Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Fernando Pessoa
É Carnaval, e estão as ruas cheias
É Carnaval, e estão as ruas cheias
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.
Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.
Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.
Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.
Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.
Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.
Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.
Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.
Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
1 194
Fernando Pessoa
I - Soam vãos, dolorido epicurista,
I
Soam vãos, dolorido epicurista,
Os versos teus, que a minha dor despreza;
Já tive a alma sem descrença presa
Desse teu sonho, que perturba a vista.
Da Perfeição segui em vã conquista,
Mas vi depressa, já sem a alma acesa,
Que a própria ideia em nós dessa beleza
Um infinito de nós mesmos dista.
Nem à nossa alma definir podemos
A Perfeição em cuja estrada a vida,
Achando-a intérmina, a chorar perdemos.
O mar tem fim, o céu talvez o tenha,
Mas não a ânsia de Coisa indefinida
Que o ser indefinida faz tamanha.
Soam vãos, dolorido epicurista,
Os versos teus, que a minha dor despreza;
Já tive a alma sem descrença presa
Desse teu sonho, que perturba a vista.
Da Perfeição segui em vã conquista,
Mas vi depressa, já sem a alma acesa,
Que a própria ideia em nós dessa beleza
Um infinito de nós mesmos dista.
Nem à nossa alma definir podemos
A Perfeição em cuja estrada a vida,
Achando-a intérmina, a chorar perdemos.
O mar tem fim, o céu talvez o tenha,
Mas não a ânsia de Coisa indefinida
Que o ser indefinida faz tamanha.
1 524
Fernando Pessoa
TO MY DEAREST FRIEND
When I am dead you'll write - I know you will -
A thoughtful sonnet on my early death,
In which, stating that life but wearieth,
You'll notice how I lie pale, cold, and still.
This in the quatrains, which likewise you'll fill
With some reflections on how soon goes breath
And how the cold and heavy earth beneath
There is an end to living, good or ill.
After this, in the tercets, you will say
That death's a mystery, that nought doth stay,
Perhaps that immortality is true.
Then you will sign and put the date to it.
And, having read again the sonnet, you
Will be content, seeing it is well writ.
A thoughtful sonnet on my early death,
In which, stating that life but wearieth,
You'll notice how I lie pale, cold, and still.
This in the quatrains, which likewise you'll fill
With some reflections on how soon goes breath
And how the cold and heavy earth beneath
There is an end to living, good or ill.
After this, in the tercets, you will say
That death's a mystery, that nought doth stay,
Perhaps that immortality is true.
Then you will sign and put the date to it.
And, having read again the sonnet, you
Will be content, seeing it is well writ.
1 518
Fernando Pessoa
Deixaste cair a liga
Deixaste cair a liga
Porque não estava apertada...
Por muito que a gente diga
A gente nunca diz nada.
Porque não estava apertada...
Por muito que a gente diga
A gente nunca diz nada.
1 559
Fernando Pessoa
Outros com liras ou com harpas narram,
Outros com liras ou com harpas narram,
Eu com meu pensamento.
Que, por meio de música, acham nada
Se acham só o que sentem.
Mais pesam as palavras que, medidas,
Dizem que o mundo existe.
Eu com meu pensamento.
Que, por meio de música, acham nada
Se acham só o que sentem.
Mais pesam as palavras que, medidas,
Dizem que o mundo existe.
1 307
Fernando Pessoa
12 - If I could carve my poems in wood
If I could carve my poems in wood,
By children they would be understood,
So near to the sense things have in God
Are both my poems and children's thought.
For a child knows that logic and meaning
Are only nothing nothing screening,
And a child is one divinely aware
That all things are toys and all things are fair,
That a thimble, a stone and a cotton‑reel
Are things we can quite divinely feel,
And that, if we make men out of those things,
They are really men, not imaginings.
I would therefore l could take my verse
Out of mere ideas and better it worse
To visible carving or drawing or what
My verses could be resembling that.
Then would I be the children's poet,
And, though perhaps I might never know it
With the outer sense that makes life sadder,
In every innocent face made gladder
God would be giving my soul the sense,
Lost back of knowledge, of recompense -
The sense of children more children still
When, acting my poems at their glad will,
They, playing with toys, with legs incurled,
Lightly err the visible world.
By children they would be understood,
So near to the sense things have in God
Are both my poems and children's thought.
For a child knows that logic and meaning
Are only nothing nothing screening,
And a child is one divinely aware
That all things are toys and all things are fair,
That a thimble, a stone and a cotton‑reel
Are things we can quite divinely feel,
And that, if we make men out of those things,
They are really men, not imaginings.
I would therefore l could take my verse
Out of mere ideas and better it worse
To visible carving or drawing or what
My verses could be resembling that.
Then would I be the children's poet,
And, though perhaps I might never know it
With the outer sense that makes life sadder,
In every innocent face made gladder
God would be giving my soul the sense,
Lost back of knowledge, of recompense -
The sense of children more children still
When, acting my poems at their glad will,
They, playing with toys, with legs incurled,
Lightly err the visible world.
1 854
Fernando Pessoa
NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA
NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA
Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário.
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário.
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
1 326
Fernando Pessoa
TRAMWAY
TRAMWAY
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
929
Fernando Pessoa
Ai, Margarida,
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
2 044
Fernando Pessoa
Seguro assento na coluna firme [ 2]
Seguro assento na coluna firme
Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
Será mais eu que eu mesmo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
Mas se assim é, é assim.
Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
Será mais eu que eu mesmo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
Mas se assim é, é assim.
1 353
Fernando Pessoa
Seguro assento na coluna firme [ 3]
Seguro assento na coluna firme
Dos versos em que fico.
O criador interno movimento
Por quem fui autor deles
Passa, e eu sobrevivo, já não quem
Escreveu o que fez.
Chegada a hora, passarei também
E os versos, que não sentem
Serão a única restança posta
Nos capitéis do tempo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morremos a obra viva.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado faz que eles a rejam.
Mas se assim é, é assim.
Aquele agudo interno movimento,
Por quem fui autor deles
Primeiro passa, e eu, outro já do que era,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, também serei menos
Que os versos permanentes.
E papel, ou papiro escrito e morto
Tem mais vida que a mente.
Na noite a sombra é mais igual à noite
Que o corpo que alumia.
Dos versos em que fico.
O criador interno movimento
Por quem fui autor deles
Passa, e eu sobrevivo, já não quem
Escreveu o que fez.
Chegada a hora, passarei também
E os versos, que não sentem
Serão a única restança posta
Nos capitéis do tempo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morremos a obra viva.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado faz que eles a rejam.
Mas se assim é, é assim.
Aquele agudo interno movimento,
Por quem fui autor deles
Primeiro passa, e eu, outro já do que era,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, também serei menos
Que os versos permanentes.
E papel, ou papiro escrito e morto
Tem mais vida que a mente.
Na noite a sombra é mais igual à noite
Que o corpo que alumia.
1 081
Fernando Pessoa
WOE SUPREME
A friend said once to me: «All that thou writest,
Surely 'tis fancy, and pretence, and feigned;
Surely the moaning wherewith thou affrightest
The healthy mind is preconceived and strained!
´ln all the songs and tales that thou indictest
Why's there no word that is not hard or pained?
Why in good things and true thou not delightest,
But even in youth by thee joys are disdained?»
Because, dear friend, thought to be mad is sweet
Sometimes, and though at others nameless woe,
Yet never human pain the pain can meet
Of the mad brain that doth its madness know;
Because my science learn'd has made complete
The knowledge of an ill that cannot go.
Surely 'tis fancy, and pretence, and feigned;
Surely the moaning wherewith thou affrightest
The healthy mind is preconceived and strained!
´ln all the songs and tales that thou indictest
Why's there no word that is not hard or pained?
Why in good things and true thou not delightest,
But even in youth by thee joys are disdained?»
Because, dear friend, thought to be mad is sweet
Sometimes, and though at others nameless woe,
Yet never human pain the pain can meet
Of the mad brain that doth its madness know;
Because my science learn'd has made complete
The knowledge of an ill that cannot go.
1 400
Fernando Pessoa
Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.
Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.
A compaixão custa, sobretudo sincera, e em dias de chuva.
Quero dizer: custa sentir em dias de chuva.
Sintamos a chuva e deixemos a psicologia para outra espécie de céu.
Com que então problema sexual?
Mas isso depois dos quinze anos é uma indecência.
Preocupação com o sexo oposto (suponhamos) e a sua psicologia —
Mas isso é estúpido, filho.
O sexo oposto existe para ser procurado e não para ser compreendido.
O problema existe para estar resolvido e não para preocupar.
Compreender é ser impotente.
E você devia revelar-se menos.
"La Colére de Samson", conhece?
"La femme, enfant malade et [...]"
Mas não é nada disso.
Não me mace, nem me obrigue a ter pena!
Olhe: tudo é literatura.
Vem-nos tudo de fora, como a chuva.
A maneira? Se nós somos páginas aplicadas de romances?
Traduções, meu filho.
Você sabe porque está tão triste? É por causa de Platão,
Que você nunca leu.
E um soneto de Petrarca, que você desconhece, sobrou-lhe errado,
E assim é a vida.
Arregace as mangas da camisa civilizada
E cave terras exactas!
Mais vale isso que ter a alma dos outros.
Não somos senão fantasmas de fantasmas,
E a paisagem hoje ajuda muito pouco.
Tudo é geograficamente exterior.
A chuva cai por uma lei natural
E a humanidade ama porque ama falar no amor.
A compaixão custa, sobretudo sincera, e em dias de chuva.
Quero dizer: custa sentir em dias de chuva.
Sintamos a chuva e deixemos a psicologia para outra espécie de céu.
Com que então problema sexual?
Mas isso depois dos quinze anos é uma indecência.
Preocupação com o sexo oposto (suponhamos) e a sua psicologia —
Mas isso é estúpido, filho.
O sexo oposto existe para ser procurado e não para ser compreendido.
O problema existe para estar resolvido e não para preocupar.
Compreender é ser impotente.
E você devia revelar-se menos.
"La Colére de Samson", conhece?
"La femme, enfant malade et [...]"
Mas não é nada disso.
Não me mace, nem me obrigue a ter pena!
Olhe: tudo é literatura.
Vem-nos tudo de fora, como a chuva.
A maneira? Se nós somos páginas aplicadas de romances?
Traduções, meu filho.
Você sabe porque está tão triste? É por causa de Platão,
Que você nunca leu.
E um soneto de Petrarca, que você desconhece, sobrou-lhe errado,
E assim é a vida.
Arregace as mangas da camisa civilizada
E cave terras exactas!
Mais vale isso que ter a alma dos outros.
Não somos senão fantasmas de fantasmas,
E a paisagem hoje ajuda muito pouco.
Tudo é geograficamente exterior.
A chuva cai por uma lei natural
E a humanidade ama porque ama falar no amor.
997
Fernando Pessoa
Estou escrevendo sonetos regulares
Estou escrevendo sonetos regulares
(Ou quase regulares) como um poeta...
Mas se eu dissesse a alguém a dor completa
Que me faz ter tais gestos e tais ares,
(...)
Ninguém acreditava. Ó grandes mares
Da emoção subindo em névoa preta
Até a mágoa ser como a do asceta.
(...)
Com um estalido de "mola de pressão"
Fecho a carteira dos apontamentos
Onde fixei a minha indecisão,
Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos,
A minha vida é um príncipe ao balcão
(Ou quase regulares) como um poeta...
Mas se eu dissesse a alguém a dor completa
Que me faz ter tais gestos e tais ares,
(...)
Ninguém acreditava. Ó grandes mares
Da emoção subindo em névoa preta
Até a mágoa ser como a do asceta.
(...)
Com um estalido de "mola de pressão"
Fecho a carteira dos apontamentos
Onde fixei a minha indecisão,
Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos,
A minha vida é um príncipe ao balcão
1 377
Fernando Pessoa
Em cada Consciência o Grande Horror
Em cada Consciência o Grande Horror
Mostra através da máscara os seus olbos.
E o carnal,
Em toda a sua extensão
De nudez da carne e da alma, mirra
Minha alma do pavor de colocar
A mão, na escuridão, sobre a fronte
Do Mistério.
A cópula dos entes, o contacto
Carnal das almas, pávido encontrar-se
Do horror de uma alma com o de outra alma,
Do mistério de um ser com o de outro ser,
Quintessenciar-se local, tangível
Do Mistério, (...)
Escrever
Em palavras de carne, sentindo
O horror e o mistério do Universo.
Com que gesto de alma
Dou o passo de mim até à posse
Do corpo de outro, horrorosamente
Vivo, consciente, atento a mim, tão ele
Como eu sou eu.
Mostra através da máscara os seus olbos.
E o carnal,
Em toda a sua extensão
De nudez da carne e da alma, mirra
Minha alma do pavor de colocar
A mão, na escuridão, sobre a fronte
Do Mistério.
A cópula dos entes, o contacto
Carnal das almas, pávido encontrar-se
Do horror de uma alma com o de outra alma,
Do mistério de um ser com o de outro ser,
Quintessenciar-se local, tangível
Do Mistério, (...)
Escrever
Em palavras de carne, sentindo
O horror e o mistério do Universo.
Com que gesto de alma
Dou o passo de mim até à posse
Do corpo de outro, horrorosamente
Vivo, consciente, atento a mim, tão ele
Como eu sou eu.
1 072
Fernando Pessoa
Subiste à glória pela descida abaixo.
Subiste à glória pela descida abaixo.
Paradoxo? Não: a realidade.
O paradoxo é o que é palavras
A realidade é o que és.
Subiste porque desceste.
Está bem.
Amanhã talvez eu faça a mesma coisa.
Por ora, se calhar, invejo-te.
Não sei se te invejo a vitória.
Não sei se te invejo o consegui-la.
Mas realmente creio que te a invejo
Sempre é vitória...
Façam um embrulho de mim
E depois deitem-me ao rio.
E não esqueçam o «se calhar» quando lá me deitarem.
Isso é importante.
Não esqueçam o «se calhar».
Isso é que é importante.
Porque tudo é se calhar...
Paradoxo? Não: a realidade.
O paradoxo é o que é palavras
A realidade é o que és.
Subiste porque desceste.
Está bem.
Amanhã talvez eu faça a mesma coisa.
Por ora, se calhar, invejo-te.
Não sei se te invejo a vitória.
Não sei se te invejo o consegui-la.
Mas realmente creio que te a invejo
Sempre é vitória...
Façam um embrulho de mim
E depois deitem-me ao rio.
E não esqueçam o «se calhar» quando lá me deitarem.
Isso é importante.
Não esqueçam o «se calhar».
Isso é que é importante.
Porque tudo é se calhar...
1 202
Fernando Pessoa
III - Somos meninos de uma primavera
IIISomos meninos de uma primavera
De que alguém fez tijolos. Quando cismo
Tiro da cigarreira um misticismo
Que acendo e fumo como se o esquecera.
No teu ar de dormir nessa cadeira,
(Reparo agora, feito o exorcismo,
Que o terceiro soneto ergue do abismo)
És sempre a mesma, anónima — terceira...
Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.
Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!.
Só vós ó mar e céu nos libertais,
Que qualquer trapo incógnito franjais
Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita
No cárcere a Marília de Dirceu.
De realmente meu só tenho eu.
Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita,
(No seu perfil de pálida imperfeita,
Recorte morto contra um vivo céu,
De que alguém fez tijolos. Quando cismo
Tiro da cigarreira um misticismo
Que acendo e fumo como se o esquecera.
No teu ar de dormir nessa cadeira,
(Reparo agora, feito o exorcismo,
Que o terceiro soneto ergue do abismo)
És sempre a mesma, anónima — terceira...
Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.
Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!.
Só vós ó mar e céu nos libertais,
Que qualquer trapo incógnito franjais
Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita
No cárcere a Marília de Dirceu.
De realmente meu só tenho eu.
Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita,
(No seu perfil de pálida imperfeita,
Recorte morto contra um vivo céu,
1 110
Fernando Pessoa
Para cantar-te,
Para cantar-te,
Para saudar-te
Era preciso escrever aquele poema supremo,
Onde, mais que em todos os outros poemas supremos,
Vivesse, numa síntese completa feita de uma análise sem esquecimentos,
Todo o Universo de coisas, de vidas e de almas,
Todo o Universo de homens, mulheres, crianças,
Todo o Universo de gestos, de actos, de emoções, de pensamentos,
Todo o Universo das coisas que a humanidade faz,
Das coisas que acontecem à humanidade —
Profissões, leis, regimentos, medicinas, o Destino,
Escrito a entrecruzamentos, a intersecções constantes
No papel dinâmico dos Acontecimentos,
No papiro rápido das combinações sociais,
No palimpsesto das emoções renovadas constantemente.
Para saudar-te
Era preciso escrever aquele poema supremo,
Onde, mais que em todos os outros poemas supremos,
Vivesse, numa síntese completa feita de uma análise sem esquecimentos,
Todo o Universo de coisas, de vidas e de almas,
Todo o Universo de homens, mulheres, crianças,
Todo o Universo de gestos, de actos, de emoções, de pensamentos,
Todo o Universo das coisas que a humanidade faz,
Das coisas que acontecem à humanidade —
Profissões, leis, regimentos, medicinas, o Destino,
Escrito a entrecruzamentos, a intersecções constantes
No papel dinâmico dos Acontecimentos,
No papiro rápido das combinações sociais,
No palimpsesto das emoções renovadas constantemente.
1 119
Fernando Pessoa
O verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas,
O verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas,
E o comboio real e não os versos que o cantam
É o ferro dos rails, dos rails quentes, é o ferro das rodas, é o giro real delas.
E não os meus poemas falando de rails e de rodas sem eles.
E o comboio real e não os versos que o cantam
É o ferro dos rails, dos rails quentes, é o ferro das rodas, é o giro real delas.
E não os meus poemas falando de rails e de rodas sem eles.
1 492
Fernando Pessoa
Para saudar-te
Para saudar-te
Para saudar-te como se deve saudar-te
Preciso tornar os meus versos corcel,
Preciso tornar os meus versos comboio,
Preciso tornar os meus versos seta,
Preciso tornar os versos pressa,
Preciso tornar os versos nas coisas do mundo
Tudo cantavas, e em ti cantava tudo —
Tolerância magnífica e prostituída
A das tuas sensações de pernas abertas
Para os detalhes e os contornos do sistema do universo
Para saudar-te como se deve saudar-te
Preciso tornar os meus versos corcel,
Preciso tornar os meus versos comboio,
Preciso tornar os meus versos seta,
Preciso tornar os versos pressa,
Preciso tornar os versos nas coisas do mundo
Tudo cantavas, e em ti cantava tudo —
Tolerância magnífica e prostituída
A das tuas sensações de pernas abertas
Para os detalhes e os contornos do sistema do universo
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Fernando Pessoa
Abram falência à nossa vitalidade!
Abram falência à nossa vitalidade!
Escrevemos versos, cantamos as coisas-falências; não as vivemos.
Como poder viver todas as vidas e todas as épocas
E todas as formas da forma
E todos os gestos do gesto?
O que é fazer versos senão confessar que a vida não basta
O que é arte senão uma esperança que não é ninguém
Adeus, Walt, adeus!
Adeus até ao indefinido do para além do Fim.
Espera-me, se aí se pode esperar,
Quando parte o último comboio?
Quando parte? (Quando partimos)
Escrevemos versos, cantamos as coisas-falências; não as vivemos.
Como poder viver todas as vidas e todas as épocas
E todas as formas da forma
E todos os gestos do gesto?
O que é fazer versos senão confessar que a vida não basta
O que é arte senão uma esperança que não é ninguém
Adeus, Walt, adeus!
Adeus até ao indefinido do para além do Fim.
Espera-me, se aí se pode esperar,
Quando parte o último comboio?
Quando parte? (Quando partimos)
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Fernando Pessoa
Minha oração-cavalgada!
Minha oração-cavalgada!
Minha saudação-arranco!
Quem como tu sentiu a vida individual de tudo?
Quem como tu esgotou sentir-se — a vida — sentir-nos?
Quem como tu tem sempre o sobresselente por próprio
E transborda por norma da norma — forma da Vida?
(...)
a minha alegria é uma raiva,
o meu arranco um choque
(Pá!)
em mim...
Saúdo-te em ti ó Mestre da minha doença de saúde,
o primeiro doente perfeito da universalite que tenho
o caso-nome do “mal de Whitman” que há dentro de mim!
St. Walt dos Delírios Ruidosos e a Raiva!
Minha saudação-arranco!
Quem como tu sentiu a vida individual de tudo?
Quem como tu esgotou sentir-se — a vida — sentir-nos?
Quem como tu tem sempre o sobresselente por próprio
E transborda por norma da norma — forma da Vida?
(...)
a minha alegria é uma raiva,
o meu arranco um choque
(Pá!)
em mim...
Saúdo-te em ti ó Mestre da minha doença de saúde,
o primeiro doente perfeito da universalite que tenho
o caso-nome do “mal de Whitman” que há dentro de mim!
St. Walt dos Delírios Ruidosos e a Raiva!
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Fernando Pessoa
II - Deixo, deuses, atrás a dama antiga
II
Deixo, deuses, atrás a dama antiga
(Com uma letra diferente fixo
O absurdo, e rio, porque sofro). Digo:
Deixo atrás quem amei, como um prefixo...
Outrora eu, que era anónimo e prolixo
(Dois adjectivos que de há muito sigo)
Amei por ter um coração amigo.
Amo hoje o que amo só porque o persigo.
Dêem-me vinho que um Horácio cante!
Quero esquecer o que de meu é meu...
Quero, sem que me mexa, ir indo adiante.
Estou no Estoril e olho para o céu...
Ah que ainda é certo aquele azul ovante
Que esplendeu astros sobre o mar egeu.
Deixo, deuses, atrás a dama antiga
(Com uma letra diferente fixo
O absurdo, e rio, porque sofro). Digo:
Deixo atrás quem amei, como um prefixo...
Outrora eu, que era anónimo e prolixo
(Dois adjectivos que de há muito sigo)
Amei por ter um coração amigo.
Amo hoje o que amo só porque o persigo.
Dêem-me vinho que um Horácio cante!
Quero esquecer o que de meu é meu...
Quero, sem que me mexa, ir indo adiante.
Estou no Estoril e olho para o céu...
Ah que ainda é certo aquele azul ovante
Que esplendeu astros sobre o mar egeu.
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Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [c]
SAUDAÇÃO
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
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