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Poemas neste tema

Alma

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Eclipse

Lentamente a lua foi desaparecendo
ante o balcão marino de Copacabana,
fez a grande volta insuspeitada.
Às 22h58só se podia tê-la na reprodução de Aert van der Neer,
famoso pintor de luar em álbuns suíços
ou no LP — mas tão batido — de Beethoven.
Sobre o Lago dos Quatro Cantões a flor entre dois abismos
— disse um que leu a Enciclopédia de Música,
e tu fechaste os olhos
para ver o eclipse à tua maneira,
pois eclipse é também ocultação
de coisas não meteorológicas
na faixa ultranictina de teu cone de sombra.
Cada um vê eclipse a seu modo
e os óculos mais em moda são de Antonioni.
Era preciso?
compor sonata eletrônica ao eclipse,
mas tão sem cor-teor que não se ouvisse
além do bochechar de noite na abóbada
selada.
Era preciso?
fazer um verso não Laforgue
à base desse novo sentimento
de lua omissa, Miss
sem desfile, sem isso
nem aquilo, só sumiço, lua eclipse.
Não, era preciso
lançar foguete urgente à nigra eclíptica
e procurar a lua, recompô-la,
trazer de volta o cromossonho
que ao pedestre tardonho
serve de companhia e táxi-aéreo.
Era tudo preciso
ao mesmo tempo, o tempo de um eclipse
que restaura o mistério
e promete a fotógrafos o prêmio
da turva reportagem sideral.
No banco de praia namorados
em sombra se fecharam; noutro banco
era um só namorado se fechando
em eclipse total sem sua amada.
O cão passa depressa, controlando
o eclipse do Posto 6 ao Posto 1000.
Este menino
dorme no ombro materno e vê no sono
uma lua maior que tapa o sol
e todas as estrelas:
sorvetilúnio
para o resto da vida, queijo, flã
níveo de gelatina aldebarã.
Zero hora:
eclipsa-se o eclipse.
A lua volta sempre.
Verdade obscura ou rara?
Para quem sabe ver, a noite é clara.
28/06/1964
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Adélia Prado

Adélia Prado

Miserere

Eu desenhava no papel de seda uma flor de cinco pétalas
quando me ocorreu a vingança contra os donos do
[mundo.
Tentando versos com que vos narrar minha trama,
adormeci sentada, o queixo desabado no peito.
Coitada, diríeis, é aquela que vimos esbravejar no
[seminário?
Cismei que adoecia e procurei o médico.
Ele não foi perspicaz.
Auscultou, profissional, minhas cavidades
e prescreveu ginástica, redução de calorias, vida calma.
Doía tudo. Aqui dói, doutor, aqui também.
É certo que o senhor nunca deglutiu pedras,
mas, afianço-lhe, mesmo a água que bebo
é indigesta coisa sólida no meu bucho.
Ele precaveu-se, intimidado pela minha fluência,
pelo manuseio intimorato que dispenso às palavras.
Dependendo da atividade intelectual,
da sensibilidade de cada um,
tais sintomas ocorrem, minha senhora.
E mostrou as garras, defensivo,
mais uns grãos de enfado.
Eu não estava doente. E estava muito.
O medo de morrer, habitualmente grande,
trinta vezes aumentado.
Comecei a rezar no registro dos náufragos:
Perdoa-me, Senhor. Lembra-Te de que és meu Pai.
Como gostaria de nascer de novo
e começar tudo generosamente.
Olha pelos filhos que deixarei,
por meu marido que talvez não se case mais.
Onde achará, neste lugar pequeno, outra mulher que lhe
[ofereça
tantos motivos pra mortificar-se?
Passeava na casa, amargando a saudade prévia dos seus
[cantos.
Doía tudo, até que,
até que nada, não dói mais.
Recolhi-me ao corriqueiro estatuto
de comer, dormir, lavar-me,
recuperado o saudável desejo de que se fodam bem
determinadas pessoas em suas empresas.
Continuo passando a língua no molar obturado,
desgostosa, porque se não sou eu a cuidar da cozinha,
uma lata de óleo é a conta de dois dias.
Confesso-vos: quando comecei a escrever
o que eu queria era fazer um teatro.
Fostes salvos do sacrifício de uma opinião
por este grito que me interrompeu:
acode aqui, dona Wíllia, o seu cachorro deu convulução!
Judith entrou de noite no acampamento inimigo
e decapitou Holofernes.
Pergunto-vos, sem que nos ouçam os fracos e os ímpios:
poderia eu também?
Não durmo porque nada se exaure, requerendo atenção,
matança, oferta de comida, futuros de paz, empregos;
e eu tenho um corpo talhado para prazeres só e guerra.
Posso? Comer? Dormir? Gostar de homens?
Louvar-Vos — em perfeita alegria — neste tempo
[cinzento e pegajoso?
Não é possível conseguir a atenção de uma cidade inteira
— há misteres inadiáveis nos banheiros,
nas casas com menino pequeno —
nem silêncio. Há os aparelhos eletrônicos e as línguas
[compridas.
Mas duzentas pessoas numa sala,
com olhos fixos na cena,
verão que a vida é doida, doida,
que o ser humano até hoje está sem calças,
que Deus é bom e duro.
Que Jesus Cristo quando ri alucina as pessoas
e atrai a todos quando diz: AMAI-VOS.
Eu estou apaixonada.
Ó meu Deus, me ajuda a escrever um drama.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Ex-Voto

Na tarde clara de um domingo quente
surpreendi-me,
intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro,
desejo de raspar a cabeça e me pôr nua
no centro da minha vida e uivar
até me secarem os ossos:
que queres que eu faça, Deus?
Quando parei de chorar
o homem que me aguardava disse-me:
você é muito sensível, por isso tem falta de ar.
Chorei de novo porque era verdade
e era também mentira,
sendo só meio consolo.
Respira fundo, insistiu, joga água fria no rosto,
vamos dar uma volta, é psicológico.
Que ex-voto levo à Aparecida,
se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista,
torço para que se desiluda
e volte a rezar comigo as orações católicas.
Eu nunca ia ser budista,
por medo de não sofrer, por medo de ficar zen.
Existe santo alegre ou são os biógrafos
que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
O menino não consegue mais,
vai morrer, sem forças para sugar
a corda de carne preta do que seria um seio,
agora às moscas.
Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia,
por que tanto recebo,
quando seria justo mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu disse, só aceito chorar.
Por que então limpei os olhos
quando avistei roseiras
e mais o que não queria,
de jeito nenhum queria àquela hora,
o poema,
meu ex-voto,
não a forma do que é doente,
mas do que é são em mim
e rejeito e rejeito,
premida pela mesma força
do que trabalha contra a beleza das rochas?
Me imploram amor Deus e o mundo,
sou pois mais rica que os dois,
só eu posso dizer à pedra:
és bela até à aflição;
o mesmo que dizer a Ele:
sois belo, belo, sois belo!
Quase entendo a razão da minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minha angústia,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Campo de Flores

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus — ou foi talvez o Diabo — deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer um vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Flor E a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo 6 ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os  ferozes  leiteiros  do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com êle me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua côr não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia.    Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia.    Mas é uma flor.    Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Desdobramento de Adalgisa

Os homens preferem duas.
Nenhum amor isolado
habita o rei Salomão
e seu amplo coração.
Meu rei, a vossa Adalgisa
virou duas diferentes
para mais a adorardes.

Sou loura, trêmula, blândula
e morena esfogueteada.
Ando na rua a meu lado,
colho bocas, olhos, dedos
pela esquerda e pela direita.
Alguns mal sabem escolher,
outros misturam depressa
perna de uma, braço de outra,
e o indiviso sexo aspiram,
como se as duas fossem uma,
quando é uma que são duas.

Adalgisa e Adaljosa,
parti-me para o vosso amor
que tem tantas direções
e em nenhuma se define
mas em todas se resume.

Saberei multiplicar-me
e em cada praia tereis
dois, três, quatro, sete corpos
de Adalgisa, a lisa, fria
e quente e áspera Adalgisa,
numerosa qual Amor.

Se fugirdes para a floresta,
serei cipó, lagarto, cobra,
eco de grota na tarde,
ou serei a humilde folha,
sombra tímida, silêncio
entre duas pedras. E o rei
que se enfarou de Adalgisa
ainda mais se adalgisará.

Se voardes, se descerdes
mil pés abaixo do solo,
se vos matardes alfim,
serei ar de respiração,
serei tiro de pistola,
veneno, corda, Adalgisa,
Adalgisa eterna, os olhos
luzindo sobre o cadáver.

Sou Adalgisa de fato,
pensais que sou minha irmã
ou que me espelho no espelho.
Amai-me e não repareis!
Uma Adalgisa traída
presto se vinga da outra.
Eu mesmo não me limito:
se viro o rosto me encontro,

quatro pernas, quatro braços,
duas cinturas e um
só desejo de amar.
Sou a quádrupla Adalgisa,
sou a múltipla, sou a única
e analgésica Adalgisa.
Sorvei-me, gastai-me e ide.
Para onde quer que vades,
o mundo é só Adalgisa.
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