Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
António Ramos Rosa
Qual É a Cena? Hesito À Luz Escassa
Qual é a cena? Hesito à luz escassa
Caminho para ela na distância
atravesso salas e salas
dispostas numa ordem regular
e decisiva
que não consigo definir Aqui
o espectáculo começou antes de mim
Quero tocá-la ou vê-la ou antes
quero-a quando ela deflagra
o meu andar é flexível: não desloco os objectos
Lenda ou narrativa vivi talvez o que em tempos me contaram
e o que escrevo agora Tudo se duplica
num movimento presente
As coisas não voltam para mim as faces cegas
e divididas
É um espaço que se move e desenvolve
Um sopro que vem de todos os lados
anima cada coisa
O meu desejo dela a distante figura
identifica-se
com o percurso obscuro em que já não me distingo
do ilimitado organismo dos sinais
Sou a diferença que caminha e que adere à distância
Cada palavra me separa e me diz o lugar
ou não lugar
em que vou falar-lhe É preciso que lhe fale
Ela não me vê e parece não me ouvir
Alguma vez caminhámos nesta cidade, nesta rede?
Alguma vez te perdeste com ela nesta rua?
O rumo repete-se mas desvia-se do passado
há uma recusa viva na sua face inabordável
Não é possível chegar Não é possível deter-me
É para o labirinto que falo e a linguagem responde-me
Assim posso entender o murmúrio das lâmpadas
cada palavra é um acto com que avanço no escuro
estou mais perto da terra de uma árvore de uma erva
e os meus dedos sentem as raízes do obscuro
Adiro a uma chama insubmissa ao sexo do repouso
o percurso é uma fábula o desesperado encanto
do para sempre perdido na maravilha obscura
Não há centro e a figura distancia-se
mas cada passo meu define uma distância solar
em que a figura dela por vezes é um canto
que se confunde com os meandros do labirinto
Caminho para ela na distância
atravesso salas e salas
dispostas numa ordem regular
e decisiva
que não consigo definir Aqui
o espectáculo começou antes de mim
Quero tocá-la ou vê-la ou antes
quero-a quando ela deflagra
o meu andar é flexível: não desloco os objectos
Lenda ou narrativa vivi talvez o que em tempos me contaram
e o que escrevo agora Tudo se duplica
num movimento presente
As coisas não voltam para mim as faces cegas
e divididas
É um espaço que se move e desenvolve
Um sopro que vem de todos os lados
anima cada coisa
O meu desejo dela a distante figura
identifica-se
com o percurso obscuro em que já não me distingo
do ilimitado organismo dos sinais
Sou a diferença que caminha e que adere à distância
Cada palavra me separa e me diz o lugar
ou não lugar
em que vou falar-lhe É preciso que lhe fale
Ela não me vê e parece não me ouvir
Alguma vez caminhámos nesta cidade, nesta rede?
Alguma vez te perdeste com ela nesta rua?
O rumo repete-se mas desvia-se do passado
há uma recusa viva na sua face inabordável
Não é possível chegar Não é possível deter-me
É para o labirinto que falo e a linguagem responde-me
Assim posso entender o murmúrio das lâmpadas
cada palavra é um acto com que avanço no escuro
estou mais perto da terra de uma árvore de uma erva
e os meus dedos sentem as raízes do obscuro
Adiro a uma chama insubmissa ao sexo do repouso
o percurso é uma fábula o desesperado encanto
do para sempre perdido na maravilha obscura
Não há centro e a figura distancia-se
mas cada passo meu define uma distância solar
em que a figura dela por vezes é um canto
que se confunde com os meandros do labirinto
1 019
António Ramos Rosa
O Desejo do Início E do Silêncio
O desejo do início e do silêncio
para que o instante seja a fábula do instante
O silêncio para dizer as palavras anteriores
É o centro talvez a suspensão a perda
o fundo: a ausência de cor
fundo incessante que procuro defender
do assédio do sentido contra
as presenças acidentais e a agitação da superfície
Sigo-lhe a curva oculta até à interdição:
como transpor a parede circular
das coisas?
Lá fora a forma opaca
e provisória do ar as mesmas marcas
coloridas a distraída escrita
do acontecimento As pessoas passam
inscritas na janela com as casas e as árvores
e a árvore negra na curva, o céu oblíquo
Um olhar geral penetra-me e na ausência
de uma perspectiva já não sou
uma visão do mundo mas a subterrânea
corrente das intensidades do desejo
Aqui reina a imagem de um olho global
e é aqui que invento a metáfora da Figura
para que o instante seja a fábula do instante
O silêncio para dizer as palavras anteriores
É o centro talvez a suspensão a perda
o fundo: a ausência de cor
fundo incessante que procuro defender
do assédio do sentido contra
as presenças acidentais e a agitação da superfície
Sigo-lhe a curva oculta até à interdição:
como transpor a parede circular
das coisas?
Lá fora a forma opaca
e provisória do ar as mesmas marcas
coloridas a distraída escrita
do acontecimento As pessoas passam
inscritas na janela com as casas e as árvores
e a árvore negra na curva, o céu oblíquo
Um olhar geral penetra-me e na ausência
de uma perspectiva já não sou
uma visão do mundo mas a subterrânea
corrente das intensidades do desejo
Aqui reina a imagem de um olho global
e é aqui que invento a metáfora da Figura
989
António Ramos Rosa
Mediadora da Página
Desaparece. Renasce.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas
intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio
requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas
intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio
requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
1 020
António Ramos Rosa
Mediadora Límpida
Delicada insondável
a mediadora límpida
desliza sem rumor
no repouso do seu espaço
Serenidade vivaz
íntima na distância
habitação de altura
esplendor do branco
Tão nada como imagem
profunda em transparência
Demora nos instantes
unidos do silêncio
Ouvem-se cantos de água
inundação de ser
Abolição de um reino
palácio de palavras
Libertos os contrários
toda a bruma se evola
Nitidez de perfis
Rio luminoso e lúcido
Secreta calma intensa
como um lento prodígio
intocável suprema
do mundo espaço vivo
Não se prolongam ecos
nem ressoam pisadas
em sua esfera estática
sem fuga nem exílio
Sua nudez e assombro
paixão silenciosa
concavidade presente
onde se descobre o ar
Pura firmeza de estar
à superfície ondula
em misteriosa leveza
habitação segredada.
a mediadora límpida
desliza sem rumor
no repouso do seu espaço
Serenidade vivaz
íntima na distância
habitação de altura
esplendor do branco
Tão nada como imagem
profunda em transparência
Demora nos instantes
unidos do silêncio
Ouvem-se cantos de água
inundação de ser
Abolição de um reino
palácio de palavras
Libertos os contrários
toda a bruma se evola
Nitidez de perfis
Rio luminoso e lúcido
Secreta calma intensa
como um lento prodígio
intocável suprema
do mundo espaço vivo
Não se prolongam ecos
nem ressoam pisadas
em sua esfera estática
sem fuga nem exílio
Sua nudez e assombro
paixão silenciosa
concavidade presente
onde se descobre o ar
Pura firmeza de estar
à superfície ondula
em misteriosa leveza
habitação segredada.
526
António Ramos Rosa
Mediadora Caminhante
Perdida em suave lucidez
na dolência do vazio. Nada
decifra, caminha claramente
nas diurnas arenas derradeiras.
Um inesgotável desejo de nascer
ou ser o odor da terra. Quem é a incógnita
soberana? Uma vigília
de praias. Uma tranquilidade de árvores.
Tudo é liso e repousa. Escuta
os ramos do silêncio, a simplicidade
do sangue. Perdida em suave
lucidez.
na dolência do vazio. Nada
decifra, caminha claramente
nas diurnas arenas derradeiras.
Um inesgotável desejo de nascer
ou ser o odor da terra. Quem é a incógnita
soberana? Uma vigília
de praias. Uma tranquilidade de árvores.
Tudo é liso e repousa. Escuta
os ramos do silêncio, a simplicidade
do sangue. Perdida em suave
lucidez.
1 095
António Ramos Rosa
Mediadora da Lucidez Espacial
Principia por
uma inclinação
leve
coincidência frágil
rumor aceso
de que silêncio outro?
entrar
escutar
onde não se erguem perguntas
em abandono límpido
num impulso de terra
em espacial lucidez.
uma inclinação
leve
coincidência frágil
rumor aceso
de que silêncio outro?
entrar
escutar
onde não se erguem perguntas
em abandono límpido
num impulso de terra
em espacial lucidez.
1 045
António Ramos Rosa
Mediadora da Presença
E continua o fogo aqui
o fogo tácito
no seu som de espaço abrindo.
Aqui tão só aqui
o prodígio verde de um início
inesperado. Que frágil
a folhagem
e como abriga a veemência
da vigília. O simples
estar aqui
deixa livre a ausência.
A presença confunde-se com o vazio exacto.
o fogo tácito
no seu som de espaço abrindo.
Aqui tão só aqui
o prodígio verde de um início
inesperado. Que frágil
a folhagem
e como abriga a veemência
da vigília. O simples
estar aqui
deixa livre a ausência.
A presença confunde-se com o vazio exacto.
1 027
António Ramos Rosa
Mediadora Árida
Que pedra de música
subsiste
na argila cega?
Que navios no subsolo?
Ouço a sombra árida
do corpo, ouço os animais
sem água
nas caves clandestinas.
Onde as vogais do fogo
no fulgor do vento?
subsiste
na argila cega?
Que navios no subsolo?
Ouço a sombra árida
do corpo, ouço os animais
sem água
nas caves clandestinas.
Onde as vogais do fogo
no fulgor do vento?
1 031
António Ramos Rosa
Mediadora da Ausência
O sol é uma noite suave.
Silencioso triunfo da noite e da nudez.
Cintilantes frutos erguem-se
do abismo. Serenidade fresca.
Reconheço um caminho entre dois reinos.
Jogos da elipse e do contíguo.
Puros relevos. Os negros emblemas
da luz. Os fósseis do rigor.
De que desolado fundo surge a árvore
ou o rosto? O arbitrário poder
das pedras. Ser sem qualidades,
consciência sem palavras.
Paciência na cor e na pedra
do ser. O esplendor dos sulcos brancos.
Abóbada de ausência, círculo do universo.
O que permanece ondula entre o verde e o vento.
Silencioso triunfo da noite e da nudez.
Cintilantes frutos erguem-se
do abismo. Serenidade fresca.
Reconheço um caminho entre dois reinos.
Jogos da elipse e do contíguo.
Puros relevos. Os negros emblemas
da luz. Os fósseis do rigor.
De que desolado fundo surge a árvore
ou o rosto? O arbitrário poder
das pedras. Ser sem qualidades,
consciência sem palavras.
Paciência na cor e na pedra
do ser. O esplendor dos sulcos brancos.
Abóbada de ausência, círculo do universo.
O que permanece ondula entre o verde e o vento.
541
António Ramos Rosa
Mediadora do Inicial Constante
Fuga que restitui: ritmo
de cinzas. Obscuro
destino na aragem
das artérias.
O longínquo respira num corpo
de penumbra.
No alento se abre
o labirinto.
Visão do ilimite compacto.
Surge
o inicial constante.
Unidade vertical de um convertido abismo.
de cinzas. Obscuro
destino na aragem
das artérias.
O longínquo respira num corpo
de penumbra.
No alento se abre
o labirinto.
Visão do ilimite compacto.
Surge
o inicial constante.
Unidade vertical de um convertido abismo.
992
António Ramos Rosa
O Que Desperta E É Um Reino Suave
O que desperta e é um reino suave
já sem máscaras vazio sombrio ainda
não há escolha para ser ali há a leveza
do que não existe a semelhança nasce.
já sem máscaras vazio sombrio ainda
não há escolha para ser ali há a leveza
do que não existe a semelhança nasce.
1 142
António Ramos Rosa
Generosa É a Lentidão Que Rasga
Generosa é a lentidão que rasga
o gesto que suporta de frente
a dimensão propícia do vazio.
O fundo pronuncia um animal de ternura.
o gesto que suporta de frente
a dimensão propícia do vazio.
O fundo pronuncia um animal de ternura.
960
António Ramos Rosa
O Que Súbito No Vértice Reconhece
O que súbito no vértice reconhece
o vazio navegável do instante.
o vazio navegável do instante.
1 126
António Ramos Rosa
Não Há Termo Sobre
Não há termo sobre
o suporte diáfano.
Só a evidência nua do que sou
sem resistência quase, fluindo.
o suporte diáfano.
Só a evidência nua do que sou
sem resistência quase, fluindo.
1 137
António Ramos Rosa
No Centro do Mundo
Oscilante geometria tranquila
presença suficiente do ínfimo e do amplo
No centro do tempo não há tempo
Tranquilidade para ir ao encontro de
Estou dentro estou aberto habito
um limpo rosto de desconhecida frescura
Ramagens dispersão de nuvens indícios ténues
Sou uma linguagem límpida com o vento
Bebo nas múltiplas nascentes
do espaço puro
Acendo-me e apago-me e é a claridade que muda
Tranquilidade da folhagem crepitação de brasas
Durmo silencioso e mais desperto do que nunca
Sou o ar que se dissipa no ar
Como me perdi quem sou as interrogações cessaram
Estou dentro e fora na densidade subtil
Não há aqui imagens extravagantes rumores estranhos
Tudo se desenrola na lúcida amplitude tranquila
As palavras sucedem-se como vagarosas nuvens
O dia é límpido e lê-se como um livro aberto
presença suficiente do ínfimo e do amplo
No centro do tempo não há tempo
Tranquilidade para ir ao encontro de
Estou dentro estou aberto habito
um limpo rosto de desconhecida frescura
Ramagens dispersão de nuvens indícios ténues
Sou uma linguagem límpida com o vento
Bebo nas múltiplas nascentes
do espaço puro
Acendo-me e apago-me e é a claridade que muda
Tranquilidade da folhagem crepitação de brasas
Durmo silencioso e mais desperto do que nunca
Sou o ar que se dissipa no ar
Como me perdi quem sou as interrogações cessaram
Estou dentro e fora na densidade subtil
Não há aqui imagens extravagantes rumores estranhos
Tudo se desenrola na lúcida amplitude tranquila
As palavras sucedem-se como vagarosas nuvens
O dia é límpido e lê-se como um livro aberto
960
António Ramos Rosa
O Que Eu Digo Vacila, o Que Vejo Treme.
O que eu digo vacila, o que vejo treme.
O que eu não posso dizer ou ver é o que eu digo,
é o que eu vejo, a transparência.
O que eu não posso dizer ou ver é o que eu digo,
é o que eu vejo, a transparência.
1 283
António Ramos Rosa
Nas Artérias da Atenção, o Rumor
Nas artérias da atenção, o rumor
do ínfimo, um tufo transparente
forma-se do que se perde
em atmosfera soberana e leve.
do ínfimo, um tufo transparente
forma-se do que se perde
em atmosfera soberana e leve.
1 059
António Ramos Rosa
Deixar Sem Caminho Até Ao Alcance
Deixar sem caminho até ao alcance
de não querer possuir
à deriva do silêncio
na súbita tranquilidade do vazio
em que a abertura nos abre e nos sustém.
de não querer possuir
à deriva do silêncio
na súbita tranquilidade do vazio
em que a abertura nos abre e nos sustém.
961
António Ramos Rosa
Igualando-Me Ao Fundo Sem Saber
Igualando-me ao fundo sem saber
num acorde último, insondável,
vejo um muro e o nada em que ele se ergue
no excesso de uma evidência inicial.
num acorde último, insondável,
vejo um muro e o nada em que ele se ergue
no excesso de uma evidência inicial.
1 130
António Ramos Rosa
Não Querer Na Espera
Não querer na espera
até ao tácito oculto que interroga.
Arquear-se entre os arcos de água
até ao fundo e nascer flexível signo.
até ao tácito oculto que interroga.
Arquear-se entre os arcos de água
até ao fundo e nascer flexível signo.
1 018
António Ramos Rosa
No Abrigo Idêntico Ao Intacto Aceso,
No abrigo idêntico ao intacto aceso,
habitando o esplendor
da nudez material. Sentir
a morada íntegra, primeira
sobre o suporte imprescrutável.
habitando o esplendor
da nudez material. Sentir
a morada íntegra, primeira
sobre o suporte imprescrutável.
1 059
António Ramos Rosa
Jardim Sol
A lucidez é uma música da água
a respiração compreende sem imagens
Estamos dentro do incessante enigma
Somos a claridade do enigma
A facilidade é um rio
e um silêncio animal
Luz fácil
luz feliz
sol sem ruído jardim
sol
O caminho é uma pausa
o silêncio sem caminho
a respiração compreende sem imagens
Estamos dentro do incessante enigma
Somos a claridade do enigma
A facilidade é um rio
e um silêncio animal
Luz fácil
luz feliz
sol sem ruído jardim
sol
O caminho é uma pausa
o silêncio sem caminho
1 122