Poemas neste tema
Literatura e Palavras
António Ramos Rosa
A Palavra Viva
Muro em vez de boca, cal em vez de língua. Boca em vez de muro, língua em vez de cal. Um ímpeto, uma cor, uma mancha, uma marca escrita, um círculo de terra, uma coisa viva. Tantos astros de areia, tantos rostos de pedra! E o céu vasto, redondo, completo, os vultos vivos, ligeiros, matinais. Ritmo, crescimento, inundação. Por toda a parte o silencioso calor de um animal aéreo. O mundo acendeu-se com as suas árvores transparentes. Tudo é fácil, tudo é fluido. Suavemente vazio, na nudez intacta, o corpo escreve com a espuma do ar.
1 162
António Ramos Rosa
O Silêncio No Corpo
Procuro o espaço, procuro o corpo. Escrevo, não para confirmar, mas para descobrir, para iniciar. Como que procuro o gesto que seja o gesto do ar, que inaugure um lugar aberto e transparente. A substância é imponderável, nada prescreve a ordem libertadora, não a conheço, não a pressinto no silêncio e na ausência. Continuo todavia à superfície e é aí, entre a folhagem das letras, que a palavra pode consumar-se e abrir o espaço inteiro. O silêncio que escuto é o silêncio dela e pela sua própria ausência ela me é de algum modo sempre presente. Não posso ouvi-la, mas sem palavras ou mesmo através delas, bebo inteiramente o seu silêncio. Dentro do corpo, o sono, o sangue, a sombra da palavra. A plenitude de uma nascente serena. Não será já preciso dizer a frase que abriria o espaço e inauguraria o lugar aberto e transparente?
1 190
António Ramos Rosa
No Ar
Ouves a pequena pergunta dos pássaros? O vento sopra o meu corpo apagado entre palavras dispersas. Os olhos abertos no espaço, não tenho nome nem história. Sou uma semente, uma folha entre folhas. A respiração cresce. Sou exactamente o que sou. Redondo, transparente, nulo. O meu sangue é uma colmeia aberta. Meandros, mil meandros luminosos, rapidíssimos, por onde circulo, ébrio, de sopro em sopro. Sou uma rapariga aérea que ora se apaga na luz, ora se acende com o vento. Para nascer, para continuar nascendo, escrevo como se estas linhas fossem de vento.
1 273
António Ramos Rosa
A Nudez Das Palavras
A nudez das palavras como o único caminho,
o múltiplo caminho em que a sombra explode
deslumbrada. Dizer a ignorância da terra
e a profundidade da ausência no seu inabitável
silêncio. Uma falha secreta permanece sempre
aberta. Que indefinido sinal poderá surgir
do ilegível? Tudo está suspenso no vazio.
Onde a espuma, onde a respiração profusa
do mistério? Porque não recolhe o ar
o desejo de um início e o repouso da origem?
Palavras, palavras ainda mais nuas com a pureza do húmus
e a luz das pedras. Palavras para a ausência e o abandono.
Para o pouco e o nada, para a sobriedade do silêncio.
No coração do vazio há uma claridade que inicia.
Prepara-te para a aliança na vacuidade da tua morada.
o múltiplo caminho em que a sombra explode
deslumbrada. Dizer a ignorância da terra
e a profundidade da ausência no seu inabitável
silêncio. Uma falha secreta permanece sempre
aberta. Que indefinido sinal poderá surgir
do ilegível? Tudo está suspenso no vazio.
Onde a espuma, onde a respiração profusa
do mistério? Porque não recolhe o ar
o desejo de um início e o repouso da origem?
Palavras, palavras ainda mais nuas com a pureza do húmus
e a luz das pedras. Palavras para a ausência e o abandono.
Para o pouco e o nada, para a sobriedade do silêncio.
No coração do vazio há uma claridade que inicia.
Prepara-te para a aliança na vacuidade da tua morada.
1 193
António Ramos Rosa
Na Perda Sem Fim
Escrevo-te quando a mão já não escreve quase. Aqui, onde ainda estou e onde não estou, aqui onde nada ocorre a não ser a infinita perda que. Mas não será este o caminho? Para quê esperar, para quê crer? A negação aceite, assumida porventura, a não-esperança, não seria a transparência mesma, a nudez do puro vazio? Talvez este seja o maior mito, o mito da morte de todos os mitos.
Porque nada tenho, nada sou, a não ser esta vacuidade silenciosa. Talvez ela preserve o gérmen na sua obscuridade irredutível. Nada sei a não ser que, inacessível, é algumas vezes próxima, igual, permanente, inicial. Na verdade, sou e não sou esta abertura que apenas sinto por vislumbres que no entanto se prolongam habitáveis no seu puro enigma natural, tranquilo. É nela que sinto a possibilidade de uma outra vida, original, e a sua liberdade silenciosa. Escrever é actualizar a possibilidade de me identificar com este obscuro fluxo que a palavra reaviva no seu silêncio essencial.
………………………………………………………………………
Que desejo eu ser na perda sem fim, irrecusável, irredutível? Que as minhas palavras coagulassem como mãos de silêncio dentro da boca e que cheias e vazias não falassem, antes contivessem a palavra iminente, silenciosa, inicial, a viva palavra do silêncio. Assim, nada me distinguiria do vazio ardente, nenhuma distância me separaria do fluxo, eu seria um animal de fogo e sombra. Abolido, seria a própria perda e o seu canto, a lisura extrema da nudez, a neutralidade vibrante. Habitante da coincidência branca, sem figuras, sem ecos, que podem as palavras dizer na vacuidade livre? Apenas um murmúrio branco, quase imperceptível, a respiração da página e uma igualdade nula que em igualdade se resolve sempre dispersa e una, sempre nula, voz que se desenha em silêncio, mas não palavra, lucidez vazia do ilegível, plenitude de nada.
Porque nada tenho, nada sou, a não ser esta vacuidade silenciosa. Talvez ela preserve o gérmen na sua obscuridade irredutível. Nada sei a não ser que, inacessível, é algumas vezes próxima, igual, permanente, inicial. Na verdade, sou e não sou esta abertura que apenas sinto por vislumbres que no entanto se prolongam habitáveis no seu puro enigma natural, tranquilo. É nela que sinto a possibilidade de uma outra vida, original, e a sua liberdade silenciosa. Escrever é actualizar a possibilidade de me identificar com este obscuro fluxo que a palavra reaviva no seu silêncio essencial.
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Que desejo eu ser na perda sem fim, irrecusável, irredutível? Que as minhas palavras coagulassem como mãos de silêncio dentro da boca e que cheias e vazias não falassem, antes contivessem a palavra iminente, silenciosa, inicial, a viva palavra do silêncio. Assim, nada me distinguiria do vazio ardente, nenhuma distância me separaria do fluxo, eu seria um animal de fogo e sombra. Abolido, seria a própria perda e o seu canto, a lisura extrema da nudez, a neutralidade vibrante. Habitante da coincidência branca, sem figuras, sem ecos, que podem as palavras dizer na vacuidade livre? Apenas um murmúrio branco, quase imperceptível, a respiração da página e uma igualdade nula que em igualdade se resolve sempre dispersa e una, sempre nula, voz que se desenha em silêncio, mas não palavra, lucidez vazia do ilegível, plenitude de nada.
1 142
António Ramos Rosa
Um Excesso de Transparência E de Leveza
Expectativa na nulidade em que nenhum impulso se gera ainda. Escuto ou não, e não é o silêncio que oiço nem o murmúrio do vazio. Quero começar a partir do momento em que sinta o tremor lúcido de uma palavra que surja de uma evidência misteriosa, inelutável, pura. Por enquanto, escrevo sem escrever, isto é, sem necessidade. Ignoro, porém, se estas palavras prematuras não irão precipitar o momento da eclosão em que o silêncio espontaneamente se manifesta através de uma formulação que seria a própria pulsação do informulado. Estou completamente árido, nulo, apagado. É, todavia, nesta clareira de cal que devo permanecer. Ninguém aparecerá, nenhuma presença viva virá acender a paisagem. Continuo a escrever no meio das pedras, sem sequer o rumor da folhagem. As palavras, que são as palavras que vagarosamente vou juntando sem felicidade, quase sem ardor nem gosto? O momento único não surge, talvez nunca venha a surgir. Mas é na expectativa desse momento único que continuo a escrever desesperadamente e contudo com uma certa confiança, confiança que move estas precárias e quase nulas palavras. Tão devagar escrevo e tudo é ausência ou separação. Porque nem sequer a passageira luz da alegria? Onde há palavras porque não está a nascente, porque não a brisa? Na verdade, o que procuro é um espaço para respirar. Que as minhas palavras desenhem uma paisagem aérea, silenciosa, inicial. Dir-se-ia que algo me impede de forçar, de pesar, como se a eclosão da palavra viva só se desse num excesso de transparência e de leveza! Estou perdido de não chegar a nada, mas agora leve, mais leve, vou abrindo o espaço adolescente em que o movimento se inclina para a frescura de uma primeira idade. Algo passa inteiro, animal ou deus, e a sua ausência é a completa felicidade de um sulco que é tanto silêncio como palavra nua. Passam as figuras sem se revelar, profundas e ausentes, e os seus gestos cintilam nas misteriosas expressões. O firme timbre das frases repercute a passagem vibrante das imagens que se libertam nas águas. Algumas abrem-se em curvas de concavidades. Escrevo agora na companhia efémera de presenças puras. Poderão as palavras dizer as cores, a doçura, o perfume que transforma o exílio no claro paraíso do silêncio? Agora escrevo na coincidência e na amplitude do aberto. As pobres palavras tornam-se ardentes, unificadas, vivas evidências de uma nudez enigmática. Quantos caminhos se abrem na página respirável, quanto azul se propaga nas palavras nuas, quanta sombra pelo calor adentro!
1 215
António Ramos Rosa
A Fábula do Vento
O que eu te quero contar não foi dito nem está escrito na pele de nenhuma página. Ou foi dito e escrito milhares de vezes e milhares de vezes apagado pela própria palavra. Sem visão, no vão do esquecimento, tento iniciar uma fábula do vento até à ondulação, até à transparência. Tenho na boca o sabor de um canto que é já o canto de um sabor aéreo. O meu desejo procura construir cálices incendiados, sílabas amorosas, hieroglifos de água e fogo. Não estou no centro mas na orla da distância, na frescura da soberana inteligência do mar. Reconheço agora todas as qualidades do silêncio, da brancura e da luz e da sua móvel mas permanente equivalência. A interrogação mais pura levanta-se e resolve-se em mil ondas incessantes, nas volutas vertiginosas do vento.
1 178
António Ramos Rosa
Não Fosforesce Essa Mão Que Mal Se Move
Não fosforesce essa mão que mal se move
e quase não palpita sob a escura abóbada.
Estreitam-se os dedos de madeira transparente
e sobre o papel volante ainda acendem uma lua
que ascende vacilante sobre a cabeça trémula.
e quase não palpita sob a escura abóbada.
Estreitam-se os dedos de madeira transparente
e sobre o papel volante ainda acendem uma lua
que ascende vacilante sobre a cabeça trémula.
914
António Ramos Rosa
É No Vazio Que Alcanço a Identidade
É no vazio que alcanço a identidade
compacta
em que nunca me repito e sou
a luz e a sombra de um acto único
de indomável tremor
que se desintegra em miríades de palavras.
compacta
em que nunca me repito e sou
a luz e a sombra de um acto único
de indomável tremor
que se desintegra em miríades de palavras.
1 110
António Ramos Rosa
As Palavras do Ar
Varanda aberta. Espaço. Noite enrolada em folhas, noite de antenas e aromas, noite de bocas nubladas e brancas. Brilham constelações de lâmpadas através das nuvens. Escuto. Nem palavras nem silêncio. A voz é um odor da sombra. Deixa-me tocar-te o rosto, o teu rosto de espaço. Vejo-te através das pálpebras. Toco as mãos aéreas e silenciosas que atravessam a folhagem. Vejo os lábios rodeados de fogo. Estou no círculo da distância e escrevo as palavras adormecidas no ar.
1 239
António Ramos Rosa
A Verdade
A verdade é semelhante a uma adolescente
vibrante, flexível, em radiosa sombra.
Quando fala é a noite translúcida no mar
e a esfera germinal e os anéis da água.
Um apelo suave obstinado se adivinha.
Ela dorme tão perfeitamente despertada
que em si a verdade é o vazio. Ela aspira
à cegueira, ao eclipse, à travessia
dos espelhos até ao último astro. Ela sabe
que o muro está em si. Ela é a sede
e o sopro, a falha e a sombra fascinante.
Ela funda uma arquitectura volante
em suspensas superfícies ondulantes.
Ela é a que solicita e separa, delimita
e dissemina as sílabas solidárias.
vibrante, flexível, em radiosa sombra.
Quando fala é a noite translúcida no mar
e a esfera germinal e os anéis da água.
Um apelo suave obstinado se adivinha.
Ela dorme tão perfeitamente despertada
que em si a verdade é o vazio. Ela aspira
à cegueira, ao eclipse, à travessia
dos espelhos até ao último astro. Ela sabe
que o muro está em si. Ela é a sede
e o sopro, a falha e a sombra fascinante.
Ela funda uma arquitectura volante
em suspensas superfícies ondulantes.
Ela é a que solicita e separa, delimita
e dissemina as sílabas solidárias.
754
António Ramos Rosa
O Leitor
Alguém diz procura, procura a ligeireza
e o repouso das árvores, a água das vogais.
Afirma e nega a noite, abre e cerra os olhos,
vê as brilhantes partículas de poeira.
Reconhece os sentidos, os cintilantes livros.
Cálida respiração de uma colina, óleo
da lua na alcova das pálpebras, olho
que dissolve os espelhos, que abre a boca
das grutas: aparição sem nome
de alguém que é apenas sombra e folhas.
Não há ninguém no quarto subterrâneo,
ninguém, ninguém, ó caracol dos ecos,
ninguém a não ser esta lâmpada sonolenta,
esta escrita dos teus olhos viajantes
nas páginas onde cai a oblíqua sombra.
e o repouso das árvores, a água das vogais.
Afirma e nega a noite, abre e cerra os olhos,
vê as brilhantes partículas de poeira.
Reconhece os sentidos, os cintilantes livros.
Cálida respiração de uma colina, óleo
da lua na alcova das pálpebras, olho
que dissolve os espelhos, que abre a boca
das grutas: aparição sem nome
de alguém que é apenas sombra e folhas.
Não há ninguém no quarto subterrâneo,
ninguém, ninguém, ó caracol dos ecos,
ninguém a não ser esta lâmpada sonolenta,
esta escrita dos teus olhos viajantes
nas páginas onde cai a oblíqua sombra.
591
António Ramos Rosa
Dança
Dançam ligeiras nas varandas leves,
a nudez é para elas o veludo da pele
onde passa o sono e a sombra circular.
A nostalgia acende-se. Dilata-se a alegria.
As palavras respiram, obedecem aos anéis.
Boca aberta para a vogal inicial
que tudo pronuncia e nunca é pronunciada.
Deusa mais nua do que a noite, dúctil e concêntrica
deusa que modelas a perfeita forma e a desfazes
em miríades de formas incessantes. Génese
oval em que a carícia lavra em branco igual
até ao horizonte. Então o nada fulge
num côncavo habitável de aquática verdura.
Apagam-se, acendem-se os vasos da visão.
Ilumina-se o sono longínquo da matéria.
a nudez é para elas o veludo da pele
onde passa o sono e a sombra circular.
A nostalgia acende-se. Dilata-se a alegria.
As palavras respiram, obedecem aos anéis.
Boca aberta para a vogal inicial
que tudo pronuncia e nunca é pronunciada.
Deusa mais nua do que a noite, dúctil e concêntrica
deusa que modelas a perfeita forma e a desfazes
em miríades de formas incessantes. Génese
oval em que a carícia lavra em branco igual
até ao horizonte. Então o nada fulge
num côncavo habitável de aquática verdura.
Apagam-se, acendem-se os vasos da visão.
Ilumina-se o sono longínquo da matéria.
1 084
António Ramos Rosa
Caminho
Caminho sobre um rosto animal ou sobre um pulso.
Vejo as pedras do céu, uma lua vazia.
A ordem é a do vento ou de uma estrela nua.
Suspiro ou sílaba, todo o silêncio é fábula.
Oiço latir um seio entre figuras de argila.
Não conheço esta escada silenciosa
que estremece como uma frase de frágil sombra.
Não conheço este sabor de folhas obscuras.
Escuto vibrações monótonas da terra ressequida.
Sem ar, sem água, soluça uma lâmpada subterrânea.
Se alguém acaricia a terra ou adormece em suas águas,
liga e separa, liberta um rosto de folhas,
e um corpo simplifica-se numa nudez suave.
Se alguém sonha sobre um muro de pedra e com o vento
talvez descubra na sombra as palavras transparentes.
Vejo as pedras do céu, uma lua vazia.
A ordem é a do vento ou de uma estrela nua.
Suspiro ou sílaba, todo o silêncio é fábula.
Oiço latir um seio entre figuras de argila.
Não conheço esta escada silenciosa
que estremece como uma frase de frágil sombra.
Não conheço este sabor de folhas obscuras.
Escuto vibrações monótonas da terra ressequida.
Sem ar, sem água, soluça uma lâmpada subterrânea.
Se alguém acaricia a terra ou adormece em suas águas,
liga e separa, liberta um rosto de folhas,
e um corpo simplifica-se numa nudez suave.
Se alguém sonha sobre um muro de pedra e com o vento
talvez descubra na sombra as palavras transparentes.
1 037
António Ramos Rosa
Escrevo Para o Teu Corpo
Escrevo para os teus olhos errantes, para o teu corpo
nupcial. Sou um incerto insecto num vaivém
de sílabas nuas, espessas. Reconheço-te no vinho
e na pedra. Amo o teu grito de árvore,
amo o móvel repouso das tuas veias escritas.
No tumulto do solo vejo os anéis de musgo,
as bocas circulares, as artérias brancas,
as estridências verdes, voluptuosas estâncias,
obscuridades côncavas, sedosas
pausas. Tudo se desenha na claridade
verde. É o barco da terra,
o campo da espessura incandescente,
o fundo completo da ausência respirada,
a sombra que incendeia, a redonda
e nocturna transparência.
nupcial. Sou um incerto insecto num vaivém
de sílabas nuas, espessas. Reconheço-te no vinho
e na pedra. Amo o teu grito de árvore,
amo o móvel repouso das tuas veias escritas.
No tumulto do solo vejo os anéis de musgo,
as bocas circulares, as artérias brancas,
as estridências verdes, voluptuosas estâncias,
obscuridades côncavas, sedosas
pausas. Tudo se desenha na claridade
verde. É o barco da terra,
o campo da espessura incandescente,
o fundo completo da ausência respirada,
a sombra que incendeia, a redonda
e nocturna transparência.
956
António Ramos Rosa
Um Rio
Um rio entre as nuvens, um rio que tu ignoras,
um rio de mãos e de árvores, um rio de música
e de ilhas, um rio do alento, um rio de argila.
Delicadas formas na espuma e nas areias.
O corpo sente o vaivém melodioso e vazio.
São figuras que adormecem na luz entre os navios?
Quem vê, ama o segredo na evidência fugitiva.
A seiva respira a luz mais pura e mais ligeira.
O silêncio é uma atitude obscura e uma ponte,
a passagem de um olhar nos vales amorosos.
Conheço a linguagem da pedra e a linguagem da água.
Acumulo e desfaço, penetro e abro espaços.
Estas palavras são o movimento dos teus cílios.
Apreendo um fulgor, uma música quase imóvel.
Confundo-me com o rumor da tua vida que respira.
um rio de mãos e de árvores, um rio de música
e de ilhas, um rio do alento, um rio de argila.
Delicadas formas na espuma e nas areias.
O corpo sente o vaivém melodioso e vazio.
São figuras que adormecem na luz entre os navios?
Quem vê, ama o segredo na evidência fugitiva.
A seiva respira a luz mais pura e mais ligeira.
O silêncio é uma atitude obscura e uma ponte,
a passagem de um olhar nos vales amorosos.
Conheço a linguagem da pedra e a linguagem da água.
Acumulo e desfaço, penetro e abro espaços.
Estas palavras são o movimento dos teus cílios.
Apreendo um fulgor, uma música quase imóvel.
Confundo-me com o rumor da tua vida que respira.
1 132
António Ramos Rosa
A Leitora
A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.
Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,
branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.
Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,
branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.
1 139
António Ramos Rosa
A Construção do Poema
A construção do poema é a construção do mundo.
Não símbolos, não imagens, simples criaturas
do ar, evidências obscuras, enigmas luminosos,
as formas do vento, os silêncios do sono.
As palavras são impulsos de um corpo soterrado.
Uma condição de alegria no vazio sensual
que se desenha concreto na bruma vagarosa.
Letra a letra, desfibramos o coração do sol.
Vemos numa torre do vento uma árvore balouçando.
Vivemos no ócio da sombra mais materna.
Talvez o poema seja uma pequena lâmpada
solitária ou um branco sortilégio, o prodígio
que restabelece a verde transparência
de um mundo imóvel, ou só uns fragmentos
obscuros, uma pedra clara, um hálito solar.
Não símbolos, não imagens, simples criaturas
do ar, evidências obscuras, enigmas luminosos,
as formas do vento, os silêncios do sono.
As palavras são impulsos de um corpo soterrado.
Uma condição de alegria no vazio sensual
que se desenha concreto na bruma vagarosa.
Letra a letra, desfibramos o coração do sol.
Vemos numa torre do vento uma árvore balouçando.
Vivemos no ócio da sombra mais materna.
Talvez o poema seja uma pequena lâmpada
solitária ou um branco sortilégio, o prodígio
que restabelece a verde transparência
de um mundo imóvel, ou só uns fragmentos
obscuros, uma pedra clara, um hálito solar.
1 110
António Ramos Rosa
Perdi o Nascimento da Árvore
Perdi o nascimento da árvore. O acaso
chove sobre as minhas páginas brancas.
Quero apertar a argila entre os meus dedos,
possuir a madeira, o sal, o vidro, o fogo.
Quero ouvir a canção que é uma ilha de chuva.
Escrevo. Uma música hesita entre ser água
ou espaço. Uma palavra cinge a luz
do ar. Uma folhagem abriga o rosto.
Descanso como a água inteiramente em si mesma.
Aqui é a redondez de um aroma de silêncio.
O tempo que leva uma sombra a cair
é uma evidência que abriga obscura e leve.
Cerimónia pura em lugar tão aberto.
Que sede de água com as mãos ardentes!
Cai o corpo no corpo e o silêncio no silêncio.
chove sobre as minhas páginas brancas.
Quero apertar a argila entre os meus dedos,
possuir a madeira, o sal, o vidro, o fogo.
Quero ouvir a canção que é uma ilha de chuva.
Escrevo. Uma música hesita entre ser água
ou espaço. Uma palavra cinge a luz
do ar. Uma folhagem abriga o rosto.
Descanso como a água inteiramente em si mesma.
Aqui é a redondez de um aroma de silêncio.
O tempo que leva uma sombra a cair
é uma evidência que abriga obscura e leve.
Cerimónia pura em lugar tão aberto.
Que sede de água com as mãos ardentes!
Cai o corpo no corpo e o silêncio no silêncio.
1 053
António Ramos Rosa
O Círculo Cego
Uma linha expressa a cor e o som
das suas células. As palavras são pétalas
de pedra ou gotas do espaço. A chuva
levanta o mundo. Não há conhecimento
que mereça o nome do mais obscuro ruído.
O universo é mais lento e mais intenso.
Obscura luz obscura. Pirâmides de sombra.
Falamos com a respiração encerrada numa pedra
para que não se rompa o círculo cego.
Guia-nos a suave mão do vento.
Na brancura rápida há um tremor de gérmen.
Somos feridas vibrantes num jardim de veias.
Tocamos o rosto do ar e a suave lua de areia.
Uma aranha branca desenha um arco minucioso.
Esta é a pequena fonte junto a um arbusto resplandecente.
das suas células. As palavras são pétalas
de pedra ou gotas do espaço. A chuva
levanta o mundo. Não há conhecimento
que mereça o nome do mais obscuro ruído.
O universo é mais lento e mais intenso.
Obscura luz obscura. Pirâmides de sombra.
Falamos com a respiração encerrada numa pedra
para que não se rompa o círculo cego.
Guia-nos a suave mão do vento.
Na brancura rápida há um tremor de gérmen.
Somos feridas vibrantes num jardim de veias.
Tocamos o rosto do ar e a suave lua de areia.
Uma aranha branca desenha um arco minucioso.
Esta é a pequena fonte junto a um arbusto resplandecente.
1 118
António Ramos Rosa
Esta Lacuna
Esta lacuna à qual adiro, mais próxima do que a mão,
e que se estende branca, interrompida, aberta,
semelhante aos lábios. Serão palavras, serão pedras
as formas que diviso antes de qualquer caminho?
São figuras do ar, são evidências do ar?
O fogo dissimula-se no espaço, o fogo pronuncia
espaço. Volúveis os dedos oblíquos
seguem um sinuoso rosto. Avançam e separam
até que o sol e a terra se confundam
numa densa folhagem verde e silenciosa.
Na frescura das volutas é o vazio que respira
sem suporte e sem espessura. Tudo se obscurece
ou ilumina. Abro os olhos no centro.
Amo tudo o que é vivo, falo às pedras e aos ramos.
Perco-me e encontro-me na leveza do desejo.
e que se estende branca, interrompida, aberta,
semelhante aos lábios. Serão palavras, serão pedras
as formas que diviso antes de qualquer caminho?
São figuras do ar, são evidências do ar?
O fogo dissimula-se no espaço, o fogo pronuncia
espaço. Volúveis os dedos oblíquos
seguem um sinuoso rosto. Avançam e separam
até que o sol e a terra se confundam
numa densa folhagem verde e silenciosa.
Na frescura das volutas é o vazio que respira
sem suporte e sem espessura. Tudo se obscurece
ou ilumina. Abro os olhos no centro.
Amo tudo o que é vivo, falo às pedras e aos ramos.
Perco-me e encontro-me na leveza do desejo.
1 063
António Ramos Rosa
Apenas Um Tremor
Vai-se tecendo a paz num caos contemplado
em que nada se retém à roda do vazio
senão o que o desejo suspende e inicia
para não ser mais que o movimento calmo
numa concha de sono vagarosa e vazia.
Apenas uma sílaba, um relâmpago subtil
abriu no seio da luz uma luz mais nua.
Uma nascente, um caminho? Apenas um tremor
em que tudo desperta em minúcias de alegria.
A página está vazia, ninguém fala na casa.
Vai-se tecendo a paz de uma lisura antiga
e a sombra do desejo é um movimento branco
que move obscuras sílabas e levanta o vento
que passa devagar e vai pousando dentro
da alegria calma em que repousa a casa.
em que nada se retém à roda do vazio
senão o que o desejo suspende e inicia
para não ser mais que o movimento calmo
numa concha de sono vagarosa e vazia.
Apenas uma sílaba, um relâmpago subtil
abriu no seio da luz uma luz mais nua.
Uma nascente, um caminho? Apenas um tremor
em que tudo desperta em minúcias de alegria.
A página está vazia, ninguém fala na casa.
Vai-se tecendo a paz de uma lisura antiga
e a sombra do desejo é um movimento branco
que move obscuras sílabas e levanta o vento
que passa devagar e vai pousando dentro
da alegria calma em que repousa a casa.
1 076
António Ramos Rosa
A Casa do Mar
Esta é a casa na areia incerta e fresca.
Um rio a atravessa no coração dos nomes.
Quantas pedras sólidas, quantas arestas vivas!
Enlaço-te na frescura das folhas que estremecem.
Nas cavernas de sombras há um odor a chuva e vento.
Uma sílaba no silêncio, uma sílaba vermelha
como se o coração batesse no coração da noite.
Quantos rostos habitam uma só face imóvel,
quanta invenção de espuma nas bocas distraídas!
A minha pele grita o ardor de uma frase única.
Cada coisa cintila na pupila luminosa
abrindo em música o sítio do abandono.
As veias das pétalas são palavras minúsculas.
A sombra se conhece em redonda suavidade.
A escrita respira onde o mar principia.
Um rio a atravessa no coração dos nomes.
Quantas pedras sólidas, quantas arestas vivas!
Enlaço-te na frescura das folhas que estremecem.
Nas cavernas de sombras há um odor a chuva e vento.
Uma sílaba no silêncio, uma sílaba vermelha
como se o coração batesse no coração da noite.
Quantos rostos habitam uma só face imóvel,
quanta invenção de espuma nas bocas distraídas!
A minha pele grita o ardor de uma frase única.
Cada coisa cintila na pupila luminosa
abrindo em música o sítio do abandono.
As veias das pétalas são palavras minúsculas.
A sombra se conhece em redonda suavidade.
A escrita respira onde o mar principia.
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António Ramos Rosa
O Corpo Desenhado
Talvez a linha se acenda e continue
ondeando a página e sendo nós só margem
de um domínio onde fulge a inocência,
talvez se revele a transparência inicial
em que a luz de estar a ver seja a palavra mesma.
Vêm figuras que se espraiam e crescem
até serem apenas ondulada memória.
Adensam-se outros corpos e enterram-se no fogo.
As linhas enovelam-se num delírio exacto.
A alegria ilumina penumbras de volumes.
Em tensos membros lúcidos e redondos
move-se o desenhado corpo ligeiro
e lento. Aumenta a densidade até ao centro
de um deus que diz o esplendor silencioso.
Ou só o ar ondeia num planalto de vento.
ondeando a página e sendo nós só margem
de um domínio onde fulge a inocência,
talvez se revele a transparência inicial
em que a luz de estar a ver seja a palavra mesma.
Vêm figuras que se espraiam e crescem
até serem apenas ondulada memória.
Adensam-se outros corpos e enterram-se no fogo.
As linhas enovelam-se num delírio exacto.
A alegria ilumina penumbras de volumes.
Em tensos membros lúcidos e redondos
move-se o desenhado corpo ligeiro
e lento. Aumenta a densidade até ao centro
de um deus que diz o esplendor silencioso.
Ou só o ar ondeia num planalto de vento.
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