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Política e Poder

Pablo Neruda

Pablo Neruda

III - Dando Uma Medalha À Madame Sun Yat Sem

À MADAME SUN YAT SEN

Esta medalha que Ehrenburg te deixou no peito
é uma espiga de ouro da colheita do grande país da
paz, da União Soviética.
Teu peito é digno desta espiga de ouro, Sung Sin Ling.
Nós te conhecemos daqueles tempos em que a China
despertou,
e logo quando a China foi traída e martirizada,
uma vez mais pelos seus velhos inimigos,
e desde o primeiro dia te vemos quando a China
foi libertada na primeira fila, na vanguarda com os libertadores
Assim te vemos, querida amiga, ao chegar ao aeroporto:
pareceste-nos mais jovem de quanto pensamos e mais simples,
como teu povo que sofreu e combateu tanto
e que, na vitória, sorri e saúda todos os povos do mundo.

Nós, os homens da Latino-América, conhecemos
vossos inimigos.
Nosso continente tem toda a riqueza, o petróleo,
o cobre, o açúcar, o nitrato, o estanho,
mas tudo isto pertence a nossos inimigos, aos mesmos
que expulsastes para sempre.
Enquanto nossa gente dos campos e aldeias não tem
sapatos nem cultura,
eles levantaram, com o produto do saque, casas
de cinquenta andares em Nova York
e com nossas riquezas fabricaram as armas para
escravizar outros povos.
Por isso a vitória do povo chinês é nossa vitória.
Por isso a nova China é amada e respeitada
por todos os povos.
Uns quantos diplomatas em São Francisco e em Washington
não querem “reconhecer” a China Popular. Estes
senhores não sabem que existe.
Poderiam também não “reconhecer” a Terra e apesar
disso esta se move,
e se move para adiante, não para trás, como eles
quiseram.

Os senhores de São Francisco não “reconhecem”
à nova China,
mas poderiam fazer eles uma encosta ao longo da América
e se perguntassem a milhões de mineiros, de
camponeses, ao professor e ao poeta, ao velho e ao jovem,
desde o Alaska até o Pólo Sul, teriam a resposta:
“Reconhecemos e amamos Mao Tse-Tung. É nosso
grande irmão”.

Por isso, querida amiga da paz, Sung Sin Ling,
esta espiga de ouro que lá da generosa terra de Stalin
chegou a teu peito de mulher grande e simples,
não chegou ali por casualidade ou capricho,
mas porque te amamos
e amamos a paz que defendes não só para teu povo,
mas para que todos os povos
se reconheçam e possam construir sua vida livremente.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

E Não Obstante...

Eu fiz uso
de Rabelais para a vida minha
como dos tomates.
Para mim
foi essencial sua carnívora trombeta,
sua principal algazarra.
E não obstante...
Aquela noite sozinha,
passei na costa dos pobres ricos,
na França lunática do Sul.
 
Eu vinha terrestre,
com o pó do Sul, a neve vermelha,
o ocaso de todos os caminhos.
Vinha feliz.
 
Eu despertava
com o colo dourado
da alegria
sob meu braço esquerdo,
com o talo amorado de uma rosa
sob meus novos beijos,
e então
a polícia,
muito correta,
me ofereceu cigarros
e me expulsou da França.
 
Era depois da primeira noite
de França. Entre sua terra
e meu corpo adormecido
o tempo havia passado
e aquela noite, sem sonhos,
em mim subiu a terra
com estrofes e vinhas.
Tremeu o coração enquanto dormia:
a terra o enchia
de elétrica beleza,
o tingia de verde,
água de França e vinho,
pâmpanos e raízes.
 
Antigos mortos amados,
açafrão e jasmins,
envolviam-me adormecido,
e eu pelas fragrâncias da terra
naveguei, trespassado,
até que o dia impôs sua espada branca
com gotas de orvalho
e então
veio
quem, senão ela,
a França de hoje,
a polícia,
e embora o navio me esperasse ancorado
para voltar ao Chile,
ali, entre cigarros, me expulsaram
de quase tudo o que amo,
e de nada serviu que eu servisse
a memória
de Charles d’Orléans, limpando diariamente
sua guitarra de luto,
de nada me serviu que Rimbaud viva
clandestino
em minha casa,
desde há muitos anos.
Ai de nada,
ai de nada.
Nem os olhos de Éluard como duas lâmpadas
de fogo azul sobre meus ombros.
Nada serviu.
A polícia
falava de instruções superiores,
e que fique bem claro:
não devo retornar nunca.
Não posso
pôr um só sapato
nesse proibido território.
Devo entender as coisas:
nem de trânsito,
nem voar por cima,
nem cruzar por baixo,
nem sussurrar junto ao mar, às ondas
da Normandia que amo.
Não posso
disfarçar-me de árvore e receber a chuva,
dormir junto aos berros.
Não devo junto a um rio
cantar ou chorar de alegria.
Não posso
comer queijo silvestre
com as alfaces
que ali são como lábios. Não posso
em Saint Louis de la Isla
beber meu vinho branco,
nenhuma,
nenhuma
tarde mais
de minha vida.
 
Foram completamente claros
e inteiramente obscuros.
Expulsam-me. Está claro.
Por que me expulsam? Obscuro.
Assim, a polícia
tomou em suas mãos
a condecoração que em outro tempo
o conde de Dampierre me deixou na lapela,
olharam-na
como se fosse um alho sujo
ou um toco de cigarro com gosto de sabão.
Eles tinham
instruções
eminentemente superiores,
e assim foi, cavalheiros e senhoras,
como parti da França.
É natural,
não necessito
explicar-me.
 
Todos sabemos
que a Embaixada
do Far West,
com seus vaqueiros,
cospem nas lâmpadas de cristal em Versailles.
Que com tabaco na boca
Jim Cola Cola
urina as estátuas
de Fontainebleau, as cegas
estátuas de rainhas adormecidas.
Todos sabemos isso, porém,
não quero falar a respeito,
não é meu tema.
 
Se eu tivesse
vinte anos
e se me houvessem
arrancado
a França da cintura,
este seria um longo
lamento, um comprido pranto.
Eu teria escrito
a morte e as exéquias
da mais olorosa primavera.
 
Mas, agora,
com tantas cicatrizes
que ainda não conseguiram
matar meu coração,
com a alegria
sem despertar ainda entre meus braços,
com toda a vida adiante,
com a esperança,
com tudo o que vem
quando nós não seremos mais,
com a França que amanhã
despertará também,
porque nunca dormiu,
com todos os jasmins e as vinhas,
as ruas, os caminhos,
e as canções que amo,
e que ninguém muito menos
a polícia
poderão arrancar-me da alma,
posso dizer, senhores
e senhoras,
que amo à doce França,
de onde me expulsaram.
E que continuo
vivendo
como se ali vivesse,
com sua terra e seus heróis,
com seu vinho e seu povo,
e que não despertei oficialmente
daquela única noite
em que todo o aroma
de sua profundeza e sua doçura
subiu em meu sonho para despedir-me.
 
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

V - Chegou a Frota

Quando chega a frota
norte-americana
esfuma-se a bandeira
pastoril
da Itália.
Termina o azul e as guitarras
ali onde estão? Aquela
onda de mel e luz
que envolve
seres, conversas, monumentos,
tudo se esconde, só
as presenças de aço na baía,
lentos répteis,
línguas
malditas da guerra,
e no alto
a bandeira
do invasor
com suas barras de cárcere
e suas estrelas roubadas.
Os prostíbulos
crescem,
e ali de tombo em tombo
os marinheiros civilizadores
transitam,
derrubam-se,
entram aos murros
nos pobres lares da margem,
exatamente como
antes aconteceu em Havana,
no Panamá, em Valparaiso,
na Nicarágua, no México.
Quando parte
a frota
segue um barco pela terra.
Em trens, em caminhões
se dirige a um prostíbulo
ao novo porto em que os barcos cinzentos
vão para defender a cultura.
Ai, que dificuldades!
Faltam hotéis onde
situar às mulheres
de maneira estratégica no porto!
Ah mas para isso
todo o governo se mobilizou.

Corre o senhor de Gásperi vestido
com seu fraque mais tétrico,
e o ministro da polícia
varre os quartos
para que tudo
se desenvolva
com eficácia extrema.
Depois
os senhores ministros italianos
se reúnem,
se felicitam
e o Presidente do Conselho, débil
e funeral como um caixão de morto,
declara com voz suave:
“Ultrapassando as dificuldades
temos cumprido com nossos deveres
para com a frota norte-americana.
Ademais esta tarde, com orgulho
o declaro,
proibi uma exposição de pintura,
expulsei um poeta perigoso
e pus na fronteira
o corpo de balé de Leningrado.
Assim
mostramos como aqui na Itália
defendemos
a cultura cristã”.
Enquanto isso nos portos
a pastoril bandeira,
a claridade da Itália
se esconde, e a sombra
dos encouraçados
dorme na água, como
nos pútridos charcos da selva
esperam os répteis.
No entanto
azul é o céu da Itália,
generosa sua terra pobre,
largo o peito do povo,
valente sua estatura
e o que conto existe,
mas não será eterno.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - a Polícia

Nós somos
da polícia.
— E você? Quem é?
Donde vem, aonde
pretende dirigir-se?
Seu pai? Seu cunhado?
Com quem dormiu as sete noites últimas?
— Eu dormi com meu amor, eu sou talvez,
talvez, talvez,
sou da Poesia —
E assim uma gôndola
mais negra que as outras
atrás de mim os transportou em Veneza,
em Bolonha, na noite,
no trem: sou uma sombra errante
seguida pela sombras.
Eu vi em Veneza, erguido o Campanile
elevando entre as pombas de São Marcos
seu tricórnio de polícia.
E Paulina, nua, no museu,
quando beijei sua bela boca fria
me disse: Tem em ordem seus papéis?
Na casa de Dante
sob os velhos telhados florentinos
há interrogatórios, e David
com seus olhos de mármore, sem pupilas
se esqueceu de seu pai, Buonarrotti,
porque o compelem diariamente a contar
o que com olhos cegos fitou.
No entanto aquele dia
em que me trasladaram à fronteira suíça
a polícia se deu conta de repente
que lhe saía no encalço
a militante poesia.
Não esquecerei a multidão romana
que na estação, de noite,
arrancou-me das mãos
da perseguidora polícia.

Como esquecer o gesto guerrilheiro
de Guttuso e o rosto de Giuliano,
a onda de ira, o soco nos narizes
dos sabujos, como esquecer Mário,
de quem no exílio
aprendi a amar a liberdade da Itália,
e agora irada sua cabeça branca
divisei confundindo-se
no mar agitado
de meus amigos e de meus inimigos?
Não esquecerei o pequeno
guarda-chuva de Elsa Morante
caindo sobre um peito policial
como a pesada pétala
de uma força florida.
E assim na Itália
por vontade do povo,
peso de poesia,
firmeza solidária,
ação da ternura
ficou meu destino.
E assim foi como
foi este livro nascendo
rodeado de mar e limoeiros,
escutando em silêncio,
detrás do muro da polícia,
como lutava e luta,
como cantava e canta
o valoroso povo
que ganhou uma batalha para que eu pudesse
descansar na ilha que me esperava
com um ramo em flor de jasmim na sua boca
e em suas pequenas mãos a fonte de meu canto.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iv - o Anjo Soviétivo

Fazia cento e cinquenta anos
que jazia enterrado.
Em Petrogrado de seda e sangue
caiu com uma bala suja
em alguma parte do peito.
Passou o tempo.
Por mais de cem invernos caiu neve
sobre telhados e ruas,
mas aberta e sangrando
esteve aquela
pequena ferida vermelha
no peito de pedra, seda e ouro
de Petrogrado. Um fio
de sangue acusava. Ia
e vinha,
subia pelas cúpulas,
corria pela seda
das casacas bordadas,
de repente aparecia
como pedra preciosa
sobre o decolleté
de uma beleza,
e ai, era só um coágulo
de sangue que acusava.
Assim era,
assim era o sangue de Pushkin
assassinado,
ia por toda parte
como um fio
infinito.
No silêncio
de Petrogrado, na pedra e a água
da cidade adormecida,
na estátua de Pedro e seu cavalo,
o fio,
o fio de sangue
caminhava,
caminhava procurando.

Até que um dia
amanheceu a aurora disparando.
Nas escadas
do Palácio de Inverno
apareceu um tapete
de estranha contextura:
era homem e cólera,
era esperança e fogo,
eram cabeças jovens e cinzentas,
a fronte dos povos.
E logo Lenin
com uma assinatura
no pé da esperança
mudou a História.

Então
aquele fio de sangue que acusava
retirou-se a seu lugar
e claro, aéreo e vermelho,
o anjo pensativo
viveu de novo.
Pushkin
fitou sua camisa:
já não sangrava o furo sujo
que deixara a bala assassina.
O povo
havia expulso
os espadachins
de casacas vermelhas,
os carrascos
condecorados com gotas de sangue
e agora
com a ferida fechada
recebeu na cabeça
o vento de loureiros
e pôs-se a andar pelas ruas,
acompanhou seu povo.

E, vivo de novo,
fulgurante em sua estátua,
ondulando no céu
como uma grande bandeira,
mesclando-se aos homens
na saída do comércio,
na campina
com o pêlo molhado
ou descansando um pouco
junto aos feixes de trigo,
vi o jovem Pushkin.
Meu amigo
não falava,
havia que lê-lo.
Eu caminhei a vasta geografia
da URSS,
olhando-o e lendo-o,
e ele com sua antiga voz me decifrava
as vidas e as terras.
Um repousado orgulho,
como um sonho,
invadia seu rosto
quando a meu lado
ia voando
transparente no ar transparente,
sobre a liberdade espaçosa
das cidades e dos prados.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - a Cidade Ferida

Berlim cortado
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.

E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.

Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Crescem Os Anos

Hungria,
duplo é teu rosto como uma medalha.
Eu te encontrei no verão
e era
teu perfil bosque e trigo:
o rápido verão
com seu manto de ouro
teu doce corpo verde recobria.
Mais tarde
te vi cheia de neve,
oh bela rosada
de dentes brancos e coroa branca,
estrela do inverno,
pátria da brancura!
 
E assim teu duplo rosto de medalha
amei passando sobre tuas pupilas
meus beijos bem-vindos na aurora,
porque construías
o sol que ia nascendo,
tua bandeira,
o passo de teu povo
nas estepes,
as ferramentas puras
da libertação, o aço
com que se forjaram as estrelas.
Junto a mim cresce
este tempo,
esta época
como um rápido bosque,
como planta vulcânica
cheia de vida e folhas,
minha época
de sangue e claridade, de noite fria
e esplendor matutino.
Novas cidades crescem,
amanhecem bandeiras,
se afirmam as repúblicas
do socialismo em marcha,
Vietnam palpita
porque em sangue e dores
nasce uma nova vida.
 
Minha época
loureiro e lua cheia,
amor e pólvora!
 
Eu vi
nascer, crescer os anos,
parir a velha terra
robustas, novas coisas.
Penso
no homem perdido
de outro tempo
que não viu nascer nada,
que se precipitou de rua em rua,
de noite em noite fria,
subiu escadas,
encheu-se de fumaça,
e nunca viu onde terminavam
os degraus nem a fumaça.
Aquele homem
foi como um cogumelo na selva,
na umidade escura
dissipou suas heranças,
não viu sobre o bosque a altura
tatuada com estrelas,
não vislumbrou sob seus pés
entrelaçar-se todos
os germes do bosque.
Eu sinto, olho, toco
o crescimento
do que sobrevêm,
vou de uma terra a outra constatando,
somando o indelével,
acrescendo os passos,
reunindo as sílabas
do canto do vento na terra.
 
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ii - Jovens Alemães

Como um ramo vermelho
numa árvore queimada
aparece e nela
a flor do tempo brilha.
Assim, Alemanha, em teu rosto
queimado pela guerra,
tua nova juventude ilumina
as queimaduras e as cicatrizes
do inferno passado.
Eu recebi junto à Elba,
junto à transparência
de seu antigo transcurso,
quando partindo da Boêmia
o trem chegou à Alemanha,
à florida juventude de agora
com seus firmes sorrisos
e as mãos
cheias de flores que me davam
rapazes e moças
carregados de lilases.
Mas não eram as flores somente
as que davam luz sobre a água,
era o novo brotar humano,
o sorriso arrancado às cerejeiras,
o direto olhar,
as firmes mãos que apertavam as tuas,
e os olhos diretamente azuis.
Ali tremeu a terra
com toda a crueldade e o castigo,
e agora,
jovens
da água e da terra renascidos,
com flores na boca,
levantando o amor sobre a terra,
com a palavra Stalin
em milhões de lábios,
florescendo.
Oh prodígio,
aqui de novo a vida,
árvore de luz, colmeia,
celeiro inacabável,
a paz e a vida,
ramo e ramo,
água e água,
cacho com cacho,
lá das cicatrizes derrotadas
rumo à nova
madureza da aurora.

E eu esqueci as ruínas,
o alfabeto de pedra queimada,
a lição do fogo,
esqueci a guerra,
esqueci o ódio,
porque vi a vida.
Oh jovens,
jovens alemães,
novos preservadores de vossa primavera,
firmes e francos jovens da nova Alemanha,
olhai para o Este,
olhai para a vasta União
das Repúblicas amadas.
Vede como também de suas ruínas
amanhece na Polônia
um sorriso firme.
China, a gigantesca, sacudiu
suas cadeias cheias de sangue
e agora é nossa imensa irmã.

Diante de vós
está o tesouro do mundo,
não o antigo tesouro do saque,
mas o novo tesouro,
o largo espaço cheio
de seres fraternais,
a paz, vento de espigas, o encontro
com o homem remoto
que não vem para roubar-nos.
Vai passando e crescendo
por todas as terras um fio
de aço que cuidamos,
o mar cantando junto ao homem
seu eterno hino de espuma,
e como um telegrama diário o ar
deixando-nos notícias.

Quantas usinas novas nasceram,
quantas escolas apagaram a sombra,
quantos rapazes sabem a partir de hoje
o idioma secreto
dos metais e das estrelas,
como tiraremos pão do planeta
para todos
e daremos frescor à terra,
velha mãe de todos os homens.
Inventaremos água nova,
arroz celeste,
motores de cristal.
Estenderemos
mais além das ilhas o espaço.
Nos desertos de fogo e areia
veremos como dança
a primavera em nossos braços, porque
nada será esquecido,
nem a terra,
nem o homem.
O homem não será esquecido
e é este o tesouro.
Jovens que do fundo
da guerra
trazeis um sorriso
que não será afogado,
este é o tesouro:
não esquecer o homem.
Porque assim é maior a terra
que todos os astros reunidos.
Assim crescemos cada dia e cada
dia somos mais ricos de homens,
temos mais irmãos,
no ar, nas minas,
nas altas planícies
da Mongólia metálica.
O homem,
ao Este, ao Norte, ao Sul,
ao Oeste, para cima,
onde caminha o vento,
o homem.
Olha, rapaz, como te saúdam,
olha como cresceu tua família,
grande é a terra e tua,
grande é a terra e minha,
é de todos,
saúda,
saúda o mundo,
o novo mundo que nasceu
e que contigo crescerá
porque tu és semente.
Crescerás, cresceremos.
Já ninguém pode derrubar a árvore
nem cortar suas raízes
porque em teu coração estão crescendo
e a árvore encherá toda a terra
de flores e cantos e frutos.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Londres

Na alta noite, Londres,
apenas entrevista,
olhos inumeráveis,
dura secreta sombra,
tendas cheias de cadeiras,
cadeiras e cadeiras, cadeiras.
O céu negro
sentado sobre Londres,
sobre sua névoa negra,
sapatos e sapatos,
rio e rio,
ruas desmoronadas pelos dentes
da miséria cor de ferro,
e sob a imundície
o poeta Eliot
com seu velho fraque
lendo aos vermes.
Perguntaram-me quando
nasci, por que vinha
perturbar o Império.
Tudo era polícia
com livros e matracas.
Perguntaram-me
pelo meu avô e meus tios,
pelos meus pessoalíssimos assuntos.
Eram frias
as jovens facas
sobre as quais
senta-se
senta
senta
a matrona Inglaterra,
sempre sentada
sobre milhões de rasgões,
sobre pobres nações andrajosas,
sentada
sobre seu oceano
de reservado uso pessoal,
oceano
de suor, sangue e lágrimas
de outros povos.
Ali sentada
com suas velhas rendas
tomando chá e ouvindo
os mesmos relatos tontos
de princesas,
coroações
e duques conjugais.
Tudo acontece entre fadas.
Enquanto isso
ronda a morte com chapéu
vitoriano
e esqueleto listrado
pelas enegrecidas bicheiras
dos negros subúrbios.
Enquanto isso
a polícia te interroga:
é a palavra paz a que lhes crava
como uma baioneta.
Esta palavra paz
eles quiseram
enterrá-la,
porém
não podem por ora.
Deitam-lhe sombra em cima,
névoa
de polícia,
amarram-na e a encerram,
a golpeiam,
a salpicam de sangue e martírio,
a interrogam,
deitam-na ao mar profundo
com uma pedra em cada
sílaba,
a queimam com um ferro,
com um sabre
a cortam,
atiram-lhe vinagre, fel, mentira,
a empacotam, enchem-na de cinza, a precipitam.
Mas então
voa
de novo
a pomba:
é a palavra paz com plumas novas,
é o jasmim do mundo
que avança com suas pétalas,
é a estrela do sonho e do trabalho,
a ave branca
de voo imaculado,
a rosa que navega,
o pão de todas as vidas,
a estrela de todos os homens.
 
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto XI - As flores de Punitaqui

I
O vale das pedras ( 1946)

Hoje caíu, 25 de abril,
sobre os campos de Ovalle,
a chuva esperada, a água de 1946.


Nesta primeira quinta-feira molhada, um dia de vapor
constrói sobre os cerros sua cinzenta ferragem.

É esta quinta-feira das pequenas sementes
que em suas bolsas guardaram os camponeses famintos:
hoje apressadamente furarão a terra e nela
deixarão cair seus grãozinhos de verde vida.


Ainda ontem subi o rio Hurtado acima:
acima, entre os ásperos cerros impertinentes,
eriçados de espinhos, pois o grande cacto andino,
como um cruel candelabro, aqui se estabelece.


E sobre seus agrestes espinhos, como vestimenta
escarlate, ou como uma mancha de terrível arrebol,
como sangue dum corpo arrastado sobre mil puas,
as parasitas acenderam as suas lâmpadas sangrentas.


As rochas são imensas bolsas coaguladas
na idade do fogo, sacos cegos de pedra
que rolaram até se fundirem nestas
implacáveis estátuas que guardam o vale.


O rio leva um doce e agônico rumor
de últimas águas entre o salgueiro escuro
multidão de folhagem, e os álamos
deixam tombar em gotas seu delgado amarelo.


É o outono do Norte Pequeno, o atrasado outono.


Pestaneja mais aqui a luz no cacho.


Como uma mariposa, detém-se mais tempo
o transparente sol até coalhar a uva,
e brilham sobre o vale seus panos moscatéis.




II
Irmão Pablo

Mas hoje os camponeses vêem ver-me: “Irmão,
não tem água, irmão Pablo, não tem água, não choveu.


E a corrente miúda
do rio
sete dias circula, sete dias se seca.


Nossas vacas morreram lá em cima na cordilheira.


E a sede começa a matar crianças.

Lá em cima, muitos não têm o que comer.

Irmão Pablo, você vai falar com o ministro”.


(Sim, o irmão Pablo vai falar com o ministro, mas eles não sabem
como me vêem chegar
essas poltronas de couro ignominioso
e depois a madeira ministerial, esfregada
e polida pela saliva bajulante.
)
Mentirá o ministro, esfregará as mãos,
e o gado do pobre comuneiro
com o burro e o cachorro, pelas esfiapadas
rochas, de fome em fome, tombará lá embaixo.




III
A fome e a ira

Adeus, adeus a tua quinta, à sombra
que ganhaste, ao ramo
transparente, à terra consagrada,
ao boi, adeus, à água avara,
adeus, às vertentes, à música
que não chegou na chuva, ao cinto pálido
da ressaca e da pedregosa aurora.


Juan Ovalle, te dei a mão, mão sem água,
mão de pedra, mão de parede e estiagem.

E te disse: à parda ovelha, às mais ásperas
estrelas, à lua como cardo roxo,
amaldiçoa, ao ramo partido dos lábios nupciais,
mas não toques no homem, não derrames ainda o homem
ferindo-lhe as veias, não tinjas ainda a areia,
não acendas ainda o vale com a árvore
dos tombados ramos arteriais.


Juan Ovalle, não mates.
E tua mão
me respondeu: “Estas terras
querem matar, buscam de noite
vingança, o velho vento ambarino
na amargura é vento de veneno,
e a guitarra é como um quadril
de crime, e o vento é uma faca”.




IV
Tiram-lhes a terra

Porque atrás do vale e da seca,
detrás do rio e da delgada folha,
espreitando o torrão e a colheita,
o ladrão de terras.


Olha que árvore de ressoante púrpura
contempla seu estandarte avermelhado,
e atrás de sua estirpe matutina,
o ladrão de terras.


Ouves como o sal do arrecife
o vento de cristal nas nogueiras,
porém sobre o azul de cada dia
o ladrão de terras.


Sentes entre as capas germinais
pulsar o trigo em sua flecha dourada,
porém entre o pão e o homem há uma máscara:
o ladrão de terras.




V
Aos minerais

Depois, às altas pedras
de sal e de ouro, à enterrada
república dos metais
subi:
eram os doces muros em que uma
pedra se amarra com outra,
com um beijo de barro escuro.


Um beijo entre pedra e pedra
pelos caminhos tutelares,
um beijo de terra e terra
entre as grandes uvas vermelhas,
e como um dente junto a outro dente
a dentadura da terra,
as paredes de matéria pura,
as que levam o interminável
beijo das pedras do rio
aos mil lábios do caminho.


Subamos da agricultura ao ouro.

Tendes aqui os altos pedernais.


O peso da mão é como uma ave.

Um homem, uma ave, uma substância de ar,
de obstinação, de vôo, de agonia,
uma pálpebra talvez, mas um combate.


E de lá no transversal berço do ouro,
em Punitaqui, frente a frente
com os calados sapadores
da picareta, da pá, vem,
Pedro, com tua paz de couro,
vem, Ramírez, com tuas abrasadas
mãos que indagaram o útero
das cerradas minerações,
salve, nas grades, nos
calcários subterrâneos
do ouro, abaixo em suas matrizes,
ficaram as vossas digitais
ferramentas marcadas com fogo.




VI
As flores de Punitaqui

Era dura a pátria lá como antes.

Era um sal perdido o ouro,
era
um peixe enrubescido e no torrão colérico
seu pequeno minuto triturado
nascia, ia nascendo das unhas sangrentas.


Entre a alva corno uma amendoeira fria,
sob os dentes das cordilheiras,
o coração perfura seu buraco,
rastreia, toca, sofre, sobe, e na altura
mais essencial, mais planetária, chega
com a camiseta rasgada.


Irmão de coração queimado,
junta em minha mão esta jornada,
e baixemos uma vez mais às camadas adormecidas
em que tua mão como uma tenaz
agarrou o ouro vivo que queria voar
ainda mais profundo, ainda mais abaixo, ainda.


E lá como umas flores
as mulheres de lá, as chilenas de cima,
as minerais filhas da mina,
um ramo entre as minhas mãos, umas flores
de Punitaqui, umas rubras flores,
gerânios, flores pobres
daquela terra dura,
depositaram em minhas mãos como
se tivessem sido achadas na mina mais funda,
se aquelas flores filhas da água rubra
voltassem lá do fundo sepultado do homem.


Peguei suas mãos e suas flores, terra
despedaçada e mineral, perfume
de pétalas profundas e dores.

Soube ao olhá-las de onde vieram
até a solidão dura do ouro,
me mostraram como gotas de sangue
as vidas derramadas.


Eram em sua pobreza
a fortaleza florescida, o ramo
da ternura e seu metal remoto.


Flores de Punitaqui, artérias, vidas, junto
a meu leito, na noite, vosso aroma
se ergue e me guia pelos mais subterrâneos
corredores do luto
pela altura perfurada, pela neve, e ainda
pelas raízes que só as lágrimas alcançam.


Flores, flores da altura,
flores de mina c pedra, flores
de Punitaqui, filhas
do amargo subsolo: em mim, nunca olvidadas,
ficastes vivas, construindo
a pureza imortal, uma corola
de pedra que não morre.




VII
O ouro

Teve o ouro esse dia de pureza.

Antes de mergulhar de novo sua estrutura
na suja saída que o aguarda,
recém-chegado, recém-desprendido
da solene estátua da terra,
foi depurado pelo fogo, envolto
pelo suor e as mãos do homem.


Lá se despediu o povo do ouro.

E era terrestre o seu contacto, puro
como a matriz cinzenta da esmeralda.

Igual era a mão suarenta
que recolheu o lingote emaranhado
ao cepo de terra reduzida
pela infinita dimensão do tempo,
à cor terrenal das sementes,
ao solo poderoso dos segredos,
à terra que lavra os racimos.


Terras do ouro sem manchar, humanos
materiais, metal imaculado
do povo, virginais minerações,
que se tocam sem se verem na implacável
encruzilhada de seus caminhos:
o homem continuará mordendo o pó,
continuará sendo terra pedregosa,
e ouro subirá sobre seu sangue
até ferir e reinar sobre o ferido.




VIII
O caminho do ouro

Entrai, senhor, comprai pátria e terreno,
casas, bênçãos, ostras,
tudo se vende aqui aonde chegastes.

Não há torre que não caia em vossa pólvora,
não há presidência que rechace nada,
não há rede que não reserve o seu tesouro.


Como somos tão “livres” como o vento,
podeis comprar o vento, a cachoeira,
e na desenrolada celulose
ordenar as impuras opiniões,
ou recolher amor sem alvitre,
destronado no linho mercenário.


O ouro mudou de roupa usando
formas de trapo, de papel puído,
frios fios de lâmina invisível, cinturões de dedos enroscados.


À donzela em seu novo castelo
levou o pai de aberta dentadura
o prato de cédulas
que devorou a bela disputando-o
no chão e a golpes de sorriso.

Ao bispo subiu a investidura
dos séculos de ouro, abriu a porta
dos juízes, manteve as alfombras,
fez tremer a noite nos bordéis,
correu com os cabelos no vento.


(Eu vivi a idade em que reinava.

Eu vi consumida podridão,
pirâmides de esterco angustiadas
pela honra: conduzidos e trazidos
césares da chuva purulenta,
convencidos do peso que punham
nas balanças, rígidos
bonecos da morte, calcinados
por sua cinza dura e devorante.
)



IX

Fui além do ouro:
entrei na greve.

Lá durava o fio delicado
que une os seres, lá o cordão puro
do homem está vivo.

A morte os mordia,
o ouro, ácidos dentes e veneno
lançava para eles, mas o povo
pôs os seus pedernais na porta,
foi torrão solidário que deixava
transcorrer a ternura c o combate
como duas águas paralelas,
fios
das raízes, ondas da estirpe.


Vi a greve nos braços reunidos
que apertam o desvelo
e em uma pausa trêmula de luta

vi pela primeira vez o único vivo!
A unidade das vidas dos homens!

Na cozinha da resistência
com seus fogões pobres, nos olhos
das mulheres, nas mãos insignes
que com torpor se inclinavam
para o ócio de um dia
como em um mar azul desconhecido,
na fraternidade do pão escasso,
na reunião inquebrantável, em todos
os germes de pedra que surgiam,
naquela romã valorosa
elevada no sal do desamparo,
achei por fim a fundação perdida,
a remota cidade da ternura.




X
O poeta

Antes andei pela vida, em meio
a um amor doloroso: antes retive
uma pequena página de quartzo
cravando-me os olhos na vida.


Comprei bondade, estive no mercado
da cobiça, respirei as águas
mais surdas da inveja, a inumana
hostilidade de máscaras e seres.

Vivi um mundo de lamaçal marinho
no qual a flor de súbito, a açucena
me devorava em tremor de espuma,
e onde pus o pé resvalou minha alma
pelas dentaduras do abismo.

Assim nasceu minha poesia, apenas
resgatada de urtigas, empunhada
sobre a solidão como um castigo,
ou apartou no jardim da impudicícia
sua mais secreta flor até enterrá-la.

Asilado assim como a água sombria
que vive em seus profundos corredores,
corri de mão em mão, ao insulamento
de cada ser, ao ódio cotidiano.

Soube que assim viviam, escondendo
a metade dos seres, como peixes
do mais estranho mar, e nas lodosas
imensidades encontrei a morte.

A morte abrindo portas e caminhos.

A morte deslizando pelos muros.




XI
A morte no mundo

A morte ia mandando e recolhendo
em lugares e tumbas seu tributo:
o homem com punhal ou com bolso,
ao meio-dia ou na luz noturna,
esperava matar, ia matando,
ia enterrando seres e ramagens,
assassinando e devorando mortos.

Preparava as suas redes, esmagava,
sangrava, saía nas manhãs
cheirando o sangue da caçada,
e ao voltar de seu triunfo estava envolto
por fragmentos de morte e desamparo,
e então matando-se enterrava
com cerimônia funeral os seus passos.


As casas dos vivos eram mortas.

Escória, tetos rotos, urinóis,
vermiculadas ruelas, covas
acumuladas com o pranto humano.

- Assim deves viver - disse o decreto.

- Apodrece em tua substância - disse o chefe.

- És imundo - arrazoou a Igreja.

- Estende-te no lodo - te disseram.

E uns tantos armaram a cinza
para que ela governasse e decidisse,
enquanto a flor do homem se batia
contra as paredes que lhe construíram.


O cemitério teve pompa e pedra.

Silêncio para todos e estatura
de vegetais altos e afiados.


Por fim estás aqui, por fim nos deixas
um vazio nu meio da selva amarga,
por fim te encontras teso entre paredes
que não transpassarás.
E cada dia
as flores como um rio de perfume
se juntaram ao rio dos mortos.

As flores que a vida não tocava
caíram sobre o vazio que deixaste.




XII
O homem

Aqui encontrei o amor.
Nasceu na areia,
cresceu sem voz, tocou os pedernais
da dureza e resistiu à morte.

Aqui o homem era vida que juntava
a intacta luz, o mar sobrevivente,
e atacava e cantava e combatia
com a mesma unidade dos metais.

Aqui os cemitérios eram terra
apenas erguida, cruzes partidas,
sobre cujas madeiras derretidas
adiantavam-se os ventos arenosos.




XIII
A greve

Estranha era a fábrica inativa.

Um silêncio na planta, uma distância
entre máquinas e homem, como um fio
cortado entre planetas, um vazio
das mãos do homem que consomem
o tempo construindo, e as desnudas
estâncias sem trabalho e sem um som.

Quando o homem deixou as tocas
da turbina, quando desprendeu
os braços da fogueira e decaíram
as entranhas do forno, quando tirou os olhos
da roda e a luz vertiginosa
se deteve em seu círculo invisível,
de todos os poderes poderosos,
dos círculos puros de potência,
da energia surpreendedora,
ficou um montão de inúteis aços
e nas salas sem homem, o ar viúvo,
o solitário aroma do azeite.


Nada existia sem aquele fragmento
batido, sem Ramírez,
sem o homem de roupa rasgada.

Lá estava a pele dos motores,
acumulada em morto poderio,
como negros cetáceos no fundo
pestilento dum mar sem ondulação,
ou montanhas escondidas de repente
sob a solidão dos planetas.




XIV
O povo

Passeava o povo suas bandeiras rubras
e entre eles na pedra que tocaram
estive, na jornada fragorosa
e nas altas canções da luta.

Vi como passo a passo conquistavam.

Somente a resistência dele era caminho,
e isolados eram como troços partidos
duma estrela, sem boca e sem brilho.

Juntos na unidade feita em silêncio,
eram o fogo, o canto indestrutível,
o lento passo do homem na terra
feito profundidades e batalhas.

Eram a dignidade que combatia
o que foi pisoteado, e despertava
como um sistema, a ordem das vidas
que tocavam as portas e se sentavam
na sala central com suas bandeiras.




XV
A letra

Assim foi.
E assim será.
Nas serras
calcárias, à beira
da fumaça, nas oficinas,
há uma mensagem escrita nas paredes
e o povo, só o povo, pode vê-la.

Suas letras transparentes se formaram
com suor e silêncio.
Estão escritas.

Amassaste-as, povo, em teu caminho
e estão sobre a noite como o fogo
abrasador e oculto da aurora.

Entra, povo, nas margens do dia.

Anda como um exército, reunido,
e bate a terra com teus passos
e com a mesma identidade sonora.

Seja uniforme o teu caminho como
é uniforme o suor da batalha,
uniforme o sangue poeirento
do povo fuzilado nos caminhos.


Sobre esta claridade irá nascendo
a granja, a cidade, a mineração,
e sobre esta unidade como a terra
firme e germinadora se há disposto
a criadora permanência, o germe
da nova cidade para as vidas.

Luz dos grêmios maltratados, pátria
amassada por mãos metalúrgicas,
ordem que saiu dos pescadores
como um ramo do mar, muros armados
pela alvenaria transbordante,
escolas cereais, armaduras
de fábricas amadas pelo homem.

Paz desterrada que regressa, pão
compartilhado, aurora, sortilégio
do amor terrenal, edificado
sobre os quatro ventos do planeta.

1 201
Pablo Neruda

Pablo Neruda

O Anjo da Poesia

União Soviética, floresces
com outras flores que na terra
não têm ainda nome.
 
Tua firmeza é a flor da árvore do aço.
 
É tua fraternidade a flor do pão fragrante.
É teu inverno uma flor em que a neve
ilumina o amor sem ameaça.
 
Eu percorri a terra onde Pushkin voltava
para elevar em seu canto a luz dos cristais,
e presenciei como seu povo levantava
esta constelação sobre as mãos
acostumadas a elevar o trigo.
 
Pushkin, foste o anjo
do Comitê Central.
 
Contigo visitei ruínas sagradas
ali onde os soldados de teu povo
defenderam as sílabas de tua alma.
 
Contigo vi crescer dos escombros
o gigantesco voo da vida,
as rodas do trator rumo ao outono,
novas cidades cheias de ruídos,
aviões amarelos como abelhas.
 
E quando entrei no museu ou na casa,
na fábrica, no rio que te segue cantando,
ou quando na cidade de Lenin vi apagadas
as cicatrizes do martírio augusto,
oh camarada transparente, estavas
junto a meu coração dando-me toda
a orgulhosa estrutura de tua pátria.
 
Ali, enfim, um anjo não levava mais arma
que um ramo cristalino de relâmpagos
e ele e toda sua terra defendiam
as sílabas errantes de meu canto.
 
Ali por fim a paz me resguardava.
 
E Pushkin me dizia: “Vem comigo
até Novosibirsk, além nas terras
desérticas, povoadas
antes pela solidão e pelas dores,
hoje a bandeira de minha voz passeia
sobre as construções orgulhosas”
 
Anjo, querias que toda tua vida
visitasse, tocando as espigas,
enumerando fábricas e escolas,
conversando com meninos e soldados.
 
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