Poemas neste tema
Alma
José Saramago
Dispostos Em Cruz
Dispostos em cruz desfeitos em cruz
Em cada caminho três portas fechadas
Um vento de faca um resto de luz
O espanto da morte nas águas cortadas
Um corpo estendido um ramo de frutos
Um travo na boca da boca do outro
O branco dos olhos o negro dos lutos
O grito o relincho e o dente do potro
As feridas do vento as portas abertas
Os cantos da boda no ventre macio
As notas do canto nas linhas incertas
E o lago do sangue ao largo do rio
O céu descoberto da nuvem da chuva
E o grande arco-íris na gota de esperma
O espelho e a espada o dedo e a luva
E a rosa florida na borda na berma
E a luz que se expande no pino do verão
E o corpo encontrado no corpo disperso
E a força do punho na palma da mão
E o espanto da vida na forma do verso
Em cada caminho três portas fechadas
Um vento de faca um resto de luz
O espanto da morte nas águas cortadas
Um corpo estendido um ramo de frutos
Um travo na boca da boca do outro
O branco dos olhos o negro dos lutos
O grito o relincho e o dente do potro
As feridas do vento as portas abertas
Os cantos da boda no ventre macio
As notas do canto nas linhas incertas
E o lago do sangue ao largo do rio
O céu descoberto da nuvem da chuva
E o grande arco-íris na gota de esperma
O espelho e a espada o dedo e a luva
E a rosa florida na borda na berma
E a luz que se expande no pino do verão
E o corpo encontrado no corpo disperso
E a força do punho na palma da mão
E o espanto da vida na forma do verso
1 229
José Saramago
Praia
Circular, o poema te rodeia:
Em voltas apertadas vem cercando
O teu corpo deitado sobre a areia.
Como outra abelha em busca doutro mel,
Os aromas do jardim abandonando,
Vai rasando o poema a tua pele.
Em voltas apertadas vem cercando
O teu corpo deitado sobre a areia.
Como outra abelha em busca doutro mel,
Os aromas do jardim abandonando,
Vai rasando o poema a tua pele.
1 373
José Saramago
Amanhecer
Navego no cristal da madrugada,
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.
Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.
Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
1 142
José Saramago
Este Meu Rosto
Este meu rosto de sombra
Onde a luz me está nascendo
Não o nego
Animal sujo do fundo
Devagar à superfície veio imundo
Mas não cego
Roço o vitral que me assombra
Abro o chumbo e vou ardendo
Neste pego
Onde a luz me está nascendo
Não o nego
Animal sujo do fundo
Devagar à superfície veio imundo
Mas não cego
Roço o vitral que me assombra
Abro o chumbo e vou ardendo
Neste pego
1 139
José Saramago
Manhã
Altos os troncos, e no alto os cantos:
A hora da manhã, a nós nascida,
Cobre de verde e azul o gesto simples
Com que me dás, serena, a tua vida.
Confiança das mãos, dos olhos calmos,
Donde a sombra das mágoas e dos prantos
Como a noite do bosque se retira:
Altos os troncos, e no alto os cantos.
A hora da manhã, a nós nascida,
Cobre de verde e azul o gesto simples
Com que me dás, serena, a tua vida.
Confiança das mãos, dos olhos calmos,
Donde a sombra das mágoas e dos prantos
Como a noite do bosque se retira:
Altos os troncos, e no alto os cantos.
1 196
José Saramago
O Fruto
Mordo, voraz, a polpa, e sob a língua
Se derrama o sabor reconhecido
Do fruto que se deu e que não mente.
Tudo parece igual, mas, no limite,
Decifro como um deus a obra doutro:
A promessa escondida na semente.
Se derrama o sabor reconhecido
Do fruto que se deu e que não mente.
Tudo parece igual, mas, no limite,
Decifro como um deus a obra doutro:
A promessa escondida na semente.
1 202
José Saramago
Ao Centro da Esmeralda
Ao centro da esmeralda vou, nocturno,
Secreto como os astros, entre as luas
Do espaço rigoroso do teu mundo.
Banho, calado, em luz e água virgem,
E na pureza verde desses pastos
Tenho o corpo do sol, como ele fecundo.
Secreto como os astros, entre as luas
Do espaço rigoroso do teu mundo.
Banho, calado, em luz e água virgem,
E na pureza verde desses pastos
Tenho o corpo do sol, como ele fecundo.
1 135
José Saramago
Eu Luminoso Não Sou
Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se no fundo do poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se no fundo do poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.
996
José Saramago
Onde
Onde os olhos se fecham; onde o tempo
Faz ressoar o búzio do silêncio;
Onde o claro desmaio se dissolve
No aroma dos nardos e do sexo;
Onde os membros são laços, e as bocas
Não respiram, arquejam violentas;
Onde os dedos retraçam novas órbitas
Pelo espaço dos corpos e dos astros;
Onde a breve agonia; onde na pele
Se confunde o suor; onde o amor.
Faz ressoar o búzio do silêncio;
Onde o claro desmaio se dissolve
No aroma dos nardos e do sexo;
Onde os membros são laços, e as bocas
Não respiram, arquejam violentas;
Onde os dedos retraçam novas órbitas
Pelo espaço dos corpos e dos astros;
Onde a breve agonia; onde na pele
Se confunde o suor; onde o amor.
1 128
José Saramago
Tenho a Alma Queimada
Tenho a alma queimada
Por saliva de sapo
Fingindo que descubro
Tapo
A palavra me infecta
Sob a pele da aparência
Deito o certo remédio
Paciência
Neste mal não se vive
Mas também ninguém morre
Quando a ave não voa
Corre
Quem às estrelas não chega
Pode vê-las da terra
Quem não tem voz de cantar
Berra
Por saliva de sapo
Fingindo que descubro
Tapo
A palavra me infecta
Sob a pele da aparência
Deito o certo remédio
Paciência
Neste mal não se vive
Mas também ninguém morre
Quando a ave não voa
Corre
Quem às estrelas não chega
Pode vê-las da terra
Quem não tem voz de cantar
Berra
1 083
José Saramago
Venho de Longe, Longe
Venho de longe, longe, e canto surdamente
Esta velha, tão velha, canção de rimas tortas,
E dizes que a cantei a outra gente,
Que outras mãos me abriram outras portas:
Mas, amor, eu venho neste passo
E grito, da lonjura das estradas,
Da poeira mordida e do tremor
Das carnes maltratadas,
Esta nova canção com que renasço.
Esta velha, tão velha, canção de rimas tortas,
E dizes que a cantei a outra gente,
Que outras mãos me abriram outras portas:
Mas, amor, eu venho neste passo
E grito, da lonjura das estradas,
Da poeira mordida e do tremor
Das carnes maltratadas,
Esta nova canção com que renasço.
1 206
José Saramago
O Primeiro Poema
Água, brancura e luz da madrugada,
E nardos orvalhados, olhos tardos,
E regressos de longe, lentos, vagos,
De espiral que se expande, ou nebulosa.
Assim diria que o mundo se criou:
Gesto liso das mãos do universo
Com perfumes e auras que anunciam,
Noutras mãos de quimera, outro verso.
E nardos orvalhados, olhos tardos,
E regressos de longe, lentos, vagos,
De espiral que se expande, ou nebulosa.
Assim diria que o mundo se criou:
Gesto liso das mãos do universo
Com perfumes e auras que anunciam,
Noutras mãos de quimera, outro verso.
1 419
José Saramago
Ainda Agora É Manhã
Ainda agora é manhã, e já os ventos
Adormecem no céu. Pouco a pouco,
A névoa antiga e baça se levanta.
Ruivamente, o sol abre uma estrada
Na prata nublada destas águas.
É manhã, meu amor, a noite foge,
E no mel dos teus olhos escurece
O amargo das sombras e das mágoas.
Adormecem no céu. Pouco a pouco,
A névoa antiga e baça se levanta.
Ruivamente, o sol abre uma estrada
Na prata nublada destas águas.
É manhã, meu amor, a noite foge,
E no mel dos teus olhos escurece
O amargo das sombras e das mágoas.
1 490
José Saramago
Obra de Fogo
Lama, detrito, entulho, lixo e côdeas:
Onde estão as vassouras que me varram,
Onde estão as mangueiras, as lixívias,
Que me lavem dos escarros que me escarram?
Onde estão as purezas mais profundas,
As faces, que eram minhas, da vergonha,
A língua original, antes que fosse
A via da mentira e da peçonha?
Onde estão os meus olhos sem remela
E a brancura da alma, grave e nua?
Quem partiu os espelhos que falavam,
Quem me pôs espantalhos nesta rua?
Quem foi e quem sujou? Quem, e porquê?
Mas na funda estrumeira vai lavrando
Lento, seguro e oculto o grande incêndio
Que será a resposta do teu quando.
Onde estão as vassouras que me varram,
Onde estão as mangueiras, as lixívias,
Que me lavem dos escarros que me escarram?
Onde estão as purezas mais profundas,
As faces, que eram minhas, da vergonha,
A língua original, antes que fosse
A via da mentira e da peçonha?
Onde estão os meus olhos sem remela
E a brancura da alma, grave e nua?
Quem partiu os espelhos que falavam,
Quem me pôs espantalhos nesta rua?
Quem foi e quem sujou? Quem, e porquê?
Mas na funda estrumeira vai lavrando
Lento, seguro e oculto o grande incêndio
Que será a resposta do teu quando.
572
José Saramago
Cavalaria
Cheguei esporas ao cavalo
E os sentimentos exaustos
Deram saltos no regalo
Das gualdrapas e dos faustos
A relva cheirava a palha
Desmanchei rosas vermelhas
Mas pasto foi maravalha
Sabia ao sarro das selhas
Porque o cavalo era eu
O cansaço e as esporas
Tudo eu e a cor do céu
Mais o gosto das amoras
Relinchos eram os versos
Com jeito de ferradura
Que fazia por dar sorte
Mas tantos foram reversos
Que o ventre de serradura
Deu um estoiro deu a morte
Cai a montada no chão
Cai por terra o cavaleiro
Que era eu (como se viu)
Da escola de equitação
Vim ao saber verdadeiro
Das transparências do rio
Agora dentro do barco
Nos remos brancas grinaldas
Tenho os teus braços em arco
Como um colar de esmeraldas
E os sentimentos exaustos
Deram saltos no regalo
Das gualdrapas e dos faustos
A relva cheirava a palha
Desmanchei rosas vermelhas
Mas pasto foi maravalha
Sabia ao sarro das selhas
Porque o cavalo era eu
O cansaço e as esporas
Tudo eu e a cor do céu
Mais o gosto das amoras
Relinchos eram os versos
Com jeito de ferradura
Que fazia por dar sorte
Mas tantos foram reversos
Que o ventre de serradura
Deu um estoiro deu a morte
Cai a montada no chão
Cai por terra o cavaleiro
Que era eu (como se viu)
Da escola de equitação
Vim ao saber verdadeiro
Das transparências do rio
Agora dentro do barco
Nos remos brancas grinaldas
Tenho os teus braços em arco
Como um colar de esmeraldas
1 318
José Saramago
Secreto Como Um Seixo
Secreto como um seixo, e oferecido
Com a branda ternura que o envolve,
É este o corpo, de luz anunciada.
Quantos anos viveste, em sombra ausente,
Geraram longamente a hora, o gesto,
Que da noite do seixo, alma da pedra,
Lança o grito solar como um protesto.
Com a branda ternura que o envolve,
É este o corpo, de luz anunciada.
Quantos anos viveste, em sombra ausente,
Geraram longamente a hora, o gesto,
Que da noite do seixo, alma da pedra,
Lança o grito solar como um protesto.
983
José Saramago
Nesta Rasa Pobrezas
Nesta rasa pobreza que ficou
De jardins floridos, de searas
Como espelhos do sol ao meio-dia,
Quem esperaria que nascessem nardos
E que as romãs abertas mostrariam
Corações lapidados e auroras?
Mas todo o tempo é tempo começado,
E a terra adivinhada, transparente,
Cobre a fonte serena e misteriosa
Que torna a sede ardente.
De jardins floridos, de searas
Como espelhos do sol ao meio-dia,
Quem esperaria que nascessem nardos
E que as romãs abertas mostrariam
Corações lapidados e auroras?
Mas todo o tempo é tempo começado,
E a terra adivinhada, transparente,
Cobre a fonte serena e misteriosa
Que torna a sede ardente.
948
José Saramago
Ó Tristeza da Pedra
Ó tristeza da pedra
Ó tristeza da pedra, tão fechada
Na montanha da noite e na lonjura
Que a separa do rio.
Ó alma viajante sobre a espada,
Quanto mais adiante, mais escura,
No cortante do fio.
Ó meu corpo de torre e de palmeira,
Agora derrubado porque a força
Se verteu como o vinho.
Minha cama vazia, minha esteira,
Minha fonte queimada de que a corça
Já recusa o caminho.
Ó flor de três pétalas, trevo branco
Sobre a terra vermelha, fim do mundo
Quando o mundo começa.
Ó miséria sombria, pobre manco,
Do orvalho do trevo, agora imundo,
Faz um espelho e confessa.
Ó tristeza da pedra, tão fechada
Na montanha da noite e na lonjura
Que a separa do rio.
Ó alma viajante sobre a espada,
Quanto mais adiante, mais escura,
No cortante do fio.
Ó meu corpo de torre e de palmeira,
Agora derrubado porque a força
Se verteu como o vinho.
Minha cama vazia, minha esteira,
Minha fonte queimada de que a corça
Já recusa o caminho.
Ó flor de três pétalas, trevo branco
Sobre a terra vermelha, fim do mundo
Quando o mundo começa.
Ó miséria sombria, pobre manco,
Do orvalho do trevo, agora imundo,
Faz um espelho e confessa.
1 101
José Saramago
Quando Os Dedos de Areia
Quando os dedos de areia se esboroam,
A dureza da pedra é só memória
Do gesto inacabado.
Azul de céu e verde de alga funda,
Vejo a praia do mundo, fresca e rasa,
E o rosto desenhado.
A dureza da pedra é só memória
Do gesto inacabado.
Azul de céu e verde de alga funda,
Vejo a praia do mundo, fresca e rasa,
E o rosto desenhado.
998
José Saramago
No Teu Ombro Pousada
No teu ombro pousada, a minha mão
Toma posse do mundo. Outro sinal
Não proponho de mim ao que defino:
Que no mínimo espaço desse gesto
Se desenhem as formas do destino.
Toma posse do mundo. Outro sinal
Não proponho de mim ao que defino:
Que no mínimo espaço desse gesto
Se desenhem as formas do destino.
1 075
José Saramago
Estrelas Poucas
Dizer-te rosa, aurora ou água solta,
Que mais é que palavras apanhadas
No refugo das línguas e das bocas?
Os mistérios são pouco o que parecem,
Ou não chegam palavras a dizê-los:
Na fundura do espaço estrelas poucas.
Que mais é que palavras apanhadas
No refugo das línguas e das bocas?
Os mistérios são pouco o que parecem,
Ou não chegam palavras a dizê-los:
Na fundura do espaço estrelas poucas.
1 221
José Saramago
E Se Vier
E se vier que traga o coração
No seu lugar de paz. Amor diremos,
Que outro nome melhor se não descobre.
Só a vida não diz quanto sabemos.
No seu lugar de paz. Amor diremos,
Que outro nome melhor se não descobre.
Só a vida não diz quanto sabemos.
1 029
José Saramago
Pedra Coração
Houve um tempo sem forma, uma fusão
Mordida de cristais neste basalto.
Houve decerto um rio, um mar antigo,
Onde a pedra rolou.
Houve também um sismo, e outro sismo
Agora cumprirá, na mão fechada,
A forma prometida. Assim, exacta,
A pedra se moldou.
Mordida de cristais neste basalto.
Houve decerto um rio, um mar antigo,
Onde a pedra rolou.
Houve também um sismo, e outro sismo
Agora cumprirá, na mão fechada,
A forma prometida. Assim, exacta,
A pedra se moldou.
1 369
José Saramago
Malha, Rede, Cercado
Malha, rede, cercado, envolvimento,
Curva do teu e meu, circuito nosso,
São remates de ponte e de vitória
Sobre os arcos lançados, sobre o fosso.
Sobre o fosso da pele e da diferença,
Olhos, bocas e mãos sabem e tecem
Vides novas, grinaldas enlaçadas,
Onde os bagos iguais amadurecem.
Curva do teu e meu, circuito nosso,
São remates de ponte e de vitória
Sobre os arcos lançados, sobre o fosso.
Sobre o fosso da pele e da diferença,
Olhos, bocas e mãos sabem e tecem
Vides novas, grinaldas enlaçadas,
Onde os bagos iguais amadurecem.
1 009