Poemas neste tema
Arte
Pablo Neruda
VII - A ilha
Quando proliferaram os colossos
e erguidos caminharam
até povoar a ilha de narizes de pedra
e, ativos, fundaram descendência − filhos
do vento e da lava, netos
do ar e da cinza, percorreram
com grandes pés a ilha −
nunca trabalhou tanto
a brisa com suas mãos,
o ciclone com seu crime,
a persistência da Oceania.
Grandes cabeças puras,
de longos pescoços, de olhar grave,
gigantescas mandíbulas erguidas
no orgulho de sua solidão,
presenças,
presenças arrogantes,
preocupadas.
Oh graves dignidades solitárias
quem se atreveu, se atreve
e erguidos caminharam
até povoar a ilha de narizes de pedra
e, ativos, fundaram descendência − filhos
do vento e da lava, netos
do ar e da cinza, percorreram
com grandes pés a ilha −
nunca trabalhou tanto
a brisa com suas mãos,
o ciclone com seu crime,
a persistência da Oceania.
Grandes cabeças puras,
de longos pescoços, de olhar grave,
gigantescas mandíbulas erguidas
no orgulho de sua solidão,
presenças,
presenças arrogantes,
preocupadas.
Oh graves dignidades solitárias
quem se atreveu, se atreve
1 205
Ana Martins Marques
Em branco
Dizem que Cézanne
quando certa vez pintou um quadro
deixando inacabada parte de uma maçã
pintou apenas a parte da maçã
que compreendia.
É por isso
meu amor
que eu dedico a você
este poema
em branco.
quando certa vez pintou um quadro
deixando inacabada parte de uma maçã
pintou apenas a parte da maçã
que compreendia.
É por isso
meu amor
que eu dedico a você
este poema
em branco.
1 558
José Saramago
Receita
Tome-se um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado,
Uma veia sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz num corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado,
Uma veia sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz num corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.
2 804
José Saramago
24
Nenhumas armas a não ser os toscos paus arrancados dificilmente aos ramos mais baixos das árvores e as pedras roladas colhidas nos leitos das ribeiras
Nenhuma protecção a não ser a da noite ou a sombra dos desfiladeiros por onde a tribo se insinuava como uma longa cobra rastejando
Ali não tinham os lobos mecânicos espaço para atacar e foi possível ver entre duas altas e sonoras muralhas de rocha lutar um milhafre verdadeiro contra uma águia mecânica e vencê-la
Porque a águia fora programada apenas para atacar os homens como o haviam sido os elefantes que bramiam de fúria na garganta dos desfiladeiros apertados onde não podiam entrar
E isto foi enquanto ainda o ordenador se manteve em ligação com os animais mecânicos
Tornados inúteis logo que a comunicação cessou destruídos na queda os que voavam paralisados no movimento os que no chão se deslocavam e caídos para o lado
Sete noites durou a marcha pelos labirintos da montanha sete dias dormiu a tribo e outras que se haviam juntado em grutas onde às vezes descobriam pinturas de homens lutando contra animais ou outros homens
Ao amanhecer do oitavo dia surgiram em campo raso e viram um leão imóvel de pé sobre as quatro patas
Batendo as asas secas dois corvos verdadeiros arrancavam-lhe tiras de pele morta pondo à vista o mecanismo do ventre e dos membros e um nó de fios escuros como um coração apodrecido
Então as tribos recolheram-se outra vez ao desfiladeiro à espera da noite e nas paredes duma gruta alguns homens reproduziram o leão e os corvos voando e ao fundo uma cidade armada
Feito o que desenharam o retrato de si próprios segurando uns toscos paus e na transparência do peito limitado por dois riscos laterais marcaram o lugar que deve ocupar um coração vivo
Nenhuma protecção a não ser a da noite ou a sombra dos desfiladeiros por onde a tribo se insinuava como uma longa cobra rastejando
Ali não tinham os lobos mecânicos espaço para atacar e foi possível ver entre duas altas e sonoras muralhas de rocha lutar um milhafre verdadeiro contra uma águia mecânica e vencê-la
Porque a águia fora programada apenas para atacar os homens como o haviam sido os elefantes que bramiam de fúria na garganta dos desfiladeiros apertados onde não podiam entrar
E isto foi enquanto ainda o ordenador se manteve em ligação com os animais mecânicos
Tornados inúteis logo que a comunicação cessou destruídos na queda os que voavam paralisados no movimento os que no chão se deslocavam e caídos para o lado
Sete noites durou a marcha pelos labirintos da montanha sete dias dormiu a tribo e outras que se haviam juntado em grutas onde às vezes descobriam pinturas de homens lutando contra animais ou outros homens
Ao amanhecer do oitavo dia surgiram em campo raso e viram um leão imóvel de pé sobre as quatro patas
Batendo as asas secas dois corvos verdadeiros arrancavam-lhe tiras de pele morta pondo à vista o mecanismo do ventre e dos membros e um nó de fios escuros como um coração apodrecido
Então as tribos recolheram-se outra vez ao desfiladeiro à espera da noite e nas paredes duma gruta alguns homens reproduziram o leão e os corvos voando e ao fundo uma cidade armada
Feito o que desenharam o retrato de si próprios segurando uns toscos paus e na transparência do peito limitado por dois riscos laterais marcaram o lugar que deve ocupar um coração vivo
980
José Saramago
6
Nenhum lugar é suficientemente belo na terra para que doutro lugar nos desloquemos a ele
Mas uma razão haverá para que a todas as horas do dia venham andando grupos de pessoas na direcção da rua das estátuas
Estão dispensados os roteiros e os mapas uma vez que todos os caminhos vêm dar a esta rua e não a Roma onde ainda hoje não faltam as estátuas mas nenhuma que a estas se compare
Não é difícil chegar basta olhar o chão e seguir sempre pelos caminhos mais pisados também reconhecíveis pelas duas alas de excrementos que os ladeiam
O sol resseca-os rapidamente e se a chuva os desfaz nunca tanto que restitua o chão a uma qualquer virgindade
O homem aprendeu enfim a orientar-se sem bússola chega-lhe passar por onde outro homem passou antes
As pessoas vão conversando numerosamente e de vez em quando uma separa-se do grupo e vai agachar-se ao lado
Enquanto os outros se afastam devagar atrasando o passo para que não fique para trás aquele que assinalará o caminho
Passado o último horizonte é que está a rua das estátuas
Nenhum excremento nas imediações
E eis que cinquenta estátuas de cada lado incrivelmente brancas mas a que os jogos das luzes e das sombras alternadas fazem mover os membros e as feições
Mostram a quem passa vindo de longe como poderiam ter sido os homens
Pois há motivos para pensar que nunca foram assim
Mas uma razão haverá para que a todas as horas do dia venham andando grupos de pessoas na direcção da rua das estátuas
Estão dispensados os roteiros e os mapas uma vez que todos os caminhos vêm dar a esta rua e não a Roma onde ainda hoje não faltam as estátuas mas nenhuma que a estas se compare
Não é difícil chegar basta olhar o chão e seguir sempre pelos caminhos mais pisados também reconhecíveis pelas duas alas de excrementos que os ladeiam
O sol resseca-os rapidamente e se a chuva os desfaz nunca tanto que restitua o chão a uma qualquer virgindade
O homem aprendeu enfim a orientar-se sem bússola chega-lhe passar por onde outro homem passou antes
As pessoas vão conversando numerosamente e de vez em quando uma separa-se do grupo e vai agachar-se ao lado
Enquanto os outros se afastam devagar atrasando o passo para que não fique para trás aquele que assinalará o caminho
Passado o último horizonte é que está a rua das estátuas
Nenhum excremento nas imediações
E eis que cinquenta estátuas de cada lado incrivelmente brancas mas a que os jogos das luzes e das sombras alternadas fazem mover os membros e as feições
Mostram a quem passa vindo de longe como poderiam ter sido os homens
Pois há motivos para pensar que nunca foram assim
973
José Saramago
Estudo de Nu
Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.
Essas duas parábolas que te apertam
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.
Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho o selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.
Essas duas parábolas que te apertam
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.
Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho o selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.
1 185
José Saramago
1
As pessoas estão sentadas numa paisagem de Dali com as sombras muito recortadas por causa de um sol que diremos parado
Quando o sol se move como acontece fora das pinturas a nitidez é menor e a luz sabe muito menos o seu lugar
Não importa que Dali tivesse sido tão mau pintor se pintou a imagem necessária para os dias de 1993
Este dia em que as pessoas estão sentadas na paisagem entre dois prumos de madeira que foram uma porta sem paredes para cima e para os lados
Não há portanto casa nem sequer a porta que poderia não abrir precisamente por não haver para onde abrir
Apenas o vazio da porta e não a porta
E as pessoas não se sabe quantas não foram contadas devem ser ao menos duas porque conversam levantam as golas dos casacos para se defenderem do frio
E dizem que o inverno do ano passado foi muito mais doce ou suave ou benigno embora a palavra seja antiga em 1993
Enquanto falam e dizem coisas importantes como esta
Uma das pessoas vai riscando no chão uns traços enigmáticos que tanto podem ser um retrato como uma declaração de amor ou a palavra que faltasse inventar
Vê-se agora que o sol afinal não estava parado e portanto a paisagem é muito menos daliniana do que ficou dito na primeira linha
E uma sombra estreita e comprida que é talvez de uma pedra aguda espetada no chão ou de um prumo distante de porta que já perdeu companhia e por isso não atrai as pessoas
Uma sombra estreita e comprida toca no dedo que risca a poeira do chão e começa a devorá-lo
Devagar passando aos ossos do metacarpo e depois subindo pelo braço devorando
Enquanto algumas pessoas continuam a conversar
E esta se cala porque tudo isto acontece sem dor e enquanto a noite desce
Quando o sol se move como acontece fora das pinturas a nitidez é menor e a luz sabe muito menos o seu lugar
Não importa que Dali tivesse sido tão mau pintor se pintou a imagem necessária para os dias de 1993
Este dia em que as pessoas estão sentadas na paisagem entre dois prumos de madeira que foram uma porta sem paredes para cima e para os lados
Não há portanto casa nem sequer a porta que poderia não abrir precisamente por não haver para onde abrir
Apenas o vazio da porta e não a porta
E as pessoas não se sabe quantas não foram contadas devem ser ao menos duas porque conversam levantam as golas dos casacos para se defenderem do frio
E dizem que o inverno do ano passado foi muito mais doce ou suave ou benigno embora a palavra seja antiga em 1993
Enquanto falam e dizem coisas importantes como esta
Uma das pessoas vai riscando no chão uns traços enigmáticos que tanto podem ser um retrato como uma declaração de amor ou a palavra que faltasse inventar
Vê-se agora que o sol afinal não estava parado e portanto a paisagem é muito menos daliniana do que ficou dito na primeira linha
E uma sombra estreita e comprida que é talvez de uma pedra aguda espetada no chão ou de um prumo distante de porta que já perdeu companhia e por isso não atrai as pessoas
Uma sombra estreita e comprida toca no dedo que risca a poeira do chão e começa a devorá-lo
Devagar passando aos ossos do metacarpo e depois subindo pelo braço devorando
Enquanto algumas pessoas continuam a conversar
E esta se cala porque tudo isto acontece sem dor e enquanto a noite desce
1 197
José Saramago
Questão de Palavras
Ponho palavras mortas no papel,
Tal os selos lambidos doutras línguas
Ou insectos varados de surpresa
Pelo rigor impessoal dos alfinetes.
De palavras assim arrematadas
Encho palcos de pasmo e de bocejo:
Entre as portas me mostro, agaloado,
A passar flores secas por bilhetes.
Quem pudera saber de que maneira
As palavras são rosas na roseira.
Tal os selos lambidos doutras línguas
Ou insectos varados de surpresa
Pelo rigor impessoal dos alfinetes.
De palavras assim arrematadas
Encho palcos de pasmo e de bocejo:
Entre as portas me mostro, agaloado,
A passar flores secas por bilhetes.
Quem pudera saber de que maneira
As palavras são rosas na roseira.
978
José Saramago
Testamento Romântico
A versos eu, convoco quantas vozes
Em gargantas humanas já passaram
Desde o grito, primeiro articulado.
Quando a voz pessoal se vai calar,
Tome lugar o coro no vazio
Da ausência do homem, assinado.
Em gargantas humanas já passaram
Desde o grito, primeiro articulado.
Quando a voz pessoal se vai calar,
Tome lugar o coro no vazio
Da ausência do homem, assinado.
1 119
José Saramago
Circo
Poeta não é gente, é bicho coiso
Que da jaula ou gaiola vadiou
E anda pelo mundo às cambalhotas
Recordadas do circo que inventou.
Estende no chão a capa que o destapa,
Faz do peito tambor, e rufa, salta,
É urso bailarino, mono sábio,
Ave torta de bico e pernalta.
Ao fim toca a charanga do poema,
Caixa, fagote, notas arranhadas,
E porque bicho é, bicho lá fica,
A cantar às estrelas apagadas.
Que da jaula ou gaiola vadiou
E anda pelo mundo às cambalhotas
Recordadas do circo que inventou.
Estende no chão a capa que o destapa,
Faz do peito tambor, e rufa, salta,
É urso bailarino, mono sábio,
Ave torta de bico e pernalta.
Ao fim toca a charanga do poema,
Caixa, fagote, notas arranhadas,
E porque bicho é, bicho lá fica,
A cantar às estrelas apagadas.
2 400
José Saramago
Sala de Baile
Cubo de luz vermelha onde se agitam,
O corpo não, o vulto recortado,
A cadência tenaz que rasa e foge
A imprecisa linha dos instintos.
Um pouco mais de som ou de alegria,
A ameaça da morte ou da esperança
Como vento salgado em ferida exposta:
Seria o vulto corpo, o corpo dança.
O corpo não, o vulto recortado,
A cadência tenaz que rasa e foge
A imprecisa linha dos instintos.
Um pouco mais de som ou de alegria,
A ameaça da morte ou da esperança
Como vento salgado em ferida exposta:
Seria o vulto corpo, o corpo dança.
1 088
José Saramago
Nave
Do granito do chão rompem colunas,
Harpa de pedra rude e natural
Entre a laje e o tecto retesada,
São os dorsos curvados como dunas,
Sob o vento calado e musical
Que varre a nave toda para o nada.
Harpa de pedra rude e natural
Entre a laje e o tecto retesada,
São os dorsos curvados como dunas,
Sob o vento calado e musical
Que varre a nave toda para o nada.
1 108
José Saramago
Epitáfio Para Luís de Camões
Que sabemos de ti, se só deixaste versos,
Que lembrança ficou no mundo que tiveste?
Do nascer ao morrer ganhaste os dias todos?
Ou perderam-te a vida os versos que fizeste?
Que lembrança ficou no mundo que tiveste?
Do nascer ao morrer ganhaste os dias todos?
Ou perderam-te a vida os versos que fizeste?
1 517
José Saramago
Prestidigitação
Não pode mais do que eu a natureza
Nem são de ferro as leis que me governam.
Dentro de mim as artes se conjugam
Que de novos sinais te vão cercar:
Uma pedra fendida num sorriso,
Uma nuvem gritando nas alturas,
Uma sombra que a luz não justifica,
Um sopro quando o vento se afastou.
Outras muitas maravilhas eu faria
E quantas mais me dessem na vontade,
Mas não a servem artes nem sinais:
É de ferro e é lei esta saudade.
Nem são de ferro as leis que me governam.
Dentro de mim as artes se conjugam
Que de novos sinais te vão cercar:
Uma pedra fendida num sorriso,
Uma nuvem gritando nas alturas,
Uma sombra que a luz não justifica,
Um sopro quando o vento se afastou.
Outras muitas maravilhas eu faria
E quantas mais me dessem na vontade,
Mas não a servem artes nem sinais:
É de ferro e é lei esta saudade.
1 147
José Saramago
Processo
As palavras mais simples, mais comuns,
As de trazer por casa e dar de troco,
Em língua doutro mundo se convertem:
Basta que, de sol, os olhos do poeta,
Rasando, as iluminem.
As de trazer por casa e dar de troco,
Em língua doutro mundo se convertem:
Basta que, de sol, os olhos do poeta,
Rasando, as iluminem.
1 452
José Saramago
Arte Poética
Vem de quê o poema? De quanto serve
A traçar a esquadria da semente:
Flor ou erva, floresta e fruto.
Mas avançar um pé não é fazer jornada,
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia.
Amor, se o há, com pouco se conforma
Se, por lazeres de alma acompanhada,
Do corpo lhe bastar a presciência.
Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.
A traçar a esquadria da semente:
Flor ou erva, floresta e fruto.
Mas avançar um pé não é fazer jornada,
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia.
Amor, se o há, com pouco se conforma
Se, por lazeres de alma acompanhada,
Do corpo lhe bastar a presciência.
Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.
1 437
José Saramago
Ritual
Se é altar o poema, sacrifico.
Nesta pedra de lua que é o verso
O cutelo do vivo ganha fio.
Cá virei de joelhos. Não recuso
O veado do prado do meu sonho
Ao dardo violento que o alcança.
Sem a lenha grosseira não há fogo,
Embora as mãos da luz acabem sujas
Da cinza arrefecida das palavras.
Nesta pedra de lua que é o verso
O cutelo do vivo ganha fio.
Cá virei de joelhos. Não recuso
O veado do prado do meu sonho
Ao dardo violento que o alcança.
Sem a lenha grosseira não há fogo,
Embora as mãos da luz acabem sujas
Da cinza arrefecida das palavras.
1 357
José Saramago
Eloquência
Um verso que não diga por palavras,
Ou se palavras tem, que nada exprimam:
Uma linha no ar, um gesto breve
Que, num silêncio fundo, me resuma
A vontade que quer, a mão que escreve.
Ou se palavras tem, que nada exprimam:
Uma linha no ar, um gesto breve
Que, num silêncio fundo, me resuma
A vontade que quer, a mão que escreve.
1 349
José Saramago
Canção
Canção, não és ainda. Não te bastem
Os sons e as cadências, se do vento
O acenar da asa não tiveres.
Aqui me voltarás um outro dia:
Nocturno escurecido da lembrança,
Coral resplandecente de alegria
Os sons e as cadências, se do vento
O acenar da asa não tiveres.
Aqui me voltarás um outro dia:
Nocturno escurecido da lembrança,
Coral resplandecente de alegria
1 145
José Saramago
Até Ao Sabugo
Dirão outros, em verso, outras razões,
Quem sabe se mais úteis, mais urgentes.
Deste, cá, não mudou a natureza,
Suspensa entre duas negações.
Agora, inventar arte e maneira
De juntar o acaso e a certeza,
Leve nisso, ou não leve, a vida inteira.
Assim como quem rói as unhas rentes.
Quem sabe se mais úteis, mais urgentes.
Deste, cá, não mudou a natureza,
Suspensa entre duas negações.
Agora, inventar arte e maneira
De juntar o acaso e a certeza,
Leve nisso, ou não leve, a vida inteira.
Assim como quem rói as unhas rentes.
1 185
José Saramago
Voto
Cada verso uma pedra. Que o poema
Seja mais alicerce que muralha.
Que debaixo da terra se reforcem
As palavras, as minas e as fontes.
Que a paisagem se esqueça e se retire.
Que do espaço não falem outras vozes.
Que se faça silêncio entre os terrestres,
Enquanto outros anúncios se preparam.
Que tudo recomece em lento parto,
Sem cor e sem perfume. As rosas, não.
Mas um dorso de pedra que se arranque
Do poema profundo, dos ossos, do chão.
Seja mais alicerce que muralha.
Que debaixo da terra se reforcem
As palavras, as minas e as fontes.
Que a paisagem se esqueça e se retire.
Que do espaço não falem outras vozes.
Que se faça silêncio entre os terrestres,
Enquanto outros anúncios se preparam.
Que tudo recomece em lento parto,
Sem cor e sem perfume. As rosas, não.
Mas um dorso de pedra que se arranque
Do poema profundo, dos ossos, do chão.
1 386
José Saramago
O Poema É Um Cubo de Granito
O poema é um cubo de granito,
Mal talhado, rugoso, devorante.
Roço com ele a pele e o negro da pupila,
E sei que por diante
Tenho um rasto de sangue à minha espera
No caminho dos cães,
Em vez da primavera.
Mal talhado, rugoso, devorante.
Roço com ele a pele e o negro da pupila,
E sei que por diante
Tenho um rasto de sangue à minha espera
No caminho dos cães,
Em vez da primavera.
1 180
Vinicius de Moraes
Alexandrinos a Florença
Nessa tarde toscana, hermética e remota,
Verde sinistro sobre antiga terracota,
De onde, conzento-azuis, ímã-ferrugem, surgem
Cúpulas, torres, claustros, campos: renascença
Das coisas que passaram mas que urgem; nessa
Tarde em Florença, ah que serenidade imensa
Nessa tarde em que tudo parecia ir dar
No Arno e deslizar no mesmo lugar, no
Ponte Vecchio; ou na piazza della Signoria
Quando, sob a luz mais exata, a estatuária
Parecia lembrar... Nessa tarde em colinas
Florentinas, quanta meditação nos campos
De oliva e feno, imarcescíveis; quanta voz
Silenciante... e aquele cipreste imenso
No poente, imóvel... vulto secular de Dante
Penando a morte imemorial da bem-amada...
Verde sinistro sobre antiga terracota,
De onde, conzento-azuis, ímã-ferrugem, surgem
Cúpulas, torres, claustros, campos: renascença
Das coisas que passaram mas que urgem; nessa
Tarde em Florença, ah que serenidade imensa
Nessa tarde em que tudo parecia ir dar
No Arno e deslizar no mesmo lugar, no
Ponte Vecchio; ou na piazza della Signoria
Quando, sob a luz mais exata, a estatuária
Parecia lembrar... Nessa tarde em colinas
Florentinas, quanta meditação nos campos
De oliva e feno, imarcescíveis; quanta voz
Silenciante... e aquele cipreste imenso
No poente, imóvel... vulto secular de Dante
Penando a morte imemorial da bem-amada...
1 116
José Saramago
O Primeiro Poema
Água, brancura e luz da madrugada,
E nardos orvalhados, olhos tardos,
E regressos de longe, lentos, vagos,
De espiral que se expande, ou nebulosa.
Assim diria que o mundo se criou:
Gesto liso das mãos do universo
Com perfumes e auras que anunciam,
Noutras mãos de quimera, outro verso.
E nardos orvalhados, olhos tardos,
E regressos de longe, lentos, vagos,
De espiral que se expande, ou nebulosa.
Assim diria que o mundo se criou:
Gesto liso das mãos do universo
Com perfumes e auras que anunciam,
Noutras mãos de quimera, outro verso.
1 413