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Herberto Helder

Herberto Helder

Poemacto - V

As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
dos lemes das palavras.

É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
E nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. E forte
o cheiro do rio tejo.

Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.
Respirando. Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.

Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido. Não sei
o que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
E ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.

As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil.
Uma estranha imagem universal.
O amor acompanha o amor.
É preciso uma existência de uma dureza lenta.
As barcas gritam.
A água é geral sobre a cara que respira.

Posso falar às mãos.
Posso extremamente falar às palavras.
E nas palavras que as barcas gemem.
Nelas se estabelece o rio.
Falo da minha vida quente.
Palavras — digo — é tão quente a noite
que atravessamos.
Barcas quentes.
Geral calor no meio da carne.
E agora o rio tejo acende-se no meio
de muitas palavras.
Amor da vida do tejo com a minha
grande vida pura.
Com meu amor completo como um rio.
1961.
824
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemacto - V

As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
dos lemes das palavras.

É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
E nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. E forte
o cheiro do rio tejo.

Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.
Respirando. Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.

Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido. Não sei
o que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
E ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.

As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil.
Uma estranha imagem universal.
O amor acompanha o amor.
É preciso uma existência de uma dureza lenta.
As barcas gritam.
A água é geral sobre a cara que respira.

Posso falar às mãos.
Posso extremamente falar às palavras.
E nas palavras que as barcas gemem.
Nelas se estabelece o rio.
Falo da minha vida quente.
Palavras — digo — é tão quente a noite
que atravessamos.
Barcas quentes.
Geral calor no meio da carne.
E agora o rio tejo acende-se no meio
de muitas palavras.
Amor da vida do tejo com a minha
grande vida pura.
Com meu amor completo como um rio.
1961.
824
Herberto Helder

Herberto Helder

4

Um nome simples para nascer por fora dormir comer subir
nos espelhos inocentes, e ser leve e amado abrir as portas.
Tiram do forno o vidro em massa
violenta trazem a cana dizem:
Mestre —
e depois o nome sem os elementos
misteriosos. Ele sopra. Não infunde na matéria crispada essa força extrema
para morrer e renascer todos os dias:
infunde-lhe o coração da forma. Vejam
— o quê? escutem
— o quê? ciclo o sangue talvez o ar inchando a carne
— a doce luz moldada atrás do nome: a cara?
Com as tripas. Diz-se:
que significa? Sonhou com a guerra? Sonhou
com o angélico e o demoníaco: um vento espigando as estrelas,
o escuro por cima.
A boca árdua, quem a modula? Em redor da cana uma zona
iluminada. Que centro?
que movimento? Uma volta atmosférica num astro uma
volta do astro no forno uma volta do forno
em si mesmo. Ele
toca a vibração do rosto no espelho a roupa crepita ele
morre todo o dia na sua roupa, devora
a ração humana das coisas: amor, comida, sono — o volume
hormonal
a queimadura.
Depois sopra — e o vidro respira do que ele respirou: mais
que oxigénio biografia mais
que memória
— respira de uma aceleração
do mundo, restituição, encarnação, assumpção, miraculação
da ordem nominal do mundo.
Arde no cérebro, tremem-lhe os dedos nos objectos.
Ele tem esse
nome dócil à máquina da vida se vai morrer com o nome
deslumbra pelo nome perfeito. Aquilo
— soprar na cana: dá-lhe um baptismo novo
um reinado um
segredo. Inaugural
quando lhe dizem: Mestre — e a palavra sem ar ele carrega
com o hausto o número inexplicável.
Por um nexo da fala pequena com a fala que se inspira de tudo:
não o seu
nome imovelmente
mas o nome do prodígio. O pneuma em cheio na estrela:
uma campânula, um jarro soprado.
Ele, abuso onde pessoas e coisas — transfunde os pulmões no vidro:
campânula e jarro são os pulmões do mundo.
E passa o vento de Deus eriçando o ouro em torno —
1 102
Herberto Helder

Herberto Helder

4

Um nome simples para nascer por fora dormir comer subir
nos espelhos inocentes, e ser leve e amado abrir as portas.
Tiram do forno o vidro em massa
violenta trazem a cana dizem:
Mestre —
e depois o nome sem os elementos
misteriosos. Ele sopra. Não infunde na matéria crispada essa força extrema
para morrer e renascer todos os dias:
infunde-lhe o coração da forma. Vejam
— o quê? escutem
— o quê? ciclo o sangue talvez o ar inchando a carne
— a doce luz moldada atrás do nome: a cara?
Com as tripas. Diz-se:
que significa? Sonhou com a guerra? Sonhou
com o angélico e o demoníaco: um vento espigando as estrelas,
o escuro por cima.
A boca árdua, quem a modula? Em redor da cana uma zona
iluminada. Que centro?
que movimento? Uma volta atmosférica num astro uma
volta do astro no forno uma volta do forno
em si mesmo. Ele
toca a vibração do rosto no espelho a roupa crepita ele
morre todo o dia na sua roupa, devora
a ração humana das coisas: amor, comida, sono — o volume
hormonal
a queimadura.
Depois sopra — e o vidro respira do que ele respirou: mais
que oxigénio biografia mais
que memória
— respira de uma aceleração
do mundo, restituição, encarnação, assumpção, miraculação
da ordem nominal do mundo.
Arde no cérebro, tremem-lhe os dedos nos objectos.
Ele tem esse
nome dócil à máquina da vida se vai morrer com o nome
deslumbra pelo nome perfeito. Aquilo
— soprar na cana: dá-lhe um baptismo novo
um reinado um
segredo. Inaugural
quando lhe dizem: Mestre — e a palavra sem ar ele carrega
com o hausto o número inexplicável.
Por um nexo da fala pequena com a fala que se inspira de tudo:
não o seu
nome imovelmente
mas o nome do prodígio. O pneuma em cheio na estrela:
uma campânula, um jarro soprado.
Ele, abuso onde pessoas e coisas — transfunde os pulmões no vidro:
campânula e jarro são os pulmões do mundo.
E passa o vento de Deus eriçando o ouro em torno —
1 102
Herberto Helder

Herberto Helder

4

Um nome simples para nascer por fora dormir comer subir
nos espelhos inocentes, e ser leve e amado abrir as portas.
Tiram do forno o vidro em massa
violenta trazem a cana dizem:
Mestre —
e depois o nome sem os elementos
misteriosos. Ele sopra. Não infunde na matéria crispada essa força extrema
para morrer e renascer todos os dias:
infunde-lhe o coração da forma. Vejam
— o quê? escutem
— o quê? ciclo o sangue talvez o ar inchando a carne
— a doce luz moldada atrás do nome: a cara?
Com as tripas. Diz-se:
que significa? Sonhou com a guerra? Sonhou
com o angélico e o demoníaco: um vento espigando as estrelas,
o escuro por cima.
A boca árdua, quem a modula? Em redor da cana uma zona
iluminada. Que centro?
que movimento? Uma volta atmosférica num astro uma
volta do astro no forno uma volta do forno
em si mesmo. Ele
toca a vibração do rosto no espelho a roupa crepita ele
morre todo o dia na sua roupa, devora
a ração humana das coisas: amor, comida, sono — o volume
hormonal
a queimadura.
Depois sopra — e o vidro respira do que ele respirou: mais
que oxigénio biografia mais
que memória
— respira de uma aceleração
do mundo, restituição, encarnação, assumpção, miraculação
da ordem nominal do mundo.
Arde no cérebro, tremem-lhe os dedos nos objectos.
Ele tem esse
nome dócil à máquina da vida se vai morrer com o nome
deslumbra pelo nome perfeito. Aquilo
— soprar na cana: dá-lhe um baptismo novo
um reinado um
segredo. Inaugural
quando lhe dizem: Mestre — e a palavra sem ar ele carrega
com o hausto o número inexplicável.
Por um nexo da fala pequena com a fala que se inspira de tudo:
não o seu
nome imovelmente
mas o nome do prodígio. O pneuma em cheio na estrela:
uma campânula, um jarro soprado.
Ele, abuso onde pessoas e coisas — transfunde os pulmões no vidro:
campânula e jarro são os pulmões do mundo.
E passa o vento de Deus eriçando o ouro em torno —
1 102
Herberto Helder

Herberto Helder

(A Morte Própria)

E estás algures, em ilhas, selada pelo teu próprio brilho,
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça — às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas — espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
— eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos — vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta —
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore —
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado — às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração —
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.


1978.
1 541
Herberto Helder

Herberto Helder

(A Morte Própria)

E estás algures, em ilhas, selada pelo teu próprio brilho,
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça — às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas — espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
— eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos — vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta —
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore —
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado — às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração —
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.


1978.
1 541
Herberto Helder

Herberto Helder

(A Morte Própria)

E estás algures, em ilhas, selada pelo teu próprio brilho,
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça — às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas — espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
— eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos — vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta —
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore —
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado — às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração —
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.


1978.
1 541