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Poemas neste tema

Literatura e Palavras

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Entrevistado por um Ganhador do Guggenheim

esse sul-americano ganhador de um Gugg
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?

ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse

que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Primeiro Amor

certa vez
quanto eu tinha 14 anos
os criadores me trouxeram
meu único sentimento de
chance.
meu pai não gostava
de livros e
minha mãe não gostava
de livros (porque meu pai
não gostava de livros)
sobretudo aqueles que eu trazia
da biblioteca:
D.H. Lawrence
Dostoiévski
Turguêniev
Górki
A. Huxley
Sinclair Lewis
outros.
eu tinha meu próprio quarto
mas às 8 da noite
devíamos estar todos indo dormir:
“Cedo na cama e cedo desperto:
o homem fica saudável, rico e esperto”,
meu pai costumava dizer.
“LUZES DESLIGADAS!”, ele gritava.
então eu pegava o abajur de cabeceira
colocava embaixo das cobertas
e com o calor e a luz escondida
eu continuava lendo:
Ibsen
Shakespeare
Tchékhov
Jeffers
Thurber
Conrad Aiken
outros.
eles me trouxeram chance e esperança e
sentimento num lugar sem chance,
sem esperança, sem sentimento.
eu trabalhei duro.
ficava quente embaixo das cobertas.
às vezes o abajur começava a soltar fumaça
ou os lençóis – começavam a
pegar fogo;
aí eu desligava o abajur,
segurava fora da janela para
esfriar.
sem esses livros
não tenho bem certeza
no que teria dado a minha
vida:
desvario; o
assassinato do pai;
idiotismo; imbecilidade;
insípida desesperança.
quando meu pai gritava
“LUZES DESLIGADAS!”
tenho certeza de que ele temia
a palavra bem escrita
que aparecia com suavidade
e razoabilidade
em nossa melhor e
mais interessante
literatura.
e foi ali
perto de mim
embaixo das cobertas
mais mulher do que mulher
mais homem do que homem.
eu tinha tudo
e
não deixei escapar.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Dia Em Que Joguei Pela Janela Uma Grana Preta

e, eu disse, você pode pegar seus ricos tios e tias
e avós e pais
e todo aquele petróleo escroto deles
e seus sete lagos
e seus selvagens perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus fuzilamentos de corvos
e seus calçadões de sábado à noite,
e sua biblioteca de meia-tigela
e seus vereadores corruptos
e seus artistas veadinhos –
você pode pegar tudo isso
e o seu jornal semanal
e os seus famosos tornados
e as suas enchentes imundas
e todos os seus gatos uivantes
e a sua assinatura da Time,
e enfiar lá, bebê,
enfiar lá.
posso empunhar de novo a picareta e o machado (acho)
e posso descolar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode tirar o grisalho
do meu cabelo;
e ainda consigo escrever poemas (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e atirar em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece.
tá bom, vagabundo, ela disse,
cai fora.
o quê?, eu disse
cai fora. você teve o seu último
acesso de fúria.
cansei dos seus malditos acessos de fúria:
você está sempre agindo como um
personagem
de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, bebê,
não consigo
evitar.
você é diferente, tá bom!
meu Deus, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, bebê, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer
um mentiroso ou um
amante?
você não é nenhum dos dois! fora, vagabundo,
fora!
...mas bebê!
volte pro O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a sem barulho e fui embora,
pensando: tudo que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado acima do fogo e
não infernize demais;
mas você já está ficando
velho, garoto;
da próxima vez não abra
tanto
o jogo.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Belíssima Editora

ela era uma mulher belíssima, eu costumava ver fotografias
dela nas revistas literárias daquele
tempo.

eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.

eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.

acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.

e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...

e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.

eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.

somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.

uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.

a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.

ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.

a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.

eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas

e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Encontro Trágico

eu era mais visível e disponível naquele tempo
e eu tinha uma grande fraqueza:
eu achava que ir pra cama com várias mulheres
significava que um homem era esperto e bom e
superior
sobretudo se aos 55 anos de
idade
conseguisse traçar inúmeras gatinhas
e eu levantava pesos
bebia feito um louco
e fazia
isso.

as mulheres eram na maioria legais
e na maioria eram bonitas
e só uma ou outra era realmente burra e
sem graça
mas JoJo
eu não consigo nem mesmo categorizar.
suas cartas eram sucintas, repetiam
as mesmas coisas:
“eu gosto dos seus livros, gostaria de
conhecê-lo...”
eu escrevi de volta e lhe disse
que
tudo bem.

então vieram as instruções
sobre onde eu deveria
encontrá-la: em tal faculdade
em tal data
a tal hora
logo depois de suas
aulas.
a faculdade ficava no alto das
colinas e
o dia e a hora
chegaram
e com seus desenhos
de ruas serpenteantes
mais um mapa rodoviário
eu parti.

era em algum lugar entre o Rose Bowl
e um dos maiores cemitérios do
sul da Califórnia
e eu cheguei cedo e fiquei sentado no meu
carro
bebericando meu Cutty Sark
e olhando as
aluninhas – havia tantas
delas, simplesmente não dava para
pegar todas.

então soou a campainha e eu saí do meu
carro e andei até a frente do
prédio, havia uma longa sequência de
degraus e os estudantes saíram do
prédio e desceram os degraus
e eu fiquei parado
esperando, e como numa chegada
em aeroporto
eu não fazia ideia
de quem
seria.

“Chinaski”, alguém disse
e lá estava ela: 18, 19 anos,
nem feia nem linda, com
corpo e feições medianos,
parecendo não ser feroz,
inteligente, burra e tampouco
louca.

demos um leve beijo e aí
perguntei se ela
estava de carro
e ela disse
que estava de carro
e eu disse “tá bom, te levo no meu
até ele, depois você me
segue...”

JoJo era uma boa seguidora, ela me seguiu o
caminho todo até a minha ruazinha decaída no leste
de Hollywood.

eu lhe servi uma bebida e nós conversamos um
papo muito insípido e nos beijamos um
pouco.
os beijos não eram nem bons nem ruins
tampouco interessantes ou
desinteressantes.

bastante tempo se passou e ela bebeu bem
pouco
e nós nos beijamos um pouco mais e ela disse
“eu gosto dos seus livros, eles realmente me
afetam”.
“Meus livros que se fodam!”, eu falei.
eu já estava de cueca e tinha puxado sua
saia bunda acima
e eu estava me esforçando muito
mas ela só beijava e
falava.
ela correspondia e ela não
correspondia.

então
desisti e comecei a beber
pra valer.
ela mencionou alguns dos outros
escritores
dos quais gostava
mas ela não gostava de nenhum deles
do jeito como gostava
de mim.

“ah”, eu enchi meu copo, “é
mesmo?”

“preciso ir”, JoJo disse,
“tenho uma aula de
manhã.”

“você pode dormir aqui”, eu sugeri, “e
acordar cedo, sou ótimo nos ovos
mexidos.”

“não, obrigada, eu preciso
ir...”

e ela foi embora com
vários exemplares de livros meus
que ela nunca tinha visto
antes,
exemplares que eu lhe dera
bem mais cedo naquela
noite.

bebi mais uma dose e decidi
dormir para esquecer
aquela inexplicável
perda.
desliguei as luzes
e me joguei na
cama sem
me lavar ou
escovar os
dentes.

olhei para o alto no escuro
e pensei, eis aqui uma mulher
sobre a qual nunca serei capaz
de escrever:
ela não era nem boa nem ruim,
real ou irreal, amável ou
desamável, ela era só uma garota
de uma faculdade
em algum lugar entre o Rose Bowl e
o lixão.

então me veio uma coceira, eu me
cocei, eu parecia sentir coisas
no meu rosto, na minha barriga, eu respirei fundo,
soltei o ar, tentei dormir mas
a coceira piorou, então
senti uma mordida, então diversas mordidas,
coisas pareciam estar
rastejando na minha pele...

corri até o banheiro
e acendi a luz

meu Deus, JoJo tinha pulgas.
entrei no chuveiro
fiquei ali
ajustando a água,
pensando,
aquela
pobre
querida.
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