada.
Um aroma nasce entre os cabelos, entre as páginas.
A cabeça ligeira inclina-se para uma incerta música.
Escreve com o seu hálito entre a espuma fugidia.
Sente o mundo rodar sob os seus pés, pressente o espaço.
Amanhece nos ombros ou é o mar nos ombros
e quase está no cimo. Ouvem-se pássaros silvestres
na espessura do estio. A sua garganta acende-se.
Quase feliz, beijada, ela descobre o mundo.
Sente o corpo vivo no vento, como um arbusto leve.
Já não existe e existe, o seu segredo abriu-se inteiro
no espaço. É um corpo quase transparente
que canta porque encontrou o mar. Não clama, não grita.
Toda a sua alegria é o silêncio de uma pedra ardente.
À beira de água é uma nuvem que se levanta de si mesma.
Um aroma nasce entre os cabelos, entre as páginas.
A cabeça ligeira inclina-se para uma incerta música.
Escreve com o seu hálito entre a espuma fugidia.
Sente o mundo rodar sob os seus pés, pressente o espaço.
Amanhece nos ombros ou é o mar nos ombros
e quase está no cimo. Ouvem-se pássaros silvestres
na espessura do estio. A sua garganta acende-se.
Quase feliz, beijada, ela descobre o mundo.
Sente o corpo vivo no vento, como um arbusto leve.
Já não existe e existe, o seu segredo abriu-se inteiro
no espaço. É um corpo quase transparente
que canta porque encontrou o mar. Não clama, não grita.
Toda a sua alegria é o silêncio de uma pedra ardente.
À beira de água é uma nuvem que se levanta de si mesma.
1 094
António Ramos Rosa
Uma Sombra
Perto do corpo, perto da alegria. Nasceu uma sombra
e abriu-se. E habitei-a bebendo a água limpa.
Era uma corola de sombra e um bosque de silêncio.
Quem cantava? Era o silêncio ou era um eco?
Dormi na água da sombra, numa clara solidão.
Nada me separava da terra, era uma lâmpada oculta
e iluminada pela sombra. Estendi-me na casa
e fluí abandonado nas suas veias verdes.
Entrava na água, entrava nos lábios da sombra
e o corpo abriu-se à frescura do olvido
num campo completo. Era o cristal da noite
e uma tristeza alta e transparente. Era um arco
de espuma entre as ervas e as pedras.
Quem cantava? Era uma semente no escuro,
era talvez o ser aberto oculto na sua sombra.
e abriu-se. E habitei-a bebendo a água limpa.
Era uma corola de sombra e um bosque de silêncio.
Quem cantava? Era o silêncio ou era um eco?
Dormi na água da sombra, numa clara solidão.
Nada me separava da terra, era uma lâmpada oculta
e iluminada pela sombra. Estendi-me na casa
e fluí abandonado nas suas veias verdes.
Entrava na água, entrava nos lábios da sombra
e o corpo abriu-se à frescura do olvido
num campo completo. Era o cristal da noite
e uma tristeza alta e transparente. Era um arco
de espuma entre as ervas e as pedras.
Quem cantava? Era uma semente no escuro,
era talvez o ser aberto oculto na sua sombra.
1 193
António Ramos Rosa
A Casa
A casa em si pousa e esquecendo doura
as vertentes da sombra e o seu sono move-se
entre ramagens antigas e o mundo arredonda-se
tão funda em si de ser só paciência obscura
de um astro que singra na solidão azul.
Quanto pensar de suaves arvoredos,
quanto timbre de ser o quanto vemos
e, crescendo a atenção, subir ao cimo
onde não há ninguém na alta e limpa
nudez de tudo ver na madurez violeta.
Estamos perto do fogo e na vigília
em que vem acima o que não é ainda
e imóvel cresce para dentro no silêncio
como um desejo que em si mesmo se completa
na virgindade acesa de uma casa tranquila.
as vertentes da sombra e o seu sono move-se
entre ramagens antigas e o mundo arredonda-se
tão funda em si de ser só paciência obscura
de um astro que singra na solidão azul.
Quanto pensar de suaves arvoredos,
quanto timbre de ser o quanto vemos
e, crescendo a atenção, subir ao cimo
onde não há ninguém na alta e limpa
nudez de tudo ver na madurez violeta.
Estamos perto do fogo e na vigília
em que vem acima o que não é ainda
e imóvel cresce para dentro no silêncio
como um desejo que em si mesmo se completa
na virgindade acesa de uma casa tranquila.
1 098
António Ramos Rosa
Um Rio
Um rio entre as nuvens, um rio que tu ignoras,
um rio de mãos e de árvores, um rio de música
e de ilhas, um rio do alento, um rio de argila.
Delicadas formas na espuma e nas areias.
O corpo sente o vaivém melodioso e vazio.
São figuras que adormecem na luz entre os navios?
Quem vê, ama o segredo na evidência fugitiva.
A seiva respira a luz mais pura e mais ligeira.
O silêncio é uma atitude obscura e uma ponte,
a passagem de um olhar nos vales amorosos.
Conheço a linguagem da pedra e a linguagem da água.
Acumulo e desfaço, penetro e abro espaços.
Estas palavras são o movimento dos teus cílios.
Apreendo um fulgor, uma música quase imóvel.
Confundo-me com o rumor da tua vida que respira.
um rio de mãos e de árvores, um rio de música
e de ilhas, um rio do alento, um rio de argila.
Delicadas formas na espuma e nas areias.
O corpo sente o vaivém melodioso e vazio.
São figuras que adormecem na luz entre os navios?
Quem vê, ama o segredo na evidência fugitiva.
A seiva respira a luz mais pura e mais ligeira.
O silêncio é uma atitude obscura e uma ponte,
a passagem de um olhar nos vales amorosos.
Conheço a linguagem da pedra e a linguagem da água.
Acumulo e desfaço, penetro e abro espaços.
Estas palavras são o movimento dos teus cílios.
Apreendo um fulgor, uma música quase imóvel.
Confundo-me com o rumor da tua vida que respira.
1 135
António Ramos Rosa
Génese
Ouço dentro da água as calmas revoluções
e vejo os músculos de um texto em ritmo de ressaca.
Este é o rigor primeiro de um turbilhão compacto.
Todas as relações vibram enquanto a luz respira.
Um espaço se descobre onde não havia espaço.
Largos caminhos nascem sob o pulso do vento.
Uma cabeça límpida deambula entre as artérias verdes.
O que eu amo é a sede e o rigor do esquecimento.
A vista quase se apaga numa visão tão nua.
Os gestos e os aromas ondulam entre as sombras.
Que rumores tão lisos, que silêncio vegetal!
Talvez dentro do ouvido azul de um deus.
Um corpo germina em movimentos de palma.
Outro se consome numa folhagem de fogo.
Outro dorme como uma arma branca sobre a areia.
e vejo os músculos de um texto em ritmo de ressaca.
Este é o rigor primeiro de um turbilhão compacto.
Todas as relações vibram enquanto a luz respira.
Um espaço se descobre onde não havia espaço.
Largos caminhos nascem sob o pulso do vento.
Uma cabeça límpida deambula entre as artérias verdes.
O que eu amo é a sede e o rigor do esquecimento.
A vista quase se apaga numa visão tão nua.
Os gestos e os aromas ondulam entre as sombras.
Que rumores tão lisos, que silêncio vegetal!
Talvez dentro do ouvido azul de um deus.
Um corpo germina em movimentos de palma.
Outro se consome numa folhagem de fogo.
Outro dorme como uma arma branca sobre a areia.
643
António Ramos Rosa
Oscilando Na Ligeireza
Urdindo talvez a água e as lâmpadas de madeira.
Abandonando ao ócio o tempo e as suas rodas cinzentas.
Oscilando na ligeireza, aliado ao vigor da sombra.
Linhas, linhas em radiações vagarosas, lúcidas.
A orfandade encontrou a clareira harmoniosa.
Em uníssono com a folhagem numa suavidade de seda
penetro num prisma onde tudo é reverência.
Carícias e carícias lavam o corpo ferido.
O ouro mais vibrante sai de incessantes ilhas.
Já não luto. Dilato-me. Pertenço.
Outros nomes, outros frémitos, noutros campos
que uma inteligência de dança transformou.
Escuto milhares de folhas e não palavras surdas.
Um declive me aspira num espaço adolescente.
Tenho a facilidade verde e a volúpia das vogais.
Abandonando ao ócio o tempo e as suas rodas cinzentas.
Oscilando na ligeireza, aliado ao vigor da sombra.
Linhas, linhas em radiações vagarosas, lúcidas.
A orfandade encontrou a clareira harmoniosa.
Em uníssono com a folhagem numa suavidade de seda
penetro num prisma onde tudo é reverência.
Carícias e carícias lavam o corpo ferido.
O ouro mais vibrante sai de incessantes ilhas.
Já não luto. Dilato-me. Pertenço.
Outros nomes, outros frémitos, noutros campos
que uma inteligência de dança transformou.
Escuto milhares de folhas e não palavras surdas.
Um declive me aspira num espaço adolescente.
Tenho a facilidade verde e a volúpia das vogais.
1 046
António Ramos Rosa
Corpo Na Clareira
O sol repousa sobre os teus ombros, sobre as folhas
que te inundam, os teus pensamentos deslizam como a água
e há um silêncio há uma ferida há uma sombra que passa
o teu corpo na clareira é uma onda e um fruto.
É um sabor da luz é uma palavra e uma árvore.
Toco a tua pele de musgo, a cicatriz resplandecente.
És imensa e delicada entre incêndios errantes.
Como um desenho de água, como uma haste do tempo.
Que sossego o teu sexo entre pássaros e sombras!
Quero ouvir o que dizes, o teu silêncio de água,
quero ouvir o teu rio de sangue, o pulsar da tua noite.
Como um perfume que ascende, como uma onda que avança,
o teu silêncio é o teu grito, uma torre abandonada.
São quase palavras amantes de um alento sem destino,
são latidos negros que sobem numa espiral indecisa.
que te inundam, os teus pensamentos deslizam como a água
e há um silêncio há uma ferida há uma sombra que passa
o teu corpo na clareira é uma onda e um fruto.
É um sabor da luz é uma palavra e uma árvore.
Toco a tua pele de musgo, a cicatriz resplandecente.
És imensa e delicada entre incêndios errantes.
Como um desenho de água, como uma haste do tempo.
Que sossego o teu sexo entre pássaros e sombras!
Quero ouvir o que dizes, o teu silêncio de água,
quero ouvir o teu rio de sangue, o pulsar da tua noite.
Como um perfume que ascende, como uma onda que avança,
o teu silêncio é o teu grito, uma torre abandonada.
São quase palavras amantes de um alento sem destino,
são latidos negros que sobem numa espiral indecisa.
1 229
António Ramos Rosa
Caminho
Caminho sobre um rosto animal ou sobre um pulso.
Vejo as pedras do céu, uma lua vazia.
A ordem é a do vento ou de uma estrela nua.
Suspiro ou sílaba, todo o silêncio é fábula.
Oiço latir um seio entre figuras de argila.
Não conheço esta escada silenciosa
que estremece como uma frase de frágil sombra.
Não conheço este sabor de folhas obscuras.
Escuto vibrações monótonas da terra ressequida.
Sem ar, sem água, soluça uma lâmpada subterrânea.
Se alguém acaricia a terra ou adormece em suas águas,
liga e separa, liberta um rosto de folhas,
e um corpo simplifica-se numa nudez suave.
Se alguém sonha sobre um muro de pedra e com o vento
talvez descubra na sombra as palavras transparentes.
Vejo as pedras do céu, uma lua vazia.
A ordem é a do vento ou de uma estrela nua.
Suspiro ou sílaba, todo o silêncio é fábula.
Oiço latir um seio entre figuras de argila.
Não conheço esta escada silenciosa
que estremece como uma frase de frágil sombra.
Não conheço este sabor de folhas obscuras.
Escuto vibrações monótonas da terra ressequida.
Sem ar, sem água, soluça uma lâmpada subterrânea.
Se alguém acaricia a terra ou adormece em suas águas,
liga e separa, liberta um rosto de folhas,
e um corpo simplifica-se numa nudez suave.
Se alguém sonha sobre um muro de pedra e com o vento
talvez descubra na sombra as palavras transparentes.
1 042
António Ramos Rosa
Caminho
Caminho sobre um rosto animal ou sobre um pulso.
Vejo as pedras do céu, uma lua vazia.
A ordem é a do vento ou de uma estrela nua.
Suspiro ou sílaba, todo o silêncio é fábula.
Oiço latir um seio entre figuras de argila.
Não conheço esta escada silenciosa
que estremece como uma frase de frágil sombra.
Não conheço este sabor de folhas obscuras.
Escuto vibrações monótonas da terra ressequida.
Sem ar, sem água, soluça uma lâmpada subterrânea.
Se alguém acaricia a terra ou adormece em suas águas,
liga e separa, liberta um rosto de folhas,
e um corpo simplifica-se numa nudez suave.
Se alguém sonha sobre um muro de pedra e com o vento
talvez descubra na sombra as palavras transparentes.
Vejo as pedras do céu, uma lua vazia.
A ordem é a do vento ou de uma estrela nua.
Suspiro ou sílaba, todo o silêncio é fábula.
Oiço latir um seio entre figuras de argila.
Não conheço esta escada silenciosa
que estremece como uma frase de frágil sombra.
Não conheço este sabor de folhas obscuras.
Escuto vibrações monótonas da terra ressequida.
Sem ar, sem água, soluça uma lâmpada subterrânea.
Se alguém acaricia a terra ou adormece em suas águas,
liga e separa, liberta um rosto de folhas,
e um corpo simplifica-se numa nudez suave.
Se alguém sonha sobre um muro de pedra e com o vento
talvez descubra na sombra as palavras transparentes.
1 042
António Ramos Rosa
A Palavra
Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.
Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.
O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.
Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.
O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.
1 089
António Ramos Rosa
O Reino Está Aqui
O reino está aqui
no seu rumor de oceano
no seu horizonte fundo
na sua redondez cintilante.
Mas nós perdemos as leves
sandálias do vento
já não conhecemos o gozo
vegetal
de uma nua eternidade.
no seu rumor de oceano
no seu horizonte fundo
na sua redondez cintilante.
Mas nós perdemos as leves
sandálias do vento
já não conhecemos o gozo
vegetal
de uma nua eternidade.
579
António Ramos Rosa
Onde Li Eu Os Amplos Caminhos
Onde li eu os amplos caminhos, os carros
de madeira perfumada, os bois obscuros,
os brancos cavalos? Onde li os jardins
das mulheres e dos pássaros nocturnos, dos sussurros
marinhos? Como se alguém tocasse suavemente as nuvens.
Como se alguém unisse num abraço ligeiro
o esquecimento e as formas, o negro interno
e a brancura exterior. Um planeta vibrava.
Não sei que dia foi, não sei que nome tinha,
era um jardim, ou talvez uma casa, o mar, um monte.
Tu preenchias o círculo completo, totalidade limpa.
Acordavas sorrindo em segurança clara.
Quantas arcadas brancas na tua dança viva!
Que maravilha despertar ou adormecer contigo!
Que intensa luz de sombra, que rotação imensa!
de madeira perfumada, os bois obscuros,
os brancos cavalos? Onde li os jardins
das mulheres e dos pássaros nocturnos, dos sussurros
marinhos? Como se alguém tocasse suavemente as nuvens.
Como se alguém unisse num abraço ligeiro
o esquecimento e as formas, o negro interno
e a brancura exterior. Um planeta vibrava.
Não sei que dia foi, não sei que nome tinha,
era um jardim, ou talvez uma casa, o mar, um monte.
Tu preenchias o círculo completo, totalidade limpa.
Acordavas sorrindo em segurança clara.
Quantas arcadas brancas na tua dança viva!
Que maravilha despertar ou adormecer contigo!
Que intensa luz de sombra, que rotação imensa!
893
António Ramos Rosa
Omnipresença Imediata
Ela é nuvem, omnipresença imediata,
a mais viva, a mais próxima, imperceptível,
sem contornos e sem caos, a mais antiga
e a mais nova, em suave movimento,
omnipresença do ar, infância leve,
profusão inicial que o olhar não capta,
sempre feliz e aérea, mas quem a vê, quem a demora?
Ó atenção inocente e amorosamente desarmada!
Todos os vivos se inspiram deste sopro que ilumina
e que consagra o solo antes que os deuses cheguem.
E todavia, nenhum abrigo. Imprevisível, livre,
não ouve de nenhuma boca o seu caminho.
Não força nenhum obstáculo, obedece à gravidade
de forças puras. Amplitude sem reserva,
o seu canto irriga obscuramente o mundo.
a mais viva, a mais próxima, imperceptível,
sem contornos e sem caos, a mais antiga
e a mais nova, em suave movimento,
omnipresença do ar, infância leve,
profusão inicial que o olhar não capta,
sempre feliz e aérea, mas quem a vê, quem a demora?
Ó atenção inocente e amorosamente desarmada!
Todos os vivos se inspiram deste sopro que ilumina
e que consagra o solo antes que os deuses cheguem.
E todavia, nenhum abrigo. Imprevisível, livre,
não ouve de nenhuma boca o seu caminho.
Não força nenhum obstáculo, obedece à gravidade
de forças puras. Amplitude sem reserva,
o seu canto irriga obscuramente o mundo.
528
António Ramos Rosa
Nuvens
Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio vi-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.
Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio vi-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.
Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.
1 127
António Ramos Rosa
O Corpo Fugitivo
Avanço ou não avanço. Nada muda.
O fulgor de um animal furta-se aos sinais.
Violentos raios sinuosos, pulsações
de uma trama verde ilimitada.
Separar. Dizer. A noite cintilante.
O sopro incerto prepara um outro corpo
na deriva do fogo que corre em águas negras.
Vegetais se desenham as manchas mais escuras.
Em traços verticais compõe-se a transparência.
De uma frase a outra respiro o ar da ferida.
Membro a membro toco o corpo que inicio
no desejo de chegar ao vivo, num trabalho líquido.
É o mundo que se esvai, o corpo fugitivo,
todo o amor nos olhos claros se incendeia,
a altura arde, a nudez é imensa.
O fulgor de um animal furta-se aos sinais.
Violentos raios sinuosos, pulsações
de uma trama verde ilimitada.
Separar. Dizer. A noite cintilante.
O sopro incerto prepara um outro corpo
na deriva do fogo que corre em águas negras.
Vegetais se desenham as manchas mais escuras.
Em traços verticais compõe-se a transparência.
De uma frase a outra respiro o ar da ferida.
Membro a membro toco o corpo que inicio
no desejo de chegar ao vivo, num trabalho líquido.
É o mundo que se esvai, o corpo fugitivo,
todo o amor nos olhos claros se incendeia,
a altura arde, a nudez é imensa.
1 026
António Ramos Rosa
Escrevo Para o Teu Corpo
Escrevo para os teus olhos errantes, para o teu corpo
nupcial. Sou um incerto insecto num vaivém
de sílabas nuas, espessas. Reconheço-te no vinho
e na pedra. Amo o teu grito de árvore,
amo o móvel repouso das tuas veias escritas.
No tumulto do solo vejo os anéis de musgo,
as bocas circulares, as artérias brancas,
as estridências verdes, voluptuosas estâncias,
obscuridades côncavas, sedosas
pausas. Tudo se desenha na claridade
verde. É o barco da terra,
o campo da espessura incandescente,
o fundo completo da ausência respirada,
a sombra que incendeia, a redonda
e nocturna transparência.
nupcial. Sou um incerto insecto num vaivém
de sílabas nuas, espessas. Reconheço-te no vinho
e na pedra. Amo o teu grito de árvore,
amo o móvel repouso das tuas veias escritas.
No tumulto do solo vejo os anéis de musgo,
as bocas circulares, as artérias brancas,
as estridências verdes, voluptuosas estâncias,
obscuridades côncavas, sedosas
pausas. Tudo se desenha na claridade
verde. É o barco da terra,
o campo da espessura incandescente,
o fundo completo da ausência respirada,
a sombra que incendeia, a redonda
e nocturna transparência.
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