Poemas neste tema
Outros
Herberto Helder
5
geografia em pólvora, solitária brancura
deflagrada, é a flor das lâmpadas, poeira
a fremir por canos finos, largura escoada,
imprime-se o espaço em transe,
pulmões na camisa, por ser devagar,
por o mel escorrer, distraído, frio,
ou fervendo
na cabeça, sempre a porejar da pedra,
lento no rosto que a luz colérica varre,
sempre na atenção pendida,
ou grãos luzentes toda a noite no fundo
branco,
fechado, o mel, no limiar,
a casa alagada, flutuante, acesa,
e fosforescem cartas, mapas, golfada de seda abrupta
em cima do estremecimento do meio-dia,
canais de mel, os androceus, manchas queimando,
sobre as pautas desdobradas de baixo para cima
deflagrada, é a flor das lâmpadas, poeira
a fremir por canos finos, largura escoada,
imprime-se o espaço em transe,
pulmões na camisa, por ser devagar,
por o mel escorrer, distraído, frio,
ou fervendo
na cabeça, sempre a porejar da pedra,
lento no rosto que a luz colérica varre,
sempre na atenção pendida,
ou grãos luzentes toda a noite no fundo
branco,
fechado, o mel, no limiar,
a casa alagada, flutuante, acesa,
e fosforescem cartas, mapas, golfada de seda abrupta
em cima do estremecimento do meio-dia,
canais de mel, os androceus, manchas queimando,
sobre as pautas desdobradas de baixo para cima
1 004
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor
Levantei-me cedo, cedo — e era azul
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
880
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Cena de Amor
Enquanto a noite arrastava a cauda negra, dei a beber à minha amada vinho
sombrio como pó de almíscar.
E estreitei-a contra mim como um guerreiro estreita a espada, e
semelhantes a talins as suas tranças pendiam dos meus ombros.
E, quando levemente adormeceu, afastei-a de mim.
Afastei-a do meu peito, para que não adormecesse sobre uma almofada
palpitante.
sombrio como pó de almíscar.
E estreitei-a contra mim como um guerreiro estreita a espada, e
semelhantes a talins as suas tranças pendiam dos meus ombros.
E, quando levemente adormeceu, afastei-a de mim.
Afastei-a do meu peito, para que não adormecesse sobre uma almofada
palpitante.
1 115
Herberto Helder
Canção Tártara
O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
1 272
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Pintura Na Areia
Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
1 283
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Pintura Na Areia
Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
1 283
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Pintura Na Areia
Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
1 283
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Iúca
Mesmo diante da casa, no alto
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
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Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Iúca
Mesmo diante da casa, no alto
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
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Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Obscuridade
Esperamos na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
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Herberto Helder
6
Os lugares uns nos outros — e se alguém está lá dentro com grandes
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
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Herberto Helder
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Os lugares uns nos outros — e se alguém está lá dentro com grandes
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
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Herberto Helder
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Os lugares uns nos outros — e se alguém está lá dentro com grandes
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
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Herberto Helder
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Os lugares uns nos outros — e se alguém está lá dentro com grandes
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
1 093
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Rio Azul
Murmuro, um rio de pérolas corre transparentemente.
Grandes árvores o cobrem de sombra ao meio-dia, e a flor das águas é cor
de ferrugem.
Guerreiro com loriga, envolto em sua túnica de brocado, estendido à
sombra da bandeira.
Grandes árvores o cobrem de sombra ao meio-dia, e a flor das águas é cor
de ferrugem.
Guerreiro com loriga, envolto em sua túnica de brocado, estendido à
sombra da bandeira.
578
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Rio Azul
Murmuro, um rio de pérolas corre transparentemente.
Grandes árvores o cobrem de sombra ao meio-dia, e a flor das águas é cor
de ferrugem.
Guerreiro com loriga, envolto em sua túnica de brocado, estendido à
sombra da bandeira.
Grandes árvores o cobrem de sombra ao meio-dia, e a flor das águas é cor
de ferrugem.
Guerreiro com loriga, envolto em sua túnica de brocado, estendido à
sombra da bandeira.
578
Herberto Helder
7
nervuras respirantes, agulhas, veios luzindo
ao longo das vozes, espaço que o som apaixona,
éter a arder, tumulto dealbado na brancura,
e desaguam ínsulas leves, penínsulas, franjas
irradiantes, vibrando
entre os paredões de luz, istmos, vísceras,
doçura malevolente, as vozes
fervendo, fervendo,
oxida-se a cabeça nas pautas rudes,
a morte, áspero enlevo, eriçamento interno,
vozes
pênseis fluorescendo, manchas carregadas de pimenta,
claras,
o écran raiado, a comburente aparição
de jardins atentos, suspeita vertical do vácuo,
vozes, jardins, de patas irracionais, avulsas,
as frias vegetações de radium,
e sobre túneis de sangue, ressurgidas em cima,
as vozes celebrando assustadoramente
ao longo das vozes, espaço que o som apaixona,
éter a arder, tumulto dealbado na brancura,
e desaguam ínsulas leves, penínsulas, franjas
irradiantes, vibrando
entre os paredões de luz, istmos, vísceras,
doçura malevolente, as vozes
fervendo, fervendo,
oxida-se a cabeça nas pautas rudes,
a morte, áspero enlevo, eriçamento interno,
vozes
pênseis fluorescendo, manchas carregadas de pimenta,
claras,
o écran raiado, a comburente aparição
de jardins atentos, suspeita vertical do vácuo,
vozes, jardins, de patas irracionais, avulsas,
as frias vegetações de radium,
e sobre túneis de sangue, ressurgidas em cima,
as vozes celebrando assustadoramente
986
Herberto Helder
7
nervuras respirantes, agulhas, veios luzindo
ao longo das vozes, espaço que o som apaixona,
éter a arder, tumulto dealbado na brancura,
e desaguam ínsulas leves, penínsulas, franjas
irradiantes, vibrando
entre os paredões de luz, istmos, vísceras,
doçura malevolente, as vozes
fervendo, fervendo,
oxida-se a cabeça nas pautas rudes,
a morte, áspero enlevo, eriçamento interno,
vozes
pênseis fluorescendo, manchas carregadas de pimenta,
claras,
o écran raiado, a comburente aparição
de jardins atentos, suspeita vertical do vácuo,
vozes, jardins, de patas irracionais, avulsas,
as frias vegetações de radium,
e sobre túneis de sangue, ressurgidas em cima,
as vozes celebrando assustadoramente
ao longo das vozes, espaço que o som apaixona,
éter a arder, tumulto dealbado na brancura,
e desaguam ínsulas leves, penínsulas, franjas
irradiantes, vibrando
entre os paredões de luz, istmos, vísceras,
doçura malevolente, as vozes
fervendo, fervendo,
oxida-se a cabeça nas pautas rudes,
a morte, áspero enlevo, eriçamento interno,
vozes
pênseis fluorescendo, manchas carregadas de pimenta,
claras,
o écran raiado, a comburente aparição
de jardins atentos, suspeita vertical do vácuo,
vozes, jardins, de patas irracionais, avulsas,
as frias vegetações de radium,
e sobre túneis de sangue, ressurgidas em cima,
as vozes celebrando assustadoramente
986
Herberto Helder
2
Astralidade, zonas saturadas, a noite suspende um ramo.
E a luva de ouro a antebraço inteiro
— haste,
os dedos em cima demoradamente abertos.
Ele pinta as chamas atadas umas às outras no retrato.
“A criança falou da personagem laranja fogo através do campo.”
“Mete medo.”
“Como se desentranha do caos?” Enquanto em redor da testa
um anel barométrico. “Desfaço.”
“E a mim que desfazem se desatam as chamas.”
“E a história de Deus?”
“Deus está em tudo? perguntou a criança, Deus
é o cubo de açúcar que se dissolve todo no leite todo,
bebe-se.”
O ramo de ouro, a luva laranja fogo a remexer no escuro ié a noite
que se transfigura, a noite
concentrada, grande atmosfera infusa aureamente respirando?
Que me faça, alento, no retrato em tela
com ramo e halo. Da força em amarelo: a minha guerra nas flores
esbraseadas, sombra
a sombra, até luzir. Rosto que Deus,
à volta dissolvido, deixe arrancar-se em luva que desabrocha
do caos unânime.
“E a criança?”
“Era um planeta girando com a noite universal no meio —”
E a luva de ouro a antebraço inteiro
— haste,
os dedos em cima demoradamente abertos.
Ele pinta as chamas atadas umas às outras no retrato.
“A criança falou da personagem laranja fogo através do campo.”
“Mete medo.”
“Como se desentranha do caos?” Enquanto em redor da testa
um anel barométrico. “Desfaço.”
“E a mim que desfazem se desatam as chamas.”
“E a história de Deus?”
“Deus está em tudo? perguntou a criança, Deus
é o cubo de açúcar que se dissolve todo no leite todo,
bebe-se.”
O ramo de ouro, a luva laranja fogo a remexer no escuro ié a noite
que se transfigura, a noite
concentrada, grande atmosfera infusa aureamente respirando?
Que me faça, alento, no retrato em tela
com ramo e halo. Da força em amarelo: a minha guerra nas flores
esbraseadas, sombra
a sombra, até luzir. Rosto que Deus,
à volta dissolvido, deixe arrancar-se em luva que desabrocha
do caos unânime.
“E a criança?”
“Era um planeta girando com a noite universal no meio —”
1 033
Herberto Helder
2
Astralidade, zonas saturadas, a noite suspende um ramo.
E a luva de ouro a antebraço inteiro
— haste,
os dedos em cima demoradamente abertos.
Ele pinta as chamas atadas umas às outras no retrato.
“A criança falou da personagem laranja fogo através do campo.”
“Mete medo.”
“Como se desentranha do caos?” Enquanto em redor da testa
um anel barométrico. “Desfaço.”
“E a mim que desfazem se desatam as chamas.”
“E a história de Deus?”
“Deus está em tudo? perguntou a criança, Deus
é o cubo de açúcar que se dissolve todo no leite todo,
bebe-se.”
O ramo de ouro, a luva laranja fogo a remexer no escuro ié a noite
que se transfigura, a noite
concentrada, grande atmosfera infusa aureamente respirando?
Que me faça, alento, no retrato em tela
com ramo e halo. Da força em amarelo: a minha guerra nas flores
esbraseadas, sombra
a sombra, até luzir. Rosto que Deus,
à volta dissolvido, deixe arrancar-se em luva que desabrocha
do caos unânime.
“E a criança?”
“Era um planeta girando com a noite universal no meio —”
E a luva de ouro a antebraço inteiro
— haste,
os dedos em cima demoradamente abertos.
Ele pinta as chamas atadas umas às outras no retrato.
“A criança falou da personagem laranja fogo através do campo.”
“Mete medo.”
“Como se desentranha do caos?” Enquanto em redor da testa
um anel barométrico. “Desfaço.”
“E a mim que desfazem se desatam as chamas.”
“E a história de Deus?”
“Deus está em tudo? perguntou a criança, Deus
é o cubo de açúcar que se dissolve todo no leite todo,
bebe-se.”
O ramo de ouro, a luva laranja fogo a remexer no escuro ié a noite
que se transfigura, a noite
concentrada, grande atmosfera infusa aureamente respirando?
Que me faça, alento, no retrato em tela
com ramo e halo. Da força em amarelo: a minha guerra nas flores
esbraseadas, sombra
a sombra, até luzir. Rosto que Deus,
à volta dissolvido, deixe arrancar-se em luva que desabrocha
do caos unânime.
“E a criança?”
“Era um planeta girando com a noite universal no meio —”
1 033
Herberto Helder
4
Um nome simples para nascer por fora dormir comer subir
nos espelhos inocentes, e ser leve e amado abrir as portas.
Tiram do forno o vidro em massa
violenta trazem a cana dizem:
Mestre —
e depois o nome sem os elementos
misteriosos. Ele sopra. Não infunde na matéria crispada essa força extrema
para morrer e renascer todos os dias:
infunde-lhe o coração da forma. Vejam
— o quê? escutem
— o quê? ciclo o sangue talvez o ar inchando a carne
— a doce luz moldada atrás do nome: a cara?
Com as tripas. Diz-se:
que significa? Sonhou com a guerra? Sonhou
com o angélico e o demoníaco: um vento espigando as estrelas,
o escuro por cima.
A boca árdua, quem a modula? Em redor da cana uma zona
iluminada. Que centro?
que movimento? Uma volta atmosférica num astro uma
volta do astro no forno uma volta do forno
em si mesmo. Ele
toca a vibração do rosto no espelho a roupa crepita ele
morre todo o dia na sua roupa, devora
a ração humana das coisas: amor, comida, sono — o volume
hormonal
a queimadura.
Depois sopra — e o vidro respira do que ele respirou: mais
que oxigénio biografia mais
que memória
— respira de uma aceleração
do mundo, restituição, encarnação, assumpção, miraculação
da ordem nominal do mundo.
Arde no cérebro, tremem-lhe os dedos nos objectos.
Ele tem esse
nome dócil à máquina da vida se vai morrer com o nome
deslumbra pelo nome perfeito. Aquilo
— soprar na cana: dá-lhe um baptismo novo
um reinado um
segredo. Inaugural
quando lhe dizem: Mestre — e a palavra sem ar ele carrega
com o hausto o número inexplicável.
Por um nexo da fala pequena com a fala que se inspira de tudo:
não o seu
nome imovelmente
mas o nome do prodígio. O pneuma em cheio na estrela:
uma campânula, um jarro soprado.
Ele, abuso onde pessoas e coisas — transfunde os pulmões no vidro:
campânula e jarro são os pulmões do mundo.
E passa o vento de Deus eriçando o ouro em torno —
nos espelhos inocentes, e ser leve e amado abrir as portas.
Tiram do forno o vidro em massa
violenta trazem a cana dizem:
Mestre —
e depois o nome sem os elementos
misteriosos. Ele sopra. Não infunde na matéria crispada essa força extrema
para morrer e renascer todos os dias:
infunde-lhe o coração da forma. Vejam
— o quê? escutem
— o quê? ciclo o sangue talvez o ar inchando a carne
— a doce luz moldada atrás do nome: a cara?
Com as tripas. Diz-se:
que significa? Sonhou com a guerra? Sonhou
com o angélico e o demoníaco: um vento espigando as estrelas,
o escuro por cima.
A boca árdua, quem a modula? Em redor da cana uma zona
iluminada. Que centro?
que movimento? Uma volta atmosférica num astro uma
volta do astro no forno uma volta do forno
em si mesmo. Ele
toca a vibração do rosto no espelho a roupa crepita ele
morre todo o dia na sua roupa, devora
a ração humana das coisas: amor, comida, sono — o volume
hormonal
a queimadura.
Depois sopra — e o vidro respira do que ele respirou: mais
que oxigénio biografia mais
que memória
— respira de uma aceleração
do mundo, restituição, encarnação, assumpção, miraculação
da ordem nominal do mundo.
Arde no cérebro, tremem-lhe os dedos nos objectos.
Ele tem esse
nome dócil à máquina da vida se vai morrer com o nome
deslumbra pelo nome perfeito. Aquilo
— soprar na cana: dá-lhe um baptismo novo
um reinado um
segredo. Inaugural
quando lhe dizem: Mestre — e a palavra sem ar ele carrega
com o hausto o número inexplicável.
Por um nexo da fala pequena com a fala que se inspira de tudo:
não o seu
nome imovelmente
mas o nome do prodígio. O pneuma em cheio na estrela:
uma campânula, um jarro soprado.
Ele, abuso onde pessoas e coisas — transfunde os pulmões no vidro:
campânula e jarro são os pulmões do mundo.
E passa o vento de Deus eriçando o ouro em torno —
1 102
Herberto Helder
4
Um nome simples para nascer por fora dormir comer subir
nos espelhos inocentes, e ser leve e amado abrir as portas.
Tiram do forno o vidro em massa
violenta trazem a cana dizem:
Mestre —
e depois o nome sem os elementos
misteriosos. Ele sopra. Não infunde na matéria crispada essa força extrema
para morrer e renascer todos os dias:
infunde-lhe o coração da forma. Vejam
— o quê? escutem
— o quê? ciclo o sangue talvez o ar inchando a carne
— a doce luz moldada atrás do nome: a cara?
Com as tripas. Diz-se:
que significa? Sonhou com a guerra? Sonhou
com o angélico e o demoníaco: um vento espigando as estrelas,
o escuro por cima.
A boca árdua, quem a modula? Em redor da cana uma zona
iluminada. Que centro?
que movimento? Uma volta atmosférica num astro uma
volta do astro no forno uma volta do forno
em si mesmo. Ele
toca a vibração do rosto no espelho a roupa crepita ele
morre todo o dia na sua roupa, devora
a ração humana das coisas: amor, comida, sono — o volume
hormonal
a queimadura.
Depois sopra — e o vidro respira do que ele respirou: mais
que oxigénio biografia mais
que memória
— respira de uma aceleração
do mundo, restituição, encarnação, assumpção, miraculação
da ordem nominal do mundo.
Arde no cérebro, tremem-lhe os dedos nos objectos.
Ele tem esse
nome dócil à máquina da vida se vai morrer com o nome
deslumbra pelo nome perfeito. Aquilo
— soprar na cana: dá-lhe um baptismo novo
um reinado um
segredo. Inaugural
quando lhe dizem: Mestre — e a palavra sem ar ele carrega
com o hausto o número inexplicável.
Por um nexo da fala pequena com a fala que se inspira de tudo:
não o seu
nome imovelmente
mas o nome do prodígio. O pneuma em cheio na estrela:
uma campânula, um jarro soprado.
Ele, abuso onde pessoas e coisas — transfunde os pulmões no vidro:
campânula e jarro são os pulmões do mundo.
E passa o vento de Deus eriçando o ouro em torno —
nos espelhos inocentes, e ser leve e amado abrir as portas.
Tiram do forno o vidro em massa
violenta trazem a cana dizem:
Mestre —
e depois o nome sem os elementos
misteriosos. Ele sopra. Não infunde na matéria crispada essa força extrema
para morrer e renascer todos os dias:
infunde-lhe o coração da forma. Vejam
— o quê? escutem
— o quê? ciclo o sangue talvez o ar inchando a carne
— a doce luz moldada atrás do nome: a cara?
Com as tripas. Diz-se:
que significa? Sonhou com a guerra? Sonhou
com o angélico e o demoníaco: um vento espigando as estrelas,
o escuro por cima.
A boca árdua, quem a modula? Em redor da cana uma zona
iluminada. Que centro?
que movimento? Uma volta atmosférica num astro uma
volta do astro no forno uma volta do forno
em si mesmo. Ele
toca a vibração do rosto no espelho a roupa crepita ele
morre todo o dia na sua roupa, devora
a ração humana das coisas: amor, comida, sono — o volume
hormonal
a queimadura.
Depois sopra — e o vidro respira do que ele respirou: mais
que oxigénio biografia mais
que memória
— respira de uma aceleração
do mundo, restituição, encarnação, assumpção, miraculação
da ordem nominal do mundo.
Arde no cérebro, tremem-lhe os dedos nos objectos.
Ele tem esse
nome dócil à máquina da vida se vai morrer com o nome
deslumbra pelo nome perfeito. Aquilo
— soprar na cana: dá-lhe um baptismo novo
um reinado um
segredo. Inaugural
quando lhe dizem: Mestre — e a palavra sem ar ele carrega
com o hausto o número inexplicável.
Por um nexo da fala pequena com a fala que se inspira de tudo:
não o seu
nome imovelmente
mas o nome do prodígio. O pneuma em cheio na estrela:
uma campânula, um jarro soprado.
Ele, abuso onde pessoas e coisas — transfunde os pulmões no vidro:
campânula e jarro são os pulmões do mundo.
E passa o vento de Deus eriçando o ouro em torno —
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Herberto Helder
4
Um nome simples para nascer por fora dormir comer subir
nos espelhos inocentes, e ser leve e amado abrir as portas.
Tiram do forno o vidro em massa
violenta trazem a cana dizem:
Mestre —
e depois o nome sem os elementos
misteriosos. Ele sopra. Não infunde na matéria crispada essa força extrema
para morrer e renascer todos os dias:
infunde-lhe o coração da forma. Vejam
— o quê? escutem
— o quê? ciclo o sangue talvez o ar inchando a carne
— a doce luz moldada atrás do nome: a cara?
Com as tripas. Diz-se:
que significa? Sonhou com a guerra? Sonhou
com o angélico e o demoníaco: um vento espigando as estrelas,
o escuro por cima.
A boca árdua, quem a modula? Em redor da cana uma zona
iluminada. Que centro?
que movimento? Uma volta atmosférica num astro uma
volta do astro no forno uma volta do forno
em si mesmo. Ele
toca a vibração do rosto no espelho a roupa crepita ele
morre todo o dia na sua roupa, devora
a ração humana das coisas: amor, comida, sono — o volume
hormonal
a queimadura.
Depois sopra — e o vidro respira do que ele respirou: mais
que oxigénio biografia mais
que memória
— respira de uma aceleração
do mundo, restituição, encarnação, assumpção, miraculação
da ordem nominal do mundo.
Arde no cérebro, tremem-lhe os dedos nos objectos.
Ele tem esse
nome dócil à máquina da vida se vai morrer com o nome
deslumbra pelo nome perfeito. Aquilo
— soprar na cana: dá-lhe um baptismo novo
um reinado um
segredo. Inaugural
quando lhe dizem: Mestre — e a palavra sem ar ele carrega
com o hausto o número inexplicável.
Por um nexo da fala pequena com a fala que se inspira de tudo:
não o seu
nome imovelmente
mas o nome do prodígio. O pneuma em cheio na estrela:
uma campânula, um jarro soprado.
Ele, abuso onde pessoas e coisas — transfunde os pulmões no vidro:
campânula e jarro são os pulmões do mundo.
E passa o vento de Deus eriçando o ouro em torno —
nos espelhos inocentes, e ser leve e amado abrir as portas.
Tiram do forno o vidro em massa
violenta trazem a cana dizem:
Mestre —
e depois o nome sem os elementos
misteriosos. Ele sopra. Não infunde na matéria crispada essa força extrema
para morrer e renascer todos os dias:
infunde-lhe o coração da forma. Vejam
— o quê? escutem
— o quê? ciclo o sangue talvez o ar inchando a carne
— a doce luz moldada atrás do nome: a cara?
Com as tripas. Diz-se:
que significa? Sonhou com a guerra? Sonhou
com o angélico e o demoníaco: um vento espigando as estrelas,
o escuro por cima.
A boca árdua, quem a modula? Em redor da cana uma zona
iluminada. Que centro?
que movimento? Uma volta atmosférica num astro uma
volta do astro no forno uma volta do forno
em si mesmo. Ele
toca a vibração do rosto no espelho a roupa crepita ele
morre todo o dia na sua roupa, devora
a ração humana das coisas: amor, comida, sono — o volume
hormonal
a queimadura.
Depois sopra — e o vidro respira do que ele respirou: mais
que oxigénio biografia mais
que memória
— respira de uma aceleração
do mundo, restituição, encarnação, assumpção, miraculação
da ordem nominal do mundo.
Arde no cérebro, tremem-lhe os dedos nos objectos.
Ele tem esse
nome dócil à máquina da vida se vai morrer com o nome
deslumbra pelo nome perfeito. Aquilo
— soprar na cana: dá-lhe um baptismo novo
um reinado um
segredo. Inaugural
quando lhe dizem: Mestre — e a palavra sem ar ele carrega
com o hausto o número inexplicável.
Por um nexo da fala pequena com a fala que se inspira de tudo:
não o seu
nome imovelmente
mas o nome do prodígio. O pneuma em cheio na estrela:
uma campânula, um jarro soprado.
Ele, abuso onde pessoas e coisas — transfunde os pulmões no vidro:
campânula e jarro são os pulmões do mundo.
E passa o vento de Deus eriçando o ouro em torno —
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Herberto Helder
1
as imagens de palavras (João Vieira) — as pessoas das imagens das coisas (Manuel de Castro)
Se mexem as mãos memoriais as mães
transmudam
o mundo. Sabem ponto
a ponto forte o quotidiano estelar das matérias: aço, louça
— atrás do ramo
dos ouros a fruta iluminada nos sítios
onde lhe pegam. Elas
sabem como se enxameiam as coisas como vão de umas às outras ou
se intensificam na limalha
por uma risca eléctrica. Eu exponho-me ao seu trabalho
assombroso e aprendo e
purifico. O braço irrompe desde a raiz aos dedos
em acção de rosa. Às luas nos meandros nos laços
vermelhos — o ensino
dos elementos. Vejo tanta seiva escoando-se pelos orifícios
aquela matriz crispada nas partes
virgens, nome
banhado. Depois a linha de células ardendo. Cada criança
arranca-se à criança lustral com as pratas eriçadas na cabeça, a quín
floração trazida acesa. Todo o fenómeno
fêmea
de mover-se no apoio das palavras das coisas.
Com esse romper de rosa pelas unhas.
Elas põem as centelhas nas jarras ao meio das massas
puras: carne,
o pão que ainda fermenta, o açúcar
agudo, tão fria a água
enredada: Nós que desatam com tanto poder tanta
delicadeza. Se a mão apanha os botões de sal entre os idiomas negros
fica viva nas cicatrizes. Toca
na testa da criança primeira: e todas as crianças sucessivas principiam e
aumentam nas rosas transmitidas.
O vagar magnifica. Como no alongamento dos ofícios, atenção, os ritmos
— e se a bebida é tão íntima numa infusa
que
em mente e sede se torna
acto
absoluto, aliança, poesia. A mão que vem da lenta loucura
e carrega com todo o peso terrestre
criança a criança profunda a lembrança
— e o ouro misterioso: a mão
empurra pela brancura fora, entre, até onde? como chegam sombrias
às suas rosas
essas vidas pequenas. Um dia elas mesmas hão-de ser abundantes, erguer
extremamente os dedos, brilhar, doar
como heranças leves
as cicatrizes. São palavras maternas abrem-se
em ferida. Nos espelhos centrais com as pancadas de ar as pessoas
nas palavras assistem à vertigem
da sua imagem:
cabeça contra dedos, a exaltação das rosas —
Se mexem as mãos memoriais as mães
transmudam
o mundo. Sabem ponto
a ponto forte o quotidiano estelar das matérias: aço, louça
— atrás do ramo
dos ouros a fruta iluminada nos sítios
onde lhe pegam. Elas
sabem como se enxameiam as coisas como vão de umas às outras ou
se intensificam na limalha
por uma risca eléctrica. Eu exponho-me ao seu trabalho
assombroso e aprendo e
purifico. O braço irrompe desde a raiz aos dedos
em acção de rosa. Às luas nos meandros nos laços
vermelhos — o ensino
dos elementos. Vejo tanta seiva escoando-se pelos orifícios
aquela matriz crispada nas partes
virgens, nome
banhado. Depois a linha de células ardendo. Cada criança
arranca-se à criança lustral com as pratas eriçadas na cabeça, a quín
floração trazida acesa. Todo o fenómeno
fêmea
de mover-se no apoio das palavras das coisas.
Com esse romper de rosa pelas unhas.
Elas põem as centelhas nas jarras ao meio das massas
puras: carne,
o pão que ainda fermenta, o açúcar
agudo, tão fria a água
enredada: Nós que desatam com tanto poder tanta
delicadeza. Se a mão apanha os botões de sal entre os idiomas negros
fica viva nas cicatrizes. Toca
na testa da criança primeira: e todas as crianças sucessivas principiam e
aumentam nas rosas transmitidas.
O vagar magnifica. Como no alongamento dos ofícios, atenção, os ritmos
— e se a bebida é tão íntima numa infusa
que
em mente e sede se torna
acto
absoluto, aliança, poesia. A mão que vem da lenta loucura
e carrega com todo o peso terrestre
criança a criança profunda a lembrança
— e o ouro misterioso: a mão
empurra pela brancura fora, entre, até onde? como chegam sombrias
às suas rosas
essas vidas pequenas. Um dia elas mesmas hão-de ser abundantes, erguer
extremamente os dedos, brilhar, doar
como heranças leves
as cicatrizes. São palavras maternas abrem-se
em ferida. Nos espelhos centrais com as pancadas de ar as pessoas
nas palavras assistem à vertigem
da sua imagem:
cabeça contra dedos, a exaltação das rosas —
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