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Poemas neste tema

Alma

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Tudo Certo, Camus

encontrei esse cara em algum lugar, inferno, seus olhos pareciam aqueles
de um louco
ou talvez fosse apenas meu reflexo neles.
bem, de qualquer modo, ele me disse, você leu Camus?
estamos ambos no bar sem mulheres procurando
um pedaço de rabo ou alguma saída através do teto do céu e
não estava funcionando - só havia o balconista do bar perguntando-se
por que
havia se metido nesse negócio
e eu, muito desanimado com o fato de até agora só ter sido traduzido
em 6 ou 7 línguas.
o cara continuava a falar -
O estrangeiro, você sabe, o livro que retrata nossa sociedade moderna -
sobre o homem amortecido que não
conseguia chorar no funeral da mãe dele, que
matou um árabe ou dois sem nem mesmo saber por quê -
ele prosseguia e prosseguia
e prosseguia e prosseguia
contando-me que filho de uma puta era O estrangeiro,
e fiquei pensando que talvez ele tivesse razão -
você sabe, esses discursos horrorosos diante da Academia Francesa -
você não saberia dizer se Camus estava falando pelo
canto da sua boca ou
se ele estava
sério. ele certamente não soava melhor que
o sujeito a meu lado no bar
e nós estávamos apenas procurando
xota.
foi muito triste -
o tempo todo O estrangeiro havia sido meu herói
porque eu achava que ele enxergara para além da tentativa
ou do cuidado
porque tudo era uma tamanha chatice
tão sem sentido -
a vida em um grande buraco no chão olhando para cima -
e eu estava errado mais uma vez:
inferno, eu era O estrangeiro e o livro simplesmente não havia saído
do jeito que
deveria.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Maldito Rimbaud

foi em Santa Fé.
estávamos sentados esperando-a.
ela havia ido a alguma exposição de arte ou qualquer outra
maldita coisa inútil.
era uma boa artista
melhor que muitos homens
e esse era O
problema.
"que diabo aconteceu com Helen?"
"onde está Helen?"
o marido de Helen, ex-marido, agora estava sentado no topo de uma
colina em algum lugar com uma nova puta de olhos azuis.
uma puta
muito puta: ela até escrevia
poesia. Vicki era o nome dela. Vicki agora era "Sra."
ela havia trocado um marido rico por outro mais
rico ainda.
"Helen me pediu para não odiar Vicki!", disse minha anfitriã,
"mas que diabo, não consigo gostar de Vicki."
"que diabo", disse meu anfitrião, "você não pode nem
tentar?"
"você gosta de Vicki?", perguntou minha anfitriã.
Vicki me parecia legal. eu não conseguia achar nada de errado
nela.
"onde está Helen?", perguntei de novo. "oh onde oh onde diabos está
Helen?"
"ela vai chegar, ela vai chegar, ela disse que estava
chegando."
Helen apareceu 3 horas mais tarde.
ela parecia uma serpente em um vestido verde, todo fluido,
louco louco, lustroso,
seu colar prateado pulsando
em sua garganta
bem debaixo do meu nariz.
ela era consumida por 3 simples coisas:
bebida, desespero, solidão; e mais 2:
juventude e beleza.
era demais:
eu não podia resistir à força
dela. eu a beijei. eu a beijei
de novo. eu era como um garoto na escola,
toda a minha dureza
tinha desaparecido.
"vamos cair fora daqui!"
eu lhe disse, ignorando nosso anfitrião e nossa anfitriã.
fomos para sua casa logo ao lado
e eu fiquei na cozinha bebendo e
observando-a.
"seu corpo, seu corpo, Jesus!", eu lhe
disse. ela era realmente bela e dava risadas,
como quando você lê a respeito em um romance
só que isso nunca acontece com
ninguém.
ela contorceu seu corpo e enquanto cantarolava
fez uma adorável dança repleta de
insinuações.
"baby, eu te amo", eu disse, "baby, eu te
amo!"
nós descemos para um salão escuro com um crucifixo
na parede e alguns de seus quadros. entramos em
outro quarto grande. continuei no meu
drinque.
"fique aqui", ela disse.
sentei-me em um sofá e bebi. parecia
frio e vazio de repente e eu
me perguntava aonde ela havia ido.
então olhei em volta e ela estava deitada em outro sofá
nua e sorridente
o que foi inesperado
pois estou acostumado a despir minhas
mulheres.
e a visão dela ali nua em pelo me fazia lembrar mais
dos meus dias no matadouro do
que de Mozart,
mas, é claro, quem quer foder
com Mozart?
terminei meu drinque e tirei a roupa e tentei
mas acho que não estava lá essas coisas
foi minha culpa
minha culpa
e ela me empurrou
pra longe.
eu fiz mais algumas tentativas
desanimadas e então ela se levantou e saiu.
também me vesti e depois
não me lembro de muita coisa exceto
de estar um bocado bêbado.
mas quando ela me pôs para fora na chuva
eu ressuscitei.
a chuva estava molhada a chuva estava fria a chuva estava
gelada.
"merda!", eu disse, "merda!" corri de volta para
a porta dela ou a porta que achei que fosse dela
mas parecia haver dúzias de portas,
uma série de apartamentos todos
engatados.
bati na porta que esperava ser a dela:
"baby, baby, eu não quero foder com você! sei que sou
um amante horrível! tudo o que eu quero é sair
desta maldita chuva!"
ela não respondeu. eu desisti. voltei correndo para
o apartamento do meu primeiro anfitrião. bati na porta.
não adiantou. a chuva era como gelo.
olhei para uma garagem aberta mas estava cheia de lama e água;
nenhum lugar para me deitar.
"deixe-me entrar!", eu gritei. "Jesus! misericórdia! o que eu fiz?
em que eu falhei? VOCÊ É O GUARDIÃO DO SEU IRMÃO!"
meu anfitrião apareceu na porta:
"você é um cachorro sujo!"
"eu sei, mas deixe-me entrar,
por favor."
ele abriu a porta e eu o segui pela
sala.
"cara oh cara." ele disse, "você é um filho da puta, você é um
cachorro covarde, você não vale nada!"
"eu sei," eu disse.
"você contou para ela que eu era um ex-condenado?"
"diabos, não, nem estava pensando em
você."
"então que diabo você quer de
mim?"
"nada, você me pagou a passagem de
trem de volta."
"você insultou a nós dois. eu não me importo comigo mas você não pode
insultar minha mulher. você disse para Helen, "vamos eu e você cair
fora daqui, essas outras pessoas não são de nada!"
"foda-se. você ainda tem algum uísque
sobrando?"
"na geladeira."
"obrigado."
ele grunhiu e subiu para a cama ao lado de sua
mulher.
eu peguei a garrafa e a trouxe para minha cama
e beberiquei beberiquei beberiquei e escutei a
chuva. pensei que a noite tivesse
passado mas aí ele começou
outra vez:
"pensei que você fosse um grande escritor
pensei que você fosse um grande homem
foi por isso que paguei sua passagem até aqui
foi por isso que publiquei sua poesia
foi por isso que quis que toda essa gente o
conhecesse!"
"está certo", eu disse tomando goles do bom uísque.
"eu tenho que ir embora de manhã. por que não vamos todos
dormir?"
"você é realmente um filho da puta!
nunca pensei que você fosse um tamanho filho da puta!
por que você fica sempre com seus olhos semicerrados?
por que você não é capaz de encarar um homem?
por que você sempre desvia o olhar?"
"não sei, não sei."
"você é covarde, é isso: COVARDE!"
eu sabia que era verdade
e tomei um gole grande de uísque e
disse:
"você quer ir lá fora para brigar?"
"diabo! você tem dez anos de vantagem sobre mim!"
"eu lhe dou o primeiro
soco!"
"você promete que vai embora de manhã?"
"com certeza."
Helen soube que eu iria embora
através deles eu acho
e ela chegou lá mais cedo na manhã seguinte para saber se
podia me levar até o hotelzinho para pegar o ônibus até
a estação de trem.
ela ainda estava linda
até mais do que antes
vestindo calças justas e mocassins indígenas e
enquanto ninguém estava olhando
eu me estiquei e peguei seu
pé. ela ignorou mas não me mandou
para o inferno
então me senti todo aquecido
por dentro.
"está bem, eu o levo até lá", ela disse a meus
anfitriões.
"obrigado", eles disseram.
entrei para dar uma
cagada.
"detestamos vê-lo ir embora", eu ouvi
meus anfitriões dizerem.
"eu também", ela
disse.
um cagalhão
saiu.
"voltarei às 2h. para apanhá-lo",
ela disse.
"até logo."
"até logo."
quando eu saí havia 2 índios sentados lá
com meus anfitriões.
o Chefe disse: "eu adiantei aquele negro 8 mangos
por 2 sacos de quatro libras de feijão. passaram 2
semanas e ele ainda não voltou. ele trabalhou para alguma companhia de
cimento.
dê-me sua caderneta de telefones, eu vou encontrar aquele
desgraçado!"
apresentaram-me à sua "squaw". eu a beijei no
rosto. ela deu uma risadinha. tinha uns 60 anos e
um defeito nas pernas.
"estou com problemas," disse o Chefe, e
então arrancou o cobertor do meu catre
e o enrolou em volta de si.
"sou grande Chefe", ele disse, "e tudo que preciso é um
bom pedaço de rabo e depois ir pegar aquele negro."
"não olhe para mim", eu lhe disse, "não sou
nem um nem outro."
o Chefe me olhou:
"acho que preciso de um banho",
ele disse.
ele foi lá e entrou em uma das 3 banheiras em um dos
3 banheiros. então a "squaw" resolveu que ela também precisava tomar
um banho. e depois mais alguém resolveu que precisava dar uma
cagada. todos desapareceram. eu tomei meu drinque e voltei a
dormir.
"sentimos muito por vê-lo ir embora", uma
voz disse, me despertando.
os índios haviam ido embora.
"tudo bem", eu
disse.
ninguém discutiu
comigo.
entrei no carro com Helen e a vista de
seus joelhos de nylon fez martelos baterem em meus miolos.
eu estava tão triste por nunca vir a possuir algo de bom,
algo como ela,
que nada de bom nunca viesse a me pertencer
não porque eu estivesse sempre pobre de dólares
mas porque eu era pobre em expressar-me a dois.
eu era tão amarelo de covardia quanto o sol talvez
mas também tão quente e tão verdadeiro quanto o sol
em algum lugar lá dentro de mim
mas nunca ninguém acharia esse lugar.
eu certamente acabaria para sempre chorando os blues em uma
xícara de café em um parque para velhos jogarem
xadrez ou algum outro jogo bobo.
merda! merda!
e então Helen engatou a marcha e rodamos através das
ricas colinas e não havia nada que eu pudesse lhe dizer
sobre sua beleza ou o quanto eu era durão
ou que só ficar sentado e olhá-la por um mês
sem nunca tocá-la de novo
seria meu único desejo
mas como um desgraçado eu provavelmente estava mentindo para mim
mesmo
eu provavelmente queria tudo tudo
mas agora aos 45
tendo vivido com uma dúzia de mulheres e sem amar nenhuma delas
eu agora estava louco, acabado, enquanto ela
me levava através das colinas tudo gritava dentro de
mim, e eu continuava a dizer enquanto seguíamos
(para mim mesmo, é claro)
fodão, vai passar,
tudo passa,
tudo é uma piada
uma piada sobre você,
esqueça, pense em cachorros mortos coisas mortas pense em
você: indesejado, quebrado, simples, um suposto poeta que escreve
coisas profundas, mas você não é capaz de escrever sobre nada exceto
VOCÊ MESMO. não é verdade? não é verdade? você é uma porra,
um trouxa centrado em si mesmo só esperando por alguma saída fácil?
você anseia
por dinheiro, palanques cheios de aplauso, reconhecimento e um livro
de poemas que ainda será admirado no ano de 2179.
você é um impostor de merda covarde que grita: você não vai conseguir
e
é bom você acostumar-se a isso
agora.
nós rodamos até o hotelzinho
e o pobre poeta impostor disse,
"eu posso lhe dizer adeus?" era
como um filme ruim, só que não era um filme:
eu podia entender Crime e Castigo de Dos
eu podia entender a lua inclinando-se sobre um bar no beco
ao pedir um drinque, mas eu não podia entender nada sobre mim mesmo
eu estava assassinado, eu era um merda, eu era uma matilha de cães,
eu era papoulas ceifadas por rajadas de metralhadora
eu era uma vespa presa em uma teia de aranha
eu era cada vez menos e menos e ainda assim tentando alcançar
algo, e eu pensei em seu comentário banal
a noite passada ou algo assim:
"você tem olhos feridos."
piegas, é claro, mas tudo o que vem de uma mulher
de verdade não é piegas
e eu pensei em suas pinturas decentes de pessoas e coisas
chegando lá querendo querendo
e como um japa na trincheira cercado por heroicas
tropas americanas
eu a beijei
em despedida.
"sinto muito por não ter conseguido ser legal com você",
ela disse. "eu não estava pronta, acho."
"não, foi minha culpa",
eu lhe disse.
entrei no hotelzinho daquela
cidadezinha (de onde levavam de ônibus
até o trem) e me perdi, merda, me perdi,
não conseguia achar a bilheteria, degraus para
cima e para baixo
entrar e sair pelas portas
lágrimas de novo finalmente
como um filme ruim de novo, e
finalmente eu achei o vendedor de bilhetes
e consegui fazer o negócio
de comprar um bilhete.
saí e me sentei no saguão e
olhei por cima do meu bilhete
e lá estava ela.
"o que você está fazendo aqui?", eu perguntei.
"vi você todo encurvado e triste e friorento.
não parei de pensar em você."
o ônibus para o trem estava atrasado, tudo estava
atrasado, assim ela me levou de carro até a cidade nesse meio-tempo e
tive que repassar
a coisa toda com ela.
e eu sabia que mesmo as palavras mais apropriadas nunca resolveriam.
eu estava sujo, sujeira, eu parecia sujeira,
eu estava sujo de sujeira suja,
eu só queria entrar nela,
ficar lá, eu não era nada a não ser um comedor de buceta e
eu estava quebrado. eu não sabia soletrar, eu nem sabia como usar
2 ou 3 garfos para jantar, eu não sabia nada sobre Harvard ou
diplomas ou 50 mil por ano, e ela sabia que tudo isso
era verdade: eu havia sido chutado por aí por muito tempo, eu não sabia
mais
o caminho para cima ou para fora ou nem queria saber: eu estava
destinado ao
fracasso.
eu disse adeus de novo
sugando tudo o que havia sido deixado dela dentro do
pouco que foi deixado de
mim. eu disse: "não me procure de novo. foda-se.
nós estamos todos perdidos. adeus, adeus".
ela era grande. ela foi embora. observei o último clarão
dela dobrar a esquina e desaparecer e
então caminhei de volta até o saguão do hotel.
eles eram boa gente, 5 ou 6 bundões sentados quietos
à espera ali.
2 eram médicos. um outro era dono de qualquer coisa grande
e importante. todos tinham esposas. começava a
nevar.
todos subimos no ônibus para seguir até
o trem. eu já estava dormente,
dormente de novo,
dormente
de novo
e mais uma vez e mais uma vez,
torpor e dor crescendo em
mim - assim como nos bons
velhos tempos.
o mexicano dirigiu rodovia abaixo e quase arrebentou a
embreagem.
pessoas confortáveis faziam piadas confortáveis
sobre o tempo e coisas
mas eu fiquei mais em silêncio
dizendo uma palavra ou outra quando necessário
uma palavra ou outra
tentando esconder-me do fato de eu ser um idiota
e sentido-me horrível
e as pequenas colinas começaram a cobrir-se de neve
vagarosamente as coisas tornaram-se brancas
vagarosamente as coisas tornaram-se mais brancas
e eu sabia que tudo finalmente passaria
e graças à boa graça do bom Deus
meus anos e meu tempo estavam acabando;
seguimos em frente e cada vez mais em frente,
por vilarejos e tanto as coisas boas quanto
as coisas más estavam acontecendo às
pessoas naqueles vilarejos também,
mas eu continuava a não ser nada
a não ser braços e orelhas e olhos e talvez ainda houvesse
alguma sorte para mim ou
mais morte amanhã.
1 827
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Homem Cortando A Grama do Outro Lado Da Rua

eu o vejo seguindo em frente com sua máquina.
ah, você é estúpido demais para ser cortado como grama,
você é estúpido demais para qualquer coisa o violar -
as garotas não usarão suas lâminas em você
elas não querem
que suas lâminas afiadas sejam desperdiçadas em você,
você está interessado apenas em partidas de beisebol e
filmes de faroeste e lâminas cortadoras de grama.
você não pode ficar com uma só das minhas lâminas?
aqui está uma bem velha - enfiada em mim em 1955,
agora está morta, não o machucará muito.
não posso lhe dar esta última -
eu ainda não posso arrancá-la,
mas aqui está esta outra de 1964, que tal arrancar
esta de 1964 de mim?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada em suas entranhas
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada bem fundo em seu coração
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não vê as garotas passeando pelas calçadas agora
com lâminas em suas bolsas?
você não vê seus lindos olhos e vestidos e
cabelos?
você não vê suas lindas bundas e joelhos e
tornozelos?
homem cortando a grama do outro lado da rua
isso é tudo o que você consegue enxergar - essas lâminas de cortar
grama?
isso é tudo o que você consegue ouvir - o ronco do cortador de grama?
eu posso enxergar o caminho todo até a Itália
o Japão
as Honduras
eu posso ver as garotinhas afiando suas lâminas
pela manhã e ao meio-dia e à noite, e
especialmente à noite, ah,
especialmente à noite.
1 155
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Que Fez Você Perder Sua Inspiração?

Norman goteja uma imbecilidade
autocomplacente enquanto fica sentado em meu sofá e
dá risadinhas, puxa
sua barba doentia
e fala de sua namorada Katrinka,
Eugene Debs, F. Scott Fitzgerald e
LSD.
um mau escritor, quase inédito, isso lhe
dá forças enquanto
ele fica ali e me conta
que minha própria escrita desceu ladeira abaixo de
uma erupção vulcânica para uma faísca
de isqueiro.
eu lhe dou algo para beber e
ele desce para o assoalho e
começa a falar para dentro do meu gravador.
acendo um charuto e
Ouço.
"quero ser o escritor Número Um do Nosso
Tempo. quero andar pelas ruas e ouvir as pessoas
dizerem, "ei, veja, lá vai Norman! quero que as pessoas
gostem de meus poemas, quero que as pessoas enlouqueçam com meus
poemas..."
resolvo que essa provavelmente é uma gravação honesta
mas de má qualidade
e não ouço
mais.
uns 30 minutos e 3 latas de cerveja mais tarde
a fita termina de
rodar. Norman ajusta sua gravata,
ergue-se da posição de joelhos e fica
sentado.
"Jack M. diz que tem que faturar 8 mil este ano ou ele estará
acabado."
eu começo outro
charuto.
"vou almoçar com Ray
Bradbury, na terça."
eu não respondo.
"Jesus!"
ele de repente dá um pulo, corre para o meu banheiro e
começa a vomitar. isso prossegue por algum
tempo.
"eu me sinto melhor", ele diz
voltando
para a sala.
"tome mais um drinque", eu digo.
"eu o levarei de carro para a sua aula
de manhã."
"ótimo", ele diz, tirando a espuma do topo de uma cerveja.
aí ele me olha e pergunta,
"onde você tem sido publicado
ultimamente?"
eu estendo a palma das mãos e
dou de ombros.
"Jesus, ora essa! o que fez você perder sua
inspiração?"
"bebida. gente. casamento. gente.
casamento outra vez. um filho. bebida.
gente. empregos. desempregos. bebida e
gente."
"meu professor gostaria que você conversasse com
seus alunos. ele ganhou o Prêmio Lamont de Poesia e
gosta de você."
"diga ao seu professor para ir para o inferno. diga-lhe que
eu estou acabado."
"você é sensível."
"não, sou apenas um lampejo na
frigideira."
nós bebemos e bebemos. logo ele está dormindo
no sofá, 120 quilos dele sacudindo o telhado
com sua poesia.
eu vou para o quarto e ligo o despertador para as
10 da manhã da aula de inglês dele. a bebida desce
melhor agora, mas ao subir na cama
eu penso, de onde vêm esses desgraçados e
o que aconteceu com todo mundo? verdade, eu
estou enlouquecendo.
a luz se apaga
e então um alarme contra ladrões
em algum lugar por perto
se intromete em seus
roncos. muito pertinente, eu penso,
pertinente demais
para uma noite muito desperdiçada
em dezembro de
1965 ou
qualquer outro tempo
que for.
624
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Mais Um Poema Sobre Um Bêbado e Depois Eu Deixo Vocês Irem Embora

"cara", ele disse sentado nos degraus.
"seu carro precisa com certeza de uma limpeza e uma cera.
posso fazer por 5 pratas.
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo
que preciso."
eu lhe dei 5 e subi.
quando desci 4 horas mais tarde
ele estava sentado nos degraus, bêbado.
ele me ofereceu uma lata de cerveja.
disse que ia fazer o carro
no dia seguinte.
no dia seguinte ele estava bêbado de novo e
eu lhe emprestei um dólar para uma garrafa de
vinho. o nome dele era Mike.
um veterano da Segunda Guerra Mundial.
sua mulher trabalhava como enfermeira.
no outro dia quando desci ele estava sentado
nos degraus. ele disse,
"sabe, eu estava sentado aqui olhando seu carro
pensando como fazer melhor.
quero fazer bem feito mesmo".
no dia seguinte Mike disse que parecia que estava com jeito de chuva
e com certeza não faria qualquer sentido
lavar e polir um carro quando ia chover.
no dia seguinte estava outra vez com jeito de chuva.
e no outro dia.
depois nunca mais o vi.
vi sua mulher e ela disse,
"levaram Mike para o hospital,
ele está todo inchado, dizem que é de
beber".
"escute", eu lhe disse, "ele falou que ia polir meu
carro. eu lhe dei 5 dólares para polir meu
carro."
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com a mulher dele
quando o telefone tocou.
ela me passou o telefone.
era Mike. "ouça", ele disse, "venha para cá e
me busque. eu não aguento mais este
lugar."
quando cheguei lá
não quiseram me entregar as roupas dele
e assim Mike caminhou até o elevador em seu roupão de
hospital.
seguimos em frente e havia um garoto no
elevador comendo um picolé.
"ninguém tem permissão para sair daqui de roupão",
ele disse.
"você dirige esta coisa, garoto", eu disse,
"nós cuidamos do roupão."
parei na loja de bebidas para 2 engradados de meia dúzia
e então dirigi para casa. bebi com Mike e sua mulher até
as 11 da noite.
então subi.
"onde está Mike?", perguntei para a mulher dele 3 dias
depois.
"Mike morreu", ela disse, "ele se foi."
"sinto muito", eu disse, "sinto muito, mesmo."
choveu por uma semana depois disso e
imaginei que o único jeito de conseguir aqueles 5 de volta
seria ir para a cama com a mulher dele
mas você sabe
ela se mudou uns dois dias
depois
e um cara velho de cabelos brancos
se mudou para lá.
ele era cego de um olho e
tocava trompete.
de jeito nenhum eu faria aquilo
com ele.
assim, tive eu que lavar e polir meu próprio carro.
1 581
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sopa, Cosmos e Lágrimas

conheci muitas mulheres loucas
porém a mais louca foi
Annette
e parece que quanto mais loucas são
tanto melhor trepam,
e que corpo elas
têm. Annette sempre viveu com
chineses
mas você nunca os via
e era isso o que metia medo.
até a Máfia tem medo dos chineses -
"cadê o dragão, garota?"
"está tudo bem. ele sabe que está tudo bem com você."
"tem certeza? quando põem o X em você,
então você pode muito bem
esquecer."
"eu disse a eles que está tudo bem com você. isso é tudo que
eles precisam."
Annette tinha incenso queimando,
toda espécie de mapas e livros malucos,
ela sempre falava sobre os deuses
ela tinha uma linha direta com os deuses.
"você foi selecionado pelos deuses", ela me
disse.
"está bem, garota, vamos transar
então."
"agora não. quero que você experimente esta sopa especial
que eu fiz."
"sopa especial?"
"sim, tome-a e você herdará as forças da
terra e do sol, o cosmos
inteiro."
lá fui eu e tomei a sopa. francamente, o gosto era bom,
embora meio enferrujado. nem queira saber que diabos ela
pôs lá dentro. eu a tomei
toda.
"eu me sinto como um homem de aço
agora."
"você herdou a força", ela disse, "os deuses estão
orgulhosos de você."
no sofá eu finalmente a
agarrei. debaixo daquele leve vestido cor de laranja
havia bastante mulher para matar um
boi.
"morei naquele hotel em Paris", ela disse. "dormi com todos
eles. Burroughs, a turma
toda. conheci Pound em St. Liz."
"você dormiu com Ezra?"
"mais do que com qualquer outro!"
"ora, vá se foder!"
"vá", ela riu, "em frente."
foi uma boa
sopa. aqueles rapazes de Paris e
Ezra haviam conhecido uma boa
égua.
eu saí
dela.
quando ela voltou do banheiro estava
com uma garrafa na mão e começou a me salpicar
com o
conteúdo.
"ei, que porra é essa?"
"as lágrimas dos
deuses."
"as lágrimas dos deuses?"
"sim, as lágrimas dos
deuses."
eu fiquei lá deitado até que ela
terminasse.
então eu me levantei e me
vesti.
"quando posso ver você
de novo?"
"em 2 horas ou
amanhã"
eu saí em direção à porta.
"você caminha como um
poema", ela disse.
"vejo você em 2
horas", eu lhe
disse.
a porta se fechou. o que um homem tem que aguentar por
um rabo
nestes tempos modernos é
altamente
suspeito.
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