Poemas neste tema
Política e Poder
Fernando Pessoa
«Thy will be done» (with a capital T)
«Thy will be done» (with a capital T)
Though ever on earth and on sea
There be the shadow of thy curse
Daily more terrible and worse
Thy will be done!
«Thy Will be done» (with a capital W)
O Man, though many a woe doth trouble you,
Still you pray on, and beat your heart,
And thank the Tyrant in his nest:
«Thy w[ill] be done».
«Thy will Be done» (with a capital B).
Though more than horrid misery
Break the whole earth and wreck the nations
Man cries on, in vile resignations:
«Thy will be done!»
«Thy will be Done» (with a capital D)
All are (...) and all unfree,
And yet from cottage and from hall
The groaning and the dying call
«Thy will be done!»
«Thy W[ill] Be Done» (all with capital letters),
Although God (...) our mind and fetters,
We roll our eyes and groan uncheerly
We join our hands and half-sincerely
Exclaim from life we pay too dearly:
«Thy will be done!»
Though ever on earth and on sea
There be the shadow of thy curse
Daily more terrible and worse
Thy will be done!
«Thy Will be done» (with a capital W)
O Man, though many a woe doth trouble you,
Still you pray on, and beat your heart,
And thank the Tyrant in his nest:
«Thy w[ill] be done».
«Thy will Be done» (with a capital B).
Though more than horrid misery
Break the whole earth and wreck the nations
Man cries on, in vile resignations:
«Thy will be done!»
«Thy will be Done» (with a capital D)
All are (...) and all unfree,
And yet from cottage and from hall
The groaning and the dying call
«Thy will be done!»
«Thy W[ill] Be Done» (all with capital letters),
Although God (...) our mind and fetters,
We roll our eyes and groan uncheerly
We join our hands and half-sincerely
Exclaim from life we pay too dearly:
«Thy will be done!»
1 379
Fernando Pessoa
É a espada, vejam bem
É a espada, vejam bem
Que ao mal e ao crime conduz;
A espada tem uma coroa
E a coroa tem uma cruz.
Que ao mal e ao crime conduz;
A espada tem uma coroa
E a coroa tem uma cruz.
1 739
Fernando Pessoa
EPIGRAMS- VI
Pius, of pious anger full,
In's bull makes priests and men of bias
Spy us. Although Pius is pious,
His bull (if that's a bull) 's a bull.
In's bull makes priests and men of bias
Spy us. Although Pius is pious,
His bull (if that's a bull) 's a bull.
1 227
Fernando Pessoa
GOD'S EPITAPH
Here lies a tyrant whom some called a devil,
Snake-like his folds around our life he curled;
He's dead now, and the world hath no more evil,
Because there is no longer any world.
Snake-like his folds around our life he curled;
He's dead now, and the world hath no more evil,
Because there is no longer any world.
901
Fernando Pessoa
O fado cantado à guitarra
O fado cantado à guitarra
Tem um som de desejar.
Vejo o que via o Bandarra,
Não sei se na terra ou no ar.
Sou cego mas vejo bem
No tempo em vez de no ar.
Goze quem goza o que tem.
A nau se há-de virar.
Canto às vezes sem dar voz
Como penso sem falar.
A cegueira que Deus me pôs
E um modo de luz me dar.
Vejo claro quanto mais deixo
O corpo cego às escuras.
Rogo pragas, mas não me queixo.
As pedras são todas duras.
Vejo um grande movimento
Em roda de uma árvore alta.
Das estrelas no firmamento
Há a mais nova que falta.
A preguiça (?) anda de rastos,
Os mortos gemem na cova.
Os gados voltam aos pastos
Quando desce a estrela nova.
Lei[o] no escuro os sinais
Do Quinto Império a chegar.
O Bandarra via mais,
Mas Deus é que há-de dar
Sinto perto o que está longe,
Quando penso julgo que fito,
Meu corpo está sentado em hoje
Minh'alma anda no Infinito.
Ando pelo fundo do mar,
Pelas ilhas do avesso,
E uma coisa que há-de chegar
Tem ali o seu começo.
Há no fundo d'um poço em mim
Um buraco de luz para Deus.
Lá muito no fundo do fim
Um olho feito nos céus.
E pelas paredes do poço
Anda uma coisa a mexer.
Rei moço, lindo rei moço,
Só ali te posso ver!
Meu coração está a estalar,
Minha alma diz-lhe não.
Vejo o Encoberto chegar
No meio da cerração.
Vendidos à Inglaterra,
Caixeiros da França vil,
Meteram a gente na guerra
Como num cesto aos mil.
Este vem trôpego e cego
Lá das Flandres e das Franças,
Só para o Leotte do Rego
Endireitar as finanças.
Este, que aos muros se encosta,
Veio doido lá da tropa,
Só porque o Afonso Costa
Queria ser gente na Europa.
Anda o povo a passar fome
E quem o mandou para a França
Não tem barriga para o que come
Nem mãos para o que alcança.
Metade foi para a guerra,
Metade morreu de fome.
Quem morre, cobre-o a terra.
Quem se afoga, o mar o some.
Ninguém odiava o alemão.
Mais se odiava o francês.
Deram-nos uma espada para a mão
E uma grilheta para os pés.
É inglesa a constituição,
E a república é francesa.
É d'estrangeiros a nação,
Só a desgraça é portuguesa.
E a raça que descobriu
O oriente e o ocidente
Foi morrer de balas e frio
Para a cama dos Costas ser quente.
Mas a verdade há-de vir,
O mal há-de ser descoberto
E Portugal há-de subir
Com a vinda do Encoberto.
Hão-de rir dos versos do cego;
Hão-de rir mas hão-de chorar,
Quem não for o Leotte do Rego
E tiver Pátria a que amar.
M[ija]ram na pia da Igreja,
Escreveram na porta do Paço
É em linha recta de Beja
Que está quem traz o baraço.
Era dez réis por cada homem
Para o Chagas ter fato novo.
Cada prato que eles comem
É tirado da boca do povo.
Quem é bom nunca é feliz,
Quem é mau é que tem razão;
O Afonso vive em Paris
E o Sidónio está num caixão.
Pobre era Jesus Cristo
E ainda o puseram na cruz.
De dentro de mim avisto
O Princípio de uma luz.
Um dia o Sidónio torna.
Estar morto é estar a fingir.
Quem é bom pode perder a forma
Mas não perder o existir.
Depois de quarenta e oito
Quando o sol estiver no Leão,
Há-de vir quem traga o açoite,
Até os mortos se erguerão.
Não riam da minha praga,
Os que viverem verão
Porque toda a Bíblia acaba
Na visão de S. João.
Sou cego mas tenho vista
Com os olhos de ver no escuro.
Falta o melhor da conquista
Que é ver para lá do muro.
Falo na minha guitarra
Só com o meu coração,
Vejo o que via o Bandarra
E no fim há um clarão.
Vejo o Encoberto voltar,
Vejo Portugal subir,
Há uma claridade no ar
E um sol no meu sentir.
Por que mesmo quem não acredita
É preciso acreditar;
Quando a gente endoidece de aflita,
Até se abraça ao ar.
Até que para o lado da barra
Há-de vir um grande clarão,
E voltar, como diz o Bandarra,
El-Rei Dom Sebastião.
No seu dia veio o segundo,
No outro será o terceiro,
Se o segundo foi para o fundo,
O terceiro será o primeiro.
Eu não quero nenhum estrangeiro,
Francês e inglês é o demónio,
Cuidado com o Terceiro
Que não é o Pimenta ou o Sidónio.
Logo que a Lua mudar
De onde não mostra valia,
No meio do meio do ar
Há-de aparecer o dia.
Na sua ilha desconhecida
O Encoberto já vai acordar.
Inda tem a viseira subida
E o ar de dormir a pensar.
Seu olhar é de rei e chama
Pela alma como uma mão.
Não é português quem não o ama.
Viva D. Sebastião!
Minha esquerda é a direita
De quem corre para mim.
Do futuro alguém me espreita,
Portugal não terá fim.
Tem um som de desejar.
Vejo o que via o Bandarra,
Não sei se na terra ou no ar.
Sou cego mas vejo bem
No tempo em vez de no ar.
Goze quem goza o que tem.
A nau se há-de virar.
Canto às vezes sem dar voz
Como penso sem falar.
A cegueira que Deus me pôs
E um modo de luz me dar.
Vejo claro quanto mais deixo
O corpo cego às escuras.
Rogo pragas, mas não me queixo.
As pedras são todas duras.
Vejo um grande movimento
Em roda de uma árvore alta.
Das estrelas no firmamento
Há a mais nova que falta.
A preguiça (?) anda de rastos,
Os mortos gemem na cova.
Os gados voltam aos pastos
Quando desce a estrela nova.
Lei[o] no escuro os sinais
Do Quinto Império a chegar.
O Bandarra via mais,
Mas Deus é que há-de dar
Sinto perto o que está longe,
Quando penso julgo que fito,
Meu corpo está sentado em hoje
Minh'alma anda no Infinito.
Ando pelo fundo do mar,
Pelas ilhas do avesso,
E uma coisa que há-de chegar
Tem ali o seu começo.
Há no fundo d'um poço em mim
Um buraco de luz para Deus.
Lá muito no fundo do fim
Um olho feito nos céus.
E pelas paredes do poço
Anda uma coisa a mexer.
Rei moço, lindo rei moço,
Só ali te posso ver!
Meu coração está a estalar,
Minha alma diz-lhe não.
Vejo o Encoberto chegar
No meio da cerração.
Vendidos à Inglaterra,
Caixeiros da França vil,
Meteram a gente na guerra
Como num cesto aos mil.
Este vem trôpego e cego
Lá das Flandres e das Franças,
Só para o Leotte do Rego
Endireitar as finanças.
Este, que aos muros se encosta,
Veio doido lá da tropa,
Só porque o Afonso Costa
Queria ser gente na Europa.
Anda o povo a passar fome
E quem o mandou para a França
Não tem barriga para o que come
Nem mãos para o que alcança.
Metade foi para a guerra,
Metade morreu de fome.
Quem morre, cobre-o a terra.
Quem se afoga, o mar o some.
Ninguém odiava o alemão.
Mais se odiava o francês.
Deram-nos uma espada para a mão
E uma grilheta para os pés.
É inglesa a constituição,
E a república é francesa.
É d'estrangeiros a nação,
Só a desgraça é portuguesa.
E a raça que descobriu
O oriente e o ocidente
Foi morrer de balas e frio
Para a cama dos Costas ser quente.
Mas a verdade há-de vir,
O mal há-de ser descoberto
E Portugal há-de subir
Com a vinda do Encoberto.
Hão-de rir dos versos do cego;
Hão-de rir mas hão-de chorar,
Quem não for o Leotte do Rego
E tiver Pátria a que amar.
M[ija]ram na pia da Igreja,
Escreveram na porta do Paço
É em linha recta de Beja
Que está quem traz o baraço.
Era dez réis por cada homem
Para o Chagas ter fato novo.
Cada prato que eles comem
É tirado da boca do povo.
Quem é bom nunca é feliz,
Quem é mau é que tem razão;
O Afonso vive em Paris
E o Sidónio está num caixão.
Pobre era Jesus Cristo
E ainda o puseram na cruz.
De dentro de mim avisto
O Princípio de uma luz.
Um dia o Sidónio torna.
Estar morto é estar a fingir.
Quem é bom pode perder a forma
Mas não perder o existir.
Depois de quarenta e oito
Quando o sol estiver no Leão,
Há-de vir quem traga o açoite,
Até os mortos se erguerão.
Não riam da minha praga,
Os que viverem verão
Porque toda a Bíblia acaba
Na visão de S. João.
Sou cego mas tenho vista
Com os olhos de ver no escuro.
Falta o melhor da conquista
Que é ver para lá do muro.
Falo na minha guitarra
Só com o meu coração,
Vejo o que via o Bandarra
E no fim há um clarão.
Vejo o Encoberto voltar,
Vejo Portugal subir,
Há uma claridade no ar
E um sol no meu sentir.
Por que mesmo quem não acredita
É preciso acreditar;
Quando a gente endoidece de aflita,
Até se abraça ao ar.
Até que para o lado da barra
Há-de vir um grande clarão,
E voltar, como diz o Bandarra,
El-Rei Dom Sebastião.
No seu dia veio o segundo,
No outro será o terceiro,
Se o segundo foi para o fundo,
O terceiro será o primeiro.
Eu não quero nenhum estrangeiro,
Francês e inglês é o demónio,
Cuidado com o Terceiro
Que não é o Pimenta ou o Sidónio.
Logo que a Lua mudar
De onde não mostra valia,
No meio do meio do ar
Há-de aparecer o dia.
Na sua ilha desconhecida
O Encoberto já vai acordar.
Inda tem a viseira subida
E o ar de dormir a pensar.
Seu olhar é de rei e chama
Pela alma como uma mão.
Não é português quem não o ama.
Viva D. Sebastião!
Minha esquerda é a direita
De quem corre para mim.
Do futuro alguém me espreita,
Portugal não terá fim.
1 130
Fernando Pessoa
LIBERTY
To G.N.
Oh, sacred Liberty, dear mother of Fame!
What are men here that they should expel thee?
What right of theirs, save power, makes others be
The pawns, as if unfeeling, in their game?
Ireland and the Transvaal, ye are a shame
On England and a blot! Oh, shall we see
For ever crushed and held who should be free
By human creatures without human name?
Wonder not then, dear friend, that here where men
Are far away I can well rest, and far
From where in lawful bodies, Christian‑wise,
Beings of earth their fellows fold and pen;
Glad that the winds not yet enchained are
And billows yet are free to fall and rise.
Oh, sacred Liberty, dear mother of Fame!
What are men here that they should expel thee?
What right of theirs, save power, makes others be
The pawns, as if unfeeling, in their game?
Ireland and the Transvaal, ye are a shame
On England and a blot! Oh, shall we see
For ever crushed and held who should be free
By human creatures without human name?
Wonder not then, dear friend, that here where men
Are far away I can well rest, and far
From where in lawful bodies, Christian‑wise,
Beings of earth their fellows fold and pen;
Glad that the winds not yet enchained are
And billows yet are free to fall and rise.
1 734
Fernando Pessoa
Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saúde e estupidez!
Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.
Saúde e estupidez!
Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.
1 260
Fernando Pessoa
MARCHA FÚNEBRE
Com lixo, dinheiro dos outros, e sangue inocente,
Cercada por assassinos, traidores, ladrões (a salvo)
No seu caixão francês, liberalissimamente,
Em carro puxado por uma burra (a do estado) seu alvo,
(…)
Passa para além do mundo, em uma visão desconforme,
A República Democrática Portuguesa.
O Lenine de capote e lenço,
Afonso anti-Henriques Costa.
Mas o Diabo espantou-se: aqui entram bandidos
Até certo ponto e dentro de certo limite.
Assassinos, sim, mas com uma certa inteligência.
Ladrões, sim, mas capazes de uma certa bondade.
Agora vocês não trazem quem tivesse tido a decência
De ao menos ter uma vez dito a razão ou verdade.
Cercada por assassinos, traidores, ladrões (a salvo)
No seu caixão francês, liberalissimamente,
Em carro puxado por uma burra (a do estado) seu alvo,
(…)
Passa para além do mundo, em uma visão desconforme,
A República Democrática Portuguesa.
O Lenine de capote e lenço,
Afonso anti-Henriques Costa.
Mas o Diabo espantou-se: aqui entram bandidos
Até certo ponto e dentro de certo limite.
Assassinos, sim, mas com uma certa inteligência.
Ladrões, sim, mas capazes de uma certa bondade.
Agora vocês não trazem quem tivesse tido a decência
De ao menos ter uma vez dito a razão ou verdade.
1 769
Fernando Pessoa
AFONSO COSTA
O Afonso é miguelista,
Meu amigo integralista…
Não arrepanhe os cabelos!...
Miguelista, porque é ele
Partidário do Miguel —
Do Miguel de Vasconcellos.
Em francos estrangeiros
Quanto é trinta dinheiros?
Quis a Finança (a Internacional)
Entregar-lhe o entregar-lhe Portugal.
Formou em Coimbra a ciência e a maneira.
Oh, Judas, Coimbra é perto da Figueira!
Meu amigo integralista…
Não arrepanhe os cabelos!...
Miguelista, porque é ele
Partidário do Miguel —
Do Miguel de Vasconcellos.
Em francos estrangeiros
Quanto é trinta dinheiros?
Quis a Finança (a Internacional)
Entregar-lhe o entregar-lhe Portugal.
Formou em Coimbra a ciência e a maneira.
Oh, Judas, Coimbra é perto da Figueira!
959
Fernando Pessoa
Clarim! Os mortos!
Contra Miguel de Vasconcellos
Republicano!
Eis outra vez o estrangeiro
Em Portugal!
Grita, clarim! Ao Conde Andeiro!
Mas quando a hora do Limoeiro
E do punhal?
Clarim, contra quem deu à França
A pátria e a grei,
Grita com fogo de esperança,
Vozes que chamem
O Rei!
E ao abismo do futuro clama
Por quem enfim
Vier, régia lusitana chama!
Pelo Rei que a Esperança chama,
Grita, clarim!
O Rei, a Lei, dias melhores …
Não sejam mais, nem já mais vezes
Os marinheiros portugueses
Guarda Vermelha dos Traidores!
Hoje em que nada é português
Salvo a desgraça,
E em que um sopro maligno e soez
Por sobre as nossas almas passa;
Hoje em que manda quem serviu
Por condição,
E o próprio amor à Pátria é frio
Por Pátria ser um nome vão;
Hoje que, ruído o trono e a glória,
Só o Traidor
O louro e o ouro da vitória
Goza, vil como um vil actor;
Hoje uma voz que se levante
E diga, embora
Chore de ver, chorando cante,
Que vem nascendo além a Aurora,
Diga em palavras já tocadas
De outra Visão,
O Rei, e a Vinda das Espadas,
E o fim da Horda e da Traição.
Republicano!
Eis outra vez o estrangeiro
Em Portugal!
Grita, clarim! Ao Conde Andeiro!
Mas quando a hora do Limoeiro
E do punhal?
Clarim, contra quem deu à França
A pátria e a grei,
Grita com fogo de esperança,
Vozes que chamem
O Rei!
E ao abismo do futuro clama
Por quem enfim
Vier, régia lusitana chama!
Pelo Rei que a Esperança chama,
Grita, clarim!
O Rei, a Lei, dias melhores …
Não sejam mais, nem já mais vezes
Os marinheiros portugueses
Guarda Vermelha dos Traidores!
Hoje em que nada é português
Salvo a desgraça,
E em que um sopro maligno e soez
Por sobre as nossas almas passa;
Hoje em que manda quem serviu
Por condição,
E o próprio amor à Pátria é frio
Por Pátria ser um nome vão;
Hoje que, ruído o trono e a glória,
Só o Traidor
O louro e o ouro da vitória
Goza, vil como um vil actor;
Hoje uma voz que se levante
E diga, embora
Chore de ver, chorando cante,
Que vem nascendo além a Aurora,
Diga em palavras já tocadas
De outra Visão,
O Rei, e a Vinda das Espadas,
E o fim da Horda e da Traição.
1 389
Fernando Pessoa
EPIGRAMS - III
If rank [?] the guinea‑stamp but be,
Why, to this one thing may be said:
That 'tis only midst men we see
A guinea‑stamp on head [?]
Why, to this one thing may be said:
That 'tis only midst men we see
A guinea‑stamp on head [?]
937
Fernando Pessoa
Quando os povos da Dalmácia
Quando os povos da Dalmácia
Fizeram guerra aos da Grécia
Saiu muita gente sécia
Da casa do rei da Trácia.
Houve disto grande falácia,
Lá para as bandas da Fenícia,
Porém temendo malícia,
De gente tão pouco sócia,
Lá se foram para a Beócia
Para se curar da icterícia.
Fizeram guerra aos da Grécia
Saiu muita gente sécia
Da casa do rei da Trácia.
Houve disto grande falácia,
Lá para as bandas da Fenícia,
Porém temendo malícia,
De gente tão pouco sócia,
Lá se foram para a Beócia
Para se curar da icterícia.
853
Fernando Pessoa
III - Adagas cujas jóias velhas galas...
III
Adagas cujas jóias velhas galas...
Opalesci amar-me entre mãos raras,
E, fluido a febres entre um lembrar de aras,
O convés sem ninguém cheio de malas...
O íntimo silêncio das opalas
Conduz orientes até jóias caras,
E o meu anseio vai nas rotas claras
De um grande sonho cheio de ócio e salas...
Passa o cortejo imperial, e ao longe
O povo só pelo cessar das lanças
Sabe que passa o seu tirano, e estruge
Sua ovação, e erguem as crianças...
Mas no teclado as tuas mãos pararam
E indefinidamente repousaram...
Adagas cujas jóias velhas galas...
Opalesci amar-me entre mãos raras,
E, fluido a febres entre um lembrar de aras,
O convés sem ninguém cheio de malas...
O íntimo silêncio das opalas
Conduz orientes até jóias caras,
E o meu anseio vai nas rotas claras
De um grande sonho cheio de ócio e salas...
Passa o cortejo imperial, e ao longe
O povo só pelo cessar das lanças
Sabe que passa o seu tirano, e estruge
Sua ovação, e erguem as crianças...
Mas no teclado as tuas mãos pararam
E indefinidamente repousaram...
1 053
Fernando Pessoa
BEIJA-MÃO
Então dizem que o Barão
Que ocupa o lugar cruel
De chefe da situação
Beijou ao Ramiro o anel…
Foi para levar a cabo
Tudo a bem.
Que ocupa o lugar cruel
De chefe da situação
Beijou ao Ramiro o anel…
Foi para levar a cabo
Tudo a bem.
1 322
Fernando Pessoa
EPITAPHS
A.S. (Alex[ander] Search)
Here lies a poet who was mad and young
The two things may go together
As to the songs he sung
They were found in winter weather.
EPITAPHS FOR THE FUTURE
Monarchy
Here lies a part of hell that on earth was
(It took it long to pass,
Riddled by way of Justice
[…]
Here lies the other part.
Religion
Here lies the beautiful assassin cold
who smiled upon his victim and singing
Murdering sweet songs to his imagining
Till by his each a (...) he sells
It died because it was old.
Here lies a poet who was mad and young
The two things may go together
As to the songs he sung
They were found in winter weather.
EPITAPHS FOR THE FUTURE
Monarchy
Here lies a part of hell that on earth was
(It took it long to pass,
Riddled by way of Justice
[…]
Here lies the other part.
Religion
Here lies the beautiful assassin cold
who smiled upon his victim and singing
Murdering sweet songs to his imagining
Till by his each a (...) he sells
It died because it was old.
1 146
Fernando Pessoa
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
1 126
Fernando Pessoa
O papagaio do paço
O papagaio do paço
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
2 309
Fernando Pessoa
THE SPEECH
Before a poor, ignorant crowd
A wild propagandist loud
Shrieked a socialistic speech,
But such pompous terms and thick,
Artistic, scientific
Went with each oratoric screech
That the crowd in silence heard
Wishing of course to applaud,
But expecting a strong word
They could understand, to laud.
«Procrastinators, banditti
Reactionary, servile,
Full‑considerately vile!ª
In this way, pompously witty
He talked and the crowd heard on.
«You», he continued, «each Don
Of financial bloated leer,
I excommunicate here
Before Justice throne severe;
You I detest, I abhor…»
Here a laugh applauding rough
The wide air from the crowd tore.
«That word», they cried in a roar,
«We understand well enough!»
A wild propagandist loud
Shrieked a socialistic speech,
But such pompous terms and thick,
Artistic, scientific
Went with each oratoric screech
That the crowd in silence heard
Wishing of course to applaud,
But expecting a strong word
They could understand, to laud.
«Procrastinators, banditti
Reactionary, servile,
Full‑considerately vile!ª
In this way, pompously witty
He talked and the crowd heard on.
«You», he continued, «each Don
Of financial bloated leer,
I excommunicate here
Before Justice throne severe;
You I detest, I abhor…»
Here a laugh applauding rough
The wide air from the crowd tore.
«That word», they cried in a roar,
«We understand well enough!»
1 074
Fernando Pessoa
MANIFESTO DE ÁLVARO DE CAMPOS
MANIFESTO DE ÁLVARO DE CAMPOS
Ora porra!
Nem o rei chegou, nem o Afonso Costa morreu quando caiu do
carro abaixo!
E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos...
E para isto se fundou Portugal!
Ora porra!
Nem o rei chegou, nem o Afonso Costa morreu quando caiu do
carro abaixo!
E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos...
E para isto se fundou Portugal!
1 821
Fernando Pessoa
POEMA DE AMOR EM ESTADO NOVO
Tens o olhar misterioso
Com um jeito nevoento,
Indeciso, duvidoso,
Minha Marta Francisca,
Meu amor, meu orçamento!
A tua face de rosa
Tem o colorido esquivo
De uma nota oficiosa.
Quem dera ter-te em meus braços,
Ó meu saldo positivo!
E o teu cabelo — não choro
Seu regresso ao natural —Abandona o padrão-ouro
Amor, pomba, estrada, porta,
Sindicato nacional!
Não sei por que me desprezas.
Fita-me mais um instante,
Lindo corte nas despesas,
Adorada abolição
Da dívida flutuante!
Com que madrigais mostrar-te
Este amor que é chama viva?
Ouve, escuta: vou chamar-te
Assembleia Nacional
Câmara Corporativa.
Como te amo, como, como,
Meu Acto Colonial!
De amor já quase não como,
Meu Estatuto de Trabalho,
Meu Banco de Portugal!
Meu crédito no estrangeiro!
Meu encaixe — ouro adorado!
Serei sempre o teu romeiro...
Pousa a cabeça em meu ombro,
Ó meu Conselho de Estado!
Ó minha corporativa,
Minha lei de Estado Novo,
Não me sejas mais esquiva!
Meu coração quer guarida
Ó linda Casa do Povo!
União Nacional querida,
Teus olhos enchem de mágoa
A sombra da minha vida
Que passa como uma esquadra
Sobre a energia da água.
Que aristocrático ri,
O teu cabelo em cifrões — Finanças em mise-en-plis! —
Meu activo plebiscito,
Nunca desceste a eleições!
Por isso nunca me escolhes
E a minha esperança é vã.
Nem sequer por dó me acolhes,
Minha imprevidente linda
Civilização cristã!
Bem sei: por estes meus modos
Nunca me podes amar.
Olha, desculpa-mas todas.
Estou seguindo as directrizes
Do professor Salazar.
Com um jeito nevoento,
Indeciso, duvidoso,
Minha Marta Francisca,
Meu amor, meu orçamento!
A tua face de rosa
Tem o colorido esquivo
De uma nota oficiosa.
Quem dera ter-te em meus braços,
Ó meu saldo positivo!
E o teu cabelo — não choro
Seu regresso ao natural —Abandona o padrão-ouro
Amor, pomba, estrada, porta,
Sindicato nacional!
Não sei por que me desprezas.
Fita-me mais um instante,
Lindo corte nas despesas,
Adorada abolição
Da dívida flutuante!
Com que madrigais mostrar-te
Este amor que é chama viva?
Ouve, escuta: vou chamar-te
Assembleia Nacional
Câmara Corporativa.
Como te amo, como, como,
Meu Acto Colonial!
De amor já quase não como,
Meu Estatuto de Trabalho,
Meu Banco de Portugal!
Meu crédito no estrangeiro!
Meu encaixe — ouro adorado!
Serei sempre o teu romeiro...
Pousa a cabeça em meu ombro,
Ó meu Conselho de Estado!
Ó minha corporativa,
Minha lei de Estado Novo,
Não me sejas mais esquiva!
Meu coração quer guarida
Ó linda Casa do Povo!
União Nacional querida,
Teus olhos enchem de mágoa
A sombra da minha vida
Que passa como uma esquadra
Sobre a energia da água.
Que aristocrático ri,
O teu cabelo em cifrões — Finanças em mise-en-plis! —
Meu activo plebiscito,
Nunca desceste a eleições!
Por isso nunca me escolhes
E a minha esperança é vã.
Nem sequer por dó me acolhes,
Minha imprevidente linda
Civilização cristã!
Bem sei: por estes meus modos
Nunca me podes amar.
Olha, desculpa-mas todas.
Estou seguindo as directrizes
Do professor Salazar.
1 453
Fernando Pessoa
PRIEST AND HANGMAN
«Burn me that book well, hangman,
Burn it to the last leaf,
Put at the stake the apostate
Whose hand of truth was thief.
«Burn his house to the ground, man,
Starve his children and wife,
His friends disperse, dissever,
His followers put to the knife.
«His works, his books, his poems
To fire's oblivion fling;
Let ashes remain of all this.
Remains there anything?»
«Some that stand by on looking
Have tears within their eyes.»
«In the stake shall be their ending
And vain and lone their cries.»
«All's done, my lord.» - «Remaineth
There aught that was, of theirs?»
«Ashes» - «Throw them to the winds then;
Still aught of them appears?»
My lord, there still persisteth
The name they had of good.»
Trouble not; t'will be forgotten
As their ashes and their blood.»
«Nothing remaineth. - «My lord, yet
Aught can I not dispel:
Our name that will be ever
A curse and a living hell.»
We also shall be forgotten
As these shall cease to be.
What will remain then? - My lord, still
The name of Tyranny.»
«That also will remain not.»
«But the Cause of what we do,
Of this bad world will. «What thou meanest
My mind cannot construe.»
My lord, I mean 'tis useless
That all things be crushed and trod.
There will then stand out to be hated
The accursed name of God»
Burn it to the last leaf,
Put at the stake the apostate
Whose hand of truth was thief.
«Burn his house to the ground, man,
Starve his children and wife,
His friends disperse, dissever,
His followers put to the knife.
«His works, his books, his poems
To fire's oblivion fling;
Let ashes remain of all this.
Remains there anything?»
«Some that stand by on looking
Have tears within their eyes.»
«In the stake shall be their ending
And vain and lone their cries.»
«All's done, my lord.» - «Remaineth
There aught that was, of theirs?»
«Ashes» - «Throw them to the winds then;
Still aught of them appears?»
My lord, there still persisteth
The name they had of good.»
Trouble not; t'will be forgotten
As their ashes and their blood.»
«Nothing remaineth. - «My lord, yet
Aught can I not dispel:
Our name that will be ever
A curse and a living hell.»
We also shall be forgotten
As these shall cease to be.
What will remain then? - My lord, still
The name of Tyranny.»
«That also will remain not.»
«But the Cause of what we do,
Of this bad world will. «What thou meanest
My mind cannot construe.»
My lord, I mean 'tis useless
That all things be crushed and trod.
There will then stand out to be hated
The accursed name of God»
1 600
Fernando Pessoa
Outrora
Outrora
No crepúsculo do Império,
Eu, Julião o Apóstata, mandei
Os templos dos meus Deuses reerguer.
Não é era minha a Hora.
Tua era, ó Cristo, e (…)
No crepúsculo do Império,
Eu, Julião o Apóstata, mandei
Os templos dos meus Deuses reerguer.
Não é era minha a Hora.
Tua era, ó Cristo, e (…)
2 065
Heiner Müller
A sós com estes corpos
Governos utopias
Cresce a grama
Entre os trilhos
As palavras apodrecem
No papel
Os olhos das mulheres
Ficam frios
Adeus amanhã
STATUS QUO
:
ALLEIN MIT DIESEN LEIBERN
Staaten Utopien
Gras wächst
Auf den Gleisen
Die Wörter verfaulen
Auf den Papier
Die Augen der Frauen
Werden kälter
Abschied von morgen
STATUS QUO
820
Luís Gama
Serei Conde, Marquês e Deputado
Pelas ruas vagava, em desatino,
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.
A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara.
Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.
Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”
Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”
Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.
A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara.
Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.
Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”
Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”
Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...
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