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Poemas neste tema

Música

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Tempestade Para Os Vivos E Para Os Mortos

você não me pega, a chuva está entrando pela
porta e estou na frente do computador enquanto
ouço Rachmaninov no rádio,
a chuva entrando de lado pela porta,
pancadas dela e sopro fumaça de charuto nela e
sorrio.
depois da porta tem uma sacadinha e há
uma cadeira lá.
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas vão
mal aqui.
(caramba está caindo água agora!
ótimo! ensopando meu assento de madeira
lá fora!
as árvores balançam na chuva e os
fios telefônicos.)

às vezes sento naquela cadeira quando as coisas
vão mal
e bebo cerveja lá fora,
olho os carros da noite na autoestrada,
também noto quantas luzes são necessárias
numa cidade, tantas.
e fico lá sentado e penso, bem, pode
ser um momento estagnado
mas pelo menos você não está morando na rua.
você não está nem no cemitério ainda.
ânimo, garotão, você já superou
coisa pior...
beba sua cerveja.

mas hoje estou aqui,
e Rachmaninov ainda toca para mim.
quando eu era jovem em São
Francisco, ou razoavelmente jovem, eu era
um pouco mentalmente desequilibrado, achava
que era um grande artista e passava fome por
isso.
estou querendo dizer é que Rachmaninov ainda
estava vivo na época
e de algum modo eu poupara dinheiro
suficiente para ir vê-lo tocar no
auditório.
só que quando cheguei lá
anunciaram que ele estava doente
e que um substituto iria
tocar no lugar dele.
fiquei com raiva.
não deveria ter ficado pois dentro
de uma semana ele estava
morto.
mas ele está tocando para mim agora.
uma de suas próprias composições,
e se saindo muito bem.
com a chuva batendo nesta sala,
agora um vento de temporal escancara
totalmente a porta.
papéis voam pela sala.

há uma batida na porta,
a porta atrás de mim.
ela se abre.
minha esposa entra.

“é um furacão!”, ela diz,
“um furacão de gelo, você vai morrer
congelado!”

“não, não”, digo a ela, “estou bem!”

ela toca os meus braços,
eles estão quentes.

ela fica me encarando.
às vezes ela se pergunta.
eu também.

agora estou sozinho.
Rachmaninov terminou
e a chuva
parou.
e o vento.

agora sinto frio.

eu me levanto e visto um roupão de banho.

sou um velho escritor.

uma conta de telefone olha para mim
de ponta-cabeça.

a festa acabou.
San Pedro, 1993,
no Senhor do nosso
Ano.

sentado aqui.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Dando Um Jeito

nesta manhã fumegante Hades bate palma com suas mãos de Herpes e
uma mulher canta pelo meu rádio, sua voz vem escalando
pela fumaça e pelas emanações do vinho...

é um momento solitário, ela canta, e você não é
meu e isso me deixa tão mal,
essa coisa de ser eu...

consigo escutar carros na autoestrada, é como um mar distante
com sedimentos de pessoas
e por sobre o meu outro ombro, lá longe na 7th street
perto da Western
está o hospital, aquela casa do suplício –
lençóis e urinóis e braços e cabeças e
expirações;
tudo é tão docemente medonho, tão contínua e
docemente medonho: a arte da consumação: a vida comendo
a vida...
certa vez num sonho eu vi uma cobra engolindo sua própria
cauda, ela engoliu e engoliu até completar
meia-volta, e ali parou e
ali ficou, ela estava estufada de si
mesma. que situação.
só temos nós mesmos para ir em frente, e é o
bastante...

desço a escada pra pegar outra garrafa, ligo a
tevê a cabo e eis Greg Peck fingindo ser
F. Scott e ele está muito empolgado e está lendo seu
manuscrito para sua dama.
desligo o
aparelho.
que tipo de escritor é esse? lendo suas páginas para
uma dama? isso é uma violação...

volto ao andar de cima e meus dois gatos me seguem, eles são
bons camaradas, não temos desentendimentos, não
temos discussões, ouvimos a mesma música, nunca votamos para
presidente.
um dos meus gatos, o grande, salta no encosto
da minha cadeira, se esfrega em meus ombros e meu
pescoço.

“não adianta”, digo a ele, “não vou
ler pra você esse
poema.”

ele salta para o chão e sai pela
sacada e seu amigo
segue atrás.

eles sentam e olham a noite; nós temos o
poder da sanidade aqui.

nestas primeiras horas da manhã, quando quase todo mundo
está dormindo, pequenos insetos noturnos, coisas aladas
entram e circulam e giram.
a máquina zumbe seu zumbido elétrico, e tendo
aberto e provado a nova garrafa eu bato o próximo
verso. você
pode lê-lo para sua dama e ela provavelmente lhe dirá
que é bobagem. ela estará
lendo Suave é a
noite.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Árvore Genealógica

nada de mais na minha árvore genealógica, bem, houve o meu tio
John, procurado pelo F.B.I., me pegaram primeiro.
Vovô Leonard, no meu lado paterno, ficava muito
amável quando bebia, elogiava todo mundo, distribuía dinheiro,
chorava copiosamente pela condição humana, mas quando ficava
sóbrio se dizia dele que era uma das criaturas mais
ruins jamais vistas, escutadas ou evitadas.
não muito mais exceto Vovô Willy no meu lado
materno (lá na Alemanha): “Ele era um homem amável,
Henry, mas tudo que queria fazer era beber e tocar seu
violino, ele tocava tão bem, ele tinha um ótimo
emprego numa orquestra sinfônica de primeira mas o
perdeu por causa da bebida, ninguém queria contratá-
lo, mas ele era bom com o violino, ele ia para os cafés
e pegava uma mesa e tocava seu violino, botava o chapéu
sobre a mesa de cabeça pra baixo e as pessoas colocavam um
monte de dinheiro dentro mas ele continuava comprando bebida e
tocando o violino e logo passou a não tocar tão bem
assim e pediam que ele saísse mas na noite
seguinte ele encontrava outro café, outra mesa, ele
escrevia sua própria música e ninguém conseguia tocar violino
como ele conseguia.
Ele morreu certa noite na mesa, largou o
violino, tomou a bebida, deitou a cabeça na mesa e
morreu”.
bem, houve o meu tio Ben, ele era tão bonito que
assustava, ele era bonito demais, ele simplesmente fulgurava,
não dava para acreditar e aquilo não passava, tudo que ele
podia fazer a respeito era sorrir e acender outro cigarro
e encontrar outra mulher para sustentá-lo e consolá-lo, e
depois encontrar outra mulher para fazer o mesmo, e depois encontrar
outra.
ele morreu de tuberculose num sanatório nas colinas, o maço de
cigarros embaixo do travesseiro, morto ele sorria, e em seu
enterro 2 dúzias das mais lindas mulheres de Pasadena,
Glendale e Echo Park choraram
desavergonhadamente enquanto meu pai o xingava no caixão: “Seu
filho da puta desgraçado, você nunca trabalhou um único dia na
vida!”.

meu pai, é claro, foi um que eu nunca consegui decifrar –
quero dizer, como é que ele pode ter conseguido entrar na árvore
genealógica.
mas eu estava me sentindo bastante bem até aqui, mal pode haver
algum proveito em fazer disso aqui um poema depressivo.

bem, às vezes você ganha um macaco estranho num galho e tudo que você
pode fazer é perdoar se puder e esquecer, se possível,
e se nem uma nem outra coisa adiantar, então pense nos outros
e saiba que ao menos parte do seu sangue tem alguma
esperança.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Às Vezes Quando Fico Triste Eu Ouço Mahler

nada disso de creme, Harry,
um Moisés peludo como eu só quer procurar abrigo agora
como um retrato de St. Louis na neve, mas não, está quente:
óleo suficiente no ventilador, e
preguiçoso demais pra trocar os lençóis sujos,
louco demais pra dar importância.

eu costumava escrever à minha mãe sobre lâminas de barbear na minha garganta
sobre o aspecto medonho dos rostos nas pessoas
como seus corpos pareciam alcatrão endurecido
mas a querida mamãe velha morreu de câncer enquanto eu me deitava com
uma puta de 130 quilos que veio nadando toda a distância desde a
Costa Rica
e precisei arranjar emprego nos pátios ferroviários,
isso mesmo porra, e fico pensando que a última navalha na minha garganta
vai entender a divindade do aço e
a não divindade da
espera.

não tenho escrito, Harry, nada de creme,

porque tenho um lugar nos fundos, eu me refiro a uma
janela dos fundos neste quarto
e eu olho lá fora e tem uma mulher toda hora pendurando roupa
tem uns 35
e quando ela se curva pra pegar suas calcinhas e sutiãs e lençóis
e náilons da cesta,
ah –
está tudo lá, Harry,
e eu estou olhando
olhos pulando através das vidraças sujas
e fico que nem um colegial espinhento de novo
nunca peguei um rabo como esse,
ali está ela no guingão engomado,
quadrados vermelhos e brancos
e aquela bunda do tamanho do Empire State Building
me olhando na boca
e o sol se atirando sobre tudo
e no canto do meu quarto
um quadrado de manteiga derretendo num prato
um naco de pão seco
e uma aranha no canto
sugando Pepsi-Cola de uma mosca –
creme, Harry, creme!
e
às vezes quando fico triste eu ouço Mahler
ou leio um pouco de Artaud
ou saio no pátio onde cuidam de uma tartaruga
e quando ninguém está olhando
eu queimo o pescoço dela com meu charuto
e quando a cabeça entra no casco eu meto o charuto no
buraco que nem uma pica
quente, mas você sabe, mesmo, não tem nada sendo escrito,
porém sigo recebendo rejeições,
e eu escrevo coisa boa, Harry, nada de creme –
só que o verdadeiro gênio não costuma ser reconhecido
em vida
e por isso não perco meu ânimo –
neste momento estou ouvindo “A marcha dos contrabandistas”
da Suíte Carmen de Bizet,
que bosta mais melosa,
acho que vou tentar aquele macaco Malone
da Wormwood – ele publica Bukowski
portanto publicaria qualquer um. a propósito, Bukowski mora no quarto
do outro lado do corredor,
um babaca, outro dia estávamos todos no quarto da Jane Suja,
bebendo vinho do porto
e Bukowski arranca as ceroulas da Jane Suja do nada
e manda bala
bem na frente de
todo mundo. sério, ele caiu
de boca. se ele pode
eu também posso. e ele teve a cara de pau de me dizer
“a próxima vez que eu te ver queimando aquela tartaruga
eu te mato!”
e ele estava tão bêbado que eu poderia ter derrubado ele no chão com um
mata-moscas.
nada disso de creme, Harry, eu não escrevo faz meses
mas a próxima coisa que eu escrever precisa dar
certo, posso sentir as palavras inchando em mim como as penas na pica de um gato
entalada no cu de um peru.
o sol está invadindo meus templos
e o papel de parede dança com garotas nuas depois da uma da
manhã
eu vejo modos cada vez melhores de lançar um verso sólido lá
nas alturas, sem brincadeira, rapaz, agora é a
hora, minha máquina de escrever é minha metralhadora
e rá tá tá tá rá
o céu todo vai despencar e belas garotas
com olhos de explosão celestial
vão pegar na minha banana; está tudo aqui –
os resíduos do esgoto, as montanhas obtusas,
equidade,
1690 pés cúbicos, anorexia, a sombra de
Marcus Junius Brutus &
uma fita nova na máquina de escrever.
uma foto de Hemingway colada no meu
banheiro.

cristo deus, Harry, eu sou um escritor,
e não é fácil quando sou o único que sabe disso,
com exceção talvez da Jane Suja,
mas vou provavelmente acabar tão famoso um dia
que não serei capaz de me aguentar
e aí vai ser a navalha.
de todo modo, estranho fim
para o mesmo jogo sujo.
Bukowski acabou de passar pra pedir emprestada uma lâmina de barbear –
por que será que ele precisa
com aquela
barba toda?
1 176
Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Cartas de John Steinbeck

sonhei que eu estava congelando e quando acordei e descobri
que não estava congelando de algum modo eu caguei na cama.
eu tinha trabalhado no livro de viagem naquela noite e
não tinha rendido muito bem e estavam levando meus cavalos
embora, para Del Mar.
eu teria tempo para ser escritor agora. eu acordaria de
manhã e lá estaria a máquina olhando para mim,
ela ia parecer uma tarântula; ou melhor – ia parecer
um sapo preto com cinquenta e uma verrugas.

você deduz que Camus se ferrou porque deixou outra pessoa
dirigir o carro. não gosto de nenhuma outra pessoa dirigindo o
carro, não gosto nem quando eu mesmo dirijo. bem,
depois de limpar a merda coloquei minha bermuda
amarela de caminhada e fui de carro para o hipódromo. estacionei e
entrei.

o primeiro que vi foi o meu biógrafo. eu o vi
de lado e me escondi. ele estava bem-vestido,
fumava um charuto e tinha um drinque na mão.
da última vez na minha casa ele me deu dois livros:
Scott e Ernest e As cartas de John Steinbeck.
leio esses livros quando cago. sempre leio quando cago
e quanto pior o livro melhor o movimento intestinal.
aí depois da primeira corrida meu médico sentou do meu lado.
ele parecia ter acabado de sair de uma cirurgia sem
se lavar muito bem. ele ficou até depois da
oitava corrida, conversando, bebendo cerveja e comendo cachorros-quentes.
então desatou a falar do meu fígado: “você bebe quantidades
tão absurdas que quero dar uma olhada no seu fígado. trate
de aparecer agora.” “tá bom”, falei, “terça de
tarde.”

eu me lembrei da recepcionista dele. na minha última consulta
tinha ocorrido uma inundação no banheiro e ela ficou de joelhos
no chão para secar e seu vestido havia subido bem
alto acima das coxas. eu tinha parado pra ficar olhando,
dizendo a ela que as duas maiores invenções do Homem haviam sido
a bomba atômica e o encanamento.

aí o meu médico se foi e o meu biógrafo se foi também
e eu ainda tinha $97.
lá em Del Mar eles têm uma reta curta e eles
vêm gemendo por aquela última curva, e a água dos
bebedouros tem gosto de mijo.

se o meu fígado já era então já era; algo sempre ia
primeiro e aí o restante seguia. que desfile.
não era verdade, porém, dependia da parte.
eu conhecia certas pessoas sem mente que esbanjavam
saúde.

perdi a última corrida e saí dirigindo com sorte o bastante para
pegar um Shostakovich no rádio
e quando você vê às 6:20 da tarde numa rádio AM
isso é tirar um rei com ás, rainha, valete, dez...
1 221
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nós, Os Artistas –

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 164
Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Cortinas Balançam E As Pessoas Caminham Ao Longo da Tarde Aqui E Em Berlim E Em Nova York E No México

eu espero pela vida como em uma gravidez, ponho o estetoscópio
na barriga
mas tudo o que escuto agora é
o piano batendo seus dentes através de áreas do meu
cérebro
(alguém nesta vizinhança gosta de
Gershwin o que é ruim demais
para
mim)
e a mulher se senta atrás de mim
senta ali senta ali
e segue acendendo cigarros
e agora as enfermeiras deixam o hospital aqui perto
e elas usam vestidos que estão nus ao sol
para alegrar aos mortos e aos moribundos e aos médicos
mas isso em nada me
ajuda
se eu as pudesse rasgar com gemidos de deleite isto
nem acrescentaria nem levaria
nada
agora agora
uma buzina soa um verão
cansado como um gladíolo que desiste e se escora em uma
casa e
as garrafas que esvaziamos estrangulariam as
sensibilidades... de Deus
agora eu ergo os olhos e vejo meu rosto no espelho:
se eu pudesse ao menos matar o homem que matou o
homem
mais do que as xícaras de café e os charutos me
liquidaram mais do que eu mesmo me
liquidei
a loucura surge como um rato saído do aparador e
eles me estendem uma fotografia da
lua
a mulher atrás de mim tem uma filha que se apaixona
por homens de barba e sandálias e boinas
que fumam cachimbos e arrumam os cabelos com cuidado e
jogam xadrez e falam continuamente de
alma e de Arte
isto é bom o suficiente: é preciso amar
alguma coisa
agora as águas do senhorio lá fora derramando sobre
as plantas uma falsa chuva
Gershwin terminou e agora parece
Greig
ah, é tudo tão comum e difícil! impossível!
desejo que alguém possa se tornar uma amora
selvagem
mas não
suponho que será
o mesmo: uma cerveja e depois outra
cerveja e depois outra
cerveja
talvez depois uma garrafinha de
uísque
três charutos – fumaça fumaça sim fumaça
debaixo do sol elétrico da noite
escondido aqui entre estas paredes com esta mulher e sua
vida enquanto
os policiais estão retirando os bêbados das
ruas
não sei por quanto tempo ainda posso
aguentar
mas continuo pensando
ó! meu deus!
o
gladíolo se empertigará e
cheio de
cor como uma
flecha apontando para o
sol
Cristo tremerá como
marmelada
meu gato terá o aspecto que Gandhi certa vez
teve
tudo tudo
mesmo os azulejos do banheiro masculino na
Union Station serão
verdadeiros
todos os espelhos espalhados por aí
finalmente refletindo rostos de verdade
rosas
florestas
nunca mais policiais
nunca mais
eu.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Multa

abandonei mais uma vez o emprego
e a polícia me parou
por cruzar um sinal vermelho na Serrano Ave.
eu não parava de viajar
e fiquei ali em meio a um amontoado de folhas
à altura do tornozelo
e mantive a cabeça virada
de modo que eles não pudessem sentir o cheiro
forte da bebida
e recebi a multa e voltei para o meu quarto
e consegui uma boa sinfonia no rádio
um dos russos ou dos alemães,
um dos caras morenos e duros
mas ainda assim sentia frio e solidão
e seguia acendendo cigarros
e liguei o aquecedor
e então no chão
avistei uma revista com minha foto
na capa
e avancei até ali e a apanhei
mas não era eu
porque ontem já era
e hoje é apenas extrato de tomate
e cães de corrida
e mal-estar
e mulheres algumas mulheres
momentâneas em sua beleza
como qualquer das catedrais
e agora eles tocam Bartok
que bem sabia o que estava fazendo
o que na prática significa não saber o que estava fazendo,
e amanhã suponho que retornarei para
a porra do trabalho
como um homem para a esposa e seus quatro filhos
caso me tivessem nessa
mas hoje sei que escapei de
algum tipo de rede,
30 segundos mais e eu poderia estar morto,
e é importante reconhecer
a gente precisa reconhecer
esse tipo de momento
se quisermos continuar
a avaliar as entranhas e a caveira ensacada de uma
flor de uma montanha de um barco de uma mulher
o código da geada e da pedra
tudo convergindo num sentido de momento
que limpa como o mais poderoso dos sabonetes do mercado
e traz Paris, Espanha, os gemidos de Hemingway,
a madona azul, o touro recém-nascido,
uma noite num closet pintado de vermelho
bem dentro de você,
e espero pagar a multa
mesmo que eu não tenha (eu acho) cruzado o vermelho
mas
eles disseram que eu cruzei.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema Para o Engraxate

o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.

e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.

lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou se trate do velho lutador Beau Jack[7]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”

às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.

se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana

pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.

o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.

a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
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