Poemas neste tema
Alma
Herberto Helder
Vida Aguda Atenta a Tudo
vida aguda atenta a tudo
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
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Herberto Helder
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roupa agitada pela força da luz que irrompe dela,
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
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Herberto Helder
6
pratica-te como contínua abertura,
o mais atento que custe,
com uma volta sobre ti mesma até eu aparecer no outro lado do rosto
quando te olhas,
espera que desapareça o ruído em cada palavra,
e agora só a ela se ouça,
e então aumenta tanto quanto possas se escutas
que me aproximo,
a género de abrasadura mulheril,
a cálculo lírico infundido nas lides de ar e fogo,
edoi lelia doura,
que o mênstruo coza e a seda escume,
à luz que nasce da roupa,
e os substantivos perfeitos respirem uns dos outros na têmpera
e frescor da língua indestrutível,
e então estendo por ti acima o melhor do meu braço,
se é que posso fulgurar,
e enquanto crio, cria-me, e cria-te como começo de mim mesmo,
isto: que unas o avulso,
se te puderes mover como o ar que respiro, ó
irrepetível, inenarrável, inerente
o mais atento que custe,
com uma volta sobre ti mesma até eu aparecer no outro lado do rosto
quando te olhas,
espera que desapareça o ruído em cada palavra,
e agora só a ela se ouça,
e então aumenta tanto quanto possas se escutas
que me aproximo,
a género de abrasadura mulheril,
a cálculo lírico infundido nas lides de ar e fogo,
edoi lelia doura,
que o mênstruo coza e a seda escume,
à luz que nasce da roupa,
e os substantivos perfeitos respirem uns dos outros na têmpera
e frescor da língua indestrutível,
e então estendo por ti acima o melhor do meu braço,
se é que posso fulgurar,
e enquanto crio, cria-me, e cria-te como começo de mim mesmo,
isto: que unas o avulso,
se te puderes mover como o ar que respiro, ó
irrepetível, inenarrável, inerente
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Herberto Helder
Fonte - V
Apenas te digo o ouro de uma palavra no meio da névoa,
formosura inclinada sobre a cinza descerrada
e o frio dos retratos.
Espero que a seiva ascenda a um puro gosto
de reaver tua grave cabeça de mãe
cora platina entre a aragem. Que se inspire na seiva
o vermelho de uma face
adormecendo no vinho, acordando
para o início das primaveras.
Peço que os dedos não esqueçam o pão e a tristeza
e a boca vibre como um pensamento
na substância de um instante
carnal, irremovível.
E se morrer é a alta vocação das manhãs marcadas pelas uvas
- peço, mãe um dia
composta sobre a veemente confusão das forças
e dos números, que resguardes
entre as descuidadas dobras de pedra
o fulgor de onde plátanos e aves recebiam
a doce e dolorosa vida
da beleza.
Rente ao tempo que nos cobria
de previsão e silêncio,
arrefecem os sentidos sobre o teu rosto selado.
Pequena e imensa coisa no alto das águas,
no fundo de sementes desmemoriadas — mãe
engolfada no leite renascente,
para ti se elevam os lábios tocados pelo sumo
incompleto, o sono da próxima
incontida primavera.
Tudo o que se diga está vivo na frescura de um coração
novo. Por isso o ouro, o inseguro passo
de um dia que traz a morte em sua intensa
juventude, roça a forma do espírito
em que tu mesma te buscavas — quente e rápida
em nós, no equilibrado idioma
de fomes e sorrisos que nunca
se decifram.
Num lugar onde a sombra é gémea
do fogo irrevelado, não há
morte que se não destine a um escarlate
de rosa. Nunca se adormece
que não seja para ler um estuante anúncio
nas pálpebras que se apagam.
Nasces da melancolia, e arrebatas-te.
Como os bichos nascem da matéria dos seus dias,
como os frutos vacilam no bojo das auroras
e se embebem até que o tempo os faz
violentos,
cerrados,
palpáveis.
formosura inclinada sobre a cinza descerrada
e o frio dos retratos.
Espero que a seiva ascenda a um puro gosto
de reaver tua grave cabeça de mãe
cora platina entre a aragem. Que se inspire na seiva
o vermelho de uma face
adormecendo no vinho, acordando
para o início das primaveras.
Peço que os dedos não esqueçam o pão e a tristeza
e a boca vibre como um pensamento
na substância de um instante
carnal, irremovível.
E se morrer é a alta vocação das manhãs marcadas pelas uvas
- peço, mãe um dia
composta sobre a veemente confusão das forças
e dos números, que resguardes
entre as descuidadas dobras de pedra
o fulgor de onde plátanos e aves recebiam
a doce e dolorosa vida
da beleza.
Rente ao tempo que nos cobria
de previsão e silêncio,
arrefecem os sentidos sobre o teu rosto selado.
Pequena e imensa coisa no alto das águas,
no fundo de sementes desmemoriadas — mãe
engolfada no leite renascente,
para ti se elevam os lábios tocados pelo sumo
incompleto, o sono da próxima
incontida primavera.
Tudo o que se diga está vivo na frescura de um coração
novo. Por isso o ouro, o inseguro passo
de um dia que traz a morte em sua intensa
juventude, roça a forma do espírito
em que tu mesma te buscavas — quente e rápida
em nós, no equilibrado idioma
de fomes e sorrisos que nunca
se decifram.
Num lugar onde a sombra é gémea
do fogo irrevelado, não há
morte que se não destine a um escarlate
de rosa. Nunca se adormece
que não seja para ler um estuante anúncio
nas pálpebras que se apagam.
Nasces da melancolia, e arrebatas-te.
Como os bichos nascem da matéria dos seus dias,
como os frutos vacilam no bojo das auroras
e se embebem até que o tempo os faz
violentos,
cerrados,
palpáveis.
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Herberto Helder
Já Não Tenho Mão Com Que Escreva Nem Lâmpada
já não tenho mão com que escreva nem lâmpada,
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada a nada:
e acautela a tua dor que se não torne académica
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada a nada:
e acautela a tua dor que se não torne académica
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Herberto Helder
¿E a Música, a Música, Quando, Como, Em Que Termos
e a música, a música, quando, como, em que termos extremos
a ouvirei eu,
e ela me salvará da perda da terra, águas que a percorrem,
tão primeiras para o corpo mergulhado,
magníficas,
desmoronadas,
marítimas,
e que eu desapareça na luz delas —
só música ao mesmo tempo nos instrumentos todos,
curto poema completo,
com o autor cá fora salvo no derradeiro instante
numa poalha luminosa ?
a ouvirei eu,
e ela me salvará da perda da terra, águas que a percorrem,
tão primeiras para o corpo mergulhado,
magníficas,
desmoronadas,
marítimas,
e que eu desapareça na luz delas —
só música ao mesmo tempo nos instrumentos todos,
curto poema completo,
com o autor cá fora salvo no derradeiro instante
numa poalha luminosa ?
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Herberto Helder
Presumir Não Das Grandes Partes da Noite
presumir não das grandes partes da noite mas entre elas apenas de uma risca de luz
alguém lhe chamaria
plausível?
por um lado vem a noite das águas,
pelo outro vem o dia das colinas e das matas bravas:
e na luz suposta ao meio, alta, sumptuosa,
morro da sua risca exacta,
ou morro da minha vida nenhuma
ah quem tem o tempo todo para vivê-lo e morrê-lo
assim:
turvo no rosto e nas mãos através
do mais limpo do mundo?
alguém lhe chamaria
plausível?
por um lado vem a noite das águas,
pelo outro vem o dia das colinas e das matas bravas:
e na luz suposta ao meio, alta, sumptuosa,
morro da sua risca exacta,
ou morro da minha vida nenhuma
ah quem tem o tempo todo para vivê-lo e morrê-lo
assim:
turvo no rosto e nas mãos através
do mais limpo do mundo?
1 083
Herberto Helder
Como Se Atira o Dardo Com o Corpo Todo
como se atira o dardo com o corpo todo,
com a eternidade em não mais que nada,
e depois a abolição do tempo,
e então o que respira no corpo passa à vara,
e o que respira na vara passa depois à ponta,
tu não, tu já respiraste tudo pelo dardo fora,
mudo e cego e surdo,
e és um só ponto do alvo onde respiras todo,
e tudo respira nesse ponto,
em ti, veia da terra, oh
sangue sensível
com a eternidade em não mais que nada,
e depois a abolição do tempo,
e então o que respira no corpo passa à vara,
e o que respira na vara passa depois à ponta,
tu não, tu já respiraste tudo pelo dardo fora,
mudo e cego e surdo,
e és um só ponto do alvo onde respiras todo,
e tudo respira nesse ponto,
em ti, veia da terra, oh
sangue sensível
1 173
Herberto Helder
Pedras Quadradas, Árvores Vermelhas, Atmosfera
pedras quadradas, árvores vermelhas, atmosfera,
estou aqui para quê porquê e como?
e mal pergunto sei que morro todo entre pés e cabeça,
e restam apenas estas linhas como sinal do medo:
pó, poeira, poalha
estou aqui para quê porquê e como?
e mal pergunto sei que morro todo entre pés e cabeça,
e restam apenas estas linhas como sinal do medo:
pó, poeira, poalha
1 025
Herberto Helder
E Eu Que Sopro E Envolvo Teu Corpo Tremulamente
e eu que sopro e envolvo teu corpo tremulamente intacto com meu
corpo de bode coroado
fedendo a testosterona e sangue,
num mundo de aromas e de orvalho,
farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome,
e se brotas em tua donzelia e és ao modo de festejo,
e de minha bruteza te encurvas tanto que te sussurro um poema de
louvação e embalo,
tão soluto e agudo e soberano,
algures, quando
a água quebre e os verbos soberbos cantem,
e tudo se desfaça,
e refaça,
não como soía,
mas com um assombro novo:
faz-se-me tarde para o poema das frutas que de macias se fendem e
fundem nas gengivas,
e no ímpeto da luz rasgada em baixo,
cômo-te antes que morra:
e eu sei quanto depressa morro
corpo de bode coroado
fedendo a testosterona e sangue,
num mundo de aromas e de orvalho,
farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome,
e se brotas em tua donzelia e és ao modo de festejo,
e de minha bruteza te encurvas tanto que te sussurro um poema de
louvação e embalo,
tão soluto e agudo e soberano,
algures, quando
a água quebre e os verbos soberbos cantem,
e tudo se desfaça,
e refaça,
não como soía,
mas com um assombro novo:
faz-se-me tarde para o poema das frutas que de macias se fendem e
fundem nas gengivas,
e no ímpeto da luz rasgada em baixo,
cômo-te antes que morra:
e eu sei quanto depressa morro
1 203
Herberto Helder
Olhos Ávidos
olhos ávidos,
áridos olhos quando tudo tem de ser novo para de novo ser soberbo,
e é esse o êrro de que ressuscito:
e depois morro
áridos olhos quando tudo tem de ser novo para de novo ser soberbo,
e é esse o êrro de que ressuscito:
e depois morro
1 054
Herberto Helder
Disseram: Mande Um Poema Para a Revista Onde
disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos
e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque
nada se reparte: ou se devora tudo
ou não se toca em nada,
morre - se mil vezes de uma só morte ou
uma só vez das mortes todas juntas:
só colaboro na minha morte:
e elas entenderam tudo, e pensaram: que este não colabore nunca,
que o demónio o leve, e foram-se,
e eu fiquei contente de nada e de ninguém,
e vim logo escrever este, o mais curto possível, e depressa, e vazio poema de sentido e de endereço e de razão deveras,
só porque sim, isto é: só porque não agora
e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque
nada se reparte: ou se devora tudo
ou não se toca em nada,
morre - se mil vezes de uma só morte ou
uma só vez das mortes todas juntas:
só colaboro na minha morte:
e elas entenderam tudo, e pensaram: que este não colabore nunca,
que o demónio o leve, e foram-se,
e eu fiquei contente de nada e de ninguém,
e vim logo escrever este, o mais curto possível, e depressa, e vazio poema de sentido e de endereço e de razão deveras,
só porque sim, isto é: só porque não agora
669
Herberto Helder
Cada Vez Que Adormece É Para Que a Noite
cada vez que adormece é para que a noite tome conta dele desde os pés até à cabeça,
já a noite se encheu de iodo e espuma,
se for um barco já uma estrela o queimou proa e pôpa
cada vez que de si vai acordar fecha-o uma estrela,
a água canta, jubila,
cada vez que puxa o sono lençol sobre lençol mais acima do mundo até ao pescoço,
quando vê a maravilha que lhe acode,
a primeira,
o dia desarrumado, a noite já muito varrida,
a água para andar em cima dela,
quem vai pelo sono abaixo sem nunca encontrar pé,
de pé — queria ele,
e, passada a água,
só os outros, de manhã, quando estranham a manhã tão comprida,
e vão ver, e ele já virou a cara,
já virou o corpo,
boca aberta,
interrompida a canção ininterrupta
já a noite se encheu de iodo e espuma,
se for um barco já uma estrela o queimou proa e pôpa
cada vez que de si vai acordar fecha-o uma estrela,
a água canta, jubila,
cada vez que puxa o sono lençol sobre lençol mais acima do mundo até ao pescoço,
quando vê a maravilha que lhe acode,
a primeira,
o dia desarrumado, a noite já muito varrida,
a água para andar em cima dela,
quem vai pelo sono abaixo sem nunca encontrar pé,
de pé — queria ele,
e, passada a água,
só os outros, de manhã, quando estranham a manhã tão comprida,
e vão ver, e ele já virou a cara,
já virou o corpo,
boca aberta,
interrompida a canção ininterrupta
553
Herberto Helder
Irmãos Humanos Que Depois de Mim Vivereis
irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que melhor há-de medrar na memória do mundo
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que melhor há-de medrar na memória do mundo
932
Herberto Helder
Um Quarto Dos Poemas É Imitação Literária
um quarto dos poemas é imitação literária,
outro quarto é ainda imitação mas já irónica e colérica,
outro quarto é das labaredas da inquisição à volta,
outro quarto, o quarto, o que falta, é por causa da magnificência do mundo,
o quinto quarto absurdo é o das quatro patas cortadas,
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
como se fosse tão frio que cortasse até ao osso,
o imo do próprio nome assim metido na pedra,
tanto que ninguém sabia de quem era,
porque ficou todo dentro e não se via de fora:
nem o suor nem o sangue nem o sopro
outro quarto é ainda imitação mas já irónica e colérica,
outro quarto é das labaredas da inquisição à volta,
outro quarto, o quarto, o que falta, é por causa da magnificência do mundo,
o quinto quarto absurdo é o das quatro patas cortadas,
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
como se fosse tão frio que cortasse até ao osso,
o imo do próprio nome assim metido na pedra,
tanto que ninguém sabia de quem era,
porque ficou todo dentro e não se via de fora:
nem o suor nem o sangue nem o sopro
1 275
Herberto Helder
Um Dia Destes Tenho o Dia Inteiro Para Morrer
um dia destes tenho o dia inteiro para morrer,
espero que me não doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom — que é um toque fundo na ferida da inteligência:
oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
:escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas
espero que me não doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom — que é um toque fundo na ferida da inteligência:
oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
:escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas
1 042
Herberto Helder
Quem Fabrica Um Peixe Fabrica Duas Ondas
quem fabrica um peixe fabrica duas ondas, uma que rebenta floralmente branca à direita
outra à esquerda só com ar lá dentro,
e o ouro Íngreme puxando o comêço da noite e o fim do enorme dia onde todos morreremos
como filhos escorraçados ou disso a que chamam demónio da analogia
quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde,
só depois de estar maduro, quem
baixa a mão para quebrar um sêlo bá-de baixá-la
para quebrar os outros, e há-de fechar os olhos,
e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los:
e cômo pão e bebo água de olhos fechados como se fosse para sempre,
e assim, adeus a quem vê, que eu morro inteiro para dentro,
e vejo tudo só de entendê-lo
outra à esquerda só com ar lá dentro,
e o ouro Íngreme puxando o comêço da noite e o fim do enorme dia onde todos morreremos
como filhos escorraçados ou disso a que chamam demónio da analogia
quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde,
só depois de estar maduro, quem
baixa a mão para quebrar um sêlo bá-de baixá-la
para quebrar os outros, e há-de fechar os olhos,
e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los:
e cômo pão e bebo água de olhos fechados como se fosse para sempre,
e assim, adeus a quem vê, que eu morro inteiro para dentro,
e vejo tudo só de entendê-lo
1 375
Herberto Helder
— Oh Coração Escarpado
— oh coração escarpado,
que lhe toquem através do sangue turvo,
nem o amor nem o cego idioma das mães hão-de salvá-lo nunca:
súbito cai o terrífico estio sobre o mundo,
mas só a ele o queimará por entre as searas que amadurecem,
invisíveis, implacáveis,
alta noite
que lhe toquem através do sangue turvo,
nem o amor nem o cego idioma das mães hão-de salvá-lo nunca:
súbito cai o terrífico estio sobre o mundo,
mas só a ele o queimará por entre as searas que amadurecem,
invisíveis, implacáveis,
alta noite
1 107
Herberto Helder
Releio E Não Reamo Nada
releio e não reamo nada,
a minha vida abrupta é absurda,
a arte da iluminação foi toda ao ar pelos fusíveis fora,
e fiquei cego dentro da casa cuja, e pelo mundo, e na memória, e na maneira
das palavras quentes que eu amava,
com as costuras das gramáticas inventadas tortas mas tão amadas também elas,
nessa língua das músicas,
e desfaleço então de tudo e nunca mais ressuscito,
e só a dor,
só o pobre de mim com seu ramilhete de rosetas bravas,
suas mínimas corolas desirmãs que mexo
entre os dedos aos nós, eruditos e ardentes,
e os trabalhos do diabo, pobre diabo, deixo-os,
e a sopa e o pão meio comidos que nem esses sequer hei merecido nunca:
e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida
a minha vida abrupta é absurda,
a arte da iluminação foi toda ao ar pelos fusíveis fora,
e fiquei cego dentro da casa cuja, e pelo mundo, e na memória, e na maneira
das palavras quentes que eu amava,
com as costuras das gramáticas inventadas tortas mas tão amadas também elas,
nessa língua das músicas,
e desfaleço então de tudo e nunca mais ressuscito,
e só a dor,
só o pobre de mim com seu ramilhete de rosetas bravas,
suas mínimas corolas desirmãs que mexo
entre os dedos aos nós, eruditos e ardentes,
e os trabalhos do diabo, pobre diabo, deixo-os,
e a sopa e o pão meio comidos que nem esses sequer hei merecido nunca:
e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida
1 068
Herberto Helder
A Linha de Sangue Irrompendo Neste Poema
a linha de sangue irrompendo neste poema lavrado numa trama de pouco mais que uma dúzia de linhas
oh glória da ínvia linha única!
como um lenço, ou melhor: uma camisa,
encharcava o papel no cimo e no baixo da escrita,
e no imo,
e a toalha se me enxugasse a cara,
e o lençol onde me dormira o corpo,
fazia noite funda,
a linha fugitiva,
que sua a tornasse alguém, algures, um dia,
traçada, lida, aguda,
no lenço, na toalha, no lençol, ou melhor: na camisa alta e redonda,
alta e fremente:
carne confusa, rosa esquerda
oh glória da ínvia linha única!
como um lenço, ou melhor: uma camisa,
encharcava o papel no cimo e no baixo da escrita,
e no imo,
e a toalha se me enxugasse a cara,
e o lençol onde me dormira o corpo,
fazia noite funda,
a linha fugitiva,
que sua a tornasse alguém, algures, um dia,
traçada, lida, aguda,
no lenço, na toalha, no lençol, ou melhor: na camisa alta e redonda,
alta e fremente:
carne confusa, rosa esquerda
1 118
Herberto Helder
A Noite Que No Corpo Eu Tanto Tempo Trouxe
a noite que no corpo eu tanto tempo trouxe, setembro, o estio,
pálpebras seladas, unhas, e o sangue por baixo e em cima a faca
com que se talha a mão e a frase um pouco longa sangra,
e consta que no verso e reverso da língua se está mais vivo,
assim o súbito nos abra,
nos puxe, digo eu, aos sorvedouros do sono,
e seus estados e obras,
eu que sou isento, digo, que me devore um buraco ou fora ou dentro,
ou galáctico, ou uma pontada no coração tão de repente,
se alguém se vai embora não sei de onde para onde,
se se murmura: que toda a gente morre de si: ou agora ou
um pouco mais tarde, o que está certo
como qualquer mistério:
água quebrando os dedos até às pontas quando se escreve
de uma ponta à outra sobre as riscas do papel cantante,
mais coisa menos coisa, pequena coisa, ou: riacho frio, sorve-o a areia,
e acaba ali, como esta curta ária aqui tão perto do comêço
de seu esperançoso esperanto tanto quanto
já sabe alguém que aqui se capitula,
e abre este capítulo:
que tudo acaba: canção, talento, alento, papel, esferográfica,
alguma coisa movida a estrangeiro longínquo,
coisa fora do sistema, e mete medo,
e não é a beleza,
não é um rosto que estremeça junto ao nosso rosto,
e o pretexto é sempre este:
orvalho
pálpebras seladas, unhas, e o sangue por baixo e em cima a faca
com que se talha a mão e a frase um pouco longa sangra,
e consta que no verso e reverso da língua se está mais vivo,
assim o súbito nos abra,
nos puxe, digo eu, aos sorvedouros do sono,
e seus estados e obras,
eu que sou isento, digo, que me devore um buraco ou fora ou dentro,
ou galáctico, ou uma pontada no coração tão de repente,
se alguém se vai embora não sei de onde para onde,
se se murmura: que toda a gente morre de si: ou agora ou
um pouco mais tarde, o que está certo
como qualquer mistério:
água quebrando os dedos até às pontas quando se escreve
de uma ponta à outra sobre as riscas do papel cantante,
mais coisa menos coisa, pequena coisa, ou: riacho frio, sorve-o a areia,
e acaba ali, como esta curta ária aqui tão perto do comêço
de seu esperançoso esperanto tanto quanto
já sabe alguém que aqui se capitula,
e abre este capítulo:
que tudo acaba: canção, talento, alento, papel, esferográfica,
alguma coisa movida a estrangeiro longínquo,
coisa fora do sistema, e mete medo,
e não é a beleza,
não é um rosto que estremeça junto ao nosso rosto,
e o pretexto é sempre este:
orvalho
569
Herberto Helder
Oh Não, Por Favor Não Impeçam o Cadáver
oh não, por favor não impeçam o cadáver,
deixem-no lá passar, a portagem foi já paga,
quando assaz desabridamente pela única porta improvável
passou o dono sem custos nem modos:
arrasou tudo e arrastou tudo consigo:
a laranja, o orvalho, o ar, a rosa
— mas penso: <;não é assim que se passa
(ou é assim mesmo que se passa),
alheio aos mortos e aos vivos,
ou afrontando-os a todos?
deixem-no lá passar, a portagem foi já paga,
quando assaz desabridamente pela única porta improvável
passou o dono sem custos nem modos:
arrasou tudo e arrastou tudo consigo:
a laranja, o orvalho, o ar, a rosa
— mas penso: <;não é assim que se passa
(ou é assim mesmo que se passa),
alheio aos mortos e aos vivos,
ou afrontando-os a todos?
975
Herberto Helder
Que Floresce Uma Só Vez Na Vida, Agaué! Dez Metros
que floresce uma só vez na vida, agaué! dez metros, escarpada, branca, brusca, brava, encarnada,
e lava a língua às crianças,
e põe-lhes a fala cantante,
e nunca esperes que se repita no deserto da vida,
não esperes,
não nunca esperes pelo regresso do sistema das maravilhas,
porque morreu do mundo uma só vez prodigiosa,
e adormeces e acordas,
e a espera enche os dias,
e quebram-se o ar e a água,
porque rente à cara respirando do chão quente batem fundo como se água e ar se amarrassem,
abecedária,
desamarrassem,
e o sal e o ouro moído e a escarlata
pousam camada a camada — e
giram logo acima da pulsação da terra para que os colham e recolham
e o sopro unido vem à volta: estrelas, ondas,
trigos às faíscas,
aberturas,
e o teu rosto mortal iluminado e as pequenas artes do triunfo das palavras:
as criaturas, e a sua morte,
e os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e os grandes anéis das estações e os grandes animais,
e a tua morte de alto a baixo e dentro e fora,
a morte floral, dez metros de sangue compacto e espuma extraordinária,
fria fria luz como uma guerra de lâminas,
fria nas rápidas colinas tomadas pelo estio e a primavera,
pelas estações vertiginosas,
agaué! quando a luz as toma uma só vez na vida e as levanta até onde
ninguém respira,
ninguém brilha,
nunca ninguém ressuscita, agaué! e amanhã e ontem e agora,
os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e a sua morte
e lava a língua às crianças,
e põe-lhes a fala cantante,
e nunca esperes que se repita no deserto da vida,
não esperes,
não nunca esperes pelo regresso do sistema das maravilhas,
porque morreu do mundo uma só vez prodigiosa,
e adormeces e acordas,
e a espera enche os dias,
e quebram-se o ar e a água,
porque rente à cara respirando do chão quente batem fundo como se água e ar se amarrassem,
abecedária,
desamarrassem,
e o sal e o ouro moído e a escarlata
pousam camada a camada — e
giram logo acima da pulsação da terra para que os colham e recolham
e o sopro unido vem à volta: estrelas, ondas,
trigos às faíscas,
aberturas,
e o teu rosto mortal iluminado e as pequenas artes do triunfo das palavras:
as criaturas, e a sua morte,
e os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e os grandes anéis das estações e os grandes animais,
e a tua morte de alto a baixo e dentro e fora,
a morte floral, dez metros de sangue compacto e espuma extraordinária,
fria fria luz como uma guerra de lâminas,
fria nas rápidas colinas tomadas pelo estio e a primavera,
pelas estações vertiginosas,
agaué! quando a luz as toma uma só vez na vida e as levanta até onde
ninguém respira,
ninguém brilha,
nunca ninguém ressuscita, agaué! e amanhã e ontem e agora,
os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e a sua morte
669
Herberto Helder
Uma Espuma de Sal Bateu-Me Alto Na Cabeça
uma espuma de sal bateu-me alto na cabeça,
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas se ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas,
como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas se ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas,
como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
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