Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Charles Bukowski
Procurando Emprego
era um bar na Filadélfia e o atendente disse
o que e eu disse, me arruma uma gelada, Jim,
preciso acalmar os nervos, vou
procurar um emprego. você, ele disse,
um emprego?
sim, Jim, vi alguma coisa no jornal,
não é preciso ter experiência.
e ele disse, diabos, você não quer um emprego,
e eu disse, diabos não, mas preciso de dinheiro,
e terminei a cerveja
e entrei no ônibus e fiquei de olho na numeração
e logo os números foram se aproximando
e então eu estava bem no lugar
e eu puxei a cordinha e o ônibus parou e
eu desci.
era um enorme prédio feito de lata
a porta de correr estava emperrada pela sujeira
dei um jeito de puxá-la e entrei
e não havia piso, apenas mais chão,
grumoso, úmido, e aquilo fedia
e havia sons de coisas que estivessem sendo serradas ao meio
e coisas sendo furadas e era escuro lá dentro
e os homens caminhavam em vigas suspensas
e homens empurravam carretas pelo chão
e homens se sentavam junto a máquinas fazendo coisas
e havia disparos de luz e trovão
e de repente um balde cheio de chamas veio balançando em direção
a minha cabeça, rugia e borbulhava em suas chamas
estava suspenso por uma corrente frouxa e veio direto em minha direção
e alguém gritou, EI, PRESTE ATENÇÃO!
e eu me abaixei para me esquivar do balde,
sentindo o calor passar sobre mim,
e alguém perguntou,
O QUE VOCÊ QUER?
e eu disse, ONDE FICA O BANHEIRO MAIS PRÓXIMO?
e me disseram
e eu entrei
então saí e vi silhuetas de homens
movendo-se entre chamas e barulho e
eu segui até a porta, saí, e
peguei o ônibus de volta para o bar e me sentei
e pedi outra gelada, e Jim perguntou,
o que aconteceu? eu disse, não me quiseram, Jim.
então esta puta entrou e se sentou e todos
olharam para ela, ela parecia bacana, e eu me lembro que
foi a primeira vez na vida que quase desejei ter uma
vagina e um clitóris em vez do que eu tinha, mas em 2 ou 3 dias
superei isso e já me encontrava lendo
os anúncios outra vez.
o que e eu disse, me arruma uma gelada, Jim,
preciso acalmar os nervos, vou
procurar um emprego. você, ele disse,
um emprego?
sim, Jim, vi alguma coisa no jornal,
não é preciso ter experiência.
e ele disse, diabos, você não quer um emprego,
e eu disse, diabos não, mas preciso de dinheiro,
e terminei a cerveja
e entrei no ônibus e fiquei de olho na numeração
e logo os números foram se aproximando
e então eu estava bem no lugar
e eu puxei a cordinha e o ônibus parou e
eu desci.
era um enorme prédio feito de lata
a porta de correr estava emperrada pela sujeira
dei um jeito de puxá-la e entrei
e não havia piso, apenas mais chão,
grumoso, úmido, e aquilo fedia
e havia sons de coisas que estivessem sendo serradas ao meio
e coisas sendo furadas e era escuro lá dentro
e os homens caminhavam em vigas suspensas
e homens empurravam carretas pelo chão
e homens se sentavam junto a máquinas fazendo coisas
e havia disparos de luz e trovão
e de repente um balde cheio de chamas veio balançando em direção
a minha cabeça, rugia e borbulhava em suas chamas
estava suspenso por uma corrente frouxa e veio direto em minha direção
e alguém gritou, EI, PRESTE ATENÇÃO!
e eu me abaixei para me esquivar do balde,
sentindo o calor passar sobre mim,
e alguém perguntou,
O QUE VOCÊ QUER?
e eu disse, ONDE FICA O BANHEIRO MAIS PRÓXIMO?
e me disseram
e eu entrei
então saí e vi silhuetas de homens
movendo-se entre chamas e barulho e
eu segui até a porta, saí, e
peguei o ônibus de volta para o bar e me sentei
e pedi outra gelada, e Jim perguntou,
o que aconteceu? eu disse, não me quiseram, Jim.
então esta puta entrou e se sentou e todos
olharam para ela, ela parecia bacana, e eu me lembro que
foi a primeira vez na vida que quase desejei ter uma
vagina e um clitóris em vez do que eu tinha, mas em 2 ou 3 dias
superei isso e já me encontrava lendo
os anúncios outra vez.
1 061
Charles Bukowski
Garrafa de Cerveja
uma coisa de fato miraculosa acaba de acontecer:
minha garrafa de cerveja girou e caiu
e aterrissou com a parte do fundo no chão,
e eu a coloquei de volta na mesa para baixar a espuma,
mas as fotos não estavam lá essas coisas hoje
e havia uma pequena fenda no couro
do meu sapato esquerdo, mas é tudo muito simples:
não podemos adquirir muita coisa: há leis
que desconhecemos de todo, todo tipo de cutucão
para nos queimar ou congelar; o que faz com que
o melro se encaixe na boca do gato
não nos cabe dizer, ou por que certos homens
terminam enjaulados como esquilos de estimação
enquanto outros se espremem contra peitos enormes
ao longo de infindáveis noites – esta é a
missão e o terror, e não nos é dito
por quê. ainda assim, que sorte a garrafa
ter aterrissado direito, e embora
eu tivesse uma de vinho e uma de uísque,
isto prediz, de algum modo, uma noite boa,
e talvez amanhã meu nariz esteja mais comprido:
novos sapatos, menos chuva, mais poemas.
minha garrafa de cerveja girou e caiu
e aterrissou com a parte do fundo no chão,
e eu a coloquei de volta na mesa para baixar a espuma,
mas as fotos não estavam lá essas coisas hoje
e havia uma pequena fenda no couro
do meu sapato esquerdo, mas é tudo muito simples:
não podemos adquirir muita coisa: há leis
que desconhecemos de todo, todo tipo de cutucão
para nos queimar ou congelar; o que faz com que
o melro se encaixe na boca do gato
não nos cabe dizer, ou por que certos homens
terminam enjaulados como esquilos de estimação
enquanto outros se espremem contra peitos enormes
ao longo de infindáveis noites – esta é a
missão e o terror, e não nos é dito
por quê. ainda assim, que sorte a garrafa
ter aterrissado direito, e embora
eu tivesse uma de vinho e uma de uísque,
isto prediz, de algum modo, uma noite boa,
e talvez amanhã meu nariz esteja mais comprido:
novos sapatos, menos chuva, mais poemas.
1 097
Charles Bukowski
Pequenos Tigres Por Toda Parte
Sam, o putanheiro,
tem sapatos que estalam
e ele caminha pra lá e pra cá
pelo quintal
estalando e conversando com
os gatos.
pesa 140 quilos,
um assassino
e conversa com os gatos.
ele frequenta as mulheres na casa
de massagem e não tem namoradas
ou automóvel
não bebe ou se chapa
seus maiores vícios são
mastigar um charuto e
alimentar todos os gatos
da vizinhança.
algumas das gatas ficam
prenhes
e depois por fim aparecem
mais e mais gatos e
toda a vez que abro minha porta
um ou dois gatos entram
correndo e algumas vezes acabo
esquecendo que eles estão ali e
eles cagam debaixo da cama
ou me desperto no meio da noite
com sons estranhos
pulo da cama com minha faca
entro na cozinha e lá
está um dos gatos de Sam, o putanheiro,
circulando em volta
da pia ou sentado sobre
a geladeira.
Sam administra o puteiro
da esquina
e suas garotas ficam paradas
na varanda ao sol
e o semáforo vai do
vermelho ao verde e do vermelho ao verde
e todos os gatos do Sam
possuem parte do significado
assim como fazem os dias e as noites.
tem sapatos que estalam
e ele caminha pra lá e pra cá
pelo quintal
estalando e conversando com
os gatos.
pesa 140 quilos,
um assassino
e conversa com os gatos.
ele frequenta as mulheres na casa
de massagem e não tem namoradas
ou automóvel
não bebe ou se chapa
seus maiores vícios são
mastigar um charuto e
alimentar todos os gatos
da vizinhança.
algumas das gatas ficam
prenhes
e depois por fim aparecem
mais e mais gatos e
toda a vez que abro minha porta
um ou dois gatos entram
correndo e algumas vezes acabo
esquecendo que eles estão ali e
eles cagam debaixo da cama
ou me desperto no meio da noite
com sons estranhos
pulo da cama com minha faca
entro na cozinha e lá
está um dos gatos de Sam, o putanheiro,
circulando em volta
da pia ou sentado sobre
a geladeira.
Sam administra o puteiro
da esquina
e suas garotas ficam paradas
na varanda ao sol
e o semáforo vai do
vermelho ao verde e do vermelho ao verde
e todos os gatos do Sam
possuem parte do significado
assim como fazem os dias e as noites.
1 120
Charles Bukowski
Medo
ele se aproxima do meu Fusca
depois que já estacionei
e segue pra lá
e pra cá
rindo ao redor de seu
charuto.
“ei, Hank, tenho reparado
nas mulheres que têm frequentado
sua casa ultimamente... só coisa
fina; você está fazendo seu trabalho
direitinho.”
“Sam”, eu digo, “isso não é
verdade; sou um dos homens mais solitários
que Deus pôs neste mundo.”
“temos umas garotas bacanas no
puteiro, você devia experimentar uma
delas.”
“tenho medo desses lugares,
Sam, não posso nem entrar.”
“eu lhe mando uma garota então,
artigo de luxo.”
“Sam, não me mande uma puta,
eu sempre me apaixono por
elas.”
“certo, amigo”, ele diz,
“me avise se mudar
de ideia.”
eu o vejo se afastar.
alguns homens estão sempre
no controle do seu jogo.
para mim, a maior parte do tempo
é confusão.
ele pode partir um homem
ao meio
e não sabe quem é
Mozart.
de todo modo
quem quer ouvir
música
numa noite chuvosa de
quarta-feira?
depois que já estacionei
e segue pra lá
e pra cá
rindo ao redor de seu
charuto.
“ei, Hank, tenho reparado
nas mulheres que têm frequentado
sua casa ultimamente... só coisa
fina; você está fazendo seu trabalho
direitinho.”
“Sam”, eu digo, “isso não é
verdade; sou um dos homens mais solitários
que Deus pôs neste mundo.”
“temos umas garotas bacanas no
puteiro, você devia experimentar uma
delas.”
“tenho medo desses lugares,
Sam, não posso nem entrar.”
“eu lhe mando uma garota então,
artigo de luxo.”
“Sam, não me mande uma puta,
eu sempre me apaixono por
elas.”
“certo, amigo”, ele diz,
“me avise se mudar
de ideia.”
eu o vejo se afastar.
alguns homens estão sempre
no controle do seu jogo.
para mim, a maior parte do tempo
é confusão.
ele pode partir um homem
ao meio
e não sabe quem é
Mozart.
de todo modo
quem quer ouvir
música
numa noite chuvosa de
quarta-feira?
735
Charles Bukowski
Poeta Velho
eu preferiria, claro, estar com uma raposa entre as samambaias
do que com uma fotografia de um velho Spad em meu bolso
ao som do retinir de uma bigorna e pernas pernas pernas
garotas em passadas altas, mostrando tudo exceto por onde mijam,
mas eu bem poderia estar morto agora
sopra em toda a parte o vento maléfico
e Keats está morto
e eu também estou morrendo.
porque não há nada tão torpemente dissoluto
quanto um velho poeta vencido pelo azedume
no corpo e na mente
na sorte, os cavalos correndo para a eliminação,
o câncer dos dados de Vegas para a magra carteira verde,
Shostakovich ouvido com muita frequência
e latas de cerveja tomadas com um canudinho,
com boca e mente arruinadas em
becos de homens jovens.
na janela da tarde quente
dou um golpe e perco a mosca zombeteira,
e ah, desabo pesado como um trovão
mas escada abaixo eles vão entender:
ou está bêbado ou está morrendo,
um velho poeta acenando vagamente a cabeça em saguões,
rompendo seu cajado nas costas
de cães inocentes
e cuspindo
o que resta de seu sol.
o carteiro trouxe uma pequena encomenda para ele
que a leva para o quarto
e a abre como a uma rosa,
apenas para gritar de forma alta e vã,
e seu caixão se enche
com notas do inferno.
mas pela manhã vocês vão vê-lo
arrumando pequenos envelopes,
ainda preocupado com
aluguel
cigarros
vinho
mulheres
cavalos,
ainda preocupado com
Eric Coates, a 3a de Beethoven e
alguma coisa que Chicago segurou por três meses
e o saco de papel com vinho
e os Pall Malls.
42 em agosto, 42,
os ratos percorrendo seu cérebro
devorando os pensamentos antes que eles
possam fazer as chaves.
poetas velhos são tão ruins quanto bichas velhas:
há algo bastante inaceitável:
os editores gostariam de agradecer a você
por enviar os textos mas
lamentam...
seguem
seguem
seguem
pelo saguão escuro
a um saguão sem mulher
para descascar um último ovo
e sentar em busca das chaves:
clic clic um clic,
sobre os sons da televisão
sobre o som das molas,
clic clac um clac:
mais um poeta velho
a se dissipar.
do que com uma fotografia de um velho Spad em meu bolso
ao som do retinir de uma bigorna e pernas pernas pernas
garotas em passadas altas, mostrando tudo exceto por onde mijam,
mas eu bem poderia estar morto agora
sopra em toda a parte o vento maléfico
e Keats está morto
e eu também estou morrendo.
porque não há nada tão torpemente dissoluto
quanto um velho poeta vencido pelo azedume
no corpo e na mente
na sorte, os cavalos correndo para a eliminação,
o câncer dos dados de Vegas para a magra carteira verde,
Shostakovich ouvido com muita frequência
e latas de cerveja tomadas com um canudinho,
com boca e mente arruinadas em
becos de homens jovens.
na janela da tarde quente
dou um golpe e perco a mosca zombeteira,
e ah, desabo pesado como um trovão
mas escada abaixo eles vão entender:
ou está bêbado ou está morrendo,
um velho poeta acenando vagamente a cabeça em saguões,
rompendo seu cajado nas costas
de cães inocentes
e cuspindo
o que resta de seu sol.
o carteiro trouxe uma pequena encomenda para ele
que a leva para o quarto
e a abre como a uma rosa,
apenas para gritar de forma alta e vã,
e seu caixão se enche
com notas do inferno.
mas pela manhã vocês vão vê-lo
arrumando pequenos envelopes,
ainda preocupado com
aluguel
cigarros
vinho
mulheres
cavalos,
ainda preocupado com
Eric Coates, a 3a de Beethoven e
alguma coisa que Chicago segurou por três meses
e o saco de papel com vinho
e os Pall Malls.
42 em agosto, 42,
os ratos percorrendo seu cérebro
devorando os pensamentos antes que eles
possam fazer as chaves.
poetas velhos são tão ruins quanto bichas velhas:
há algo bastante inaceitável:
os editores gostariam de agradecer a você
por enviar os textos mas
lamentam...
seguem
seguem
seguem
pelo saguão escuro
a um saguão sem mulher
para descascar um último ovo
e sentar em busca das chaves:
clic clic um clic,
sobre os sons da televisão
sobre o som das molas,
clic clac um clac:
mais um poeta velho
a se dissipar.
730
Charles Bukowski
Crucifixo Em Uma Mão Morta
sim, elas começam a surgir a partir de um salgueiro, penso
as montanhas enrijecidas começam no salgueiro
e seguem erguendo-se sem qualquer consideração por
pumas e nectarinas
de algum modo essas montanhas são como
uma velha senhora com má memória e
um cesto de compras.
estamos numa depressão. esta é a
ideia. mergulhada na areia e entre alamedas,
esta terra progrediu, soqueou, dividiu,
retida como um crucifixo numa mão morta,
esta terra comprou, revendeu, voltou a comprar e
vendeu de novo, tantas e longas guerras,
os espanhóis refazendo o caminho de volta até a Espanha
mais uma vez os ilhós, e agora
corretores, locadores, sublocadores, engenheiros que discutem
à beira de autoestradas. esta é a terra deles e
eu caminho sobre ela, vivo nela um pouco
perto de Hollywood aqui eu vejo jovens em seus quartos
escutando discos gastos
e também penso em velhos fartos de música
fartos de tudo, e a morte como suicídio
às vezes penso que é voluntário, e que para conseguir
se agarrar a esta terra é melhor voltar ao
Grande Mercado Central, ver as velhas mexicanas,
os pobres... tenho certeza de que você já viu essas mulheres
anos e anos a fio
brigando
com os mesmos e jovens atendentes japoneses
argutos, sábios e dourados
entre seus sublimes estoques de laranjas, maçãs
abacates, tomates, pepinos –
e você sabe o aspecto desses, parecem ótimos
se você pudesse comer todos eles
acender um charuto e numa baforada exalar o mundo mau.
de modo que é melhor retornar para os bares, os mesmos bares
amadeirados, fedidos, implacáveis, verdes
pela presença de jovens policiais que os invadem
assustados e em busca de confusão,
e a cerveja continuará um lixo
com aquele gosto final que é mistura de vômito e
decadência, e mergulhado nas sombras você tem que ser forte
para ignorá-lo, ignorar os pobres e a si mesmo
e a sacola de compras entre suas pernas
ali no chão e se sentindo bem com seus abacates e
laranjas e peixe fresco e garrafas de vinho, quem precisa
de um inverno em Fort Lauderdale?
25 anos atrás costumava haver uma puta ali
com um filme sobre um dos olhos, gorda ao extremo
que fazia pequenas sinetas com o papel laminado do
maço de cigarro. o sol parecia esquentar mais então
ainda que isso dificilmente seja
verdade, e você apanha sua sacola de compras
e sai a caminhar pela rua
e a cerveja verde fica ali
pairando na boca de seu estômago como
uma curta e vergonhosa mantilha, e
você dá uma olhada ao redor e já não
vê nenhum
velho.
as montanhas enrijecidas começam no salgueiro
e seguem erguendo-se sem qualquer consideração por
pumas e nectarinas
de algum modo essas montanhas são como
uma velha senhora com má memória e
um cesto de compras.
estamos numa depressão. esta é a
ideia. mergulhada na areia e entre alamedas,
esta terra progrediu, soqueou, dividiu,
retida como um crucifixo numa mão morta,
esta terra comprou, revendeu, voltou a comprar e
vendeu de novo, tantas e longas guerras,
os espanhóis refazendo o caminho de volta até a Espanha
mais uma vez os ilhós, e agora
corretores, locadores, sublocadores, engenheiros que discutem
à beira de autoestradas. esta é a terra deles e
eu caminho sobre ela, vivo nela um pouco
perto de Hollywood aqui eu vejo jovens em seus quartos
escutando discos gastos
e também penso em velhos fartos de música
fartos de tudo, e a morte como suicídio
às vezes penso que é voluntário, e que para conseguir
se agarrar a esta terra é melhor voltar ao
Grande Mercado Central, ver as velhas mexicanas,
os pobres... tenho certeza de que você já viu essas mulheres
anos e anos a fio
brigando
com os mesmos e jovens atendentes japoneses
argutos, sábios e dourados
entre seus sublimes estoques de laranjas, maçãs
abacates, tomates, pepinos –
e você sabe o aspecto desses, parecem ótimos
se você pudesse comer todos eles
acender um charuto e numa baforada exalar o mundo mau.
de modo que é melhor retornar para os bares, os mesmos bares
amadeirados, fedidos, implacáveis, verdes
pela presença de jovens policiais que os invadem
assustados e em busca de confusão,
e a cerveja continuará um lixo
com aquele gosto final que é mistura de vômito e
decadência, e mergulhado nas sombras você tem que ser forte
para ignorá-lo, ignorar os pobres e a si mesmo
e a sacola de compras entre suas pernas
ali no chão e se sentindo bem com seus abacates e
laranjas e peixe fresco e garrafas de vinho, quem precisa
de um inverno em Fort Lauderdale?
25 anos atrás costumava haver uma puta ali
com um filme sobre um dos olhos, gorda ao extremo
que fazia pequenas sinetas com o papel laminado do
maço de cigarro. o sol parecia esquentar mais então
ainda que isso dificilmente seja
verdade, e você apanha sua sacola de compras
e sai a caminhar pela rua
e a cerveja verde fica ali
pairando na boca de seu estômago como
uma curta e vergonhosa mantilha, e
você dá uma olhada ao redor e já não
vê nenhum
velho.
1 037
Charles Bukowski
O Artista de Domingo
tenho pintado nos últimos dois domingos;
não é muito, você está certo,
mas neste torneio grandes sonhos se partem:
a história remove seu vestido e se torna uma meretriz,
e eu acordei de manhã
para ver águias batendo suas asas como sombras;
encontrei Montaigne e Fídias
nas chamas de minha lixeira,
encontrei bárbaros pelas ruas
suas cabeças balançando com roedores;
vi crianças malignas em banheiras azuis
querendo caules belos como flores
e eu vi o beberrão passar mal
com seu último tostão furado;
escutei Domenico Theotocopoulos
em noites de frio, tossir em sua cova;
e Deus, não mais alto do que a senhoria,
os cabelos de um ruivo apagado, veio me pedir as horas;
vi gramados cinzentos de amantes em meu espelho
enquanto acendia um cigarro para o aplauso de um maníaco;
Cadillacs rastejaram por minhas paredes como baratas,
peixe dourado a girar meu aquário, tigres amestrados;
sim, tenho pintado nesses domingos –
a máquina de moer cinzenta, o novo rebelde; é realmente terrível:
tenho de enfiar meu punho no diluidor e no cloro,
em Andernach e nas maçãs e no ácido,
mas, então, eu preciso de fato lhe dizer que tenho uma
mulher por aqui a cantar fazendo massa para panqueca
e a tinta gruda no meu esboço como doce.
não é muito, você está certo,
mas neste torneio grandes sonhos se partem:
a história remove seu vestido e se torna uma meretriz,
e eu acordei de manhã
para ver águias batendo suas asas como sombras;
encontrei Montaigne e Fídias
nas chamas de minha lixeira,
encontrei bárbaros pelas ruas
suas cabeças balançando com roedores;
vi crianças malignas em banheiras azuis
querendo caules belos como flores
e eu vi o beberrão passar mal
com seu último tostão furado;
escutei Domenico Theotocopoulos
em noites de frio, tossir em sua cova;
e Deus, não mais alto do que a senhoria,
os cabelos de um ruivo apagado, veio me pedir as horas;
vi gramados cinzentos de amantes em meu espelho
enquanto acendia um cigarro para o aplauso de um maníaco;
Cadillacs rastejaram por minhas paredes como baratas,
peixe dourado a girar meu aquário, tigres amestrados;
sim, tenho pintado nesses domingos –
a máquina de moer cinzenta, o novo rebelde; é realmente terrível:
tenho de enfiar meu punho no diluidor e no cloro,
em Andernach e nas maçãs e no ácido,
mas, então, eu preciso de fato lhe dizer que tenho uma
mulher por aqui a cantar fazendo massa para panqueca
e a tinta gruda no meu esboço como doce.
1 257
Charles Bukowski
De Graça
esta garota na arquibancada
com os cabelos de um ruivo esmaecido
ficava apoiando seus peitos contra mim
e falando sobre Gardena
mesas de pôquer
mas joguei fumaça em
seu rosto
e falei a ela sobre uma exposição
de Van Gogh
que eu havia visto lá na colina
e naquela noite
quando a levei para casa
ela disse que
Vermelhão era o melhor cavalo
que ela já tinha visto –
até que eu fiquei sem nada. Embora
eu pensasse naquele negócio do Van Gogh
em que haviam cobrado
50 centavos.
com os cabelos de um ruivo esmaecido
ficava apoiando seus peitos contra mim
e falando sobre Gardena
mesas de pôquer
mas joguei fumaça em
seu rosto
e falei a ela sobre uma exposição
de Van Gogh
que eu havia visto lá na colina
e naquela noite
quando a levei para casa
ela disse que
Vermelhão era o melhor cavalo
que ela já tinha visto –
até que eu fiquei sem nada. Embora
eu pensasse naquele negócio do Van Gogh
em que haviam cobrado
50 centavos.
1 113
Charles Bukowski
O Dia Em Que Choveu No Museu do Condado de Los Angeles
o judeu se curvou e
morreu. 99 metralhadoras
foram embarcadas para a França. alguém ganhou o 3o páreo
enquanto eu inspecionava
a hélice de um antigo monoplano
um homem se aproximou com uma faixa sobre o olho. começou a
chover. choveu e choveu e as ambulâncias seguiam
juntas
pelas ruas, e ainda que
tudo fosse apropriadamente monótono
curti o momento
como a temporada em Nova Orleans
vivendo de barras de chocolate
e observando os pombos
em uma ruela com nome francês
enquanto às minhas costas o rio se tornava
um golfo
e as nuvens se moviam enfermas por
um céu já morto
por volta da época em que César fora apunhalado,
e prometi a mim mesmo que
algum dia eu lembraria daquilo
tal qual aconteceu.
um homem se aproximou e tossiu.
será que para de chover? ele disse.
não respondi. toquei a
velha hélice e escutei as
formigas no teto dispararem apressadas
em direção ao fim do mundo. saia daqui, eu disse,
saia daqui ou chamarei
o guarda.
morreu. 99 metralhadoras
foram embarcadas para a França. alguém ganhou o 3o páreo
enquanto eu inspecionava
a hélice de um antigo monoplano
um homem se aproximou com uma faixa sobre o olho. começou a
chover. choveu e choveu e as ambulâncias seguiam
juntas
pelas ruas, e ainda que
tudo fosse apropriadamente monótono
curti o momento
como a temporada em Nova Orleans
vivendo de barras de chocolate
e observando os pombos
em uma ruela com nome francês
enquanto às minhas costas o rio se tornava
um golfo
e as nuvens se moviam enfermas por
um céu já morto
por volta da época em que César fora apunhalado,
e prometi a mim mesmo que
algum dia eu lembraria daquilo
tal qual aconteceu.
um homem se aproximou e tossiu.
será que para de chover? ele disse.
não respondi. toquei a
velha hélice e escutei as
formigas no teto dispararem apressadas
em direção ao fim do mundo. saia daqui, eu disse,
saia daqui ou chamarei
o guarda.
1 057
Charles Bukowski
A Falta de Quase Tudo
a essência da pança
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
1 127
Charles Bukowski
Um Cavalo de 340 Dólares E Uma Puta de Cem
jamais tenha para si que sou um poeta; você pode me ver
semibêbado nas corridas todos os dias
apostando em todos os tipos de cavalos,
mas deixe eu dizer uma coisa a você, há algumas mulheres lá
que vão aonde o dinheiro está, e às vezes quando você
olha para essas putas essas putas de cem dólares
você por vezes se pergunta se a natureza não está de brincadeira
esbanjando tanto peito e rabo no modo como
estão reunidos, você olha e olha e
olha e não consegue acreditar; há mulheres ordinárias
e então há alguma coisa a mais que faz você querer
rasgar pinturas e quebrar discos de Beethoven
na parte dos fundos no banheiro; de todo modo, a temporada
ia se arrastando e os grandes figurões não paravam de se ferrar,
todos os amadores, os produtores, os operadores de câmeras,
os traficantes de Maria, os vendedores de pele, os proprietários
em pessoa, e Saint Louie estava correndo neste dia:
um cavalo que conseguiu romper no final;
corria com a cabeça baixa e era mau e feio
e pagava 35 por 1, e eu tinha apostado dez nele.
o jóquei lançou-o para a extremidade
colando-o na cerca onde avançaria sozinho
mesmo que tivesse de percorrer uma distância quatro vezes maior,
e foi assim que ele seguiu
o trajeto todo até a cerca exterior
avançando três quilômetros em um só
e ele venceu como se estivesse possuído pelo demônio
e não estava sequer cansado,
e a maior de todas as loiras
feita de quase nada além de peitos e bunda
foi até o guichê de pagamento comigo.
naquela noite eu não pude acabar com ela
ainda que as molas disparassem faíscas
e golpeassem as paredes.
mais tarde ela se sentou apenas de calcinha
bebendo um Old Grandad
e ela disse
o que um cara como você faz
vivendo num buraco como este?
e eu disse
sou um poeta
e ela jogou sua bela cabeça para trás e gargalhou.
você? você... um poeta?
acho que você está certa, eu disse, acho que você está certa.
mas ainda assim ela parecia legal para mim, continuava parecendo legal,
e tudo graças a um cavalo feioso
que escreveu este poema.
semibêbado nas corridas todos os dias
apostando em todos os tipos de cavalos,
mas deixe eu dizer uma coisa a você, há algumas mulheres lá
que vão aonde o dinheiro está, e às vezes quando você
olha para essas putas essas putas de cem dólares
você por vezes se pergunta se a natureza não está de brincadeira
esbanjando tanto peito e rabo no modo como
estão reunidos, você olha e olha e
olha e não consegue acreditar; há mulheres ordinárias
e então há alguma coisa a mais que faz você querer
rasgar pinturas e quebrar discos de Beethoven
na parte dos fundos no banheiro; de todo modo, a temporada
ia se arrastando e os grandes figurões não paravam de se ferrar,
todos os amadores, os produtores, os operadores de câmeras,
os traficantes de Maria, os vendedores de pele, os proprietários
em pessoa, e Saint Louie estava correndo neste dia:
um cavalo que conseguiu romper no final;
corria com a cabeça baixa e era mau e feio
e pagava 35 por 1, e eu tinha apostado dez nele.
o jóquei lançou-o para a extremidade
colando-o na cerca onde avançaria sozinho
mesmo que tivesse de percorrer uma distância quatro vezes maior,
e foi assim que ele seguiu
o trajeto todo até a cerca exterior
avançando três quilômetros em um só
e ele venceu como se estivesse possuído pelo demônio
e não estava sequer cansado,
e a maior de todas as loiras
feita de quase nada além de peitos e bunda
foi até o guichê de pagamento comigo.
naquela noite eu não pude acabar com ela
ainda que as molas disparassem faíscas
e golpeassem as paredes.
mais tarde ela se sentou apenas de calcinha
bebendo um Old Grandad
e ela disse
o que um cara como você faz
vivendo num buraco como este?
e eu disse
sou um poeta
e ela jogou sua bela cabeça para trás e gargalhou.
você? você... um poeta?
acho que você está certa, eu disse, acho que você está certa.
mas ainda assim ela parecia legal para mim, continuava parecendo legal,
e tudo graças a um cavalo feioso
que escreveu este poema.
1 248
Charles Bukowski
Lírios No Meu Cérebro
os lírios assaltam meu cérebro
por deus por deus
como as tropas de assalto nazistas
você acha que estou ficando
perturbado?
seu suéter azul
com os peitos pendendo
soltos, e
eu penso vagamente em Cristo
na cruz, não sei
porquê, e em casquinhas
de sorvete. neste dia de julho
lírios assaltam meu cérebro
lembraria disto
mas
somente se eu tivesse uma
câmera
ou um cachorro grande caminhando ao meu
lado. os cachorros grandes tornam as coisas
concretas
não é verdade?
um cachorrão para franzir seu
nariz ranhento
como este lago usurpado em
sua clara superfície
por um vento rápido e
esperto.
você está aqui, mas eu estou triste outra
vez. sinto minhas costelas de costeleta de porco
sobre meu coração de costeleta de cordeiro ugh
ingênuos e dedicados
intestinos, pênis prostrado
bexiga de goma de mascar
fígado se transformando em gordura
como uma velha rameira de rua
bunda vergonhosa
ouvidos práticos
mãos que parecem mariposas
nariz de peixe-espada
boca de desabamento de terras e
o resto. o resto:
lírios no meu cérebro
esperando por melhores tempos
lembrando de velhos tempos:
Capone e os diamantes
Charlie Chaplin
Laurel e Hardy
Clara Bow
o resto.
nunca aconteceu
mas parecia possível
houve tempos em que o apodrecimento
parou
aguardando como um bonde pela abertura
do sinal.
agora eu
como um desses marginais de filme
(lírios lá bem alto)
tomo sua mão
e nós seguimos em frente
para alugar um barco
para afundar. eu respiro o vento, flexiono meus músculos
mas apenas minha pança
se move de mansinho.
entramos
o motor agita o
lodo.
os prédios da cidade
mergulham como bocas de
avestruzes
e esvaziam
nossos cérebros
ainda assim o sol
aparece
zap! zap! zap!
germes brilhantes rastejam por nossas
carnes gretadas. minha
eu sinto como se estivesse na
igreja: tudo
fede. seguro as laterais emborrachadas
de toda a parte
minhas bolas são bolas de neve
vejo o repicar dos sinos da malária
homens velhos indo para a
cama, entrando em Fords modelo-T
enquanto os peixes nadam abaixo de nós
cheios de palavrões e macarronada
e palavras cruzadas
e a minha morte, a sua e
a das crianças
de ressaca.
por deus por deus
como as tropas de assalto nazistas
você acha que estou ficando
perturbado?
seu suéter azul
com os peitos pendendo
soltos, e
eu penso vagamente em Cristo
na cruz, não sei
porquê, e em casquinhas
de sorvete. neste dia de julho
lírios assaltam meu cérebro
lembraria disto
mas
somente se eu tivesse uma
câmera
ou um cachorro grande caminhando ao meu
lado. os cachorros grandes tornam as coisas
concretas
não é verdade?
um cachorrão para franzir seu
nariz ranhento
como este lago usurpado em
sua clara superfície
por um vento rápido e
esperto.
você está aqui, mas eu estou triste outra
vez. sinto minhas costelas de costeleta de porco
sobre meu coração de costeleta de cordeiro ugh
ingênuos e dedicados
intestinos, pênis prostrado
bexiga de goma de mascar
fígado se transformando em gordura
como uma velha rameira de rua
bunda vergonhosa
ouvidos práticos
mãos que parecem mariposas
nariz de peixe-espada
boca de desabamento de terras e
o resto. o resto:
lírios no meu cérebro
esperando por melhores tempos
lembrando de velhos tempos:
Capone e os diamantes
Charlie Chaplin
Laurel e Hardy
Clara Bow
o resto.
nunca aconteceu
mas parecia possível
houve tempos em que o apodrecimento
parou
aguardando como um bonde pela abertura
do sinal.
agora eu
como um desses marginais de filme
(lírios lá bem alto)
tomo sua mão
e nós seguimos em frente
para alugar um barco
para afundar. eu respiro o vento, flexiono meus músculos
mas apenas minha pança
se move de mansinho.
entramos
o motor agita o
lodo.
os prédios da cidade
mergulham como bocas de
avestruzes
e esvaziam
nossos cérebros
ainda assim o sol
aparece
zap! zap! zap!
germes brilhantes rastejam por nossas
carnes gretadas. minha
eu sinto como se estivesse na
igreja: tudo
fede. seguro as laterais emborrachadas
de toda a parte
minhas bolas são bolas de neve
vejo o repicar dos sinos da malária
homens velhos indo para a
cama, entrando em Fords modelo-T
enquanto os peixes nadam abaixo de nós
cheios de palavrões e macarronada
e palavras cruzadas
e a minha morte, a sua e
a das crianças
de ressaca.
1 139
Charles Bukowski
Viagem À Praia
os homens fortes
os homens musculosos
lá na praia eles
se sentam
bronzeados como chocolate
os pesos
espalhados ao seu redor e
intocados
ficam sentados enquanto
as ondas avançam e
recuam
ficam sentados enquanto o
mercado de ações
ergue e destrói
homens e famílias
ficam sentados enquanto
um apertar de botão
poderia transformar
seus caralhos
em palitos de fósforos
pretos e enrugados
ficam sentados enquanto
suicidas em quartos verdes
os trocam por espaço
ficam sentados enquanto antigas
Miss Américas
choram diante de espelhos
enrugados
ficam sentados
ficam sentados com menos
vivacidade que macacos
e minha mulher para e
os olha:
“uuuu uuuu uuuu”, ela
diz.
me afasto com
minha mulher enquanto as ondas
avançam e recuam.
“há alguma coisa errada
com eles”, ela diz, “o que
é?”
“o amor deles só corre em
uma direção.”
as gaivotas giram e
o mar avança e recua
e nós os abandonamos
lá atrás
desperdiçando o tempo que lhes
resta
o momento presente
as gaivotas
o mar
a areia.
os homens musculosos
lá na praia eles
se sentam
bronzeados como chocolate
os pesos
espalhados ao seu redor e
intocados
ficam sentados enquanto
as ondas avançam e
recuam
ficam sentados enquanto o
mercado de ações
ergue e destrói
homens e famílias
ficam sentados enquanto
um apertar de botão
poderia transformar
seus caralhos
em palitos de fósforos
pretos e enrugados
ficam sentados enquanto
suicidas em quartos verdes
os trocam por espaço
ficam sentados enquanto antigas
Miss Américas
choram diante de espelhos
enrugados
ficam sentados
ficam sentados com menos
vivacidade que macacos
e minha mulher para e
os olha:
“uuuu uuuu uuuu”, ela
diz.
me afasto com
minha mulher enquanto as ondas
avançam e recuam.
“há alguma coisa errada
com eles”, ela diz, “o que
é?”
“o amor deles só corre em
uma direção.”
as gaivotas giram e
o mar avança e recua
e nós os abandonamos
lá atrás
desperdiçando o tempo que lhes
resta
o momento presente
as gaivotas
o mar
a areia.
1 232
Charles Bukowski
Tira
3 moleques correm em minha direção
soprando apitos
e eles gritam
você está preso!
você está bêbado!
e eles começam
a me golpear as pernas com
seus cassetetes de brinquedo.
um deles chega a ter uma
insígnia. outro tem
algemas mas minhas mãos estão erguidas no ar.
quando entro na loja de bebidas
eles ficam circulando lá fora
como abelhas
excluídas de suas colmeias.
compro uma garrafa de uísque
barato
e
3
barras de chocolate recheadas.
soprando apitos
e eles gritam
você está preso!
você está bêbado!
e eles começam
a me golpear as pernas com
seus cassetetes de brinquedo.
um deles chega a ter uma
insígnia. outro tem
algemas mas minhas mãos estão erguidas no ar.
quando entro na loja de bebidas
eles ficam circulando lá fora
como abelhas
excluídas de suas colmeias.
compro uma garrafa de uísque
barato
e
3
barras de chocolate recheadas.
1 165
Charles Bukowski
Ensopado
ensopado ao meio-dia, meu bem, e veja:
as formigas, a serragem, as fábricas
de mica, as sombras dos bancos como
piadas ruins;
você acha que ouviremos
A noiva vendida hoje?
como está seu dente?
eu deveria lavar meus pés e
limpar minhas unhas
não que fosse me sentir mais como Cristo
mas
menos como um leproso –
o que é importante quando
a pobreza é um joguinho que você joga
com seu tempo.
vejamos: primeiro o carteiro
então um exemplar de ontem do Times.
poderemos
deste jeito
ser destroçados um dia quando já for
tarde.
então há a biblioteca ou
uma caminhada pelos bulevares.
muitos grandes homens
caminharam por bulevares
mas é terrível ser
um grande homem
como um macaco carregando um saco
de 2 kg de batata por uma colina de 12 metros.
Paris pode esperar.
mais sal?
depois de comermos
vamos dormir, vamos dormir.
não podemos arrumar nenhum dinheiro
acordados.
as formigas, a serragem, as fábricas
de mica, as sombras dos bancos como
piadas ruins;
você acha que ouviremos
A noiva vendida hoje?
como está seu dente?
eu deveria lavar meus pés e
limpar minhas unhas
não que fosse me sentir mais como Cristo
mas
menos como um leproso –
o que é importante quando
a pobreza é um joguinho que você joga
com seu tempo.
vejamos: primeiro o carteiro
então um exemplar de ontem do Times.
poderemos
deste jeito
ser destroçados um dia quando já for
tarde.
então há a biblioteca ou
uma caminhada pelos bulevares.
muitos grandes homens
caminharam por bulevares
mas é terrível ser
um grande homem
como um macaco carregando um saco
de 2 kg de batata por uma colina de 12 metros.
Paris pode esperar.
mais sal?
depois de comermos
vamos dormir, vamos dormir.
não podemos arrumar nenhum dinheiro
acordados.
1 019
Charles Bukowski
O Pássaro
com os olhos vermelhos e tonto como eu
o pássaro chegou voando
após percorrer o caminho todo desde o Egito
às cinco da manhã,
e Maria quase tropeçou nos sapatos de salto:
o que foi isso, um foguete?
e nós subimos.
servi duas taças de porto
e ficamos ali sentados enquanto os sovinas
são expelidos de seus ninhos miseráveis
e Maria entrou e lançou água
no vaso
e eu me sentei ali cofiando minha barba de três dias
pensando no pássaro louco
e foi assim que saiu:
tudo o que de fato importava era
ir para algum lugar
quanto mais rápido melhor
porque isso reduz a espera
pela morte. Maria voltou
e puxou as cobertas
e eu arranquei minhas roupas sebosas
e me arrastei para dentro dos lençóis suados,
fechando meus olhos para o som e a luz do sol,
e ouvi o modo como se desfez dos sapatos de salto
e seus dedos gelados percorreram a parte de trás de minhas panturrilhas
e eu batizei o pássaro de
Sr. América
e então caí no sono com rapidez.
o pássaro chegou voando
após percorrer o caminho todo desde o Egito
às cinco da manhã,
e Maria quase tropeçou nos sapatos de salto:
o que foi isso, um foguete?
e nós subimos.
servi duas taças de porto
e ficamos ali sentados enquanto os sovinas
são expelidos de seus ninhos miseráveis
e Maria entrou e lançou água
no vaso
e eu me sentei ali cofiando minha barba de três dias
pensando no pássaro louco
e foi assim que saiu:
tudo o que de fato importava era
ir para algum lugar
quanto mais rápido melhor
porque isso reduz a espera
pela morte. Maria voltou
e puxou as cobertas
e eu arranquei minhas roupas sebosas
e me arrastei para dentro dos lençóis suados,
fechando meus olhos para o som e a luz do sol,
e ouvi o modo como se desfez dos sapatos de salto
e seus dedos gelados percorreram a parte de trás de minhas panturrilhas
e eu batizei o pássaro de
Sr. América
e então caí no sono com rapidez.
1 166
Charles Bukowski
Torres de Metralhadora & Relógios de Ponto
sinto-me logrado por néscios
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
714
Charles Bukowski
O Estado Das Coisas do Mundo Vistas a Partir da Janela de Um 3O Andar
olho para uma garota vestindo um
suéter verde-claro, shorts azuis, longas meias negras;
usa algum tipo de colar
mas seus seios são pequenos, pobrezinha,
e ela confere as unhas
enquanto seu cachorro branco e encardido fareja a grama
em erráticos círculos;
um pombo também está por ali, circulando,
semimorto com seu cérebro de ervilha
e eu estou andares acima em minha roupa de baixo,
barba de 3 dias, servindo uma cerveja e esperando
que alguma coisa literária ou simbólica aconteça;
mas eles seguem circulando, circulando, e um homem velho e magro
em seu último inverno desliza puxado por uma garota
com um uniforme de escola católica;
para algum lugar além há os Alpes, e navios
cruzam agora mesmo o mar;
há pilhas e mais pilhas de bombas-H e -A,
suficientes para explodir cinquenta vezes o mundo e Marte junto,
mas eles seguem circulando,
a garota movimentando o traseiro,
e as colinas de Hollywood mantêm-se lá, mantêm-se lá
cheias de bêbados e pessoas insanas e
muitos beijos nos automóveis,
mas isso nada resolve: che sera, sera:
seu cachorro branco e encardido não cagará,
e com um último olhar para as unhas
ela, fazendo rebolar ao máximo o traseiro
desce em direção ao pátio
seguida por seu cachorro constipado (simplesmente sem se importar),
deixando-me a ver o pombo mais antissinfônico.
bem, quanto ao balanço das coisas, relaxe:
as bombas nunca vão ser detonadas.
suéter verde-claro, shorts azuis, longas meias negras;
usa algum tipo de colar
mas seus seios são pequenos, pobrezinha,
e ela confere as unhas
enquanto seu cachorro branco e encardido fareja a grama
em erráticos círculos;
um pombo também está por ali, circulando,
semimorto com seu cérebro de ervilha
e eu estou andares acima em minha roupa de baixo,
barba de 3 dias, servindo uma cerveja e esperando
que alguma coisa literária ou simbólica aconteça;
mas eles seguem circulando, circulando, e um homem velho e magro
em seu último inverno desliza puxado por uma garota
com um uniforme de escola católica;
para algum lugar além há os Alpes, e navios
cruzam agora mesmo o mar;
há pilhas e mais pilhas de bombas-H e -A,
suficientes para explodir cinquenta vezes o mundo e Marte junto,
mas eles seguem circulando,
a garota movimentando o traseiro,
e as colinas de Hollywood mantêm-se lá, mantêm-se lá
cheias de bêbados e pessoas insanas e
muitos beijos nos automóveis,
mas isso nada resolve: che sera, sera:
seu cachorro branco e encardido não cagará,
e com um último olhar para as unhas
ela, fazendo rebolar ao máximo o traseiro
desce em direção ao pátio
seguida por seu cachorro constipado (simplesmente sem se importar),
deixando-me a ver o pombo mais antissinfônico.
bem, quanto ao balanço das coisas, relaxe:
as bombas nunca vão ser detonadas.
1 058
Charles Bukowski
A Casa
estão construindo uma casa
meia quadra abaixo
e eu fico aqui sentado
com as persianas baixadas
escutando os ruídos,
os martelos batendo nos pregos,
tac tac tac tac,
então escutei os pássaros, e
tac tac tac
e vou para a cama,
puxo as cobertas até a altura da garganta;
eles estão erguendo essa casa
há um mês, e logo ela estará ocupada com
suas pessoas... dormindo, comendo,
amando, vagando por ali,
mas de algum modo
agora
isso não está certo,
parece loucura,
homens caminham sobre o telhado com pregos em suas bocas
e eu leio sobre Castro e Cuba
e à noite passo caminhando por ali
e a ossatura da casa está à mostra
e lá dentro posso ver os gatos a caminhar
daquele jeito que os gatos caminham,
e então um garoto surge em uma bicicleta,
e a casa continua inacabada
e pela manhã os homens
voltarão
caminhando pela casa
com seus martelos,
parece que as pessoas não deveriam mais erguer casas
que deveriam parar de trabalhar
e se sentar em pequenas peças
em segundos andares
sob lâmpadas elétricas sem pantalhas;
parece que há muito a esquecer
e muito a não fazer
e nos armazéns, mercados, bares
as pessoas estão cansadas, elas não querem
se mover, e eu fico lá à noite
e olho através dessa casa e a
casa não quer ser construída;
por suas laterais consigo ver as colinas púrpuras
e as primeiras luzes do entardecer,
e faz frio
e eu abotoo meu casaco
e fico ali olhando através da casa
e os gatos param e olham para mim
até que fico constrangido
e sigo na direção norte pela calçada
onde comprarei
cigarros e cerveja
para depois retornar ao meu quarto.
meia quadra abaixo
e eu fico aqui sentado
com as persianas baixadas
escutando os ruídos,
os martelos batendo nos pregos,
tac tac tac tac,
então escutei os pássaros, e
tac tac tac
e vou para a cama,
puxo as cobertas até a altura da garganta;
eles estão erguendo essa casa
há um mês, e logo ela estará ocupada com
suas pessoas... dormindo, comendo,
amando, vagando por ali,
mas de algum modo
agora
isso não está certo,
parece loucura,
homens caminham sobre o telhado com pregos em suas bocas
e eu leio sobre Castro e Cuba
e à noite passo caminhando por ali
e a ossatura da casa está à mostra
e lá dentro posso ver os gatos a caminhar
daquele jeito que os gatos caminham,
e então um garoto surge em uma bicicleta,
e a casa continua inacabada
e pela manhã os homens
voltarão
caminhando pela casa
com seus martelos,
parece que as pessoas não deveriam mais erguer casas
que deveriam parar de trabalhar
e se sentar em pequenas peças
em segundos andares
sob lâmpadas elétricas sem pantalhas;
parece que há muito a esquecer
e muito a não fazer
e nos armazéns, mercados, bares
as pessoas estão cansadas, elas não querem
se mover, e eu fico lá à noite
e olho através dessa casa e a
casa não quer ser construída;
por suas laterais consigo ver as colinas púrpuras
e as primeiras luzes do entardecer,
e faz frio
e eu abotoo meu casaco
e fico ali olhando através da casa
e os gatos param e olham para mim
até que fico constrangido
e sigo na direção norte pela calçada
onde comprarei
cigarros e cerveja
para depois retornar ao meu quarto.
1 140
Charles Bukowski
Grama
da janela
vejo um homem com um
poderoso cortador de grama
os sons de seu trabalho correm como
moscas e abelhas
no papel de parede,
é como um fogo reconfortante, e
é melhor que comer um bife,
e a grama é verde o suficiente
e o sol é sol o suficiente
e o que resta de minha vida
fica ali
conferindo os lampejos voadores do verde;
trata-se de um gigantesco desnudar do
cuidado, um tropeço na lógica do
trabalho.
de súbito entendo
os antigos homens feito morcegos
nas cavernas do Colorado
pequenos piolhos se arrastando
para dentro dos olhos de pássaros mortos.
de lá para cá
ele segue o som de sua
gasolina. é
interessante o suficiente,
com
as ruas
estendidas sobre suas costas primaveris
e sorridentes.
vejo um homem com um
poderoso cortador de grama
os sons de seu trabalho correm como
moscas e abelhas
no papel de parede,
é como um fogo reconfortante, e
é melhor que comer um bife,
e a grama é verde o suficiente
e o sol é sol o suficiente
e o que resta de minha vida
fica ali
conferindo os lampejos voadores do verde;
trata-se de um gigantesco desnudar do
cuidado, um tropeço na lógica do
trabalho.
de súbito entendo
os antigos homens feito morcegos
nas cavernas do Colorado
pequenos piolhos se arrastando
para dentro dos olhos de pássaros mortos.
de lá para cá
ele segue o som de sua
gasolina. é
interessante o suficiente,
com
as ruas
estendidas sobre suas costas primaveris
e sorridentes.
1 312
Charles Bukowski
Um Poema Para o Engraxate
o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou se trate do velho lutador Beau Jack[7]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou se trate do velho lutador Beau Jack[7]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
1 237
Charles Bukowski
Alma
oh, como eles se preocupam com minha
alma!
recebo cartas
o telefone toca…
“você vai ficar bem?”
perguntam.
“ficarei bem”, eu lhes digo.
“já vi tantos se afundarem na sarjeta”,
eles me dizem.
“não se preocupem comigo”, digo.
ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.
o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.
se você vive dentro de um armário na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.
ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.
ou se você está bêbado e não para de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.
mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar uma puta
e você vendeu sua
alma.
não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.
alma!
recebo cartas
o telefone toca…
“você vai ficar bem?”
perguntam.
“ficarei bem”, eu lhes digo.
“já vi tantos se afundarem na sarjeta”,
eles me dizem.
“não se preocupem comigo”, digo.
ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.
o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.
se você vive dentro de um armário na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.
ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.
ou se você está bêbado e não para de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.
mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar uma puta
e você vendeu sua
alma.
não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.
1 290
Charles Bukowski
Ah...
bebendo cerveja alemã
e tentando alcançar o
o poema imortal às
5 da tarde.
mas, ah, eu disse aos
estudantes que a coisa certa
a fazer é não tentar.
mas quando as mulheres não estão
por perto e os cavalos não estão
correndo
o que mais se pode fazer?
tive um par de
fantasias sexuais
almocei fora
enviei três cartas
fui à mercearia.
nada na tv.
o telefone está calado.
passei fio dental
entre meus dentes.
não vai chover e eu escuto
os primeiros a chegar das
8 horas de trabalho enquanto
dirigem e estacionam seus carros
atrás do apartamento
ao lado.
me sento bebendo cerveja alemã
e tento alcançar
o grande poema
e não irei conseguir.
apenas seguirei bebendo
mais e mais cerveja alemã
e enrolando cigarros
e lá pelas 11 horas
estarei deitado
na cama desfeita
olhando para cima
acordado sob a luz
elétrica
esperando ainda pelo poema
imortal.
e tentando alcançar o
o poema imortal às
5 da tarde.
mas, ah, eu disse aos
estudantes que a coisa certa
a fazer é não tentar.
mas quando as mulheres não estão
por perto e os cavalos não estão
correndo
o que mais se pode fazer?
tive um par de
fantasias sexuais
almocei fora
enviei três cartas
fui à mercearia.
nada na tv.
o telefone está calado.
passei fio dental
entre meus dentes.
não vai chover e eu escuto
os primeiros a chegar das
8 horas de trabalho enquanto
dirigem e estacionam seus carros
atrás do apartamento
ao lado.
me sento bebendo cerveja alemã
e tento alcançar
o grande poema
e não irei conseguir.
apenas seguirei bebendo
mais e mais cerveja alemã
e enrolando cigarros
e lá pelas 11 horas
estarei deitado
na cama desfeita
olhando para cima
acordado sob a luz
elétrica
esperando ainda pelo poema
imortal.
1 203
Charles Bukowski
Artistas:
ela me escreveu por anos.
“estou bebendo vinho na cozinha.
chove lá fora. as crianças
estão na escola.”
ela era uma cidadã qualquer
ocupada com sua alma, sua máquina de escrever
e sua
reputação como poeta underground.
ela escrevia decentemente e com honestidade
mas apenas depois que outros já
haviam aberto o caminho.
me ligava bêbada às 2 da manhã
às 3
enquanto o marido dormia.
“é bom ouvir a sua voz”, ela
dizia.
“é bom ouvir a sua voz também”, eu
dizia.
que diabo, você
sabe.
ela finalmente apareceu. acho que teve
algo a ver com
The Chapparal Poets Society of California.
eles tinham que eleger seus quadros. ela me ligou
do hotel deles.
“estou aqui”, ela disse, “vamos eleger
os representantes.”
“ok, ótimo”, eu disse, “escolha uns realmente bons”.
desliguei.
o telefone voltou a tocar.
“ei, você não quer me ver?”
“claro”, eu disse, “qual é o endereço?”
depois que ela disse até logo eu bati uma
troquei as meias
bebi meia garrafa de vinho e
segui até lá.
estavam todos bêbados e tentavam
se foder mutuamente.
levei-a para minha casa.
ela vestia uma calcinha cor-de-rosa
com fitinhas.
bebemos uma pouco de cerveja e
fumamos e falamos sobre
Ezra Pound, depois
dormimos.
já não tenho claro
se a levei para o
aeroporto ou
não.
ela continua me escrevendo cartas
e eu as respondo
da pior maneira possível
torcendo para que ela
desista.
algum dia talvez ela alcance a
fama como Erica
Jong. (seu rosto não é lá essas coisas
mas seu corpo é legal)
e eu pensarei,
meu Deus, o que foi que eu fiz?
estraguei tudo.
ou melhor: eu não estraguei
nada.
enquanto isso tenho o número de sua caixa postal
e é melhor eu informar a ela
que meu segundo romance sairá
em setembro.
isso deverá manter os seus mamilos duros
enquanto considero a possibilidade de
Francine du Plessix Gray[4].
“estou bebendo vinho na cozinha.
chove lá fora. as crianças
estão na escola.”
ela era uma cidadã qualquer
ocupada com sua alma, sua máquina de escrever
e sua
reputação como poeta underground.
ela escrevia decentemente e com honestidade
mas apenas depois que outros já
haviam aberto o caminho.
me ligava bêbada às 2 da manhã
às 3
enquanto o marido dormia.
“é bom ouvir a sua voz”, ela
dizia.
“é bom ouvir a sua voz também”, eu
dizia.
que diabo, você
sabe.
ela finalmente apareceu. acho que teve
algo a ver com
The Chapparal Poets Society of California.
eles tinham que eleger seus quadros. ela me ligou
do hotel deles.
“estou aqui”, ela disse, “vamos eleger
os representantes.”
“ok, ótimo”, eu disse, “escolha uns realmente bons”.
desliguei.
o telefone voltou a tocar.
“ei, você não quer me ver?”
“claro”, eu disse, “qual é o endereço?”
depois que ela disse até logo eu bati uma
troquei as meias
bebi meia garrafa de vinho e
segui até lá.
estavam todos bêbados e tentavam
se foder mutuamente.
levei-a para minha casa.
ela vestia uma calcinha cor-de-rosa
com fitinhas.
bebemos uma pouco de cerveja e
fumamos e falamos sobre
Ezra Pound, depois
dormimos.
já não tenho claro
se a levei para o
aeroporto ou
não.
ela continua me escrevendo cartas
e eu as respondo
da pior maneira possível
torcendo para que ela
desista.
algum dia talvez ela alcance a
fama como Erica
Jong. (seu rosto não é lá essas coisas
mas seu corpo é legal)
e eu pensarei,
meu Deus, o que foi que eu fiz?
estraguei tudo.
ou melhor: eu não estraguei
nada.
enquanto isso tenho o número de sua caixa postal
e é melhor eu informar a ela
que meu segundo romance sairá
em setembro.
isso deverá manter os seus mamilos duros
enquanto considero a possibilidade de
Francine du Plessix Gray[4].
1 093