Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Herberto Helder
24
noite funcionada a furos de ouro fundido,
combustível, comburente,
inexcedível,
e eu não sei se é de onde me vejo dentro dela,
força da imagem ou fogo ou
desabitação do mundo,
nesta língua onde me encontro e que me funda com mão fluida,
caos,
e como se move tudo, os dedos
pelo sistema decimal contando para trás pessoa
a pessoa, unha
a unha de rapina, diz a canção: a flor inversa,
ar resplan la flors enversa,
desde o hábil desgoverno da matéria à pronúncia tumultuosa,
floral glória colinas ar afora,
com que choque tecnológico a terra pós-moderna,
faúlhas, lâmpadas, quem as maneie e atice,
iluminam-se a si próprias,
houvesse em mim potência e elegância,
e jorrasse a flor inversa,
e para a frente as vezes dos dedos que ainda faltam,
ar movido no cabelo, lápis
maduro sobre o escrito,
idade,
styx,
renascimento,
o júbilo,
trabalhos, etc., desordens, arranquem-mos todos para nunca
terem existido,
nem um só nome é indestrutível,
avança, retrocede, apaga,
ar resplan, e então resplende a flor inversa
combustível, comburente,
inexcedível,
e eu não sei se é de onde me vejo dentro dela,
força da imagem ou fogo ou
desabitação do mundo,
nesta língua onde me encontro e que me funda com mão fluida,
caos,
e como se move tudo, os dedos
pelo sistema decimal contando para trás pessoa
a pessoa, unha
a unha de rapina, diz a canção: a flor inversa,
ar resplan la flors enversa,
desde o hábil desgoverno da matéria à pronúncia tumultuosa,
floral glória colinas ar afora,
com que choque tecnológico a terra pós-moderna,
faúlhas, lâmpadas, quem as maneie e atice,
iluminam-se a si próprias,
houvesse em mim potência e elegância,
e jorrasse a flor inversa,
e para a frente as vezes dos dedos que ainda faltam,
ar movido no cabelo, lápis
maduro sobre o escrito,
idade,
styx,
renascimento,
o júbilo,
trabalhos, etc., desordens, arranquem-mos todos para nunca
terem existido,
nem um só nome é indestrutível,
avança, retrocede, apaga,
ar resplan, e então resplende a flor inversa
1 059
Herberto Helder
16
e eu reluzo no fundo de um universo que desconheço,
e sou um nome apenas,
Constelação do Lobo,
mas saindo desse nome remoto entro logo na mais extraordinária
autoria,
e caçam-me através de velhas florestas côr de púrpura,
e cortam-me a língua para eu não uivar de um monte a outro o
louvor da Loba,
mas que me importa?
suba-te pelo dorso, com mão ou sôpro, uma labareda maior do que
tu própria,
farejo-te, lambo-te côna e bôca,
mordo-te as coxas e o pescoço até ficar bêbado,
e com sangue na bôca entro em ti e dentro de ti faço um nó enquanto
me semeio,
e há uma espécie de doçura que nos oculta,
e toda a noite se vê arder o ramo de fogo do poema que se depura:
quando penso nos grandes dias findos,
en respirant j’attire vers moi l’air,
la terre tremble partout où je vais,
eu que era o louco dos loucos,
rápido e rijo como o rei dos lobos,
até os cães me sabiam do medo,
e veio a Loba,
só a chamei como se fôra a morte que me doía, coração e testículos
entre os membros,
glória da terra,
mas sou a mesma constelação no mesmo mundo escuro,
criatura ligada a outra por um nome luminoso,
uma doçura que a violência criou na gravíssima floresta púrpura,
onde pela raiz me arrancaram a língua para eu não chamar nunca ms
a minha Lof
nem ter o poder dos meus poemas
Biographies des troubadours, Jean Boutières
Les troubadours, Jacques Roubaud
Antologia poética de Ezra Pound, org. Augusto de Campos
não some, que eu lhe procuro, e lhe boto
faca à garganta,
ou na cabeleira tanta tanto fogo que você vira incêndio
em que se não tem mão, puta,
eu sei mas não me importa, quero é te apanhar
em uma braçada como de espuma,
mas se some eu lhe dano, essa sim, a puta de sua vida,
alta criatura chegada na terra muda,
em todo lado,
o dia todo,
a noite toda,
como se vê que uma árvore tem tanta folha luzindo
em toda parte dela e do vento e do tempo,
não some não, que eu desmundo
cada sítio do mundo onde
você estava ou está ou há-de estar, e comunico só do toque
que lhe pônho num mamilo,
no umbigo,
no clitóris,
na unha mindinha do pé esquerdo,
só porque tu estremece dos estudos de meus dedos exultantes,
não some nunca, fica morrendo de meu sôpro,
ou dá luz como fôlha contada uma por cima de outra
que é isso: puta?
pequena, se fôr às raízes latinas,
mas tudo cresceu tamanho, grão de cobre
esparzido pelas capitais do corpo: púbis, cabeça,
porque você é tão cerrada em sua vida própria,
trigo na noite,
excessiva beleza terrestre bruxuleando um pouco adentro,
que bèsteira de lhe chamar de puta,
de pequena,
ou mesmo se lhe chame de grande puta,
se der o fora
jai dolor!
se sabedes novas da minha amiga, socorro de minha baixa biografia,
ai Deus e u é?
vou à procura, encontro, jógo
vitríolo em teu rosto, desfiguro, ou com o calor da mão te lavro
por você acima,
casa ardendo cheia de uma estréia incalculável,
jah minha boca lhe come externa de nenhuma roupa sôbre que
carne soberba!
das plantas dos pés às pálpebras,
inteira,
e outra vez dos giolhos ou joelhos, como queira, à côna, e da côna,
divertimento linguístico lato sensu,
ao rés da penugem na testa rápida, amor,
não provoque, não some, que esse
beijo que agora coméço é para não
acabar nunca,
não queira que eu vá crer em Deus e pedir milagre,
fique, tão puta quanto seja, com
seu jeito de água marítima,
balançando, menininha, barca bêbeda,
mas enredada em mim como o alimento luminoso,
ah se incendeie a gente um do outro, que morte
ou vida mais total
não há, não some não, amor
da puta de minha vida indistinta,
noite onde me envolvo para sempre,
que simples, contudo, com tudo isso, que é se cruzar com o mundo,
fique, fica junto, funda fêmea, que você já me está
fundada no sangue desde que outrora, e agora, e na hora da nossa
belo belo é o meu amado correndo pelas colinas como um cêrvo:
e se um dia eu lhe sumi, venho
indo, agora, vindo, chegando contra você,
coberta de oiro fino, a luz movendo meu cabelo, em cima da água fri
e depois tu vai e vem defronte de minha porta,
e pára,
e toca nos fechos dela cerrada sobre si própria, e se
me turvam as entranhas, se
sobressaltam,
o mundo está cheio de água,
está cheio de meu regresso,
e em um grande espaço eu que sou transparente a você que és coroai
cada vez me chego mais batendo direito,
me põe como um sêlo em teu braço,
porque o amor é mais forte que a eternidade dos mortos,
e eu estou deitada, e levanto de minha cama, e você vem avançando,
e sobe da noite como uma coluna de ar ou uma ressaca de água, e
rompe por minha casa, e me ata de boca e sexo,
tu de pé eu de giolbos te tomo em minha boca
tua boca obscura
e teu pênis arrojado, e lhe mordo manselinho, e depois lhe devoro
aonde faz o nó do sôpro,
oh me ama delicada, como me beijara, uma a uma, pés e mãos,
as unhas,
e tanto se me está crecendo o cabelo que vejo êle debaixo de tua fome,
sim me come de meu cabelo até o mais raso,
no chão do mundo,
e com teus braços terríveis me cruza toda,
que ainda me está doendo do pêso de seu beijo
na risca rosa no meio de virilha até virilha,
e entra em mim e que as coxas me estremeçam,
te mete inteiro
por boca e cu e côna adentro,
que os que louvam a Deus esse Deus os devora,
como a fêmea louva-a-deus ao macho, puta,
rediviva, tua, nunca sumo para sempre que sempre me restituo,
andando sobre água fria
oh noche, que juntaste amada con amado, amado en la amada
transformado!
: inexplicável: claro
e sou um nome apenas,
Constelação do Lobo,
mas saindo desse nome remoto entro logo na mais extraordinária
autoria,
e caçam-me através de velhas florestas côr de púrpura,
e cortam-me a língua para eu não uivar de um monte a outro o
louvor da Loba,
mas que me importa?
suba-te pelo dorso, com mão ou sôpro, uma labareda maior do que
tu própria,
farejo-te, lambo-te côna e bôca,
mordo-te as coxas e o pescoço até ficar bêbado,
e com sangue na bôca entro em ti e dentro de ti faço um nó enquanto
me semeio,
e há uma espécie de doçura que nos oculta,
e toda a noite se vê arder o ramo de fogo do poema que se depura:
quando penso nos grandes dias findos,
en respirant j’attire vers moi l’air,
la terre tremble partout où je vais,
eu que era o louco dos loucos,
rápido e rijo como o rei dos lobos,
até os cães me sabiam do medo,
e veio a Loba,
só a chamei como se fôra a morte que me doía, coração e testículos
entre os membros,
glória da terra,
mas sou a mesma constelação no mesmo mundo escuro,
criatura ligada a outra por um nome luminoso,
uma doçura que a violência criou na gravíssima floresta púrpura,
onde pela raiz me arrancaram a língua para eu não chamar nunca ms
a minha Lof
nem ter o poder dos meus poemas
Biographies des troubadours, Jean Boutières
Les troubadours, Jacques Roubaud
Antologia poética de Ezra Pound, org. Augusto de Campos
não some, que eu lhe procuro, e lhe boto
faca à garganta,
ou na cabeleira tanta tanto fogo que você vira incêndio
em que se não tem mão, puta,
eu sei mas não me importa, quero é te apanhar
em uma braçada como de espuma,
mas se some eu lhe dano, essa sim, a puta de sua vida,
alta criatura chegada na terra muda,
em todo lado,
o dia todo,
a noite toda,
como se vê que uma árvore tem tanta folha luzindo
em toda parte dela e do vento e do tempo,
não some não, que eu desmundo
cada sítio do mundo onde
você estava ou está ou há-de estar, e comunico só do toque
que lhe pônho num mamilo,
no umbigo,
no clitóris,
na unha mindinha do pé esquerdo,
só porque tu estremece dos estudos de meus dedos exultantes,
não some nunca, fica morrendo de meu sôpro,
ou dá luz como fôlha contada uma por cima de outra
que é isso: puta?
pequena, se fôr às raízes latinas,
mas tudo cresceu tamanho, grão de cobre
esparzido pelas capitais do corpo: púbis, cabeça,
porque você é tão cerrada em sua vida própria,
trigo na noite,
excessiva beleza terrestre bruxuleando um pouco adentro,
que bèsteira de lhe chamar de puta,
de pequena,
ou mesmo se lhe chame de grande puta,
se der o fora
jai dolor!
se sabedes novas da minha amiga, socorro de minha baixa biografia,
ai Deus e u é?
vou à procura, encontro, jógo
vitríolo em teu rosto, desfiguro, ou com o calor da mão te lavro
por você acima,
casa ardendo cheia de uma estréia incalculável,
jah minha boca lhe come externa de nenhuma roupa sôbre que
carne soberba!
das plantas dos pés às pálpebras,
inteira,
e outra vez dos giolhos ou joelhos, como queira, à côna, e da côna,
divertimento linguístico lato sensu,
ao rés da penugem na testa rápida, amor,
não provoque, não some, que esse
beijo que agora coméço é para não
acabar nunca,
não queira que eu vá crer em Deus e pedir milagre,
fique, tão puta quanto seja, com
seu jeito de água marítima,
balançando, menininha, barca bêbeda,
mas enredada em mim como o alimento luminoso,
ah se incendeie a gente um do outro, que morte
ou vida mais total
não há, não some não, amor
da puta de minha vida indistinta,
noite onde me envolvo para sempre,
que simples, contudo, com tudo isso, que é se cruzar com o mundo,
fique, fica junto, funda fêmea, que você já me está
fundada no sangue desde que outrora, e agora, e na hora da nossa
belo belo é o meu amado correndo pelas colinas como um cêrvo:
e se um dia eu lhe sumi, venho
indo, agora, vindo, chegando contra você,
coberta de oiro fino, a luz movendo meu cabelo, em cima da água fri
e depois tu vai e vem defronte de minha porta,
e pára,
e toca nos fechos dela cerrada sobre si própria, e se
me turvam as entranhas, se
sobressaltam,
o mundo está cheio de água,
está cheio de meu regresso,
e em um grande espaço eu que sou transparente a você que és coroai
cada vez me chego mais batendo direito,
me põe como um sêlo em teu braço,
porque o amor é mais forte que a eternidade dos mortos,
e eu estou deitada, e levanto de minha cama, e você vem avançando,
e sobe da noite como uma coluna de ar ou uma ressaca de água, e
rompe por minha casa, e me ata de boca e sexo,
tu de pé eu de giolbos te tomo em minha boca
tua boca obscura
e teu pênis arrojado, e lhe mordo manselinho, e depois lhe devoro
aonde faz o nó do sôpro,
oh me ama delicada, como me beijara, uma a uma, pés e mãos,
as unhas,
e tanto se me está crecendo o cabelo que vejo êle debaixo de tua fome,
sim me come de meu cabelo até o mais raso,
no chão do mundo,
e com teus braços terríveis me cruza toda,
que ainda me está doendo do pêso de seu beijo
na risca rosa no meio de virilha até virilha,
e entra em mim e que as coxas me estremeçam,
te mete inteiro
por boca e cu e côna adentro,
que os que louvam a Deus esse Deus os devora,
como a fêmea louva-a-deus ao macho, puta,
rediviva, tua, nunca sumo para sempre que sempre me restituo,
andando sobre água fria
oh noche, que juntaste amada con amado, amado en la amada
transformado!
: inexplicável: claro
1 356
Herberto Helder
36
alguém salgado porventura
te
toca
entre as omoplatas,
alguém algures sopra quente nos ouvidos,
e te apressa, enquanto corres
algumas braças acima
do chão fluido, leva-te a luz e subleva,
tão aturdidos dedos e sopros,
até ao recôndito,
alguma vez te tocaram nas têmporas e nos testículos, alto,
baixo,
com mais mão de sangue e abrasadura,
e te cruzaram nesse furor,
e criaram, com bafo
ardido, ásperos sais nos dedos, e te levaram,
a luz corrente lavrando o mundo,
cerrado e duro e doloroso, acaso
sabias
a que domínios e plenitudes idiomáticas
de íngremes ritmos, que buraco negro,
na labareda radioactiva,
bic cristal preta onde atrás raia às vezes
um pouco de urânio escrito
te
toca
entre as omoplatas,
alguém algures sopra quente nos ouvidos,
e te apressa, enquanto corres
algumas braças acima
do chão fluido, leva-te a luz e subleva,
tão aturdidos dedos e sopros,
até ao recôndito,
alguma vez te tocaram nas têmporas e nos testículos, alto,
baixo,
com mais mão de sangue e abrasadura,
e te cruzaram nesse furor,
e criaram, com bafo
ardido, ásperos sais nos dedos, e te levaram,
a luz corrente lavrando o mundo,
cerrado e duro e doloroso, acaso
sabias
a que domínios e plenitudes idiomáticas
de íngremes ritmos, que buraco negro,
na labareda radioactiva,
bic cristal preta onde atrás raia às vezes
um pouco de urânio escrito
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Herberto Helder
28
mas como: um pequeno poema com um relâmpago íngreme e
instantâneo entre as linhas,
pau puro, ar
balançado, laranja,
a mais limpa chama coada pela árvore,
e a noite devora o mundo,
e eu reluzo,
as varas requeimadas contra as grandes fábricas da água,
até à mesa onde escrevo?
instantâneo entre as linhas,
pau puro, ar
balançado, laranja,
a mais limpa chama coada pela árvore,
e a noite devora o mundo,
e eu reluzo,
as varas requeimadas contra as grandes fábricas da água,
até à mesa onde escrevo?
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Herberto Helder
46
a faca não corta o fogo,
não me corta o sangue escrito,
não corta a água,
e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
jogando linho com dedos, conjugando
onde os verbos não conjugam,
no mundo há poucos fenómenos do fogo,
água há pouca,
mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,
mais brotada, inerente, incalculável,
e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,
e a abre e fecha,
é que sim que eu a amava como bárbara maravilha,
porque no mundo há pouco fogo a cortar
e a água cortada é pouca,
jque língua,
que húmida, muda, miúda, relativa, absoluta,
e que pouca, incrível, muita,
e la poésie, c’est quand le quotidien devient extraordinaire, e que
música,
que despropósito, que língua língua,
disse Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!
queria-a toda
não me corta o sangue escrito,
não corta a água,
e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
jogando linho com dedos, conjugando
onde os verbos não conjugam,
no mundo há poucos fenómenos do fogo,
água há pouca,
mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,
mais brotada, inerente, incalculável,
e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,
e a abre e fecha,
é que sim que eu a amava como bárbara maravilha,
porque no mundo há pouco fogo a cortar
e a água cortada é pouca,
jque língua,
que húmida, muda, miúda, relativa, absoluta,
e que pouca, incrível, muita,
e la poésie, c’est quand le quotidien devient extraordinaire, e que
música,
que despropósito, que língua língua,
disse Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!
queria-a toda
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Herberto Helder
23
cabelo cortado vivo,
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
marga contra os dedos,
umbigo,
a plenos pulmões das formas, o mundo, como respira o mundo!
áruns por onde respira e brilha
— marga infusa: a matéria que,
arrancada, respira e
respirando no ar ininterrupto dolorosamente brilha,
no seu estado avulso
brilha, absoluta
— e o sangue urgente inundando a boca:
tão curta canção para tamanha vida:
aloés por onde o chão respira,
e a mão que brilha quando os toca,
tão pouca mão em tão nascida obra
— e anéis de um corpo cortado vivo
no cabelo,
na marga contra os dedos,
no umbigo:
na folha escura onde cada frase brilha
um relâmpago apenas antes de ser escrita
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Herberto Helder
51
a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso
1 138
Herberto Helder
52
espaço que o corpo soma quando se move,
não apenas o espaço mexido pelos dedos, mas
o superlativo,
a dança,
arte dos números,
e o que se inventa e entesoura,
punhados de ouro grosso enquanto se atravessa o sono,
e a matéria sombriamente escrita,
o espaço interno do teu nome, ah o teu
amargo, árduo, agudo,
quente
nome lavra a minha língua louca, digo:
o fósforo e a lixa do teu nome riscam
e calcinam
a língua portuguesa
não apenas o espaço mexido pelos dedos, mas
o superlativo,
a dança,
arte dos números,
e o que se inventa e entesoura,
punhados de ouro grosso enquanto se atravessa o sono,
e a matéria sombriamente escrita,
o espaço interno do teu nome, ah o teu
amargo, árduo, agudo,
quente
nome lavra a minha língua louca, digo:
o fósforo e a lixa do teu nome riscam
e calcinam
a língua portuguesa
512
Herberto Helder
9
que fosses escrita com todas as linhas de todas as coisas numa frase de ensino
supremacia, pela
quantidade de brancura fêmea,
pelo enredo luminoso,
com as linhas dos dias concêntricos
rectos e curvos numa só linha
respirada,
unida
supremacia, pela
quantidade de brancura fêmea,
pelo enredo luminoso,
com as linhas dos dias concêntricos
rectos e curvos numa só linha
respirada,
unida
1 113
Herberto Helder
53
mesmo sem gente nenhuma que te ouça,
poema intrínseco dito a português e dentes,
a sangue desmanchado,
com a estria lírica a fervilhar de riscas
rudes, frescas, roucas,
tu que como que iluminas pela boca fora
poema intrínseco dito a português e dentes,
a sangue desmanchado,
com a estria lírica a fervilhar de riscas
rudes, frescas, roucas,
tu que como que iluminas pela boca fora
1 102
Herberto Helder
50
mas eu, que tenho o dom das línguas, senti
a linha sísmica atravessando a montagem das músicas,
e ouvi chamarem-me em lírica,
numa língua nenhuma que não sabia,
e os acertos e erros do meu nome não eram traduzíveis
nas línguas do meu dom,
e soube então que ar e fogo se mantinham um ao outro mas,
em vez de se abrirem,
se fechavam, e estremeci das músicas oh
o que eram elas,
que coisa grande traziam para ser posta em mínimo,
e que somenos ministério lavrava assim que voz,
no vivo,
no arrepio do ritmo,
por brônquios, garganta e dentes,
para fora,
para o escuro,
para o número ímpar?
a linha sísmica atravessando a montagem das músicas,
e ouvi chamarem-me em lírica,
numa língua nenhuma que não sabia,
e os acertos e erros do meu nome não eram traduzíveis
nas línguas do meu dom,
e soube então que ar e fogo se mantinham um ao outro mas,
em vez de se abrirem,
se fechavam, e estremeci das músicas oh
o que eram elas,
que coisa grande traziam para ser posta em mínimo,
e que somenos ministério lavrava assim que voz,
no vivo,
no arrepio do ritmo,
por brônquios, garganta e dentes,
para fora,
para o escuro,
para o número ímpar?
1 084
Herberto Helder
6
pratica-te como contínua abertura,
o mais atento que custe,
com uma volta sobre ti mesma até eu aparecer no outro lado do rosto
quando te olhas,
espera que desapareça o ruído em cada palavra,
e agora só a ela se ouça,
e então aumenta tanto quanto possas se escutas
que me aproximo,
a género de abrasadura mulheril,
a cálculo lírico infundido nas lides de ar e fogo,
edoi lelia doura,
que o mênstruo coza e a seda escume,
à luz que nasce da roupa,
e os substantivos perfeitos respirem uns dos outros na têmpera
e frescor da língua indestrutível,
e então estendo por ti acima o melhor do meu braço,
se é que posso fulgurar,
e enquanto crio, cria-me, e cria-te como começo de mim mesmo,
isto: que unas o avulso,
se te puderes mover como o ar que respiro, ó
irrepetível, inenarrável, inerente
o mais atento que custe,
com uma volta sobre ti mesma até eu aparecer no outro lado do rosto
quando te olhas,
espera que desapareça o ruído em cada palavra,
e agora só a ela se ouça,
e então aumenta tanto quanto possas se escutas
que me aproximo,
a género de abrasadura mulheril,
a cálculo lírico infundido nas lides de ar e fogo,
edoi lelia doura,
que o mênstruo coza e a seda escume,
à luz que nasce da roupa,
e os substantivos perfeitos respirem uns dos outros na têmpera
e frescor da língua indestrutível,
e então estendo por ti acima o melhor do meu braço,
se é que posso fulgurar,
e enquanto crio, cria-me, e cria-te como começo de mim mesmo,
isto: que unas o avulso,
se te puderes mover como o ar que respiro, ó
irrepetível, inenarrável, inerente
567
Herberto Helder
49
do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
1 065
Herberto Helder
47
exultação, fervor,
se doesse nas práticas da graça,
uma língua analfabeta, plena,
fazia-se um inferno para obrigá-los a falar nessa língua?
se fosse,
tanta gente estilística mas ninguém queria falar
com tanto poder,
tanta desordem na música,
que falassem numa língua incrível, dizia-se,
de quando os atropelos,
de quando quebrados os sete selos,
se doesse num pouco de gramática
se doesse nas práticas da graça,
uma língua analfabeta, plena,
fazia-se um inferno para obrigá-los a falar nessa língua?
se fosse,
tanta gente estilística mas ninguém queria falar
com tanto poder,
tanta desordem na música,
que falassem numa língua incrível, dizia-se,
de quando os atropelos,
de quando quebrados os sete selos,
se doesse num pouco de gramática
965
Herberto Helder
Já Me Custa No Chão do Inferno
já me custa no chão do inferno,
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
554
Herberto Helder
Irmãos Humanos Que Depois de Mim Vivereis
irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que melhor há-de medrar na memória do mundo
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que melhor há-de medrar na memória do mundo
930
Herberto Helder
Elegia Múltipla - Iv
Acolher de súbito cai no silêncio da língua.
Paro com a gelada imagem do tempo nos sentidos
puros. E sei que não é uma flor aberta
ou a noite cercada de águas extremas.
Paro por esta monstruosa,
ingénua força da morte.
—Acolher envolvida pelo silêncio extenuante
da minha boca, da minha vida.
Que faço? Bem sei como se alimenta um homem,
e tímido e arguto
alimenta a sua irónica inspiração solar,
a inocente astronomia
de ossos e estrelas, veias e flores
e órgãos genitais —
para que tudo se construa docemente,
com as mulheres sentadas nos seus vestidos coalhados,
sorrindo fixamente como as crianças na lírica,
tenebrosa densidade da carne.
A colher cheia de alimento. Era um jogo vivo,
manso, ponderado—uma
beleza evocativa e confusa.
Eis: sou um homem que instante a instante
ganhava um sabor de perene
sentido, uma duração de sombra extasiada,
laboriosa, inclinada no grave centro
da primavera — a sombra
das minhas mãos.
A colher subia como um instrumento da criação,
firme subia nos dedos
como que invocando, unindo os fragmentos
do espírito,
a mímica na sugerida integridade
da pessoa
colocada na doce integridade do tempo.
Mas paro. Cai no silêncio da língua
a colher que era — quem sabe? — música,
intimidade, sinal fortuito
de uma essência, um génio interior.
O puro roer devagar roerá
a colher na mão e a boca na colher,
e no sangue imóvel o pudor da imagem onde
coagulava a leve espessura das casas. Essas que ardiam
na assimetria festiva e sagaz das invenções.
— Cai
no silêncio da língua a colher tão brusca.
Paro com a gelada imagem do tempo nos sentidos
puros. E sei que não é uma flor aberta
ou a noite cercada de águas extremas.
Paro por esta monstruosa,
ingénua força da morte.
—Acolher envolvida pelo silêncio extenuante
da minha boca, da minha vida.
Que faço? Bem sei como se alimenta um homem,
e tímido e arguto
alimenta a sua irónica inspiração solar,
a inocente astronomia
de ossos e estrelas, veias e flores
e órgãos genitais —
para que tudo se construa docemente,
com as mulheres sentadas nos seus vestidos coalhados,
sorrindo fixamente como as crianças na lírica,
tenebrosa densidade da carne.
A colher cheia de alimento. Era um jogo vivo,
manso, ponderado—uma
beleza evocativa e confusa.
Eis: sou um homem que instante a instante
ganhava um sabor de perene
sentido, uma duração de sombra extasiada,
laboriosa, inclinada no grave centro
da primavera — a sombra
das minhas mãos.
A colher subia como um instrumento da criação,
firme subia nos dedos
como que invocando, unindo os fragmentos
do espírito,
a mímica na sugerida integridade
da pessoa
colocada na doce integridade do tempo.
Mas paro. Cai no silêncio da língua
a colher que era — quem sabe? — música,
intimidade, sinal fortuito
de uma essência, um génio interior.
O puro roer devagar roerá
a colher na mão e a boca na colher,
e no sangue imóvel o pudor da imagem onde
coagulava a leve espessura das casas. Essas que ardiam
na assimetria festiva e sagaz das invenções.
— Cai
no silêncio da língua a colher tão brusca.
649
Herberto Helder
Uma Espuma de Sal Bateu-Me Alto Na Cabeça
uma espuma de sal bateu-me alto na cabeça,
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas se ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas,
como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas se ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas,
como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
803
Herberto Helder
Vida Aguda Atenta a Tudo
vida aguda atenta a tudo
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
1 183
Herberto Helder
Levanto À Vista o Que Foi a Terra Magnífica
levanto à vista o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas,
e estou tão leve porque não tenho nenhum segredo,
e tão oculto porque daqui a nada já posso dizer tudo,
daqui a uma pouca ciência saberei pensar
que algum pouco depois estarei morto,
e só de o pensar já nem respiro,
já quase em nada toco,
já só vejo no fundo das mãos daquilo que fica escrito
que escrevi coisa nenhuma do mundo até ao esquecimento,
e movendo-me com as unhas movo os nomes inúmeros
para dizer que mal nasci logo me deram por morto,
e não fui tido nem havido na razão do episódio
de um rosto ter passado por um espelho
e ter desaparecido,
portanto não me venha ninguém falar de nada,
sei bastante do que sabem todos,
vejo a água a mover-se contra si mesma, tão marítima,
e acho até que é bonito,
cada qual morre do quanto alcança e não alcança,
e ninguém compreende,
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas
e passa, a água fácil, sem retorno,
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
(não só o máximo mas também o mínimo)
e as estações mais bêbedas,
e estou tão leve porque não tenho nenhum segredo,
e tão oculto porque daqui a nada já posso dizer tudo,
daqui a uma pouca ciência saberei pensar
que algum pouco depois estarei morto,
e só de o pensar já nem respiro,
já quase em nada toco,
já só vejo no fundo das mãos daquilo que fica escrito
que escrevi coisa nenhuma do mundo até ao esquecimento,
e movendo-me com as unhas movo os nomes inúmeros
para dizer que mal nasci logo me deram por morto,
e não fui tido nem havido na razão do episódio
de um rosto ter passado por um espelho
e ter desaparecido,
portanto não me venha ninguém falar de nada,
sei bastante do que sabem todos,
vejo a água a mover-se contra si mesma, tão marítima,
e acho até que é bonito,
cada qual morre do quanto alcança e não alcança,
e ninguém compreende,
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas
e passa, a água fácil, sem retorno,
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
(não só o máximo mas também o mínimo)
1 022
Herberto Helder
Daqui a Uns Tempos Acho Que Vou Arvoar
daqui a uns tempos acho que vou arvoar
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma,
contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas,
pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e
treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do
fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa
impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma,
contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas,
pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e
treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do
fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa
impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
617
Herberto Helder
O Poema - Vii
A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas das palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.
Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.
Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.
E a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. E Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
—Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.
— Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para a sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.
—A manhã começa a colocar o poema na parte
mais limpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
Amanhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas das palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.
Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.
Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.
E a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. E Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
—Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.
— Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para a sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.
—A manhã começa a colocar o poema na parte
mais limpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
Amanhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
1 476
Herberto Helder
Escrevi Um Curto Poema Trémulo E Severo
escrevi um curto poema trémulo e severo,
sete ou nove linhas,
e a densa delicadeza dessas linhas
era cortada por uma ferida cega,
mas aquilo que o alimentava e unia
— fundo, devastador, incompreensível —
nem eu sabia o que era:
talvez a técnica atenção da morte
vigiasse arte tão breve, tão furtiva
sete ou nove linhas,
e a densa delicadeza dessas linhas
era cortada por uma ferida cega,
mas aquilo que o alimentava e unia
— fundo, devastador, incompreensível —
nem eu sabia o que era:
talvez a técnica atenção da morte
vigiasse arte tão breve, tão furtiva
1 141
Herberto Helder
Não Quero Mais Mundo Senão a Memória Trémula
não quero mais mundo senão a memória trémula,
quando me perdi,
a cidade, o rio camoneano, o ar,
era como se os apanhasse de uma só vez,
um dia inteiro para ver como acabava em noite,
não quero senão perder-me nesse enigma:
um pequeno poema bastava para meter tudo lá dentro,
e a minha vida como nota,
rápida, ríspida,
nas margens,
mas tamanhas eram elas que não acabavam nunca,
notas mais notas,
o caos,
e eu ali à espera da morte entre canções roucas,
eu que, trémulo, não quero, digo, mais mundo,
eu que me perdi,
não tinham ainda começado o rio, o poema, o ar, a morte
quando me perdi,
a cidade, o rio camoneano, o ar,
era como se os apanhasse de uma só vez,
um dia inteiro para ver como acabava em noite,
não quero senão perder-me nesse enigma:
um pequeno poema bastava para meter tudo lá dentro,
e a minha vida como nota,
rápida, ríspida,
nas margens,
mas tamanhas eram elas que não acabavam nunca,
notas mais notas,
o caos,
e eu ali à espera da morte entre canções roucas,
eu que, trémulo, não quero, digo, mais mundo,
eu que me perdi,
não tinham ainda começado o rio, o poema, o ar, a morte
1 219