Poemas neste tema
Literatura e Palavras
António Ramos Rosa
Palavras Para Viver
Afluem do vento as velas
de uma alegria
primeira
palavras e palavras mais que cinza
despertam um fogo calmo
uma clareira se abre densa e verde
o sossego da terra é um barco imóvel
mais do que as imagens
sóbrios novos
os vocábulos são indícios e veios
de vida
mais viva por viver
Fibras afluentes estrela cega
as mãos unindo
a cabeça do sol nas águas
Boca espessa no caminho
do vento
e do verde
Ondula a boca no navio da boca
caminha a pedra
a espessa cabeleira sobre a água
Um barco desce ao fundo sol da água
Um corpo quer viver
uma haste
quer respirar equilibrada firme
quer viver no silêncio quer
a sua própria chama
levantada
silencioso chão
silenciosa frescura
silenciosa chama
de uma alegria
primeira
palavras e palavras mais que cinza
despertam um fogo calmo
uma clareira se abre densa e verde
o sossego da terra é um barco imóvel
mais do que as imagens
sóbrios novos
os vocábulos são indícios e veios
de vida
mais viva por viver
Fibras afluentes estrela cega
as mãos unindo
a cabeça do sol nas águas
Boca espessa no caminho
do vento
e do verde
Ondula a boca no navio da boca
caminha a pedra
a espessa cabeleira sobre a água
Um barco desce ao fundo sol da água
Um corpo quer viver
uma haste
quer respirar equilibrada firme
quer viver no silêncio quer
a sua própria chama
levantada
silencioso chão
silenciosa frescura
silenciosa chama
1 106
António Ramos Rosa
No Limiar da Claridade Móvel
No limiar da claridade móvel
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
1 065
António Ramos Rosa
Presença Solar E Sólida Fugidia…
… Recolho-me para escutar… o silêncio resolver-se-á na conjugação de palavras sólidas e brancas… palavras que substituirão o sentido pela arcaica ressonância de uma disseminação… as palavras serão a realização aberta à qualificação mais livre e nula
… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono vejo
a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…
uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas
Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…
A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono vejo
a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…
uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas
Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…
A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
541
António Ramos Rosa
A Nudez Mais Completa
uma área branca
sem uma árvore um texto opaco
com frases apressadas nuas
com chuva sobre as pedras
sobre os poros
e o desejo do desejo e a sombra nua
palavras animais cor de relâmpago
frutos da sombra e do esplendor
solidárias lâmpadas no deserto
animais animais à chuva à sombra
abrem o espaço ao desejo ao espaço
palavras dilacerando outras palavras
tronco e lua suor e sempre
tecla tábua espuma pedra
vocábulos que desfiguram as imagens
palavras que só amam a figura
da nudez mais completa
do intacto
sem uma árvore um texto opaco
com frases apressadas nuas
com chuva sobre as pedras
sobre os poros
e o desejo do desejo e a sombra nua
palavras animais cor de relâmpago
frutos da sombra e do esplendor
solidárias lâmpadas no deserto
animais animais à chuva à sombra
abrem o espaço ao desejo ao espaço
palavras dilacerando outras palavras
tronco e lua suor e sempre
tecla tábua espuma pedra
vocábulos que desfiguram as imagens
palavras que só amam a figura
da nudez mais completa
do intacto
1 105
António Ramos Rosa
Origem
É preciso queimar os livros e calarmo-nos
Esta é a matéria bárbara a matéria viscosa
Aqui a vida conduz a uma ruptura
a mão procura a suavidade firme
tacteia e segue as suas linhas de força as primícias de um acorde
Fascinante ameaça
veneno que oculta vida nova
uma seiva já
um sabor dos gestos que tremem e que sabem
A palavra mais viva é a mais inesperada é a palavra nua
Eis o domínio interdito e obscuro
impenetrável
balbuciante memória do que não é a memória
luz que irriga as coisas em vez de as iluminar
sinal de uma madrugada de uma irradiação múltipla
Aqui começará o meu ritmo a minha melodia
Respiro já pela garganta do poema
Deixamos a segurança e a certeza
ante o arco da única pergunta
Somos a ruptura e o fluxo na falha
e subimos talvez para
a vertente de um silêncio que ascende constelado
Subversiva é a respiração desta palavra
surpresa de um ritmo e de um espaço
numa terra sem caminho
É um fogo líquido que abrasa este trajecto
Uma fé muscular uma fé lúcida
faz latir estas palavras subterrâneas
Para chegar às palavras que dão vida
Por um desenlace uma inconfessável evidência
Uma plenitude? Uma luz? Uma pobreza?
Numa terra queimada as crianças que brincam na poeira
olham deslumbradas uma palheta de mica
Pára detém-te junto deste muro arruinado
perto de uma pedra Palpa o grão de luz
segregada Toca nessa crepitação porosa
Modela na origem a matéria dos sinais
Escreve mas para dissipar o que está escrito
Esta é a matéria bárbara a matéria viscosa
Aqui a vida conduz a uma ruptura
a mão procura a suavidade firme
tacteia e segue as suas linhas de força as primícias de um acorde
Fascinante ameaça
veneno que oculta vida nova
uma seiva já
um sabor dos gestos que tremem e que sabem
A palavra mais viva é a mais inesperada é a palavra nua
Eis o domínio interdito e obscuro
impenetrável
balbuciante memória do que não é a memória
luz que irriga as coisas em vez de as iluminar
sinal de uma madrugada de uma irradiação múltipla
Aqui começará o meu ritmo a minha melodia
Respiro já pela garganta do poema
Deixamos a segurança e a certeza
ante o arco da única pergunta
Somos a ruptura e o fluxo na falha
e subimos talvez para
a vertente de um silêncio que ascende constelado
Subversiva é a respiração desta palavra
surpresa de um ritmo e de um espaço
numa terra sem caminho
É um fogo líquido que abrasa este trajecto
Uma fé muscular uma fé lúcida
faz latir estas palavras subterrâneas
Para chegar às palavras que dão vida
Por um desenlace uma inconfessável evidência
Uma plenitude? Uma luz? Uma pobreza?
Numa terra queimada as crianças que brincam na poeira
olham deslumbradas uma palheta de mica
Pára detém-te junto deste muro arruinado
perto de uma pedra Palpa o grão de luz
segregada Toca nessa crepitação porosa
Modela na origem a matéria dos sinais
Escreve mas para dissipar o que está escrito
1 125
António Ramos Rosa
Nudez
O ar circula mais leve em toda a parte
Os sinais transmitem o silêncio habitável
*
É um sonho é um logro e é a presença viva
Brilha o brilho animal do ar imóvel
*
Cálida substância nova une a linguagem e a vida
varandas varandas sobre a água sobre o céu
*
Uma infinita plenitude uma infinita ligeireza
a beleza nua sem exaltação e incandescente
o lugar transparente uma clareira indivisa
*
Torre de pássaros e de barro e de ervas
torre fresquíssima obscura e clara
torre na margem extrema do mistério
tudo se compreende e tudo é incognoscível
Tudo passa tudo deriva e tudo é imóvel
Somos e não somos somos sempre mais
*
Aceita aceita a terra breve a única
que os deuses povoam na transparência breve
Aqui a terra revelou-se um horizonte aberto
e as palavras antigas reacendem-se
*
De novo é a primeira vez e a única
Luz primeira luz da terra primeiros lábios
sopro de fibras mais intensas mais ligeiras
e nomes mais simples mais animais mais nus
Os sinais transmitem o silêncio habitável
*
É um sonho é um logro e é a presença viva
Brilha o brilho animal do ar imóvel
*
Cálida substância nova une a linguagem e a vida
varandas varandas sobre a água sobre o céu
*
Uma infinita plenitude uma infinita ligeireza
a beleza nua sem exaltação e incandescente
o lugar transparente uma clareira indivisa
*
Torre de pássaros e de barro e de ervas
torre fresquíssima obscura e clara
torre na margem extrema do mistério
tudo se compreende e tudo é incognoscível
Tudo passa tudo deriva e tudo é imóvel
Somos e não somos somos sempre mais
*
Aceita aceita a terra breve a única
que os deuses povoam na transparência breve
Aqui a terra revelou-se um horizonte aberto
e as palavras antigas reacendem-se
*
De novo é a primeira vez e a única
Luz primeira luz da terra primeiros lábios
sopro de fibras mais intensas mais ligeiras
e nomes mais simples mais animais mais nus
1 146
António Ramos Rosa
Não Dissemos As Palavras Mais Simples
Não dissemos as palavras mais simples
a caligrafia das águas sobre a pedra uma pedra vacila verde
as árvores despertam dormem apertadas na concavidade do rumor
não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte
o trémulo deslumbramento da água jorrando lisa da terra
não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore
de claras malhas como um leopardo
não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes
as altas e negras flores nas varandas suspensas
não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo
as manhãs a meia-noite o turbilhão
do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro
onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre o mar vertical
a caligrafia das águas sobre a pedra uma pedra vacila verde
as árvores despertam dormem apertadas na concavidade do rumor
não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte
o trémulo deslumbramento da água jorrando lisa da terra
não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore
de claras malhas como um leopardo
não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes
as altas e negras flores nas varandas suspensas
não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo
as manhãs a meia-noite o turbilhão
do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro
onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre o mar vertical
1 157
António Ramos Rosa
A Metamorfose Branca
Por toda a parte
um corpo
o mesmo corpo
Para mutilar
Para eliminar
Por toda a parte
a anarquia do canto
dos nervos
da escrita
do único corpo?
O universo escreve-se no corpo
Tudo se escreve no corpo
A mulher o animal a noite intacta
a morte
a ferida permanente
(A mão fora do abismo tenta escrever ainda mas quê? Com que instrumento subtil paciente impaciente? Com que matéria? Em que rectângulo do ar recortado no vazio?)
Tudo desaparece
A nitidez da letra
apaga-se
no papel
Uma palavra subsiste uma marca
no corpo
no texto
A marca do corpo desfaz
o texto
que se apaga
e arde
de letra em letra
de ferida em ferida
Cruel nudez do texto e do corpo
do corpo perdido
fixo
na letra do texto
que o devora
que o desnuda
anula
O texto apaga-se
e acende-se
no limite
metamorfose da morte do corpo
vida do corpo impossível
em cada letra flui o sangue novo
da palavra do corpo
Uma ferida só uma longa ferida
de terra
vocábulo de sangue e pedra
………………………………………………
Este é o espaço mortal do corpo
Este é o corpo nascente e branco do vocábulo
Esta é a respiração da página
Constelações navios promessas
Sangue da metamorfose da palavra
No limiar do deserto as palavras de fogo branco são a cinza de um fogo perdido de um fogo a acender com a respiração do deserto ou do mar.
As palavras encrespam-se acendem-se ao vento que as despe e as despoja avivando com o ar vivo do sal e da areia a rosa de um dizer que nasce da incessante solidão da sua sede.
Os vocábulos são como um rumor de cavalos
adormecidos
e a sua brancura é vida
através da morte e do branco
Cada caminho de palavras na página
conduz-nos
a uma pedra
Esta pedra é a do sepulcro ou o sinal de um perpétuo adiamento
uma espera indefinida sem esperança
sinal de suspensão
que se anula
para que o caminho prossiga
de novo
as palavras vivem solitárias
o sal o vento e o sol despertam
uma boca ressequida e verde uma boca lenta longínqua de ócio fresco
Vivem as palavras
do suicídio da brancura
renascem brancas
espuma breve
de que pureza mortal
para que sede sempre insatisfeita
de um início de água
de uma linguagem de água
(A morte das palavras na página será a metamorfose que não foge à morte a vida a outra vida que seria o início sempre possível e impossível do nosso nascimento.)
Mas que palavras dirão a morte impossível inominável? Que morte é a morte da linguagem e do corpo? Simulacro aparência espectáculo fumo de palavras sem sangue e sem corpo
infinita e ridícula hemorragia em torno de um ponto
morto que nada reflecte nem o eco sequer de qualquer vida. Por momentos e num espaço que logo se olvida a palavra morre com a morte sem a morte irrecuperável soberana
o hiato aqui é inenarrável
A linguagem renascerá além na margem fria da manhã
A linguagem será o corpo o corpo nu(lo)
O corpo de metamorfose é o corpo que já não pertence à vida nem à morte tornou-se na linguagem obscura e branca de cada vocábulo fechado e aberto como uma ferida. Quem fala é a língua desta morte-vida aqui e para além sempre no limiar do inacessível. Milhares de pálpebras se fecham sob cada palavra que se levanta e o silêncio desses olhos perturba a palavra, torna-a ilegível na sua legibilidade
O vocábulo não é plano e liso Nos seus subterrâneos milhares de vozes se calaram para que o vocábulo emergisse como a palavra da metamorfose no limiar do nada
Na sua impossibilidade esta é a única voz que atravessa o inexorável a voz paciente e sôfrega ardente e impaciente a voz que espera sem esperança
um corpo
o mesmo corpo
Para mutilar
Para eliminar
Por toda a parte
a anarquia do canto
dos nervos
da escrita
do único corpo?
O universo escreve-se no corpo
Tudo se escreve no corpo
A mulher o animal a noite intacta
a morte
a ferida permanente
(A mão fora do abismo tenta escrever ainda mas quê? Com que instrumento subtil paciente impaciente? Com que matéria? Em que rectângulo do ar recortado no vazio?)
Tudo desaparece
A nitidez da letra
apaga-se
no papel
Uma palavra subsiste uma marca
no corpo
no texto
A marca do corpo desfaz
o texto
que se apaga
e arde
de letra em letra
de ferida em ferida
Cruel nudez do texto e do corpo
do corpo perdido
fixo
na letra do texto
que o devora
que o desnuda
anula
O texto apaga-se
e acende-se
no limite
metamorfose da morte do corpo
vida do corpo impossível
em cada letra flui o sangue novo
da palavra do corpo
Uma ferida só uma longa ferida
de terra
vocábulo de sangue e pedra
………………………………………………
Este é o espaço mortal do corpo
Este é o corpo nascente e branco do vocábulo
Esta é a respiração da página
Constelações navios promessas
Sangue da metamorfose da palavra
No limiar do deserto as palavras de fogo branco são a cinza de um fogo perdido de um fogo a acender com a respiração do deserto ou do mar.
As palavras encrespam-se acendem-se ao vento que as despe e as despoja avivando com o ar vivo do sal e da areia a rosa de um dizer que nasce da incessante solidão da sua sede.
Os vocábulos são como um rumor de cavalos
adormecidos
e a sua brancura é vida
através da morte e do branco
Cada caminho de palavras na página
conduz-nos
a uma pedra
Esta pedra é a do sepulcro ou o sinal de um perpétuo adiamento
uma espera indefinida sem esperança
sinal de suspensão
que se anula
para que o caminho prossiga
de novo
as palavras vivem solitárias
o sal o vento e o sol despertam
uma boca ressequida e verde uma boca lenta longínqua de ócio fresco
Vivem as palavras
do suicídio da brancura
renascem brancas
espuma breve
de que pureza mortal
para que sede sempre insatisfeita
de um início de água
de uma linguagem de água
(A morte das palavras na página será a metamorfose que não foge à morte a vida a outra vida que seria o início sempre possível e impossível do nosso nascimento.)
Mas que palavras dirão a morte impossível inominável? Que morte é a morte da linguagem e do corpo? Simulacro aparência espectáculo fumo de palavras sem sangue e sem corpo
infinita e ridícula hemorragia em torno de um ponto
morto que nada reflecte nem o eco sequer de qualquer vida. Por momentos e num espaço que logo se olvida a palavra morre com a morte sem a morte irrecuperável soberana
o hiato aqui é inenarrável
A linguagem renascerá além na margem fria da manhã
A linguagem será o corpo o corpo nu(lo)
O corpo de metamorfose é o corpo que já não pertence à vida nem à morte tornou-se na linguagem obscura e branca de cada vocábulo fechado e aberto como uma ferida. Quem fala é a língua desta morte-vida aqui e para além sempre no limiar do inacessível. Milhares de pálpebras se fecham sob cada palavra que se levanta e o silêncio desses olhos perturba a palavra, torna-a ilegível na sua legibilidade
O vocábulo não é plano e liso Nos seus subterrâneos milhares de vozes se calaram para que o vocábulo emergisse como a palavra da metamorfose no limiar do nada
Na sua impossibilidade esta é a única voz que atravessa o inexorável a voz paciente e sôfrega ardente e impaciente a voz que espera sem esperança
1 042
António Ramos Rosa
Dizem Que É Jardim
Dizem que é jardim
porque repousa
E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas
Mas que dizer da trama
em movimento?
Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha
porque repousa
E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas
Mas que dizer da trama
em movimento?
Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha
944
António Ramos Rosa
A Distracção do Vento
A distracção do vento ou a despreocupação pelos obstáculos até à dissipação no ar. Vento, esquecimento vivo, cegueira activa do ar. As palavras terão alguma vez esta respiração fluida de uma dança rebelde, livre? A sede do ar sufoca as palavras ou liberta-as? É o branco sempre, errante e puro, que lavra este grande lábio mutilado que é a palavra no limiar do vazio e do silêncio? A linguagem é um animal equívoco que voa sobre a areia do deserto num voo raso de elipse ou a sombra de um puro momento de ruptura indescritível? A ausência devasta a linguagem, até que ela se torne o sopro da brancura e da única vida que não soçobra na sua própria sombra? Os vocábulos respiram quando a distância os liberta da sua presença opaca restituindo-os à fragilidade de um sopro e de uma transparência livre e nunca literal. No corpo das palavras pressente-se o imperceptível ardor de um fluxo discreto, mínimo, como a pulsação de um pulso de insecto, indemonstrável, secreto.
1 068
António Ramos Rosa
Ruptura/Continuidade
Cansei-me não das palavras, nem da vida, cansei-me. Cansei-me da linguagem, não do real. Cansei-me da realidade, não da linguagem. Nunca me cansei, nunca pude cansar-me na (da) realidade. Impossível ter-me cansado se nunca caminhei sobre a língua, sobre a lande, sobre a glande. Que digo eu, que diz a linguagem? Diz a língua urgente, a beleza urgente a pique, a orientação viva? Que é o poema, que é a língua? Perguntas só por perguntar ou porque não há respostas, não há caminho, não há cama, não há coma? O que há é linguagem, é a visão de um ininteligível fragmento do real. Tu viajaste. Nunca saíste do teu quarto. Nunca viajaste no teu quarto. Ignoras o espaço, o eros do espaço. Ignoras o espaço. A linguagem apresenta-te, representa-te a árvore, a pedra, a água, o linho e a seda de um corpo, o rictus da máscara, o ritmo do real inatingível. A linguagem é um corpo vivo, mas também é eloquência, grandiloquência, verbo inflado, empolamento de útero sem nascimento, válvula de hemorragias. Cansaste-te não do sémen nem da disseminação (da utopia) da linguagem, mas das suas versões eloquentes, demasiado belas para poderem corresponder ao (quase) imperceptível murmúrio da realidade? A realidade é linguagem, a linguagem é realidade? Porque te emaranhas nos círculos do inferno cerebral? Não é a realidade que procuras, a realidade natural, a realidade animal, a realidade sensual? Sai, se puderes, deste poema vicioso, abre a janela (abre-a, se puderes) abre e respira. Respira a linguagem (do real), respira o poema (real), não, não podes respirar sem a linguagem, não podes abrir a janela sem romperes o cordão que te liga ao umbigo deste poema fétido que se cerra e que se abre mas que não é como uma pálpebra nem como um lábio, que não é nada, nada, nada, pois nem é um grito, nem uma gruta, nem uma trave, nem uma pedra. A linguagem desdiz tudo o que diz e desdizendo diz. É preciso apagar este poema, enterrá-lo na areia como um animal e que dele reste só a areia redemoinhando acima do focinho que tenta a sufocada respiração. Acima da respiração. A linguagem que respira é o verbo da erva, a palavra verde que murmura e nada diz se diz o nada, o imperceptível sorriso das coisas que não choraram, a alacridade eterna ( efémera) de uma chama, de um espaço, de um corpo.
1 158
António Ramos Rosa
A (I)Legibilidade do Livro
O livro está aberto e há demasiada luz.
Tudo o que tu escreves está contido nesse livro de letras brancas como a tua morte.
Será possível ler o sol e o silêncio desse livro branco eternamente branco e silencioso?
Como conter a ávida necessidade de devorá-lo como se o livro pudesse matar-nos a irredutível fome de uma linguagem legível e luminosa?
Estamos perante a impossibilidade de ler por um excesso de luz que é a um tempo a nossa morte e a improvável possibilidade de escrever o que não vemos, de ler o que não lemos.
Devoramos o livro e com os olhos cegos de brancura transformamos a impossível leitura na escrita de uns signos imediatos que nos devolvem a linguagem da luz apagada pela luz.
Tudo o que tu escreves está contido nesse livro de letras brancas como a tua morte.
Será possível ler o sol e o silêncio desse livro branco eternamente branco e silencioso?
Como conter a ávida necessidade de devorá-lo como se o livro pudesse matar-nos a irredutível fome de uma linguagem legível e luminosa?
Estamos perante a impossibilidade de ler por um excesso de luz que é a um tempo a nossa morte e a improvável possibilidade de escrever o que não vemos, de ler o que não lemos.
Devoramos o livro e com os olhos cegos de brancura transformamos a impossível leitura na escrita de uns signos imediatos que nos devolvem a linguagem da luz apagada pela luz.
1 021
António Ramos Rosa
Sobre a Ignorância Originária
Eu não sei nada, aí está o que eu desejaria dizer.
Tudo o que dizes está para além da ignorância originária. Assim, o que tu não podes ser é esse ignorante que tu negas em cada palavra.
Não porque saiba demais mas porque sei. Como falar a partir dessa ignorância primeira?
Há por vezes um latido verde nas palavras, um latido quase nulo. Outras vezes será talvez um latido branco.
Há uma linguagem originária que é a da própria ignorância animal, a linguagem mais equívoca, tão sinuosa e esquiva como uma serpente.
O desejo da escrita conduz-te, de sombra em sombra, a uma elipse em que a linguagem e o eu se apagam. No silêncio do fogo, ouvem-se então crepitar as consoantes flexíveis, as vogais femininas.
As palavras transfiguram o exílio e constituem o incessante êxodo para a transfiguração da linguagem animal, a linguagem mais densa, mais nua…
A simplicidade é como um olhar aberto sobre o espaço.
Não há então diferença entre o legível e o ilegível.
Transparência do opaco, transparência da ilegibilidade, ou antes legibilidade da linguagem animal?
Tudo o que dizes está para além da ignorância originária. Assim, o que tu não podes ser é esse ignorante que tu negas em cada palavra.
Não porque saiba demais mas porque sei. Como falar a partir dessa ignorância primeira?
Há por vezes um latido verde nas palavras, um latido quase nulo. Outras vezes será talvez um latido branco.
Há uma linguagem originária que é a da própria ignorância animal, a linguagem mais equívoca, tão sinuosa e esquiva como uma serpente.
O desejo da escrita conduz-te, de sombra em sombra, a uma elipse em que a linguagem e o eu se apagam. No silêncio do fogo, ouvem-se então crepitar as consoantes flexíveis, as vogais femininas.
As palavras transfiguram o exílio e constituem o incessante êxodo para a transfiguração da linguagem animal, a linguagem mais densa, mais nua…
A simplicidade é como um olhar aberto sobre o espaço.
Não há então diferença entre o legível e o ilegível.
Transparência do opaco, transparência da ilegibilidade, ou antes legibilidade da linguagem animal?
1 109
António Ramos Rosa
O Deus Dos Teus Dedos
Repara, o teu deus não é mais que o deus dos teus dedos, o silêncio da tua mão nua.
A impossível brancura.
Tu caminhas e segredas.
O que desejas, para passar a noite, é encontrar um pobre caminho de cabras, uma vereda de pedras solitária.
Tu persistes e insistes, como se a distância se abrisse luminosa e ao mesmo tempo fosse a secreta sombra dos vocábulos.
O que te separa das mãos e dos ombros, o que mais te dói sem o saberes, é a separação da ferida que a palavra abre e renova em cada sílaba.
O murmúrio do branco combina-se com o murmúrio da sombra e assim se forma uma penumbra das mãos, esse silencioso vagar do silêncio do sol.
Mas há uma urgência do grito que é urgência da vida. Tudo se constrói em torno da ferida.
A tua mão corre à procura da mão que se forma, a mão viva que é mais do que uma chave e do que uma porta.
Tudo o que escreves nasce do campo móvel e branco da página. É essa a tua morte, o secreto vazio que desnuda, que deixa a ferida aberta em cada sílaba.
Se uma boca ou uma mão se desenha neste rectângulo de água, és tu e eu que se tocam, se interpenetram e mutuamente se dessedentam.
Todo o encontro é a dicção de um silêncio.
A impossível brancura.
Tu caminhas e segredas.
O que desejas, para passar a noite, é encontrar um pobre caminho de cabras, uma vereda de pedras solitária.
Tu persistes e insistes, como se a distância se abrisse luminosa e ao mesmo tempo fosse a secreta sombra dos vocábulos.
O que te separa das mãos e dos ombros, o que mais te dói sem o saberes, é a separação da ferida que a palavra abre e renova em cada sílaba.
O murmúrio do branco combina-se com o murmúrio da sombra e assim se forma uma penumbra das mãos, esse silencioso vagar do silêncio do sol.
Mas há uma urgência do grito que é urgência da vida. Tudo se constrói em torno da ferida.
A tua mão corre à procura da mão que se forma, a mão viva que é mais do que uma chave e do que uma porta.
Tudo o que escreves nasce do campo móvel e branco da página. É essa a tua morte, o secreto vazio que desnuda, que deixa a ferida aberta em cada sílaba.
Se uma boca ou uma mão se desenha neste rectângulo de água, és tu e eu que se tocam, se interpenetram e mutuamente se dessedentam.
Todo o encontro é a dicção de um silêncio.
1 109
António Ramos Rosa
A Esperança do Livro
Como um painel, soerguendo-se da névoa marinha, um busto vermelho, carcomido, a boca hiante, de um mistério vazio. A meus pés, um exército de formigas negras procura, num árido frenesim, o caminho para a pedra. A orla branca de espuma, as vagas que rolam violentas, impedem o acesso do negro exército de insectos.
Quem poderá escutar da boca daquela divindade algo para além da sua mudez de morte? O seu frio eco trespassa-me de horror, a distância perdida torna-se fúnebre. As máscaras encobrem em vão o inexorável.
«Onde está a esperança?» alguém grita ou seria apenas o amplo espaço que flamejara? Era um esplendor cruel e o grito, se alguém o gritara, logo fora varrido pela força do vento. Alguém no entanto gritara: «Não feches o livro.» Respondi: «Virei todas as páginas sem encontrar a esperança.» A voz pronunciara ainda algumas palavras de um além da bruma: «A esperança é talvez o livro.»
Cansara-me de fitar a carcaça de pedra vermelha, olhos e boca abertos por onde entravam o sol e a água. A tenacidade da ruína muda aterrorizava-me. Mas além da bruma eu ouvia a voz de uma possível esperança. Era preciso atravessar a inexorável claridade e procurar na tarde a merenda que me desse o alento para prolongar o livro. As folhas escritas pesavam sobre o dorso direito; as folhas brancas curvavam o ombro esquerdo. Desejava libertar-me das primeiras, como de um fardo, mas as outras, na vertigem do possível, tornam a marcha ébria, de um vagabundo prenhe do murmúrio de todas as palavras que um dia seriam o Livro, que já o eram no passo ligeiro em que caminhava através da bruma.
Quem poderá escutar da boca daquela divindade algo para além da sua mudez de morte? O seu frio eco trespassa-me de horror, a distância perdida torna-se fúnebre. As máscaras encobrem em vão o inexorável.
«Onde está a esperança?» alguém grita ou seria apenas o amplo espaço que flamejara? Era um esplendor cruel e o grito, se alguém o gritara, logo fora varrido pela força do vento. Alguém no entanto gritara: «Não feches o livro.» Respondi: «Virei todas as páginas sem encontrar a esperança.» A voz pronunciara ainda algumas palavras de um além da bruma: «A esperança é talvez o livro.»
Cansara-me de fitar a carcaça de pedra vermelha, olhos e boca abertos por onde entravam o sol e a água. A tenacidade da ruína muda aterrorizava-me. Mas além da bruma eu ouvia a voz de uma possível esperança. Era preciso atravessar a inexorável claridade e procurar na tarde a merenda que me desse o alento para prolongar o livro. As folhas escritas pesavam sobre o dorso direito; as folhas brancas curvavam o ombro esquerdo. Desejava libertar-me das primeiras, como de um fardo, mas as outras, na vertigem do possível, tornam a marcha ébria, de um vagabundo prenhe do murmúrio de todas as palavras que um dia seriam o Livro, que já o eram no passo ligeiro em que caminhava através da bruma.
1 006
António Ramos Rosa
Para Unir o Ar Ao Ar
Para unir o ar ao ar nos cimos cintilantes…
Talvez a morte ou o lapso inesperado, o vazio vegetal e essa frescura, essa fractura insondável, o húmus da morte.
O princípio será o regresso, a restituição de um fundo imemorial ou a noite iminente, a noite desconhecida e inabolível?
Tudo está pensado, tudo está escavado e completo. Ter a coragem de deixar a sombra ascender aos olhos e que a surpresa nasça do fundo mais sombrio, dos lábios mais espessos como pétalas atrozes.
Para avançar no escuro é necessário que o pensamento se liberte da sua própria matriz. Já não há reflexos, já não há raízes. Que traços poderá ter agora uma figura onde tudo se desfigurou?
Tudo se resume em qualquer coisa de árido e de frio.
Se amas a música, terás de compreender que aqui principia a primeira dissonância, a primeira ruptura…
É esse o círculo da loucura onde a claridade e a sombra se confundem.
E estas folhas desesperadas, estas letras que se propagam como animais mutilados? Delas jorra a única claridade que é distância inacessível, distância incessante, mas distância inicial.
Talvez a morte ou o lapso inesperado, o vazio vegetal e essa frescura, essa fractura insondável, o húmus da morte.
O princípio será o regresso, a restituição de um fundo imemorial ou a noite iminente, a noite desconhecida e inabolível?
Tudo está pensado, tudo está escavado e completo. Ter a coragem de deixar a sombra ascender aos olhos e que a surpresa nasça do fundo mais sombrio, dos lábios mais espessos como pétalas atrozes.
Para avançar no escuro é necessário que o pensamento se liberte da sua própria matriz. Já não há reflexos, já não há raízes. Que traços poderá ter agora uma figura onde tudo se desfigurou?
Tudo se resume em qualquer coisa de árido e de frio.
Se amas a música, terás de compreender que aqui principia a primeira dissonância, a primeira ruptura…
É esse o círculo da loucura onde a claridade e a sombra se confundem.
E estas folhas desesperadas, estas letras que se propagam como animais mutilados? Delas jorra a única claridade que é distância inacessível, distância incessante, mas distância inicial.
1 061
António Ramos Rosa
A Voz do Excesso
Se disseres precipício, poderás dizer, talvez, superfície, talvez pálpebra, talvez ombro…
Não possui a palavra uma imediatez carnal, não é ela umbigo e boca, ritual de uma ressonância entre um e outro, o um no outro, como uma lâmpada na pele?
O desejo da escrita não será o desejo de percorrer um corpo poro a poro, uma língua com a sua língua?
Que a linguagem se espraie como uma onda, como um conjunto de ondas amorosas…
Como uma textura, e não como um texto, a superfície da página sua, sangra, dissemina o suor, o sangue, o sémen.
Não é a língua a voz do excesso intraduzível, o reconhecimento do mundo como excesso?
A um tempo fabulosa e árida, a linguagem despoja o vocábulo, sílaba por sílaba, até atingir a (in)consistência do ínfimo, o segredo não-segredo da irredutível superfície.
Eis que chove sobre a pedra e a pedra é espaço, o murmúrio de uma distância que a palavra transforma na sua própria densidade.
A palavra não cessa, não se interrompe porque é a continuidade imperceptível do mundo subterrâneo. É a respiração da terra.
Não possui a palavra uma imediatez carnal, não é ela umbigo e boca, ritual de uma ressonância entre um e outro, o um no outro, como uma lâmpada na pele?
O desejo da escrita não será o desejo de percorrer um corpo poro a poro, uma língua com a sua língua?
Que a linguagem se espraie como uma onda, como um conjunto de ondas amorosas…
Como uma textura, e não como um texto, a superfície da página sua, sangra, dissemina o suor, o sangue, o sémen.
Não é a língua a voz do excesso intraduzível, o reconhecimento do mundo como excesso?
A um tempo fabulosa e árida, a linguagem despoja o vocábulo, sílaba por sílaba, até atingir a (in)consistência do ínfimo, o segredo não-segredo da irredutível superfície.
Eis que chove sobre a pedra e a pedra é espaço, o murmúrio de uma distância que a palavra transforma na sua própria densidade.
A palavra não cessa, não se interrompe porque é a continuidade imperceptível do mundo subterrâneo. É a respiração da terra.
1 097
António Ramos Rosa
Olhar Sem Olhar
Em qualquer parte, talvez, uma palavra arde. Um acto do universo, não uma palavra, mas uma palavra ainda: a chuva cai sobre as cores, lava os pórticos, refresca os deuses. O que me atrai são os confusos indícios de uma prosa marinha, os fluxos, os matizes, as pausas, as minúcias de uma música que se esvai ao mesmo tempo que se abate sobre a muralha a grande ressaca de uma outra escrita ou contra-escrita. Quero seguir o bulício mais vivo de uma outra cidade que nunca vi. As manchas das casas revelariam as relações que só se distinguem nos indefiníveis intervalos em que a morte de súbito se extingue e um rosto intacto se entremostra. Há uma limpidez exacta e uma vivacidade mate nos murmúrios e nas cenas, nas sombras e surpresas. Então, num impulso de atenção outra, cega e vidente, a mão levanta-se e compreende o intenso e inenarrável momento de aliança completa entre o corpo e a terra, entre as sombras e a claridade.
1 038
António Ramos Rosa
Como Se Uma Só Palavra
Como se uma só palavra tumultuasse no deserto, uma palavra em branco, uma palavra devorada pelo branco.
Não há outro lugar para a palavra, ombro, sombra, sol, mulher, ritmo, inteligência…
Todas as letras respiram e morrem asfixiadas no deserto da página.
A palavra é um animal que se revela contra a sua sombra. Mas a sombra habita-a e é a sua opacidade que lhe dá espessura.
Assim a palavra luta contra o branco.
Mas o branco da página é também o que impele a palavra a alimentar-se do vazio e a procurar aí a nudez e a transparência do ilegível.
A palavra deverá ser um animal de luz. O animal branco da página.
A página por vezes é toda negra ou completamente branca. Se algo respira, se algo vive, algo principia e é talvez uma palavra que encontra outra palavra.
A escrita é um jogo de luzes e de sombras.
A ascensão da palavra é sempre plana. Ela respira pelo contacto com a superfície.
A respiração da palavra é a respiração do deserto.
O que subsiste, como o rosto da página, sem imagens, é um lampejo da luz ou uma sombra esparsa.
A sede infinita, o vazio do deserto.
Não há outro lugar para a palavra, ombro, sombra, sol, mulher, ritmo, inteligência…
Todas as letras respiram e morrem asfixiadas no deserto da página.
A palavra é um animal que se revela contra a sua sombra. Mas a sombra habita-a e é a sua opacidade que lhe dá espessura.
Assim a palavra luta contra o branco.
Mas o branco da página é também o que impele a palavra a alimentar-se do vazio e a procurar aí a nudez e a transparência do ilegível.
A palavra deverá ser um animal de luz. O animal branco da página.
A página por vezes é toda negra ou completamente branca. Se algo respira, se algo vive, algo principia e é talvez uma palavra que encontra outra palavra.
A escrita é um jogo de luzes e de sombras.
A ascensão da palavra é sempre plana. Ela respira pelo contacto com a superfície.
A respiração da palavra é a respiração do deserto.
O que subsiste, como o rosto da página, sem imagens, é um lampejo da luz ou uma sombra esparsa.
A sede infinita, o vazio do deserto.
1 175
António Ramos Rosa
Entre o Sol E a Lua
procura-se um segredo solar
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
1 048
António Ramos Rosa
A Superfície da Página
Seule l’écriture maintient le regard de
l’écrivain à la surface.
EDMOND JABÈS
Escrevo com estas moedas que nada simbolizam e que se elevam e avançam na superfície lisa da página, no dorso ondulante do deserto. É esta superfície que me tenta, como se uma escrita de água percorresse o deserto em cada sílaba, como se em cada letra deflagrasse o escuro sol da sombra. Escrevo sem acreditar, escrevo, isto é, vou de sombra em sombra, apago-me e apago a ordem do discurso, as peremptórias leis dos homens. Há uma palavra que viaja no mar, há uma palavra viva no espaço, no rumor da vida, no silêncio inominável das coisas. Essa palavra não está longe de nenhuma palavra, todas as palavras se dirigem para ela, todas elas morrem e estremecem por essa única palavra que povoa os espaços e os vocábulos. O sol e o mar, os animais, as estrelas, a luz e a noite, tudo se contém, freme e adeja como se na página um pássaro de vento de súbito surgisse, visível, invisível, vivo e apagado como uma sombra branca. Entre as margens e os intervalos das linhas gera-se uma comunicação e é o branco que raia num sentido ou as sombras de súbito se encontram e resplandecem. Este fogo, esta luz, esta pulsação animal, esta sombra fulgurante são a própria substância escrita mas igualmente o segredo incomunicável, a palpitação única de um lábio materno, de uma vegetação elementar, de uma terra secreta e original. Eis que sinto a vida nova dos vocábulos, a sua vocação vocálica, a sua alma livre, a sua orientação seminal. São os vocábulos que perpassam sobre os abismos brancos e as espirais da loucura, são eles que, nas suas volutas, na sua corrente vivaz e obstinada abrem um caminho e criam a possibilidade da infinita palavra impossível.
l’écrivain à la surface.
EDMOND JABÈS
Escrevo com estas moedas que nada simbolizam e que se elevam e avançam na superfície lisa da página, no dorso ondulante do deserto. É esta superfície que me tenta, como se uma escrita de água percorresse o deserto em cada sílaba, como se em cada letra deflagrasse o escuro sol da sombra. Escrevo sem acreditar, escrevo, isto é, vou de sombra em sombra, apago-me e apago a ordem do discurso, as peremptórias leis dos homens. Há uma palavra que viaja no mar, há uma palavra viva no espaço, no rumor da vida, no silêncio inominável das coisas. Essa palavra não está longe de nenhuma palavra, todas as palavras se dirigem para ela, todas elas morrem e estremecem por essa única palavra que povoa os espaços e os vocábulos. O sol e o mar, os animais, as estrelas, a luz e a noite, tudo se contém, freme e adeja como se na página um pássaro de vento de súbito surgisse, visível, invisível, vivo e apagado como uma sombra branca. Entre as margens e os intervalos das linhas gera-se uma comunicação e é o branco que raia num sentido ou as sombras de súbito se encontram e resplandecem. Este fogo, esta luz, esta pulsação animal, esta sombra fulgurante são a própria substância escrita mas igualmente o segredo incomunicável, a palpitação única de um lábio materno, de uma vegetação elementar, de uma terra secreta e original. Eis que sinto a vida nova dos vocábulos, a sua vocação vocálica, a sua alma livre, a sua orientação seminal. São os vocábulos que perpassam sobre os abismos brancos e as espirais da loucura, são eles que, nas suas volutas, na sua corrente vivaz e obstinada abrem um caminho e criam a possibilidade da infinita palavra impossível.
1 267
António Ramos Rosa
Ao Nível Das Raízes
Sorvo uma onda verde sem consciência e todas as formas flutuam.
As palavras levantam-se com pequenas cabeças negras.
Oiço um diminuto fragor de grãos de areia ou de milhares de insectos ou de formas que vão despertar ou de pedras que se erguerão como uma torre incandescente.
Escrevo na obscuridade da folhagem ao nível das raízes.
Uma palavra suspende-se, tremula e tenta fixar-se como uma sombra febril.
Escrevo ao sopro de uma promessa em que tudo se torna presságio, iminência, vinho do vento e língua de uma transparência que nunca é tempo nem presença, mas o imperceptível instante que alia a nostalgia e a promessa.
As palavras levantam-se com pequenas cabeças negras.
Oiço um diminuto fragor de grãos de areia ou de milhares de insectos ou de formas que vão despertar ou de pedras que se erguerão como uma torre incandescente.
Escrevo na obscuridade da folhagem ao nível das raízes.
Uma palavra suspende-se, tremula e tenta fixar-se como uma sombra febril.
Escrevo ao sopro de uma promessa em que tudo se torna presságio, iminência, vinho do vento e língua de uma transparência que nunca é tempo nem presença, mas o imperceptível instante que alia a nostalgia e a promessa.
1 099
António Ramos Rosa
Oscilação No Branco
A oscilação quase, quase pressentida, de um vocábulo ou de uma lâmpada branca. Mas o que oscila, invisível (quase?) não é palavra nem objecto. Poderá ser para um efeito poético uma nuvem ou uma sombra. Não é nada. Nem sequer oscila. Quem escreve sente a matéria gráfica e o branco da superfície da página. O que se passa? Alguém expira. O silêncio é feito da sufocação de uma impossível agonia. Ao sol. Na plenitude do sol. Na plenitude do branco. O que, talvez, oscile será o sentido absoluto de que livro, de que estranha estranheza e ilegível livro? Nenhuma frase pode corresponder à agonia dos que já não podem morrer e sucumbem infindavelmente na sua impossível morte. Nenhuma frase, nenhuma palavra… mas a brancura do sentido que a um tempo corrói e exalta os vocábulos, não é para a definitiva nudez que aponta sem que no entanto a possa alguma vez dizer?
1 116
António Ramos Rosa
Na Sequência Viva
O que tu lês é/será uma música da folhagem, não do lábio sôfrego, não do fôlego exausto. O que procuramos está no vento que se vai levantar, na seiva e no sangue dos dois lábios amantes, o teu e o meu, na sequência viva da substância escrita, homogénea, heterogénea. O que arde é a chama do silêncio do não-lugar que é clareira e cimo, vértice e prumo de uma linguagem enamorada do rosto de cada palavra, das veias da árvore que nos ergue à transparência oculta de cada folha. O instante, na sua aérea fugacidade, o espaço na sua disseminação amante, requer a confiança sem delírio nem vertigem, um silêncio que não é o silêncio mas a sombra da claridade que cada palavra cria no seu descoberto caminho.
1 194