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Poemas neste tema

Chuva e Tempestades

Charles Bukowski

Charles Bukowski

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sempre tive problemas com
dinheiro.
num dos lugares em que trabalhei
todos comiam cachorro-quente
e batatas fritas
na cantina da empresa
3 dias antes de cada
pagamento.
eu queria uns bifes,
cheguei inclusive a procurar o gerente
da cantina e
exigir que ele servisse
uns bifes. ele se recusou.

Eu esqueci do dia do pagamento.
eu tinha um alto grau de indiferença e
o dia do pagamento chegava e todos
não falavam em outra
coisa.
“pagamento?” eu dizia, “diabo, hoje é dia de
receber? me esqueci de pegar meu
último cheque...”

“pare de falar merda, cara...”

“não, não, é sério...”

eu me erguia e ia até o caixa
e claro que o cheque estava lá
e na volta eu o mostrava
a todos eles. “Jesus Cristo, esqueci completamente
do negócio...”

por alguma razão isso os deixava
furiosos. então o funcionário do caixa
aparecia. eu tinha dois
cheques. “Jesus”, eu dizia, “dois cheques”.
e eles ficavam
furiosos.
alguns deles mantinham
dois empregos.

No pior dos dias
chovia pesadamente
eu não tinha uma capa de chuva então
vesti um velho casaco que eu não usava havia
meses e
cheguei um pouco atrasado
quando eles já estavam no batente.
procurei por cigarros nos bolsos
e num deles encontrei uma nota de
cinco dólares:
“ei, vejam”, eu disse, “acabo de encontrar cinco pratas
que eu não sabia que tinha, que
beleza”.

“ei, cara, não venha com essa
merda!”

“não, não, estou falando sério, de verdade, lembro
de ter vestido este casaco quando
estava bêbado e vagando de bar
em bar. já me tomaram dinheiro muitas vezes,
fiquei desconfiado... tiro o dinheiro da
minha carteira e o escondo em
outras partes.”

“sente de uma vez e comece a
trabalhar.”

meti a mão num bolso interno:
“ei, vejam, tem um VINTÃO aqui! Deus, não sabia
que tinha este VINTÃO!
estou
RICO!”

“ninguém está achando graça, seu
filho da puta...”

“ei, meu Deus, aqui tem mais OUTRA
de vinte! é muita, muita muita
grana... eu sabia que não tinha gasto todo o
dinheiro naquela noite. pensei que tinham me
levado os cobres outra vez...”

continuei vasculhando o
casaco. “ei, aqui tem uma de dez e
aqui mais um cinquinho! meu Deus...”

“escute, já disse pra você sentar
e calar a boca...”

“meu Deus, estou RICO... não preciso nem mais
deste emprego...”

“cara, senta aí...”

achei mais outra de dez depois que me sentei
mas não disse
nada.
podia sentir as ondas de ódio e
estava confuso,
eles achavam que eu tinha
armado toda aquela história
apenas para fazê-los se
sentirem mal. não era o que eu
queria. pessoas que tem que passar a cachorros-quentes e
batatas fritas por
3 dias antes de sair o pagamento
já se sentem mal o
suficiente.

sentei-me
inclinei-me para a frente e
comecei a
trabalhar.

do lado de fora
continuava
chovendo.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Pássaros

Oh delgada cascata de música silvestre!

Oh borbulha lavrada pela água na luz!

Oh som metálico do céu transparente!

Oh círculo do mundo convertido em pureza!

Hora de pés afundados no pastel do bosque,
velhas madeiras vítimas da umidade, ramagens
leprosas como estátuas de exploradores mortos,
e no alto se coroa a selva com estrelas
que na copa do olmo fabricam a fragrância!

Luz verde, genital, da selva! É estranho
cravar no papel estes signos: aqui
não cabe senão o musgo, a presença da árvore,
a inimizade do lago que ondula seu universo
e mais além dos bosques cheios de furacões
e mais além de todo este estupor fragrante
os vulcões armados por invencível neve.

Pobre do meu ser! Pobre minúsculo estrangeiro
chegado dos livros e das carrocerias,
sobrinho das cadeiras, irmão das camas,
pobre das colheres e dos garfos!
Pobre de mim, abandonado da natureza!

O pica-pau aproximou-se do meu caderno,
debulhou contra mim sua feroz gargalhada
e como pedra que caiu do céu
rompeu as vidraçarias do infinito.

Adeus
trem torrencial, relâmpago sonoro!

Acomodo o papel, persigo o tavão,
marcho para baixo afundando-me no tapete do musgo
e deixo para trás estas montanhas cristalinas.
Do lago Rupanco no centro a ilha Altuehuapi rodeada por água e silêncio
emerge como uma coroa fragrante e florida trançada pelos mirtos,
alçada por carvalhos, maitenes, caneleiras, colihues14, copihues15,
e pela folhagem das aveleiras cortadas por tesouradas celestes,
povoada pelas gigantescas peinetas16 hirsutas das araucárias,
enquanto as abelhas na multidão nupcial das flores do olmo
crepitam alando a luz encrespada da monarquia na selva
sobre colossais fetos que movem a esmeralda fria de seus leques.

Oh arrasado silêncio daquele continente chuvoso
sob cujos sinos de chuva nasceu a verdade de meu canto,
aqui no umbigo da água recupero o tesouro queimado
e volto a chorar e a cantar como a água nas pedras silvestres.

Oh chuva do lago Rupanco, por que me desdiz no mundo,
por que abandonei minha linhagem de tábuas apodrecidas pelo aguaceiro.

Agora caminho pisando as verdes insígnias do musgo
e em sonhos os escaravelhos pululam sob meu esqueleto.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto XI - As flores de Punitaqui

I
O vale das pedras ( 1946)

Hoje caíu, 25 de abril,
sobre os campos de Ovalle,
a chuva esperada, a água de 1946.


Nesta primeira quinta-feira molhada, um dia de vapor
constrói sobre os cerros sua cinzenta ferragem.

É esta quinta-feira das pequenas sementes
que em suas bolsas guardaram os camponeses famintos:
hoje apressadamente furarão a terra e nela
deixarão cair seus grãozinhos de verde vida.


Ainda ontem subi o rio Hurtado acima:
acima, entre os ásperos cerros impertinentes,
eriçados de espinhos, pois o grande cacto andino,
como um cruel candelabro, aqui se estabelece.


E sobre seus agrestes espinhos, como vestimenta
escarlate, ou como uma mancha de terrível arrebol,
como sangue dum corpo arrastado sobre mil puas,
as parasitas acenderam as suas lâmpadas sangrentas.


As rochas são imensas bolsas coaguladas
na idade do fogo, sacos cegos de pedra
que rolaram até se fundirem nestas
implacáveis estátuas que guardam o vale.


O rio leva um doce e agônico rumor
de últimas águas entre o salgueiro escuro
multidão de folhagem, e os álamos
deixam tombar em gotas seu delgado amarelo.


É o outono do Norte Pequeno, o atrasado outono.


Pestaneja mais aqui a luz no cacho.


Como uma mariposa, detém-se mais tempo
o transparente sol até coalhar a uva,
e brilham sobre o vale seus panos moscatéis.




II
Irmão Pablo

Mas hoje os camponeses vêem ver-me: “Irmão,
não tem água, irmão Pablo, não tem água, não choveu.


E a corrente miúda
do rio
sete dias circula, sete dias se seca.


Nossas vacas morreram lá em cima na cordilheira.


E a sede começa a matar crianças.

Lá em cima, muitos não têm o que comer.

Irmão Pablo, você vai falar com o ministro”.


(Sim, o irmão Pablo vai falar com o ministro, mas eles não sabem
como me vêem chegar
essas poltronas de couro ignominioso
e depois a madeira ministerial, esfregada
e polida pela saliva bajulante.
)
Mentirá o ministro, esfregará as mãos,
e o gado do pobre comuneiro
com o burro e o cachorro, pelas esfiapadas
rochas, de fome em fome, tombará lá embaixo.




III
A fome e a ira

Adeus, adeus a tua quinta, à sombra
que ganhaste, ao ramo
transparente, à terra consagrada,
ao boi, adeus, à água avara,
adeus, às vertentes, à música
que não chegou na chuva, ao cinto pálido
da ressaca e da pedregosa aurora.


Juan Ovalle, te dei a mão, mão sem água,
mão de pedra, mão de parede e estiagem.

E te disse: à parda ovelha, às mais ásperas
estrelas, à lua como cardo roxo,
amaldiçoa, ao ramo partido dos lábios nupciais,
mas não toques no homem, não derrames ainda o homem
ferindo-lhe as veias, não tinjas ainda a areia,
não acendas ainda o vale com a árvore
dos tombados ramos arteriais.


Juan Ovalle, não mates.
E tua mão
me respondeu: “Estas terras
querem matar, buscam de noite
vingança, o velho vento ambarino
na amargura é vento de veneno,
e a guitarra é como um quadril
de crime, e o vento é uma faca”.




IV
Tiram-lhes a terra

Porque atrás do vale e da seca,
detrás do rio e da delgada folha,
espreitando o torrão e a colheita,
o ladrão de terras.


Olha que árvore de ressoante púrpura
contempla seu estandarte avermelhado,
e atrás de sua estirpe matutina,
o ladrão de terras.


Ouves como o sal do arrecife
o vento de cristal nas nogueiras,
porém sobre o azul de cada dia
o ladrão de terras.


Sentes entre as capas germinais
pulsar o trigo em sua flecha dourada,
porém entre o pão e o homem há uma máscara:
o ladrão de terras.




V
Aos minerais

Depois, às altas pedras
de sal e de ouro, à enterrada
república dos metais
subi:
eram os doces muros em que uma
pedra se amarra com outra,
com um beijo de barro escuro.


Um beijo entre pedra e pedra
pelos caminhos tutelares,
um beijo de terra e terra
entre as grandes uvas vermelhas,
e como um dente junto a outro dente
a dentadura da terra,
as paredes de matéria pura,
as que levam o interminável
beijo das pedras do rio
aos mil lábios do caminho.


Subamos da agricultura ao ouro.

Tendes aqui os altos pedernais.


O peso da mão é como uma ave.

Um homem, uma ave, uma substância de ar,
de obstinação, de vôo, de agonia,
uma pálpebra talvez, mas um combate.


E de lá no transversal berço do ouro,
em Punitaqui, frente a frente
com os calados sapadores
da picareta, da pá, vem,
Pedro, com tua paz de couro,
vem, Ramírez, com tuas abrasadas
mãos que indagaram o útero
das cerradas minerações,
salve, nas grades, nos
calcários subterrâneos
do ouro, abaixo em suas matrizes,
ficaram as vossas digitais
ferramentas marcadas com fogo.




VI
As flores de Punitaqui

Era dura a pátria lá como antes.

Era um sal perdido o ouro,
era
um peixe enrubescido e no torrão colérico
seu pequeno minuto triturado
nascia, ia nascendo das unhas sangrentas.


Entre a alva corno uma amendoeira fria,
sob os dentes das cordilheiras,
o coração perfura seu buraco,
rastreia, toca, sofre, sobe, e na altura
mais essencial, mais planetária, chega
com a camiseta rasgada.


Irmão de coração queimado,
junta em minha mão esta jornada,
e baixemos uma vez mais às camadas adormecidas
em que tua mão como uma tenaz
agarrou o ouro vivo que queria voar
ainda mais profundo, ainda mais abaixo, ainda.


E lá como umas flores
as mulheres de lá, as chilenas de cima,
as minerais filhas da mina,
um ramo entre as minhas mãos, umas flores
de Punitaqui, umas rubras flores,
gerânios, flores pobres
daquela terra dura,
depositaram em minhas mãos como
se tivessem sido achadas na mina mais funda,
se aquelas flores filhas da água rubra
voltassem lá do fundo sepultado do homem.


Peguei suas mãos e suas flores, terra
despedaçada e mineral, perfume
de pétalas profundas e dores.

Soube ao olhá-las de onde vieram
até a solidão dura do ouro,
me mostraram como gotas de sangue
as vidas derramadas.


Eram em sua pobreza
a fortaleza florescida, o ramo
da ternura e seu metal remoto.


Flores de Punitaqui, artérias, vidas, junto
a meu leito, na noite, vosso aroma
se ergue e me guia pelos mais subterrâneos
corredores do luto
pela altura perfurada, pela neve, e ainda
pelas raízes que só as lágrimas alcançam.


Flores, flores da altura,
flores de mina c pedra, flores
de Punitaqui, filhas
do amargo subsolo: em mim, nunca olvidadas,
ficastes vivas, construindo
a pureza imortal, uma corola
de pedra que não morre.




VII
O ouro

Teve o ouro esse dia de pureza.

Antes de mergulhar de novo sua estrutura
na suja saída que o aguarda,
recém-chegado, recém-desprendido
da solene estátua da terra,
foi depurado pelo fogo, envolto
pelo suor e as mãos do homem.


Lá se despediu o povo do ouro.

E era terrestre o seu contacto, puro
como a matriz cinzenta da esmeralda.

Igual era a mão suarenta
que recolheu o lingote emaranhado
ao cepo de terra reduzida
pela infinita dimensão do tempo,
à cor terrenal das sementes,
ao solo poderoso dos segredos,
à terra que lavra os racimos.


Terras do ouro sem manchar, humanos
materiais, metal imaculado
do povo, virginais minerações,
que se tocam sem se verem na implacável
encruzilhada de seus caminhos:
o homem continuará mordendo o pó,
continuará sendo terra pedregosa,
e ouro subirá sobre seu sangue
até ferir e reinar sobre o ferido.




VIII
O caminho do ouro

Entrai, senhor, comprai pátria e terreno,
casas, bênçãos, ostras,
tudo se vende aqui aonde chegastes.

Não há torre que não caia em vossa pólvora,
não há presidência que rechace nada,
não há rede que não reserve o seu tesouro.


Como somos tão “livres” como o vento,
podeis comprar o vento, a cachoeira,
e na desenrolada celulose
ordenar as impuras opiniões,
ou recolher amor sem alvitre,
destronado no linho mercenário.


O ouro mudou de roupa usando
formas de trapo, de papel puído,
frios fios de lâmina invisível, cinturões de dedos enroscados.


À donzela em seu novo castelo
levou o pai de aberta dentadura
o prato de cédulas
que devorou a bela disputando-o
no chão e a golpes de sorriso.

Ao bispo subiu a investidura
dos séculos de ouro, abriu a porta
dos juízes, manteve as alfombras,
fez tremer a noite nos bordéis,
correu com os cabelos no vento.


(Eu vivi a idade em que reinava.

Eu vi consumida podridão,
pirâmides de esterco angustiadas
pela honra: conduzidos e trazidos
césares da chuva purulenta,
convencidos do peso que punham
nas balanças, rígidos
bonecos da morte, calcinados
por sua cinza dura e devorante.
)



IX

Fui além do ouro:
entrei na greve.

Lá durava o fio delicado
que une os seres, lá o cordão puro
do homem está vivo.

A morte os mordia,
o ouro, ácidos dentes e veneno
lançava para eles, mas o povo
pôs os seus pedernais na porta,
foi torrão solidário que deixava
transcorrer a ternura c o combate
como duas águas paralelas,
fios
das raízes, ondas da estirpe.


Vi a greve nos braços reunidos
que apertam o desvelo
e em uma pausa trêmula de luta

vi pela primeira vez o único vivo!
A unidade das vidas dos homens!

Na cozinha da resistência
com seus fogões pobres, nos olhos
das mulheres, nas mãos insignes
que com torpor se inclinavam
para o ócio de um dia
como em um mar azul desconhecido,
na fraternidade do pão escasso,
na reunião inquebrantável, em todos
os germes de pedra que surgiam,
naquela romã valorosa
elevada no sal do desamparo,
achei por fim a fundação perdida,
a remota cidade da ternura.




X
O poeta

Antes andei pela vida, em meio
a um amor doloroso: antes retive
uma pequena página de quartzo
cravando-me os olhos na vida.


Comprei bondade, estive no mercado
da cobiça, respirei as águas
mais surdas da inveja, a inumana
hostilidade de máscaras e seres.

Vivi um mundo de lamaçal marinho
no qual a flor de súbito, a açucena
me devorava em tremor de espuma,
e onde pus o pé resvalou minha alma
pelas dentaduras do abismo.

Assim nasceu minha poesia, apenas
resgatada de urtigas, empunhada
sobre a solidão como um castigo,
ou apartou no jardim da impudicícia
sua mais secreta flor até enterrá-la.

Asilado assim como a água sombria
que vive em seus profundos corredores,
corri de mão em mão, ao insulamento
de cada ser, ao ódio cotidiano.

Soube que assim viviam, escondendo
a metade dos seres, como peixes
do mais estranho mar, e nas lodosas
imensidades encontrei a morte.

A morte abrindo portas e caminhos.

A morte deslizando pelos muros.




XI
A morte no mundo

A morte ia mandando e recolhendo
em lugares e tumbas seu tributo:
o homem com punhal ou com bolso,
ao meio-dia ou na luz noturna,
esperava matar, ia matando,
ia enterrando seres e ramagens,
assassinando e devorando mortos.

Preparava as suas redes, esmagava,
sangrava, saía nas manhãs
cheirando o sangue da caçada,
e ao voltar de seu triunfo estava envolto
por fragmentos de morte e desamparo,
e então matando-se enterrava
com cerimônia funeral os seus passos.


As casas dos vivos eram mortas.

Escória, tetos rotos, urinóis,
vermiculadas ruelas, covas
acumuladas com o pranto humano.

- Assim deves viver - disse o decreto.

- Apodrece em tua substância - disse o chefe.

- És imundo - arrazoou a Igreja.

- Estende-te no lodo - te disseram.

E uns tantos armaram a cinza
para que ela governasse e decidisse,
enquanto a flor do homem se batia
contra as paredes que lhe construíram.


O cemitério teve pompa e pedra.

Silêncio para todos e estatura
de vegetais altos e afiados.


Por fim estás aqui, por fim nos deixas
um vazio nu meio da selva amarga,
por fim te encontras teso entre paredes
que não transpassarás.
E cada dia
as flores como um rio de perfume
se juntaram ao rio dos mortos.

As flores que a vida não tocava
caíram sobre o vazio que deixaste.




XII
O homem

Aqui encontrei o amor.
Nasceu na areia,
cresceu sem voz, tocou os pedernais
da dureza e resistiu à morte.

Aqui o homem era vida que juntava
a intacta luz, o mar sobrevivente,
e atacava e cantava e combatia
com a mesma unidade dos metais.

Aqui os cemitérios eram terra
apenas erguida, cruzes partidas,
sobre cujas madeiras derretidas
adiantavam-se os ventos arenosos.




XIII
A greve

Estranha era a fábrica inativa.

Um silêncio na planta, uma distância
entre máquinas e homem, como um fio
cortado entre planetas, um vazio
das mãos do homem que consomem
o tempo construindo, e as desnudas
estâncias sem trabalho e sem um som.

Quando o homem deixou as tocas
da turbina, quando desprendeu
os braços da fogueira e decaíram
as entranhas do forno, quando tirou os olhos
da roda e a luz vertiginosa
se deteve em seu círculo invisível,
de todos os poderes poderosos,
dos círculos puros de potência,
da energia surpreendedora,
ficou um montão de inúteis aços
e nas salas sem homem, o ar viúvo,
o solitário aroma do azeite.


Nada existia sem aquele fragmento
batido, sem Ramírez,
sem o homem de roupa rasgada.

Lá estava a pele dos motores,
acumulada em morto poderio,
como negros cetáceos no fundo
pestilento dum mar sem ondulação,
ou montanhas escondidas de repente
sob a solidão dos planetas.




XIV
O povo

Passeava o povo suas bandeiras rubras
e entre eles na pedra que tocaram
estive, na jornada fragorosa
e nas altas canções da luta.

Vi como passo a passo conquistavam.

Somente a resistência dele era caminho,
e isolados eram como troços partidos
duma estrela, sem boca e sem brilho.

Juntos na unidade feita em silêncio,
eram o fogo, o canto indestrutível,
o lento passo do homem na terra
feito profundidades e batalhas.

Eram a dignidade que combatia
o que foi pisoteado, e despertava
como um sistema, a ordem das vidas
que tocavam as portas e se sentavam
na sala central com suas bandeiras.




XV
A letra

Assim foi.
E assim será.
Nas serras
calcárias, à beira
da fumaça, nas oficinas,
há uma mensagem escrita nas paredes
e o povo, só o povo, pode vê-la.

Suas letras transparentes se formaram
com suor e silêncio.
Estão escritas.

Amassaste-as, povo, em teu caminho
e estão sobre a noite como o fogo
abrasador e oculto da aurora.

Entra, povo, nas margens do dia.

Anda como um exército, reunido,
e bate a terra com teus passos
e com a mesma identidade sonora.

Seja uniforme o teu caminho como
é uniforme o suor da batalha,
uniforme o sangue poeirento
do povo fuzilado nos caminhos.


Sobre esta claridade irá nascendo
a granja, a cidade, a mineração,
e sobre esta unidade como a terra
firme e germinadora se há disposto
a criadora permanência, o germe
da nova cidade para as vidas.

Luz dos grêmios maltratados, pátria
amassada por mãos metalúrgicas,
ordem que saiu dos pescadores
como um ramo do mar, muros armados
pela alvenaria transbordante,
escolas cereais, armaduras
de fábricas amadas pelo homem.

Paz desterrada que regressa, pão
compartilhado, aurora, sortilégio
do amor terrenal, edificado
sobre os quatro ventos do planeta.

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