Poemas neste tema
Literatura e Palavras
António Ramos Rosa
O Personagem Não Existe Sem Paisagem
O personagem não existe sem paisagem.
O personagem é imponderável.
Uma conjectura, uma pergunta:
Sem um guarda-chuva e sem um rosto.
E todavia, como não
vê-lo?
Mais do que um vulto
a figura se desenha entre as palavras.
Talvez respire e ouse
e o Tempo o Espaço o configurem.
Talvez empunhe enfim o guarda-chuva.
O personagem é imponderável.
Uma conjectura, uma pergunta:
Sem um guarda-chuva e sem um rosto.
E todavia, como não
vê-lo?
Mais do que um vulto
a figura se desenha entre as palavras.
Talvez respire e ouse
e o Tempo o Espaço o configurem.
Talvez empunhe enfim o guarda-chuva.
1 050
António Ramos Rosa
O Personagem Viola As Leis da Tarde
O personagem viola as leis da tarde
e é ele a tarde mesma, o seu desvio.
As andorinhas morrem. Ele revive
na paixão da palavra: a andorinha.
Não se eleva jamais do rasto frio
que tem o dia. Mas junta-lhe outro fio
e outro calor que é a cor de outras palavras,
cores da cor, numa unidade múltipla.
Surge o jornal do dia azul e verde,
surge a glória de um sol na cabeleira
da rapariga à esquina, zebra alta,
gozo do dia e rapidez do vento.
e é ele a tarde mesma, o seu desvio.
As andorinhas morrem. Ele revive
na paixão da palavra: a andorinha.
Não se eleva jamais do rasto frio
que tem o dia. Mas junta-lhe outro fio
e outro calor que é a cor de outras palavras,
cores da cor, numa unidade múltipla.
Surge o jornal do dia azul e verde,
surge a glória de um sol na cabeleira
da rapariga à esquina, zebra alta,
gozo do dia e rapidez do vento.
703
António Ramos Rosa
Como Findar No Intervalo…
Como findar no intervalo quando o incessante é o princípio, quando a palavra desliza no indelével bordo do vazio, obscuro sussurro do silêncio, o branco fogo se ateia no silêncio, branco e quase e já cinzento.
1 166
António Ramos Rosa
O Sol Negro o Sol Branco
Pedras sombras árvores. Palavras
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
632
António Ramos Rosa
Não Reflectir Não Pousar Isto É Uma
Não reflectir não pousar isto é uma
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
1 013
António Ramos Rosa
Escrever
Escrever para
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar
Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte
Escrever E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar
Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte
Escrever E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
616
António Ramos Rosa
Não É o Meu Amigo Ou Semelhante,
Não é o meu amigo ou semelhante,
não é mais que um projecto, uma passagem.
Ele marca-me com a sua ausência
e todavia
ele é a evidência do processo.
Se o encontrasse, não, não o encontraria.
E ele diz-me bom-dia agora mesmo.
Por ironia? Não. Porque se escreve
sob
o obscuro impulso
que o transforma
nas palavras mesmas com que o vejo.
não é mais que um projecto, uma passagem.
Ele marca-me com a sua ausência
e todavia
ele é a evidência do processo.
Se o encontrasse, não, não o encontraria.
E ele diz-me bom-dia agora mesmo.
Por ironia? Não. Porque se escreve
sob
o obscuro impulso
que o transforma
nas palavras mesmas com que o vejo.
536
António Ramos Rosa
É a Superfície o Que Se Passa À Superfície
É a superfície o que se passa à superfície
língua folhagem
instantâneo caminho sopro
de sinais
E dizer é aqui no muro
no escuro da pedra
uma visão que dilucida a fome
das mãos
e torna a precária erva um bem dizível
É o que passa e jorra não sei de
que lado do silêncio que ilumina
a macia terra cega
e não só lâmpada não só arco ou anca
mas a mesa árida mas o rosto de lama
língua folhagem
instantâneo caminho sopro
de sinais
E dizer é aqui no muro
no escuro da pedra
uma visão que dilucida a fome
das mãos
e torna a precária erva um bem dizível
É o que passa e jorra não sei de
que lado do silêncio que ilumina
a macia terra cega
e não só lâmpada não só arco ou anca
mas a mesa árida mas o rosto de lama
1 123
António Ramos Rosa
Atravessar o Deserto
Repetem-se as palavras como a erva.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
1 273
António Ramos Rosa
Amamos Num Vislumbre Terra Suspensa
Amamos num vislumbre terra suspensa
chamamos limiar a esta chama
e uma ideia de fogo branco habita o pulso
um vaso negro irradia sobre o branco
Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua
Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite
chamamos limiar a esta chama
e uma ideia de fogo branco habita o pulso
um vaso negro irradia sobre o branco
Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua
Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite
1 029
António Ramos Rosa
O Momento De
Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.
Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?
Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.
Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?
Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
1 175
António Ramos Rosa
Entre o Frio E o Sol
A casa, a luz, o espaço.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
1 045
António Ramos Rosa
A Palavra No Deserto
à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
629
António Ramos Rosa
A Mais Simples Palavra
a Maria João Fernandes
A mais simples palavra
nesse lugar-limite
constituído de evidências, sucessivas folhas
no exercício da espera
sobre as pedras nuas
a palavra do exílio ou o ar na ferida
aroma do momento imóvel
o espaço no rosto
a limpidez dos dedos
entre as ervas
e
nada
— imóvel lugar
sem a língua loquaz
momento de luz ocre
num muro do tempo
na
amplitude visível
ao ritmo da respiração silenciosa
A mais simples palavra
nesse lugar-limite
constituído de evidências, sucessivas folhas
no exercício da espera
sobre as pedras nuas
a palavra do exílio ou o ar na ferida
aroma do momento imóvel
o espaço no rosto
a limpidez dos dedos
entre as ervas
e
nada
— imóvel lugar
sem a língua loquaz
momento de luz ocre
num muro do tempo
na
amplitude visível
ao ritmo da respiração silenciosa
1 146
António Ramos Rosa
O Suporte Livre Inicial
O suporte livre inicial
no avanço imediato no silêncio do ar
aqui e mais à frente ainda sempre
o excesso novo de cada vez ser ar
no extremo do corpo e no limite insondável
o caminho e uma pergunta a que responde o ar
o avanço e um regresso às origens da língua
a língua toda ela língua de ar
no avanço imediato no silêncio do ar
aqui e mais à frente ainda sempre
o excesso novo de cada vez ser ar
no extremo do corpo e no limite insondável
o caminho e uma pergunta a que responde o ar
o avanço e um regresso às origens da língua
a língua toda ela língua de ar
1 107
António Ramos Rosa
Um Sorriso No Silêncio
a Jorge de Sena
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.
Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?
Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!
Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.
Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?
Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!
Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
512
António Ramos Rosa
Campo do Silêncio
Enfim o laço do começo e a conjuntura
de uma extrema atenção e os sinais de
um vazio junto
a um muro propício à abertura
em que tudo é matéria do olhar
e a luz constitui o corpo branco
no campo do silêncio
num rumor de sombra e esquecimento
as palavras lúcidas
tão próximas da morte
com as marcas fixas
dos insectos
e a incessante explicação do espaço
que elimina as palavras e as renova
unindo a boca à boca do ar
entre o silêncio e o fogo
no incessante fim que se aproxima
enquanto o muro escurece sob a sombra
de uma extrema atenção e os sinais de
um vazio junto
a um muro propício à abertura
em que tudo é matéria do olhar
e a luz constitui o corpo branco
no campo do silêncio
num rumor de sombra e esquecimento
as palavras lúcidas
tão próximas da morte
com as marcas fixas
dos insectos
e a incessante explicação do espaço
que elimina as palavras e as renova
unindo a boca à boca do ar
entre o silêncio e o fogo
no incessante fim que se aproxima
enquanto o muro escurece sob a sombra
1 076
António Ramos Rosa
À Memória de Vítor Matos E Sá
Não te encontrarei antes da noite
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra
E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz
Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas
Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia
Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto
Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva
Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra
É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra
E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz
Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas
Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia
Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto
Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva
Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra
É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
972
António Ramos Rosa
Exploração Submarina
a Jean Laude
Quando
a partir do centro
da água vermelha que não cessa
as formas se iluminam
de uma parede que treme como a espuma
de um corpo obscuro em parte descoberto
primeiro um braço negro
escreve-se rasgando o branco
isolado trémulo um vocábulo
no fogo azul de um céu ausente
aqui mais forte o nome
da personagem branca numa visão aberta sinais
de uma leveza firme
de um sulco atravessando o espaço
a mão tocando
o pulso da paisagem nua
visível já o núcleo negro onde culminam
secretas palavras que iluminam um rosto
as formas emergem como lâmpadas
de um abismo um jardim submarino
separam-se nos limites como traços
de uma presença absolvida que se alonga
em filamentos coloridos e precisos
como cílios num declive de água
semelhantes a faces esquecidas
evidência da fragilidade
de uma líquida pupila de árvore
E a língua de um lado
estende-se sobre o corpo O corpo abre-se
Do outro lado
os espelhos das sombras verdes do lago em que
pássaros fascinados deixam um rastro de letras
numa parede que arrasta o sol da água
a pupila dilata-se
a pele entrega-se só um corpo
existe entre as palavras
encontra-se no vazio a forma oculta
da sede (um peixe segue o vento)
e a figura ilumina-se
no lugar onde brilha
o negro interior do núcleo
que explode em minúsculas imagens
vestígios vagos de uma calma luminosa
Vêem-se deste lado
os telhados azuis
imóveis quase e os vários níveis
dos templos do tempo
(no centro onde se acende agora a forma
dos lábios do exílio das sinuosas
pedras dos beijos
a erva é deliciosa sob os arcos
frescos)
mas do outro lado
um palácio de papel da China
desloca os signos um a um
nas janelas atravessadas pelas correntes
avermelhadas pelo sol da página
aberta pelo corpo na erva negra
sobre as pedras novas
e a madeira da terra na margem límpida
Quando
a partir do centro
da água vermelha que não cessa
as formas se iluminam
de uma parede que treme como a espuma
de um corpo obscuro em parte descoberto
primeiro um braço negro
escreve-se rasgando o branco
isolado trémulo um vocábulo
no fogo azul de um céu ausente
aqui mais forte o nome
da personagem branca numa visão aberta sinais
de uma leveza firme
de um sulco atravessando o espaço
a mão tocando
o pulso da paisagem nua
visível já o núcleo negro onde culminam
secretas palavras que iluminam um rosto
as formas emergem como lâmpadas
de um abismo um jardim submarino
separam-se nos limites como traços
de uma presença absolvida que se alonga
em filamentos coloridos e precisos
como cílios num declive de água
semelhantes a faces esquecidas
evidência da fragilidade
de uma líquida pupila de árvore
E a língua de um lado
estende-se sobre o corpo O corpo abre-se
Do outro lado
os espelhos das sombras verdes do lago em que
pássaros fascinados deixam um rastro de letras
numa parede que arrasta o sol da água
a pupila dilata-se
a pele entrega-se só um corpo
existe entre as palavras
encontra-se no vazio a forma oculta
da sede (um peixe segue o vento)
e a figura ilumina-se
no lugar onde brilha
o negro interior do núcleo
que explode em minúsculas imagens
vestígios vagos de uma calma luminosa
Vêem-se deste lado
os telhados azuis
imóveis quase e os vários níveis
dos templos do tempo
(no centro onde se acende agora a forma
dos lábios do exílio das sinuosas
pedras dos beijos
a erva é deliciosa sob os arcos
frescos)
mas do outro lado
um palácio de papel da China
desloca os signos um a um
nas janelas atravessadas pelas correntes
avermelhadas pelo sol da página
aberta pelo corpo na erva negra
sobre as pedras novas
e a madeira da terra na margem límpida
1 014
António Ramos Rosa
Alberto Burri
Vestuário ou pele
a ferida e a faca
a cicatriz na parede
um saco que se rasga um campo
uma costura um caminho de poeira
Entre o trabalho e o encanto
sem veemência
a carne da escrita
o vestuário remendado
sobre o corpo vermelho
Uma cor de ferrugem nas palavras
a terra a noite o fogo
Uma velha idade adormecida
um ardor subtil e violento
a incisão que rasga a pele antiga
para restaurar a integridade viva
a ferida e a faca
a cicatriz na parede
um saco que se rasga um campo
uma costura um caminho de poeira
Entre o trabalho e o encanto
sem veemência
a carne da escrita
o vestuário remendado
sobre o corpo vermelho
Uma cor de ferrugem nas palavras
a terra a noite o fogo
Uma velha idade adormecida
um ardor subtil e violento
a incisão que rasga a pele antiga
para restaurar a integridade viva
584
António Ramos Rosa
A Mulher Sem
Tu és a mulher agora sem a música
sem os espelhos e os cabelos
sem palavras como pálpebras ou espáduas
sem ombros
nua
mas sem ventre
sem púbis
sem sexo
extenuada na página deserta
derrubada como um grito
contra o muro
presa de um soluço na parede
rompendo como uma chama escura
em busca de outros nomes
que não lembrem a água
do teu corpo
que não vejam senão a cegueira
desse instante
branco
em que viste a outra face da distância
o abismo da outra face das palavras
sem os espelhos e os cabelos
sem palavras como pálpebras ou espáduas
sem ombros
nua
mas sem ventre
sem púbis
sem sexo
extenuada na página deserta
derrubada como um grito
contra o muro
presa de um soluço na parede
rompendo como uma chama escura
em busca de outros nomes
que não lembrem a água
do teu corpo
que não vejam senão a cegueira
desse instante
branco
em que viste a outra face da distância
o abismo da outra face das palavras
565
António Ramos Rosa
Estas Palavras
Como quem grava a cabeça silenciosa
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
1 058
António Ramos Rosa
O Flanco Negro a Decisão da Perna
O flanco negro a decisão da perna
a redondez de todo o ser no seio
a bondade da boca
os dentes
só os dentes
como um número
As vermelhas virilhas com os lábios
de púrpura
ferida acesa
o frenesim suave das sílabas do corpo
a chama alta no ventre da árvore
a língua
sobre a língua
a branca volúpia do umbigo
a palavra rasgada
a sangue
e ferida
a negro
a palavra de estar sob o bojo do barco
a redondez de todo o ser no seio
a bondade da boca
os dentes
só os dentes
como um número
As vermelhas virilhas com os lábios
de púrpura
ferida acesa
o frenesim suave das sílabas do corpo
a chama alta no ventre da árvore
a língua
sobre a língua
a branca volúpia do umbigo
a palavra rasgada
a sangue
e ferida
a negro
a palavra de estar sob o bojo do barco
979
António Ramos Rosa
O Grito Cego
à Ana
e ao Raul
A forma do grito um reflexo ardente
no extremo do visível rosto cego
a chama alta nas vertentes negras
linguagem densa a desfazer-se em espuma
a nudez do olhar sem as árvores duras
como um músculo de água apenas sob as pálpebras
aqui quando deslizam
arcos sob as sombras do desejo
substância porosa verde inerte
a mão sem o olhar na líquida viuvez
caudal abrindo o ciclo do declive
A paisagem fechou-se sobre o corpo como um poço as evidências ruíram arrastando os limos sobre os membros o contínuo rumor do sangue inundou o espaço disponível da visão perderam-se os nomes das pedras a distância dissipou-se
a explosão do grito na ávida parede
das virilhas à garganta em frémitos de fulgor
corpo envolvido pelo corpo rio viscoso
epiderme ligada às trevas interiores
vagas de frémitos
ruídos que deslizam nas margens líquidas
interminável fluxo apagando os nomes e as formas
o infinito ardor em ínfimas vibrações
de uma língua sem língua de uma boca hiante
cavidade do inarticulado furor cavo do grito
incessante redemoinho a destruir a visão
das possíveis formas dos limites dos sinais
numa confusão de manchas e linhas fugitivas
nas raízes da água escura alucinada
……………………………………………
O cerne do grito
ponto infinito inesgotável nó
dilacerante lento
sem espaço
corpo negro informe enterrado
em si mesmo
com o sabor último da terra rente à boca
e todavia desperto difuso ardente
na oclusão compacta sem princípio
sem memória sem futuro
retornando a si
……………………………………………
grito
no espaço deserto
linguagem espessa em glóbulos densos
amálgama igual à polpa do seu antro
carne igual ao interior da terra
deflagração quase inaudível
enigma
resíduo apenas
numa praia invisível ainda
que forma primeira
que visão abres
nas margens já possíveis?
e ao Raul
A forma do grito um reflexo ardente
no extremo do visível rosto cego
a chama alta nas vertentes negras
linguagem densa a desfazer-se em espuma
a nudez do olhar sem as árvores duras
como um músculo de água apenas sob as pálpebras
aqui quando deslizam
arcos sob as sombras do desejo
substância porosa verde inerte
a mão sem o olhar na líquida viuvez
caudal abrindo o ciclo do declive
A paisagem fechou-se sobre o corpo como um poço as evidências ruíram arrastando os limos sobre os membros o contínuo rumor do sangue inundou o espaço disponível da visão perderam-se os nomes das pedras a distância dissipou-se
a explosão do grito na ávida parede
das virilhas à garganta em frémitos de fulgor
corpo envolvido pelo corpo rio viscoso
epiderme ligada às trevas interiores
vagas de frémitos
ruídos que deslizam nas margens líquidas
interminável fluxo apagando os nomes e as formas
o infinito ardor em ínfimas vibrações
de uma língua sem língua de uma boca hiante
cavidade do inarticulado furor cavo do grito
incessante redemoinho a destruir a visão
das possíveis formas dos limites dos sinais
numa confusão de manchas e linhas fugitivas
nas raízes da água escura alucinada
……………………………………………
O cerne do grito
ponto infinito inesgotável nó
dilacerante lento
sem espaço
corpo negro informe enterrado
em si mesmo
com o sabor último da terra rente à boca
e todavia desperto difuso ardente
na oclusão compacta sem princípio
sem memória sem futuro
retornando a si
……………………………………………
grito
no espaço deserto
linguagem espessa em glóbulos densos
amálgama igual à polpa do seu antro
carne igual ao interior da terra
deflagração quase inaudível
enigma
resíduo apenas
numa praia invisível ainda
que forma primeira
que visão abres
nas margens já possíveis?
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