Poemas neste tema
Árvores, florestas e montanhas
António Ramos Rosa
Sentindo o Liso da Madeira, o Bosque
Sentindo o liso da madeira, o bosque
submerso, tranquilamente acesos,
continuando na corrente verde e côncava
outra forma do silêncio na morada
com o silêncio denso sobre as pálpebras.
submerso, tranquilamente acesos,
continuando na corrente verde e côncava
outra forma do silêncio na morada
com o silêncio denso sobre as pálpebras.
1 148
António Ramos Rosa
O Rosto Sob As Águas
as intempéries talharam este rosto.
de chama. calcinada.
o seu silêncio é um latido do tempo.
por vezes é uma forma que cintila.
um talismã. e um desejo de
um fundo inesgotável.
por vezes vemo-lo branco. a vertigem
faz-nos desfolhar as páginas.
e ele irrompe como uma água surda.
é uma cabeça de terra. de árvore e pedra.
a sua ironia tem o sabor das estações.
por ele passaram já todas as águas.
pela água límpida a nitidez aviva-se
e é a matriz de todos os nomes que cintila.
de chama. calcinada.
o seu silêncio é um latido do tempo.
por vezes é uma forma que cintila.
um talismã. e um desejo de
um fundo inesgotável.
por vezes vemo-lo branco. a vertigem
faz-nos desfolhar as páginas.
e ele irrompe como uma água surda.
é uma cabeça de terra. de árvore e pedra.
a sua ironia tem o sabor das estações.
por ele passaram já todas as águas.
pela água límpida a nitidez aviva-se
e é a matriz de todos os nomes que cintila.
773
António Ramos Rosa
Na Sequência Viva
O que tu lês é/será uma música da folhagem, não do lábio sôfrego, não do fôlego exausto. O que procuramos está no vento que se vai levantar, na seiva e no sangue dos dois lábios amantes, o teu e o meu, na sequência viva da substância escrita, homogénea, heterogénea. O que arde é a chama do silêncio do não-lugar que é clareira e cimo, vértice e prumo de uma linguagem enamorada do rosto de cada palavra, das veias da árvore que nos ergue à transparência oculta de cada folha. O instante, na sua aérea fugacidade, o espaço na sua disseminação amante, requer a confiança sem delírio nem vertigem, um silêncio que não é o silêncio mas a sombra da claridade que cada palavra cria no seu descoberto caminho.
1 192
António Ramos Rosa
Húmido Como a Névoa
Húmido como a névoa
assim ainda se diz
Húmido pode ser um bosque
na sua densa massa
Um bosque? Uma luxúria
de verdes
semeado de clareiras
na espessura
Espessura esquiva onde se esconde a caça
onde ela se acende
e onde o esconder é grácil
como um jogo de analogia
assim ainda se diz
Húmido pode ser um bosque
na sua densa massa
Um bosque? Uma luxúria
de verdes
semeado de clareiras
na espessura
Espessura esquiva onde se esconde a caça
onde ela se acende
e onde o esconder é grácil
como um jogo de analogia
1 123
António Ramos Rosa
As Coisas Que Olhamos São Às Vezes Olhares
As coisas que olhamos são às vezes olhares
rostos Figuras da matéria
Como as estátuas nos antigos templos
Elas abrem os olhos as portas do olhar
O olhar é uma chave é esta chave
Avanço até à beira ainda visível
As pedras existem Existe esta montanha
São olhares também mas que se apagam já
Eu sei que assim me perco e tudo perco
se não souber arquitectar o fogo
desta matéria nova do rectângulo
rostos Figuras da matéria
Como as estátuas nos antigos templos
Elas abrem os olhos as portas do olhar
O olhar é uma chave é esta chave
Avanço até à beira ainda visível
As pedras existem Existe esta montanha
São olhares também mas que se apagam já
Eu sei que assim me perco e tudo perco
se não souber arquitectar o fogo
desta matéria nova do rectângulo
1 121
António Ramos Rosa
Um Corpo Se Retrai E Se Constrói
Um corpo se retrai e se constrói
pelo vazio que gira em torno dele o espaço é limitado
e se algo avança sem colunas
são formas que respiram na brancura
Aqui nesta procura a mão
dilata-se
A história que nos vence não nos vence
O desejo é o objecto da metamorfose
Com o desejo o corpo se levanta
As formas estão nas linhas
e um rosto se imagina
na árvore em ramos abstractos
pelo vazio que gira em torno dele o espaço é limitado
e se algo avança sem colunas
são formas que respiram na brancura
Aqui nesta procura a mão
dilata-se
A história que nos vence não nos vence
O desejo é o objecto da metamorfose
Com o desejo o corpo se levanta
As formas estão nas linhas
e um rosto se imagina
na árvore em ramos abstractos
963
António Ramos Rosa
Ei-La Despida Ou
Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
1 036
António Ramos Rosa
Não Deusas Habitam Este Átrio
Não deusas habitam este átrio
onde alguém tocaria uma flauta
No meio da rua está uma pedra verde
A tranquilidade é suave mas incita
a uma inquieta procura Já não vejo
a montanha na altura escrevo
na rarefacção do texto inexorável
Os nomes? Que dizer se a trave obscura
se não vê ou os passos já se perdem
A terra espera a paciência de algum nome
onde alguém tocaria uma flauta
No meio da rua está uma pedra verde
A tranquilidade é suave mas incita
a uma inquieta procura Já não vejo
a montanha na altura escrevo
na rarefacção do texto inexorável
Os nomes? Que dizer se a trave obscura
se não vê ou os passos já se perdem
A terra espera a paciência de algum nome
1 006
António Ramos Rosa
O Fogo Sob Os Passos Vibra Verde
O fogo sob os passos vibra verde
sem o caminho exacto
A clareira é um lugar em que se está
O centro verdadeiro ou simulacro
imponderável
A aragem nas vértebras
O fogo dos pulsos
O inacessível tronco ardendo no quadrado
E um outro quadro com as folhas e o espaço
ditos não pela boca mas inscritos
na nulidade do vento e na nudez da escrita
sem o caminho exacto
A clareira é um lugar em que se está
O centro verdadeiro ou simulacro
imponderável
A aragem nas vértebras
O fogo dos pulsos
O inacessível tronco ardendo no quadrado
E um outro quadro com as folhas e o espaço
ditos não pela boca mas inscritos
na nulidade do vento e na nudez da escrita
1 154
António Ramos Rosa
Escrever a Um Outro Nível de Crescimentos Simples De
Escrever a um outro nível de crescimentos simples de
movimentos simples todos principiando no centro nulo
no princípio nulo Nem os ramos nem as folhas dirão
outra coisa simbolicamente mas serão
ramos
folhas
frutos
conduzindo a seiva
e o ar vivo
Caminho imprevisível o poema invenção das formas
e do espaço
que as transforma
e as esquece
Uma ampla textura de energia e movimento
movimentos simples todos principiando no centro nulo
no princípio nulo Nem os ramos nem as folhas dirão
outra coisa simbolicamente mas serão
ramos
folhas
frutos
conduzindo a seiva
e o ar vivo
Caminho imprevisível o poema invenção das formas
e do espaço
que as transforma
e as esquece
Uma ampla textura de energia e movimento
924
António Ramos Rosa
O Movimento do Repouso
O movimento do repouso
a trama do sol sem figura
o vento ou o sol
ou talvez
o sopro do sol
um sopro quente perdido
tão rápido no silêncio sob as árvores
a trama do sol sem figura
o vento ou o sol
ou talvez
o sopro do sol
um sopro quente perdido
tão rápido no silêncio sob as árvores
1 190
António Ramos Rosa
Terra de Um Sabor Denso
Terra de um sabor denso
e o olhar retido no tronco
para que o inerte se transforme
no triunfo de uma palavra viva
A seiva escorre cor de ferrugem
os insectos desviam-se
circulam sobre as inscrições
A folhagem desperta sobre o muro
Há um caminho pequeno
E alto e forte
o tumulto da aragem aqui afirma
a saída do chão outra palavra viva
e o olhar retido no tronco
para que o inerte se transforme
no triunfo de uma palavra viva
A seiva escorre cor de ferrugem
os insectos desviam-se
circulam sobre as inscrições
A folhagem desperta sobre o muro
Há um caminho pequeno
E alto e forte
o tumulto da aragem aqui afirma
a saída do chão outra palavra viva
1 024
António Ramos Rosa
Uma Falha Entre
Uma falha entre
duas pedras
a folhagem entre as pálpebras acesas
a moeda de fogo música de dedos sóbrios
o caminho mas
sem caminho: círculo de lâmpadas
o texto o texto único raiz
do pulso
lápis de sombra
raiz do lápis na montanha
duas pedras
a folhagem entre as pálpebras acesas
a moeda de fogo música de dedos sóbrios
o caminho mas
sem caminho: círculo de lâmpadas
o texto o texto único raiz
do pulso
lápis de sombra
raiz do lápis na montanha
981
António Ramos Rosa
O Tronco: o Tronco do Tronco
O tronco: o tronco do tronco
na boca
sem saliva
na boca
sem saliva
1 170
António Ramos Rosa
Entre Vestígios Verdes
Entre vestígios verdes
entre pedras
de sono as frases
das ervas
verdes brancas
entre pedras
de sono as frases
das ervas
verdes brancas
1 081
António Ramos Rosa
Casa Entre Árvores
Casa entre árvores
tranquila próxima
na transparência
opaca e azul opaca
E azul
tranquila próxima
na transparência
opaca e azul opaca
E azul
1 067
António Ramos Rosa
Montanha Completa
Montanha completa
permanente
presente
sob as pálpebras
lá fora atrás presente
permanente
presente
sob as pálpebras
lá fora atrás presente
538
António Ramos Rosa
Não É Um Texto:
Não é um texto:
é um movimento da sombra
o pulso dos passos: pedra A mão
traça
o caminho separa as sombras
no desejo de ervas claras de ervas vivas
e só as pálpebras
pesam
sobre o texto
sem árvores
o braço oscila na montanha
é um movimento da sombra
o pulso dos passos: pedra A mão
traça
o caminho separa as sombras
no desejo de ervas claras de ervas vivas
e só as pálpebras
pesam
sobre o texto
sem árvores
o braço oscila na montanha
1 054
António Ramos Rosa
68. Descontínuas, Desfechadas Linhas
68
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
1 078
António Ramos Rosa
Movo-Me Sobre a Montanha
Movo-me sobre a montanha
entre as pálpebras do caminho
A fragilidade da frase
na marcha
sob a cinza
do sol
o eco detém-se à altura da garganta
aridez da água aridez uma parede
que ascende o papel da sombra
entre as pálpebras do caminho
A fragilidade da frase
na marcha
sob a cinza
do sol
o eco detém-se à altura da garganta
aridez da água aridez uma parede
que ascende o papel da sombra
1 051
António Ramos Rosa
65. Revelação da Visão Obscurecido o Ser
65
Revelação da visão obscurecido o ser
terra não a verde mas a terra e o nome
que segue a folhagem sem centro e sem as margens,
pura extensão, folhagem, violação das partes
densas onde o olhar se perde. Encontro
do alto muro do ser, de líquida voragem
violência de terra e da linguagem alta
que a linguagem ilumina nas falhas do olhar.
Violência verde; muro: voragem
interpretação ao rés da terra lisa
tempo sem tempo, olhar que vê sem ver.
Revelação da visão obscurecido o ser
terra não a verde mas a terra e o nome
que segue a folhagem sem centro e sem as margens,
pura extensão, folhagem, violação das partes
densas onde o olhar se perde. Encontro
do alto muro do ser, de líquida voragem
violência de terra e da linguagem alta
que a linguagem ilumina nas falhas do olhar.
Violência verde; muro: voragem
interpretação ao rés da terra lisa
tempo sem tempo, olhar que vê sem ver.
1 142