Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
Cristina Lacerda
Sobrevida
A terra não sorri
mas ampara meus passos
de hoje sofrer
me lembro do que é cíclico
os dias de chumbo
a lama do fundo
lamber a lembrança
de pequenos relâmpagos
sofrer sofreguidão
- só isso?
reinventar o mesmo
em tudo o que se ama
lembrar feridas
e perfumes dos momentos
essa minha curta longa vida
involuntária
é assim aos tropeços
e se há esquinas onde
às vezes me firo tanto
é porque é preciso
e se tateia na dor
o despertar da ânsia viva
vislumbre de algum
futuro encanto
o resto é concreto muro
cinza, rachado e duro
que o sonho
não está onde é sonhado
mas onde é pensado
com insistência e arte
esse o rito
içar a dor sombria
e se fazer ao mar
como alguém que ao ficar
finge que parte
mas ampara meus passos
de hoje sofrer
me lembro do que é cíclico
os dias de chumbo
a lama do fundo
lamber a lembrança
de pequenos relâmpagos
sofrer sofreguidão
- só isso?
reinventar o mesmo
em tudo o que se ama
lembrar feridas
e perfumes dos momentos
essa minha curta longa vida
involuntária
é assim aos tropeços
e se há esquinas onde
às vezes me firo tanto
é porque é preciso
e se tateia na dor
o despertar da ânsia viva
vislumbre de algum
futuro encanto
o resto é concreto muro
cinza, rachado e duro
que o sonho
não está onde é sonhado
mas onde é pensado
com insistência e arte
esse o rito
içar a dor sombria
e se fazer ao mar
como alguém que ao ficar
finge que parte
936
Angela Santos
Em Suspenso
Deixo-me
ficar quieta e absorta
a olhar a linha que rasga
o horizonte...
e os sonhos flutuam
ao som da toada e embalo do mar
há vozes suspensas
que chegam de longe
e com elas chegam
traços e contornos…
descubro teus olhos
na ave que o céu risca
e sinto tua mão
na leve brisa que passa
As cores de um Arco Íris
inundam meu olhar
e eu deixo-me ir
nas cores desenhadas
por uma mão qualquer
que naquele instante
ligou terra e mar
Um navio ao longe
sereno atravessa
a linha longínqua
onde o azul se afunda…
o navio passa
e acorda o tempo
que eu não vi passar.
ficar quieta e absorta
a olhar a linha que rasga
o horizonte...
e os sonhos flutuam
ao som da toada e embalo do mar
há vozes suspensas
que chegam de longe
e com elas chegam
traços e contornos…
descubro teus olhos
na ave que o céu risca
e sinto tua mão
na leve brisa que passa
As cores de um Arco Íris
inundam meu olhar
e eu deixo-me ir
nas cores desenhadas
por uma mão qualquer
que naquele instante
ligou terra e mar
Um navio ao longe
sereno atravessa
a linha longínqua
onde o azul se afunda…
o navio passa
e acorda o tempo
que eu não vi passar.
1 069
Angela Santos
Pássaro
Azul a Horizonte
Lembrei
um horizonte
desenhado nos meus olhos
e um pássaro azul desprendeu-se do meu olhar..
sobrevoou o oceano
poisou aí onde estás e se deixou ficar
Olha através da vidraça da alma,
escuta o seu canto
e delicia teus olhos
no azul aveludado das asas
Nesse canto de pássaro
nessa asa azul,
eu sou
poisando nas flores ou no beiral da janela
ou de manso se aninhando em teu olhar
antes de bater asas
e iniciar o voo
de regresso ao alto mar.
Lembrei
um horizonte
desenhado nos meus olhos
e um pássaro azul desprendeu-se do meu olhar..
sobrevoou o oceano
poisou aí onde estás e se deixou ficar
Olha através da vidraça da alma,
escuta o seu canto
e delicia teus olhos
no azul aveludado das asas
Nesse canto de pássaro
nessa asa azul,
eu sou
poisando nas flores ou no beiral da janela
ou de manso se aninhando em teu olhar
antes de bater asas
e iniciar o voo
de regresso ao alto mar.
1 152
Angela Santos
Clara Luz
Na
grandeza das coisas simples
te
vejo e sinto...
na brisa marinha,
no marulhar das folhas
no ondear da seara em pleno verão
no canto dos pássaros,
no cheiro da terra molhada,
nas gotas de chuva nos beirais
no gosto da fruta madura.....
Na simplicidade do que é grande
te vejo....
nessa mão que se estende
a outra mão aflita,
no pulsar do coração
pelo amigo que se vai,
na firmeza dos teus gestos
na verdade das palavras
com que vens até mim....
Em tudo isso te vejo
e adivinho-te no que sinto.....
e és grande porque simples
matriz...húmus…terra..raiz.
É assim, amor, que meus olhos te vêem
banhados por uma clara e límpida luz....
que espelha o teu dentro
onde a mim me vejo
como se um espelho reflectindo a alma
segredasse o que ela a ti mesma diz.
grandeza das coisas simples
te
vejo e sinto...
na brisa marinha,
no marulhar das folhas
no ondear da seara em pleno verão
no canto dos pássaros,
no cheiro da terra molhada,
nas gotas de chuva nos beirais
no gosto da fruta madura.....
Na simplicidade do que é grande
te vejo....
nessa mão que se estende
a outra mão aflita,
no pulsar do coração
pelo amigo que se vai,
na firmeza dos teus gestos
na verdade das palavras
com que vens até mim....
Em tudo isso te vejo
e adivinho-te no que sinto.....
e és grande porque simples
matriz...húmus…terra..raiz.
É assim, amor, que meus olhos te vêem
banhados por uma clara e límpida luz....
que espelha o teu dentro
onde a mim me vejo
como se um espelho reflectindo a alma
segredasse o que ela a ti mesma diz.
757
Angela Santos
Lua de Prata
Sobre
areias finas,
num lugar distante
te amarei...
desaguando no teu mar
minha longa espera
e sob um por de sol,
nesse lugar que eu sei
me amarás...
Do enleio dos teus braços
cativa ser,
do teu corpo a extensão.
no teu sexo estremecer,
no teu colo repousar
adormecer.....
E se uma lua de prata
vier reflectir-se no nosso olhar,
achas acesas na noite seremos ..
e depois do amor dois lagos serenos…
dois corpos amantes espelhando à luz
almas de mulher.
areias finas,
num lugar distante
te amarei...
desaguando no teu mar
minha longa espera
e sob um por de sol,
nesse lugar que eu sei
me amarás...
Do enleio dos teus braços
cativa ser,
do teu corpo a extensão.
no teu sexo estremecer,
no teu colo repousar
adormecer.....
E se uma lua de prata
vier reflectir-se no nosso olhar,
achas acesas na noite seremos ..
e depois do amor dois lagos serenos…
dois corpos amantes espelhando à luz
almas de mulher.
1 084
Angela Santos
Coisas Simples
Paro
e perscruto os sons que me chegam
com o vento,
e dos aromas que da terra sobem
faço o meu ópio, o meu absinto,
a embriagues da vida…
Paro para receber os suaves pingos de chuva
que caiem sobre o meu rosto
e me fazem sentir limpa,
e deixo meus olhos perderem-se
na visão do infinito
Sorvo o gosto a maresia
junto a este mar revolto,
onde busco a dimensão do que sinto e do que sou,
ínfima parte de um todo e por este engrandecida.
Da lonjura faço o sonho
onde a mente prefigura
o que o tempo ainda guarda para a vida da minha alma...
a outra parte de mim que noutro lugar me espera,
como semente guardada
para ser lançada à terra.
E será na singeleza das coisas que a vida doa
que chegaremos ao fundo
e ao sentido do que somos
e num lugar que não sei, eu e tu aí seremos
chão, húmus, arvore raiz
e cumpriremos a sina de ser semente
e florir.
e perscruto os sons que me chegam
com o vento,
e dos aromas que da terra sobem
faço o meu ópio, o meu absinto,
a embriagues da vida…
Paro para receber os suaves pingos de chuva
que caiem sobre o meu rosto
e me fazem sentir limpa,
e deixo meus olhos perderem-se
na visão do infinito
Sorvo o gosto a maresia
junto a este mar revolto,
onde busco a dimensão do que sinto e do que sou,
ínfima parte de um todo e por este engrandecida.
Da lonjura faço o sonho
onde a mente prefigura
o que o tempo ainda guarda para a vida da minha alma...
a outra parte de mim que noutro lugar me espera,
como semente guardada
para ser lançada à terra.
E será na singeleza das coisas que a vida doa
que chegaremos ao fundo
e ao sentido do que somos
e num lugar que não sei, eu e tu aí seremos
chão, húmus, arvore raiz
e cumpriremos a sina de ser semente
e florir.
1 146
Angela Santos
Imagem
Não
sei porque vou de encontro
ao que não sei.. sei da pulsão
e da imagem esculpida nos meus olhos
vislumbrei crendo esquecer…mas ficou
Indeléveis são as marcas do que um dia
a alma atravessou e julgamos sem história
perdido, ou apagado
no limbo da memória
Um passeio imaginário
sobre o que poderia ser.. ao teu lado
a tua mão na minha
olhos fundindo-se em lago
e um caminho junto ao mar…
Assim de uma forma simples
encontro de gestos feito
as palavras nos deixaram o leve sabor do vago...
e só o silencio sobrou
E a vida que não
espera por quem se demora
ou detém
acena da outra margem de onde se fica parado.
sei porque vou de encontro
ao que não sei.. sei da pulsão
e da imagem esculpida nos meus olhos
vislumbrei crendo esquecer…mas ficou
Indeléveis são as marcas do que um dia
a alma atravessou e julgamos sem história
perdido, ou apagado
no limbo da memória
Um passeio imaginário
sobre o que poderia ser.. ao teu lado
a tua mão na minha
olhos fundindo-se em lago
e um caminho junto ao mar…
Assim de uma forma simples
encontro de gestos feito
as palavras nos deixaram o leve sabor do vago...
e só o silencio sobrou
E a vida que não
espera por quem se demora
ou detém
acena da outra margem de onde se fica parado.
671
Angela Santos
Alto Mar
Deixo-me em sossego,
por agora...
nas margens desse rio
que em mim corre...
Abro o meu peito à luz
que se derrama
de um lugar qualquer
a onde ir
Ficar não está inscrito
no sedimento do meu ser..
velas e marés
forma lhe dão....
Sopre o vento
que lhe enfune as velas
prenda-se ao leme
aquilo que o conduz
e o veleiro em que vogo
ao alto mar rumará
na busca dos lugares
que já trazia
traçados como mapas em seus remos
além...
esse é o lugar
de quem não fica..
um pouco mais além
lugar-destino
de quem mesmo em sossego
não aquieta.
por agora...
nas margens desse rio
que em mim corre...
Abro o meu peito à luz
que se derrama
de um lugar qualquer
a onde ir
Ficar não está inscrito
no sedimento do meu ser..
velas e marés
forma lhe dão....
Sopre o vento
que lhe enfune as velas
prenda-se ao leme
aquilo que o conduz
e o veleiro em que vogo
ao alto mar rumará
na busca dos lugares
que já trazia
traçados como mapas em seus remos
além...
esse é o lugar
de quem não fica..
um pouco mais além
lugar-destino
de quem mesmo em sossego
não aquieta.
1 102
Angela Santos
Ilha dos Amores
Se
eu pudesse
olharia lá no fundo dos teus olhos,
segurava tuas mãos e te deixava envolver-me
no doce abraço que me desses...
abriríamos nosso peito, e sem surpresa acharíamos
o vermelho botão de rosa
que o tempo em nós fez florir...
e assim embarcaríamos rumo à Ilha dos Amores...
nossas mãos entrelaçadas,
nosso coração fremente,
nosso corpo em desalinho, buscando o voo mais alto
que nos faz pairar no tempo....
esse momento vivido, quase como eternidade,
em que alma e corpo unidos, num abraço intemporal,
nos trará a redenção de uma espera que forjou
nosso querer, nosso sentir...
E é por isso que agora
quando daqui olho o mar
o longe vira horizonte...
já não separa, aproxima
e se o sol nele se põe, eu vejo então reflectida
a clara luz que o tempo
me há- de trazer à vida.
eu pudesse
olharia lá no fundo dos teus olhos,
segurava tuas mãos e te deixava envolver-me
no doce abraço que me desses...
abriríamos nosso peito, e sem surpresa acharíamos
o vermelho botão de rosa
que o tempo em nós fez florir...
e assim embarcaríamos rumo à Ilha dos Amores...
nossas mãos entrelaçadas,
nosso coração fremente,
nosso corpo em desalinho, buscando o voo mais alto
que nos faz pairar no tempo....
esse momento vivido, quase como eternidade,
em que alma e corpo unidos, num abraço intemporal,
nos trará a redenção de uma espera que forjou
nosso querer, nosso sentir...
E é por isso que agora
quando daqui olho o mar
o longe vira horizonte...
já não separa, aproxima
e se o sol nele se põe, eu vejo então reflectida
a clara luz que o tempo
me há- de trazer à vida.
646
Angela Santos
Em parte e no
todo
Serei, a
sereia,
mulher pla metade
metade no mar
outra metade
na areia...
mas é nesta cama
despida do mito
que me deito inteira....
E no abandono,
adentrando o todo
para tudo ser...
de que serei feita?
mulher, pele, medusa, mito,
metafísica das formas
que me ditam
seios
quadris
plexus,
olhos
boca
mãos,
instinto....
E alma...
alma presa a este chão
aspirando ao infinito.
Serei, a
sereia,
mulher pla metade
metade no mar
outra metade
na areia...
mas é nesta cama
despida do mito
que me deito inteira....
E no abandono,
adentrando o todo
para tudo ser...
de que serei feita?
mulher, pele, medusa, mito,
metafísica das formas
que me ditam
seios
quadris
plexus,
olhos
boca
mãos,
instinto....
E alma...
alma presa a este chão
aspirando ao infinito.
1 066
Angela Santos
Além-Mar
Perco-me
nas avenidas do mundo, busco o longe
que me chama
coração em desalinho e a alma de sol e bruma
espraiam-se lá na lonjura
no outro lado do mar..
Aqui, onde sou raiz
as ruelas se estreitam, nelas minha alma se roça
como rio emparedado que em torrente desagua
no outro lado do mar..
Sabe-me a sol e a sal, esse chamado de longe
não o sei dizer... pressinto-o só
e esse pouco é bastante para me agitar o peito
e de mansinho lembrar essa doce vibração
que assoma à flor da pele
Não sei o longe, que me seduz e me chama,
sei apenas que o busco, sem a razão querer saber
como se buscasse, enfim, a coincidência perfeita
desse pedaço de alma que sinto faltar em mim
Ligam Língua e Oceano, esses dois lugares perdidos
Mar.. Mar.. Mar…. imenso Mar
que nos separa e aproxima
Língua - Mater que desnuda e revela devagar,
como o gesto feminino que sem pressa
vai despindo outro ser
a si igual.
nas avenidas do mundo, busco o longe
que me chama
coração em desalinho e a alma de sol e bruma
espraiam-se lá na lonjura
no outro lado do mar..
Aqui, onde sou raiz
as ruelas se estreitam, nelas minha alma se roça
como rio emparedado que em torrente desagua
no outro lado do mar..
Sabe-me a sol e a sal, esse chamado de longe
não o sei dizer... pressinto-o só
e esse pouco é bastante para me agitar o peito
e de mansinho lembrar essa doce vibração
que assoma à flor da pele
Não sei o longe, que me seduz e me chama,
sei apenas que o busco, sem a razão querer saber
como se buscasse, enfim, a coincidência perfeita
desse pedaço de alma que sinto faltar em mim
Ligam Língua e Oceano, esses dois lugares perdidos
Mar.. Mar.. Mar…. imenso Mar
que nos separa e aproxima
Língua - Mater que desnuda e revela devagar,
como o gesto feminino que sem pressa
vai despindo outro ser
a si igual.
749
Angela Santos
Ancoragem
É à noite,
a noite de latidos e silêncios,
que me chega a paz possível...
A noite de estrelas que vigiam
os olhos semi-cerrados
onde repousam os sonhos
de agora e os que hei sonhado
É á noite
que me aconchego ao tempo
flutuante da memória
e ensaio o futuro
num lanço ousado
de acrobata...
É à noite,
que o navio ancorado
aos meus dias
rompe as amarras e ao largo,
pelo vento que vem do Sul,
enfuna as velas e ruma
ao lugar de onde partiu
À noite
emerge a voz que me traz
o nome de um porto antigo
onde há-de fundear a alma
e finalmente cumprir
a rota que em si traçou.
a noite de latidos e silêncios,
que me chega a paz possível...
A noite de estrelas que vigiam
os olhos semi-cerrados
onde repousam os sonhos
de agora e os que hei sonhado
É á noite
que me aconchego ao tempo
flutuante da memória
e ensaio o futuro
num lanço ousado
de acrobata...
É à noite,
que o navio ancorado
aos meus dias
rompe as amarras e ao largo,
pelo vento que vem do Sul,
enfuna as velas e ruma
ao lugar de onde partiu
À noite
emerge a voz que me traz
o nome de um porto antigo
onde há-de fundear a alma
e finalmente cumprir
a rota que em si traçou.
1 063
Angela Santos
Ser ou Não
Ser
Das
pedras assoma um dizer.
Que não são mudas as pedras
E a arvore erecta, espraiando seus ramos
Exala o calor vivo de um ser
Há um canto que se eleva
No rumorejar das águas
Deste rio cujas margens me detém
E no silencioso bater de asa
Da ave rasgando o espaço
Eu leio a traço desenhado
O teu nome, liberdade
Não há silencio
Em tudo o que é
o inexpresso sentido
nos afronta
até no que julgamos não ser.
Das
pedras assoma um dizer.
Que não são mudas as pedras
E a arvore erecta, espraiando seus ramos
Exala o calor vivo de um ser
Há um canto que se eleva
No rumorejar das águas
Deste rio cujas margens me detém
E no silencioso bater de asa
Da ave rasgando o espaço
Eu leio a traço desenhado
O teu nome, liberdade
Não há silencio
Em tudo o que é
o inexpresso sentido
nos afronta
até no que julgamos não ser.
1 053
Angela Santos
Travessia
Duvidas
devoram a lava derramada
e sulcos há agora no lugar por onde
ainda ontem jorravam
rios de incandescências
Leio-me nas marcas
impressas pela torrente
e saudade é o que eu sinto já
Entre as duas margens
sente-se a corrente e atravessa-la
está ainda inscrito
no ímpeto que me lança à margem de lá.
Vejo-me de branco imprimindo as marcas
dos meus pés na areia de um outro lugar…
mas é tão fugaz essa imagem branca
de pés caminhando ao longo da praia
como se uma onda invadindo a orla
de manso levasse as marcas e o trilho
desenhado em sonhos que eu quis sonhar.
Aqui, nesta margem
onde a sós me deito com o que sonhei
propaga-se em ondas o tremor do um vulcão
que invade em silencio o chão que é o meu
e deixo-me ficar quieta à escuta do que agora
vibra e ecoa em mim.
Duvidas e vontades, escavam meu peito,
lanço o meu olhar lá para outra margem
esperando um sinal, o derradeiro aceno
que não sei se virá, e não sei se o quero
e se vier não sei o que me trará,
sei que vou ficar e imprimir
pegadas nas areias finas do meu frio mar.
devoram a lava derramada
e sulcos há agora no lugar por onde
ainda ontem jorravam
rios de incandescências
Leio-me nas marcas
impressas pela torrente
e saudade é o que eu sinto já
Entre as duas margens
sente-se a corrente e atravessa-la
está ainda inscrito
no ímpeto que me lança à margem de lá.
Vejo-me de branco imprimindo as marcas
dos meus pés na areia de um outro lugar…
mas é tão fugaz essa imagem branca
de pés caminhando ao longo da praia
como se uma onda invadindo a orla
de manso levasse as marcas e o trilho
desenhado em sonhos que eu quis sonhar.
Aqui, nesta margem
onde a sós me deito com o que sonhei
propaga-se em ondas o tremor do um vulcão
que invade em silencio o chão que é o meu
e deixo-me ficar quieta à escuta do que agora
vibra e ecoa em mim.
Duvidas e vontades, escavam meu peito,
lanço o meu olhar lá para outra margem
esperando um sinal, o derradeiro aceno
que não sei se virá, e não sei se o quero
e se vier não sei o que me trará,
sei que vou ficar e imprimir
pegadas nas areias finas do meu frio mar.
1 057
Angela Santos
Sinais
Nas
dobras dos lençois
gravadas as marcas
do amor que fizemos
No ar, inaudíveis, agora
suspiros e o cheiro a nós
rondando os lugares
onde nos amamos
No corpo, sentida a ausência
de uma na outra
partes unas que se buscam
à força de uma razão
que não se sabe
Nos olhos, nos nossos
Que se irmanam
o muito que dissemos
sem uma palavra ousar
E no coração,
no meu coração inquieto
Voga imensa, a saudade
barca que de novo sente
o ímpeto que a lança
em busca do teu mar.
dobras dos lençois
gravadas as marcas
do amor que fizemos
No ar, inaudíveis, agora
suspiros e o cheiro a nós
rondando os lugares
onde nos amamos
No corpo, sentida a ausência
de uma na outra
partes unas que se buscam
à força de uma razão
que não se sabe
Nos olhos, nos nossos
Que se irmanam
o muito que dissemos
sem uma palavra ousar
E no coração,
no meu coração inquieto
Voga imensa, a saudade
barca que de novo sente
o ímpeto que a lança
em busca do teu mar.
1 193
Fernando Tavares Rodrigues
Corpo
Que não
seja estátua!
Seja às vezes carne
Entre rosa e sangue
Entre forma e fundo.
Saiba ser o fruto
Sem ser só o gomo
Seja vinho novo
Seja apenas sumo.
Seja nevoeiro.
Venha nu, mas venha
Envolto na bruma....
Possa ser mistério...
Seja cais à espera
Seja barco à vela;
Possa ser mar alto
Possa ainda ser espuma.
(Traga o encanto de ser
impossívekl e longinquo
como um postal colorido
de uma cidade qualquer)
Que para além da imagem
Haja madrugada.
Seja uma viagem
Entre tudo e nada.
Como o álcool puro
Quando se evapora
E risca o futuro
Do lado de fora...
seja estátua!
Seja às vezes carne
Entre rosa e sangue
Entre forma e fundo.
Saiba ser o fruto
Sem ser só o gomo
Seja vinho novo
Seja apenas sumo.
Seja nevoeiro.
Venha nu, mas venha
Envolto na bruma....
Possa ser mistério...
Seja cais à espera
Seja barco à vela;
Possa ser mar alto
Possa ainda ser espuma.
(Traga o encanto de ser
impossívekl e longinquo
como um postal colorido
de uma cidade qualquer)
Que para além da imagem
Haja madrugada.
Seja uma viagem
Entre tudo e nada.
Como o álcool puro
Quando se evapora
E risca o futuro
Do lado de fora...
1 091
Geraldo Pinto Rodrigues
Pélvicas Angras
Pélvicas angras
aonde veleja
meu barco ébrio
entre suores.
Meu barco púbico
roçando o porto
de tuas ancas,
nos desesperos.
Se a quilha agito
qual um corcel,
nos descampados
já faço água
neste batel
desgovernado
nos teus desmandos.
Só sigo a viagem,
mais confortado,
quando fundeio
nos teus abraços.
Enfim, assédios
de muitos frêmitos
me desintegram
nos teus penhascos!
aonde veleja
meu barco ébrio
entre suores.
Meu barco púbico
roçando o porto
de tuas ancas,
nos desesperos.
Se a quilha agito
qual um corcel,
nos descampados
já faço água
neste batel
desgovernado
nos teus desmandos.
Só sigo a viagem,
mais confortado,
quando fundeio
nos teus abraços.
Enfim, assédios
de muitos frêmitos
me desintegram
nos teus penhascos!
1 026
Angela Santos
Fontes
No
remurejar da água corrente
oiço a voz límpida
das entranhas da terra,
telúrica voz
em ressonâncias de cristais
Fito a inteira nudez da natureza
despindo-se sem pudor
ante meus olhos lavados
e abraço a terra toda num só pedaço de chão.
No gesto de dar te reconheço, terra mãe
no corpo nu e languido
eu me vejo a mim mulher,
e das fontes como mãos abertas
as aguas límpidas que brotam bebemos
e assim lavamos a alma
a minha e a da terra.
Sorvo os aromas e ébria de cores
olho a visão ressurgida
na placidez vespertina
de um recanto transfigurado
pelos raios de um sol furtivo…
e um não sei quê me ilumina
Na emergente claridade
regresso à matriz de tudo
sinto que sou só compasso
e que o átomo e o infinito pulsam no seio do todo
saber que sou já me basta
que me leve aonde for
o meu simples descompasso,
basta-me saber que vou.
remurejar da água corrente
oiço a voz límpida
das entranhas da terra,
telúrica voz
em ressonâncias de cristais
Fito a inteira nudez da natureza
despindo-se sem pudor
ante meus olhos lavados
e abraço a terra toda num só pedaço de chão.
No gesto de dar te reconheço, terra mãe
no corpo nu e languido
eu me vejo a mim mulher,
e das fontes como mãos abertas
as aguas límpidas que brotam bebemos
e assim lavamos a alma
a minha e a da terra.
Sorvo os aromas e ébria de cores
olho a visão ressurgida
na placidez vespertina
de um recanto transfigurado
pelos raios de um sol furtivo…
e um não sei quê me ilumina
Na emergente claridade
regresso à matriz de tudo
sinto que sou só compasso
e que o átomo e o infinito pulsam no seio do todo
saber que sou já me basta
que me leve aonde for
o meu simples descompasso,
basta-me saber que vou.
1 019
Angela Santos
Farol do Tempo
Traço
em movimento
um navio a horizonte
onde se prende o olhar
e lembro
Portos sem amarras
praias longínquas
de um mar que eu mesma
invento
E uma centelha
vinda não sei de onde
emerge fugaz de uma tempestade,
qual farol do tempo
a lembrar viagens que não começaram.
Fixo os olhos no poente
que lá de longe me chama
e sinto que lá só chega
quem o oceano rompe
e abre as velas ao vento
para o alcançar.
em movimento
um navio a horizonte
onde se prende o olhar
e lembro
Portos sem amarras
praias longínquas
de um mar que eu mesma
invento
E uma centelha
vinda não sei de onde
emerge fugaz de uma tempestade,
qual farol do tempo
a lembrar viagens que não começaram.
Fixo os olhos no poente
que lá de longe me chama
e sinto que lá só chega
quem o oceano rompe
e abre as velas ao vento
para o alcançar.
1 072
Angela Santos
Nau das Descobertas
Cantar
o agri-doce fado
dos que por destino têm
vastíssimos
os campos do mar
Velas, quilhas, mastros,
oceano a condição,
mas na bruma se perdeu
a seda, o ópio a canela
e o sonho imperial que no tempo
se esfumou.
Olhos de fogo cravados
no adensar dos nevoeiros
filhos deste mar tão perto
na orla das praias cansamos
as viagens adiadas,
e a espera do Encoberto
Navegar é preciso!
por dentro do corpo que respira
rente a este chão que somos
nova Nau das Descobertas
rumo a si, porto e destino…
Ausentes a Cruz de Cristo
o arcabuz e os grilhões
encontraremos ainda
esse longe que buscámos,
não na lança do inimigo
mas no regresso ao destino
da língua- mater e o mar
nos tornar tão só iguais.
o agri-doce fado
dos que por destino têm
vastíssimos
os campos do mar
Velas, quilhas, mastros,
oceano a condição,
mas na bruma se perdeu
a seda, o ópio a canela
e o sonho imperial que no tempo
se esfumou.
Olhos de fogo cravados
no adensar dos nevoeiros
filhos deste mar tão perto
na orla das praias cansamos
as viagens adiadas,
e a espera do Encoberto
Navegar é preciso!
por dentro do corpo que respira
rente a este chão que somos
nova Nau das Descobertas
rumo a si, porto e destino…
Ausentes a Cruz de Cristo
o arcabuz e os grilhões
encontraremos ainda
esse longe que buscámos,
não na lança do inimigo
mas no regresso ao destino
da língua- mater e o mar
nos tornar tão só iguais.
1 125
Angela Santos
Ímpeto
Espraiam-se
os olhos
lonjura de mar que acerca
o infinito
Pendentes no ondear
os sentidos adormecem
a saudade de azul e sal
abrem-se os mastros
ao sol
a nave inteira reflectida
funde-se no movimento das marés,
nas velas e na proa
o ímpeto que a viagem anuncia.
Gasto o momento
de permanências ancoradas
os remos ensaiam o gesto
de asas
rasgando o espaço e o tempo
da demora.
os olhos
lonjura de mar que acerca
o infinito
Pendentes no ondear
os sentidos adormecem
a saudade de azul e sal
abrem-se os mastros
ao sol
a nave inteira reflectida
funde-se no movimento das marés,
nas velas e na proa
o ímpeto que a viagem anuncia.
Gasto o momento
de permanências ancoradas
os remos ensaiam o gesto
de asas
rasgando o espaço e o tempo
da demora.
1 034
Angela Santos
Condição
Se
de um mistério me queres falar
lembra-me a semente prenhe
acoitada no seio da terra
em silencio a germinar
Se me queres falar
do amor – dor
fala-me do tenro tronco
que em grito rasga
o corpo da mulher
Se me queres falar da alegria
lembra-me um rútila boca pequenina
que sem sombra de cuidado
ri ainda
Se me queres falar de paz
leva-me ao fim do dia
junto ao esplendor de um sol
em brasa
sobre a mansidão do mar.
Se me queres falar da vida
mostra-me o homem que procura
fala-me do amor, da dor
e às vezes da alegria!
de um mistério me queres falar
lembra-me a semente prenhe
acoitada no seio da terra
em silencio a germinar
Se me queres falar
do amor – dor
fala-me do tenro tronco
que em grito rasga
o corpo da mulher
Se me queres falar da alegria
lembra-me um rútila boca pequenina
que sem sombra de cuidado
ri ainda
Se me queres falar de paz
leva-me ao fim do dia
junto ao esplendor de um sol
em brasa
sobre a mansidão do mar.
Se me queres falar da vida
mostra-me o homem que procura
fala-me do amor, da dor
e às vezes da alegria!
995
Mauricio Segall
Na ponte de comando
Na ponte
de comando
da nave que singra as vagas
como a noz que flutua na corrente
a vista comanda a linha do horizonte
avistada no infinito
pelo navegante de todas as eras
que no convés ou tombadilho
tal escultura de pedra
perscruta sem piscar
e migra do longe para o perto
para imergir do fora para o dentro
na hipnose do encontro do céu e mar.
A coragem preparada para o mergulho
na cachoeira do fim do mundo plano
como a flechada da gaivota para o fundo
do oceano turvo de um mundo curvo
sonhando sempre com mistérios e perigos
da descoberta de algum novo porto
Portal de horizontes mais profundos.
de comando
da nave que singra as vagas
como a noz que flutua na corrente
a vista comanda a linha do horizonte
avistada no infinito
pelo navegante de todas as eras
que no convés ou tombadilho
tal escultura de pedra
perscruta sem piscar
e migra do longe para o perto
para imergir do fora para o dentro
na hipnose do encontro do céu e mar.
A coragem preparada para o mergulho
na cachoeira do fim do mundo plano
como a flechada da gaivota para o fundo
do oceano turvo de um mundo curvo
sonhando sempre com mistérios e perigos
da descoberta de algum novo porto
Portal de horizontes mais profundos.
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