Poemas neste tema
Ética e Moral
Fernando Pessoa
OXFORD SHORES'
OXFORD SHORES'
Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.
Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de urna curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.
É - se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.
Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de urna curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.
É - se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
1 162
Fernando Pessoa
ODE MARCIAL [b]
ODE MARCIAL
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
1 296
Fernando Pessoa
JOSEPH CHAMBERLAIN
Their blood on thy head, whom the Afric waste
Saw struggling, puppets with unwilful hand,
Brother and brother: their bought souls shall brand
Thine own with horror. Be thy name erased
From the full mouth of men; nor be there traced
To thee one glory to thy parent land;
But'fore us, as'fore God e'er do thou stand
In that thy deed forevermore disgraced.
Where lie the sons and husbands, where those dear
That thy curst craft hath lost? Their drops of blood,
One by one fallen, and many a cadenced tear,
With triple justice weighted trebly dread,
Shall each, rolled onward in a burning flood,
Crush thy dark soul. Their blood be on thy head!
Saw struggling, puppets with unwilful hand,
Brother and brother: their bought souls shall brand
Thine own with horror. Be thy name erased
From the full mouth of men; nor be there traced
To thee one glory to thy parent land;
But'fore us, as'fore God e'er do thou stand
In that thy deed forevermore disgraced.
Where lie the sons and husbands, where those dear
That thy curst craft hath lost? Their drops of blood,
One by one fallen, and many a cadenced tear,
With triple justice weighted trebly dread,
Shall each, rolled onward in a burning flood,
Crush thy dark soul. Their blood be on thy head!
1 105
Fernando Pessoa
Roçou-me
Roçou-me
O [...] pelo rosto o manto seu
E o seu manto é de Mal e Escuridão.
Coroou-me rei e a coroa que me deu
É um sinal de servidão.
O [...] pelo rosto o manto seu
E o seu manto é de Mal e Escuridão.
Coroou-me rei e a coroa que me deu
É um sinal de servidão.
1 412
Fernando Pessoa
Ora porra!
Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.
2 705
Fernando Pessoa
Com teu gesto pintado e exagerado
Com teu gesto pintado e exagerado
E o teu prolixo modo de sorrir
E o teu olhar, sob o torpor copado
Da expressão, veludineo em dirigir
Tu nada sabes do essencial pecado
E uma inocência (...) vem luzir
Como uma luz de azeite em descampado
No teu gesto ensinado a conseguir.
Porque a análise é a vera perversão...
O único vício é rebuscar a alma,
Dor a dor, sensação a sensação...
Tu, a exterior, que mal tens na alma oca?
Nada... Ai de nós de quem a vida é calma.
E quem é que fica dentro ... (Abre a tua boca!)
E o teu prolixo modo de sorrir
E o teu olhar, sob o torpor copado
Da expressão, veludineo em dirigir
Tu nada sabes do essencial pecado
E uma inocência (...) vem luzir
Como uma luz de azeite em descampado
No teu gesto ensinado a conseguir.
Porque a análise é a vera perversão...
O único vício é rebuscar a alma,
Dor a dor, sensação a sensação...
Tu, a exterior, que mal tens na alma oca?
Nada... Ai de nós de quem a vida é calma.
E quem é que fica dentro ... (Abre a tua boca!)
1 066
Fernando Pessoa
Como uma criança, antes de a ensinarem a ser grande,
Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande,
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi.
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi.
1 395
Fernando Pessoa
JULIANO EM ANTIOQUIA [b]
Agir, sabendo
Que a acção é vil e o esforço nada.
Ir para a frente por dever, mas vendo
Que não há estrada.
Tomar a pôr altares, templos mortos
Aos deuses reerguer, sem ignorar
Que as almas são de Cristo já, e há outros
Homens (...)
O esforço inútil feito por dever
E o amor à verdade inaceitável,
A teimosia estóica em dever ser.
Venceste, Galileu. Mas nada prova
Da verdade de ti teres vencido.
Constantemente o mundo se renova
Um dia é o dia do mal (…)
Que a acção é vil e o esforço nada.
Ir para a frente por dever, mas vendo
Que não há estrada.
Tomar a pôr altares, templos mortos
Aos deuses reerguer, sem ignorar
Que as almas são de Cristo já, e há outros
Homens (...)
O esforço inútil feito por dever
E o amor à verdade inaceitável,
A teimosia estóica em dever ser.
Venceste, Galileu. Mas nada prova
Da verdade de ti teres vencido.
Constantemente o mundo se renova
Um dia é o dia do mal (…)
994
Fernando Pessoa
Não sei em que coisa pensas
Não sei em que coisa pensas
Quando coses sossegada...
Talvez naquelas ofensas
Que fazes sem dizer nada.
Quando coses sossegada...
Talvez naquelas ofensas
Que fazes sem dizer nada.
1 443
Fernando Pessoa
Maior é quem a passo e passo avança
Maior é quem a passo e passo avança
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
986
Fernando Pessoa
Pensa quantos, no ardor da jovem ida,
Pensa quantos, no ardor da jovem ida,
Um destino parou; quantos, obtendo
Da meta inesperada
(...)
Não esperes nem consigas; enche a taça
E abdica: tudo é natural e estranho.
Nem justos nem injustos
São os Deuses, senão outros.
O conseguido é dado; tudo é imposto.
Prazer ou mágoa, são qual sol ou chuva,
Dados, ora são desejos
Ora ao (...)
(...)
(...) esperanças breves;
Quantos, que à meta imposta
A só esperança lembrada antequiseram.
Tal porque morre cai, tal porque vive.
O que se cumpre nunca se quisera,
Salvo se a morte é cega
Do pó do (...)
Um destino parou; quantos, obtendo
Da meta inesperada
(...)
Não esperes nem consigas; enche a taça
E abdica: tudo é natural e estranho.
Nem justos nem injustos
São os Deuses, senão outros.
O conseguido é dado; tudo é imposto.
Prazer ou mágoa, são qual sol ou chuva,
Dados, ora são desejos
Ora ao (...)
(...)
(...) esperanças breves;
Quantos, que à meta imposta
A só esperança lembrada antequiseram.
Tal porque morre cai, tal porque vive.
O que se cumpre nunca se quisera,
Salvo se a morte é cega
Do pó do (...)
1 052
Fernando Pessoa
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
1 126
Fernando Pessoa
Àquele que, constante, nada espera
Àquele que, constante, nada espera
Não pode negar Jove; nem para ele
Murcham as frágeis flores
Que nunca esperou ver.
Consiste a força do ânimo em não tê-la
Para os alacres fins da fantasia,
Mas em saber conter-se
Nos limites d (...)
Não pode negar Jove; nem para ele
Murcham as frágeis flores
Que nunca esperou ver.
Consiste a força do ânimo em não tê-la
Para os alacres fins da fantasia,
Mas em saber conter-se
Nos limites d (...)
1 278
Fernando Pessoa
O papagaio do paço
O papagaio do paço
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
2 309
Fernando Pessoa
Se em verdade não sabes (nem sustentas
Se em verdade não sabes (nem sustentas
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
Operoso a não vives?
Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
Gozas menos que ganhas.
Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
De (...)
Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
Sem ele. (...)
Ah servidão irreprimível, nada
Da vida breve subsiste, que sabes
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.
Mas respondes-me: E os poemas que escreves
A quem os dás futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
O que o Destino manda.
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
Operoso a não vives?
Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
Gozas menos que ganhas.
Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
De (...)
Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
Sem ele. (...)
Ah servidão irreprimível, nada
Da vida breve subsiste, que sabes
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.
Mas respondes-me: E os poemas que escreves
A quem os dás futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
O que o Destino manda.
1 412
Fernando Pessoa
Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
E nós com ele, nada o árbitro escravo
Pode contra o destino
Nem contra os deuses o mortal desejo
Hoje, quais servos com ausentes deuses,
Na alheia casa, um dia sem o juiz,
Bebamos e comamos.
Será para amanhã o que aconteça.
Tombai mancebos, o vinho em nobre taça
E o braço nu com que o entornais fique
No lembrando olhar
Como uma água que parece vinho!
Sim, heróis somos todos amanhã.
Hoje adiemos. E na erguida taça
O roxo vinho espelhe
Depois — porque a noite nunca falta.
E nós com ele, nada o árbitro escravo
Pode contra o destino
Nem contra os deuses o mortal desejo
Hoje, quais servos com ausentes deuses,
Na alheia casa, um dia sem o juiz,
Bebamos e comamos.
Será para amanhã o que aconteça.
Tombai mancebos, o vinho em nobre taça
E o braço nu com que o entornais fique
No lembrando olhar
Como uma água que parece vinho!
Sim, heróis somos todos amanhã.
Hoje adiemos. E na erguida taça
O roxo vinho espelhe
Depois — porque a noite nunca falta.
993
Fernando Pessoa
O que sinto e o que penso
O que sinto e o que penso
De ti é bem e é mal.
É como quando uma xícara
Tem o pires desigual.
De ti é bem e é mal.
É como quando uma xícara
Tem o pires desigual.
1 310
Fernando Pessoa
O bêbado caía de bêbado
O bêbado caía de bêbado
E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
Na rua da vida.
Meu Deus! Eu também caí de bêbado
Deus (...)
E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
Na rua da vida.
Meu Deus! Eu também caí de bêbado
Deus (...)
1 851
Fernando Pessoa
Todas as horas faço gaffes de civilidade e etiqueta,
Todas as horas faço gaffes de civilidade e etiqueta
(A vida social é complexa para a minha fraqueza de nervos)
Mas nunca existiu quem só tivesse vivido em alma
Numa eterna luta de Janus.
Arre, a humanidade é uma coisa muito complexa...
Tenho-a observado com os olhos e os
nervos, e ainda não percebi.
(Compreender é um navio ao longe)
Toda a gente que tenho conhecido
Estou farto de semi-deuses!
Onde é que há gente no mundo?
Não tenho um amigo, um conhecido, em quem batessem
Ninguém que eu conheça perdeu o amor de uma mulher.
Tenho feito muitas coisas más, muitas coisas reles, muitas infâmias.
Tenho sido cobarde, revoltante, sujo.
Não encontro ninguém assim.
Todos têm sido príncipes, os que têm andado comigo
(A vida social é complexa para a minha fraqueza de nervos)
Mas nunca existiu quem só tivesse vivido em alma
Numa eterna luta de Janus.
Arre, a humanidade é uma coisa muito complexa...
Tenho-a observado com os olhos e os
nervos, e ainda não percebi.
(Compreender é um navio ao longe)
Toda a gente que tenho conhecido
Estou farto de semi-deuses!
Onde é que há gente no mundo?
Não tenho um amigo, um conhecido, em quem batessem
Ninguém que eu conheça perdeu o amor de uma mulher.
Tenho feito muitas coisas más, muitas coisas reles, muitas infâmias.
Tenho sido cobarde, revoltante, sujo.
Não encontro ninguém assim.
Todos têm sido príncipes, os que têm andado comigo
1 260
Fernando Pessoa
Rezas a Deus ao deitar-te
Rezas a Deus ao deitar-te
Pedindo não sei o quê.
Se rezasses ao demónio,
Eu saberia o que é.
Pedindo não sei o quê.
Se rezasses ao demónio,
Eu saberia o que é.
1 319
Fernando Pessoa
JUSTICE
There was a land, which I suppose,
Where everyone had a crooked nose;
And the crooked nose that everyone had
In no manner did make him sad.
But in that land a man was born
Whose nose more straight and clean was worn;
And the men of that land with a public hate
Killed the man whose nose was straight.
Where everyone had a crooked nose;
And the crooked nose that everyone had
In no manner did make him sad.
But in that land a man was born
Whose nose more straight and clean was worn;
And the men of that land with a public hate
Killed the man whose nose was straight.
1 758
Fernando Pessoa
THE APOSTLE
The preacher said: «My task, it is to take
To men the mystic balsam of a creed,
And in their hearts lust-taken to awake
A fervour above life and above need.
My work: is to outcast the every greed
For beauty, and the chains of love to break,
And the whole field of youth and joy to rake
Clear for the sowing of my holy seed.
I go to preach a doctrine sweet and sad
Of sacrifice and of benevolence:
I turn my back on life, on earthly bliss.
But e'er I go ‑ oh, God, can I be mad? -
Would I could take to that cold life intense
The soul-perturbing memory of a kiss!»
To men the mystic balsam of a creed,
And in their hearts lust-taken to awake
A fervour above life and above need.
My work: is to outcast the every greed
For beauty, and the chains of love to break,
And the whole field of youth and joy to rake
Clear for the sowing of my holy seed.
I go to preach a doctrine sweet and sad
Of sacrifice and of benevolence:
I turn my back on life, on earthly bliss.
But e'er I go ‑ oh, God, can I be mad? -
Would I could take to that cold life intense
The soul-perturbing memory of a kiss!»
1 434
Fernando Pessoa
Oh o maior horror de terem cessado os clarins
Oh o maior horror de terem cessado os clarins
Que sons indecisos nos traz o que substitui o vento
Nesta profunda palidez [...] dos que mataram?
Quem é que vem? O que nos vai dar
Que criança a soluçar em calma noite intranquila,
Meu irmão? A irmã de quem? Ó anos de infância
Em que eu olhava da janela os soldados e via os uniformes
E a sangrenta e carnal realidade das coisas não existia para mim!...
Choque de cavaleiros onde?
Artilharia, onde, onde, onde?
Ó dor da [indecisão?] com agitações inexplicáveis à superfície de águas estagnadas...
Ó murmúrio incompreensível da morte como que vento nas folhagens...
Ó pavor certo de uma realidade desenhada pelos espelhos indecisos...
(Lágrimas nas tuas mãos
E plácido o teu olhar...
E tu, amor, és uma realidade também...
Ah, não ser tudo senão um quadro, um quadro qualquer...
E quem sabe se tudo não será um quadro e a dor e a alegria
E a incerteza e o terror
Coisas, meras coisas, [...]
Lágrimas nas tuas mãos, no terraço sobre o lago azul da montanha
E lento o crepúsculo sobre os cumes altos das nossas duas almas
E uma vontade de chorar a apertar-nos aos dois ao seu peito...)
A guerra. a guerra, a guerra realmente.
Excessivamente aqui, horror, a guerra real...
Com a sua realidade de gente que vive realmente,
Com a sua estratégia realmente aplicada a exércitos reais compostos de gente real
E as suas consequências, não coisas contadas em livros
Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade,
E o sol também real sobre a terra também real
Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo!
Verdade do perigo, dos mortos, dos doentes e das violações,
E os sons florescem nos gritos misteriosamente...
A gaiola do canário à tua janela, Maria,
E o sussurro suave da água que gorgoleja no tanque...
O corpo... E os outros corpos não muito diferentes deste,
A morte... E o contrário disto tudo é a vida...
Dói-me a alma e não compreendo...
Custa-me a acreditar no que existe...
Pálido e perturbado. não me mexo e sofro.
Que sons indecisos nos traz o que substitui o vento
Nesta profunda palidez [...] dos que mataram?
Quem é que vem? O que nos vai dar
Que criança a soluçar em calma noite intranquila,
Meu irmão? A irmã de quem? Ó anos de infância
Em que eu olhava da janela os soldados e via os uniformes
E a sangrenta e carnal realidade das coisas não existia para mim!...
Choque de cavaleiros onde?
Artilharia, onde, onde, onde?
Ó dor da [indecisão?] com agitações inexplicáveis à superfície de águas estagnadas...
Ó murmúrio incompreensível da morte como que vento nas folhagens...
Ó pavor certo de uma realidade desenhada pelos espelhos indecisos...
(Lágrimas nas tuas mãos
E plácido o teu olhar...
E tu, amor, és uma realidade também...
Ah, não ser tudo senão um quadro, um quadro qualquer...
E quem sabe se tudo não será um quadro e a dor e a alegria
E a incerteza e o terror
Coisas, meras coisas, [...]
Lágrimas nas tuas mãos, no terraço sobre o lago azul da montanha
E lento o crepúsculo sobre os cumes altos das nossas duas almas
E uma vontade de chorar a apertar-nos aos dois ao seu peito...)
A guerra. a guerra, a guerra realmente.
Excessivamente aqui, horror, a guerra real...
Com a sua realidade de gente que vive realmente,
Com a sua estratégia realmente aplicada a exércitos reais compostos de gente real
E as suas consequências, não coisas contadas em livros
Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade,
E o sol também real sobre a terra também real
Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo!
Verdade do perigo, dos mortos, dos doentes e das violações,
E os sons florescem nos gritos misteriosamente...
A gaiola do canário à tua janela, Maria,
E o sussurro suave da água que gorgoleja no tanque...
O corpo... E os outros corpos não muito diferentes deste,
A morte... E o contrário disto tudo é a vida...
Dói-me a alma e não compreendo...
Custa-me a acreditar no que existe...
Pálido e perturbado. não me mexo e sofro.
1 344
Fernando Pessoa
THE ACURSED POET
Here the accursed poet lies,
Hid far from the pure blue skies;
Mixed with mud filth he lies
At the bottom of the stream.
He dreamed many a strange dream.
He loved mankind but he did nought
For mankind's good. Vain was his thought.
He would be loved and he was not.
The sun in morn or evening glow
Can reach him not where deep he lies
With mud and filth far from the skies.
He ached to feel, he ached to know.
He did aspire to what should last
Beyond the time that did it show.
Full of the giant city's waste
The river over him doth flow.
Dark over him flows the river.
Down to him no light can go.
Damn'd be he for ever!
Hid far from the pure blue skies;
Mixed with mud filth he lies
At the bottom of the stream.
He dreamed many a strange dream.
He loved mankind but he did nought
For mankind's good. Vain was his thought.
He would be loved and he was not.
The sun in morn or evening glow
Can reach him not where deep he lies
With mud and filth far from the skies.
He ached to feel, he ached to know.
He did aspire to what should last
Beyond the time that did it show.
Full of the giant city's waste
The river over him doth flow.
Dark over him flows the river.
Down to him no light can go.
Damn'd be he for ever!
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