Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Márcia Fasciotti
Madrugada
É claro!! Sempre estava afim!
Uma noitada, música,
burburinho de vozes,
matizadas em vários tons...
Mais uma dose!!!
Estalar de copos, gargalhadas...
Mistura de sons!!!
É a boemia insone
exibindo falsa alegria,
procurando encher de amores
a madrugada vazia...
Já gostei...
...já fui assim!!
Hoje, a insônia, desabafo no papel...
Encontro marcado comigo!!!
Que ironia!!
Sou no momento, minha melhor
e mais fiel companhia...
Uma noitada, música,
burburinho de vozes,
matizadas em vários tons...
Mais uma dose!!!
Estalar de copos, gargalhadas...
Mistura de sons!!!
É a boemia insone
exibindo falsa alegria,
procurando encher de amores
a madrugada vazia...
Já gostei...
...já fui assim!!
Hoje, a insônia, desabafo no papel...
Encontro marcado comigo!!!
Que ironia!!
Sou no momento, minha melhor
e mais fiel companhia...
830
Eliana Mora
Espanto
Se um dia
saio a dizer
o que me vai na cabeça
muitos irão se espantar
[alguns vão até estranhar]
Mas na verdade eu teria
uma história a revelar
E o resumo seria
um aqui jaz
elegia
ou canto a enaltecer
a tal de vida
[promessa]
meio sem eira nem beira
meio sem voz
[de coleira]
Com a dona desta vida
arrematando seus cantos
como faz a bordadeira
[para o pano não rasgar]
(18 de setembro de 1998)
saio a dizer
o que me vai na cabeça
muitos irão se espantar
[alguns vão até estranhar]
Mas na verdade eu teria
uma história a revelar
E o resumo seria
um aqui jaz
elegia
ou canto a enaltecer
a tal de vida
[promessa]
meio sem eira nem beira
meio sem voz
[de coleira]
Com a dona desta vida
arrematando seus cantos
como faz a bordadeira
[para o pano não rasgar]
(18 de setembro de 1998)
830
Fátima Andersen
Não sei
Não sei de mim
se daquilo que parece ser
me perdi.
Deixei que a vida me vivesse e,
perdendo-me da vida,
a vida perdeu-se.
E menti muito,
para ser melhor
poeta.
se daquilo que parece ser
me perdi.
Deixei que a vida me vivesse e,
perdendo-me da vida,
a vida perdeu-se.
E menti muito,
para ser melhor
poeta.
960
Maria Isabel
A hora vazia
Onde as humildes palavras
Que ingenuamente disseste?
Onde os gestos dos teus braços
Nascidos para enlaçar?
Cansaste. O sol do deserto
Secou tua alma de fonte.
Morreu nos dedos do inútil
A tua frágil canção.
Não mais ouvirás soluços,
Não mais na noite deserta
Descobrirás desesperos.
Corpos virão sobre as ondas,
Diante dos teus olhos secos.
Houve uma voz nos teus lábios
Quente e viva. Quando foi?
Hoje a fadiga, hoje o sono.
Hoje, trágica e vazia,
A hora de contemplar.
Que ingenuamente disseste?
Onde os gestos dos teus braços
Nascidos para enlaçar?
Cansaste. O sol do deserto
Secou tua alma de fonte.
Morreu nos dedos do inútil
A tua frágil canção.
Não mais ouvirás soluços,
Não mais na noite deserta
Descobrirás desesperos.
Corpos virão sobre as ondas,
Diante dos teus olhos secos.
Houve uma voz nos teus lábios
Quente e viva. Quando foi?
Hoje a fadiga, hoje o sono.
Hoje, trágica e vazia,
A hora de contemplar.
794
Myriam Fraga
Possessão
O poema me tocou
Com sua graça,
Com suas patas de pluma,
com seu hálito
De brisa perfumada.
O poema fez de mim
O seu cavalo;
Um arrepio no dorso,
Um calafrio,
Uma dança de espelhos
E de espadas.
De repente, sem aviso,
O poema como um raio,
- Eleobá, pomba gira!
Me tocou com sua graça
Com sua graça,
Com suas patas de pluma,
com seu hálito
De brisa perfumada.
O poema fez de mim
O seu cavalo;
Um arrepio no dorso,
Um calafrio,
Uma dança de espelhos
E de espadas.
De repente, sem aviso,
O poema como um raio,
- Eleobá, pomba gira!
Me tocou com sua graça
1 751
Angela Santos
Declaração
Amo!
Decidi escrever em todos os cantos
e muros por onde passasse
e até riscar teu nome a grafitti,
quem sabe desenhar uma tatuagem
ao jeito dos marinheiros,
escrever um artigo de jornal sobre o amor
e nele desenhar o teu nome e o meu
e um coração a envolvê-los
Mas pensei
que amar-te é um facto
coisa que mexe por dentro
e por assim ser, por fora se vê
o que dentro do coração vive
Pensei, repensei , concluí
todos sabiam, todos notavam
que um nome e um sentir
bordavam meus dias
de azul e luz
Decidi sem pudores confessar-me a ti,
soltar em voz alta
o que vezes calei
para deixar que os olhos, a alma e o desejo
em suas explosões imprimissem marcas,
as que eu quis deixar gravadas por aí
Mas foi em sussurro que à boca aflorou
a palavra mel …
uma só palavra que em si contém
o sentido todo,
mesmo que a tragam por aí prostituída
e imprimam nela o cunho das palavras gastas,
"Meu Amor" é uma expressão
que guarda o brilho de pedras raras.
Decidi escrever em todos os cantos
e muros por onde passasse
e até riscar teu nome a grafitti,
quem sabe desenhar uma tatuagem
ao jeito dos marinheiros,
escrever um artigo de jornal sobre o amor
e nele desenhar o teu nome e o meu
e um coração a envolvê-los
Mas pensei
que amar-te é um facto
coisa que mexe por dentro
e por assim ser, por fora se vê
o que dentro do coração vive
Pensei, repensei , concluí
todos sabiam, todos notavam
que um nome e um sentir
bordavam meus dias
de azul e luz
Decidi sem pudores confessar-me a ti,
soltar em voz alta
o que vezes calei
para deixar que os olhos, a alma e o desejo
em suas explosões imprimissem marcas,
as que eu quis deixar gravadas por aí
Mas foi em sussurro que à boca aflorou
a palavra mel …
uma só palavra que em si contém
o sentido todo,
mesmo que a tragam por aí prostituída
e imprimam nela o cunho das palavras gastas,
"Meu Amor" é uma expressão
que guarda o brilho de pedras raras.
1 046
Irene Lisboa
Jeito de escrever
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
1 730
Flora Figueiredo
A pedidos
Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.
1 383
Angela Santos
Cismos
Eu
havia prometido que a palavra estancaria.
Prometi
mas nem todas as promessas são cumpriveis,
a fortaleza da razão cede ao terramoto do coração.
Veloz e livre corre o pensamento, porque é livre....
e livre das amarras da lógica e da razão
sai desgarrado potro livre, selvagem, indomável....
Que fazer se o coração de si mesmo é senhor?
Este alvoroço, essa revolução dos sentidos,
acordaram de repente,
à força não sei de quê,
o vulcão adormecido.
Não sei a extensão do cismo, nem das fendas que abriu
não sei o mal que causou,
se algum mal deixou...
dele só conheço agora
o bem , que ao passar, em mim deixou
havia prometido que a palavra estancaria.
Prometi
mas nem todas as promessas são cumpriveis,
a fortaleza da razão cede ao terramoto do coração.
Veloz e livre corre o pensamento, porque é livre....
e livre das amarras da lógica e da razão
sai desgarrado potro livre, selvagem, indomável....
Que fazer se o coração de si mesmo é senhor?
Este alvoroço, essa revolução dos sentidos,
acordaram de repente,
à força não sei de quê,
o vulcão adormecido.
Não sei a extensão do cismo, nem das fendas que abriu
não sei o mal que causou,
se algum mal deixou...
dele só conheço agora
o bem , que ao passar, em mim deixou
914
Angela Santos
Compromisso
Esquecerei
a Poesia
com que me digo e a ti chego
mas Poética será sempre minha forma de sentir......
assim moldada, forjada, foi.
Se devo sufocar o grito, sufocarei!
se devo estancar o rio
onde corre a força que me faz dizer, estancarei!
se devo sentir,
só por dentro de mim, sentirei !
mas guardarei acesa, ainda que só lembrança
a Clara Luz
em que um dia mergulhei.
a Poesia
com que me digo e a ti chego
mas Poética será sempre minha forma de sentir......
assim moldada, forjada, foi.
Se devo sufocar o grito, sufocarei!
se devo estancar o rio
onde corre a força que me faz dizer, estancarei!
se devo sentir,
só por dentro de mim, sentirei !
mas guardarei acesa, ainda que só lembrança
a Clara Luz
em que um dia mergulhei.
1 197
Angela Santos
Retrato
De
mim traço este retrato, pela cabeça guiada
faltam-me as cores de Van Gogh e as manchas de Monet
os riscos, os traços e os tons
que fidelizem o dentro se visto de fora é
Como traços de carvão as palavras, que são míngua,
ousam trazer esse dentro, para o outro lado de si
e buscam, na imperfeição, fazer a vez da impressão
que se tem quando o objecto diante de nós se põe…
a cor do trigo no rosto, que o tempo conserva bem
cabelo de tom marron e olhos a condizer
estatura mediana que em mulher não se crê mal…
de Ruben não tenho as formas, nem de Modigliani a esfinge
fico num ponto intermédio, que me dá o que preciso
para me saber mulher
ter no erotismo um quê,
na fome de pele meu pecado – e se isso pecado for
mil vezes pecadora ser.
E diria ter no simples o meu modo preferido,
amo o Barroco e a Fuga, um certo pendor da alma,
no azul estendo os olhos
a cor que digo ser minha
E na alma trago a luz, essa luz sempre está lá
ainda que às vezes a cubra um véu cinzento de nuvens
E já que a vida é acaso, que lá do fundo me trouxe
do obscuro sou crente, da natureza sou filha
e da liberdade amante,
venero Isis, Baco, Cristo, Buda
e isso faz do que sou
um todo que não se explica
na ínfima porção de mim.
mim traço este retrato, pela cabeça guiada
faltam-me as cores de Van Gogh e as manchas de Monet
os riscos, os traços e os tons
que fidelizem o dentro se visto de fora é
Como traços de carvão as palavras, que são míngua,
ousam trazer esse dentro, para o outro lado de si
e buscam, na imperfeição, fazer a vez da impressão
que se tem quando o objecto diante de nós se põe…
a cor do trigo no rosto, que o tempo conserva bem
cabelo de tom marron e olhos a condizer
estatura mediana que em mulher não se crê mal…
de Ruben não tenho as formas, nem de Modigliani a esfinge
fico num ponto intermédio, que me dá o que preciso
para me saber mulher
ter no erotismo um quê,
na fome de pele meu pecado – e se isso pecado for
mil vezes pecadora ser.
E diria ter no simples o meu modo preferido,
amo o Barroco e a Fuga, um certo pendor da alma,
no azul estendo os olhos
a cor que digo ser minha
E na alma trago a luz, essa luz sempre está lá
ainda que às vezes a cubra um véu cinzento de nuvens
E já que a vida é acaso, que lá do fundo me trouxe
do obscuro sou crente, da natureza sou filha
e da liberdade amante,
venero Isis, Baco, Cristo, Buda
e isso faz do que sou
um todo que não se explica
na ínfima porção de mim.
1 021
Angela Santos
Poema Atravessado
Escrevo, atravessando
o sentido inscrito
nas palavras, as tuas.
As minhas vêm invadir
o corpo onde repousa
o sentido que às palavras restituis.
Sou nas palavras
que atravessam as tuas e nelas se fundem,
assim como à noite somos uma só,
abraço que nos ata até que nos aparte a luz
que nos devolve à maré dos dias
onde inscrevemos de novo o sentido.
o sentido inscrito
nas palavras, as tuas.
As minhas vêm invadir
o corpo onde repousa
o sentido que às palavras restituis.
Sou nas palavras
que atravessam as tuas e nelas se fundem,
assim como à noite somos uma só,
abraço que nos ata até que nos aparte a luz
que nos devolve à maré dos dias
onde inscrevemos de novo o sentido.
1 105
Angela Santos
De onde a palavra
Pelas friestas
do Ser
espiam as palavras
e nelas, inexplicáveis,
a força das marés,
a macieza da pétala,
o bruto rasgar do cutelo
o alívio do unguento
Vêm e colhem no ar
ou na fundura da terra,
a dimensão do que for
e dizem sem desvendar
no seu afã, as palavras…
Emerge e regressa à penumbra
pressagiando, a palavra
como sibila que habita
o seio da obscuridade….
lugar de todos os nomes
onde repousa o sentido
daquilo que nos afronta
entre o silencio e o grito.
do Ser
espiam as palavras
e nelas, inexplicáveis,
a força das marés,
a macieza da pétala,
o bruto rasgar do cutelo
o alívio do unguento
Vêm e colhem no ar
ou na fundura da terra,
a dimensão do que for
e dizem sem desvendar
no seu afã, as palavras…
Emerge e regressa à penumbra
pressagiando, a palavra
como sibila que habita
o seio da obscuridade….
lugar de todos os nomes
onde repousa o sentido
daquilo que nos afronta
entre o silencio e o grito.
660
Angela Santos
Inominável
Escoam-se
as palavras
com que teça e urda
o sentido da corrente
parcos os vocábulos
assomam no afã de transparecer
ou desvelar
o que emerge
da explosão da Vida
Acerca-se do inominável
do silente corpo
a palavra ...
falha o intento de dizer
e é só limite
No hiato das palavras
consentido
habita o silêncio, indecifrável
acerto de luz e sussurros
fonte secreta do saber antigo
é vago e é tanto....
E tudo se ilumina,
nos indecifráveis signos nascentes
desse
saber pressentido.
as palavras
com que teça e urda
o sentido da corrente
parcos os vocábulos
assomam no afã de transparecer
ou desvelar
o que emerge
da explosão da Vida
Acerca-se do inominável
do silente corpo
a palavra ...
falha o intento de dizer
e é só limite
No hiato das palavras
consentido
habita o silêncio, indecifrável
acerto de luz e sussurros
fonte secreta do saber antigo
é vago e é tanto....
E tudo se ilumina,
nos indecifráveis signos nascentes
desse
saber pressentido.
1 048
Angela Santos
Além-Mar
Perco-me
nas avenidas do mundo, busco o longe
que me chama
coração em desalinho e a alma de sol e bruma
espraiam-se lá na lonjura
no outro lado do mar..
Aqui, onde sou raiz
as ruelas se estreitam, nelas minha alma se roça
como rio emparedado que em torrente desagua
no outro lado do mar..
Sabe-me a sol e a sal, esse chamado de longe
não o sei dizer... pressinto-o só
e esse pouco é bastante para me agitar o peito
e de mansinho lembrar essa doce vibração
que assoma à flor da pele
Não sei o longe, que me seduz e me chama,
sei apenas que o busco, sem a razão querer saber
como se buscasse, enfim, a coincidência perfeita
desse pedaço de alma que sinto faltar em mim
Ligam Língua e Oceano, esses dois lugares perdidos
Mar.. Mar.. Mar…. imenso Mar
que nos separa e aproxima
Língua - Mater que desnuda e revela devagar,
como o gesto feminino que sem pressa
vai despindo outro ser
a si igual.
nas avenidas do mundo, busco o longe
que me chama
coração em desalinho e a alma de sol e bruma
espraiam-se lá na lonjura
no outro lado do mar..
Aqui, onde sou raiz
as ruelas se estreitam, nelas minha alma se roça
como rio emparedado que em torrente desagua
no outro lado do mar..
Sabe-me a sol e a sal, esse chamado de longe
não o sei dizer... pressinto-o só
e esse pouco é bastante para me agitar o peito
e de mansinho lembrar essa doce vibração
que assoma à flor da pele
Não sei o longe, que me seduz e me chama,
sei apenas que o busco, sem a razão querer saber
como se buscasse, enfim, a coincidência perfeita
desse pedaço de alma que sinto faltar em mim
Ligam Língua e Oceano, esses dois lugares perdidos
Mar.. Mar.. Mar…. imenso Mar
que nos separa e aproxima
Língua - Mater que desnuda e revela devagar,
como o gesto feminino que sem pressa
vai despindo outro ser
a si igual.
750
Angela Santos
Enluarada
Meus
olhos sacodem
poeiras de sono e estrelas
que sobram da noite, suspensa na memória
onde vibram palavras surgidas da tela
como pirilampos mágicos
atravessando o ar.
E nos meus olhos mal dormidos
passam voláteis as letras,
compondo palavras, gerando emoções
como notas musicais que bailam e ecoam
nocturnas cantatas que me lembram a Lua.....
E esse dia de sol, fica enluarado....
Meus olhos cansados, esquecem seu cansaço
e aguardam de novo a noite que há - de vir,
como deusa milenar do nada surgindo
trazendo em seu seio o enlace de amantes,
que longe e tão perto
em sonhos se abraçam.
olhos sacodem
poeiras de sono e estrelas
que sobram da noite, suspensa na memória
onde vibram palavras surgidas da tela
como pirilampos mágicos
atravessando o ar.
E nos meus olhos mal dormidos
passam voláteis as letras,
compondo palavras, gerando emoções
como notas musicais que bailam e ecoam
nocturnas cantatas que me lembram a Lua.....
E esse dia de sol, fica enluarado....
Meus olhos cansados, esquecem seu cansaço
e aguardam de novo a noite que há - de vir,
como deusa milenar do nada surgindo
trazendo em seu seio o enlace de amantes,
que longe e tão perto
em sonhos se abraçam.
941
Angela Santos
E assim te digo
Implícita,
dita
nos silêncios e prelúdios
das palavras
que não ousam dizê-lo
nos silêncios e prelúdios
das palavras
que não ousam
dizê-lo
Gasta e ainda assim
intacta, palavra
só igual à vida
pelas esquinas
do não senti-la
prostituída
Agiganta-se no sentir
e extravasa
na tentativa nunca vã
de dizer o não contido
Meu Amor
que outro dizer não conheço
para o que em mim vive
...e assim te digo!
dita
nos silêncios e prelúdios
das palavras
que não ousam dizê-lo
nos silêncios e prelúdios
das palavras
que não ousam
dizê-lo
Gasta e ainda assim
intacta, palavra
só igual à vida
pelas esquinas
do não senti-la
prostituída
Agiganta-se no sentir
e extravasa
na tentativa nunca vã
de dizer o não contido
Meu Amor
que outro dizer não conheço
para o que em mim vive
...e assim te digo!
961
Fernando Fabião
Guardo na Pele
Guardo
na pele a luz da tinta
É aí que as palavras ardem
À passagem do sangue
Na pele, tudo é profundo
Ouve-se a água no início do sono
Flor estilhaçada na sombra dos dedos
E um talento vagaroso
Percorre as veias
Uma promessa de paz ilumina os roseirais
Dirás que o corpo é uma casa de sol
Um relâmpago breve na paisagem.
na pele a luz da tinta
É aí que as palavras ardem
À passagem do sangue
Na pele, tudo é profundo
Ouve-se a água no início do sono
Flor estilhaçada na sombra dos dedos
E um talento vagaroso
Percorre as veias
Uma promessa de paz ilumina os roseirais
Dirás que o corpo é uma casa de sol
Um relâmpago breve na paisagem.
1 044
Fernando Fabião
Em Louvor do Silêncio
Em louvor
do silencio
Lembro os peixes mudos percorrendo o sono
Um fruto que cai grave
No corpo da terra
Lembro o aroma das glicínias
O murmúrio dos mortos povoando as casas
Os versos obscuros onde habita a delicadeza do amor.
É nos estilhaços do mundo
Que o indizível se escreve
Invade as folhas, as mãos pousadas na orla do mar.
do silencio
Lembro os peixes mudos percorrendo o sono
Um fruto que cai grave
No corpo da terra
Lembro o aroma das glicínias
O murmúrio dos mortos povoando as casas
Os versos obscuros onde habita a delicadeza do amor.
É nos estilhaços do mundo
Que o indizível se escreve
Invade as folhas, as mãos pousadas na orla do mar.
950
Joaquim Pessoa
Outono
Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
2 296
Angela Santos
Tecedeira
Redes
de pescadora, eu teço
quem sabe, pescadora de palavras e sentido
Caminho, não sobre as águas
mas por dentro das palavras, e do sentir
por dentro das gentes
que abrem um sulco
e por dentro de si me deixam entretecer mais um fio
um subtil fio compondo o inegualável desenho da vida.
As palavras chegam
como? de onde? porque?
chegam...como som de riacho entre rochedos
como linho colhido para tecer brancos lençóis
onde o presente se deita
desfiando memórias...
e lançar a ponte entre os irrepetíveis
momentos do ser.
de pescadora, eu teço
quem sabe, pescadora de palavras e sentido
Caminho, não sobre as águas
mas por dentro das palavras, e do sentir
por dentro das gentes
que abrem um sulco
e por dentro de si me deixam entretecer mais um fio
um subtil fio compondo o inegualável desenho da vida.
As palavras chegam
como? de onde? porque?
chegam...como som de riacho entre rochedos
como linho colhido para tecer brancos lençóis
onde o presente se deita
desfiando memórias...
e lançar a ponte entre os irrepetíveis
momentos do ser.
1 147
Fernando Tavares Rodrigues
Como se Estivesse Apaixonado
Para quem
não sabe como é
(como se escreve um poema de amor)
eu vou dizer.
Como se estivesse apaixonado
Falar desse teu corpo exagerado
Que apenas aos meus olhos ganha cor,
De um coração em mim anteestreado
Num palco onde jurei fazer-te amor.
Esculpir esses cabelos impossíveis
Que nunca mãos algumas alisaram,
Desflorar esses vales inacessíveis
Onde os outros de vésperas naufragaram.
Contar como se ardesse de desejo
As pernas de cetim que tu me abriste
E a boca que se derreteu num beijo,
Soluço de sorriso que desiste.
Dizer, porquê? Se todo o mundo sabe
Que quando se ama não se escreve
E que, então, o tempo todo cabe
Naquele instante breve que se teve.
Contar o resto seria apenas feio,
Sentir o que não foi, deselegante.
Falar do que te disse pelo meio
Só se não fosse homem, nem amante...
não sabe como é
(como se escreve um poema de amor)
eu vou dizer.
Como se estivesse apaixonado
Falar desse teu corpo exagerado
Que apenas aos meus olhos ganha cor,
De um coração em mim anteestreado
Num palco onde jurei fazer-te amor.
Esculpir esses cabelos impossíveis
Que nunca mãos algumas alisaram,
Desflorar esses vales inacessíveis
Onde os outros de vésperas naufragaram.
Contar como se ardesse de desejo
As pernas de cetim que tu me abriste
E a boca que se derreteu num beijo,
Soluço de sorriso que desiste.
Dizer, porquê? Se todo o mundo sabe
Que quando se ama não se escreve
E que, então, o tempo todo cabe
Naquele instante breve que se teve.
Contar o resto seria apenas feio,
Sentir o que não foi, deselegante.
Falar do que te disse pelo meio
Só se não fosse homem, nem amante...
1 130
Fernando Tavares Rodrigues
Verbo
Amar a
mulher
É também sentir
Antes de a beijar, antes de a despir,
Esse sabor doce
Como se ela fosse uma rosa a arder
Esse verbo tão difícil e tão fácil de dizer...
mulher
É também sentir
Antes de a beijar, antes de a despir,
Esse sabor doce
Como se ela fosse uma rosa a arder
Esse verbo tão difícil e tão fácil de dizer...
1 206
Angela Santos
Do Amor
(Para
C., meu amor)
Assim , de repente,
como todas as coisas que vêm sem aviso,
quis falar-te "disto" que cresceu dentro de mim,
este querer feito de coisas que só se sentem,
e ficam no limbo das definições,
porque definir é limitar.
Eu quis falar
do que ao jeito de "milagre" aconteceu
uma palavra, gerou outra e outra e outra,
e essas palavras traziam em si o que nelas colocamos
e era a gente que fluía nessas palavras
Tantas palavras… para dizer o possível de tanto sentir
palavras como corpos gestantes, revelando, desnudando,
quantas vezes se erguendo como muro
tantas vezes nos fartando, nos faltando, sobrando
à mingua de não nos termos e fazermos com as palavras
a vez do corpo, do coração, do suspiro, do sorriso,
do toque, do abraço, da entrega, do desejo, da saudade.
E ainda assim, as palavras
são o que tenho para dizer "te amo",
palavras que entreteço com gestos e sinais
com que se enchem o meu e o teu quotidiano,
meus dias e minhas noites, repletos da tua presença,
antes de mais neste sentir que abrigo
e se encaminha para ti
Se as palavras são o que me resta,
se um vago perfume se te pega às mãos
e por ele me lembras,
se num fio de telefone alivio a fome de ti,
se até no silêncio eu me oiço chamar-te,
que assim seja!
Um dia tudo será diferente e tão igual
ao que sinto, digo, faço
porque o que faço, digo e sinto,
vem do fundo onde te guardo
esse lugar de onde brota
a verdade com que digo
o tanto que quero dizer, se simplesmente digo
"Te amo"
C., meu amor)
Assim , de repente,
como todas as coisas que vêm sem aviso,
quis falar-te "disto" que cresceu dentro de mim,
este querer feito de coisas que só se sentem,
e ficam no limbo das definições,
porque definir é limitar.
Eu quis falar
do que ao jeito de "milagre" aconteceu
uma palavra, gerou outra e outra e outra,
e essas palavras traziam em si o que nelas colocamos
e era a gente que fluía nessas palavras
Tantas palavras… para dizer o possível de tanto sentir
palavras como corpos gestantes, revelando, desnudando,
quantas vezes se erguendo como muro
tantas vezes nos fartando, nos faltando, sobrando
à mingua de não nos termos e fazermos com as palavras
a vez do corpo, do coração, do suspiro, do sorriso,
do toque, do abraço, da entrega, do desejo, da saudade.
E ainda assim, as palavras
são o que tenho para dizer "te amo",
palavras que entreteço com gestos e sinais
com que se enchem o meu e o teu quotidiano,
meus dias e minhas noites, repletos da tua presença,
antes de mais neste sentir que abrigo
e se encaminha para ti
Se as palavras são o que me resta,
se um vago perfume se te pega às mãos
e por ele me lembras,
se num fio de telefone alivio a fome de ti,
se até no silêncio eu me oiço chamar-te,
que assim seja!
Um dia tudo será diferente e tão igual
ao que sinto, digo, faço
porque o que faço, digo e sinto,
vem do fundo onde te guardo
esse lugar de onde brota
a verdade com que digo
o tanto que quero dizer, se simplesmente digo
"Te amo"
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