Poemas neste tema
Criatividade e Inspiração
António Ramos Rosa
50. o Claro Rumor Do
50
O claro rumor do
anúncio de altitude a forma
do fragmento (de)
Que a mão repercutindo
a mão e a mão de
novo ilumine o espaço deste espaço.
Que terra em terra da palavra
fragmente o frio o bloco
branco
e a forma seja a mão da forma.
O claro rumor do
anúncio de altitude a forma
do fragmento (de)
Que a mão repercutindo
a mão e a mão de
novo ilumine o espaço deste espaço.
Que terra em terra da palavra
fragmente o frio o bloco
branco
e a forma seja a mão da forma.
977
António Ramos Rosa
61. Um Desafio Não Sei de Que Cor: Vermelha?
61
Um desafio não sei de que cor: vermelha?
Uma duplicidade, um mecanismo, um labirinto.
Mas serão menos palavras e mais espaço
que gravarão a pobreza na sua essência branca.
Escrever aqui a pedra do limiar do mar
e cavalo e logo o prumo e a nuvem límpida,
a verosímil textura, o tegumento negro,
palavras e palavras — consagração do espaço?
Sem o pai ordenador,
o arbitrário, ou acaso, ou o pudor,
outro pudor que nasce no deserto habitado
frutifica em palavras elementares quase.
Um desafio não sei de que cor: vermelha?
Uma duplicidade, um mecanismo, um labirinto.
Mas serão menos palavras e mais espaço
que gravarão a pobreza na sua essência branca.
Escrever aqui a pedra do limiar do mar
e cavalo e logo o prumo e a nuvem límpida,
a verosímil textura, o tegumento negro,
palavras e palavras — consagração do espaço?
Sem o pai ordenador,
o arbitrário, ou acaso, ou o pudor,
outro pudor que nasce no deserto habitado
frutifica em palavras elementares quase.
511
António Ramos Rosa
84. a Incerteza E a Certeza Dessa Escrita
84
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha chamamento
dilacerante e no entanto mudo.
E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras
caídas e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha chamamento
dilacerante e no entanto mudo.
E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras
caídas e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
1 009
António Ramos Rosa
15. Animado o Poeta Desce
15
Animado o poeta desce
a horizontal escada
para o encontro da lâmpada animal.
Desce até à terra humedecida
buscando a pobreza de uma lâmpada
roxa
sobre uma perna soberba ali perdida.
Desce
até que desce na pobreza
da face de folhagem negra
aranha negra sobre aquela perna
do corpo glorioso.
Animado o poeta desce
a horizontal escada
para o encontro da lâmpada animal.
Desce até à terra humedecida
buscando a pobreza de uma lâmpada
roxa
sobre uma perna soberba ali perdida.
Desce
até que desce na pobreza
da face de folhagem negra
aranha negra sobre aquela perna
do corpo glorioso.
1 122
António Ramos Rosa
10. Rosto Enraizado Na Palavra
10
Rosto enraizado na palavra
neste espaço de nula vocação
mas quase o grito gritando o grito.
Nesta folha neste instante de jardim
sobre este banco ou esta pedra
ó terra no silêncio da folhagem!
Isto que foi, seria no não-não ser
ou aqui
neste jardim do não impuro
ó pobreza da água desta mão!
Rosto enraizado na palavra
neste espaço de nula vocação
mas quase o grito gritando o grito.
Nesta folha neste instante de jardim
sobre este banco ou esta pedra
ó terra no silêncio da folhagem!
Isto que foi, seria no não-não ser
ou aqui
neste jardim do não impuro
ó pobreza da água desta mão!
1 140
António Ramos Rosa
29. o Lápis — Esta É a Escrita do Lápis
29
O lápis — esta é a escrita do lápis
que escreve a tortura lapidar
os ossos na neve os nervos lapidares.
Quem negará a pobreza desta escrita
que busca a pobreza essencial
a terra nunca vista e vista
sempre na cegueira essencial de sempre.
Direi diremos o que dissermos nunca
o nunca do nunca a brancura do deserto
o lápis aqui aqui sem água e nus.
O lápis — esta é a escrita do lápis
que escreve a tortura lapidar
os ossos na neve os nervos lapidares.
Quem negará a pobreza desta escrita
que busca a pobreza essencial
a terra nunca vista e vista
sempre na cegueira essencial de sempre.
Direi diremos o que dissermos nunca
o nunca do nunca a brancura do deserto
o lápis aqui aqui sem água e nus.
1 006
António Ramos Rosa
8. E Boca Ou Acidente de Palavra
8
E boca ou acidente de palavra
aspecto de estrutura
ou ideia de rosa ou de cavalo.
Nome do seio sob
a renda de areia ou
arbusto de ser inanimado
na luz harmoniosa.
Animal ou palavra animal
e árvore ou ideia seio de água
única da sede inicial.
E boca ou acidente de palavra
aspecto de estrutura
ou ideia de rosa ou de cavalo.
Nome do seio sob
a renda de areia ou
arbusto de ser inanimado
na luz harmoniosa.
Animal ou palavra animal
e árvore ou ideia seio de água
única da sede inicial.
1 079
António Ramos Rosa
18. Esculpida Pelas Duas Mãos Amigas
18
Esculpida pelas duas mãos amigas
dividida pela sombra ferida
pela aranha de palavra cúmplice.
Palavra e lâmpada do nome
perdido quando
a terra era sem fome
amêndoa esculpida pela lucidez dos olhos.
Nome do não que iniciou o sim
sob o arbusto esculpido
na estrutura do ser antes da forma aberta.
Esculpida pelas duas mãos amigas
dividida pela sombra ferida
pela aranha de palavra cúmplice.
Palavra e lâmpada do nome
perdido quando
a terra era sem fome
amêndoa esculpida pela lucidez dos olhos.
Nome do não que iniciou o sim
sob o arbusto esculpido
na estrutura do ser antes da forma aberta.
1 001
António Ramos Rosa
12. Por Ela, o Qual: Por Ela
12
Por ela, o qual: por ela
a iluminada lâmina cortando
o papel sobre a figura impura.
Nó límpido no desnudar da face
não exemplo na erva do seu ventre
no extremo lá da extrema árvore
no ribeiro gracioso ou na torrente.
Por ele: ali: por ela
cortado o papel cortada a sombra
fica o recorte da figura dele.
Por ela, o qual: por ela
a iluminada lâmina cortando
o papel sobre a figura impura.
Nó límpido no desnudar da face
não exemplo na erva do seu ventre
no extremo lá da extrema árvore
no ribeiro gracioso ou na torrente.
Por ele: ali: por ela
cortado o papel cortada a sombra
fica o recorte da figura dele.
1 094
António Ramos Rosa
O Personagem É Uma Travessia Intensa
O personagem é uma travessia intensa.
Mas imperscrutável
o seu rosto,
não secreto mas aberto e vago.
A cor dos olhos, por exemplo?
Castanhos, azuis?
Só depende
de uma arbitrária palavra.
Quem o decide agora diz são verdes.
E ei-los visíveis,
ei-los transparentes.
Mas imperscrutável
o seu rosto,
não secreto mas aberto e vago.
A cor dos olhos, por exemplo?
Castanhos, azuis?
Só depende
de uma arbitrária palavra.
Quem o decide agora diz são verdes.
E ei-los visíveis,
ei-los transparentes.
1 036
António Ramos Rosa
Aqui o Fogo Verde
Aqui o fogo verde
da imagem
entre a anca e a face
a turva
forma
que não atinge ainda a folha clara
Não escuto Nem sei nesta folhagem
qual o rosto É incerto
este trabalho num buraco
como um insecto
sem delicadas forças sem o jacto
que estilhace o vidro e abra a pedra
Mas trabalho estes sinais
de ausência
e de tremor na pedra do vazio
Tenho o silêncio do campo a meu favor
tenho várias pedras vários odores
Construo os meus sulcos
avanço com o alento
atento ao silêncio e ao ardor
Chegarei a formar um rosto
nesta folha
árida?
da imagem
entre a anca e a face
a turva
forma
que não atinge ainda a folha clara
Não escuto Nem sei nesta folhagem
qual o rosto É incerto
este trabalho num buraco
como um insecto
sem delicadas forças sem o jacto
que estilhace o vidro e abra a pedra
Mas trabalho estes sinais
de ausência
e de tremor na pedra do vazio
Tenho o silêncio do campo a meu favor
tenho várias pedras vários odores
Construo os meus sulcos
avanço com o alento
atento ao silêncio e ao ardor
Chegarei a formar um rosto
nesta folha
árida?
932
António Ramos Rosa
O Momento De
Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.
Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?
Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.
Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?
Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
1 173
António Ramos Rosa
Daqui Deste Deserto Em Que Persisto
Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
1 209
António Ramos Rosa
Escrever
Escrever para
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar
Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte
Escrever E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar
Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte
Escrever E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
615
António Ramos Rosa
A Ordem É Uma Sombra Noutra Sombra
A ordem é uma sombra noutra sombra
que movimenta as páginas e os membros.
A face é de papel, de olhar oblíquo.
O sol congelou-se. A solidão.
A mão inventa então outro calor
da página. Onde a quietude
seja outro sol na sombra de um só dia.
É este o fumo, o som, a cor, a terra.
É este o todo das palavras todas
renascidas da sede: nada e nada.
Palavras sem as torres, mas desastres
de um planeta esquecido agora surto.
E assim se ordena em sombra o personagem.
Não lhe perguntem nada, pois ele é a pergunta
de todas a mais una, a mais ardente.
que movimenta as páginas e os membros.
A face é de papel, de olhar oblíquo.
O sol congelou-se. A solidão.
A mão inventa então outro calor
da página. Onde a quietude
seja outro sol na sombra de um só dia.
É este o fumo, o som, a cor, a terra.
É este o todo das palavras todas
renascidas da sede: nada e nada.
Palavras sem as torres, mas desastres
de um planeta esquecido agora surto.
E assim se ordena em sombra o personagem.
Não lhe perguntem nada, pois ele é a pergunta
de todas a mais una, a mais ardente.
933
António Ramos Rosa
O Personagem Não Existe Sem Paisagem
O personagem não existe sem paisagem.
O personagem é imponderável.
Uma conjectura, uma pergunta:
Sem um guarda-chuva e sem um rosto.
E todavia, como não
vê-lo?
Mais do que um vulto
a figura se desenha entre as palavras.
Talvez respire e ouse
e o Tempo o Espaço o configurem.
Talvez empunhe enfim o guarda-chuva.
O personagem é imponderável.
Uma conjectura, uma pergunta:
Sem um guarda-chuva e sem um rosto.
E todavia, como não
vê-lo?
Mais do que um vulto
a figura se desenha entre as palavras.
Talvez respire e ouse
e o Tempo o Espaço o configurem.
Talvez empunhe enfim o guarda-chuva.
1 050
António Ramos Rosa
Pulsações da Terra
o gérmen na página o puro
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
1 122
António Ramos Rosa
O Personagem Viola As Leis da Tarde
O personagem viola as leis da tarde
e é ele a tarde mesma, o seu desvio.
As andorinhas morrem. Ele revive
na paixão da palavra: a andorinha.
Não se eleva jamais do rasto frio
que tem o dia. Mas junta-lhe outro fio
e outro calor que é a cor de outras palavras,
cores da cor, numa unidade múltipla.
Surge o jornal do dia azul e verde,
surge a glória de um sol na cabeleira
da rapariga à esquina, zebra alta,
gozo do dia e rapidez do vento.
e é ele a tarde mesma, o seu desvio.
As andorinhas morrem. Ele revive
na paixão da palavra: a andorinha.
Não se eleva jamais do rasto frio
que tem o dia. Mas junta-lhe outro fio
e outro calor que é a cor de outras palavras,
cores da cor, numa unidade múltipla.
Surge o jornal do dia azul e verde,
surge a glória de um sol na cabeleira
da rapariga à esquina, zebra alta,
gozo do dia e rapidez do vento.
702
António Ramos Rosa
Não É o Meu Amigo Ou Semelhante,
Não é o meu amigo ou semelhante,
não é mais que um projecto, uma passagem.
Ele marca-me com a sua ausência
e todavia
ele é a evidência do processo.
Se o encontrasse, não, não o encontraria.
E ele diz-me bom-dia agora mesmo.
Por ironia? Não. Porque se escreve
sob
o obscuro impulso
que o transforma
nas palavras mesmas com que o vejo.
não é mais que um projecto, uma passagem.
Ele marca-me com a sua ausência
e todavia
ele é a evidência do processo.
Se o encontrasse, não, não o encontraria.
E ele diz-me bom-dia agora mesmo.
Por ironia? Não. Porque se escreve
sob
o obscuro impulso
que o transforma
nas palavras mesmas com que o vejo.
535
António Ramos Rosa
Em Abandono Límpido Tocar
Em abandono límpido tocar
a margem ou centro sob o sol
no perfeito e inacabado arco
do poema
em delírio de um avanço no silêncio
incorporar o escuro sopro de uma sombra
percurso lúcido e essencial de uma palavra
até ao limite intransponível
até ao hálito inicial
de uma boca
de terra e ar
fresca do silêncio no avanço
de um espaço branco e negro
margem e centro terra sempre
no fundo a secreta praia lisa
talvez o incessante respirar
a margem ou centro sob o sol
no perfeito e inacabado arco
do poema
em delírio de um avanço no silêncio
incorporar o escuro sopro de uma sombra
percurso lúcido e essencial de uma palavra
até ao limite intransponível
até ao hálito inicial
de uma boca
de terra e ar
fresca do silêncio no avanço
de um espaço branco e negro
margem e centro terra sempre
no fundo a secreta praia lisa
talvez o incessante respirar
1 008
António Ramos Rosa
Ponto — Traço
Um ponto negro — um traço
na planície branca
e uma pergunta no silêncio
resolve-se na luz
de uma outra folha inatingível
nudez de evidência ou
de um equilíbrio súbito suspenso
de um contorno novo
uma prosa branca
o desvio de um sulco
ou haste
perpendicular à lentidão do curso
o nome que ascende e principia o fluxo
que não cessa aqui
na planície branca
e uma pergunta no silêncio
resolve-se na luz
de uma outra folha inatingível
nudez de evidência ou
de um equilíbrio súbito suspenso
de um contorno novo
uma prosa branca
o desvio de um sulco
ou haste
perpendicular à lentidão do curso
o nome que ascende e principia o fluxo
que não cessa aqui
1 041
António Ramos Rosa
No Imediato Descobrir do Ar
No imediato descobrir do ar
como uma estaca vibrante
com a brancura como único suporte
de uma palavra que seja ainda o ar
antes do depois ainda já
num bloco que sabe o não saber de estar
num avanço na folha do silêncio
para estar
como uma estaca vibrando
no ar
como uma estaca vibrante
com a brancura como único suporte
de uma palavra que seja ainda o ar
antes do depois ainda já
num bloco que sabe o não saber de estar
num avanço na folha do silêncio
para estar
como uma estaca vibrando
no ar
1 046
António Ramos Rosa
3. Para o Incêndio da Festa
Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue
O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar
Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue
Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa
Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia
Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa
Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa
E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa
Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza
Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?
Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste
Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa
Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue
O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar
Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue
Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa
Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia
Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa
Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa
E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa
Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza
Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?
Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste
Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa
Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
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António Ramos Rosa
A Página Final
A página final
sem aridez vermelha
direcção oblíqua da mão liberta
à altura do animal da boca acesa
princípio de outro vento subtil
A mão primeira
a que tocou a extrema
pedra sem sinal
de vento
a que desenhou a anca
inacabada
sobre a brancura sem insectos
tua
a inapagável rede onde
se ouve a língua
no murmúrio da língua
praia
e palma do teu ser
o ombro dela
sem aridez vermelha
direcção oblíqua da mão liberta
à altura do animal da boca acesa
princípio de outro vento subtil
A mão primeira
a que tocou a extrema
pedra sem sinal
de vento
a que desenhou a anca
inacabada
sobre a brancura sem insectos
tua
a inapagável rede onde
se ouve a língua
no murmúrio da língua
praia
e palma do teu ser
o ombro dela
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