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Poemas neste tema

Humor e Ironia

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sopa, Cosmos e Lágrimas

conheci muitas mulheres loucas
porém a mais louca foi
Annette
e parece que quanto mais loucas são
tanto melhor trepam,
e que corpo elas
têm. Annette sempre viveu com
chineses
mas você nunca os via
e era isso o que metia medo.
até a Máfia tem medo dos chineses -
"cadê o dragão, garota?"
"está tudo bem. ele sabe que está tudo bem com você."
"tem certeza? quando põem o X em você,
então você pode muito bem
esquecer."
"eu disse a eles que está tudo bem com você. isso é tudo que
eles precisam."
Annette tinha incenso queimando,
toda espécie de mapas e livros malucos,
ela sempre falava sobre os deuses
ela tinha uma linha direta com os deuses.
"você foi selecionado pelos deuses", ela me
disse.
"está bem, garota, vamos transar
então."
"agora não. quero que você experimente esta sopa especial
que eu fiz."
"sopa especial?"
"sim, tome-a e você herdará as forças da
terra e do sol, o cosmos
inteiro."
lá fui eu e tomei a sopa. francamente, o gosto era bom,
embora meio enferrujado. nem queira saber que diabos ela
pôs lá dentro. eu a tomei
toda.
"eu me sinto como um homem de aço
agora."
"você herdou a força", ela disse, "os deuses estão
orgulhosos de você."
no sofá eu finalmente a
agarrei. debaixo daquele leve vestido cor de laranja
havia bastante mulher para matar um
boi.
"morei naquele hotel em Paris", ela disse. "dormi com todos
eles. Burroughs, a turma
toda. conheci Pound em St. Liz."
"você dormiu com Ezra?"
"mais do que com qualquer outro!"
"ora, vá se foder!"
"vá", ela riu, "em frente."
foi uma boa
sopa. aqueles rapazes de Paris e
Ezra haviam conhecido uma boa
égua.
eu saí
dela.
quando ela voltou do banheiro estava
com uma garrafa na mão e começou a me salpicar
com o
conteúdo.
"ei, que porra é essa?"
"as lágrimas dos
deuses."
"as lágrimas dos deuses?"
"sim, as lágrimas dos
deuses."
eu fiquei lá deitado até que ela
terminasse.
então eu me levantei e me
vesti.
"quando posso ver você
de novo?"
"em 2 horas ou
amanhã"
eu saí em direção à porta.
"você caminha como um
poema", ela disse.
"vejo você em 2
horas", eu lhe
disse.
a porta se fechou. o que um homem tem que aguentar por
um rabo
nestes tempos modernos é
altamente
suspeito.
1 200
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Anão com um Soco

isto foi muitos anos depois
e ainda não consigo entender direito
mas foi em Nova York
e Nova York tem suas próprias leis e
de qualquer modo eu estava à toa em um daqueles
lugares
com muitas mesas redondas
com seus cavaleiros fortes e terríveis;
eu não me sinto tão bem assim, como de costume,
nem forte nem terrível,
apenas podre,
e eu estou sentado com alguma mulher
com alguma espécie de capuz sobre a cabeça,
ela é meio maluca
mas isso não importa.
ela tem um nome, Fay,
eu acho,
e ficamos bebendo, indo de um lugar a
outro, e entramos lá,
e parecia terrivelmente
animado
pois havia um anão com cerca de um
metro de altura
e o anão estava circulando
bêbado
e ele parava em uma mesa
e olhava para um homem
e dizia,
"bem, o que VOCÊ tem para dizer?"
e depois o anão lhe acertava uma na boca
só que o anão tinha mãos muito boas e
um soco infernal
então todo mundo dava risada e o anão
seguia para o bar
para mais um drinque.
"mantenha-o longe de mim, Fay!", eu lhe disse.
"ah? o quê? quem?"
"mantenha-o longe de mim!"
"quê? o que é? longe?"
o anão mandou a mão em outro sujeito
e todo mundo riu,
até eu ri. o anão sabia socar.
ele tinha muita
prática.
ele dançou no bar
estilo pé de valsa
então ele reparou em um marinheiro
muito loiro e jovem e
amedrontado.
o garoto mijava nas calças
e sorria para O
anão.
o anão lhe mandou a mão
para valer;
seu sorriso seguinte foi um tanto
sangrento.
então o anão deu-lhe outra no queixo
jogando o marinheiro para trás
sobre sua cadeira, duro
e teso.
nocaute! todos saudaram
o campeão!
aí o anão me
viu. o homem da mesa
ao fundo.
"mantenha-o longe de mim, Fay!"
eu disse.
"vamo tomá outro drinque Pp? ela disse.
(estava com um copo cheio na frente dela)
ele veio para cima de mim
em todo o um metro da sua
glória.
"muito bem, o que VOCÊ tem para dizer?"
eu não respondi. eu não tinha nada para dizer
que ele pudesse entender.
"nada, hein?"
eu fiz que sim. ele veio. eu senti minha cadeira rodar, depois
parar de novo sobre seus pés. jorros de luz vermelha e amarela e
azul vieram em seguida, depois risadas.
sentado ali
eu revidei.
seu pobre um metro deslizou pelo chão como um
boneco de trapos
e então estavam em cima de mim
parecia uma dúzia de homens
(mas podiam ter sido 3 ou 4)
e tomei mais algumas
porradas.
então fui jogado para fora
eu me levantei
e achei um lenço
e tentei parar
o pior do sangue
e Fay estava lá,
"seu covarde, você bateu naquele
homenzinho!?"
eu desci pela rua
mas ela ficou lá junto comigo
e fomos ao bar mais próximo
e eu olhei ao redor
e, vendo que todo mundo tinha mais de 1 metro e 30,
mandei vir mais 2
drinques.
1 031
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Aquela Garota Linda Que Entrou Para Trocar A Roupa De Cama

eu a conheci quando ela entrou para
trocar a roupa de cama.
St. Louis.
ela me disse: você está doente.
e eu disse:
sim, estou doente.
e ela disse:
você precisar beber algo.
eu vim para trocar a roupa de cama
mas você precisa beber alguma coisa
dê-me algum dinheiro e
eu volto com alguma coisa para
beber.
então
eu dei a ela o dinheiro
sem conhecê-la
mas ela voltou com algo para
beber.
ela sentou em uma cadeira e eu
fiquei na cama e nós bebemos
silenciosamente.
e então começamos a conversar
e então rimos um pouco
e eu comecei a me sentir melhor e ela
a parecer mais bonita
e eu disse:
eu não achei que você fosse voltar
e ela disse:
diabo, eu trabalho aqui.
e eu disse:
ah, por isso você
voltou.
e ela disse:
não, não foi por isso que voltei.
e eu
gostei disso.
mal consigo me lembrar de como aconteceu
mas logo estávamos os dois na cama
fumando cigarros e tomando
cerveja
naqueles canecões pesados
de meio litro.
ninguém parecia estar com pressa.
e aí começou
a funcionar. não sei como funcionou
mas foi legal. nós
trepamos.
e ela se levantou e fechou as janelas para o sul
e disse:
é isso que o está matando
essa fumaceira subindo da avenida
isso
e a bebida. pelo menos dá para afastá-lo
da fumaceira.
nós rimos e então ela voltou para a cama e nós
conversamos mais um pouco e fumamos e ela
saiu da cama e disse
que precisava ir embora -
o namorado dela vivia no andar de baixo com ela,
e eu disse adeus
e ela foi embora e
então eu olhei para a cadeira
e vi os lençóis limpos e brancos.
ela havia esquecido de trocar a roupa de cama
então eu me levantei e
troquei a roupa de cama por ela.
1 053
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Todas as Garotinhas

foi lá no norte da Califórnia
e ele estava em pé no púlpito
e estava lendo há algum tempo
estava lendo muitos poemas sobre
a Mãe Natureza e a bondade inerente
ao homem.
ele acreditava que tudo estava
certo com o mundo.
e não dava para reclamar dele:
era um professor de carreira que nunca havia
estado na cadeia ou em um puteiro;
cujo carro usado nunca morreu
na autoestrada; que
nunca havia precisado de mais do que
três drinques durante a mais louca
das suas noitadas;
que nunca havia sido fichado, execrado ou
levado porrada;
que nunca havia sido mordido por um cachorro;
que recebia regularmente cartas cordiais de Gary
Snyder, e cujo rosto era
amável, sem marcas e
carinhoso. finalmente,
sua mulher nunca o havia traído
muito menos sua sorte.
ele disse: "só vou ler
mais três poemas e depois vou
descer daqui e deixar
Chinaski ler".
"ah, não", disseram todas as
garotinhas em seus vestidos rosados e azuis
e brancos e cor de laranja
e lilases. "ah, não,
leia mais alguns, leia mais
alguns!"
ele leu mais um poema e então disse,
"este é o último poema que
vou ler".
"ah, não", disseram todas as
garotinhas em seus vestidos meio transparentes
vermelhos e verdes. "ah, não", disseram
todas as garotinhas em seus jeans
apertados com corações costurados neles.
"ah, não", disseram todas as garotinhas,
"por favor, leia
mais poemas!"
mas ele cumpriu sua palavra.
recolheu os poemas e desceu e
desapareceu em algum lugar. quando levantei-me para ler
as garotinhas deram risadinhas em
seus assentos e uma delas assobiou e
algumas delas fizeram observações interessantes dirigidas a mim
que usarei em um poema em alguma data futura
pois este maldito poema em particular
tem que terminar em algum lugar.
de qualquer modo, foi duas ou três semanas depois
que recebi essa carta do poeta William
dizendo que ele havia apreciado minha leitura.
ele era um verdadeiro cavalheiro.
eu estava de cama com uma
ressaca de três dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e a dobrei em
um desses aviõezinhos de papel
que eu havia aprendido a fazer na
escola. navegou ao redor do quarto
e aterrissou entre um velho boletim de corridas de cavalo
e um par de shorts puídos.
não nos correspondemos desde então.
1 020
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Não Se Preocupe, Querida, Vou Dar Um Jeito

ele a viu em uma loja de bebidas
e isso mexeu com ele
mexeu mexeu mexeu
igual a came de tubarão ainda viva à luz do sol remexendo-se.
ele lançou seus olhos sobre ela,
um milagre, a ouviu falar com ele,
ela era divertida, ela o fazia dar risadas, ela o fazia sentir como se
todas as portas estivessem abertas para ele.
foi fácil. ela voltou com ele para sua casa.
eles conversaram. foi fácil. ela era uma foda gloriosa. eles
foderam 3 vezes. ela
ficou.
"Smaltz", telefonaram-lhe do serviço no dia seguinte,
"o que você está fazendo, por que você não veio?!
nós temos a encomenda da Granger-Wently para despachar:
45 rodos de seis pés e 90 galões de
tinta Day-Glo ultramarina! Db
"estou ocupado," ele disse, e eles responderam,
"podemos conseguir um despachante de cargas
em qualquer lugar!" ele desligou, a virou e
a fodeu
de novo.
não foi a mesma coisa que com as outras:
toda vez que acabava ele sentia que ainda queria mais.
quando ela se dirigia ao banheiro era como se ele
não a tivesse tido realmente, e qualquer coisa que ela vestisse,
um chapéu feito de jornais, um par das suas meias, ela parecia
gloriosa, divertida divertida, diabos, ela o fazia sentir-se bem,
tudo o que ela dizia, porra, era uma
piada, ela encostaria aquele seu corpo contra o seu toda manhã e
diria, "ah, não vá pro trabalho, Eddie querido, fique comigo!"
"Eu não posso ir trabalhar, meu bem, eu não tenho mais emprego", ele
diria,
e eles começariam tudo
de novo.
e assim chegou o dia: sem aluguel, sem café, sem vinho, sem
cigarros. o senhorio declarou: mais um dia;
resolva ou caia fora -!
"merda, eu achei que você sabia o que estava fazendo",
ela disse a Smaltz, pela primeira vez ela não estava
divertida.
"não se preocupe, querida, vou dar um jeito", ele lhe disse,
e partiram para uma última das boas.
sorte, ele tinha a .32. pensou, loja de bebidas, não, eu vou
meter a mão na massa, ela vai ter de
tudo, ela é minha, para mim, chapéu de papel, todo esse
rebolado, deus, não há nada
igual.
ele tentou o banco. aquele grande e cinzento lá perto.
ele entrou. estava pronto: a .32, o saco de papel, o bilhete:
"um assalto. quieto e você não morre. nada de apertar o botão, ponha
dinheiro no
saco. eu estou desesperado e vou matar. por favor, deixe nós dois
vivermos".
ela esvaziou a gaveta no saco. ele viu:
monte de notas de cem, de cinquenta, minha nossa. uma viagem a Paris.
a caixa do banco também parecia boa. ele gostaria de fodê-la,
quem não gostaria.
ele estava quase na porta
quando sentiu que ela havia disparado o botão
de alarme. eles até haviam afastado a
multidão. o guarda na porta foi fácil -
era tão gordo que Smaltz não teve como errar:
ele caiu como um boneco.
lá fora ele viu o carro da polícia:
a coisa estava indo na contramão da
rua - como podiam fazer aquilo? -
acompanhando-o enquanto ele corria
e disparando tiros em seu rabo,
chegando perto; ele subiu correndo por um beco sem saída,
mas alcançou um elevador de carga
parado. "sobe! SOBE!"
ele berrou para outro esquisitão
mas o esquisitão ficou parado
olhando para a sua .32, e ele atirou no esquisitão,
não havia mais nada a ser feito,
e ele estava mexendo nos controles, tentando
fechar as portas
quando eles o alcançaram ali, atiraram nele,
atiraram dentro daquele elevador vagabundo; ele não conseguia dar
um tiro de volta. eles o pegaram, pegaram o saco de papel da sua
mão.
na noite seguinte ela estava dormindo com o dono de uma
loja de ferragens, Harry, uma renda boa e sólida, 2 dedos
faltando em sua mão direita - acidente de caça em Indiana,
1938.
você consegue outro despachante de carga
em qualquer lugar.
1 055
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Chega Desses Rapazes

meu primeiro marido, Retzel, ela disse,
voava em paragliders. ele tinha só uma das mãos.
ele nunca me chupou, nem uma vez só.
ele quer conhecê-lo, ele mora em
Redondo Beach.
Redondo Beach, eu disse, Redondo Beach.
meu marido seguinte,
Craft, tomava comprimidos e tocava piano o dia todo.
depois ele precisou operar um dos dedos da mão.
uma verruga. ele foi cruel comigo. agora ele sabe
o quanto foi cruel comigo.
onde ele está agora?
África. ele ainda está na África.
eu rodei pela África toda. circulei por lá
de barco. conheci um homem que tinha um
leopardo. ele costumava levar seu leopardo para
passear todo dia preso a uma corrente.
um dia ele não apareceu. seu leopardo o havia
comido.
essa é uma história engraçada.
eu também acho. você entende
as coisas. para mim chega desses rapazes,
desses corpos duros. eu quero você. você está no controle
de tudo.
eu estou?
sim, meu marido seguinte,
Larry, certa vez cobriu meu corpo com
pétalas de rosa. todas aquelas flores! foi
adorável, mas ele não fez amor comigo
outra vez por 2 anos. ele foi tão ruim como
amante. você é um grande
amante.
eu sou?
sim, você não gostaria de ir à Holanda?
não.
a Paris?
não.
à África?
não.
Redondo Beach?
não.
você é esquisito. não gosta de
viajar?
estou cheio disso.
você devia ter-me visto voar no paraglider de Retzel!
eu era boa naquele paraglider.
mas ele nunca me
chupava.
Retzel?
sim, agora ele é publicitário. ganha um bom
dinheiro.
algum dia eu vou lhe contar sobre minhas
mulheres.
não quero saber de suas
mulheres. não quero saber de
nenhuma
delas.
ela se virou na cama
oferecendo-me suas costas e seu
rabo.
garota, eu disse, conte-me mais sobre
Retzel.
ela se virou em minha
direção. você realmente quer
ouvir?
com certeza.
então ficamos deitados de costas
e ela me contou sobre Retzel
e eu ouvi.
941
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema Para o Engraxate

o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou o velho lutador Beau Jack[17]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
1 186
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Isto

nonsense autocongratulatório enquanto os
famosos se reúnem para aplaudir sua aparente
grandeza
você
se pergunta onde estão
os verdadeiramente grandes
que
caverna descomunal
os esconde
enquanto
aqueles mortalmente desprovidos
de talento
se curvam para a
ovação
enquanto
os otários são
tapeados
outra vez
você
se pergunta onde
estão os verdadeiramente grandes
se é que eles
existem.
este
nonsense autocongratulatório
tem durado
décadas
e
com raras exceções
séculos.
isto
é tão medonho
é tão absolutamente desprovido de piedade
isto
transforma a coragem em
esperança
poeirenta e algemada
isto
faz as pequenas coisas
como
abrir uma cortina
ou
calçar os sapatos
ou
caminhar pela rua
mais difícil
quase
abominável
enquanto
os famosos se reúnem para
aplaudir sua aparente
grandeza
enquanto
os otários são
tapeados
outra vez
humanidade
sua filha da puta
louca.

E aí, de repente, o filme rolava de novo. Como a maioria das notícias, esta veio pelo telefone, via Jon.
– É – ele me disse –, recomeçamos a produção amanhã.
– Eu não entendo. Achava que o filme estava morto.
– A Firepower vendeu alguns bens. Uma filmoteca e alguns hotéis que eles tinham na Europa. Em cima disso ainda conseguiram arrancar um grande empréstimo de um grupo italiano. Dizem que o dinheiro desse grupo italiano é meio sujo, mas... é dinheiro. De qualquer modo, eu gostaria que você e Sarah viessem pra filmagem amanhã.
– Não sei...
– É amanhã à noite...
– Tudo bem, legal... Quando e onde?
Sarah e eu nos sentávamos num reservado. Era sexta à noite e havia no ar uma boa sensação. Estávamos ali sentados quando Rick Talbot entrou e sentou-se conosco. Ali estava ele em nossa barraca. Queria apenas um café. Eu o vira muitas vezes na TV, criticando filmes com seu opositor, Kirby Hudson. Eram muito bons no que faziam, e muitas vezes se emocionavam com a coisa. Faziam avaliações interessantes, e embora outros houvessem tentado copiar o formato, eles eram muito superiores aos concorrentes.
Rick Talbot parecia muito mais jovem do que na TV. Também parecia mais retraído, quase tímido.
– Vemos você sempre – disse Sarah.
– Obrigado...
– Escuta – perguntei –, que é que te aborrece mais em Kirby Hudson?
– O dedo dele... Quando ele aponta aquele dedo.
Entrou Francine Bowers. Resvalou para dentro do reservado. Nós a cumprimentamos. Ela conhecia Rick Talbot. Trazia uma pequena prancheta de anotações.
– Escuta, Hank, quero saber mais um pouco sobre Jane. Índia, certo?
– Meio índia, meio irlandesa.
– Por que bebia?
– Era um lugar onde se esconder, e também uma forma de suicídio.
– Você algum dia levou ela a algum lugar, além de um bar?
– Levei ela a um jogo de beisebol, uma vez. Ao Wrigley Field, no tempo em que os Angels de L.A. jogavam na Liga da Costa do Pacífico.
– Que aconteceu?
– Nós dois ficamos muito bêbados. Ela ficou fula comigo e saiu correndo do parque. Eu dirigi horas procurando por ela. Quando voltei ao quarto, ela estava desmaiada na cama.
– Como é que ela falava? Aos berros?
– Ficava calada durante horas. Então, de repente, enlouquecia e se punha a gritar, xingar e atirar coisas. A princípio eu não reagia. Depois ela me dava nos nervos. Eu andava de um lado para outro, de um lado para outro, berrando e devolvendo os xingamentos. Isso continuava por talvez uns vinte minutos, depois a gente se aquietava, bebia mais um pouco e recomeçava. Vivíamos sendo despejados. Fomos expulsos de tantos lugares que não consigo me lembrar de todos. Uma vez, procurando uma nova casa, batemos numa porta. A porta se abriu, e lá estava a senhoria que acabara de expulsar a gente. Ela nos viu, ficou pálida, gritou e bateu a porta...
– Jane morreu? – perguntou Rick Talbot.
– Há muito tempo. Estão todos mortos. Todos com quem eu bebia.
– Que é que mantém você de pé?
– Gosto de bater à máquina. Me emociona.
– E eu mantenho ele numa dieta de vitaminas e baixa caloria, sem carne vermelha – disse-lhe Sarah.
– Ainda bebe? – perguntou Rick.
– Sobretudo quando escrevo, ou quando aparecem visitas. Não me sinto bem com as pessoas, e depois de beber bastante elas parecem desaparecer.
– Me fale mais sobre Jane – pediu Francine.
– Bem, ela dormia com um terço debaixo do travesseiro...
– Ia à igreja?
– Em horas estranhas ia ao que chamava de “missa alka-seltzer”. Acho que começava às oito e meia da manhã e durava cerca de uma hora. Ela detestava a missa das dez horas, que muitas vezes durava duas horas.
– Ela ia à confissão?
– Nunca perguntei...
– Pode me dizer alguma coisa sobre ela que explique o seu caráter?
– Só que, apesar de todas as coisas aparentemente terríveis que fazia, os xingamentos, a loucura, o amor à garrafa, sempre fazia tudo com uma certa classe. Me agradaria pensar que aprendi algumas coisinhas sobre classe com ela...
– Quero te agradecer por essas coisas, acho que podem ajudar.
– Esteja à vontade.
Francine e sua prancheta se foram.
– Acho que nunca me diverti tanto num set – disse Rick Talbot.
– Que quer dizer, Rick? – perguntou Sarah.
– É uma sensação no ar. Às vezes, em filmes de baixo orçamento, a gente sente essa sensação, essa sensação de carnaval. Mas sinto mais aqui do que nunca...
Falava sério. Os olhos brilhavam, ele sorria com verdadeira alegria.
Pedi outra rodada de bebidas.
– Pra mim, só café – ele disse.
Chegou a nova rodada e Rick disse:
– Vejam! Lá está Sesteenov!
– Quem? – eu perguntei.
– O cara que fez aquele filme maravilhoso sobre cemitérios de bichinhos de estimação. Ei, Sesteenov!
Sesteenov aproximou-se.
– Por favor, sente-se – pedi.
Ele escorregou para dentro do reservado.
– Quer beber alguma coisa? – perguntei.
– Oh, não...
– Vejam – disse Rick Talbot –, lá está Illiantovitch!
Eu conhecia Illiantovitch. Ele fizera uns filmes darks malucos, tendo como tema principal a violência da vida vencida pela coragem das pessoas. Mas fazia isso bem, rugindo de dentro da escuridão.
Era um homem muito alto, de pescoço torto e olhos alucinados. Os olhos alucinados não se desgrudavam da gente, olhando a gente. Era meio embaraçoso.
Nós nos afastamos para deixá-lo entrar. O reservado estava cheio.
– Gostaria de um drinque? – perguntei.
– Uma vodca dupla – ele disse.
Gostei disso, acenei para o garçom.
– Vodca dupla – ele disse ao garçom, fixando-o com seus olhos alucinados. O garçom correu a cumprir seu dever.
– É uma noite sensacional – disse Rick.
Eu adorava a falta de sofisticação dele. Era preciso coragem, quando se estava por cima, para dizer que gostava do que fazia, que se divertia com o que fazia.
Illiantovitch recebeu sua vodca dupla, emborcou-a de vez.
Rick Talbot fazia perguntas a todo mundo, incluindo Sarah. Não havia nenhuma sensação de competição ou inveja no reservado. A sensação era de total bem-estar.
Aí entrou Jon Pinchot. Aproximou-se do reservado, fez uma ligeira curvatura, sorrindo:
– Vamos rodar daqui a pouco, espero. Venho chamar todos...
– Obrigado, Jon...
Ele se afastou.
– É um bom diretor – disse Rick Talbot –, mas eu gostaria de saber por que você escolheu ele.
– Foi ele que me escolheu...
– É mesmo?
– É... e eu posso te contar uma história que explicará por que é um bom diretor, e por que eu gosto dele. Mas fica aqui entre nós...
– Manda – disse Rick.
– Aqui entre nós?
– É claro...
Curvei-me para a frente no reservado e contei a história de Jon com a motosserra e o dedo mindinho.
– Isso aconteceu mesmo? – perguntou Rick.
– Aconteceu. Aqui entre nós.
– Claro...
(Eu sabia: nada é aqui entre nós, uma vez que a gente conta.)
Enquanto isso, Illiantovitch matara duas vodcas duplas e sentava-se contemplando uma terceira. Continuava me fitando. Depois puxou a carteira, retirou um sebento cartão de apresentação e me entregou. O cartão tinha os quatro cantos gastos e estava mole e preto de sujeira. Desistira de ser um cartão de apresentação. Illiantovitch parecia um gênio emporcalhado. Eu o admirei por isso. Era um sujeito sem pretensão. Ele agarrou a vodca dupla e virou-a garganta abaixo.
Depois me olhou, densamente. Mas os olhos negros me eram demais. Tive de desviar os meus. Chamei o garçom para reabastecer. Depois tornei a olhar para Illiantovitch.
– Você é o melhor – eu disse. – Depois de você, não tem mais nada.
– Não, não é assim – ele disse. – VOCÊ é o melhor! Eu te dou meu cartão! No cartão está a hora da PROJEÇÃO DE MEU NOVO FILME! VOCÊ DEVE IR VER!
– Claro, baby – eu disse, e tirei minha carteira e guardei cuidadosamente o cartão.
– Está uma noite daquelas – disse Rick Talbot.
Falaram-se mais algumas bobagens, e apareceu Jon Pinchot.
– Estamos quase prontos pra rodar. Vocês podem vir agora, pra eu arranjar lugares pra vocês?
Todos nos levantamos para segui-lo, exceto Illiantovitch. Ele afundou no reservado.
– Foda-se! Vou tomar mais vodcas duplas! Vão vocês!
Aquele bastardo roubara-me uma ou duas páginas. Acenou para o garçom, puxou um cigarro, meteu-o entre os lábios, acendeu o isqueiro e queimou um pedaço do nariz.
Bastardo.
Nós avançamos noite adentro.
– Hollywood
1 307
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Conselho Amigável Para Muitos Jovens

Vá para o Tibet.
Monte em um camelo.
Leia a bíblia.
Pinte seus sapatos de azul.
Deixe a barba crescer.
Dê a volta ao mundo numa canoa de papel.
Assine The Saturday Evening Post.
Mastigue apenas com o lado esquerdo da boca.
Case-se com uma perneta e se barbeie com uma navalha.
E entalhe seu nome no braço dela.
Escove os dentes com gasolina.
Durma o dia inteiro e suba em árvores à noite.
Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja.
Mantenha sua cabeça dentro d’água e toque violino.
Faça uma dança do ventre diante de velas cor-de-rosa.
Mate seu cachorro.
Concorra à prefeitura.
Viva num barril.
Rompa sua cabeça com uma machadinha.
Plante tulipas sob a chuva.
Mas não escreva poesia.

Para acalmar Lydia, concordei em ir até Muleshead, Utah. Sua irmã estava acampando nas montanhas. As irmãs eram na verdade donas de boa parte daquelas terras. Haviam-nas herdado do pai. Glendoline, uma das irmãs, tinha uma barraca montada na floresta. Ela estava escrevendo um romance, A mulher selvagem das montanhas. As outras irmãs chegariam qualquer dia desses. Lydia e eu chegamos primeiro. Tínhamos uma barraca pequena. Arrastamo-nos para dentro dela, seguidos pelos mosquitos. Foi um negócio pavoroso.
Na manhã seguinte nos sentamos ao redor da fogueira. Glendoline e Lydia esquentaram o café da manhã. Eu tinha gastado quarenta pratas em mercadorias que incluíam uma quantidade razoável de garrafas de cerveja. Mantinha-as geladas numa fonte da montanha. Terminamos o café. Ajudei com os pratos e então Glendoline trouxe sua novela e começou a lê-la para nós. Não era de todo má, mas estava longe de ser um texto profissional e precisava de muito polimento. Glendoline supunha que os leitores estivessem tão fascinados quanto ela por sua própria vida – o que era um erro fatal. Os outros erros de mesma natureza que ela cometera eram numerosos demais para mencionar.
Caminhei até a fonte e voltei com três garrafas de cerveja. As garotas disseram não, não queriam beber. Eram bastante contrárias à cerveja. Discutimos o romance de Glendoline. Me dei conta de que qualquer pessoa capaz de ler seu romance em voz alta para outras devia ser posta sob suspeita. Se aquilo não era o velho beijo da morte, não sei mais o que poderia ser.
A conversa mudou de rumo, e as garotas passaram a falar sobre homens, festas, dança, e sexo. Glendoline tinha uma voz alta e esganiçada e ria de um modo nervoso e constante. Ela já ia na metade dos quarenta, era gorducha e um tanto sebosa. Além disso, assim como eu, ela era simplesmente feia.
Glendoline deve ter falado por mais de uma hora sem parar, exclusivamente sobre sexo. Comecei a ficar tonto. Ela gesticulava com os braços acima da cabeça:
– SOU A MULHER SELVAGEM DAS MONTANHAS! Ó, ONDE ESTÁ O HOMEM, Ó, ONDE ESTÁ O HOMEM, O HOMEM DE VERDADE QUE TERÁ CORAGEM DE ME PEGAR?
Bem, ele certamente não estaria por aqui, pensei.
Olhei para Lydia.
– Vamos dar uma caminhada.
– Não – ela disse –, quero ler este livro. – Chamava-se Amor e orgasmo: um guia revolucionário para a realização sexual.
– Tudo bem – eu disse –, vou dar uma caminhada então.
Caminhei até a fonte da montanha. Apanhei mais uma cerveja, abri a tampinha e me sentei por ali, bebendo. Eu estava preso no meio das montanhas e da floresta com duas mulheres loucas. Elas esvaziavam toda alegria que havia numa trepada por não falarem de outra coisa o tempo todo. Eu também gostava de foder, mas não fazia disso minha religião. Havia uma série de coisas ridículas e ao mesmo trágicas sobre o assunto. As pessoas pareciam ser incapazes de lidar com isso. Então transformaram o negócio num passatempo. Um passatempo capaz de destruir pessoas.
O principal a fazer, decidi, era encontrar a mulher certa. Mas como? Tinha um caderninho vermelho comigo e uma caneta. Rabisquei um poema meditativo numa das folhas. Então caminhei em direção ao lago. Vance Pastures era o nome do lugar. As irmãs eram donas de quase toda a terra. Eu precisava dar uma cagada. Baixei as calças e me acocorei no meio do mato, cercado por moscas e mosquitos. Como seria bom poder contar com os confortos da cidade. Tive que me limpar com umas folhas. Caminhei até o lago e meti um pé na água. Estava fria como gelo.
Seja homem, seu velho. Entre.
Minha pele era branca como marfim. Me senti decrépito, muito flácido. Entrei na água gelada. Fui submergindo até a cintura, então tomei bastante fôlego e me lancei para frente. Eu tinha mergulhado por inteiro! A lama se ergueu do fundo do lago e entrou em meus ouvidos, na minha boca, grudou nos meus cabelos. Fiquei ali, em meio à água lamacenta, os dentes batendo.
Esperei por muito tempo até que a água voltasse a ficar limpa. Então retornei. Vesti minhas roupas e percorri o caminho ao longo do lago. Quando cheguei ao fim da margem, escutei um som que parecia o de uma cachoeira. Entrei na floresta, seguindo na direção do som. Tive que vencer algumas pedras através de um córrego. O som se tornava cada vez mais vivo. As moscas e os mosquitos fervilhavam ao meu redor. As moscas eram maiores e furiosas e famintas, muito maiores do que as moscas da cidade, além de saber reconhecer uma refeição quando avistavam uma.
Embrenhei-me na mata, avancei, e então lá estava: minha primeira cachoeira de verdade. A água simplesmente brotava da montanha e corria sobre uma saliência na pedra. Era uma coisa linda. A água não parava de correr. Vinha de algum lugar. E corria para algum lugar. Havia três ou quatro córregos que era bem provável que desaguassem no lago.
Por fim, cansei de olhar a cachoeira e decidi voltar. Decidi, também, tomar um caminho diferente, um atalho. Abri caminho na direção oposta ao lago, para chegar mais rápido ao acampamento. Eu tinha noção de onde ele ficava. Trazia ainda comigo o meu caderninho vermelho. Parei e escrevi outro poema, menos meditativo, e então prossegui. Continuei caminhando. Nada do acampamento. Caminhei um pouco mais. Olhei em volta à procura do lago. Não conseguia encontrá-lo, não sabia mais onde ele estava. De súbito, percebi: eu estava PERDIDO. Aquelas vadias taradas tinham me deixado louco e agora eu estava PERDIDO. Olhei em volta. Dava para ver as montanhas no horizonte e ao meu redor árvores e mato. Não havia nenhum centro, nenhum ponto de partida, nenhuma conexão entre nada. Senti medo, medo de verdade. Por que fui deixar que elas me tirassem da minha cidade, da minha Los Angeles querida? Lá um homem poderia chamar um táxi, dar um telefonema. Havia soluções razoáveis para problemas razoáveis.
Vance Pastures se estendia à minha volta por quilômetros e quilômetros. Joguei longe meu caderninho. Que modo para um escritor morrer! Já podia ver a notícia no jornal:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR,
ENCONTRADO MORTO NAS MATAS DE UTAH
Henry Chinaski, ex-funcionário dos Correios que virou escritor, foi encontrado em estado de decomposição na tarde de ontem pelo guarda florestal W. K. Brooks Jr. Perto de seu corpo também foi encontrado um pequeno caderno vermelho, que continha evidentemente os últimos escritos do sr. Chinaski.
Segui caminhando. Eu estava numa área pantanosa. A todo momento, uma de minhas pernas afundava até o joelho no lodaçal, e eu tinha que dar um jeito de libertá-la.
Acabei topando com uma cerca de arames farpados. Soube de imediato que eu não devia pular aquela cerca. Sabia que era a coisa errada a fazer, mas parecia não haver alternativa. Escalei a cerca e fiquei parado lá em cima, fiz uma concha com minhas mãos ao redor da boca e gritei:
– LYDIA!
Não houve resposta.
Tentei novamente:
– LYDIA!
Minha voz soou bastante chorosa. A voz de um covarde.
Prossegui. Seria bom, pensei, estar de novo com as irmãs, ouvindo-as falar sobre sexo e homens e sair pra dançar e festas. Seria bom ouvir a voz de Glendoline. Seria bom passar minha mão pelos longos cabelos de Lydia. De coração, eu a levaria a todas as festas da cidade. Chegaria mesmo a dançar com todas as mulheres e faria piadas maravilhosas sobre todo e qualquer assunto. Suportaria toda a bobajada que escorre das bocas com um sorriso. Quase podia me ouvir:
– Ei, essa música é ótima para dançar! Quem está querendo ir embora? Quem quer botar pra quebrar na pista de dança?
Segui caminhando através do lodo. Finalmente cheguei à terra seca. Depois, encontrei uma estrada. Não era mais que uma estrada velha e suja, mas parecia boa. Dava pra ver algumas marcas de pneu e de cascos de animais. Havia até mesmo alguns postes que levavam eletricidade para algum lugar. Tudo o que eu tinha a fazer era seguir esses fios. Caminhei ao longo da estrada. O sol ia alto no céu, devia ser perto de meio-dia. Continuei me arrastando, sentindo-me um otário.
Mais adiante avistei um portão do outro lado da estrada que estava trancado. O que significava aquilo? Havia uma pequena entrada lateral. Era evidente que o portão era de uma propriedade de gado. Mas onde estavam os animais? Onde estava o dono da fazenda? Talvez ele só aparecesse a cada seis meses.
O topo da minha cabeça começou a doer. Levei uma das mãos até ali e senti o local onde trinta anos antes, num bar da Filadélfia, eu havia tomado uma cacetada. A cicatriz nunca desapareceu por completo. Agora, tostada ao sol, a cicatriz havia inchado. Parecia um pequeno chifre. Arranquei um pedaço do tecido que a cobria e joguei na estrada.
Caminhei por mais uma hora, então decidi voltar. Isso significava ter que refazer todo o caminho percorrido, mas ainda assim me pareceu a coisa certa a fazer. Tirei minha camisa e a enrolei na cabeça. De vez em quando dava uma parada para gritar:
– LYDIA!
Não havia resposta.
Algum tempo depois cheguei de novo ao portão. Tudo o que eu precisava fazer era contorná-lo, mas havia alguma coisa no caminho. Ficava na frente do portão, a uns cinco metros de onde eu estava. Era um pequeno veado, uma gazela, algo assim.
Movi-me devagar em sua direção. O bicho não saiu do lugar. Será que me deixaria passar? Não parecia ter medo de mim. Supus que ele tivesse percebido minha confusão, minha covardia. Aproximei-me mais e mais. Ele não iria sair do caminho. Tinha olhos grandes e castanhos, olhos mais belos do que os de qualquer mulher que eu já tenha visto. Era inacreditável. Estávamos a um metro de distância, e eu prestes a recuar, quando ele se afastou. Correu para a mata além da estrada. Estava em ótima forma; era capaz de correr de verdade.
Enquanto seguia caminhando pela margem da estrada ouvi o som de água corrente. Eu precisava de água. Não se podia viver por muito tempo sem água. Abandonei a estrada e segui na direção do som da água corrente. Havia um pequeno monte coberto de grama e, assim que o venci, lá estava: água corrente, jorrando de canos de cimento para dentro de uma represa e então para um tipo de reservatório. Sentei-me à beira do reservatório e tirei meus sapatos e minhas meias, arregacei as calças e enfiei minhas pernas na água. Então despejei água sobre minha cabeça. Depois a bebi – mas não muito ou muito depressa –, do mesmo modo como vi fazerem nos filmes.
Depois de me recuperar um pouco, reparei num píer que se projetava sobre o reservatório. Caminhei até ali e me deparei com uma grande caixa de metal, fixada num dos lados do píer. Estava trancada com um cadeado. Era bem provável que houvesse um telefone ali dentro! Eu podia ligar e pedir ajuda!
Fui em busca de uma pedra de bom tamanho e comecei a golpear o cadeado com ela. A tranca não cedia. O que Jack London faria? O que Hemingway faria? Jean Genet?
Continuei golpeando o cadeado com a pedra. Às vezes eu errava o golpe e minha mão atingia o cadeado ou a própria caixa de metal. A pele lacerada, o sangue escorrendo. Reuni minhas forças e disparei um último golpe. O cadeado abriu. Retirei-o e abri a caixa. Não tinha nenhum telefone lá dentro. Havia uma série de comandos e alguns cabos de grosso calibre. Pus minha mão ali, toquei num dos fios e levei um choque terrível. Então acionei um dos comandos. Escutei o rugir das águas. De três ou quatro buracos que estavam na face de concreto da represa jorraram jatos brancos e gigantescos de água. Puxei outro dos comandos. Mais três ou quatro buracos se abriram, liberando toneladas de água. Puxei um terceiro comando, e a represa inteira começou a soltar água. Fiquei ali parado, assistindo a água se espalhar. Talvez eu pudesse dar início a uma inundação, de modo que os caubóis em seus cavalos ou em suas pequenas e robustas picapes viessem me resgatar. Já podia ver a manchete:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR, PROVOCA ALAGAMENTO NO INTERIOR DE UTAH PARA SALVAR SEU DELICADO RABO DE HOMEM DA CIDADE GRANDE.
Decidi que isso estava mal. Reverti todos os comandos para a posição normal, fechei a caixa de metal e coloquei o cadeado rompido de volta no seu lugar.
Deixei o reservatório e encontrei outra estrada pelo caminho, que passei a seguir. Esta, porém, parecia ser mais utilizada que a anterior. Avancei por ali. Nunca antes me sentira tão cansado. Eu já não enxergava mais nada. De repente uma garotinha de cinco anos caminhava em minha direção. Trazia um vestidinho azul e sapatos brancos. Pareceu se assustar ao me ver. Tentei, enquanto me aproximava dela cada vez mais, parecer alguém agradável e digno de confiança.
– Não fuja, garotinha. Não vou machucar você. ESTOU PERDIDO! Onde estão seus pais? Garotinha, me leve até seus pais!
A garotinha apontou numa direção. Vi um trailer e um carro estacionados logo à frente.
– EI, ESTOU PERDIDO! – gritei. – POR DEUS, QUE ALEGRIA VER VOCÊ.
Lydia contornou o trailer. Seu cabelo estava cheio de bobes vermelhos.
– Vamos lá, garoto da cidade – ela disse. – Me siga até em casa.
– Estou tão feliz em ver você, baby, me beija!
– Não. Me siga.
Lydia disparou correndo, uns dez metros na minha frente. Era difícil acompanhá-la.
– Perguntei pro pessoal aí se eles tinham visto um garoto da cidade nas redondezas – ela gritou, por sobre o ombro. – E eles disseram: não.
– Lydia, eu te amo!
– Vamos, você parece uma lesma!
– Espere, Lydia, espere!
Ela pulou uma cerca de arames farpados. Eu não consegui. Fiquei preso. Não podia me mover. Era como uma vaca presa.
– LYDIA!
Ela retornou com seus bobes vermelhos e me ajudou a me livrar dos arames farpados.
– Eu segui você. Encontrei o seu caderninho vermelho. Você se perdeu de propósito só porque estava puto da cara.
– Não, eu me perdi por causa da minha ignorância, do meu medo. Não sou uma pessoa completa: sou uma dessas pessoas incapazes da cidade. Sou mais ou menos como um monte de merda fracassada, não tenho absolutamente nada a oferecer.
– Jesus – ela disse –, você acha, por acaso, que eu não sei disso?
Libertou-me do último arame. Lancei-me atrás dela. Eu estava outra vez com Lydia.
– Mulheres
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Você Não Consegue Escrever Uma História de Amor

Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas e ele iria trepar com esse sujeito. Então Margie foi até a casa de Carl. Carl estava em casa e ela se sentou e disse para Carl:
– Um sujeito ia me levar para um café com mesas na calçada e íamos beber vinho e conversar, só beber vinho e conversar, só isso, nada mais, mas, no caminho para me encontrar, esse sujeito encontrou outro com um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro lhe mostrou as tetas e agora esse sujeito vai trepar com o sujeito com casaco de couro e eu fico sem minha mesa e meu vinho e minha conversa.
– Não consigo escrever – disse Carl. – Acabou-se.
Então ele se levantou e foi até o banheiro, fechou a porta e deu uma cagada. Carl cagava quatro ou cinco vezes por dia. Não havia mais nada a fazer. Ele tomava cinco ou seis banhos por dia. Não havia mais nada a fazer. Ficava bêbado pela mesma razão.
Margie ouviu a descarga da privada. Então Carl saiu do banheiro.
– Um homem simplesmente não consegue escrever oito horas por dia. Nem mesmo consegue escrever todo dia ou toda semana. É uma situação péssima. Não há nada a fazer além de esperar.
Carl foi até a geladeira e voltou com um pacote de seis garrafas de cerveja Michelob. Abriu uma garrafa.
– Sou o maior escritor do mundo – ele disse. – Você sabe como isso é difícil?
Margie não respondeu.
– Posso sentir a dor rastejando por todo o meu corpo. É como uma segunda pele. Queria poder me livrar dessa pele como uma cobra.
– Bem, por que você não se deita no tapete e tenta?
– Escute – ele perguntou –, onde foi que a conheci?
– Na Bodega do Barney.
– Bem, isso explica um pouco as coisas. Beba uma cerveja.
Carl abriu uma garrafa e lhe entregou.
– É... – disse Margie – eu sei. Você precisa do seu isolamento. Você precisa ficar sozinho. Exceto quando quer trepar, ou exceto quando nos separamos, então você me liga. Diz que precisa de mim. Diz que está morrendo por causa de uma ressaca. Você enfraquece rápido.
– Enfraqueço rápido.
– E fica tão inerte quando estou por perto, nunca se excita. Vocês escritores são tão... preciosos... não suportam pessoas. A humanidade fede, certo?
– Certo.
– Mas toda vez que nos separamos você começa a fazer festas gigantes que duram quatro dias. E de repente você acorda, começa a FALAR! De repente fica cheio de vida, falando, dançando, cantando, dança em cima da mesa de café, joga garrafas pela janela, encena trechos de Shakespeare. De repente, você está vivo... quando estou longe. Ah, fiquei sabendo de tudo!
– Não faço festas. Odeio ainda mais as pessoas nas festas.
– Para um sujeito que não gosta de festas, certamente você organiza um bocado delas.
– Escute, Margie, você não entende. Não consigo mais escrever. Estou acabado. Em algum lugar tomei uma trajetória errada. Em algum momento, morri durante a noite.
– O único jeito de você morrer é numa dessas suas ressacas gigantescas.
– Jeffers diz que até mesmo o mais forte dos homens fica encurralado.
– Quem foi Jeffers?
– Foi o sujeito que transformou Big Sur numa armadilha para turistas.
– O que você ia fazer essa noite?
– Ia ouvir as músicas de Rachmaninoff.
– Quem é?
– Um russo que já morreu.
– Olha para você. Fica aí sentado.
– Estou esperando. Alguns sujeitos esperam por dois anos. Às vezes a coisa nunca volta.
– E se nunca voltar?
– Apenas calçarei meus sapatos e descerei até a rua principal.
– Por que não arranja um emprego decente?
– Não existem empregos decentes. Se um escritor não consegue sucesso através da criação, está morto.
– Ah, para com isso, Carl! Existem bilhões de pessoas no mundo que não atingem o sucesso pela criação. Quer me dizer que elas estão mortas?
– Sim.
– E você tem uma alma? Você é um dos poucos que tem uma alma?
– Diria que sim.
– Diria que sim! Você e a sua maquininha de escrever! Você e os seus cheques mirrados! Minha avó ganha mais dinheiro do que você!
Carl abriu outra garrafa de cerveja.
– Cerveja! Cerveja! Você e a porra da sua cerveja! Isso está nas suas histórias também. “Marty ergueu sua cerveja. Quando levantou os olhos, uma tremenda loira entrou no bar e sentou ao seu lado...” Você está certo. Está acabado. Seu material é limitado, muito limitado. Você não consegue escrever uma história decente de amor.
– Você está certa, Margie.
– Se um homem não consegue escrever uma história de amor, ele é um inútil.
– Quantas você já escreveu?
– Não digo que sou uma escritora.
– Mas – disse Carl – você parece posar como uma crítica literária infernal.
Margie, depois disso, foi logo embora. Carl ficou sentado e bebeu o resto das cervejas. Era verdade, a escrita o havia deixado. Isso deixaria algum de seus inimigos do subsolo felizes. Eles poderiam aumentar em um tento a marca dos inimigos abatidos. A morte os agradava, em cima ou embaixo da terra. Lembrou-se de Endicott, Endicott sentado, dizendo:
– Bem, Hemingway se foi, Dos Passos se foi, Patchen se foi, Pound se foi, Berryman pulou daquela ponte... as coisas estão parecendo cada vez melhores.
O telefone tocou. Carl atendeu.
– Sr. Gantling?
– Sim – ele respondeu.
– Gostaríamos de saber se você estaria interessado em uma leitura de algum dos seus trabalhos na Faculdade Fairmount.
– Bem, sim, qual a data?
– No dia 30 do próximo mês.
– Acho que não tenho nada marcado para esse dia.
– Nosso pagamento geralmente é de cem dólares.
– Geralmente recebo 150. Ginsberg ganha mil.
– Mas ele é Ginsberg. Podemos oferecer apenas cem.
– Tudo bem.
– Bom, sr. Gantling. Enviaremos os detalhes para você.
– E o transporte? Dirigir até aí não é pouca coisa.
– Ok, 25 dólares pela viagem.
– Ok.
– Gostaria de falar com os estudantes em suas classes?
– Não.
– Oferecemos um almoço grátis.
– Vou aceitar o almoço.
– Bom, sr. Gantling, estaremos esperando para vê-lo em nosso campus.
– Nos falamos.
Carl foi até o quarto. Olhou para a máquina de escrever. Colocou uma folha de papel no rolo, então observou uma garota com uma minissaia surpreendentemente curta cruzar pela frente de sua janela. Depois começou a escrever:
“Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas...”
Carl ergueu sua cerveja. Era bom voltar a escrever.
– Ao sul de lugar nenhum
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Dia Em Que Mandei Meu Pé-De-Meia Pro Espaço

e, eu disse, você pode pegar seus tios e tias ricos
e avós e pais
e todo o petróleo fétido deles
e seus sete lagos
e todos os seus perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus espantalhos
e suas caminhadas de sábado à noite no calçadão,
e sua biblioteca de 50 centavos
e seus vereadores corruptos
e seus artistas aveadados –
pode pegar tudo isso
e seu jornal semanal
e seus famosos tornados,
e suas nojentas enchentes
e todos os seus gatos miantes
e sua assinatura da Time,
e enfiar no rabo, baby,
bem no meio do rabo.
posso voltar a manusear uma picareta e um machado (acho)
e posso arranjar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode esconder os fios
grisalhos do meu cabelo;
e ainda posso escrever um poema (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e dar tiros em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece a girar.
tudo bem, vagabundo, ela disse,
dê o fora.
o quê? eu disse
dê o fora. você teve seu
último acesso de fúria.
cansei dos seus acessos de fúria:
você sempre atua como um
personagem de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, baby,
não consigo
evitar.
você é diferente, essa é boa!
Nossa, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, baby, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer afinal
um mentiroso ou um
amante?
de você não quero nada! se manda, vagabundo,
se manda!
... mas baby!
volta lá pro seu O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a com cuidado e me afastei,
pensando: tudo o que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado junto ao fogo e
não faça muito barulho;
mas acontece que você já não é mais
uma criança, rapaz;
da próxima vez jogue visando
o pé-de-
meia.

Passei o Natal com Betty. Ela assou um peru e nós bebemos. Betty sempre gostou de grandes árvores de Natal. Essa devia ter uns dois metros de altura por um de largura, coberta com luzes, lâmpadas elétricas, lantejoulas e outras porcarias. Bebemos várias doses de uísque, fizemos amor, comemos nosso peru, bebemos mais um pouco. O prego da base estava frouxo e a base não era grande o suficiente para dar suporte à árvore. Eu ficava tentando ajeitá-lo. Betty se esticou na cama e apagou. Eu bebia no chão, de cuecas. Então também me estiquei. Fechei os olhos. Alguma coisa me despertou. Abri os olhos. Bem a tempo de ver a enorme árvore coberta de luzes quentes se inclinar devagar em minha direção, a estrela pontuda descendo como uma adaga. Não consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo. Não conseguia me mexer. Os galhos da árvore me impediam. Eu estava debaixo dela. As lâmpadas incandesciam.
– Oh, OH, JESUS CRISTO, TENHA PIEDADE! SENHOR, ME AJUDE! JESUS! JESUS! SOCORRO!
As lâmpadas me queimavam. Rolei para a esquerda, mas não consegui me libertar, depois rolei para a direita.
– AI!
Finalmente consegui escapar rolando de baixo da árvore. Betty estava de pé, parada.
– O que aconteceu? O que é isso?
– NÃO ESTÁ VENDO? ESSA MALDITA ÁRVORE TENTOU ME MATAR!
– O quê?
– SIM, OLHA PRA MIM!
Meu corpo estava coberto de marcas vermelhas.
– Oh, pobrezinho!
Segui até a parede e desliguei a árvore da tomada. As luzes se apagaram. A coisa estava morta.
– Oh, minha pobre arvorezinha!
– Pobre arvorezinha?
– É, me deu tanta pena!
– Amanhã de manhã eu boto ela de pé de novo. Não confio nela agora. Vou deixar que descanse durante a noite.
Ela não gostou da ideia. Senti que teria de enfrentar um bate-boca, então coloquei o negócio de pé, apoiado numa cadeira, e acendi as luzes outra vez. Se a coisa tivesse queimado seus peitos ou seu rabo, ela teria jogado o negócio pela janela. Aquilo me pareceu uma extrema gentileza da minha parte.
Alguns dias depois do Natal apareci na casa de Betti para vê-la. Ela estava sentada em seu quarto, bêbada, às 8h45 da manhã. Seu aspecto não era nada bom, o que também se poderia dizer de mim naquela ocasião. Era como se cada um dos pensionistas tivesse dado a ela um pouco de bebida. Havia de tudo: vinho, vodca, uísque, scotch. Das marcas mais baratas. As garrafas enchiam o quarto.
– Esses cretinos! Será que eles não conhecem ninguém melhor? Se você beber todo esse negócio é morte na certa!
Betty apenas me olhou. Pude perceber tudo naquele olhar.
Ela tinha um filho e uma filha que nunca vinham visitá-la, sequer lhe escreviam. Era uma faxineira num hotel barato. Quando a conheci, suas roupas eram caras, tornozelos bem torneados em sapatos de luxo. Era toda rija, quase bela. Olhos selvagens. Sorridente. Vinda de um marido rico, recém-divorciada, ele que logo morreria num acidente de carro, bêbado, queimado vivo em Connecticut.
– Você jamais irá domá-la – me diziam.
Ali estava ela. Mas eu tinha recebido alguma ajuda.
– Escute – eu disse –, tenho que levar uma parte desse negócio. Quero dizer, de vez em quando eu lhe entrego uma garrafa. Não vou bebê-las.
– Deixe as garrafas – disse Betty. Não me olhava. Seu quarto ficava no último andar e ela se sentava junto à janela, acompanhando o tráfego da manhã.
Me aproximei.
– Veja, estou acabado. Tenho que ir embora. Mas pelo amor de Deus, pegue leve com esse negócio!
– Claro – ela disse.
Inclinei-me e lhe dei um beijo de despedida.
Retornei cerca de uma semana e meia depois. Não houve qualquer resposta para as minhas batidas.
– Betty! Betty! Você está bem?
Girei a maçaneta. A porta estava aberta. A cama estava virada. Havia uma enorme mancha de sangue no lençol.
– Ah, caralho! – eu disse. Olhei em volta. Todas as garrafas tinham sumido.
Então olhei mais uma vez ao meu redor. Ali estava a francesa de meia-idade que era dona do lugar. Ficou junto à porta.
– Ela está no Hospital Geral do Condado. Estava muito doente. Chamei a ambulância na noite passada.
– Ela bebeu todo aquele negócio?
– Teve alguma ajuda.
Desci correndo as escadas e entrei no meu carro. Logo cheguei lá. Conhecia bem o lugar. Informaram-me o número do quarto.
Havia três ou quatro camas num quarto apertado. Uma mulher estava sentada sobre a sua no sentido cruzado, mastigando uma maçã e rindo com duas visitantes do sexo feminino. Puxei a cortina divisória que circundava a cama de Betty, sentei-me no banquinho e me inclinei sobre ela.
– Betty! Betty!
Toquei seu braço.
– Betty!
Seus olhos se abriram. Eram novamente belos. De um azul sereno e brilhante.
– Tinha certeza de que era você – ela disse.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Seus lábios estavam ressecados. Restos de saliva amarelada haviam se acumulado no canto esquerdo de sua boca. Peguei um lenço e removi os resíduos. Limpei seu rosto, suas mãos, sua garganta. Peguei outro lenço e espremi um pouco de água em sua língua. Depois um pouco mais. Molhei seus lábios. Ajeitei seus cabelos. Podia ouvir as mulheres rindo através da cortina que nos separava.
– Betty, Betty, Betty. Por favor, quero que você beba um pouco de água, apenas um golinho, não precisa ser muito, só um gole.
Ela não respondeu. Tentei aquilo por uns dez minutos. Nada.
Mais restos de saliva se formaram em sua boca. Removi-os.
Então me levantei e fechei a cortina. Fiquei olhando para as três mulheres.
Me afastei e falei com a enfermeira encarregada.
– Escute, por que ninguém faz nada em relação à mulher do 45-c? Betty Williams.
– A gente faz o que pode, senhor.
– Mas não há ninguém ali.
– Fazemos nossas rondas regulares.
– Mas onde estão os médicos? Não vi nenhum médico.
– O doutor já a examinou, senhor.
– Como é que vocês a abandonam lá daquele jeito?
– A gente faz o que pode, senhor.
– SENHOR! SENHOR! SENHOR! ESQUEÇA ESSA PORRA DE “SENHOR”! Aposto que se fosse o presidente ou o governador ou o prefeito ou um filho da puta qualquer cheio da grana, então haveria um montão de médicos ao redor do quarto fazendo alguma coisa! Por que vocês simplesmente não deixam o pessoal morrer? Que pecado há em ser pobre?
– Já lhe disse, meu senhor, estamos fazendo TUDO ao nosso alcance.
– Voltarei em duas horas.
– O senhor é o marido?
– Eu vivia com ela em concubinato.
– Pode nos deixar seu nome e um número de telefone?
Passei-lhe as informações e saí apressado.
O funeral estava marcado para as dez e meia e já fazia calor. Eu vestia um terno preto barato, comprado e ajustado às pressas. Era o meu primeiro terno novo em anos. Conseguira localizar o filho. Seguimos em seu Mercedes-Benz novinho. Tinha conseguido localizá-lo com a ajuda de uma tira de papel com o endereço de seu sogro. Duas chamadas de longa distância e cheguei até ele. Quando finalmente conseguiu se deslocar até aqui, sua mãe já estava morta. Morreu enquanto eu fazia as ligações. O rapaz, Larry, jamais tinha se enquadrado nas normas da sociedade. Tinha o hábito de roubar os carros dos amigos, mas entre os amigos e o tribunal dava um jeito de resolver as coisas. Então o exército o apanhou, e, de alguma maneira, entrou para um programa de treinamento, o que fez com que, assim que saísse, arranjasse um emprego muito bem pago. Foi quando deixou de ver a mãe, quando conseguiu esse bom emprego.
– Onde está sua irmã? – perguntei.
– Não sei.
– É um carro bacana. Não dá nem pra ouvir o motor.
Larry sorriu. Gostou do comentário.
Havia apenas três pessoas acompanhando o funeral: o filho, o amante e a irmã retardada da dona do hotel. Seu nome era Marcia. Marcia nunca dizia nada. Ficava apenas sentada, com um sorriso vazio nos lábios. Sua pele era branca como esmalte. Tinha um cabelo armado, de um amarelo mortiço, e um chapéu que não assentava. Marcia havia sido mandada pela dona do hotel para representá-la. A dona não podia perder seu negócio de vista.
Claro, eu estava com uma ressaca dos diabos. Paramos para tomar um café.
Àquela altura, então, já tinham ocorrido alguns problemas com o funeral. Larry tivera uma discussão com o padre católico. O padre não queria realizar o serviço. Finalmente foi decidido que ele faria o serviço pela metade. Bem, metade era melhor do que nada.
Tivemos problemas até com as flores. Eu havia comprado uma coroa de rosas, rosas misturadas, que foram arranjadas de modo a compor uma coroa. A floricultura passou a tarde inteira em cima do arranjo. A dona da floricultura tinha conhecido Betty. Haviam tomado umas e outras na época em que Betty e eu, alguns anos antes, morávamos numa casa com cachorro. Seu nome era Delsie. Sempre desejara chegar ao que estava debaixo das calcinhas de Delsie, mas nunca tinha conseguido.
Delsie tinha me telefonado.
– Hank, qual é o problema com esses cretinos?
– Que cretinos?
– Esses caras da funerária.
– Qual é o problema?
– Bem, eu mandei um rapaz na caminhonete para entregar a coroa e eles não deixaram ele entrar. Disseram que estavam fechados. Você sabe, é uma distância enorme.
– E aí, Delsie?
– Bem, por fim os caras deixaram ele pôr as flores para dentro, mas não pôde colocá-las no refrigerador. Então o rapaz teve que deixar elas ali mesmo. Que diabos há com essas pessoas?
– Não sei. Que diabos há com todo mundo?
– Não conseguirei ir ao funeral. Você está bem, Hank?
– Por que você não vem me consolar?
– Teria que levar o Paul.
Paul era seu marido.
– Esqueça.
Então assim estávamos, a caminho de nosso meio-funeral.
Larry ergueu os olhos do café.
– Vou escrever para você mais tarde para a gente ver o negócio da lápide. Agora estou pelado.
– Tudo bem – eu disse.
Larry pagou os cafés, então nós saímos e embarcamos no Mercedes-Benz.
– Espere um minuto – eu disse.
– O que foi? – perguntou Larry.
– Acho que esquecemos alguma coisa.
Retornei ao café.
– Marcia.
Ela seguia sentada à mesa.
– Estamos indo, Marcia.
Ela se levantou e me seguiu até a rua.
– Cartas na rua
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Charles Bukowski

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Minha Tiete

fiz uma leitura no último sábado no
bosque para além de Santa Cruz
e estava a 3/4 do final
quando escutei um grito longo e desesperado
e uma jovem bastante
atraente veio correndo em minha direção
vestido longo & fogo divino nos olhos
e invadiu o palco
e gritou: “EU QUERO VOCÊ!
EU QUERO VOCÊ! ME LEVE! ME
LEVE!”
eu disse a ela: “olhe, fique longe
de mim”.
mas ela continuava agarrada às minhas
roupas e se esfregando em
mim.
“onde você estava”, eu lhe perguntei, “quando eu
vivia com apenas uma barra de doce por dia e
mandava meus contos para a
Atlantic Monthly?”
ela agarrou minhas bolas e quase
as arrancou. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
a carregaram para dentro do
bosque.
eu ainda podia ouvir seus gritos
quando comecei o poema seguinte.
talvez, pensei, eu devesse
tê-la possuído naquele palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas alguém nunca pode ter certeza
se isso é boa poesia ou
ácido de má qualidade.

Fiquei dois dias sem ver Lydia, embora tenha dado um jeito de telefonar para ela umas sete ou oito vezes nesse período. Então o fim de semana chegou. Seu ex-marido, Gerald, costumava ficar com as crianças nos fins de semana.
Peguei o carro e fui até onde ela morava naquele sábado, às onze da manhã, e bati na porta. Ela estava com um jeans apertado, botas, blusa laranja. Seus olhos castanhos pareciam mais escuros do que nunca e, à luz do sol, ela abriu a porta, fazendo com que eu notasse um tom natural em seus cabelos escuros. Aquilo foi surpreendente. Me deixou beijá-la; então fechou a porta atrás de nós e fomos até o meu carro. A gente tinha decidido ir à praia – não para tomar banho –, pois era pleno inverno, mas só para fazer alguma coisa.
Seguimos. Era bom ter Lydia no carro comigo.
– Que festa aquela – ela disse. – Você chama aquilo de festa de colação? Aquilo era uma festa da copulação, isso sim. Uma festa da copulação!
Eu dirigia com uma das mãos, enquanto a outra descansava na parte interna da coxa de Lydia. Não conseguia evitar. Ela não parecia se importar. Eu ia dirigindo, e a mão escorregou por entre suas pernas. Ela continuou a conversar. De repente, ela disse:
– Tire a mão. Aí é a minha buceta!
– Desculpe – eu disse.
Nenhum de nós disse nada até chegarmos ao estacionamento em Venice Beach.
– Você quer um sanduíche e uma coca, algo assim? – perguntei.
– Beleza – ela disse.
Entramos num mercadinho judeu pra comprar as coisas e as levamos para um montinho gramado que dava para o mar. Tínhamos sanduíches, picles, batatas fritas e refrigerantes. A praia estava quase deserta e a comida estava com um gosto bom. Lydia não dizia nada. Fiquei espantado com a rapidez com que ela comia. Estraçalhava o sanduíche com selvageria, tomava grandes goles de coca, comia metade de um picles com uma só mordida e pegava enormes punhados de batata frita. Eu, ao contrário, como muito devagar.
Paixão, pensei, ela exalava paixão.
– Que tal esse sanduíche? – perguntei.
– Uma beleza. Eu estava com fome.
– Eles fazem sanduíches legais. Quer mais alguma coisa?
– Sim, queria um doce.
– De que tipo?
– Ah, qualquer um. Um que fosse gostoso.
Dei uma mordida no meu sanduíche, tomei um gole de Coca, larguei tudo e fui até o mercadinho. Comprei dois doces, assim ela poderia escolher. Na volta, vi que um negro alto se dirigia ate o montinho. Era um dia frio, mas o cara estava sem camisa e tinha um corpo bem musculoso. Parecia ter vinte e poucos anos. Andava devagar e ereto. Tinha um pescoço longo, magro, e um brinco de ouro pendurado na orelha esquerda. Passou na frente de Lydia, pela areia, entre ela e o mar. Subi no montinho e sentei ao lado de Lydia.
– Você viu aquele cara? – ela perguntou.
– Sim.
– Jesus, e eu estou com você, vinte anos mais velho do que eu. Podia pegar alguém como ele... O que há de errado comigo, afinal?
– Olhe. Trouxe dois doces. Pegue um.
Pegou um, rasgou o invólucro, deu uma mordida e ficou olhando o rapaz negro que se afastava ao longo da praia.
– Cansei da praia – ela disse –, vamos voltar para minha casa.
Ficamos uma semana sem nos ver. Então, certa tarde, lá estava eu na casa de Lydia, os dois na cama, nos beijando. Lydia se afastou.
– Você não entende nada de mulher, não é mesmo?
– Do que você está falando?
– Quero dizer, ao ler seus poemas e seus contos dá pra ver que você não entende nada de mulher.
– Me fale mais.
– Bem, é que para eu me interessar por um homem ele tem que chupar minha buceta. Você já chupou uma buceta?
– Não.
– Você tem mais de cinquenta anos e nunca chupou uma buceta?
– Não.
– Tarde demais.
– Por quê?
– Não dá pra ensinar truque novo pra cachorro velho.
– Claro que dá.
– Não, é tarde demais pra você.
– Sempre demorei pra arrancar na largada.
Lydia se levantou e foi até a sala. Voltou com um lápis e um pedaço de papel.
– Agora, veja bem, vou mostrar uma coisa pra você. – Começou a desenhar no papel. – Bem, isso é uma buceta, e aqui fica um negócio de que você provavelmente nunca ouviu falar: o clitóris. Aqui é o lugar onde estão as sensações. O clitóris se esconde, consegue ver, ele sai pra fora de vez em quando, é cor-de-rosa e muito sensível. Às vezes ele se esconde de você e é preciso achá-lo. Basta tocar nele com a ponta da língua...
– Ok – eu disse –, entendi tudo.
– Acho que você não vai conseguir. Já disse, não dá pra ensinar truque novo pra um cachorro velho.
– Vamos tirar a roupa e nos deitar.
A gente se despiu e se esticou na cama. Comecei a beijar Lydia. Desci dos lábios para o pescoço, e daí para os peitos. Depois, deslizei até o umbigo. Desci mais.
– Você não conseguirá – ela disse. – Sai sangue e urina daí; pense nisso, sangue e urina...
Fui lá embaixo e comecei a lamber. Ela fizera um desenho acurado para mim. Tudo estava onde devia estar. Ouvi sua respiração ficar pesada; depois gemidos. Aquilo me excitou. Fiquei de pau duro. O clitóris se revelou, mas não era exatamente rosado, era de um rosa-púrpura. Aticei o clitóris. Brotaram uns sucos que se misturaram com os pentelhos. Lydia gemia sem parar. Então escutei a porta da frente abrir e fechar. Ouvi passos. Ergui os olhos. Um negrinho de uns cinco anos estava ali parado, ao lado da cama.
– Mas que diabos você quer aqui? – perguntei.
– Tem alguma garrafa vazia? – perguntou.
– Não, não tenho nenhuma garrafa vazia – respondi.
Ele saiu do quarto para a sala, saiu pela porta da frente e se foi.
– Deus – disse Lydia –, achei que a porta da frente estava trancada. Era o garotinho da Bonnie.
Lydia se levantou e trancou a porta da frente. Voltou e se estendeu na cama. Eram umas quatro horas da tarde de sábado.
Voltei a mergulhar ali.
– Mulheres
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Dança do Cachorro Branco

Henry pegou o travesseiro, embolou-o atrás da cabeça e ficou esperando. Louise entrou com as torradas, geleia e café. A torrada com manteiga.
– Tem certeza de que não quer dois ovos cozidos? – ela perguntou.
– Não, tudo bem. Está ótimo.
– Devia comer dois ovos cozidos.
– Tudo bem, então.
Louise saiu do quarto. Ele se levantara antes para ir ao banheiro e notara que suas roupas tinham sido penduradas. Coisa que Lita jamais fazia. E Louise era uma foda excelente. Sem filhos. Ele adorava o modo como ela fazia tudo, suavemente, cuidadosamente. Lita estava sempre no ataque – só arestas. Quando Louise voltou com os ovos cozidos, ele perguntou-lhe:
– Que é isso?
– Que é o quê?
– Você até descascou os ovos. Quer dizer, por que seu marido se divorciou de você?
– Ah, espere – ela disse –, o café está fervendo!
E saiu correndo do quarto.
Ele ouvia música clássica com ela. Ela tocava piano. Tinha livros: O Deus selvagem, de Alvarez; A vida de Picasso, de E. B. White; e. e. cummings; T. S. Eliot; Pound; Ibsen; e por aí afora. Tinha até nove livros dele mesmo. Talvez isso fosse o melhor.
Louise voltou e meteu-se na cama, o prato no colo.
– Que foi que deu errado no seu casamento?
– Qual deles? Foram cinco!
– O último. Lita.
– Ah. Bem, a menos que estivesse em movimento, Lita achava que nada estava acontecendo. Gostava de danças e festas, toda a vida dela girava em torno de danças e festas. Gostava do que chamava de “ficar ligadona”. O que significa homens. Dizia que eu restringia os “baratos” dela. Dizia que eu era ciumento.
– Você reprimia ela?
– Acho que sim, mas tentava não fazer isso. Na última festa, saí para o quintal com minha cerveja e deixei ela mandar ver. A casa estava cheia de homens, eu ouvia ela lá dentro berrando “Iá–rru!Iá Ru! Iá Ru!” Acho que era só uma garota do interior desinibida.
– Você podia dançar também.
– Acho que sim. Às vezes dançava. Mas ligam o estéreo tão alto que a gente não consegue nem pensar. Eu saía para o quintal. Voltava pra pegar mais cerveja, e lá estava um cara beijando ela debaixo da escada. Eu saía até eles acabarem, depois voltava de novo pra pegar a cerveja. Estava escuro, mas eu achava que tinha sido um amigo, e depois perguntava a ele o que fazia lá embaixo da escada.
– Ela amava você?
– Dizia que sim.
– Sabe, dançar e beijar não é tão mal assim.
– Acho que não. Mas você tinha de ver ela. Tinha uma maneira de dançar como se estivesse se oferecendo em sacrifício. Para estupro. Funcionava muito. Os homens adoravam. Ela tinha 33 anos e dois filhos.
– Ela não entendia que você era um solitário. Os homens têm naturezas diferentes.
– Ela nunca levou em conta minha natureza. Como eu disse, se não estivesse em movimento, ela achava que nada acontecia. Fora isso, vivia de saco cheio. “Oh, isso me enche, aquilo me enche. Tomar o café da manhã com você me enche. Ver você escrever me enche. Preciso de desafios.”
– Isso não me parece inteiramente errado.
– Acho que não. Mas você sabe, só pessoas que enchem o saco ficam de saco cheio. Têm de viver se cutucando continuamente pra se sentir vivas.
– Como sua bebida, por exemplo?
– É, como minha bebida. Também não posso encarar a vida de frente.
– O problema era só esse?
– Não, ela era ninfomaníaca mas não sabia. Dizia que eu satisfazia ela sexualmente, mas duvido que eu satisfizesse a ninfomania espiritual. Foi a segunda ninfo com quem vivi. Tinha ótimas qualidades fora isso, mas a ninfomania era um vexame. Tanto para mim quanto pra meus amigos. Eles me puxavam para um lado e diziam: “Que diabos deu nela?” E eu respondia: “Nada, é só uma garota do interior.”
– E era?
– Era. Mas a outra coisa era um vexame.
– Mais torrada?
– Não, esta está bem.
– O que era um vexame?
– O comportamento dela. Se tivesse outro homem na sala, ela se sentava tão perto dele quanto possível. Ele se curvava pra apagar o cigarro no cinzeiro no chão, ela se curvava também. Ele virava a cabeça pra olhar alguma coisa, ela virava também.
– Era coincidência?
– Eu pensava assim. Mas acontecia vezes demais. O homem se levantava para atravessar a sala, ela se levantava e ia ao lado dele. Quando ele atravessava a sala de volta, lá vinha ela ao lado dele. Os incidentes eram contínuos e numerosos e, como eu disse, vexatórios tanto pra mim quanto pra meus amigos. E no entanto tenho certeza de que ela não sabia o que fazia, vinha tudo do subconsciente.
– Quando eu era mocinha, tinha uma mulher no bairro com uma filha de quinze anos. A filha era incontrolável. A mãe mandava ela comprar pão, ela voltava oito horas depois com o pão, mas nesse tempo tinha fodido com seis homens.
– Acho que a mãe devia fazer seu próprio pão.
– Acho que sim. A garota não se continha. Assim que via um homem, começava a se rebolar toda. A mãe acabou mandando castrar ela.
– E podem fazer isso?
– Podem, mas é preciso passar por tudo que é processo legal. Não se podia fazer mais nada com ela. Tinha passado a vida grávida.
– Você tem alguma coisa contra a dança? – continuou Louise.
– A maioria das pessoas dança por prazer, pra se sentir bem. Ela passava pra sacanagem. Uma das danças favoritas dela era a Dança do Cachorro Branco. O cara trançava uma das pernas dela entre as dele e mexia pra frente e pra trás como um cachorro com tesão. Outra favorita era a Dança do Bêbado. Ela e o parceiro acabavam no chão, rolando um por cima do outro.
– Ela dizia que você tinha ciúmes da dança dela?
– Era a palavra que ela usava a maioria das vezes: ciúmes.
– Eu dançava no ginásio.
– É? Escuta, obrigado pelo café.
– Tudo bem. Eu tinha um parceiro no ginásio. A gente era os melhores dançarinos da escola. Ele tinha três bagos; eu achava isso um sinal de masculinidade.
– Três bagos?
– É, três bagos. Como eu ia dizendo, a gente sabia mesmo dançar. Eu dava o sinal tocando o pulso dele, e aí a gente saltava e virava em pleno ar, muito alto, e caía de pé. Uma vez, a gente estava dançando, e eu toquei o pulso dele e dei meu salto e virada, mas não caí de pé. Caí de bunda. Ele pôs a mão na boca, ficou me olhando e disse: “Ó, meu deus do céu!” e se mandou. Não me levantou. Era homossexual. Nunca mais dançamos juntos.
– Tem alguma coisa contra homossexuais de três bagos?
– Não, mas nunca mais dançamos.
– Lita era verdadeiramente obcecada pela dança. Entrava em bares desconhecidos e convidava os homens a dançarem com ela. Claro que eles iam. Achavam ela uma foda fácil. Eu não sei se ela fodia ou não. Acho que às vezes fodia. O problema dos homens que dançam ou vivem em bares é que têm uma visão igual à de uma tênia.
– Como sabe disso?
– Eles são apanhados no ritual.
– Que ritual?
– O ritual da energia mal dirigida.
Henry levantou-se e começou a vestir-se.
– Garota, eu tenho de ir.
– Que é isso?
– Tenho de terminar um trabalho. Eu sou, supostamente, um escritor.
– Tem uma peça de Ibsen na TV hoje de noite. Oito e meia. Você vem?
– Claro. Deixei aquele uísque. Não beba todo.
Henry enfiou as roupas, desceu a escada, entrou no carro e dirigiu para casa e sua máquina de escrever. Segundo andar, fundos. Todo dia, enquanto ele batia à máquina, a mulher de baixo batia no teto com a vassoura. Ele escrevia da maneira difícil, sempre tinha sido da maneira difícil: A Dança do Cachorro Branco...
Louise ligou às cinco e meia da tarde. Atacara o uísque. Estava bêbada. Embolava as palavras. Não dizia coisa com coisa. A leitora de Thomas Chatterton e D. H. Lawrence. A leitora de nove dos livros dele.
– Henry?
– Sim?
– Oh, aconteceu uma coisa maravilhosa.
– Sim?
– Um rapaz negro veio me visitar. É lindo! Mais lindo que você...
– Claro.
– ...mais lindo que você e eu juntos.
– Sim.
– Me deixou tão excitada! Estou a ponto de perder a cabeça!
– Sim.
– Você não liga?
– Não.
– Sabe como passamos a tarde?
– Não.
– Lendo seus poemas!
– Oh?
– E sabe o que ele disse?
– Não.
– Disse que seus poemas são sensacionais!
– Tudo bem.
– Escuta, ele me deixou muito excitada. Não sei o que fazer. Você não vem? Agora? Quero ver você agora...
– Louise, estou trabalhando...
– Escuta, você tem alguma coisa contra negros?
– Não.
– Eu conheço esse garoto há dez anos. Ele trabalhava pra mim quando eu era rica.
– Quer dizer, quando você ainda vivia com seu marido rico.
– Vou ver você depois? Ibsen é às oito e meia.
– Eu lhe informo.
– Por que aquele sacana apareceu? Eu estava bem, e aí ele aparece. Nossa. Estou tão excitada que preciso ver você. Estou ficando maluca. Ele era tão lindo.
– Estou trabalhando, Louise. O problema aqui é “Aluguel”. Tente entender.
Louise desligou. Tornou a ligar às oito e vinte. Henry disse que continuava trabalhando. E continuava. Depois começou a beber e ficou simplesmente sentado na cadeira, simplesmente sentado na cadeira. Às dez para as dez, ouviu uma batida na porta. Era Booboo Meltzer, o astro de rock número 1 da década de 1970, atualmente desempregado, ainda vivendo de direitos autorais.
– Oi, garoto – disse Henry.
Meltzer entrou e sentou-se.
– Cara – disse –, você é um velho e belo gato. Eu não aguento.
– Calma, garoto, gato está fora de moda, o quente agora é cachorro.
– Tenho um palpite de que você precisa de ajuda, coroa.
– Garoto, nunca foi de outro jeito.
Henry foi à cozinha, pegou duas cervejas, abriu-as e voltou.
– Estou sem xoxota, garoto, o que pra mim é o mesmo que estar sem amor. Não consigo separar as duas coisas. Não sou tão vivo assim.
– Nenhum de nós é vivo, Vovô. Todos precisamos de ajuda.
– É...
Meltzer tinha um tubinho de celuloide. Cuidadosamente, despejou dois montinhos brancos na mesa de café.
– Isso é cocaína, Vovô, cocaína...
– Ah, ha.
Meltzer meteu a mão no bolso, puxou uma nota de cinquenta dólares, fez um canudo bem comprimido e enfiou-o no nariz. Apertando a outra narina com um dedo, curvou-se sobre uma das manchas brancas na mesa de café e inalou-a. Depois enfiou a nota de cinquenta dólares na outra narina e cafungou a segunda mancha.
– Neve – disse Meltzer.
– É Natal. Muito apropriado – disse Henry.
Meltzer bateu mais duas manchas e passou os cinquenta. Henry disse:
– Guenta aí, eu uso a minha.
E pegou uma nota de um dólar e cafungou. Uma para cada narina.
– Que acha de A Dança do Cachorro Branco? – perguntou Henry.
– Isto aqui é que é “A Dança do Cachorro Branco” – disse Meltzer, batendo mais duas carreiras.
– Nossa – disse Henry. – Acho que nunca mais vou ficar de saco cheio. Você não está cheio de mim, está?
– De jeito nenhum – disse Meltzer, cafungando através da nota de cinquenta dólares com toda a força. – Vovô, de jeito nenhum...
– Numa Fria
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Charles Bukowski

Treinando para Kid Aztec

eu era um cara moço em Los Angeles.
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão

e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.

eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...

acabei a garrafa
pedi outra.

"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.

nenhuma resposta.

"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."

silêncio.

desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"

nenhuma resposta.

botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.

quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.

"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."

o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.

eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."

"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.

"pô, claro..."

"e sobre que são
esses' poemas?"

"o amor..."

"oh, o amor, Señor?"

"poemas de amor para a
Morte..."

esvaziei minha garrafa
e pedi outra.

"eu também escrevo,
Señor..."

"ah, é?”

"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."

os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.

"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"

"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"

tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.

"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.

"nah, já chega, tenho que
descansar..."

caminhei para a
saída.

"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.

caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.

eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.

parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador

ninguém notou.

talvez não viessem
a notar nunca.

segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem

alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
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