Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Fernando Pessoa
Seria doce amar, cingir a mim
Seria doce amar, cingir a mim
Um corpo de mulher, mas fixo e grave
E feito em tudo transcendentalmente.
O pensamento impede-me e confrange-me
Do terror de ter perto e comungar
Em sensação ou ser com outro corpo.
Gelada mão misteriosa cai
Sobre a imaginação que nem em si
Me pode amante conceber.
Ó corpo! Amante, entrega-te! Talvez
Te salves entregando-te e amando!
Mas não! A consciência do mistério
Mantém-me isolado e em horror
Perante tudo.
Ah não poder
Arrancar de mim a consciência!
Um corpo de mulher, mas fixo e grave
E feito em tudo transcendentalmente.
O pensamento impede-me e confrange-me
Do terror de ter perto e comungar
Em sensação ou ser com outro corpo.
Gelada mão misteriosa cai
Sobre a imaginação que nem em si
Me pode amante conceber.
Ó corpo! Amante, entrega-te! Talvez
Te salves entregando-te e amando!
Mas não! A consciência do mistério
Mantém-me isolado e em horror
Perante tudo.
Ah não poder
Arrancar de mim a consciência!
1 410
Fernando Pessoa
THE APOSTLE
The preacher said: «My task, it is to take
To men the mystic balsam of a creed,
And in their hearts lust-taken to awake
A fervour above life and above need.
My work: is to outcast the every greed
For beauty, and the chains of love to break,
And the whole field of youth and joy to rake
Clear for the sowing of my holy seed.
I go to preach a doctrine sweet and sad
Of sacrifice and of benevolence:
I turn my back on life, on earthly bliss.
But e'er I go ‑ oh, God, can I be mad? -
Would I could take to that cold life intense
The soul-perturbing memory of a kiss!»
To men the mystic balsam of a creed,
And in their hearts lust-taken to awake
A fervour above life and above need.
My work: is to outcast the every greed
For beauty, and the chains of love to break,
And the whole field of youth and joy to rake
Clear for the sowing of my holy seed.
I go to preach a doctrine sweet and sad
Of sacrifice and of benevolence:
I turn my back on life, on earthly bliss.
But e'er I go ‑ oh, God, can I be mad? -
Would I could take to that cold life intense
The soul-perturbing memory of a kiss!»
1 434
Fernando Pessoa
FAUSTO: Reza por mim Maria
FAUSTO:
Reza por mim Maria
MARIA:
(Rezo por ti? Sim rezarei. Mas o que tens?)
FAUSTO:
Reza por mim e diz a Deus (...)
Reza por mim, Maria, e eu sentirei
Uma calma d'amor sobre o meu ser,
Como o luar sobre um lago estagnado,
A fazê-lo um milagre de beleza.
Reza por mim e diz: Oh Deus, meu Deus,
Fazei-o inda feliz esse a quem amo
(Se é que me amas...).
MARIA:
Inda duvidas, meu amor?
FAUSTO:
Dize: Fazei feliz esse a quem amo
E que, qual condenado pela vida,
Arrasta a grilheta da dor,
Cujos olhos não choram por não ter
Na alma já lágrimas p'ra chorar,
Que, tendo erguido o seu pensar ao cume
Do humano pensar... Não, não importa,
Não digas nada, reza e que a tua alma,
Compadecendo-se de mim encontre
Os termos, as palavras que na prece
Murmurará... Choras? Fiz-te chorar?
MARIA:
Sim... Não... Eu choro apenas de te ver
Triste e (...) sem que eu compreenda
Tua tristeza, meu amor. Vem ela
De alguma dor — oh dize-me, partilha
Comigo a tua dor que eu te darei
O meu carinho, porque te amo tanto...
FAUSTO:
Tu amas-me, tu amas-me, Maria?
MARIA:
Ah, tu duvidas? Meu amor, duvidas?
Temes talvez que o meu acanhamento,
Que vem d'amor, eu não sei como, seja
Indiferença... Não... ah não o creias!
Eu não tenho a viveza, nem a ardência
Que algumas têm, tremo de mim mesma
Do meu amor, mas eu não sei por quê...
Mas amo-te... Se te amo, porque hás-de
Tu duvidar de mim?
Ah, se palavras
Podem levar a alma nelas, Fausto,
Se o amor, este amor como eu sinto,
Pode dizer-se sem o duvidar
Se o que eu sinto em minha alma quando te vejo
Quando sinto o teu passo, quando penso
Em ti, amor, em ti, se olhares, beijos
Podem mostrar o amor, todo o amor —
Crê que as minhas palavras, os meus beijos,
O meu olhar têm esse amor.
Se eu não posso
Gritar:amor, amor, ardentemente
E desmedidamente, e a voz em fogo,
É que em mim mesmo, nasce-me um pudor
De o dizer muito alto (mas não creias
Que é por amar-te pouco, que só é
De amar-te muito e amar-te como te amo)
Se isto não faço, não duvides, não...
Eu não sei dizer mais; não aprendi
Como o amor fala não, não aprendi,
Porque o amor não fala, não pode
Dizer-se todo, senão não seria
Amor, ao menos este amor que eu sinto.
Não sei, não sei dizer-te... Não duvides!
Eu pareço talvez fria aos teus olhos;
Não duvides que eu sofra muito, muito
Por duvidares
E eu amo-te... Meu Deus, como eu te amo!
FAUSTO (aparte):
Como eu sinto de ouvi-la e de sentir
(Sentir pelo meu pensamento) quanto
É aquele amor e como ele é amor,
Minha alma fria, meu coração frio!
Aquilo é amor... Eu, pois, nunca amarei...
Que ela fala e eu compreendo (se compreendo!
Quanto ela ama, como ela fala amor).
Nada sinto em mim que nasça, surja
E vá de encontro ao seu amor. Não posso
Fazer erguer em mim um sentimento
Que dê as mãos àquele. E, de o não poder,
Eu mais frio me sinto, mais pesado
N'alma, na minha desconsolação.
Como me sinto falso, falso a mim mesmo,
Falso à existência, falso à vida, ao amor!
(alto)
Perdoa, amor
(aparte)
Amor! Como me amarga
De vazia em meu ser esta palavra!
Como de isso assim ser me encolerizo!
(alto)
Perdoa, meu amor!
Cedo aprendi a duvidar de tudo
Por duvidar de mim, sem o querer,
Sem razão de o querer ou de o pensar
Durante em honras, amor, felicidade...
Em tudo... Mas eu creio em ti, Maria,
Eu creio em ti... Como és bela! Não, não chores,
Quero falar ternura e não o sei;
Tenho a alma fria — oh raiva! é impossível.
Reza por mim Maria
MARIA:
(Rezo por ti? Sim rezarei. Mas o que tens?)
FAUSTO:
Reza por mim e diz a Deus (...)
Reza por mim, Maria, e eu sentirei
Uma calma d'amor sobre o meu ser,
Como o luar sobre um lago estagnado,
A fazê-lo um milagre de beleza.
Reza por mim e diz: Oh Deus, meu Deus,
Fazei-o inda feliz esse a quem amo
(Se é que me amas...).
MARIA:
Inda duvidas, meu amor?
FAUSTO:
Dize: Fazei feliz esse a quem amo
E que, qual condenado pela vida,
Arrasta a grilheta da dor,
Cujos olhos não choram por não ter
Na alma já lágrimas p'ra chorar,
Que, tendo erguido o seu pensar ao cume
Do humano pensar... Não, não importa,
Não digas nada, reza e que a tua alma,
Compadecendo-se de mim encontre
Os termos, as palavras que na prece
Murmurará... Choras? Fiz-te chorar?
MARIA:
Sim... Não... Eu choro apenas de te ver
Triste e (...) sem que eu compreenda
Tua tristeza, meu amor. Vem ela
De alguma dor — oh dize-me, partilha
Comigo a tua dor que eu te darei
O meu carinho, porque te amo tanto...
FAUSTO:
Tu amas-me, tu amas-me, Maria?
MARIA:
Ah, tu duvidas? Meu amor, duvidas?
Temes talvez que o meu acanhamento,
Que vem d'amor, eu não sei como, seja
Indiferença... Não... ah não o creias!
Eu não tenho a viveza, nem a ardência
Que algumas têm, tremo de mim mesma
Do meu amor, mas eu não sei por quê...
Mas amo-te... Se te amo, porque hás-de
Tu duvidar de mim?
Ah, se palavras
Podem levar a alma nelas, Fausto,
Se o amor, este amor como eu sinto,
Pode dizer-se sem o duvidar
Se o que eu sinto em minha alma quando te vejo
Quando sinto o teu passo, quando penso
Em ti, amor, em ti, se olhares, beijos
Podem mostrar o amor, todo o amor —
Crê que as minhas palavras, os meus beijos,
O meu olhar têm esse amor.
Se eu não posso
Gritar:amor, amor, ardentemente
E desmedidamente, e a voz em fogo,
É que em mim mesmo, nasce-me um pudor
De o dizer muito alto (mas não creias
Que é por amar-te pouco, que só é
De amar-te muito e amar-te como te amo)
Se isto não faço, não duvides, não...
Eu não sei dizer mais; não aprendi
Como o amor fala não, não aprendi,
Porque o amor não fala, não pode
Dizer-se todo, senão não seria
Amor, ao menos este amor que eu sinto.
Não sei, não sei dizer-te... Não duvides!
Eu pareço talvez fria aos teus olhos;
Não duvides que eu sofra muito, muito
Por duvidares
E eu amo-te... Meu Deus, como eu te amo!
FAUSTO (aparte):
Como eu sinto de ouvi-la e de sentir
(Sentir pelo meu pensamento) quanto
É aquele amor e como ele é amor,
Minha alma fria, meu coração frio!
Aquilo é amor... Eu, pois, nunca amarei...
Que ela fala e eu compreendo (se compreendo!
Quanto ela ama, como ela fala amor).
Nada sinto em mim que nasça, surja
E vá de encontro ao seu amor. Não posso
Fazer erguer em mim um sentimento
Que dê as mãos àquele. E, de o não poder,
Eu mais frio me sinto, mais pesado
N'alma, na minha desconsolação.
Como me sinto falso, falso a mim mesmo,
Falso à existência, falso à vida, ao amor!
(alto)
Perdoa, amor
(aparte)
Amor! Como me amarga
De vazia em meu ser esta palavra!
Como de isso assim ser me encolerizo!
(alto)
Perdoa, meu amor!
Cedo aprendi a duvidar de tudo
Por duvidar de mim, sem o querer,
Sem razão de o querer ou de o pensar
Durante em honras, amor, felicidade...
Em tudo... Mas eu creio em ti, Maria,
Eu creio em ti... Como és bela! Não, não chores,
Quero falar ternura e não o sei;
Tenho a alma fria — oh raiva! é impossível.
1 436
Fernando Pessoa
Eu tenho ideias e razões,
Eu tenho ideias e razões,
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.
1 814
Fernando Pessoa
Fantasma sem lugar, que a minha mente
Fantasmas sem lugar, que a minha mente
Figura no visível, sombras minhas
Do diálogo comigo.
Figura no visível, sombras minhas
Do diálogo comigo.
1 620
Fernando Pessoa
Não ter emoções, não ter desejos, não ter vontades,
Não ter emoções, não ter desejos, não ter vontades,
Mas ser apenas, no ar sensível das coisas
Uma consciência abstracta com asas de pensamento,
Não ser desonesto nem não desonesto, separado ou junto,
Nem igual a outros, nem diferente dos outros,
Vivê-los em outrem, separar-se deles
Como quem, distraído, se esquece de si...
Mas ser apenas, no ar sensível das coisas
Uma consciência abstracta com asas de pensamento,
Não ser desonesto nem não desonesto, separado ou junto,
Nem igual a outros, nem diferente dos outros,
Vivê-los em outrem, separar-se deles
Como quem, distraído, se esquece de si...
1 422
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS [c]
PASSAGEM DAS HORAS
Vivo todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavismo,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.
Das terrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.
No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,
Vou ao lado dela sem ela saber.
No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,
Mas antes do encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.
Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me, não há modo de eu não estar em toda a parte.
O meu privilégio é tudo
(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).
Assisto a tudo e definitivamente.
Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,
Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira
Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso
Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinquenta
Que não seja para mim por uma galanteria deposta.
Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.
Vivo todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavismo,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.
Das terrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.
No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,
Vou ao lado dela sem ela saber.
No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,
Mas antes do encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.
Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me, não há modo de eu não estar em toda a parte.
O meu privilégio é tudo
(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).
Assisto a tudo e definitivamente.
Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,
Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira
Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso
Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinquenta
Que não seja para mim por uma galanteria deposta.
Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.
1 622
Fernando Pessoa
FAUSTO: Febre! Febre! Estou trémulo de febre
FAUSTO:
Febre! Febre! Estou trémulo de febre
E de delírio, e ainda assim é grato
Tudo isto a não sei que se passa
Sem propósito de passar e... não, não, não...
Fiquei fingindo que fujo... Fugirei...
Onde estou? O que foi? que faço aqui?
Arde-me a alma toda, arde-me arde
Como uma cousa que arde.
(foge de casa)
Ancião, não podes tu
Arranjar-me um remédio para a vida?
Quero vivê-la sem saber que a vivo,
Como tu vives... Corta-me o sorriso
Ou te apunhalo! De que te ris? Não rias!
Dá-me já, dá-me, dá-me filtros ou (...)
Com que eu me esqueça.
(estende a mão)
Dá cá, não importa
Falar Tudo é inútil.
(arranca-lhe o frasco da mão)
Atordoar-me-á isto a alma toda
Toda até dentro, muito dentro, velho?
VELHO:
Não te compreendo, mas se é esqueceres
Que queres, bebe.
FAUSTO:
Quero, quero, vamos,
Esqueçamo-nos. Tens algo de mais forte
Para mais do que esquecer; depressa, diz.
VELHO:
Mal te compreendo, mas não tenho.
FAUSTO:
Este
Quer (...) fins.
(bebe sofregamente)
E dormirei, ó velho,
Acabará em mim parte de mim
E viverei morto para viver
(cai no chão)
VELHO:
Estranha e horrível criatura!
O que de temor me faz. Todas espécies
De homens conheço, por ciência
Sei ler os vícios íntimos e os crimes
Nos olhares. Mas este... Não é vício
Nem crime, nem tristeza, nem parece
Propriamente pavor, o que obscurece
Como uma escuridão de dentro d'alma,
Toda a vida e expressão de sua face.
E essas palavras de que usa «esquecer
A vida», «mais do que esquecer» «em
Acabará então parte de mim»
Que significam? Não sei, mas sinto
Que condizem secreta e intimamente
Com esse íntimo ser que eu não conheço.
Qualquer que seja essa desgraça, estranho,
Dorme e ou esqueça ou aconteça em ti
Isso que semelhante ao esquecer
Desordenadamente me disseste
No teu intimo (...) desejar.
Dorme, e que o filtro opere no silêncio
Da tua alma, obra interior de paz
E que ao descerrares para mim os olhos
Eu lhes veja a expressão já transmutada
Para compreensível e humana
Expressão de um humano sentimento.
(Vai para o levantar mas retrai-se)
Não; dorme onde caíste e que o filtro
Sem sonho ou (...) de alteração
Te adormeça a existência intimamente
E ao escuro desejo que tu tens
(exit)
FAUSTO:
Eu sou outro que os homens, ó ancião,
O teu filtro de paz e esquecimento
Não me faz esquecer e só a sombra
De uma possível paz me entrou n'alma.
Para a paz que eu queria esta que tenho
É como archote para a luz do sol.
Intimamente nada se parece.
Paralisaste em mim a engrenagem
Do pensamento e sentimento antigos
Mas quebrados ficaram-me visíveis
E inesquecidos n'alma. Sou demais
Em consciência para os filtros frágeis
De que o teu tosco engenho te fez sábio.
Não tornarei, eu sinto-o, a sentir
O que sentia antigamente. Foi-se
Não sei como, o interior do meu ser
Com suas intuições, mas não se foi
A memória terrível do horror
Da minha vida antiga, perto e longe
Já do que eu sou, nem o que o uso fez
Ao sentimento e ao pensamento antigos;
Ainda os tenho comigo. Fica com eles
A memória presente do terror. Sou o que era, velho.
Nas cinzas do meu ser ainda há calor
Para que o fogo lembre.
VELHO:
Esfriarão.
FAUSTO:
Não o sinto possível. Há ainda
Memória e consciência de existir
Por demais em minha alma. O teu filtro
Não foi feito para entes como eu.
Entes? Não que como eu, só eu.
VELHO:
Virá
VELHO:
Dentro em breve o sossego.
FAUSTO:
Por que o dizes?
VELHO:
A outros veio!
FAUSTO:
A outros, mas que outros
Se assemelham a mim, ó velho estulto?
Alma vazia cheia de licores!
Mas de que serve injuriar-te? Tu
Não serás por injúrias acordado
Para a compreensão.
(Soergue-se)
Estranho sentimento. Como que a alma
Corporeamente me é pesada! A vida
Como que está atordoada e lenta...
Mas tenho, ó velho, consciência disso!
Teu filtro, miserável, é humano!
É para entes humanos que foi feito.
Inda me lembro bem que eu não o sou.
(pausa)
Olha pr'a mim! Que tenho no olhar
Como pareço ser?
VELHO:
Doente, triste
E como que quem sente vago pavor...
FAUSTO:
Maldita a ideia que te faz tocar
No que eu não posso mais sentir, mas posso
Apavorar-me de já ter sentido
E lembrar-me. Não fales mais. Eu vou...
(Pondo-se de pé)
Eu vou não sei onde...Como me treme
Com que debilidade e sentimento
De estar mudado o corpo todo. Velho,
Adeus, quisera ter achado em ti
O que em ti não podia ter achado.
Os teus remédios nada valem. Eu
Deveria ao pedir tê-lo sabido;
Mas... Não tens outro, diz-me... Tu que filtros
Possuis, não tens venenos mais subtis
Para a existência?
VELHO:
Tu bebeste aquele
Que eu de mais forte tinha, e que eu quisera
Não te dar. Arrancaste-mo da mão.
Talvez não vejas quanto estás melhor...
FAUSTO:
Velho, eu não erro com o pensamento.
Sei como estou. Não estou como quisera
Que me fizeras estar.
VELHO:
Há um filtro
Diferente daquele que tomaste;
Diverso na intenção com que obra n'alma,
Mas parecido no fazer esquecer.
FAUSTO:
Como diverso na intenção?
VELHO:
Em vez
De apagar, (...), adormecer,
Faz, com terrível excitar da vida,
Nascer n'alma um conflito de desejos
Um desejo de tudo possuir,
De tudo ser, de tudo ver, amar,
Gozar, odiar, querer e não querer,
Reunir vícios e virtudes — tudo
Como que na ânsia férvida dum trago
Da taça de existir.
FAUSTO:
E tu...
VELHO:
Não fui eu
Quem concebeu ou fabrica o filtro
Nem há mais (...) do que para um homem.
FAUSTO:
Tu vendes-mo... Ah, não, que eu nada tenho
Nem sei se tive ou poderia ter.
Tu dás-mo, velho. Não te servirá
De nada. Talvez esse filtro dê
O esquecimento (...) à minha alma.
Inda que a decepção me cause um vago
Desejo inquieto e como que inquerente
Entre um querer e um não querer, sendo ambos
E nenhum. Torna a ele. Quem o fez?
Porque o fez? Onde o tens? Repete mesmo
O que de seus efeitos me disseste.
E esses efeitos tê-los-á; repete,
Quero que ainda me decida mais
A pedir-to e a usá-lo. Por enquanto
Sou para ele a própria indecisão.
VELHO:
(...)
FAUSTO:
Que me decida ou não a beber dele
Esse filtro a ti de nada serve.
Dá-mo pois.
VELHO:
Não to dou.
FAUSTO:
O filtro, velho.
Não me (...); o filtro.
VELHO:
Não to dou.
FAUSTO:
O filtro.
VELHO:
Não to posso dar.
FAUSTO:
O filtro.
VELHO:
Para que avanças? Eu que mal te fiz?
FAUSTO:
O filtro; dá-me o filtro.
VELHO:
Mas não posso.
FAUSTO:
Velho, repara em mim. Há na minha alma
Uma ira calma e fria! Foge que ela
Na acção te mostre o que é.
VELHO:
Não posso dar-te,
Em verdade to digo, o filtro. Eu
Fiz-te o bem que pude; porque então
Avançando assim calmo para mim
No horror de qualquer (...) intenção
Te vejo o mesmo sempre? Poupa-me isso
Terrível que há em ti e que não trais
Em movimento ou vaga intimidade
Do olhar.. Piedade, piedade...
Piedade, senhor! Eu dou-te o filtro
Eu dou-te o filtro. Piedade eu dou.
(Fausto levanta do punhal e fells him)
(após matar)
FAUSTO:
Nem sinto horror, nem medo, ou dor, ou ânsia
Nem qualquer forma de estranheza sinto
Pelo que fiz por mais que tente querer
Sentir, e pelo próprio pensamento
De o dever sentir à força ter
Uma dor, um remorso, um sentimento.
Nada... Vejo, sinto, e vejo apenas
Como qualquer cousa natural
Visse, sem que devesse invocar
Sentimento (...) algum. Por mais
Que queira pensar-me a conceber
Quanto é estranho, e horroroso,
O que fiz, não me posso humanizar
Ao ponto de (...)
Por mais que a mera vista me convença
De que matei, por mais que tente
Fitar com a alma o corpo e o derramado
Sangue que vejo, nega-se-me o ser
A mais do que a olhar e só olhar.
É uma alma morta ante um corpo morto.
Compreendo bem o que sentir eu devo
Mas não consigo mesmo a imaginar-me
Sentindo-o. Estranho! Nem sequer evoco
Por sentimentos de quanto é de horror
A morte, um ente morto, e o mistério
Nisto tudo. Sim, sinto-lhe o mistério
Mas este sentimento de mistério
Não se me liga a um sentimento
Que liga esse corpo a mim que fiz
O que de mistério está ali.
Tremo ao sentir quanto é mistério a morte;
Mas na alma desligado está
Com completa separação e nítida
De sentimento algum que me deixasse
O ser na ânsia de inquirir.
(pausa)
Visto porém, que nada sinto, nada,
Acabe este mesmo reflectir
Mais que infrutífero de sentimento,
Porque mais frio cada vez me sinto
Ao perceber que nada sei sentir
Nem estranheza sinto
Nem estranheza de não ter estranheza
Nem estranheza mesmo
De não sentir por mais que eu queira
Fazer crer que devia sentir estranheza.
Procuremos o filtro.
Febre! Febre! Estou trémulo de febre
E de delírio, e ainda assim é grato
Tudo isto a não sei que se passa
Sem propósito de passar e... não, não, não...
Fiquei fingindo que fujo... Fugirei...
Onde estou? O que foi? que faço aqui?
Arde-me a alma toda, arde-me arde
Como uma cousa que arde.
(foge de casa)
Ancião, não podes tu
Arranjar-me um remédio para a vida?
Quero vivê-la sem saber que a vivo,
Como tu vives... Corta-me o sorriso
Ou te apunhalo! De que te ris? Não rias!
Dá-me já, dá-me, dá-me filtros ou (...)
Com que eu me esqueça.
(estende a mão)
Dá cá, não importa
Falar Tudo é inútil.
(arranca-lhe o frasco da mão)
Atordoar-me-á isto a alma toda
Toda até dentro, muito dentro, velho?
VELHO:
Não te compreendo, mas se é esqueceres
Que queres, bebe.
FAUSTO:
Quero, quero, vamos,
Esqueçamo-nos. Tens algo de mais forte
Para mais do que esquecer; depressa, diz.
VELHO:
Mal te compreendo, mas não tenho.
FAUSTO:
Este
Quer (...) fins.
(bebe sofregamente)
E dormirei, ó velho,
Acabará em mim parte de mim
E viverei morto para viver
(cai no chão)
VELHO:
Estranha e horrível criatura!
O que de temor me faz. Todas espécies
De homens conheço, por ciência
Sei ler os vícios íntimos e os crimes
Nos olhares. Mas este... Não é vício
Nem crime, nem tristeza, nem parece
Propriamente pavor, o que obscurece
Como uma escuridão de dentro d'alma,
Toda a vida e expressão de sua face.
E essas palavras de que usa «esquecer
A vida», «mais do que esquecer» «em
Acabará então parte de mim»
Que significam? Não sei, mas sinto
Que condizem secreta e intimamente
Com esse íntimo ser que eu não conheço.
Qualquer que seja essa desgraça, estranho,
Dorme e ou esqueça ou aconteça em ti
Isso que semelhante ao esquecer
Desordenadamente me disseste
No teu intimo (...) desejar.
Dorme, e que o filtro opere no silêncio
Da tua alma, obra interior de paz
E que ao descerrares para mim os olhos
Eu lhes veja a expressão já transmutada
Para compreensível e humana
Expressão de um humano sentimento.
(Vai para o levantar mas retrai-se)
Não; dorme onde caíste e que o filtro
Sem sonho ou (...) de alteração
Te adormeça a existência intimamente
E ao escuro desejo que tu tens
(exit)
FAUSTO:
Eu sou outro que os homens, ó ancião,
O teu filtro de paz e esquecimento
Não me faz esquecer e só a sombra
De uma possível paz me entrou n'alma.
Para a paz que eu queria esta que tenho
É como archote para a luz do sol.
Intimamente nada se parece.
Paralisaste em mim a engrenagem
Do pensamento e sentimento antigos
Mas quebrados ficaram-me visíveis
E inesquecidos n'alma. Sou demais
Em consciência para os filtros frágeis
De que o teu tosco engenho te fez sábio.
Não tornarei, eu sinto-o, a sentir
O que sentia antigamente. Foi-se
Não sei como, o interior do meu ser
Com suas intuições, mas não se foi
A memória terrível do horror
Da minha vida antiga, perto e longe
Já do que eu sou, nem o que o uso fez
Ao sentimento e ao pensamento antigos;
Ainda os tenho comigo. Fica com eles
A memória presente do terror. Sou o que era, velho.
Nas cinzas do meu ser ainda há calor
Para que o fogo lembre.
VELHO:
Esfriarão.
FAUSTO:
Não o sinto possível. Há ainda
Memória e consciência de existir
Por demais em minha alma. O teu filtro
Não foi feito para entes como eu.
Entes? Não que como eu, só eu.
VELHO:
Virá
VELHO:
Dentro em breve o sossego.
FAUSTO:
Por que o dizes?
VELHO:
A outros veio!
FAUSTO:
A outros, mas que outros
Se assemelham a mim, ó velho estulto?
Alma vazia cheia de licores!
Mas de que serve injuriar-te? Tu
Não serás por injúrias acordado
Para a compreensão.
(Soergue-se)
Estranho sentimento. Como que a alma
Corporeamente me é pesada! A vida
Como que está atordoada e lenta...
Mas tenho, ó velho, consciência disso!
Teu filtro, miserável, é humano!
É para entes humanos que foi feito.
Inda me lembro bem que eu não o sou.
(pausa)
Olha pr'a mim! Que tenho no olhar
Como pareço ser?
VELHO:
Doente, triste
E como que quem sente vago pavor...
FAUSTO:
Maldita a ideia que te faz tocar
No que eu não posso mais sentir, mas posso
Apavorar-me de já ter sentido
E lembrar-me. Não fales mais. Eu vou...
(Pondo-se de pé)
Eu vou não sei onde...Como me treme
Com que debilidade e sentimento
De estar mudado o corpo todo. Velho,
Adeus, quisera ter achado em ti
O que em ti não podia ter achado.
Os teus remédios nada valem. Eu
Deveria ao pedir tê-lo sabido;
Mas... Não tens outro, diz-me... Tu que filtros
Possuis, não tens venenos mais subtis
Para a existência?
VELHO:
Tu bebeste aquele
Que eu de mais forte tinha, e que eu quisera
Não te dar. Arrancaste-mo da mão.
Talvez não vejas quanto estás melhor...
FAUSTO:
Velho, eu não erro com o pensamento.
Sei como estou. Não estou como quisera
Que me fizeras estar.
VELHO:
Há um filtro
Diferente daquele que tomaste;
Diverso na intenção com que obra n'alma,
Mas parecido no fazer esquecer.
FAUSTO:
Como diverso na intenção?
VELHO:
Em vez
De apagar, (...), adormecer,
Faz, com terrível excitar da vida,
Nascer n'alma um conflito de desejos
Um desejo de tudo possuir,
De tudo ser, de tudo ver, amar,
Gozar, odiar, querer e não querer,
Reunir vícios e virtudes — tudo
Como que na ânsia férvida dum trago
Da taça de existir.
FAUSTO:
E tu...
VELHO:
Não fui eu
Quem concebeu ou fabrica o filtro
Nem há mais (...) do que para um homem.
FAUSTO:
Tu vendes-mo... Ah, não, que eu nada tenho
Nem sei se tive ou poderia ter.
Tu dás-mo, velho. Não te servirá
De nada. Talvez esse filtro dê
O esquecimento (...) à minha alma.
Inda que a decepção me cause um vago
Desejo inquieto e como que inquerente
Entre um querer e um não querer, sendo ambos
E nenhum. Torna a ele. Quem o fez?
Porque o fez? Onde o tens? Repete mesmo
O que de seus efeitos me disseste.
E esses efeitos tê-los-á; repete,
Quero que ainda me decida mais
A pedir-to e a usá-lo. Por enquanto
Sou para ele a própria indecisão.
VELHO:
(...)
FAUSTO:
Que me decida ou não a beber dele
Esse filtro a ti de nada serve.
Dá-mo pois.
VELHO:
Não to dou.
FAUSTO:
O filtro, velho.
Não me (...); o filtro.
VELHO:
Não to dou.
FAUSTO:
O filtro.
VELHO:
Não to posso dar.
FAUSTO:
O filtro.
VELHO:
Para que avanças? Eu que mal te fiz?
FAUSTO:
O filtro; dá-me o filtro.
VELHO:
Mas não posso.
FAUSTO:
Velho, repara em mim. Há na minha alma
Uma ira calma e fria! Foge que ela
Na acção te mostre o que é.
VELHO:
Não posso dar-te,
Em verdade to digo, o filtro. Eu
Fiz-te o bem que pude; porque então
Avançando assim calmo para mim
No horror de qualquer (...) intenção
Te vejo o mesmo sempre? Poupa-me isso
Terrível que há em ti e que não trais
Em movimento ou vaga intimidade
Do olhar.. Piedade, piedade...
Piedade, senhor! Eu dou-te o filtro
Eu dou-te o filtro. Piedade eu dou.
(Fausto levanta do punhal e fells him)
(após matar)
FAUSTO:
Nem sinto horror, nem medo, ou dor, ou ânsia
Nem qualquer forma de estranheza sinto
Pelo que fiz por mais que tente querer
Sentir, e pelo próprio pensamento
De o dever sentir à força ter
Uma dor, um remorso, um sentimento.
Nada... Vejo, sinto, e vejo apenas
Como qualquer cousa natural
Visse, sem que devesse invocar
Sentimento (...) algum. Por mais
Que queira pensar-me a conceber
Quanto é estranho, e horroroso,
O que fiz, não me posso humanizar
Ao ponto de (...)
Por mais que a mera vista me convença
De que matei, por mais que tente
Fitar com a alma o corpo e o derramado
Sangue que vejo, nega-se-me o ser
A mais do que a olhar e só olhar.
É uma alma morta ante um corpo morto.
Compreendo bem o que sentir eu devo
Mas não consigo mesmo a imaginar-me
Sentindo-o. Estranho! Nem sequer evoco
Por sentimentos de quanto é de horror
A morte, um ente morto, e o mistério
Nisto tudo. Sim, sinto-lhe o mistério
Mas este sentimento de mistério
Não se me liga a um sentimento
Que liga esse corpo a mim que fiz
O que de mistério está ali.
Tremo ao sentir quanto é mistério a morte;
Mas na alma desligado está
Com completa separação e nítida
De sentimento algum que me deixasse
O ser na ânsia de inquirir.
(pausa)
Visto porém, que nada sinto, nada,
Acabe este mesmo reflectir
Mais que infrutífero de sentimento,
Porque mais frio cada vez me sinto
Ao perceber que nada sei sentir
Nem estranheza sinto
Nem estranheza de não ter estranheza
Nem estranheza mesmo
De não sentir por mais que eu queira
Fazer crer que devia sentir estranheza.
Procuremos o filtro.
1 133
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [d]
SAUDAÇÃO
A minha universalite —
A ânsia vaga, a alegria absurda, a dor indecifrável
Síndroma da doença da Incongruência Final.
Curso do êmbolo do dinamismo abstracto
Do vácuo dinâmico do mundo!
A minha aspiração consubstanciada com fórmulas
Matemática de mim falido
A minha universalite —
A ânsia vaga, a alegria absurda, a dor indecifrável
Síndroma da doença da Incongruência Final.
Curso do êmbolo do dinamismo abstracto
Do vácuo dinâmico do mundo!
A minha aspiração consubstanciada com fórmulas
Matemática de mim falido
1 402
Fernando Pessoa
CRISTO: A sonhar eu venci mundos,
A sonhar eu venci mundos,
Minha vida um sonho foi.
Cerra teus olhos profundos
Para a verdade que dói.
A Ilusão é mãe da vida:
Fui doido e tido por Deus.
Só a loucura incompreendida
Vai avante para os céus.
Cheio de dor e de susto
Toda a vida delirei,
E assim fui ao céu sem custo,
Nem por que lá fui eu sei.
Meu egoísmo e vã preguiça
Um choroso amor gerou;
De ser Deus tive a cobiça,
Vê se sou Deus ou não sou!
Como tu eu não fui nada,
E vales mais do que eu;
Nada eu. De alucinada
Minha alma a si se envolveu
Na inconsciência profunda
Que nunca deixa infeliz
Ser de todo — e assim se funda
Uma fé — vê quem o diz.
Assim sou e em meu nome
Inda muitos o serão;
Um Deus — supremo renome,
E doido! — suma abjecção.
CORO DE VOZES MÁSCULAS:
Através de ferro e fogo
Por ti iremos
Ver a pugna. Por teu Nome logo
Iremos.
No combate, na fogueira,
Cessaremos
Mortos, mortos.
BUDA:
O meu sonho foi incompleto
Por isso eu compreendi
Que sofrer é o nome do trajecto
Que o mundo faz de si a si.
GOETHE:
Do fundo da inconsciência
Da alma sobriamente louca
Tirei poesia e ciência
E não pouca.
Maravilha do inconsciente!
Em sonhos sonhos criei
E o mundo atónito sente
Como é belo o que lhe dei.
SHAKESPEARE:
E é loucura a inspiração!
VOZES:
Só a loucura é que é grande!
E só ela é que é feliz!
Minha vida um sonho foi.
Cerra teus olhos profundos
Para a verdade que dói.
A Ilusão é mãe da vida:
Fui doido e tido por Deus.
Só a loucura incompreendida
Vai avante para os céus.
Cheio de dor e de susto
Toda a vida delirei,
E assim fui ao céu sem custo,
Nem por que lá fui eu sei.
Meu egoísmo e vã preguiça
Um choroso amor gerou;
De ser Deus tive a cobiça,
Vê se sou Deus ou não sou!
Como tu eu não fui nada,
E vales mais do que eu;
Nada eu. De alucinada
Minha alma a si se envolveu
Na inconsciência profunda
Que nunca deixa infeliz
Ser de todo — e assim se funda
Uma fé — vê quem o diz.
Assim sou e em meu nome
Inda muitos o serão;
Um Deus — supremo renome,
E doido! — suma abjecção.
CORO DE VOZES MÁSCULAS:
Através de ferro e fogo
Por ti iremos
Ver a pugna. Por teu Nome logo
Iremos.
No combate, na fogueira,
Cessaremos
Mortos, mortos.
BUDA:
O meu sonho foi incompleto
Por isso eu compreendi
Que sofrer é o nome do trajecto
Que o mundo faz de si a si.
GOETHE:
Do fundo da inconsciência
Da alma sobriamente louca
Tirei poesia e ciência
E não pouca.
Maravilha do inconsciente!
Em sonhos sonhos criei
E o mundo atónito sente
Como é belo o que lhe dei.
SHAKESPEARE:
E é loucura a inspiração!
VOZES:
Só a loucura é que é grande!
E só ela é que é feliz!
1 650
Fernando Pessoa
Quando penso nas outras consciências
Quando penso nas outras consciências
E no mistério que contêm, de haver
Pluralidade de conscientes (pois
Una se afigura ao pensamento
A consciência) quando penso assim
Angustia-me logo o não poder
Penetrar nessas vidas e sentir
(Como não sei) as várias sensações
Das várias humanas personalidades:
Do guerreiro, da virgem, do (...)
Do sábio, do operário,
Da costureira, da rameira mesmo,
Do assassino, do homem das montanhas
De tudo e de todos. Atormenta-me
Uma necessidade de o saber
Que faz sorrir o pranto da minha alma.
O que pensarão eles, sentirão?
Eu quisera sabê-lo, conhecê-lo,
Perdendo e não perdendo este meu ser.
Curiosidade louca que se impõe
À minha (...) Todo mistério
Tento ver e cada um vai incompreensível
Rindo, rindo, chorando, cantando
Pelejando, sofrendo, enfim morrendo
Inconsciente do que leva em si,
Além da loucura.
E no mistério que contêm, de haver
Pluralidade de conscientes (pois
Una se afigura ao pensamento
A consciência) quando penso assim
Angustia-me logo o não poder
Penetrar nessas vidas e sentir
(Como não sei) as várias sensações
Das várias humanas personalidades:
Do guerreiro, da virgem, do (...)
Do sábio, do operário,
Da costureira, da rameira mesmo,
Do assassino, do homem das montanhas
De tudo e de todos. Atormenta-me
Uma necessidade de o saber
Que faz sorrir o pranto da minha alma.
O que pensarão eles, sentirão?
Eu quisera sabê-lo, conhecê-lo,
Perdendo e não perdendo este meu ser.
Curiosidade louca que se impõe
À minha (...) Todo mistério
Tento ver e cada um vai incompreensível
Rindo, rindo, chorando, cantando
Pelejando, sofrendo, enfim morrendo
Inconsciente do que leva em si,
Além da loucura.
1 276
Fernando Pessoa
Como há haver? Que é ser? Que é haver ser?
Como há haver? Que é ser? Que é haver ser?
O horror que haja existir, e como o haja,
Tortura-me até ao abismo que há em mim.
O horror que haja existir, e como o haja,
Tortura-me até ao abismo que há em mim.
1 462
Fernando Pessoa
Monólogo na Noite
Sou a Consciência em Ódio ao inconsciente.
Sou um símbolo encarnado em dor e ódio
Pedaço d’alma de possível Deus
Arremessado para o mundo
Com a saudade pávida da pátria
A cujo horror tremo ao pensar voltar
Mas sem nada da (...) e da ilusão
Para viver neste desterro. Amor,
Paz, amizade, tudo quanto ajuda
A viver a mentira do universo
Falha-me e eu (...)
Ó sistema mentido do universo
Estrelas-nadas, sóis irreais
Oh com que ódio carnal e estonteante
Meu ser de desterrado vos odeia.
Eu sou o inferno. Sou o Cristo negro
Pregado na cruz ígnea de mim mesmo
Sou o saber que ignora;
Sou a insânia da dor e do pensar
Sobre o livro de horror do mundo.
Por que fui eu, amaldiçoado horror
Que me fizeste ser e que eu nem posso
Pensar para te amaldiçoar, ou crer
Em ti, tão cheio do consciente e mensurante
Que o ódio me não cegue para ver
Que não sei que tu és para saber
Se sequer poderei pensar odiar-te.
Sou um símbolo encarnado em dor e ódio
Pedaço d’alma de possível Deus
Arremessado para o mundo
Com a saudade pávida da pátria
A cujo horror tremo ao pensar voltar
Mas sem nada da (...) e da ilusão
Para viver neste desterro. Amor,
Paz, amizade, tudo quanto ajuda
A viver a mentira do universo
Falha-me e eu (...)
Ó sistema mentido do universo
Estrelas-nadas, sóis irreais
Oh com que ódio carnal e estonteante
Meu ser de desterrado vos odeia.
Eu sou o inferno. Sou o Cristo negro
Pregado na cruz ígnea de mim mesmo
Sou o saber que ignora;
Sou a insânia da dor e do pensar
Sobre o livro de horror do mundo.
Por que fui eu, amaldiçoado horror
Que me fizeste ser e que eu nem posso
Pensar para te amaldiçoar, ou crer
Em ti, tão cheio do consciente e mensurante
Que o ódio me não cegue para ver
Que não sei que tu és para saber
Se sequer poderei pensar odiar-te.
1 643
Fernando Pessoa
MY LIFE
I
Duty calls on me; I must fight against
That which 'tis duty unto all to fight.
Therefore, oh, illness of my will that stain'st
My mind - oh, leave me free to seek the right!
Take me from the vile sleep of purpose cold,
Give me an impulse to do good, to make
A struggle for the new against the old
Ere time my useless life away may take.
Keen is my feeling of the suffering
Of men and nations, keen into despair;
But not a will to speak it doth it bring,
Moveless I rest, not like a thing too fair,
But like a stagnant water full of filth,
A bog of will, inactive and alone,
Unopen unto Learning's fresh and tilth
And locked from doing good as men have done.
Pain ever, pain for ever! pain, oh pain!
Pain filling all my life like time or change.
Woe that goes from an inner waking strain
Unto the sleepiness of fears most strange.
Despair and horror, madness lone that feels
Its own too bitter taste until it quails,
The horror of a mind that fails and reels
And knows full well how far it reels and fails.
I sorrow for the past and at the future,
On that which never was I weep and pine,
Upon the things that never were in Nature,
On those that are and never shall be mine.
The sadness of the pleasure that has been,
The sorrow of the pain that once we had,
The ache of that which in dim visions seen
Leaves but an echo to make itself sad.
The knowledge that a dream is nothing more,
The science that our life is less than this:
It passes as it, and the bliss it wore
Was at its best the shadow of a bliss.
I ponder on the fates of men and things,
Thereat my soul grows dark and feeble grows,
To find Thought's body weighing on the wings
Which Fancy opens over fields and snows.
I ponder upon evil and on good
And both in life irrational I see,
One because it exists not, yet it should,
The other since it is and should not be.
Nothing is clear unto me; all is dark,
All is confusion to my Thought's o'er‑much;
Alas for him who thinks in life to work
Having cast far away Convention's crutch.
He finds that Custom, the least thing of all,
Is king and queen and law and creed and faith,
That Custom goes not further than our pall,
That Custom is with us past our own death.
I mourn that there are thrones, prisons and tumbs,
And yet to see all ill I am half glad:
That there are deaths, decays and rots and dooms,
A gladness whose eyes sparkle, because mad.
I weep all times the limits close that must
Deep souls ununderstood in living pen,
But weeping deeply wake to the disgust
That I weep for myself in other men.
My tears are for myself; so that they teach
To know men's ineradicable woe,
What matter what high point of pain they reach?
Haply their birth one day they 'll cease to know.
And that I shall forget this pain of mine
Forget myself - ah, would that it could be!
Forgotten like the drunkard in his wine
Or like the pauper in his misery.
'Twere madness, but sweet madness, better than
The waking, fully living consciousness
That unto a full unity doth span
The many woes and throes of my distress.
'Twere madness but 'twere better than to know
That evil is the source of life and thought,
For to feel madness is the greatest woe
That upon human consciousness is wrought.
To feel excluded, miserable, lone,
A leper deep at heart, having for sore
His being, is a misery past moan
'Tis better all to have and to ignore.
'Tis better? - nay, who knows? the mystery
Of consciousness and knowledge who can find?
In madness and in thought what things may be?
How far is horror deep within the mind?
II
This is my life; what will the future be?
With horror I grow sick past sighs and tears,
To think how life is torture unto me,
How Thought is father of strange cares and fears.
Yesterday one spoke to me of my youth.
Youth? Life? Twelve years I had of happiness;
The seven since then have been without ruth -
Twelve years of sleep and seven of distress.
Time, I grow sick of thee! Sounds, motions, things,
I feel a tiredness before your eyes...
Give me, oh Dream of mine! thy purest wings
That I may take from solitude my cries,
That I may seek the Heaven of this life -
Death, mother of hall things that seem to be.
Die thus the hand that could not serve for strife,
The brain that strained and toiled with misery!
III
Life - what is Life? Death - what is Death? My brain
Feels as I think on this, as one that reads
Far into dusk lifts up his eyes with pain,
Aching and dim; and my heart slowly bleeds.
IV
To work? I cannot. To be gay? I've lost
Long, long ago all laughter save a base
Mirth where Despair with Apathy incrust,
That has the scent of rots and of decays.
To do good? all desire tends unto it
But al1 my will is feeble before all:
I am become a bult for my Thought's wit
Which is no wit but Consciousness all gall.
And what avails it e'er to toil or trouble,
To make my torture of my life and thought?
Is not all life the slander‑fair soap‑bubble
That by a child in empty mind is wrought?
And what avails all verse, all art and song,
All that doth make a body for itself?
My heart is keen to feel al1 human wrong,
I careless, as one born to ease and pelf.
And what avails it ever to grow pale
Over the mute and endless lore of old
Until the wearied senses strain and fail
And the worn heart is passionless and cold?
Avails it anything? It avails not.
Let me sleep then: give me a grave for bed
In the earth's heart where I not life nor thought
But rottenness and peace my have instead.
Duty calls on me; I must fight against
That which 'tis duty unto all to fight.
Therefore, oh, illness of my will that stain'st
My mind - oh, leave me free to seek the right!
Take me from the vile sleep of purpose cold,
Give me an impulse to do good, to make
A struggle for the new against the old
Ere time my useless life away may take.
Keen is my feeling of the suffering
Of men and nations, keen into despair;
But not a will to speak it doth it bring,
Moveless I rest, not like a thing too fair,
But like a stagnant water full of filth,
A bog of will, inactive and alone,
Unopen unto Learning's fresh and tilth
And locked from doing good as men have done.
Pain ever, pain for ever! pain, oh pain!
Pain filling all my life like time or change.
Woe that goes from an inner waking strain
Unto the sleepiness of fears most strange.
Despair and horror, madness lone that feels
Its own too bitter taste until it quails,
The horror of a mind that fails and reels
And knows full well how far it reels and fails.
I sorrow for the past and at the future,
On that which never was I weep and pine,
Upon the things that never were in Nature,
On those that are and never shall be mine.
The sadness of the pleasure that has been,
The sorrow of the pain that once we had,
The ache of that which in dim visions seen
Leaves but an echo to make itself sad.
The knowledge that a dream is nothing more,
The science that our life is less than this:
It passes as it, and the bliss it wore
Was at its best the shadow of a bliss.
I ponder on the fates of men and things,
Thereat my soul grows dark and feeble grows,
To find Thought's body weighing on the wings
Which Fancy opens over fields and snows.
I ponder upon evil and on good
And both in life irrational I see,
One because it exists not, yet it should,
The other since it is and should not be.
Nothing is clear unto me; all is dark,
All is confusion to my Thought's o'er‑much;
Alas for him who thinks in life to work
Having cast far away Convention's crutch.
He finds that Custom, the least thing of all,
Is king and queen and law and creed and faith,
That Custom goes not further than our pall,
That Custom is with us past our own death.
I mourn that there are thrones, prisons and tumbs,
And yet to see all ill I am half glad:
That there are deaths, decays and rots and dooms,
A gladness whose eyes sparkle, because mad.
I weep all times the limits close that must
Deep souls ununderstood in living pen,
But weeping deeply wake to the disgust
That I weep for myself in other men.
My tears are for myself; so that they teach
To know men's ineradicable woe,
What matter what high point of pain they reach?
Haply their birth one day they 'll cease to know.
And that I shall forget this pain of mine
Forget myself - ah, would that it could be!
Forgotten like the drunkard in his wine
Or like the pauper in his misery.
'Twere madness, but sweet madness, better than
The waking, fully living consciousness
That unto a full unity doth span
The many woes and throes of my distress.
'Twere madness but 'twere better than to know
That evil is the source of life and thought,
For to feel madness is the greatest woe
That upon human consciousness is wrought.
To feel excluded, miserable, lone,
A leper deep at heart, having for sore
His being, is a misery past moan
'Tis better all to have and to ignore.
'Tis better? - nay, who knows? the mystery
Of consciousness and knowledge who can find?
In madness and in thought what things may be?
How far is horror deep within the mind?
II
This is my life; what will the future be?
With horror I grow sick past sighs and tears,
To think how life is torture unto me,
How Thought is father of strange cares and fears.
Yesterday one spoke to me of my youth.
Youth? Life? Twelve years I had of happiness;
The seven since then have been without ruth -
Twelve years of sleep and seven of distress.
Time, I grow sick of thee! Sounds, motions, things,
I feel a tiredness before your eyes...
Give me, oh Dream of mine! thy purest wings
That I may take from solitude my cries,
That I may seek the Heaven of this life -
Death, mother of hall things that seem to be.
Die thus the hand that could not serve for strife,
The brain that strained and toiled with misery!
III
Life - what is Life? Death - what is Death? My brain
Feels as I think on this, as one that reads
Far into dusk lifts up his eyes with pain,
Aching and dim; and my heart slowly bleeds.
IV
To work? I cannot. To be gay? I've lost
Long, long ago all laughter save a base
Mirth where Despair with Apathy incrust,
That has the scent of rots and of decays.
To do good? all desire tends unto it
But al1 my will is feeble before all:
I am become a bult for my Thought's wit
Which is no wit but Consciousness all gall.
And what avails it e'er to toil or trouble,
To make my torture of my life and thought?
Is not all life the slander‑fair soap‑bubble
That by a child in empty mind is wrought?
And what avails all verse, all art and song,
All that doth make a body for itself?
My heart is keen to feel al1 human wrong,
I careless, as one born to ease and pelf.
And what avails it ever to grow pale
Over the mute and endless lore of old
Until the wearied senses strain and fail
And the worn heart is passionless and cold?
Avails it anything? It avails not.
Let me sleep then: give me a grave for bed
In the earth's heart where I not life nor thought
But rottenness and peace my have instead.
1 683
Fernando Pessoa
E o sentimento de que a vida passa
E o sentimento de que a vida passa
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
1 429
Fernando Pessoa
O horror sórdido do que, a sós consigo,
Estou tonto,
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar,
Ou de ambas as coisas.
O que sei é que estou tonto
E não sei bem se me devo levantar da cadeira
Ou como me levantaria dela.
Fiquemos nisto: estou tonto.
Afinal
Que vida fiz eu da vida?
Nada.
Tudo interstícios,
Tudo aproximações,
Tudo função do irregular e do absurdo,
Tudo nada...
É por isso que estou tonto...
Agora
Todas as manhãs me levanto
Tonto...
Sim, verdadeiramente tonto...
Sem saber em mim o meu nome,
Sem saber onde estou,
Sem saber o que fui,
Sem saber nada.
Mas se isto é assim é assim.
Deixo-me estar na cadeira.
Estou tonto.
Bem, estou tonto.
Fico sentado
E tonto,
Sim, tonto,
Tonto...
Tonto...
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar,
Ou de ambas as coisas.
O que sei é que estou tonto
E não sei bem se me devo levantar da cadeira
Ou como me levantaria dela.
Fiquemos nisto: estou tonto.
Afinal
Que vida fiz eu da vida?
Nada.
Tudo interstícios,
Tudo aproximações,
Tudo função do irregular e do absurdo,
Tudo nada...
É por isso que estou tonto...
Agora
Todas as manhãs me levanto
Tonto...
Sim, verdadeiramente tonto...
Sem saber em mim o meu nome,
Sem saber onde estou,
Sem saber o que fui,
Sem saber nada.
Mas se isto é assim é assim.
Deixo-me estar na cadeira.
Estou tonto.
Bem, estou tonto.
Fico sentado
E tonto,
Sim, tonto,
Tonto...
Tonto...
1 595
Fernando Pessoa
Sentir tudo de todas as maneiras,
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma ideia abstracta,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de carácter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante num abraço comovido
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E...
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, o sombra que espera nas vielas —
Todos são a minha amante predilecta pelo menos um momento na vida.
Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos,
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é razão de ser da minha vida.
Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vício,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).
Multipliquei-me para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me entreguei-me.
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.
Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gestos e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas — absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!
(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingindo e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim, os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fizésseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, ó meu subjectivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!)
Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo rumorejam-se dentro de mim...
Meu coração tribunal, meu coração mercado, meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria, estalagem, calabouço número qualquer coisa,
(«Aqui estuvo ei Manolo en visperas de ir al patibulo»)
Meu coração club, sala, plateia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o limite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.
Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.
Todas as auroras raiam no mesmo lugar:
Infinito...
Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta,
Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore,
E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar
Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...
Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra,
Rola, auroreada, entardecida, a prumo sobre sóis, nocturna,
Rola no espaço abstracto, na noite mal iluminada realmente
Rola e (...)
Sinto na minha cabeça a velocidade do giro da terra,
E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,
Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros
Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,
Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,
Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstracto,
Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas,
A Meta invisível todos os pontos onde eu não estou, e ao mesmo tempo
(...)
Ah, não estar parado nem a andar,
Não estar deitado nem de pé,
Nem acordado nem a dormir,
Nem aqui nem noutro ponto qualquer,
Resolver a equação desta inquietação prolixa,
Saber onde estar para poder estar em toda a parte,
Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas,
Saber onde (...)
Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho
HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO
HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO
HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO
Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,
Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,
Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas...
Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques,
Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,
Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias,
Numa velocidade crescente, insistente, violenta,
Hup-la hup-la hup-la hup-la......
Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas,
Cavalgada energética por dentro de todas as energias,
Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde
De todos os consumos de energia
Cavalgada de mil amperes, [...]
Cavalgada explosiva, explodida como uma bomba que rebenta
Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo,
Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo,
Galga, cavalo electrão — ião —, sistema solar resumido
Por dentro da acção dos êmbolos, por fora do giro dos volantes.
Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstracta e louca,
Ajo a ferro e velocidade, vai-vem, loucura, raiva contida,
Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas,
E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.
Ho-ho-ho-ho-ho...
Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo
Adiante da própria ideia veloz do corpo projectado,
Com espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa,
He-la-ho-ho... Helahoho.
Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo...
A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe
As rodas da locomotiva, as rodas do eléctrico, os volantes dos Diesel,
E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.
Raiva panteísta de sentir em mim formidandamente,
Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo,
Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha
De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca...
Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho
HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO
HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO
HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO
Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo!
Ave. salve, viva a igualdade de tudo em seta!
Ave, salve, viva a grande máquina universo!
Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis,
Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, ideias abstractas,
A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna,
A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso,
O resto, o estático resto que fica nos olhos que param,
Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves,
Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem,
Nos meus nervos locomotiva, carro-eléctrico, automóvel, debulhadora a vapor,
Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel, Campbell,
Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a electricidade,
Máquina universal movida por correias de todos os momentos!
Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!
Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!
Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te
Por todos os precipícios abaixo
E choca-te, trz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!
À moi, todos os objectos projécteis!
À moi, todos os objectos direcções!
À moi, todos os objectos invisíveis de velozes!
Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me!
Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!
A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!
Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,
Velocidade entra por todas as ideias dentro,
Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,
Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,
Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,
Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado
Os corpos de todas as filosofias, os trapos de todos os poemas,
Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstracto nos ares,
Senhor supremo da hora europeia metálico e cio.
Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!
Vamos que mesmo eu fique atrás da cavalgada, que eu fique
Arrastado à cauda do cavalo, torcido, rasgado, perdido
Em queda, meu corpo e minha alma atrás da minha ânsia abstracta
Da minha ânsia vertiginosa de ultrapassar o universo,
De deixar Deus atrás como um marco miliário nulo,
De deixar o m(...)
Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói.
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstracta,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir...
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou,
(...)
Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,
Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,
Cavalgada voo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,
Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo-eu.
Helahoho-o-o-o-o-o-o-o...
Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação...
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma ideia abstracta,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de carácter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante num abraço comovido
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E...
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, o sombra que espera nas vielas —
Todos são a minha amante predilecta pelo menos um momento na vida.
Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos,
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é razão de ser da minha vida.
Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vício,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).
Multipliquei-me para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me entreguei-me.
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.
Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gestos e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas — absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!
(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingindo e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim, os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fizésseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, ó meu subjectivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!)
Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo rumorejam-se dentro de mim...
Meu coração tribunal, meu coração mercado, meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria, estalagem, calabouço número qualquer coisa,
(«Aqui estuvo ei Manolo en visperas de ir al patibulo»)
Meu coração club, sala, plateia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o limite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.
Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.
Todas as auroras raiam no mesmo lugar:
Infinito...
Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta,
Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore,
E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar
Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...
Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra,
Rola, auroreada, entardecida, a prumo sobre sóis, nocturna,
Rola no espaço abstracto, na noite mal iluminada realmente
Rola e (...)
Sinto na minha cabeça a velocidade do giro da terra,
E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,
Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros
Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,
Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,
Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstracto,
Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas,
A Meta invisível todos os pontos onde eu não estou, e ao mesmo tempo
(...)
Ah, não estar parado nem a andar,
Não estar deitado nem de pé,
Nem acordado nem a dormir,
Nem aqui nem noutro ponto qualquer,
Resolver a equação desta inquietação prolixa,
Saber onde estar para poder estar em toda a parte,
Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas,
Saber onde (...)
Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho
HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO
HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO
HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO
Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,
Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,
Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas...
Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques,
Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,
Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias,
Numa velocidade crescente, insistente, violenta,
Hup-la hup-la hup-la hup-la......
Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas,
Cavalgada energética por dentro de todas as energias,
Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde
De todos os consumos de energia
Cavalgada de mil amperes, [...]
Cavalgada explosiva, explodida como uma bomba que rebenta
Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo,
Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo,
Galga, cavalo electrão — ião —, sistema solar resumido
Por dentro da acção dos êmbolos, por fora do giro dos volantes.
Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstracta e louca,
Ajo a ferro e velocidade, vai-vem, loucura, raiva contida,
Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas,
E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.
Ho-ho-ho-ho-ho...
Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo
Adiante da própria ideia veloz do corpo projectado,
Com espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa,
He-la-ho-ho... Helahoho.
Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo...
A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe
As rodas da locomotiva, as rodas do eléctrico, os volantes dos Diesel,
E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.
Raiva panteísta de sentir em mim formidandamente,
Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo,
Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha
De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca...
Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho
HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO
HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO
HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO
Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo!
Ave. salve, viva a igualdade de tudo em seta!
Ave, salve, viva a grande máquina universo!
Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis,
Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, ideias abstractas,
A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna,
A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso,
O resto, o estático resto que fica nos olhos que param,
Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves,
Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem,
Nos meus nervos locomotiva, carro-eléctrico, automóvel, debulhadora a vapor,
Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel, Campbell,
Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a electricidade,
Máquina universal movida por correias de todos os momentos!
Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!
Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!
Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te
Por todos os precipícios abaixo
E choca-te, trz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!
À moi, todos os objectos projécteis!
À moi, todos os objectos direcções!
À moi, todos os objectos invisíveis de velozes!
Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me!
Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!
A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!
Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,
Velocidade entra por todas as ideias dentro,
Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,
Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,
Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,
Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado
Os corpos de todas as filosofias, os trapos de todos os poemas,
Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstracto nos ares,
Senhor supremo da hora europeia metálico e cio.
Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!
Vamos que mesmo eu fique atrás da cavalgada, que eu fique
Arrastado à cauda do cavalo, torcido, rasgado, perdido
Em queda, meu corpo e minha alma atrás da minha ânsia abstracta
Da minha ânsia vertiginosa de ultrapassar o universo,
De deixar Deus atrás como um marco miliário nulo,
De deixar o m(...)
Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói.
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstracta,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir...
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou,
(...)
Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,
Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,
Cavalgada voo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,
Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo-eu.
Helahoho-o-o-o-o-o-o-o...
Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação...
1 540
Fernando Pessoa
Não é o vício
Não é o vício
Nem a experiência que desflora a alma:
É só o pensamento. Há inocência
Em Nero mesmo e em Tibério louco
Porque há inconsciência. Só pensar
Desflora até ao íntimo do ser.
Este perpétuo analisar de tudo,
Este buscar duma nudez suprema
Raciocinada coerentemente,
É que tira a inocência verdadeira
Pela suprema consciência funda
De si, do mundo, de todos. Guarde, guarde
Fora do vício e do vil mundo além
Em gruta ou solidão o eremita;
Se o pensamento vir tudo
(...)
Pensar, pensar e não poder viver!
Pensar, sempre pensar, perenemente,
Sem poder ter mão nele! Ah eu sorrio
Quando às vezes eu noto o inconsciente
Riso vazio do bandido,
Rindo-se da inocência! Se ele soubesse
O que é perder a inocência toda...
Não a inocência vã do corpo ao olhar,
Ou vulgar e banal conhecimento,
Mas a inocência bela do viver;
De sentir — seja mesmo como ele
Esse (...) escravo do deboche-seja!
Sentir um sentir que abertamente
Se não ache vazio.
O Tédio! O Tédio quem me dera Tê-lo!
Se os (...)
Soubessem o que eu sinto. Eles não pensam
E eu... e eu...
Nem a experiência que desflora a alma:
É só o pensamento. Há inocência
Em Nero mesmo e em Tibério louco
Porque há inconsciência. Só pensar
Desflora até ao íntimo do ser.
Este perpétuo analisar de tudo,
Este buscar duma nudez suprema
Raciocinada coerentemente,
É que tira a inocência verdadeira
Pela suprema consciência funda
De si, do mundo, de todos. Guarde, guarde
Fora do vício e do vil mundo além
Em gruta ou solidão o eremita;
Se o pensamento vir tudo
(...)
Pensar, pensar e não poder viver!
Pensar, sempre pensar, perenemente,
Sem poder ter mão nele! Ah eu sorrio
Quando às vezes eu noto o inconsciente
Riso vazio do bandido,
Rindo-se da inocência! Se ele soubesse
O que é perder a inocência toda...
Não a inocência vã do corpo ao olhar,
Ou vulgar e banal conhecimento,
Mas a inocência bela do viver;
De sentir — seja mesmo como ele
Esse (...) escravo do deboche-seja!
Sentir um sentir que abertamente
Se não ache vazio.
O Tédio! O Tédio quem me dera Tê-lo!
Se os (...)
Soubessem o que eu sinto. Eles não pensam
E eu... e eu...
1 502
Fernando Pessoa
Agora que estou quase na morte e vejo tudo já claro,
Agora que estou quase na morte e vejo tudo já claro,
Grande Libertador, volto submisso a ti.
Sem dúvida teve um fim a minha personalidade.
Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa
Mas hoje, olhando pra trás, só uma ânsia me fica —
Não ter tido a tua calma superior a ti-próprio,
A tua libertação constelada de Noite Infinita.
Não tive talvez missão alguma na terra,
Grande Libertador, volto submisso a ti.
Sem dúvida teve um fim a minha personalidade.
Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa
Mas hoje, olhando pra trás, só uma ânsia me fica —
Não ter tido a tua calma superior a ti-próprio,
A tua libertação constelada de Noite Infinita.
Não tive talvez missão alguma na terra,
1 309
Fernando Pessoa
O resto da minha alma anda disperso
O resto da minha alma anda disperso
Pelos gritos e a luz desta oca orgia
Em estilhaços de conciência, ocupo
O (...) a mim (...)
Pelos gritos e a luz desta oca orgia
Em estilhaços de conciência, ocupo
O (...) a mim (...)
1 430
Fernando Pessoa
15a Estas quatro canções, escrevi-as estando doente.
[XVa]
Estas quatro canções, escrevi-as estando doente.
Agora ficaram escritas e não penso mais nelas.
Gozemos, se pudermos, a nossa doença,
Mas nunca a achemos saúde,
Como os homens fazem.
O defeito dos homens não é serem doentes:
É chamarem saúde à sua doença,
E por isso não buscarem a cura
Nem realmente saberem o que é saúde e doença.
Estas quatro canções, escrevi-as estando doente.
Agora ficaram escritas e não penso mais nelas.
Gozemos, se pudermos, a nossa doença,
Mas nunca a achemos saúde,
Como os homens fazem.
O defeito dos homens não é serem doentes:
É chamarem saúde à sua doença,
E por isso não buscarem a cura
Nem realmente saberem o que é saúde e doença.
1 415
Fernando Pessoa
III - A VOZ DE DEUS
III
A VOZ DE DEUS
Brilha uma voz na noite...
De dentro de Fora ouvi-a...
Oh Universo, eu sou‑te...
Oh, o horror da alegria
Deste pavor, do archote
Se apagar, que me guia!
Cinzas de ideia e de nome
Em mim, e a voz: Oh mundo, Sermente em ti eu sou-me...
Mero eco de mim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que para Deus me afundo.
A VOZ DE DEUS
Brilha uma voz na noite...
De dentro de Fora ouvi-a...
Oh Universo, eu sou‑te...
Oh, o horror da alegria
Deste pavor, do archote
Se apagar, que me guia!
Cinzas de ideia e de nome
Em mim, e a voz: Oh mundo, Sermente em ti eu sou-me...
Mero eco de mim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que para Deus me afundo.
1 328
Fernando Pessoa
Tudo é mistério e o mistério é tudo.
Tudo é mais que ilusão; o próprio sonho
Do universo transcende-se a si mesmo
E a compreensão, ao penetrar
Escuramente a essência da ilusão,
Fica sempre aquém mesmo do ver bem
O quanto tudo é ilusão o sonho,
E quanto o próprio pensamento fundo
Se ilude na desilusão falaz
E no desiludir-se dele mesmo.
Do universo transcende-se a si mesmo
E a compreensão, ao penetrar
Escuramente a essência da ilusão,
Fica sempre aquém mesmo do ver bem
O quanto tudo é ilusão o sonho,
E quanto o próprio pensamento fundo
Se ilude na desilusão falaz
E no desiludir-se dele mesmo.
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Fernando Pessoa
A Consciência de existir, a raiz
A Consciência de existir, a raiz
Do ilimitado, omnímodo mistério
Que tem tronco de Ser, folhas de vida
Flores de sentimento e sofrimento
E frutos do pensar, podres depressa.
A Consciência de existir, tormento
Primeiro e último do raciocínio
Que, porém, filho dela, a não atinge.
A Consciência de existir me esmaga
Com todo o seu mistério e a sua força
De compreendida incompreensão profunda,
Irreparavelmente circunscrita.
Do ilimitado, omnímodo mistério
Que tem tronco de Ser, folhas de vida
Flores de sentimento e sofrimento
E frutos do pensar, podres depressa.
A Consciência de existir, tormento
Primeiro e último do raciocínio
Que, porém, filho dela, a não atinge.
A Consciência de existir me esmaga
Com todo o seu mistério e a sua força
De compreendida incompreensão profunda,
Irreparavelmente circunscrita.
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