Temas
Poemas neste tema

Noite e Lua

Herberto Helder

Herberto Helder

5

São estes — leopardo e leão: carne turva e
atravessadamente
rítmica a sonhar nas noites de água aos buracos.
Montanhas das áfricas,
montanhas das árvores que sangram.
Há tanto ar rodeando as árvores nas montanhas: na sua
animalidade
dourada, leões e leopardos compactos aligeiram-se
com o ar onde crescem as montanhas. Carne
violenta, e amargo o sangue que lhes alimenta a elegância
— e então eles
aproximam-se, leves em seus arcos eléctricos,
ao canto e ao movimento dos dedos no giro de uma rosa.
Leopardos vivos debaixo das coroas, e os leões que alguém
soprou na boca. Como descem o ar
e a água das montanhas, como
se embrenham pelas árvores sangrando no escuro — e saem
ao reluzir dos dedos e aos cantos
roucos, nas áfricas. Penso
que os não posso aflorar — a descarga queimaria tudo:
mão, e aveia até à garganta e à mágica
das palavras unidas. Mas se viessem decifrar as chagas
das palmas viradas para a lua. E as coisas
mentais
da sua loucura negra se abalassem à corola doada nos dedos.
Se na volta das cabeças abertas entre os nervos de um brilhante
distinguissem a largura da minha noite,
e me enchessem do seu bafo,
e dançassem. O caos encontrava o equilíbrio
dos algarismos. Talvez cantassem, leão e leopardo
comigo: garras e unhas lunadas,
gargantas, as mesmas
pupilas bruscas, a mesma seiva, o mesmo furor
dourado na escuridão. Que sono é esse de onde saio quando os faço
morosamente sair
do sono? Fluxo que descerra o fluxo, rosto
que embranquece contra outros rostos lado a lado, com força, com
segredo. Como se a meia voz
se enaltecesse a floresta. As temperaturas difundem-se pelos feixes
das pedrarias secretas.
Porque é o mundo: vibra tendão a tendão na pedra
que se apanha, acordada na sua
seiva, pedra
de toque ao toque zoológico em tudo: ouro e mármore, o peso
da água sobre
a música. Que voz me dão as vozes? Que doçura ou inocência
ou arte
oculta manobra a minha vida por entre aquilo
que se transforma? E a traqueia, quem
a modula? A noite estremece nos centros de água. E o cristal das cabei
talhado a fio límpido
rasga a membrana: começa a ferver a luz como uma
coroação, a realeza
do poema animal —leopardo e leão. Oh,
cantam em música humana, eles, no trono
das montanhas das áfricas
redivivas —
558
Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar - I

Uma noite encontrei uma pedra
oh pedra pedra!
verde ou azul, de lado, como se estivesse morta.
Encontrei a noite como uma pedra inclinada
sobre o meu corpo
puro, profundo como um sino.
Vi que havia em mim um pensamento
inocente, uma pedra
quando se entra na noite pelo lado onde
há menos gente.
Ou era um sino de um futuro
maior silêncio, tão
grande silêncio para se habitar só em gestos.

Aí eu poderia erguer-me na ponta
dos pés e ficar para sempre: chama
que a noite viesse alimentar com sua
própria matéria que se queima. Noite —
— lenha para nossa leveza humana. Encontrei
uma coisa caída, talvez madura, um pouco
metida pela terra dentro.
Alguma coisa dessas coisas da imobilidade, objecto
executado pelo sono,
onde eu passava os dedos apavorados e doces.

Som ou degrau que eu beijaria,
elevando-se da terra, não como uma árvore
ou uma mulher
desenvolvida em sua atmosfera de doçura
e dolorosa exaltação. Alguma coisa
subida de raízes mais milagrosas, que se não
exprimia com a brevidade
subtil de folhas, ou a quente agudeza de dedos espalhados.
Algo não levantado inteiramente da obscuridade
de uma vida sepulta,
e não jacente por sobre o qual milhares de estrelas
rolassem as asas de gelo.
Uma coisa numa existência demorada entre
o êxtase e a força sombria
das estações.

Encontrei uma pedra pedra
que não era uma colina com o mês de março em volta.
Nem era a boca materna aberta
debaixo dos rios lisos.
Uma coisa para se encostar a cabeça, oh não
para morrer. Para alguém subir
e de onde não era possível gritar. Uma pedra
sem folhas, um sino
sem pensamento. Encontrei algo que não andava
pelos montes nem seria atravessado
por uma flecha. E não sangrava.
Que não se ouvia se cantava. Talvez fosse fria
ou vivesse abrasada sobre a ilusão.

Era verde na noite quando se vem de longe,
ou azul, ou verde pelo milagre
que não existe. Ou então
era clara de certas flores que se dobram.
Ou então era alta, ou esmagada, ou degolada,
no meio de um silêncio global.
Encontrei em mim essa clareira desarrumada na seiva,
como se um poço distante ressoasse,
ou como
se os dias se fossem aproximando da minha idade
triunfante,
e eu me calasse e movesse o rosto aberto
pela luz para a abstracta violência
da solidão.

Encontrei
um animal adormecido, uma flor hipnotizada,
uma viola ferozmente taciturna.
Era amarela só se eu levantasse a cabeça, ou era
tão escura na infância grande.
Encontrei uma verde pedra cravada no mundo
das pessoas, à entrada da candura,
tão admirável pelo azul da terra dentro.
Uma coisa incompreendida no instante
de morrer para a frente.

Encontrei ondas e ondas contra mim, como se eu fosse
um homem morto entre palavras.
Campos de cevada inspirados no fogo que batiam
nas costas das minhas mãos,
aldeias inteiras cantando sua pureza
quase louca. Encontrei depois o lugar
onde deitar a cabeça e não ser mais ninguém
que se saiba. Uma pedra
pedra seca, uma vida entre muitos dons.
Com as raizes de quem divaga.
Uma pedra sem som como quem se move
sobre os alimentos.

Encontrei como quem arrasta para a noite
um símbolo pesado e ardente.
Ou a ideia
da morte mais leve que o coração sem nada
do amor.
Se me perguntam, digo: encontrei
a lua, o sol.
Somente o meu silêncio pensa.

— Se era uma pedra, um sino. Uma vida verdadeira.
1 248
Herberto Helder

Herberto Helder

Mulheres Correndo, Correndo Pela Noite.

Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.

E o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.

De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras — nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.

Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.

Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.

Correndo, lembrando, batendo.
1 325
Herberto Helder

Herberto Helder

5.

Não se pode tocar na dança. Toda essa fogueira.
Uma paisagem temível vista depressa
desaparecida.
Porque é tudo sublevado para o olhar.
E é profundo quando vibra um colar de água
no coração da pedra muito limpa.
A dança de baixo para cima. Nunca
uma árvore pôde assim respirar tão entranhada.
Constelação que palpita
em sua imagem
de raízes carnais. E as grandes frutas imóveis
como rostos
contemplados aqui. O sono ferve na cabeça dos mortos.
Os diamantes. Os cabelos
torcidos como garras. Baixos. Violentos.
Ainda.
E o fogo arrasta as serpentes para fora. Alua move
as portas. O sangue brilha no fundo
da boca. Isto é o incêndio
dos braços entreabertos, das espáduas.
Porque tudo caminha inspirado em si mesmo.
Jardins em arco, as casas.
E a dança desde o umbigo puxa os tentáculos à volta.
O dia expulsa as estrelas
das poças. Que os chifres
estremeçam sob as lunações giratórias.
O leite nas tetas. O pêlo amansa.
Pode-se ver a onda a bater nas omoplatas. As coxas
rodando os seus lentos planetas que se afastam.
Da terra,
do meio. Explode a estação mais branca.
Branca no ano.
Vergam-se os quartos. E as caras
demenciais docemente quando aparecem
massacradas.
Onde a luz acaba e a treva toda se volta.
Uma camisa torácica
posta apanhada a cada clarão. Isso com as unhas
a luzir. Em cima os dedos nas mãos. As cobras
hipnóticas.
Dizem que o mel novo enlouquece as pessoas. A dança
arrasta os mortos. Simétricos,
fechados como laços,
como jóias.
Até às ressacas das paisagens que se movem
dia a dia. Pelos incêndios dentro dos animais. Solenes
pedras
sumptuárias. A dança
guiando as montanhas sobre as águas.
Navios cegos.
Branca floresta.


1977.
566
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 10

Encontro-me na posição de estar freneticamente suspenso
das “cenas” nos fundos da “noite”
algum “teatro” vem declarar-se pronto para as suas “leituras”
O “movimento” procura o “corpo”
propriamente
permissivo limpo uma “biografia” de animal
feita
da sua fome e sede e da sua viagem “até onde”
“lugares” encontrados “narrativas” a ocupar uma “atenção última”
a flor que se organizou de um povoamento
de “esforços” florais “tentativas” erros riquíssimos
a cena traz ondas de treva o silêncio que a “tradição” manda:
“gaste-se”
1 raz alguns truques de “estancar e escoar”
um pouco de pavor enquanto há “véspera”
mas não é sempre a noite? entanto já se institui
u ma “crónica diuturna” um helicóptero “por extensão”
persegue a sua paisagem uma paixão do pormenor inventa
os seus “óculos” porque há “coisas para saber”
e para já sabe-se que entre as coisas para saber espera
“a coisa” para saber dessas coisas
o lado tenebroso do corpo que avança debaixo das luzes?
agora “a abertura irradiante” da treva por onde
não bem surpresa não bem milagre não bem tremer de pés e mãos
não bem isto ou aquilo
mas uma “vertigem” que encontrou a “altura” justa
se instalou nela fez “a perpetuidade da época de perigo”
agarra-se a esse “destino” a “personagem” saída
do “trabalho das palavras” dobra-se sobre esse medo
esse pasmo e alegria essa antropófaga festa
de “estar sobre si” e de essa obscura dominação
“estar em cima dela”
polpa asfixiando o caroço e agora o caroço
cancro de frias nervuras fortes tão “praticável”
a “cena” em que os doces buracos se abrem ao veneno
essa “troca” de malevolência íntima e energia íntima
uma “ironia” como que intangível com que se pintam
cenários de montanhas em metal ramagens vermelhas
irrompendo de paredes negras
uma lua aparentemente desaproveitada
tudo “inteligências” para “o equívoco” pés descalços
que chegam para iludir a ilusão de iludir
e depois apenas “o corpo” onde é “o sítio de nascer”
com as suas obras todas implícitas
a noite onde se habituou a noite que ele habituou
a ser a única sua noite
e o pano corre “escreve-se” depressa a si mesmo
“o texto”
o corpo escreve-se “como seria e é” que não acaba e começa
grande e sempre na “altura” propícia e precipício teatral “maior”
e nem “a mão” se moveu para que fosse “escriturada”
631
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Mortos Perigosos, Fim.

Os jardins contorcem-se entre o estio e as trevas.
Avança o ar a correr com as patas
sobre a camisa branca. Então o espaço
é surpreendido pelos mortos que transpiram
em seus blusões de ouro. Da noite
chegam paisagens de água
que batem
em suas grutas tremendamente claras.

Mugidores rebanhos de camélias monstruosas,
montanhas às varandas de palácios de seda
amarela. Que voam,
da raiz à flor, pelo escuro
interior da vocação. E os lugares
todos esperam doces assassinos que assomam
à pontuação da memória.

A noite levanta praias cruéis durante a combustão
das linhas
do sono. Pintados na atmosfera.
Com as costas respirando brutalmente — que melancolia
combatem, a reluzir,
sob as patas de constelações implacáveis.
Uma rede de mel
fervente, uma rede dolorosa de um mel
que se ilumina.
Arrancam-se os mortos dentre mel e madeira e dentre
ar e velocidade.

Uma avença incandescente na parte
mais forte da cabeça — a aterradora curva
suspirante
do seu sossego alto. Não os leves nos braços
por entre ramagens de ouro.
Estão pintados no fundo dos tempos
da primavera. Suas garras rutilantes latejam
com uma doçura horrível.

Um pouco à noite, quando os quartos
andam e a folhagem se retira para os confins
da cabeça, onde a loucura tem os mapas.
Não os toques, com dedos animais, em suas
semiluas de éter frio.
Porque há maneiras graves de os mortos
viajarem: sedas desenvoltas, força, mel,
glicínias,
planos de energia e de tristeza.

Não faças com que esse mês te procure.
Leva os mortos como se fossem um lenço verde
chegado
de uma cidade transparente. O sono está cheio
de álcool gelado, os campos
arqueiam-se pelo poder de vírgulas
selvagens. Nunca ouvi chamar os mortos
pelo nome dos seus retratos reclinados
brancos. Colinas
amedrontadas à chuva.
Penínsulas ligadas por cravinho e canela.

Toca-os com uma chama leve na crista negra.
Respira sobre laranjas que escaldam,
se as abres
com teus dedos — gota a gota aplicando
a soldadura. Saber que lenço
lhes pertence, que feixe
de linhas taciturnas urdiu sua cara
largada no ar. Ou quem vem desse
sensível bordado, ou
que força condensa sua cor de madeira enxuta.
Saber que alcançam tua voz
com sua pausa: uma flor
nos meios, sobre si mesma.
Não.

Oh, não leves os mortos como crianças passadas
a limpo, em tua morosa
vocação, até à carnívora gentileza
das visões. Como em redes
enxameadas, o mel fermenta em suas
cabeças um delírio
docemente animal. E se a paisagem quadrúpede
se encosta à janela,
este mês é olhado pelo espaço todo.

Não os conduzas aos símbolos nocturnos, dentre
mel e velocidade e dentre
madeira e ar. Não te sentes atrás
de um lenço parado. Enquanto os mortos
culminam como jacintos
a pulsar direitos—o teu coração pende
crivado de pinhões respirando. E a tua idade suspira
como um animal louco.
Quando.


1965-68.
1 043
Herberto Helder

Herberto Helder

Comunicação Académica

Gato dormindo debaixo de um pimenteiro: gato amarelo folhas verdíssimas pimentos vermelhos: sono redondo: sombras pequenas de pimentos vermelhos no sono do gato: folhas sombrias dentro do amarelo: pimentos dormindo num gato vermelho: verdes redondos no sono do pimenteiro: o amarelo: da cabeça do gato nascem pimentos verdíssimos de sono: sono vermelho: sombras amarelas no gato redondo de sono verdíssimo debaixo de um pimenteiro amarelo: a sombra do gato dando folhas redondas sonhando amarelo sobre dormindo os pimentos: água: secura sombria do gato vermelho: o sonho da água dorme no pimenteiro: a sombra da cal das paredes secas dorme no gato de água amarela: a cal dá pimentos que sonham nas folhas do gato: o sono da cal dá sombras redondas no gato enrolado no vermelho: a água é uma sombra o gato é uma folha o sono é um pimenteiro: a cal é o verdíssimo do sono seco dando sombra no amarelo: pimenteiro redondo: pimentos de cal enrolados no sonho do silêncio amarelo: o silêncio dá gatos que sonham pimentos que dão sono na cal que dá sombra nas folhas que dão água na secura do tempo vermelho: o tempo enrola-se debaixo da cabeça do pimenteiro que se enrola no gato de cal do sono amarelo: o sono de dentro dos pimentos debaixo do redondo verdíssimo enrolado no sonho: e dorme o pimenteiro com as sombras do gato redondo enrolando-se nas folhas: silêncio de sonho sono de tempo: tudo amarelo: noite do pimenteiro sono da cal folhas do gato sonho das sombras do verdíssimo vermelho: secura da noite: noite do gato na noite da cal com a noite das folhas dentro da noite do verdíssimo debaixo da noite do sonho diante da noite do pimenteiro após a noite da água conforme a noite debaixo com a noite enrolada contra a noite do amarelo desde a noite das sombras consoante a noite redonda para a noite de dentro durante a noite do vermelho detrás da noite dos tempos debaixo da noite sem à frente do com da noite conforme a noite conforme: a noite dos tempos: um gato de dentro desaparecendo num pimenteiro: pimenteiro desaparecendo: a cal morrendo no sonho das folhas pequenas: o silêncio de tudo no mundo inteiro:

et caeteramente vosso inteiro:

herberto helder:

em janeiro:

mil novecentos e sessenta e três

1963.
1 484
Herberto Helder

Herberto Helder

O Poema - Iii

Às vezes estou à mesa: e cômo ou sonho ou estou
somente imóvel entre a aérea
felicidade da noite. O sangue do mundo corre
e brilha. Porque a minha carne se distrai
entre as coisas altas da primavera nocturna.
Ocupo-me nos símbolos, e gostaria
que meu coração
entontecesse lentamente, que meu coração
caísse numa espécie de extática e sagrada loucura.

E enquanto estou só e o céu rodeado de lírios
amarelos, e animais de luz, e fabulosos
órgãos de silêncio, descansa
sobre os meus ombros
seu doce peso antigo — eu penso
que haveria uma palavra vingativa e pura,
uma esfera com espinhos de fogo que me ferisse
primeiro na voz ou na claridade
ou na tenebrosa
fantasia, e que depois me ferisse
na minha própria morte, sob a intensa
profusão celeste.

Penso que deve existir para cada um
uma só palavra que a inspiração dos povos deixasse
virgem de sentido e que,
vinda de um ponto fogoso da treva, batesse
como um raio
nos telhados de uma vida, e o céu
com águas e astros
caísse sobre esse rosto dormente, essa fechada
exaltação.

Que palavra seria, ignoro. O nome talvez
de um instrumento antigo, um nome ligado
à morte—veneno, punhal, rio
bárbaro onde
os afogados aparecem cegamente abraçados a enormes
luas impassíveis.
Um abstracto nome de mulher ou pássaro.
Quem sabe? — Espelho, Cotovia, ou a desconhecida
palavra Amor.

Sei que minha vida estremeceria, que
os braços sonâmbulos
iriam para o alto e queimariam a ligeira
noite de junho, ou que o meu
coração ficaria profundamente louco. E nessa
loucura
cada coisa tomaria seu próprio nome e espírito,
e cada nome seria iluminado
por todos os outros nomes da terra, e tudo
arderia num só fogo, entre o espaço violento
do mês de primavera e a terra
baixa e magnífica.

Com grandes dedos eu tocaria as trémulas
campânulas dos signos, e beijaria
as rodas excitadas do ar.
Ferveriam os pequenos vulcões dos frutos.
Dentro dos tanques tombaria a água
infantil da aurora. Comer ou sonhar ou estar à mesa
da fantasia nocturna
seria para um homem, sob a abóbada da cabeça, como
o espírito caído dentro da forma
e a forma incrustada, como uma lâmpada,
na inspiração da cabeça.

— Cada boca pousada sobre a terra
pousaria
sobre a voz universal de outra boca.
847