Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
António Ramos Rosa
Com a Cabeça Vibrante Ao Largo
Com a cabeça vibrante ao largo
com a cabeça tocando os limites largos
com o vento soprando no vazio da cabeça
com a língua ávida respirando o sol do ar
antes ainda do depois
aqui na avidez perene do ar do mar
o eterno efémero a respirar
sem mais com todo o mais
sulcado todo pelo ar
com a cabeça tocando os limites largos
com o vento soprando no vazio da cabeça
com a língua ávida respirando o sol do ar
antes ainda do depois
aqui na avidez perene do ar do mar
o eterno efémero a respirar
sem mais com todo o mais
sulcado todo pelo ar
949
António Ramos Rosa
2. o Círculo de Cal
Lugar último indecifrável noite e mar
com que principio um não à morte no verão das veias
algo se rasga ventre e boca contra o vento
assalto às vértebras no nevoeiro do promontório
língua ou boca que abro ao vasto círculo
âmbito do silêncio branco lugar mortal oceano
um grito me percorre e rasga os olhos
a espuma verde o suor na boca a voragem do silêncio
Nenhum lugar para a boca rosto sufocado
palavra regelada brancura escura
como romper o círculo de cal
como fundar o lugar do fogo silencioso?
Seriam lábios, ombros, púbis e o rosto
no desejo liberto, mas
como libertar a mão
e figurar o rosto
rosto sem lábios máscara do mar
ventre dos dentes putrefacção da pedra
inércia de ombros obstáculo informe
Apelo ao espaço às ervas do silêncio ao ar
As omoplatas cerram-se cerra-se o horizonte
É preciso que sulque a areia que uma sílaba trema
que se dilacere o espaço um corpo um ventre
Que aqui não é o lugar
aqui não é aqui ou é a extrema cerração
Onde o verde nesta aridez do sempre?
Mas escrevo
abro um buraco na terra
afundo-me como um osso no silêncio dos ossos
Supérflua pobre escrita inútil
precisava de garras ou de outra luta escrita
uma outra mão a outra mão que desescreve
que desespera e pulveriza e liberta o sentido
Libertarei a água desta pedra ou deste ventre
Gritarei gritarei sobre as formigas verdes
espalharei no vento nomes subversos
Consagrarei uma alta pedra a um silêncio novo
Abrirei um olho na pedra um olho lúcido liberto
Inventarei outra escrita entre os muros
Anularei a magia branca da esperança vã
Ó pedra verde ou porque não a vagina viva
a voracidade audaz de uma ruptura nova
Onde os companheiros desta extrema terra?
Eu direi o ângulo do ângulo a assimetria das cores
a chama dos seios abertos dos corpos vivos
eu direi a vida do instante no instante livre
abrirei a clareira onde o rosto ama o silêncio
onde o silêncio se ama e a terra se consagra
E tu estarás aqui contra a morte
e contra a morte da linguagem morta
ouro novo do humor das árvores
cinema dos membros revoltados livres
cimo do chão repleto de amorosos corpos
subversiva ternura contra os aparelhos sinistros
e jovens jovens jovens com as armas do amor
com que principio um não à morte no verão das veias
algo se rasga ventre e boca contra o vento
assalto às vértebras no nevoeiro do promontório
língua ou boca que abro ao vasto círculo
âmbito do silêncio branco lugar mortal oceano
um grito me percorre e rasga os olhos
a espuma verde o suor na boca a voragem do silêncio
Nenhum lugar para a boca rosto sufocado
palavra regelada brancura escura
como romper o círculo de cal
como fundar o lugar do fogo silencioso?
Seriam lábios, ombros, púbis e o rosto
no desejo liberto, mas
como libertar a mão
e figurar o rosto
rosto sem lábios máscara do mar
ventre dos dentes putrefacção da pedra
inércia de ombros obstáculo informe
Apelo ao espaço às ervas do silêncio ao ar
As omoplatas cerram-se cerra-se o horizonte
É preciso que sulque a areia que uma sílaba trema
que se dilacere o espaço um corpo um ventre
Que aqui não é o lugar
aqui não é aqui ou é a extrema cerração
Onde o verde nesta aridez do sempre?
Mas escrevo
abro um buraco na terra
afundo-me como um osso no silêncio dos ossos
Supérflua pobre escrita inútil
precisava de garras ou de outra luta escrita
uma outra mão a outra mão que desescreve
que desespera e pulveriza e liberta o sentido
Libertarei a água desta pedra ou deste ventre
Gritarei gritarei sobre as formigas verdes
espalharei no vento nomes subversos
Consagrarei uma alta pedra a um silêncio novo
Abrirei um olho na pedra um olho lúcido liberto
Inventarei outra escrita entre os muros
Anularei a magia branca da esperança vã
Ó pedra verde ou porque não a vagina viva
a voracidade audaz de uma ruptura nova
Onde os companheiros desta extrema terra?
Eu direi o ângulo do ângulo a assimetria das cores
a chama dos seios abertos dos corpos vivos
eu direi a vida do instante no instante livre
abrirei a clareira onde o rosto ama o silêncio
onde o silêncio se ama e a terra se consagra
E tu estarás aqui contra a morte
e contra a morte da linguagem morta
ouro novo do humor das árvores
cinema dos membros revoltados livres
cimo do chão repleto de amorosos corpos
subversiva ternura contra os aparelhos sinistros
e jovens jovens jovens com as armas do amor
1 094
António Ramos Rosa
Nem Antes Como Depois No Escuro Silêncio
Nem antes como depois no escuro silêncio
do sol no estrépito da espuma
do dia branco
no incessante intervalo entre mar e mar
um arranque de água em todo o corpo aceso
um abrir os poros a todo o sol do ar
e cada vez mais até à lâmina da água
o frígido murmúrio da ferida junto à boca
o rasgar das pernas na delícia do gelo
a pedra do mar e os lábios delirantes
no ar do sol do mar
do sol no estrépito da espuma
do dia branco
no incessante intervalo entre mar e mar
um arranque de água em todo o corpo aceso
um abrir os poros a todo o sol do ar
e cada vez mais até à lâmina da água
o frígido murmúrio da ferida junto à boca
o rasgar das pernas na delícia do gelo
a pedra do mar e os lábios delirantes
no ar do sol do mar
1 029
António Ramos Rosa
Como Uma Diferença Desconhecida Sem Diferença
Como uma diferença desconhecida sem diferença
a lâmina do silêncio branco dentro
o percurso da sombra fresca sobre o mar
numa varanda aberta ao espaço global
forma do vento figura feita de ar
silêncio que retorna sob o frio
corpo descoberto desde as plantas frígidas
com um rosto renovado pelas rajadas de ar
com a face do silêncio em frente sobre o mar
a lâmina do silêncio branco dentro
o percurso da sombra fresca sobre o mar
numa varanda aberta ao espaço global
forma do vento figura feita de ar
silêncio que retorna sob o frio
corpo descoberto desde as plantas frígidas
com um rosto renovado pelas rajadas de ar
com a face do silêncio em frente sobre o mar
1 072
António Ramos Rosa
Ferozmente Nulo Humilde Árido
Ferozmente nulo humilde árido
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
994
António Ramos Rosa
1. a (In)Coerência do Fogo
O desenho a fogo: os dedos e o sopro.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?
O corpo e essa onda, essa pedra — é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto — o mar.
O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força
reúno ou disperso pedras sobre o mar
ou pedras
Onde o corpo onde o desejo
perante o vento
a frágil força do corpo (aranha inerme)?
Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar
Eu continuo com estas pedras no deserto — no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento — e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página
ou terra?
Mas se não fosse o deserto — se fosse a praia
a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?
Mas tu esperas três palavras
três pedras
— e sem o fogo sem a folhagem sem o mar
Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte este céu deserto
esta outra morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?
Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa do externo
com a morte no deserto
com as sílabas no deserto
Mas se o silêncio da praia — onde o mar? —
o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro — e a respiração do mar?
Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?
Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?
Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto
Mas isto é, isto é, como se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?
Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco — em frente o mar?
Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?
Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?
A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.
A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.
As pedras nem são pedras
mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.
Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chama
da garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?
Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areia
eu subscrevo o branco um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras
que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo
entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?
O corpo e essa onda, essa pedra — é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto — o mar.
O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força
reúno ou disperso pedras sobre o mar
ou pedras
Onde o corpo onde o desejo
perante o vento
a frágil força do corpo (aranha inerme)?
Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar
Eu continuo com estas pedras no deserto — no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento — e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página
ou terra?
Mas se não fosse o deserto — se fosse a praia
a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?
Mas tu esperas três palavras
três pedras
— e sem o fogo sem a folhagem sem o mar
Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte este céu deserto
esta outra morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?
Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa do externo
com a morte no deserto
com as sílabas no deserto
Mas se o silêncio da praia — onde o mar? —
o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro — e a respiração do mar?
Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?
Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?
Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto
Mas isto é, isto é, como se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?
Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco — em frente o mar?
Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?
Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?
A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.
A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.
As pedras nem são pedras
mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.
Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chama
da garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?
Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areia
eu subscrevo o branco um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras
que delimitam o vazio
eu estou à beira de eu sou o intervalo
entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.
1 122
António Ramos Rosa
Entre o Frio E o Sol
A casa, a luz, o espaço.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
1 045
António Ramos Rosa
Um Avanço No Silêncio Como Um Sopro
Um avanço no silêncio como um sopro
frígido da avidez do ar
um caminhar no horizonte do mar
um corpo com novos lábios dentes frescos
a inocência de um silêncio de água
o olhar ao nível só do ar
a língua saboreando o sol e o ar
um fulgor ávido entre o corpo e o espaço
frígido da avidez do ar
um caminhar no horizonte do mar
um corpo com novos lábios dentes frescos
a inocência de um silêncio de água
o olhar ao nível só do ar
a língua saboreando o sol e o ar
um fulgor ávido entre o corpo e o espaço
1 036
António Ramos Rosa
Dizer o Fulgor Sem a Lâmpada
Dizer o fulgor sem a lâmpada
sem
a cor da página
ar de boca breve
tecer a nuca desse animal
de sede
onde beber a língua de água e ser
Antes do barco ou pedra ou erva
a palpitação de um branco
insecto
a perna mais violenta
sobre o barco
o seio negro
sob a maré de Março
Abrir o branco a branco toque
de pupila liberta sob as letras
abrir a lâmpada
de vertigem branca
sem
a cor da página
ar de boca breve
tecer a nuca desse animal
de sede
onde beber a língua de água e ser
Antes do barco ou pedra ou erva
a palpitação de um branco
insecto
a perna mais violenta
sobre o barco
o seio negro
sob a maré de Março
Abrir o branco a branco toque
de pupila liberta sob as letras
abrir a lâmpada
de vertigem branca
942
António Ramos Rosa
Em Abandono Límpido a Brancura
Em abandono límpido a brancura
do invisível ar por sobre a fronte
com as palavras no limite de uma margem
no intervalo assombroso
onde súbito o silêncio é um estrépito branco
avançar no silêncio sobre as pedras
num arranque de água em todo o corpo
sobre um cume de lábios
sobre a terra sempre
no ouvido da montanha uma água verde
um silêncio poderoso de íman negro
do invisível ar por sobre a fronte
com as palavras no limite de uma margem
no intervalo assombroso
onde súbito o silêncio é um estrépito branco
avançar no silêncio sobre as pedras
num arranque de água em todo o corpo
sobre um cume de lábios
sobre a terra sempre
no ouvido da montanha uma água verde
um silêncio poderoso de íman negro
1 019
António Ramos Rosa
Olhos de Terra Ou de Água Ou Mesmo de Árvore
Olhos de terra ou de água ou mesmo de árvore
podem vencer a inércia e os próprios olhos nascem
para verem outros olhos (diferença-identidade),
a luta que se trava de olho a olho na água.
Raso, deixo-me erguer por esta imagem só.
Antes dos olhos terra (não imagem), antes da árvore
a água
e assim antes do poema a terra do poema.
Porque há um chão de terra no poema
e um cavalo que pasta a solidão real
e só real é o fim ou o princípio da água.
podem vencer a inércia e os próprios olhos nascem
para verem outros olhos (diferença-identidade),
a luta que se trava de olho a olho na água.
Raso, deixo-me erguer por esta imagem só.
Antes dos olhos terra (não imagem), antes da árvore
a água
e assim antes do poema a terra do poema.
Porque há um chão de terra no poema
e um cavalo que pasta a solidão real
e só real é o fim ou o princípio da água.
571
António Ramos Rosa
Não Digo Rosa Mas Pedra E Digo Sombra
Não digo rosa mas pedra e digo sombra
por um ritmo que não sei e acendo aquela cor
que vi brilhar no muro de outono e de ferrugem
Não digo nem a sombra digo a pedra do ritmo
e quando for de água a pedra para os teus pés
não direi as flores do desejo mas a nuca
inclinada e branca sobre um lago sem lua
e toda uma colina de ar em teu redor
como uma grande e suave força do dia
como uma pulsação do campo e do olhar
luz do lugar sombra clara clareira nave
por um ritmo que não sei e acendo aquela cor
que vi brilhar no muro de outono e de ferrugem
Não digo nem a sombra digo a pedra do ritmo
e quando for de água a pedra para os teus pés
não direi as flores do desejo mas a nuca
inclinada e branca sobre um lago sem lua
e toda uma colina de ar em teu redor
como uma grande e suave força do dia
como uma pulsação do campo e do olhar
luz do lugar sombra clara clareira nave
1 017
António Ramos Rosa
A Sombra de Uma Onda Arrasta Ainda Outra Sombra
A sombra de uma onda arrasta ainda outra sombra.
À onda de uma sombra sucede-se outra onda.
Ao meu cavalo perdido hei-de abrir o caminho
de outro cavalo mais forte e a tudo simultâneo.
O verde azul sombrio de uma colina ou nuvem.
(A tempestade arrebatou-te as vestes). Nus
somos agora a verde água de um seio
e o pão branco da casa sobre as dunas.
Despidos ao sol somos animais fulvos, vermelhos,
dos elementos nutrindo-se à sombra do cavalo,
à claridade do ócio e nas traves dos barcos.
O dia. Os seios. A água. A sombra. A luz. A febre.
Rodopia uma roda do pulso até à árvore
num céu todo aberto à sede mais feliz.
À onda de uma sombra sucede-se outra onda.
Ao meu cavalo perdido hei-de abrir o caminho
de outro cavalo mais forte e a tudo simultâneo.
O verde azul sombrio de uma colina ou nuvem.
(A tempestade arrebatou-te as vestes). Nus
somos agora a verde água de um seio
e o pão branco da casa sobre as dunas.
Despidos ao sol somos animais fulvos, vermelhos,
dos elementos nutrindo-se à sombra do cavalo,
à claridade do ócio e nas traves dos barcos.
O dia. Os seios. A água. A sombra. A luz. A febre.
Rodopia uma roda do pulso até à árvore
num céu todo aberto à sede mais feliz.
1 049
António Ramos Rosa
Lanço Uma Linha Ao Vento Lanço Um Lado
Lanço uma linha ao vento lanço um lado
de hesitação e de não vontade
como se o desejo me abandonasse abandono-me
até ao desamparo de não saber soltar-me
Mais do que solto aberto e fracturado
no nulo e raso vão em que estremece o branco
vazio de nada ser desejo e mão e corpo
ó fuga de memória sem o ardor da seiva
Não sei qual é o lado onde é só oco e oco
e todo o material se dilui no branco
e todo o horror no não-grito e no espanto
de avançar como cego no desejo de uma árvore
que repentina e fresca abrisse o horizonte
e fosse todo o espaço e todo o mar
de hesitação e de não vontade
como se o desejo me abandonasse abandono-me
até ao desamparo de não saber soltar-me
Mais do que solto aberto e fracturado
no nulo e raso vão em que estremece o branco
vazio de nada ser desejo e mão e corpo
ó fuga de memória sem o ardor da seiva
Não sei qual é o lado onde é só oco e oco
e todo o material se dilui no branco
e todo o horror no não-grito e no espanto
de avançar como cego no desejo de uma árvore
que repentina e fresca abrisse o horizonte
e fosse todo o espaço e todo o mar
1 091
António Ramos Rosa
Que As Palavras Sejam o Fogo Escrito
Que as palavras sejam o fogo escrito
nas paredes verdes dos escarros
que venham sobre o sono e a fadiga do poeta
altas leves ardentes humildes nuas
Que elas digam a sombra e o azul sob a sombra
e a impossível vida sem árvores sem mulheres
sem horizonte sem mar
Que digam o supremo desejo renascido
na boca atroz
que sejam a frescura na ferida atroz
nas paredes verdes dos escarros
que venham sobre o sono e a fadiga do poeta
altas leves ardentes humildes nuas
Que elas digam a sombra e o azul sob a sombra
e a impossível vida sem árvores sem mulheres
sem horizonte sem mar
Que digam o supremo desejo renascido
na boca atroz
que sejam a frescura na ferida atroz
1 143
António Ramos Rosa
Por Um Pouco de Sombra Após a Luz do Muro,
Por um pouco de sombra após a luz do muro,
por um pouco de luz quando a sombra se adensa,
duas faces se formam, alguém caminha cego,
alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.
Alguém a viu sair, essa mulher descalça
que marcha ao longo do muro impaciente e cega?
Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,
apenas o perfil do cavalo sem a força.
É preciso dormir sobre escadas marinhas,
é preciso voltar à luz do muro, à sombra,
é preciso que a onda nasça de outra onda.
E cavalo e mulher na nudez mais perfeita
são as figuras vivas do sentir mais completo,
a perfeição do ser na frescura da forma.
por um pouco de luz quando a sombra se adensa,
duas faces se formam, alguém caminha cego,
alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.
Alguém a viu sair, essa mulher descalça
que marcha ao longo do muro impaciente e cega?
Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,
apenas o perfil do cavalo sem a força.
É preciso dormir sobre escadas marinhas,
é preciso voltar à luz do muro, à sombra,
é preciso que a onda nasça de outra onda.
E cavalo e mulher na nudez mais perfeita
são as figuras vivas do sentir mais completo,
a perfeição do ser na frescura da forma.
1 106
António Ramos Rosa
Rios E Rios, Palpitação Extrema.
Rios e rios, palpitação extrema
de uma linha sem ruptura. De que matéria
escrita? Todas as linhas se articulam
para o cavalo e o salto.
Com os ossos da testa enfrenta os muros da noite,
a corrida ofegante sabe o fim vermelho,
uma única estria ilumina-lhe o dorso.
Longa linha delida e dolorosa, mas una.
Atravessas as brancas
muralhas. Sobre a palpitação.
Há insectos na erva, nas margens
dilaceradas.
A tua marcha atinge o ponto de ruptura.
Todo o céu rebenta na mais viva ferida,
ó noite mais nocturna, fixação explosiva.
de uma linha sem ruptura. De que matéria
escrita? Todas as linhas se articulam
para o cavalo e o salto.
Com os ossos da testa enfrenta os muros da noite,
a corrida ofegante sabe o fim vermelho,
uma única estria ilumina-lhe o dorso.
Longa linha delida e dolorosa, mas una.
Atravessas as brancas
muralhas. Sobre a palpitação.
Há insectos na erva, nas margens
dilaceradas.
A tua marcha atinge o ponto de ruptura.
Todo o céu rebenta na mais viva ferida,
ó noite mais nocturna, fixação explosiva.
574
António Ramos Rosa
O Peito Entre As Plantas, Vês Os Cristais Nas Árvores,
O peito entre as plantas, vês os cristais nas árvores,
a pedra límpida, os grandes nós da água.
De margem a margem o dia é tão claro
que o cavalo se ilumina da minha sede limpa.
E esse verde aroma do teu corpo que chama
a aridez dos insectos, a voraz oficina
de que se compõe a luta vida a vida,
searas, canaviais, constelações.
Entre o ar dos quartos e a fresca imobilidade
a curva da viagem num planeta novo.
Entre a terra e a lua deixa os seios da água,
limpa-os do pó nocturno, deixa a luz entre as árvores,
que o teu nome de mármore seja o cimo do salto
e a tua cauda arraste uma sombra vazia.
a pedra límpida, os grandes nós da água.
De margem a margem o dia é tão claro
que o cavalo se ilumina da minha sede limpa.
E esse verde aroma do teu corpo que chama
a aridez dos insectos, a voraz oficina
de que se compõe a luta vida a vida,
searas, canaviais, constelações.
Entre o ar dos quartos e a fresca imobilidade
a curva da viagem num planeta novo.
Entre a terra e a lua deixa os seios da água,
limpa-os do pó nocturno, deixa a luz entre as árvores,
que o teu nome de mármore seja o cimo do salto
e a tua cauda arraste uma sombra vazia.
1 150
António Ramos Rosa
O Desejado Chegado
He llegado a una tierra de llegada.
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.
A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.
O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.
No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar.
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.
A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.
O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.
No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar.
998
António Ramos Rosa
Mil Cores, E Uma Sombra Só Te Despe.
Mil cores, e uma sombra só te despe.
Substância perfeita da sombra mais feliz.
Substância ardente e diamante firme.
Água feliz do corpo, água de mil sombras,
e esta é a mais fresca, onde o cavalo bebe
sobre os teus seios tão altos como as chamas mais verdes.
O teu vestido de sombras torna cálido o corpo
e as sílabas do cavalo refrescam-se no mar.
Na praia mais selvagem caminha esse cavalo
que nos transforma o corpo e nos abre a face
mais escura da terra. E todo o mundo aceso.
Substância perfeita da sombra mais feliz.
Substância ardente e diamante firme.
Água feliz do corpo, água de mil sombras,
e esta é a mais fresca, onde o cavalo bebe
sobre os teus seios tão altos como as chamas mais verdes.
O teu vestido de sombras torna cálido o corpo
e as sílabas do cavalo refrescam-se no mar.
Na praia mais selvagem caminha esse cavalo
que nos transforma o corpo e nos abre a face
mais escura da terra. E todo o mundo aceso.
1 104
António Ramos Rosa
Aproxima-Te do Silêncio, da Pedra do Silêncio
Aproxima-te do silêncio, da pedra do silêncio
e a montanha abrir-se-á. Estás perto dessa casa
onde o silêncio é nenhuma árvore,
um silêncio deslocado como uma lâmpada de água.
Estende-se o silêncio até ao núcleo de um
rio, de cabeleiras de água e de silêncio ainda
de uma boca exasperada pela esperança das letras,
pela loucura dos astros, das palavras, das mãos
e de uma ponte férrea onde o cavalo passa
dizendo o inverno intenso de uma só cor gelada.
e a montanha abrir-se-á. Estás perto dessa casa
onde o silêncio é nenhuma árvore,
um silêncio deslocado como uma lâmpada de água.
Estende-se o silêncio até ao núcleo de um
rio, de cabeleiras de água e de silêncio ainda
de uma boca exasperada pela esperança das letras,
pela loucura dos astros, das palavras, das mãos
e de uma ponte férrea onde o cavalo passa
dizendo o inverno intenso de uma só cor gelada.
558
António Ramos Rosa
Onde É Aqui
Onde é aqui,
o centro,
onde se respira,
a cama limpa
ao corpo inteiro e nu.
Onde é a fome e o braço toca
o esplendor.
Respira o ventre,
a vela incha
ao sol e ao mar sem fim.
Onde é aqui,
a fome nua,
a árvore exacta
no centro
da alegria,
a luz e o olhar
aberto ao mar.
Onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.
Onde o fogo acende
o pulso do poema.
o centro,
onde se respira,
a cama limpa
ao corpo inteiro e nu.
Onde é a fome e o braço toca
o esplendor.
Respira o ventre,
a vela incha
ao sol e ao mar sem fim.
Onde é aqui,
a fome nua,
a árvore exacta
no centro
da alegria,
a luz e o olhar
aberto ao mar.
Onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.
Onde o fogo acende
o pulso do poema.
1 154
António Ramos Rosa
Perto do Mar
A água de uma floresta
onde todos os pássaros são dedos submersos
O lugar dos corpos
até ao fundo arde
Podemos subir descer
perto do mar
a longa escada verde inteira e leve
até à beira das grandes pedras
onde o silêncio da terra
cresceu à altura das árvores
unânime sabor enorme das folhas que nas mãos
se enrolam frescas
somos quase a água de um segredo
como se nascêssemos
com os punhos rolados no mar
o solo até à boca
os ossos vivos no abraço
a cinza verde que se sorve é a seiva
de um ar ardente e novo
para uns lábios juntos
no silêncio das palavras jovens
Vivos entre as hastes pelos olhos
os elos do ar ligam-nos a um corpo único
todas as gavetas se dissolvem
e delas sai a pomba da água unida
cujo bico aponta o sol na clareira
Animais do sol levíssimos
propagamo-nos no azul da terra
nos verdes claros nos castanhos densos nos negros
comemos os frutos das cores dadas
as pedras as pinhas as agulhas
cantando quase o mar
Cai a noite
sobre um muro branco
a plenitude da folhagem no silêncio
nos nós verdes inundados pela sombra
não nos perdemos entre as árvores e as espigas
sentindo o áspero gosto das pedras
o pó miúdo e solto sobre as faces
o grande sorvo fresco da aragem
noite ou mar
por um caminho em que as estrelas se dispersam
como as palavras de um texto
os lábios sobram do excesso suave e grande
e soletram no silêncio do ar nocturno
onde todos os pássaros são dedos submersos
O lugar dos corpos
até ao fundo arde
Podemos subir descer
perto do mar
a longa escada verde inteira e leve
até à beira das grandes pedras
onde o silêncio da terra
cresceu à altura das árvores
unânime sabor enorme das folhas que nas mãos
se enrolam frescas
somos quase a água de um segredo
como se nascêssemos
com os punhos rolados no mar
o solo até à boca
os ossos vivos no abraço
a cinza verde que se sorve é a seiva
de um ar ardente e novo
para uns lábios juntos
no silêncio das palavras jovens
Vivos entre as hastes pelos olhos
os elos do ar ligam-nos a um corpo único
todas as gavetas se dissolvem
e delas sai a pomba da água unida
cujo bico aponta o sol na clareira
Animais do sol levíssimos
propagamo-nos no azul da terra
nos verdes claros nos castanhos densos nos negros
comemos os frutos das cores dadas
as pedras as pinhas as agulhas
cantando quase o mar
Cai a noite
sobre um muro branco
a plenitude da folhagem no silêncio
nos nós verdes inundados pela sombra
não nos perdemos entre as árvores e as espigas
sentindo o áspero gosto das pedras
o pó miúdo e solto sobre as faces
o grande sorvo fresco da aragem
noite ou mar
por um caminho em que as estrelas se dispersam
como as palavras de um texto
os lábios sobram do excesso suave e grande
e soletram no silêncio do ar nocturno
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