Poemas neste tema
Amor Romântico
Roberto Pontes
O Cavaleiro e a Montanha
Mora em teu corpo
o corcel da glória
que só cavalga
às madrugadas frias,
mas rápido e luzente
espuma e transpira
sobre nosso amor.
E somos
o cavaleiro e a montada
que se confundem num abraço.
Mora em teu corpo
o corcel que me liberta
e só distende
nas madrugadas e auroras
músculos e trotes
para nosso baile.
E somos
sobre todas as cantatas
o próprio amor que percorremos juntos.
( In: jornal Correio das Artes. João Pessoa-PB, 05 dez. 1982 )
o corcel da glória
que só cavalga
às madrugadas frias,
mas rápido e luzente
espuma e transpira
sobre nosso amor.
E somos
o cavaleiro e a montada
que se confundem num abraço.
Mora em teu corpo
o corcel que me liberta
e só distende
nas madrugadas e auroras
músculos e trotes
para nosso baile.
E somos
sobre todas as cantatas
o próprio amor que percorremos juntos.
( In: jornal Correio das Artes. João Pessoa-PB, 05 dez. 1982 )
1 103
Raul Seixas
Esse Negodiamô
Sem concepção de tempo,
O papel já terminou
Você vê que nada ficou
Sem poder dormir você pensa em fugir
Mas não há pra onde ir
Lá trancado no porão
Que é escuro mas é clara sua visão
Daquilo que você tanto esperou
Não passava de um sonho
Sobre esse negócio de amor
Doeu na hora que você acordou
Ao som agudo de um despertador
Mais barulhento que o apito
Do guarda abrindo o sinal.
Você procura entender,
Sabendo que não há porquê
Tudo é apenas o que é
Vai morrendo firme em pé
Você vê que não sabe de nada
Você louco e ela calada
Ela foi linda e clara esta noite
Inevitável, claro o açoite
E a dor foi mais que demais
Tudo que cê aprendeu desde que você nasceu
Embora sempre cê desconfiou
Que a gente é gente e é isso aí
Mas no entanto cê esperou
Sei lá, um milagre ou coisa assim
De repente o punhal
Mostrando as frestas do que é
Aí se entende o que é morrer
Estando vivo pra saber
Que cê não passa de um guri
Sua mente flashbacka atrás
aos catorze anos ou pouco mais
As meninas coloridas de batom
de rouge de risadinhas freteiras
Eram todas tão iguais
Sempre elas e sempre o rapaz
Transbordando de amor
Preferi ser escritor sem mesmo sequer saber
Que eu também queria amor
Como um susto bem pregado
De repente vi que tinha esse negócio mesmo
De estar apaixonado
Vi o mundo do outro lado
Tudo tão certo e tudo tão errado
O papel já terminou
Você vê que nada ficou
Sem poder dormir você pensa em fugir
Mas não há pra onde ir
Lá trancado no porão
Que é escuro mas é clara sua visão
Daquilo que você tanto esperou
Não passava de um sonho
Sobre esse negócio de amor
Doeu na hora que você acordou
Ao som agudo de um despertador
Mais barulhento que o apito
Do guarda abrindo o sinal.
Você procura entender,
Sabendo que não há porquê
Tudo é apenas o que é
Vai morrendo firme em pé
Você vê que não sabe de nada
Você louco e ela calada
Ela foi linda e clara esta noite
Inevitável, claro o açoite
E a dor foi mais que demais
Tudo que cê aprendeu desde que você nasceu
Embora sempre cê desconfiou
Que a gente é gente e é isso aí
Mas no entanto cê esperou
Sei lá, um milagre ou coisa assim
De repente o punhal
Mostrando as frestas do que é
Aí se entende o que é morrer
Estando vivo pra saber
Que cê não passa de um guri
Sua mente flashbacka atrás
aos catorze anos ou pouco mais
As meninas coloridas de batom
de rouge de risadinhas freteiras
Eram todas tão iguais
Sempre elas e sempre o rapaz
Transbordando de amor
Preferi ser escritor sem mesmo sequer saber
Que eu também queria amor
Como um susto bem pregado
De repente vi que tinha esse negócio mesmo
De estar apaixonado
Vi o mundo do outro lado
Tudo tão certo e tudo tão errado
1 060
Roberto Pontes
Quando Tua Pele
Quando tua pele de pêssego e veludo
entre tantos e lânguidos abraços
faz vibrar seus acordes de campina,
os pássaros estacam em seus vôos,
as folhas do limão se reverdecem,
as gotas se evaporam no espaço.
Suponho que no mapa dos amores
sempre que os nossos encontros acontecem
um novo marco acresce o número de beijos.
Sempre que o amor nos une no mistério
as horas são extrínsecas ao tempo,
não há manhã, nem tarde ou noite,
porque ignoramos ampulhetas e relógios.
Quando amamos feito dois duendes
o nosso amanhã é tão indiferente,
o que passou parece tão distante,
e o nosso agora tão definitivo
que faz lembrar nossa primeira lua.
( In: jornal Folha da Manhã. Teresina-PI, 1983 )
entre tantos e lânguidos abraços
faz vibrar seus acordes de campina,
os pássaros estacam em seus vôos,
as folhas do limão se reverdecem,
as gotas se evaporam no espaço.
Suponho que no mapa dos amores
sempre que os nossos encontros acontecem
um novo marco acresce o número de beijos.
Sempre que o amor nos une no mistério
as horas são extrínsecas ao tempo,
não há manhã, nem tarde ou noite,
porque ignoramos ampulhetas e relógios.
Quando amamos feito dois duendes
o nosso amanhã é tão indiferente,
o que passou parece tão distante,
e o nosso agora tão definitivo
que faz lembrar nossa primeira lua.
( In: jornal Folha da Manhã. Teresina-PI, 1983 )
814
Rogério F. P.
Como consegues, em tua mais pura inocência
Como consegues, em tua mais pura inocência
arrancares do meu peito toda a arrogância
e incoerência? Tu que transmutas e reflete
tudo, naquilo que é mais belo.
Todas as tristes vivências em minhalma
contidas lhe dão espaço, amada amiga.
Todo sofrimento e desventuras,
as mortes e amarguras
de nada significam
quando comparadas a ti...
Por seres bela, e mesmo
assim sincera,
por teres a beleza inspiradora
da mais bonita deusa,
a ti minha amada
me entrego agora...
E não me envergonho então
no mais ébrio céu de outono
a fazer-te declarações de amor
e lhe dizer que a amo!
arrancares do meu peito toda a arrogância
e incoerência? Tu que transmutas e reflete
tudo, naquilo que é mais belo.
Todas as tristes vivências em minhalma
contidas lhe dão espaço, amada amiga.
Todo sofrimento e desventuras,
as mortes e amarguras
de nada significam
quando comparadas a ti...
Por seres bela, e mesmo
assim sincera,
por teres a beleza inspiradora
da mais bonita deusa,
a ti minha amada
me entrego agora...
E não me envergonho então
no mais ébrio céu de outono
a fazer-te declarações de amor
e lhe dizer que a amo!
984
Romulo Gouvêa
Eu estou aqui
Eu estou aqui
sentado, pensando
do mesmo jeito que antes
nas mesmas coisas que antes
eu ficava, eu pensava.
Do jeito que você deixou
mas com uma coisa diferente
a certeza de não estar doente
foi só isto que mudou.
Eu estou aqui
te amando, te observando
do mesmo jeito que antes
nas mesmas coisas que antes
eu te amava, eu te observava.
Da forma que você largou
nada nasce de repente
há muita coisa entre a gente
o meu amor aumentou.
Eu estou aqui
sentado, te amando,
pensando, te observando.
Esperando.
sentado, pensando
do mesmo jeito que antes
nas mesmas coisas que antes
eu ficava, eu pensava.
Do jeito que você deixou
mas com uma coisa diferente
a certeza de não estar doente
foi só isto que mudou.
Eu estou aqui
te amando, te observando
do mesmo jeito que antes
nas mesmas coisas que antes
eu te amava, eu te observava.
Da forma que você largou
nada nasce de repente
há muita coisa entre a gente
o meu amor aumentou.
Eu estou aqui
sentado, te amando,
pensando, te observando.
Esperando.
1 062
Romulo Gouvêa
Uma cena
Uma cena.
Não sei se tinha cenário
não me lembro de cenário.
Não sei se tinha música ao fundo
não me lembro de música alguma.
Não era um ato, era uma cena
sem tempo.
Uma cena que se imprimiu
na minha memória para sempre.
Como um retrato, uma pintura
um instante que parou no espaço.
Eu a olhava, ela me olhava.
A nossa imagem dentro do nosso olhar.
E os dois ângulos desta cena,
em retinas diferentes,
eu pude ter de repente
juntos num só lugar,
numa cena que se imprimiu
na minha memória para sempre,
a cena do nosso olhar.
Não sei se tinha cenário
não me lembro de cenário.
Não sei se tinha música ao fundo
não me lembro de música alguma.
Não era um ato, era uma cena
sem tempo.
Uma cena que se imprimiu
na minha memória para sempre.
Como um retrato, uma pintura
um instante que parou no espaço.
Eu a olhava, ela me olhava.
A nossa imagem dentro do nosso olhar.
E os dois ângulos desta cena,
em retinas diferentes,
eu pude ter de repente
juntos num só lugar,
numa cena que se imprimiu
na minha memória para sempre,
a cena do nosso olhar.
906
Rozania Moraes
Amor de Mar
Noite de luzes.
os lábios do poeta
bebem lágrimas
do mar, salgadas.
A beira do mar se enfeita
de gente que vem e vai
como movimentos do mar
suaves afagos
mãos presas ao olhar
ondas dançam, eróticas
a tocar os lábios das pedras
beijo roubado, beijo furtivo
beijos molhados, salgados.
Noite azul
Flutuando no escuro
o astro branco
derrama raios leitosos
na espuma da água.
A praia se esvazia
para o mar que a ama
no silêncio, na areia, nas pedras
madrugada adentro.
Noite sensual
corpos à espera do dia
embalados pela canção
de outro poeta, tocada ao longe
nos bares do cais,
canção de outro amor
que se lançou ao mar
e dele nunca mais voltou.
os lábios do poeta
bebem lágrimas
do mar, salgadas.
A beira do mar se enfeita
de gente que vem e vai
como movimentos do mar
suaves afagos
mãos presas ao olhar
ondas dançam, eróticas
a tocar os lábios das pedras
beijo roubado, beijo furtivo
beijos molhados, salgados.
Noite azul
Flutuando no escuro
o astro branco
derrama raios leitosos
na espuma da água.
A praia se esvazia
para o mar que a ama
no silêncio, na areia, nas pedras
madrugada adentro.
Noite sensual
corpos à espera do dia
embalados pela canção
de outro poeta, tocada ao longe
nos bares do cais,
canção de outro amor
que se lançou ao mar
e dele nunca mais voltou.
426
Renata Pallottini
O Cântaro
"Então, Jacó beijou Raquel e,
levantando a voz,
chorou."
Gênesis, 20: l l
O cântaro poreja a água amena
que do poço brotou, e adoça a areia
e que corre nos ombros, e que enleia
pelas espáduas seu frescor moreno.
O lácteo manto que uma brisa ondeia
desenha formas, cujo talho apenas
a tamareira imita, a flor receia,
o vento afaga e a solidão serena.
Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,
ouvir-lhe a voz uma doçura eleita,
roçar-lhe a fronte uma revelação.
O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,
beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita
catorze anos de vida pagarão.
levantando a voz,
chorou."
Gênesis, 20: l l
O cântaro poreja a água amena
que do poço brotou, e adoça a areia
e que corre nos ombros, e que enleia
pelas espáduas seu frescor moreno.
O lácteo manto que uma brisa ondeia
desenha formas, cujo talho apenas
a tamareira imita, a flor receia,
o vento afaga e a solidão serena.
Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,
ouvir-lhe a voz uma doçura eleita,
roçar-lhe a fronte uma revelação.
O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,
beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita
catorze anos de vida pagarão.
1 404
Romulo Gouvêa
Abstração
Há determinados momentos
em que penso em você.
Passo o tempo, divago,
montando os teus pedaços.
Recorto lembranças,
brinco com peças
de fácil encaixe
que se misturam e se separam.
Logo que te resgato
perco o foco da visão.
Busco o teu cheiro
no canto das minhas unhas.
Uso teus beijos, apelos, mensagens
teus ditos, segredos, olhares.
Uso tua boca, teus olhos
num sorriso.
Em determinados momentos
há um pensamento em você.
O tempo passa, monto teu retrato
com este material abstrato.
em que penso em você.
Passo o tempo, divago,
montando os teus pedaços.
Recorto lembranças,
brinco com peças
de fácil encaixe
que se misturam e se separam.
Logo que te resgato
perco o foco da visão.
Busco o teu cheiro
no canto das minhas unhas.
Uso teus beijos, apelos, mensagens
teus ditos, segredos, olhares.
Uso tua boca, teus olhos
num sorriso.
Em determinados momentos
há um pensamento em você.
O tempo passa, monto teu retrato
com este material abstrato.
905
Paulo Augusto Rodrigues
Bicho
Hoje vive preso, trancado,
Atrás das cidades, inofensivo.
Existe apenas para lembrar-nos
Que um dia aquilo fomos nós.
A memória é como um zoológico
Isolando do mundo todo tipo de sentimentos animais
Que ainda não extinguimos.
Porém, o ritmo monótono e rápido da vida
Metralha, por aí, tudo que encontra
Matando espécies inteiras.
Resta o mêdo.
Que nunca durma o zelador.
Pois se assim for
Não existirá nenhuma lembrança real,
Viva.
Restará somente,
Fotos coloridas em livros desbotados
Mostrando a alma deste sentimento.
Desenhos a mão, esboços,
Num esforço de quem não sabe desenhar,
Num papel como este.
É essa a esperança,
Só depois de tudo acabado
Poderemos reconstruir.
Quando sofrer,
Rebusque a memória,
Numa jaula pequena, com a placa apagada,
Existe um bicho,
O mais indefeso.
Lá estava escrito...
Amor.
Atrás das cidades, inofensivo.
Existe apenas para lembrar-nos
Que um dia aquilo fomos nós.
A memória é como um zoológico
Isolando do mundo todo tipo de sentimentos animais
Que ainda não extinguimos.
Porém, o ritmo monótono e rápido da vida
Metralha, por aí, tudo que encontra
Matando espécies inteiras.
Resta o mêdo.
Que nunca durma o zelador.
Pois se assim for
Não existirá nenhuma lembrança real,
Viva.
Restará somente,
Fotos coloridas em livros desbotados
Mostrando a alma deste sentimento.
Desenhos a mão, esboços,
Num esforço de quem não sabe desenhar,
Num papel como este.
É essa a esperança,
Só depois de tudo acabado
Poderemos reconstruir.
Quando sofrer,
Rebusque a memória,
Numa jaula pequena, com a placa apagada,
Existe um bicho,
O mais indefeso.
Lá estava escrito...
Amor.
872
Rogério F. P.
A Tanatus
Que gosto tem, no final da tarde, cálida criatura,
tornar-se a figura que assusta minhalma
dando fim a toda a minha calma,
e se afastar levando consigo a última parede do meu abrigo?
Seus olhos são archotes fumegantes de pavor.
Sua boca traz blasfêmias do inferno
mas, mesmo assim, pobre enfermo,
acendo pra você uma vela
em sinal de reverência.
Leve-me embora, já é tempo,
finda-se a hora.
O tempo escoa sobre os andrajos desse corpo imundo,
já pende a carne carcomida e ofereço-a a você, minha querida!
Tem a sua frente um adorador.
Leve-me, meu amor,
envolva-me em seus braços
e faça, finalmente, dessa existência demente
uma estátua posta no inferno!
tornar-se a figura que assusta minhalma
dando fim a toda a minha calma,
e se afastar levando consigo a última parede do meu abrigo?
Seus olhos são archotes fumegantes de pavor.
Sua boca traz blasfêmias do inferno
mas, mesmo assim, pobre enfermo,
acendo pra você uma vela
em sinal de reverência.
Leve-me embora, já é tempo,
finda-se a hora.
O tempo escoa sobre os andrajos desse corpo imundo,
já pende a carne carcomida e ofereço-a a você, minha querida!
Tem a sua frente um adorador.
Leve-me, meu amor,
envolva-me em seus braços
e faça, finalmente, dessa existência demente
uma estátua posta no inferno!
957
Romulo Gouvêa
Amar
que impõe
à alma o desarmar
e ao coração, para vida
o despertar,
que dispõe
o amante a se despojar
e na direção do amado
caminhar,
que expõe
todos os nervos sem pensar
e uma força para o máximo
arriscar,
é o infinitivo
do infinitamente dar.
à alma o desarmar
e ao coração, para vida
o despertar,
que dispõe
o amante a se despojar
e na direção do amado
caminhar,
que expõe
todos os nervos sem pensar
e uma força para o máximo
arriscar,
é o infinitivo
do infinitamente dar.
834
Romulo Gouvêa
Nossas bocas
Nossas bocas são portas
onde há fluxo e refluxo
por onde passa tudo.
Passa paixão
passa amor
passam sentimentos e carinhos.
Por elas passa o mar
passam os rios
passam todos os caminhos.
Por elas só não passa o tempo.
Elas têm a mesma temperatura,
mesmo calor, mesma ternura.
São de mesma estrutura.
Nossas bocas, neste beijo, são portas
portas abertas
por onde passam nossas descobertas.
onde há fluxo e refluxo
por onde passa tudo.
Passa paixão
passa amor
passam sentimentos e carinhos.
Por elas passa o mar
passam os rios
passam todos os caminhos.
Por elas só não passa o tempo.
Elas têm a mesma temperatura,
mesmo calor, mesma ternura.
São de mesma estrutura.
Nossas bocas, neste beijo, são portas
portas abertas
por onde passam nossas descobertas.
964
Ribeiro Couto
Serenata em Coimbra
Por vós e de um só nome eu te chamaria,
Não fosse a inclinação ao natural — infanta! —
E o pudor que também mais alto se alevanta
No meu vocabulário e na minha poesia.
Passaste com um cântaro à cabeça.
E eu — Mondego, Choupal, Camões, Rainha Santa —
Outro nome não sei que te valha e mereça.
Infanta? Pobre rapariga,
Havia sugestões clássicas pelo espaço
E eras infanta, sim, na paisagem antiga:
Parecias pisar o mármore de um paço.
(Era estranho que eu não ouvisse o burburinho
De fidalgos em ala a oferecer-te o braço.)
Entre escuros portais vejo-me a errar sozinho.
Vai alta a noite. Em que casa moras?
Na colina, uma luz entre tantas
(Não de castelos de rainhas e de infantas)
Será tua janela ainda acesa a estas horas.
Amanhã voltarás ao rio, lavadeira.
Dorme... Dentro da noite um refrão de modinha
Sobe da terra ao céu numa voz estrangeira:
Se coimbra, se Coimbra fosse minha...
Não fosse a inclinação ao natural — infanta! —
E o pudor que também mais alto se alevanta
No meu vocabulário e na minha poesia.
Passaste com um cântaro à cabeça.
E eu — Mondego, Choupal, Camões, Rainha Santa —
Outro nome não sei que te valha e mereça.
Infanta? Pobre rapariga,
Havia sugestões clássicas pelo espaço
E eras infanta, sim, na paisagem antiga:
Parecias pisar o mármore de um paço.
(Era estranho que eu não ouvisse o burburinho
De fidalgos em ala a oferecer-te o braço.)
Entre escuros portais vejo-me a errar sozinho.
Vai alta a noite. Em que casa moras?
Na colina, uma luz entre tantas
(Não de castelos de rainhas e de infantas)
Será tua janela ainda acesa a estas horas.
Amanhã voltarás ao rio, lavadeira.
Dorme... Dentro da noite um refrão de modinha
Sobe da terra ao céu numa voz estrangeira:
Se coimbra, se Coimbra fosse minha...
1 130
Ricardo Madeira
Para Mais Tarde Recordar
Falas com luz
Que acende, reluz,
E que o Sol inveja;
Olhas com pérolas
Que o Mar deseja...
Sou como sou,
Nada posso fazer,
Nada a não ser
Se calhar talvez
Dizer outra vez
Como amo e te amo.
Tal como eu,
Eu sou eu
(Assim como eu),
Somos iguais,
Todos diferentes
E todos iguais.
Perguntei,
Disseste que sim,
Eu concordei,
Num sonho sem fim
Até terminar...
Inferno ao céu!
Fogo ao mar!
Raios de prata,
Rasguem o ar!
Grito com o vento,
Agarro o momento,
Guardo-o cá dentro,
Para mais tarde recordar...
"Night Music,
It keeps spinning inside my head,
Night Music,
Its all the things you never said..."
— Dio
Que acende, reluz,
E que o Sol inveja;
Olhas com pérolas
Que o Mar deseja...
Sou como sou,
Nada posso fazer,
Nada a não ser
Se calhar talvez
Dizer outra vez
Como amo e te amo.
Tal como eu,
Eu sou eu
(Assim como eu),
Somos iguais,
Todos diferentes
E todos iguais.
Perguntei,
Disseste que sim,
Eu concordei,
Num sonho sem fim
Até terminar...
Inferno ao céu!
Fogo ao mar!
Raios de prata,
Rasguem o ar!
Grito com o vento,
Agarro o momento,
Guardo-o cá dentro,
Para mais tarde recordar...
"Night Music,
It keeps spinning inside my head,
Night Music,
Its all the things you never said..."
— Dio
964
Renata Trocoli
Princesa dos Cabelos Negros
Princesa dos Cabelos Negros
Princesa dos cabelos negros,
compridos e perfumados.
Venha até mim,
me abraça e
me ama como se fosse teu único amor,
teu único anseio.
Abraça-me com força
e me mostra o caminho do amor.
Caminho este de alegria e suavidade ...
Suavidade de tua pele branca,
doce, perfumada de jasmim.
Toca com tuas pequeninas mãos meu rosto,
me faz um carinho e
me beija com teus lábios macios.
Deseja me amar para sempre
E este sempre durara
enquanto estiver a meu lado
O Linda Princesa
dos cabelos negros.
Princesa dos cabelos negros,
compridos e perfumados.
Venha até mim,
me abraça e
me ama como se fosse teu único amor,
teu único anseio.
Abraça-me com força
e me mostra o caminho do amor.
Caminho este de alegria e suavidade ...
Suavidade de tua pele branca,
doce, perfumada de jasmim.
Toca com tuas pequeninas mãos meu rosto,
me faz um carinho e
me beija com teus lábios macios.
Deseja me amar para sempre
E este sempre durara
enquanto estiver a meu lado
O Linda Princesa
dos cabelos negros.
1 947
Raphael Luiz Junqueira
Soneto XVI
Não conheço que força ingente e estranha
Impeliu-me tristonho a tal afeto...
Nem sei que bem... que palpitar secreto
Põe-me ditoso e Amor meu Peito ganha!
Dos suspiros o som sereno e manso
Tomou-me ultimamente o peito aflito.
Ah! sonhos de paixão em que me agito!
Ah! vigílias em febre sem descanso!
Não sei que força esplêndida e plangente,
No coração o amor me vai soprando
Em me levando a esse suspiro infindo...
Não me importa saber — sentir somente:
Vivendo em ti eu morrerei cantando,
Morrendo em mim tu viverás sorrindo!
Impeliu-me tristonho a tal afeto...
Nem sei que bem... que palpitar secreto
Põe-me ditoso e Amor meu Peito ganha!
Dos suspiros o som sereno e manso
Tomou-me ultimamente o peito aflito.
Ah! sonhos de paixão em que me agito!
Ah! vigílias em febre sem descanso!
Não sei que força esplêndida e plangente,
No coração o amor me vai soprando
Em me levando a esse suspiro infindo...
Não me importa saber — sentir somente:
Vivendo em ti eu morrerei cantando,
Morrendo em mim tu viverás sorrindo!
1 015
Renata Trocoli
Sem Título
Sem Título
A saudade de teus meigos olhos a olhar-me com tanto amor
doe em meu peito com aguda tristeza, meu grande amor.
Tuas macias, delicadas e pequeninas mãos tocavam meu rosto
com tanto carinho e amor que não podia deixar-te
um minuto sem meus abraços e doces palavras de amor.
Quando sentávamos debaixo das estrelas nas noites mornas
da bela primavera da Pérsia, me abraçavas com tanto medo
e chorava baixinho escondendo teu lindo rostinho delicado em meu
peito, e me fazia jura-te amor eterno.
Este amor que jurei e sinto sempre por ti minha linda princesa.
Sinto saudades de tuas palavras e teu carinho ao ver-me zangado e
preocupado, e como me acalmava com teu belo olhar sobre o meu,
sorrindo com doçura e colocando minha cabeça em teus delicados
ombros para fazer com que a calma tomasse conta de meu coração.
Por tantos dias fiquei a admirar tua beleza
enquanto dormias um sono tranqüilo e
quantas vezes tocava teus lindos cabelos negros, macios e perfumados
sem ter vontade de fechar os olhos para não perder tão bela visão.
Quantas vezes ainda dormi cansado em teus pequeninos braços
sentindo cada vez mais um amor puro e leal por ti.
Me abraçavas com doce saudade e com lágrimas nos olhos
depois de dias de batalha sem ver-me.
E cuidava de mim com tanto carinho e me amava com tanta saudade
que meus dias pareciam um doce sonho que não poderia nunca ter fim.
O mais triste meu amor foi perder-te.
Foi perceber que teu amor não mais me envolveria o corpo,
que não mais teria tua presença a cuidar de mim
nas noites de cansaço após uma batalha.
Com uma linda e dolorosa promessa nos despedimos.
Tu me abraçaste chorosa e amedrontada,
e prometemos um amor eterno
por todos os lugares onde passássemos, aonde estivéssemos.
Hoje a saudade de teus doces olhinhos
a olhar-me com amor cegam meus dias.
Mas pelo menos ainda posso sentir teus perfume
e teus abraços a me envolver...
A saudade de teus meigos olhos a olhar-me com tanto amor
doe em meu peito com aguda tristeza, meu grande amor.
Tuas macias, delicadas e pequeninas mãos tocavam meu rosto
com tanto carinho e amor que não podia deixar-te
um minuto sem meus abraços e doces palavras de amor.
Quando sentávamos debaixo das estrelas nas noites mornas
da bela primavera da Pérsia, me abraçavas com tanto medo
e chorava baixinho escondendo teu lindo rostinho delicado em meu
peito, e me fazia jura-te amor eterno.
Este amor que jurei e sinto sempre por ti minha linda princesa.
Sinto saudades de tuas palavras e teu carinho ao ver-me zangado e
preocupado, e como me acalmava com teu belo olhar sobre o meu,
sorrindo com doçura e colocando minha cabeça em teus delicados
ombros para fazer com que a calma tomasse conta de meu coração.
Por tantos dias fiquei a admirar tua beleza
enquanto dormias um sono tranqüilo e
quantas vezes tocava teus lindos cabelos negros, macios e perfumados
sem ter vontade de fechar os olhos para não perder tão bela visão.
Quantas vezes ainda dormi cansado em teus pequeninos braços
sentindo cada vez mais um amor puro e leal por ti.
Me abraçavas com doce saudade e com lágrimas nos olhos
depois de dias de batalha sem ver-me.
E cuidava de mim com tanto carinho e me amava com tanta saudade
que meus dias pareciam um doce sonho que não poderia nunca ter fim.
O mais triste meu amor foi perder-te.
Foi perceber que teu amor não mais me envolveria o corpo,
que não mais teria tua presença a cuidar de mim
nas noites de cansaço após uma batalha.
Com uma linda e dolorosa promessa nos despedimos.
Tu me abraçaste chorosa e amedrontada,
e prometemos um amor eterno
por todos os lugares onde passássemos, aonde estivéssemos.
Hoje a saudade de teus doces olhinhos
a olhar-me com amor cegam meus dias.
Mas pelo menos ainda posso sentir teus perfume
e teus abraços a me envolver...
999
Renata Trocoli
Teu Amor
Teu Amor
Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas mãos me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.
Teu doce beijo acaricia meus lábios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor é novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraços
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me dá esperanças de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presença.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peço com todo coração que ela me abençoe
com tua presença a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor tão puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos corações.
Este amor vem de longe,
vem do alto e é benção dos céus.
É perfeito e verdadeiro,
é sentimento que não se sente por qualquer um,
que não brinca com o coração
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas mãos me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.
Teu doce beijo acaricia meus lábios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor é novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraços
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me dá esperanças de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presença.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peço com todo coração que ela me abençoe
com tua presença a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor tão puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos corações.
Este amor vem de longe,
vem do alto e é benção dos céus.
É perfeito e verdadeiro,
é sentimento que não se sente por qualquer um,
que não brinca com o coração
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
949
Renata Trocoli
Moreno
Moreno
Lá vem meu amor chegando.
Ele veio para me envolver em seus braços,
me pegar no colo, me beijar com carinho,
me enlouquecer os desejos como só ele sabe fazer.
Lá vem ele chegando pertinho,
me olhando e me tocando devagarinho.
Com sua pele morena, seus olhos tão negros
e seus lábios macios.
Sua voz me embala,
e me abraçando me diz com ternura
que me ama e que me quer só pra ele...
Como se eu quisesse ser de mais outro alguém!!!
E quando ele sorri!??
Não há nada mais lindo que seu sorriso!
Um sorriso sincero e delicado,
que ilumina seu rosto...
Esse rosto de um doce menino,
que esconde bem dentro de seu olhar
a malícia de alguém que
não mais um menino é.
Vem então ele a me amar
como nunca alguém foi capaz.
E me envolve com esse carinho diferente
que só ele sabe me dar!
Lá vem meu amor chegando.
Ele veio para me envolver em seus braços,
me pegar no colo, me beijar com carinho,
me enlouquecer os desejos como só ele sabe fazer.
Lá vem ele chegando pertinho,
me olhando e me tocando devagarinho.
Com sua pele morena, seus olhos tão negros
e seus lábios macios.
Sua voz me embala,
e me abraçando me diz com ternura
que me ama e que me quer só pra ele...
Como se eu quisesse ser de mais outro alguém!!!
E quando ele sorri!??
Não há nada mais lindo que seu sorriso!
Um sorriso sincero e delicado,
que ilumina seu rosto...
Esse rosto de um doce menino,
que esconde bem dentro de seu olhar
a malícia de alguém que
não mais um menino é.
Vem então ele a me amar
como nunca alguém foi capaz.
E me envolve com esse carinho diferente
que só ele sabe me dar!
872
Domingos dos Reis Quita
Tircéia
Idílio
Já lá sinto rugir das aveleiras
As buliçosas folhas; já escuto
Um rumor leve de sutis pisadas;
Entre as confusas ramas já diviso
Mover-se um vulto; se virá Tircéia!
Por mais que afirmo a vista não distingo.
Ora lá se encobria agora a Lua.
Mas, oh quanto desejo vão me engana?
Uma ovelha é perdida da manada;
Lá vai balando pelo vale abaixo.
Mas eu deliro, ou sonho? Que pondero?
Oh! quanto da saudade o golpe fero
Nos sentidos me oprime, e me confunde!
Eu não julgava agora, que este vale
Era aquele feliz e deleitoso,
Onde a minha pastora sempre espero?
Que esta sonora fonte, que murmura
Entre cheirosas flores e verdura,
Coberta de sombrios arvoredos,
Era aquele lugar, aonde a calma
Costumamos passar da ardente sesta?
Quem viu já fantasia mais confusa?
Oh poderoso amor, quanto me enleias!
Oh quem pisara agora os venturosos
Campos, que os resplendores luminosos
Dos olhos de Tircéia estão gozando!
Quem vira agora o seu formoso rosto!
Oh quem sequer ao menos escutara
Os conhecidos ladros, os balidos
De suas ovelhinhas e rafeiro!
Oh duras penhas, oh sombrios vales,
Que meus saudosos ais estais ouvindo!
Se agora aqueles belos olhos vísseis,
Por quem meu coração tanto suspira!
Veríeis de repente a roxa aurora
Verter o fresco orvalho sobre as flores;
Raiar o louro sol nos horizontes;
E enriquecer de luz os altos montes.
Parece-me, Tircéia, que te vejo
Deixar na fonte o cântaro vazio,
E na mais alta penha dessa praia
Subida estar os olhos estendendo,
Cheios de pranto para as altas serras,
Onde tão larga ausência estou chorando.
Que saudosa dali estás chamando:
"Alcino, Alcino, quem de mim te aparta?"
Parece-me que te ouço a voz magoada
Já de ingrato acusar-me, de esquecido;
Que vais depois ao vale suspirando,
E que ali muitas vezes estás lendo
Os amorosos versos, que nos troncos
Eu escrevi na amarga despedida.
Oh pastora mais firme do que os montes!
Mais amante, mais terna do que as rolas!
Mais perfeita, mais cândida e formosa,
Que a pura neve, que a vermelha rosa!
Só por ti, eu o juro a estas penhas,
Só por ti há de amor dentro em meu peito
Cravar as setas, acender as chamas.
Só por ti meus suspiros serão dados;
Só por ti chorarão de amor meus olhos:
Meus olhos, que por esses tão formosos
Agora estão chorando tão saudosos.
Já lá sinto rugir das aveleiras
As buliçosas folhas; já escuto
Um rumor leve de sutis pisadas;
Entre as confusas ramas já diviso
Mover-se um vulto; se virá Tircéia!
Por mais que afirmo a vista não distingo.
Ora lá se encobria agora a Lua.
Mas, oh quanto desejo vão me engana?
Uma ovelha é perdida da manada;
Lá vai balando pelo vale abaixo.
Mas eu deliro, ou sonho? Que pondero?
Oh! quanto da saudade o golpe fero
Nos sentidos me oprime, e me confunde!
Eu não julgava agora, que este vale
Era aquele feliz e deleitoso,
Onde a minha pastora sempre espero?
Que esta sonora fonte, que murmura
Entre cheirosas flores e verdura,
Coberta de sombrios arvoredos,
Era aquele lugar, aonde a calma
Costumamos passar da ardente sesta?
Quem viu já fantasia mais confusa?
Oh poderoso amor, quanto me enleias!
Oh quem pisara agora os venturosos
Campos, que os resplendores luminosos
Dos olhos de Tircéia estão gozando!
Quem vira agora o seu formoso rosto!
Oh quem sequer ao menos escutara
Os conhecidos ladros, os balidos
De suas ovelhinhas e rafeiro!
Oh duras penhas, oh sombrios vales,
Que meus saudosos ais estais ouvindo!
Se agora aqueles belos olhos vísseis,
Por quem meu coração tanto suspira!
Veríeis de repente a roxa aurora
Verter o fresco orvalho sobre as flores;
Raiar o louro sol nos horizontes;
E enriquecer de luz os altos montes.
Parece-me, Tircéia, que te vejo
Deixar na fonte o cântaro vazio,
E na mais alta penha dessa praia
Subida estar os olhos estendendo,
Cheios de pranto para as altas serras,
Onde tão larga ausência estou chorando.
Que saudosa dali estás chamando:
"Alcino, Alcino, quem de mim te aparta?"
Parece-me que te ouço a voz magoada
Já de ingrato acusar-me, de esquecido;
Que vais depois ao vale suspirando,
E que ali muitas vezes estás lendo
Os amorosos versos, que nos troncos
Eu escrevi na amarga despedida.
Oh pastora mais firme do que os montes!
Mais amante, mais terna do que as rolas!
Mais perfeita, mais cândida e formosa,
Que a pura neve, que a vermelha rosa!
Só por ti, eu o juro a estas penhas,
Só por ti há de amor dentro em meu peito
Cravar as setas, acender as chamas.
Só por ti meus suspiros serão dados;
Só por ti chorarão de amor meus olhos:
Meus olhos, que por esses tão formosos
Agora estão chorando tão saudosos.
459
Pereira da Silva
Uma Parábola
Esqueceu-me jamais essa Roseira.
Deu rosas brancas a existência inteira
E viveu, para nós, as alegrias
Das nossas noites e dos nossos dias.
Essa Roseira teve sempre rosas
Para as festas gentis ou religiosas
E nunca se esqueceu dos namorados
Ou de dar flores para os seus noivados.
Eu quero crer também que nunca houvesse
Enterramento humilde a que não desse,
Essa Roseira, a régia compostura
De suas rosas de imortal brancura.
Posso, entanto, afirmar que essa Roseira,
Porque deu flores a existência inteira,
Passou despercebida aos homens brutos
Como aos ladrões as árvores sem frutos...
Deu rosas brancas a existência inteira
E viveu, para nós, as alegrias
Das nossas noites e dos nossos dias.
Essa Roseira teve sempre rosas
Para as festas gentis ou religiosas
E nunca se esqueceu dos namorados
Ou de dar flores para os seus noivados.
Eu quero crer também que nunca houvesse
Enterramento humilde a que não desse,
Essa Roseira, a régia compostura
De suas rosas de imortal brancura.
Posso, entanto, afirmar que essa Roseira,
Porque deu flores a existência inteira,
Passou despercebida aos homens brutos
Como aos ladrões as árvores sem frutos...
903
Paulo Silva Ribeiro
Quando o Sol Chegar
Quando o Sol Chegar
Quando o sol chegar
Não se esqueça nunca desta noite,
Não deixe as flores sobre a mesa,
Não se arrependa das juras feitas,
Não maldiga a pessoa, mas apenas siga a vida...
Quando o sol chegar
Não arranque os beijos dados em sua boca,
Não apague da lembrança as imagens desta noite,
Não retire o meu perfume te tua pele...
Quando o sol chegar
Não se esqueça de voltar,
Não bata a porta,
Não vá chorar,
Não vá se maldizer,
Quando o sol chegar...
Quando o sol chegar
Não se esqueça nunca desta noite,
Não deixe as flores sobre a mesa,
Não se arrependa das juras feitas,
Não maldiga a pessoa, mas apenas siga a vida...
Quando o sol chegar
Não arranque os beijos dados em sua boca,
Não apague da lembrança as imagens desta noite,
Não retire o meu perfume te tua pele...
Quando o sol chegar
Não se esqueça de voltar,
Não bata a porta,
Não vá chorar,
Não vá se maldizer,
Quando o sol chegar...
830
Antero de Quental
Beatrice
Nem visao, nem real: amor! amor somente!...
Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor - ?
Quando deixa cair no peito esta semente,
Diz o que ha-de brotar, acaso, o Deus-Senhor
Somente amor... Somente?! e pouco esta palavra? Duas silabas
so - em pouco um mundo esta -
Loucos! mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra,
Bem como incendio a arder, tao pouco inda sera?
Gota, que alaga o mundo! atomo, e apos, colosso!
Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pos!
Foi Deus! de Deus me vem... e a Deus medir nao posso:
E imenso o que vem dele... os nadas somos nos.
E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso,
O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor,
Ha-de alagar teu peito e ser do templo incenso...
Mulher! has-de escutar, que eu vou falar damor!
Falar damor?!... se ele e como uma essencia,
Que nos perfuma, sem se ver de donde...
Se ele e como o sorriso da inocencia,
Que inda se ignora e, pra sorrir, se esconde...
Se e o sonho das noites vaporoso,
Que anda no ar, sem que possamos ve-lo...
Se e a concha no oceano caprichoso,
Se e das ondas do mar ligeiro velo...
Se e suspiro, que oculto se descerra,
Se escuta, mas se ignora de que banda...
Se e estrela, que manda a luz a terra,
Sem se ver de que paramos a manda...
Se e sonho, que sonhamos acordado...
Suspiro, que soltamos sem senti-lo...
Sopro que vai dum lado a outro lado...
Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo?
Falar do amor... do amor! o sempre-mudo!
Se e segredo entre dois, como dize-lo,
Sem divulga-lo, sem que o ouca tudo?
Se e misterio encoberto, como ve-lo?...
Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor - ?
Quando deixa cair no peito esta semente,
Diz o que ha-de brotar, acaso, o Deus-Senhor
Somente amor... Somente?! e pouco esta palavra? Duas silabas
so - em pouco um mundo esta -
Loucos! mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra,
Bem como incendio a arder, tao pouco inda sera?
Gota, que alaga o mundo! atomo, e apos, colosso!
Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pos!
Foi Deus! de Deus me vem... e a Deus medir nao posso:
E imenso o que vem dele... os nadas somos nos.
E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso,
O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor,
Ha-de alagar teu peito e ser do templo incenso...
Mulher! has-de escutar, que eu vou falar damor!
Falar damor?!... se ele e como uma essencia,
Que nos perfuma, sem se ver de donde...
Se ele e como o sorriso da inocencia,
Que inda se ignora e, pra sorrir, se esconde...
Se e o sonho das noites vaporoso,
Que anda no ar, sem que possamos ve-lo...
Se e a concha no oceano caprichoso,
Se e das ondas do mar ligeiro velo...
Se e suspiro, que oculto se descerra,
Se escuta, mas se ignora de que banda...
Se e estrela, que manda a luz a terra,
Sem se ver de que paramos a manda...
Se e sonho, que sonhamos acordado...
Suspiro, que soltamos sem senti-lo...
Sopro que vai dum lado a outro lado...
Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo?
Falar do amor... do amor! o sempre-mudo!
Se e segredo entre dois, como dize-lo,
Sem divulga-lo, sem que o ouca tudo?
Se e misterio encoberto, como ve-lo?...
3 550