Poemas neste tema
Ética e Moral
Charles Bukowski
Feijão Com Chili
pendurem-nos de cabeça pra baixo pela noite
abundante,
queimem seus filhos e molestem suas colheitas,
cortem as gargantas de suas esposas,
fuzilem seus cães, porcos e criados;
o que não matarem, escravizem;
vossos políticos farão de vocês heróis,
tribunais internacionais julgarão
vossas vítimas culpadas;
vocês serão homenageados, ganharão medalhas,
pensões, vilas à beira do rio
com direito a escolher mulheres
pré-prostitutas;
os padres abrirão as portas de Deus
pra vocês.
o importante é a vitória,
sempre foi;
vocês serão enobrecidos,
serão promovidos como humildes e
bondosos conquistadores
e vocês vão acreditar nisso.
o que isso significa é que a mente humana
não está pronta ainda
então vocês reivindicarão uma vitória pelo
espírito humano.
uma garganta cortada não pode responder.
um cão morto não pode morder.
vocês venceram.
proclamem a decência.
abundante,
queimem seus filhos e molestem suas colheitas,
cortem as gargantas de suas esposas,
fuzilem seus cães, porcos e criados;
o que não matarem, escravizem;
vossos políticos farão de vocês heróis,
tribunais internacionais julgarão
vossas vítimas culpadas;
vocês serão homenageados, ganharão medalhas,
pensões, vilas à beira do rio
com direito a escolher mulheres
pré-prostitutas;
os padres abrirão as portas de Deus
pra vocês.
o importante é a vitória,
sempre foi;
vocês serão enobrecidos,
serão promovidos como humildes e
bondosos conquistadores
e vocês vão acreditar nisso.
o que isso significa é que a mente humana
não está pronta ainda
então vocês reivindicarão uma vitória pelo
espírito humano.
uma garganta cortada não pode responder.
um cão morto não pode morder.
vocês venceram.
proclamem a decência.
629
Charles Bukowski
Um Poema de Milhões
nós morávamos num hotel perto de um
terreno baldio
onde alguém estava cultivando um
jardim
que incluía uns longos
talos de milho
e nós saímos do bar da esquina
às duas da manhã
e começamos a caminhar
na direção de casa
e quando chegamos ao terreno
baldio ela disse “eu quero uns
milhos!”
e eu fui atrás dela e
falei “merda, esse troço
não tá maduro ainda...”
“sim, tá sim... eu preciso
comer uns milhos...”
estávamos sempre famintos e
ela começou a rasgar
umas espigas de milho e
metê-las dentro da bolsa
e pela gola da blusa e
eu corri os olhos pela rua e
vi a viatura se aproximando
e falei “é a polícia,
corre!”
eles vinham de luz vermelha acesa
e nós corremos rumo ao nosso
apartamento, descemos pela
entrada da frente...
“parem ou eu atiro!”
e descemos a escada até
o elevador do subsolo
que calhou de estar nos esperando
e fechamos as portas e
apertamos o botão #4
enquanto eles ficavam lá
pressionando botões. nós
saímos e deixamos as portas
do elevador abertas, corremos para o
nosso apartamento, entramos, trancamos a porta
e ficamos sentados no escuro
escutando e bebendo vinho
barato. ouvimos os caras lá fora
perambulando. eles afinal
desistiram mas deixamos as luzes
desligadas e ela ferveu as espigas de
milho, ficamos no escuro por
muito tempo escutando as espigas
de milho ferverem e bebendo o
vinho barato. tiramos o milho
da água e tentamos comê-lo. ainda não
estava desenvolvido, nós mordiscávamos
assassinatos, abortos da
natureza.
“eu falei que essa merda não tava no ponto”,
eu disse.
“tá no ponto”, ela disse, “pelo amor
de Deus, come!”
“já tentei”, eu disse, “Deus Nosso Senhor sabe
como tentei...”
“fique feliz de ter esse milho”, ela disse,
“fique feliz de me ter também.”
“o milho tá verde”, eu disse, “verde que nem
as lagartas em abril...”
“ele tá bom, bom, esse milho tá bom”,
ela disse
e começou a jogar espigas em mim.
eu joguei as espigas de volta.
terminamos o vinho e fomos dormir.
de manhã quando acordamos havia
umas minúsculas espiguinhas de milho por tudo
no tapete, no sofá e nas cadeiras.
“de onde veio essa porcaria?”, ela perguntou.
“o Gigante Verde da lata de ervilha”, falei, “cagou pra nós
um tonel cheio.”
“nesse mundo”, ela disse, “uma garota nunca
sabe o que vai ver quando
acordar.”
“algo duro”, eu respondi, “é melhor
do que nada.”
ela se levantou e tomou banho e eu me
virei e voltei a dormir.
terreno baldio
onde alguém estava cultivando um
jardim
que incluía uns longos
talos de milho
e nós saímos do bar da esquina
às duas da manhã
e começamos a caminhar
na direção de casa
e quando chegamos ao terreno
baldio ela disse “eu quero uns
milhos!”
e eu fui atrás dela e
falei “merda, esse troço
não tá maduro ainda...”
“sim, tá sim... eu preciso
comer uns milhos...”
estávamos sempre famintos e
ela começou a rasgar
umas espigas de milho e
metê-las dentro da bolsa
e pela gola da blusa e
eu corri os olhos pela rua e
vi a viatura se aproximando
e falei “é a polícia,
corre!”
eles vinham de luz vermelha acesa
e nós corremos rumo ao nosso
apartamento, descemos pela
entrada da frente...
“parem ou eu atiro!”
e descemos a escada até
o elevador do subsolo
que calhou de estar nos esperando
e fechamos as portas e
apertamos o botão #4
enquanto eles ficavam lá
pressionando botões. nós
saímos e deixamos as portas
do elevador abertas, corremos para o
nosso apartamento, entramos, trancamos a porta
e ficamos sentados no escuro
escutando e bebendo vinho
barato. ouvimos os caras lá fora
perambulando. eles afinal
desistiram mas deixamos as luzes
desligadas e ela ferveu as espigas de
milho, ficamos no escuro por
muito tempo escutando as espigas
de milho ferverem e bebendo o
vinho barato. tiramos o milho
da água e tentamos comê-lo. ainda não
estava desenvolvido, nós mordiscávamos
assassinatos, abortos da
natureza.
“eu falei que essa merda não tava no ponto”,
eu disse.
“tá no ponto”, ela disse, “pelo amor
de Deus, come!”
“já tentei”, eu disse, “Deus Nosso Senhor sabe
como tentei...”
“fique feliz de ter esse milho”, ela disse,
“fique feliz de me ter também.”
“o milho tá verde”, eu disse, “verde que nem
as lagartas em abril...”
“ele tá bom, bom, esse milho tá bom”,
ela disse
e começou a jogar espigas em mim.
eu joguei as espigas de volta.
terminamos o vinho e fomos dormir.
de manhã quando acordamos havia
umas minúsculas espiguinhas de milho por tudo
no tapete, no sofá e nas cadeiras.
“de onde veio essa porcaria?”, ela perguntou.
“o Gigante Verde da lata de ervilha”, falei, “cagou pra nós
um tonel cheio.”
“nesse mundo”, ela disse, “uma garota nunca
sabe o que vai ver quando
acordar.”
“algo duro”, eu respondi, “é melhor
do que nada.”
ela se levantou e tomou banho e eu me
virei e voltei a dormir.
1 063
Charles Bukowski
Não Posso Ficar No Mesmo Quarto Com Essa Mulher Por Cinco Minutos
dias atrás fui
pegar minha filha.
a mãe dela apareceu com um macacão
de trabalho.
alcancei a ela o dinheiro da pensão
e ela me deitou um maço de poemas de um
Manfred Anderson.
eu os li
ele é ótimo, ela disse.
ele despacha esta merda? perguntei.
ah, não, ela disse, Manfred não faria isso.
por quê?
bem, não sei ao certo a razão.
escute, eu disse, você conhece todos os poetas que
não despacham suas merdas.
as revistas não estão prontas para eles, ela disse,
eles estão muito à frente das publicações.
ah, pelo amor de deus, eu disse, você realmente
acredita nisso?
sim, sim, acredito nisso, ela
respondeu.
veja, eu disse, você não foi capaz nem de deixar a menina
pronta. ela está descalça. será que não pode
calçar os sapatos nela?
sua filha tem 8 anos, ela disse,
já pode calçar os próprios sapatos.
escute, eu disse a minha filha, você pode pelo amor
de deus calçar os sapatos?
Manfred nunca grita, disse a mãe.
PELO AMOR DE DEUS! gritei
está vendo, está vendo? ela disse, você não mudou nada.
que horas são? perguntei.
4:30. uma vez Manfred enviou alguns poemas, ela disse,
mas eles mandaram de volta e ele ficou terrivelmente
chateado.
você já calçou os sapatos, eu disse a minha filha,
vamos.
a mãe dela nos acompanhou até a porta.
tenham um bom dia, ela disse.
foda-se, eu disse.
quando ela fechou a porta havia uma plaqueta presa no
lado de fora. dizia:
SORRIA.
não sorri.
em nosso caminho seguimos pela Pico.
parei em frente ao Red Ox.
já volto, eu disse a minha filha.
entrei, me sentei, e pedi um uísque e
uma água. no outro lado do bar havia um nanico entrando e
saindo de uma porta segurando um pênis curvo e bastante vermelho
na mão.
você não pode
não pode mandar ele parar? perguntei ao atendente.
você não pode fechar essa porra?
qual é o seu problema, meu chapa? ele perguntou.
eu envio meus poemas para as revistas, eu disse.
você envia seus poemas para as revistas? ele perguntou.
pode ter certeza de que mando, eu disse.
terminei minha bebida e voltei para o carro.
segui por Pico Boulevard.
o resto do dia estava condenado a ser melhor.
pegar minha filha.
a mãe dela apareceu com um macacão
de trabalho.
alcancei a ela o dinheiro da pensão
e ela me deitou um maço de poemas de um
Manfred Anderson.
eu os li
ele é ótimo, ela disse.
ele despacha esta merda? perguntei.
ah, não, ela disse, Manfred não faria isso.
por quê?
bem, não sei ao certo a razão.
escute, eu disse, você conhece todos os poetas que
não despacham suas merdas.
as revistas não estão prontas para eles, ela disse,
eles estão muito à frente das publicações.
ah, pelo amor de deus, eu disse, você realmente
acredita nisso?
sim, sim, acredito nisso, ela
respondeu.
veja, eu disse, você não foi capaz nem de deixar a menina
pronta. ela está descalça. será que não pode
calçar os sapatos nela?
sua filha tem 8 anos, ela disse,
já pode calçar os próprios sapatos.
escute, eu disse a minha filha, você pode pelo amor
de deus calçar os sapatos?
Manfred nunca grita, disse a mãe.
PELO AMOR DE DEUS! gritei
está vendo, está vendo? ela disse, você não mudou nada.
que horas são? perguntei.
4:30. uma vez Manfred enviou alguns poemas, ela disse,
mas eles mandaram de volta e ele ficou terrivelmente
chateado.
você já calçou os sapatos, eu disse a minha filha,
vamos.
a mãe dela nos acompanhou até a porta.
tenham um bom dia, ela disse.
foda-se, eu disse.
quando ela fechou a porta havia uma plaqueta presa no
lado de fora. dizia:
SORRIA.
não sorri.
em nosso caminho seguimos pela Pico.
parei em frente ao Red Ox.
já volto, eu disse a minha filha.
entrei, me sentei, e pedi um uísque e
uma água. no outro lado do bar havia um nanico entrando e
saindo de uma porta segurando um pênis curvo e bastante vermelho
na mão.
você não pode
não pode mandar ele parar? perguntei ao atendente.
você não pode fechar essa porra?
qual é o seu problema, meu chapa? ele perguntou.
eu envio meus poemas para as revistas, eu disse.
você envia seus poemas para as revistas? ele perguntou.
pode ter certeza de que mando, eu disse.
terminei minha bebida e voltei para o carro.
segui por Pico Boulevard.
o resto do dia estava condenado a ser melhor.
1 146
Charles Bukowski
Ensopado
ensopado ao meio-dia, meu bem, e veja:
as formigas, a serragem, as fábricas
de mica, as sombras dos bancos como
piadas ruins;
você acha que ouviremos
A noiva vendida hoje?
como está seu dente?
eu deveria lavar meus pés e
limpar minhas unhas
não que fosse me sentir mais como Cristo
mas
menos como um leproso –
o que é importante quando
a pobreza é um joguinho que você joga
com seu tempo.
vejamos: primeiro o carteiro
então um exemplar de ontem do Times.
poderemos
deste jeito
ser destroçados um dia quando já for
tarde.
então há a biblioteca ou
uma caminhada pelos bulevares.
muitos grandes homens
caminharam por bulevares
mas é terrível ser
um grande homem
como um macaco carregando um saco
de 2 kg de batata por uma colina de 12 metros.
Paris pode esperar.
mais sal?
depois de comermos
vamos dormir, vamos dormir.
não podemos arrumar nenhum dinheiro
acordados.
as formigas, a serragem, as fábricas
de mica, as sombras dos bancos como
piadas ruins;
você acha que ouviremos
A noiva vendida hoje?
como está seu dente?
eu deveria lavar meus pés e
limpar minhas unhas
não que fosse me sentir mais como Cristo
mas
menos como um leproso –
o que é importante quando
a pobreza é um joguinho que você joga
com seu tempo.
vejamos: primeiro o carteiro
então um exemplar de ontem do Times.
poderemos
deste jeito
ser destroçados um dia quando já for
tarde.
então há a biblioteca ou
uma caminhada pelos bulevares.
muitos grandes homens
caminharam por bulevares
mas é terrível ser
um grande homem
como um macaco carregando um saco
de 2 kg de batata por uma colina de 12 metros.
Paris pode esperar.
mais sal?
depois de comermos
vamos dormir, vamos dormir.
não podemos arrumar nenhum dinheiro
acordados.
1 018
Charles Bukowski
Um Poema de 56 Anos
segui com duas damas
até Venice
para dar uma olhada nuns móveis antigos.
estacionei no fundo da loja
e entrei com elas.
US$ 125 por um relógio, US$ 700 por 6 cadeiras.
parei de olhar.
as damas circulavam
olhando tudo.
tinham classe.
me despedi de uma delas
e dei o fora.
era domingo e o bar
não estava muito melhor,
todos nervosos e jovens
e loiros e pálidos.
terminei minha bebida, peguei 4 cervejas
na loja de conveniências
e sentei em meu carro para bebê-las.
ao terminar a 4ª cerveja
as damas apareceram.
perguntaram-me se eu estava bem.
eu lhes disse que toda experiência
era válida
e que elas me haviam tirado de
meu habitualmente negro estado de
espírito.
a que eu conhecia melhor havia comprado uma mesa
com tampo de mármore por US$ 100.
ela possuía seu próprio negócio e era uma
pessoa civilizada.
civilizada o suficiente para conhecer um vizinho
que tinha uma van
e enquanto eu estava acomodado em seu apartamento
[bebendo
um Zeller Schwarze Katz 1974
eles foram apanhar a mesa.
mais tarde ela quis saber a minha opinião sobre
a mesa e eu disse que me parecia bacana,
às vezes eu perdia cem pratas nos
cavalinhos. assistimos tevê na cama e mais tarde
naquela noite eu não consegui gozar. pensei que era
porque não conseguia deixar de pensar na mesa de
[mármore.
tinha certeza de que era isso. eu não possuía nenhuma
[antiguidade
em mármore na minha casa, quase nunca tive problemas
[sexuais na
minha casa. algumas vezes, mas
muito raramente.
não consigo entender toda essa função de
antiguidades
tenho certeza de que é uma gigantesca
vigarice.
até Venice
para dar uma olhada nuns móveis antigos.
estacionei no fundo da loja
e entrei com elas.
US$ 125 por um relógio, US$ 700 por 6 cadeiras.
parei de olhar.
as damas circulavam
olhando tudo.
tinham classe.
me despedi de uma delas
e dei o fora.
era domingo e o bar
não estava muito melhor,
todos nervosos e jovens
e loiros e pálidos.
terminei minha bebida, peguei 4 cervejas
na loja de conveniências
e sentei em meu carro para bebê-las.
ao terminar a 4ª cerveja
as damas apareceram.
perguntaram-me se eu estava bem.
eu lhes disse que toda experiência
era válida
e que elas me haviam tirado de
meu habitualmente negro estado de
espírito.
a que eu conhecia melhor havia comprado uma mesa
com tampo de mármore por US$ 100.
ela possuía seu próprio negócio e era uma
pessoa civilizada.
civilizada o suficiente para conhecer um vizinho
que tinha uma van
e enquanto eu estava acomodado em seu apartamento
[bebendo
um Zeller Schwarze Katz 1974
eles foram apanhar a mesa.
mais tarde ela quis saber a minha opinião sobre
a mesa e eu disse que me parecia bacana,
às vezes eu perdia cem pratas nos
cavalinhos. assistimos tevê na cama e mais tarde
naquela noite eu não consegui gozar. pensei que era
porque não conseguia deixar de pensar na mesa de
[mármore.
tinha certeza de que era isso. eu não possuía nenhuma
[antiguidade
em mármore na minha casa, quase nunca tive problemas
[sexuais na
minha casa. algumas vezes, mas
muito raramente.
não consigo entender toda essa função de
antiguidades
tenho certeza de que é uma gigantesca
vigarice.
1 140
Charles Bukowski
Soldado Raso
tiraram meu homem das ruas
outro dia
ele usava um casaco de moletom dos L.A. Rams[5]
as mangas cortadas
e debaixo
uma camiseta do exército
soldado raso
e ele usava uma boina verde
caminhava muito ereto
era negro e vestia calções marrons
o cabelo de um loiro apagado
nunca incomodava ninguém
roubava alguns bebês
e corria dando gargalhadas
mas sempre retornava com as crianças
ilesas
dormia atrás do
bordel
com a permissão das garotas.
a compaixão se revela em
estranhos lugares.
certo dia não o vi mais
e depois mais outro se passou.
perguntei nas redondezas.
meus impostos voltarão
a subir. o estado precisa lhe
dar abrigo e
comida. os policiais o pegaram.
isso não é
bom.
outro dia
ele usava um casaco de moletom dos L.A. Rams[5]
as mangas cortadas
e debaixo
uma camiseta do exército
soldado raso
e ele usava uma boina verde
caminhava muito ereto
era negro e vestia calções marrons
o cabelo de um loiro apagado
nunca incomodava ninguém
roubava alguns bebês
e corria dando gargalhadas
mas sempre retornava com as crianças
ilesas
dormia atrás do
bordel
com a permissão das garotas.
a compaixão se revela em
estranhos lugares.
certo dia não o vi mais
e depois mais outro se passou.
perguntei nas redondezas.
meus impostos voltarão
a subir. o estado precisa lhe
dar abrigo e
comida. os policiais o pegaram.
isso não é
bom.
1 060
Charles Bukowski
Ameixas Geladas
comendo ameixas geladas na cama
ela me contou sobre o alemão
que era dono de toda quadra
exceto da loja de tecidos
e de como ele tentou comprar
a loja de tecidos
mas as garotas disseram, não.
o alemão tinha a melhor mercearia em
Pasadena, suas carnes eram caras
mas valiam o preço
e suas frutas e verduras eram
muito baratas e
ele também vendia flores. as pessoas vinham
de toda Pasadena para ir à sua
loja
mas ele queria comprar a loja de tecidos
e as garotas seguiam dizendo, não.
certa noite alguém foi visto saindo
a correr pela porta dos fundos da loja de tecidos
e então o fogo se ergueu
e quase tudo foi destruído –
elas fizeram um tremendo inventário
tentaram salvar tudo o que tinha sobrado
fizeram uma liquidação de incêndio
mas não funcionou
elas tiveram que vender, por fim,
e então o alemão comprou a loja de tecido
mas a deixou lá, vazia,
a esposa do alemão tentou reerguer o negócio
tentou vender pequenas cestas e outras quinquilharias
mas não funcionou.
terminamos as ameixas.
“é uma história triste”, eu lhe disse.
então ela se inclinou e começou a me chupar.
as janelas estavam abertas e meus gritos
podiam ser ouvidos por toda vizinhança
às 5h20 de um fim de tarde.
ela me contou sobre o alemão
que era dono de toda quadra
exceto da loja de tecidos
e de como ele tentou comprar
a loja de tecidos
mas as garotas disseram, não.
o alemão tinha a melhor mercearia em
Pasadena, suas carnes eram caras
mas valiam o preço
e suas frutas e verduras eram
muito baratas e
ele também vendia flores. as pessoas vinham
de toda Pasadena para ir à sua
loja
mas ele queria comprar a loja de tecidos
e as garotas seguiam dizendo, não.
certa noite alguém foi visto saindo
a correr pela porta dos fundos da loja de tecidos
e então o fogo se ergueu
e quase tudo foi destruído –
elas fizeram um tremendo inventário
tentaram salvar tudo o que tinha sobrado
fizeram uma liquidação de incêndio
mas não funcionou
elas tiveram que vender, por fim,
e então o alemão comprou a loja de tecido
mas a deixou lá, vazia,
a esposa do alemão tentou reerguer o negócio
tentou vender pequenas cestas e outras quinquilharias
mas não funcionou.
terminamos as ameixas.
“é uma história triste”, eu lhe disse.
então ela se inclinou e começou a me chupar.
as janelas estavam abertas e meus gritos
podiam ser ouvidos por toda vizinhança
às 5h20 de um fim de tarde.
699
Charles Bukowski
Garotas de Meia-Calça
estudantes de meia-calça
sentadas nas paradas de ônibus
parecendo cansadas aos 13
com seus batons de framboesa.
está quente sob o sol
e o dia na escola foi
maçante, e ir pra casa é
maçante, e eu
dirijo meu carro
e dou uma espiada naquelas pernas quentes.
seus olhos não estão focados
em nada –
elas foram avisadas sobre
os veteranos tarados e
cruéis; eles não desistirão
assim tão fácil.
e ainda assim é maçante
passar aqueles minutos no
banco e os anos em
casa, e os livros que elas
carregam são maçantes e aquilo de que se
alimentam é maçante, e até mesmo os
veteranos tarados e cruéis são
maçantes.
as garotas de meia-calça esperam,
esperam pelo momento e hora
exatos para só então se mover
e certamente conquistar.
circulo com o meu carro
espiando suas pernas
satisfeito por saber que jamais farei
parte nem de seus paraísos nem de
seus infernos. mas os batons
escarlates naquelas tristes bocas
que esperam! seria delicioso
beijar cada uma delas, uma vez que fosse, por completo,
e então devolvê-las.
mas o ônibus as
pegará primeiro.
sentadas nas paradas de ônibus
parecendo cansadas aos 13
com seus batons de framboesa.
está quente sob o sol
e o dia na escola foi
maçante, e ir pra casa é
maçante, e eu
dirijo meu carro
e dou uma espiada naquelas pernas quentes.
seus olhos não estão focados
em nada –
elas foram avisadas sobre
os veteranos tarados e
cruéis; eles não desistirão
assim tão fácil.
e ainda assim é maçante
passar aqueles minutos no
banco e os anos em
casa, e os livros que elas
carregam são maçantes e aquilo de que se
alimentam é maçante, e até mesmo os
veteranos tarados e cruéis são
maçantes.
as garotas de meia-calça esperam,
esperam pelo momento e hora
exatos para só então se mover
e certamente conquistar.
circulo com o meu carro
espiando suas pernas
satisfeito por saber que jamais farei
parte nem de seus paraísos nem de
seus infernos. mas os batons
escarlates naquelas tristes bocas
que esperam! seria delicioso
beijar cada uma delas, uma vez que fosse, por completo,
e então devolvê-las.
mas o ônibus as
pegará primeiro.
1 133
Charles Bukowski
Ah...
bebendo cerveja alemã
e tentando alcançar o
o poema imortal às
5 da tarde.
mas, ah, eu disse aos
estudantes que a coisa certa
a fazer é não tentar.
mas quando as mulheres não estão
por perto e os cavalos não estão
correndo
o que mais se pode fazer?
tive um par de
fantasias sexuais
almocei fora
enviei três cartas
fui à mercearia.
nada na tv.
o telefone está calado.
passei fio dental
entre meus dentes.
não vai chover e eu escuto
os primeiros a chegar das
8 horas de trabalho enquanto
dirigem e estacionam seus carros
atrás do apartamento
ao lado.
me sento bebendo cerveja alemã
e tento alcançar
o grande poema
e não irei conseguir.
apenas seguirei bebendo
mais e mais cerveja alemã
e enrolando cigarros
e lá pelas 11 horas
estarei deitado
na cama desfeita
olhando para cima
acordado sob a luz
elétrica
esperando ainda pelo poema
imortal.
e tentando alcançar o
o poema imortal às
5 da tarde.
mas, ah, eu disse aos
estudantes que a coisa certa
a fazer é não tentar.
mas quando as mulheres não estão
por perto e os cavalos não estão
correndo
o que mais se pode fazer?
tive um par de
fantasias sexuais
almocei fora
enviei três cartas
fui à mercearia.
nada na tv.
o telefone está calado.
passei fio dental
entre meus dentes.
não vai chover e eu escuto
os primeiros a chegar das
8 horas de trabalho enquanto
dirigem e estacionam seus carros
atrás do apartamento
ao lado.
me sento bebendo cerveja alemã
e tento alcançar
o grande poema
e não irei conseguir.
apenas seguirei bebendo
mais e mais cerveja alemã
e enrolando cigarros
e lá pelas 11 horas
estarei deitado
na cama desfeita
olhando para cima
acordado sob a luz
elétrica
esperando ainda pelo poema
imortal.
1 203
Charles Bukowski
Voltando Para Onde Eu Estava
eu costumava retirar a parte de trás
do telefone e enchê-la com trapos
e quando batiam à porta
eu me fingia de morto e se eles persistissem
mandava-os em termos vulgares para aquele
lugar.
apenas mais um velho maluco
com asas de ouro
uma pança branca e flácida
mais
um par de olhos capaz de nocautear
o sol.
do telefone e enchê-la com trapos
e quando batiam à porta
eu me fingia de morto e se eles persistissem
mandava-os em termos vulgares para aquele
lugar.
apenas mais um velho maluco
com asas de ouro
uma pança branca e flácida
mais
um par de olhos capaz de nocautear
o sol.
1 072
Charles Bukowski
Chuva Ou Sol
os abutres no zoo
(todos os 3)
sentam-se bastante tranquilos em sua
árvore enjaulada
e abaixo
no chão
há postas de carne podre.
os abutres estão empanturrados
nossos impostos os têm mantido
bem alimentados.
seguimos para a próxima
jaula.
um homem está ali
sentado no chão
comendo
a própria merda.
reconheço a figura
de nosso antigo carteiro.
sua expressão favorita
sempre fora:
“tenha um ótimo dia”.
naquele dia, foi o que me aconteceu.
(todos os 3)
sentam-se bastante tranquilos em sua
árvore enjaulada
e abaixo
no chão
há postas de carne podre.
os abutres estão empanturrados
nossos impostos os têm mantido
bem alimentados.
seguimos para a próxima
jaula.
um homem está ali
sentado no chão
comendo
a própria merda.
reconheço a figura
de nosso antigo carteiro.
sua expressão favorita
sempre fora:
“tenha um ótimo dia”.
naquele dia, foi o que me aconteceu.
1 078
Charles Bukowski
As Garotas do Hotel Verde
são mais bonitas
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.
as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.
entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.
“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.
lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.
engato a
primeira,
me afasto.
haverá algumas
risadas
esta noite.
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.
as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.
entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.
“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.
lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.
engato a
primeira,
me afasto.
haverá algumas
risadas
esta noite.
1 133
Charles Bukowski
Uma Aposta Perdida
ela não é pra você, cara,
não faz o seu tipo,
ela foi maltratada
foi usada
adquiriu todos os maus
hábitos,
ele me disse
entre um páreo e outro.
vou apostar no cavalo 4,
eu lhe disse.
bem, é que eu gostaria apenas
de tentar tirá-la
da correnteza,
salvá-la, pode-se dizer.
você não conseguirá, ele disse,
você tem 55, precisa de gentileza.
vou apostar no cavalo 6.
você não é o cara para
salvá-la.
e você pode? perguntei.
não acho que o 6 tenha
chance, prefiro o 4.
ela precisa de alguém que lhe desça a mão,
que a jogue na parede, ele disse,
que lhe chute o rabo, ela vai adorar.
ficará em casa e
lavará a louça.
o cavalo 6 vai estar na
disputa.
não sou bom nesse negócio de bater em mulher,
eu disse.
então tire ela da cabeça, ele disse.
não é fácil, respondi.
ele se levantou e foi no 6
e eu me levantei e fui no 4.
o cavalo 5 ganhou
por 3 corpos
pagando 15 para um.
os cabelos dela são ruivos
como relâmpagos vindos do paraíso,
eu disse.
tire ela da cabeça, ele disse.
rasgamos nossos bilhetes
e olhamos para o lago
no centro da pista.
aquela ia ser
uma longa tarde
para nós dois.
não faz o seu tipo,
ela foi maltratada
foi usada
adquiriu todos os maus
hábitos,
ele me disse
entre um páreo e outro.
vou apostar no cavalo 4,
eu lhe disse.
bem, é que eu gostaria apenas
de tentar tirá-la
da correnteza,
salvá-la, pode-se dizer.
você não conseguirá, ele disse,
você tem 55, precisa de gentileza.
vou apostar no cavalo 6.
você não é o cara para
salvá-la.
e você pode? perguntei.
não acho que o 6 tenha
chance, prefiro o 4.
ela precisa de alguém que lhe desça a mão,
que a jogue na parede, ele disse,
que lhe chute o rabo, ela vai adorar.
ficará em casa e
lavará a louça.
o cavalo 6 vai estar na
disputa.
não sou bom nesse negócio de bater em mulher,
eu disse.
então tire ela da cabeça, ele disse.
não é fácil, respondi.
ele se levantou e foi no 6
e eu me levantei e fui no 4.
o cavalo 5 ganhou
por 3 corpos
pagando 15 para um.
os cabelos dela são ruivos
como relâmpagos vindos do paraíso,
eu disse.
tire ela da cabeça, ele disse.
rasgamos nossos bilhetes
e olhamos para o lago
no centro da pista.
aquela ia ser
uma longa tarde
para nós dois.
1 149
Charles Bukowski
Um Poema Rude
eles seguem escrevendo
despejando poemas...
jovens garotos e professores universitários
esposas que bebem vinho durante a tarde
enquanto seus maridos trabalham,
eles seguem escrevendo
os mesmos nomes nas mesmas revistas
todos escrevendo um pouco pior a cada ano,
lançando uma coletânea de poesias
despejando mais poemas
é como um concurso
é um concurso
mas o prêmio é invisível.
eles não escreverão contos ou artigos
ou romances
apenas seguirão
despejando poemas
cada um soando mais e mais como os outros
e menos e menos como eles mesmos,
e alguns dos garotos se cansam e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho durante a tarde
nunca nunca nunca desistem
e novos garotos chegam com novas revistas
e há alguma correspondência entre homens e mulheres
algumas fodas
e tudo é exagerado e estúpido.
quando os poemas são recusados
eles os reescrevem
e mandam para a próxima revista na lista,
e eles fazem leituras
todas as leituras que conseguem
de graça na maioria das vezes
esperando que alguém finalmente os reconheça
finalmente os aplauda
finalmente os congratule e reconheça o
talento deles
estão todos tão certos de suas genialidades
há tão pouco autoquestionamento,
e a maioria deles vive em North Beach ou Nova York,
e seus rostos são como seus poemas:
iguais,
e conhecem uns aos outros e
se congregam e se odeiam e se admiram e se escolhem e se
descartam
e seguem despejando mais poemas
mais poemas
mais poemas
o concurso dos cretinos:
tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap...
despejando poemas...
jovens garotos e professores universitários
esposas que bebem vinho durante a tarde
enquanto seus maridos trabalham,
eles seguem escrevendo
os mesmos nomes nas mesmas revistas
todos escrevendo um pouco pior a cada ano,
lançando uma coletânea de poesias
despejando mais poemas
é como um concurso
é um concurso
mas o prêmio é invisível.
eles não escreverão contos ou artigos
ou romances
apenas seguirão
despejando poemas
cada um soando mais e mais como os outros
e menos e menos como eles mesmos,
e alguns dos garotos se cansam e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho durante a tarde
nunca nunca nunca desistem
e novos garotos chegam com novas revistas
e há alguma correspondência entre homens e mulheres
algumas fodas
e tudo é exagerado e estúpido.
quando os poemas são recusados
eles os reescrevem
e mandam para a próxima revista na lista,
e eles fazem leituras
todas as leituras que conseguem
de graça na maioria das vezes
esperando que alguém finalmente os reconheça
finalmente os aplauda
finalmente os congratule e reconheça o
talento deles
estão todos tão certos de suas genialidades
há tão pouco autoquestionamento,
e a maioria deles vive em North Beach ou Nova York,
e seus rostos são como seus poemas:
iguais,
e conhecem uns aos outros e
se congregam e se odeiam e se admiram e se escolhem e se
descartam
e seguem despejando mais poemas
mais poemas
mais poemas
o concurso dos cretinos:
tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap...
1 300
Charles Bukowski
O Principal
aí vem a cabeça de peixe cantante
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros
[vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma boceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de
azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros
[vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma boceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de
azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
1 116
Charles Bukowski
Certo Piquenique
que me lembra que
trepei com Jane por 7 anos
ela era uma bêbada
eu a amava
meus pais a odiavam
eu odiava meus pais
fazíamos um ótimo
quarteto
certo dia fomos a um piquenique
juntos
lá nas montanhas
e jogamos carta e bebemos cerveja e
comemos salada de batata
por fim eles a trataram como se ela fosse uma
pessoa de verdade
todos riam
eu não.
mais tarde na minha casa
uísque na cabeça
eu lhe disse,
não gosto deles
mas é bom que tenham tratado você
bem.
seu idiota, ela disse,
será que não percebeu?
percebi o quê?
eles não tiravam os olhos da minha barriga de cerveja,
pensaram que eu estava grávida.
oh, eu disse, então brindemos à nossa bela
criança.
à nossa bela criança,
ela disse.
viramos os copos.
trepei com Jane por 7 anos
ela era uma bêbada
eu a amava
meus pais a odiavam
eu odiava meus pais
fazíamos um ótimo
quarteto
certo dia fomos a um piquenique
juntos
lá nas montanhas
e jogamos carta e bebemos cerveja e
comemos salada de batata
por fim eles a trataram como se ela fosse uma
pessoa de verdade
todos riam
eu não.
mais tarde na minha casa
uísque na cabeça
eu lhe disse,
não gosto deles
mas é bom que tenham tratado você
bem.
seu idiota, ela disse,
será que não percebeu?
percebi o quê?
eles não tiravam os olhos da minha barriga de cerveja,
pensaram que eu estava grávida.
oh, eu disse, então brindemos à nossa bela
criança.
à nossa bela criança,
ela disse.
viramos os copos.
1 178
Charles Bukowski
A Noite Mais Estranha Que de Fato Você Já Viu...
eu tinha esse quarto da frente na DeLongpre
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um número incontável de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo à cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
“vamos lá, empurrem!”, ele disse.
era uma enorme tábua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas às extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas à tábua
e ela ia atrás
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados àquela
tábua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado à tábua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista –
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo –
o rosto rosado pelo sol e
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
“não se preocupe!” ele gritou, voltando-se para
ela, “alguém vai
nos alugar um quarto!”
ela não respondeu.
então eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um número incontável de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo à cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
“vamos lá, empurrem!”, ele disse.
era uma enorme tábua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas às extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas à tábua
e ela ia atrás
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados àquela
tábua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado à tábua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista –
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo –
o rosto rosado pelo sol e
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
“não se preocupe!” ele gritou, voltando-se para
ela, “alguém vai
nos alugar um quarto!”
ela não respondeu.
então eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.
1 120
Charles Bukowski
Uma Arte
todo o percurso desde o México
diretamente do campo
para 14 vitórias
13 por nocaute.
ele estava em 3º no ranking
e numa luta preliminar
foi nocauteado por um lutador negro
que nem estava ranqueado e que não lutava
há 2 anos.
todo o percurso desde o México
diretamente do campo.
a bebida e as mulheres acabaram
com ele.
na revanche ele foi mais uma vez nocauteado
e suspenso por 6 meses.
todo esse percurso
pelo trago e 2 casos de
doença venérea.
retornou um ano depois
jurando que estava limpo, que tinha
aprendido a lição.
e conseguiu arrancar um empate com o
9º do ranking de sua divisão.
retornou para a revanche
e a luta foi interrompida
no 3º assalto porque ele
não conseguia mais
se proteger.
e ele refez todo o percurso de volta
até o México
diretamente para o campo.
é preciso um poeta fodão
como eu
para conseguir lidar com as bebidas e as mulheres
escapar das doenças venéreas
escrever sobre fracassos
como o dele
e manter minha posição entre os
10 primeiros do ranking:
todo o percurso desde a Alemanha
diretamente das fábricas
entre garrafas de cerveja
e a campainha do
telefone.
diretamente do campo
para 14 vitórias
13 por nocaute.
ele estava em 3º no ranking
e numa luta preliminar
foi nocauteado por um lutador negro
que nem estava ranqueado e que não lutava
há 2 anos.
todo o percurso desde o México
diretamente do campo.
a bebida e as mulheres acabaram
com ele.
na revanche ele foi mais uma vez nocauteado
e suspenso por 6 meses.
todo esse percurso
pelo trago e 2 casos de
doença venérea.
retornou um ano depois
jurando que estava limpo, que tinha
aprendido a lição.
e conseguiu arrancar um empate com o
9º do ranking de sua divisão.
retornou para a revanche
e a luta foi interrompida
no 3º assalto porque ele
não conseguia mais
se proteger.
e ele refez todo o percurso de volta
até o México
diretamente para o campo.
é preciso um poeta fodão
como eu
para conseguir lidar com as bebidas e as mulheres
escapar das doenças venéreas
escrever sobre fracassos
como o dele
e manter minha posição entre os
10 primeiros do ranking:
todo o percurso desde a Alemanha
diretamente das fábricas
entre garrafas de cerveja
e a campainha do
telefone.
1 094
Charles Bukowski
Gêmeos
ei, disse o meu amigo, quero que você conheça
Hangdog Harry, ele me lembra você,
e eu disse, tudo bem, e fomos até
esse hotel ordinário.
velhos assistiam sentados
um programa de tevê no saguão
enquanto subíamos a escada
até o 209 e lá estava Hangdog
sentado numa cadeira de palha
uma garrafa de vinho aos seus pés
o calendário do ano passado na parede,
“sentem-se, rapazes”, ele disse,
“este é o problema:
a desumanidade do homem com o próprio homem”.
ficamos vendo ele enrolar um
cigarro Bull Durham.
“tenho um pescoço de 40 cm e matarei
todos que quiserem foder comigo.”
deu uma lambida no cigarro
e depois cuspiu no tapete.
“sintam-se em casa. fiquem à vontade.”
“como está se sentindo, Hangdog?” perguntou
meu amigo.
“terrível. estou apaixonado por uma prostituta,
não a vejo há 3 ou 4 semanas.”
“o que você acha que ela está fazendo, Hang?”
“bem, neste exato momento eu diria
que ela está chupando algum caralho.”
ele apanhou a garrafa de vinho
e deu uma tremenda enxugada.
“veja”, disse meu amigo a Hangdog,
“temos que ir”.
“certo, o tempo e a maré, ambos não
esperam...”
ele me olhou:
“como disse que era seu nome mesmo?”
“Salomski.”
“prazer em conhecer você, rapaz.”
“o prazer foi meu.”
descemos a escada
eles continuavam no saguão
assistindo tevê.
“o que você achou dele?”
perguntou meu amigo.
“porra”, eu disse, “ele era realmente
um cara legal. com certeza.”
Hangdog Harry, ele me lembra você,
e eu disse, tudo bem, e fomos até
esse hotel ordinário.
velhos assistiam sentados
um programa de tevê no saguão
enquanto subíamos a escada
até o 209 e lá estava Hangdog
sentado numa cadeira de palha
uma garrafa de vinho aos seus pés
o calendário do ano passado na parede,
“sentem-se, rapazes”, ele disse,
“este é o problema:
a desumanidade do homem com o próprio homem”.
ficamos vendo ele enrolar um
cigarro Bull Durham.
“tenho um pescoço de 40 cm e matarei
todos que quiserem foder comigo.”
deu uma lambida no cigarro
e depois cuspiu no tapete.
“sintam-se em casa. fiquem à vontade.”
“como está se sentindo, Hangdog?” perguntou
meu amigo.
“terrível. estou apaixonado por uma prostituta,
não a vejo há 3 ou 4 semanas.”
“o que você acha que ela está fazendo, Hang?”
“bem, neste exato momento eu diria
que ela está chupando algum caralho.”
ele apanhou a garrafa de vinho
e deu uma tremenda enxugada.
“veja”, disse meu amigo a Hangdog,
“temos que ir”.
“certo, o tempo e a maré, ambos não
esperam...”
ele me olhou:
“como disse que era seu nome mesmo?”
“Salomski.”
“prazer em conhecer você, rapaz.”
“o prazer foi meu.”
descemos a escada
eles continuavam no saguão
assistindo tevê.
“o que você achou dele?”
perguntou meu amigo.
“porra”, eu disse, “ele era realmente
um cara legal. com certeza.”
1 203
Charles Bukowski
Numa Vizinhança de Assassinos
as baratas cospem
clipes de papel
e o helicóptero descreve círculos e mais círculos
em busca de sangue
luzes de busca deslizando furtivas por nosso
quarto
5 caras nesta área têm pistolas
outro um
facão
somos todos assassinos e
alcoólatras
mas a coisa é ainda pior no hotel
do outro lado da rua
eles ficam sentados na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando para serem institucionalizados
aqui cada um de nós tem um pequeno vaso
na janela
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da manhã
falamos
baixinho
e em cada uma das varandas
há um pequeno prato de comida
sempre esvaziado pela manhã
presumimos
pelos
gatos.
clipes de papel
e o helicóptero descreve círculos e mais círculos
em busca de sangue
luzes de busca deslizando furtivas por nosso
quarto
5 caras nesta área têm pistolas
outro um
facão
somos todos assassinos e
alcoólatras
mas a coisa é ainda pior no hotel
do outro lado da rua
eles ficam sentados na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando para serem institucionalizados
aqui cada um de nós tem um pequeno vaso
na janela
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da manhã
falamos
baixinho
e em cada uma das varandas
há um pequeno prato de comida
sempre esvaziado pela manhã
presumimos
pelos
gatos.
1 139
Charles Bukowski
Artistas:
ela me escreveu por anos.
“estou bebendo vinho na cozinha.
chove lá fora. as crianças
estão na escola.”
ela era uma cidadã qualquer
ocupada com sua alma, sua máquina de escrever
e sua
reputação como poeta underground.
ela escrevia decentemente e com honestidade
mas apenas depois que outros já
haviam aberto o caminho.
me ligava bêbada às 2 da manhã
às 3
enquanto o marido dormia.
“é bom ouvir a sua voz”, ela
dizia.
“é bom ouvir a sua voz também”, eu
dizia.
que diabo, você
sabe.
ela finalmente apareceu. acho que teve
algo a ver com
The Chapparal Poets Society of California.
eles tinham que eleger seus quadros. ela me ligou
do hotel deles.
“estou aqui”, ela disse, “vamos eleger
os representantes.”
“ok, ótimo”, eu disse, “escolha uns realmente bons”.
desliguei.
o telefone voltou a tocar.
“ei, você não quer me ver?”
“claro”, eu disse, “qual é o endereço?”
depois que ela disse até logo eu bati uma
troquei as meias
bebi meia garrafa de vinho e
segui até lá.
estavam todos bêbados e tentavam
se foder mutuamente.
levei-a para minha casa.
ela vestia uma calcinha cor-de-rosa
com fitinhas.
bebemos uma pouco de cerveja e
fumamos e falamos sobre
Ezra Pound, depois
dormimos.
já não tenho claro
se a levei para o
aeroporto ou
não.
ela continua me escrevendo cartas
e eu as respondo
da pior maneira possível
torcendo para que ela
desista.
algum dia talvez ela alcance a
fama como Erica
Jong. (seu rosto não é lá essas coisas
mas seu corpo é legal)
e eu pensarei,
meu Deus, o que foi que eu fiz?
estraguei tudo.
ou melhor: eu não estraguei
nada.
enquanto isso tenho o número de sua caixa postal
e é melhor eu informar a ela
que meu segundo romance sairá
em setembro.
isso deverá manter os seus mamilos duros
enquanto considero a possibilidade de
Francine du Plessix Gray[4].
“estou bebendo vinho na cozinha.
chove lá fora. as crianças
estão na escola.”
ela era uma cidadã qualquer
ocupada com sua alma, sua máquina de escrever
e sua
reputação como poeta underground.
ela escrevia decentemente e com honestidade
mas apenas depois que outros já
haviam aberto o caminho.
me ligava bêbada às 2 da manhã
às 3
enquanto o marido dormia.
“é bom ouvir a sua voz”, ela
dizia.
“é bom ouvir a sua voz também”, eu
dizia.
que diabo, você
sabe.
ela finalmente apareceu. acho que teve
algo a ver com
The Chapparal Poets Society of California.
eles tinham que eleger seus quadros. ela me ligou
do hotel deles.
“estou aqui”, ela disse, “vamos eleger
os representantes.”
“ok, ótimo”, eu disse, “escolha uns realmente bons”.
desliguei.
o telefone voltou a tocar.
“ei, você não quer me ver?”
“claro”, eu disse, “qual é o endereço?”
depois que ela disse até logo eu bati uma
troquei as meias
bebi meia garrafa de vinho e
segui até lá.
estavam todos bêbados e tentavam
se foder mutuamente.
levei-a para minha casa.
ela vestia uma calcinha cor-de-rosa
com fitinhas.
bebemos uma pouco de cerveja e
fumamos e falamos sobre
Ezra Pound, depois
dormimos.
já não tenho claro
se a levei para o
aeroporto ou
não.
ela continua me escrevendo cartas
e eu as respondo
da pior maneira possível
torcendo para que ela
desista.
algum dia talvez ela alcance a
fama como Erica
Jong. (seu rosto não é lá essas coisas
mas seu corpo é legal)
e eu pensarei,
meu Deus, o que foi que eu fiz?
estraguei tudo.
ou melhor: eu não estraguei
nada.
enquanto isso tenho o número de sua caixa postal
e é melhor eu informar a ela
que meu segundo romance sairá
em setembro.
isso deverá manter os seus mamilos duros
enquanto considero a possibilidade de
Francine du Plessix Gray[4].
1 093
Charles Bukowski
A Garota No Banco da Parada de Ônibus
eu a vi quando eu estava na pista da esquerda
indo a leste pela Sunset.
ela estava sentada
as pernas cruzadas
lendo um livro de bolso.
era italiana ou indiana ou
grega
e enquanto eu estava parado no sinal vermelho
vez ou outra um vento
erguia sua saia,
eu tinha a visão desimpedida,
revelando
pernas da mais imaculada perfeição
que eu jamais vira.
sou essencialmente tímido
mas olhei e fiquei olhando
até que uma pessoa no carro atrás de mim
começou a buzinar.
isso nunca tinha acontecido dessa
maneira.
dei a volta na quadra
e estacionei numa vaga do
supermercado
bem em frente ao lugar em que ela estava
de óculos escuros
eu não deixava de olhar
como um colegial em sua primeira
excitação.
memorizei seus sapatos
seu vestido
suas meias
seu rosto.
os carros passavam e me bloqueavam
a visão.
então eu a via novamente.
o vento erguia sua saia
para muito além das coxas
e comecei a me tocar.
um pouco antes do ônibus dela aparecer
cheguei ao orgasmo.
senti o cheiro do meu esperma
sua umidade em meu calção
e cueca.
era um ônibus branco e feio
e a levou embora.
dei a ré no estacionamento
pensando, eu sou um voyeur pervertido
mas ao menos não me
expus.
sou um voyeur pervertido
mas por que elas fazem isso?
por que têm essa aparência?
por que deixam o vento soprar
assim?
ao chegar em casa
tirei a roupa e fui para o banho
saí enrolado na
toalha
liguei
as notícias
apaguei as notícias
e
escrevi este poema.
indo a leste pela Sunset.
ela estava sentada
as pernas cruzadas
lendo um livro de bolso.
era italiana ou indiana ou
grega
e enquanto eu estava parado no sinal vermelho
vez ou outra um vento
erguia sua saia,
eu tinha a visão desimpedida,
revelando
pernas da mais imaculada perfeição
que eu jamais vira.
sou essencialmente tímido
mas olhei e fiquei olhando
até que uma pessoa no carro atrás de mim
começou a buzinar.
isso nunca tinha acontecido dessa
maneira.
dei a volta na quadra
e estacionei numa vaga do
supermercado
bem em frente ao lugar em que ela estava
de óculos escuros
eu não deixava de olhar
como um colegial em sua primeira
excitação.
memorizei seus sapatos
seu vestido
suas meias
seu rosto.
os carros passavam e me bloqueavam
a visão.
então eu a via novamente.
o vento erguia sua saia
para muito além das coxas
e comecei a me tocar.
um pouco antes do ônibus dela aparecer
cheguei ao orgasmo.
senti o cheiro do meu esperma
sua umidade em meu calção
e cueca.
era um ônibus branco e feio
e a levou embora.
dei a ré no estacionamento
pensando, eu sou um voyeur pervertido
mas ao menos não me
expus.
sou um voyeur pervertido
mas por que elas fazem isso?
por que têm essa aparência?
por que deixam o vento soprar
assim?
ao chegar em casa
tirei a roupa e fui para o banho
saí enrolado na
toalha
liguei
as notícias
apaguei as notícias
e
escrevi este poema.
1 183
Charles Bukowski
Uma Abelha
suponho que como qualquer garoto
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.
uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”
e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.
estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.
meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.
imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...
enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.
mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.
uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”
e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.
estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.
meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.
imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...
enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.
mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.
1 474
Charles Bukowski
Um Casal Adorável
eu tinha que dar uma cagada
mas em vez disso fui
até essa loja para
fazer uma chave.
a mulher usava um vestido
de algodão e cheirava
a rato almiscarado.
“Ralph”, ela urrou
e, seu marido,
um porco velho numa
camisa florida
calçando um sapato 39
apareceu e ela disse,
“esse homem quer
uma chave”.
ele começou a afiá-la
como se realmente não quisesse
fazer aquilo.
havia sombras
furtivas e urina
no ar.
segui ao longo do
balcão de vidro,
apontei e chamei a
mulher,
“ei, eu quero este
aqui”.
ela me alcançou o
objeto: um canivete
num estojo de um púrpura
claro.
US$ 6.50 mais as taxas.
a chave custou
praticamente
nada.
peguei o troco e
saí em direção
à rua.
algumas vezes você precisa
de gente desse tipo.
mas em vez disso fui
até essa loja para
fazer uma chave.
a mulher usava um vestido
de algodão e cheirava
a rato almiscarado.
“Ralph”, ela urrou
e, seu marido,
um porco velho numa
camisa florida
calçando um sapato 39
apareceu e ela disse,
“esse homem quer
uma chave”.
ele começou a afiá-la
como se realmente não quisesse
fazer aquilo.
havia sombras
furtivas e urina
no ar.
segui ao longo do
balcão de vidro,
apontei e chamei a
mulher,
“ei, eu quero este
aqui”.
ela me alcançou o
objeto: um canivete
num estojo de um púrpura
claro.
US$ 6.50 mais as taxas.
a chave custou
praticamente
nada.
peguei o troco e
saí em direção
à rua.
algumas vezes você precisa
de gente desse tipo.
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