Poemas neste tema
Propósito e Sentido da Vida
António Ramos Rosa
Nasceu Para Ser Centelha
Nasceu para ser centelha
e a sua dança fugaz
é um volume altíssimo
em que se enrola o vento
em que se ganha o dia.
e a sua dança fugaz
é um volume altíssimo
em que se enrola o vento
em que se ganha o dia.
1 116
António Ramos Rosa
O Abrigo
Enigma vivo, avança na busca impenetrável
sobre o abismo ou sobre a maravilha. Só há um movimento
de descida à nascente. Vivo, eu vou também
para o lugar que me aspira, verde coincidência
de um abrigo que é espaço de descanso e de encontro.
Estamos no fundo incessante, na espessura materna
da figura submersa em profusão harmoniosa.
Ela não é ainda real, mas já é um ritmo, uma cintilação,
o fulgor de uma folha, um queixume exultante.
Que movimentos lentos, que pensamentos suaves!
Alguma vez se abriram as portas do início?
Uma voz se eleva entre o pressentido e o sentido.
As frases não se distinguem das sílabas da folhagem.
O que não cessa apaga-se e desaparecendo nasce.
A água adormece. A sombra declina.
sobre o abismo ou sobre a maravilha. Só há um movimento
de descida à nascente. Vivo, eu vou também
para o lugar que me aspira, verde coincidência
de um abrigo que é espaço de descanso e de encontro.
Estamos no fundo incessante, na espessura materna
da figura submersa em profusão harmoniosa.
Ela não é ainda real, mas já é um ritmo, uma cintilação,
o fulgor de uma folha, um queixume exultante.
Que movimentos lentos, que pensamentos suaves!
Alguma vez se abriram as portas do início?
Uma voz se eleva entre o pressentido e o sentido.
As frases não se distinguem das sílabas da folhagem.
O que não cessa apaga-se e desaparecendo nasce.
A água adormece. A sombra declina.
1 142
António Ramos Rosa
Quem Sabe Quem a Guia Através de Que Desvios
Quem sabe quem a guia através de que desvios
e que surpresas? Segue um traçado
que deveria conduzi-la ao ponto
de sentir-se ilimitada
Ela não decide nada neste momento
deixa-se levar enquanto corre o contínuo solo
do mundo Um modo não reflexivo
de participação Talvez não deixe
de nomear os acontecimentos que constroem o seu
itinerário Transições
Por mais longe que pareça de uma paisagem comum
há sempre silhuetas fachadas conhecidas
sobreposições pontos de referência
Estará ela no interior da sua história?
Não é ela o real antes da divisão
da consciência e do real? Ela busca reencontrar
uma parte sua visível e durável
e será a resposta parcial à pergunta
que formulei ao seu contacto.
Ela desvia-se sempre e detém-se em plena rua
é um sinal de assombro
uma unificação imediata e coerente
Mas o cansaço toma-a e ela afasta-se sempre
da sua história Não consegue jamais
captar a relação da sua existência
Por isso procura-se a si mesma continuamente
Quase sempre as suas palavras os seus actos
parecem convergir para uma unidade Mas logo
se descobrem sem tomar forma (será esquecimento
o esquecimento da sua fatalidade?)
Procura despertar para quem a compreender
Mas será sempre alheia aos outros
O que a determina talvez seja o desejo
da semelhança Mas para si mesma
é um enigma fugidio
que brilha e foge na transparência opaca
a surpresa viva entre todos os sinais
e que surpresas? Segue um traçado
que deveria conduzi-la ao ponto
de sentir-se ilimitada
Ela não decide nada neste momento
deixa-se levar enquanto corre o contínuo solo
do mundo Um modo não reflexivo
de participação Talvez não deixe
de nomear os acontecimentos que constroem o seu
itinerário Transições
Por mais longe que pareça de uma paisagem comum
há sempre silhuetas fachadas conhecidas
sobreposições pontos de referência
Estará ela no interior da sua história?
Não é ela o real antes da divisão
da consciência e do real? Ela busca reencontrar
uma parte sua visível e durável
e será a resposta parcial à pergunta
que formulei ao seu contacto.
Ela desvia-se sempre e detém-se em plena rua
é um sinal de assombro
uma unificação imediata e coerente
Mas o cansaço toma-a e ela afasta-se sempre
da sua história Não consegue jamais
captar a relação da sua existência
Por isso procura-se a si mesma continuamente
Quase sempre as suas palavras os seus actos
parecem convergir para uma unidade Mas logo
se descobrem sem tomar forma (será esquecimento
o esquecimento da sua fatalidade?)
Procura despertar para quem a compreender
Mas será sempre alheia aos outros
O que a determina talvez seja o desejo
da semelhança Mas para si mesma
é um enigma fugidio
que brilha e foge na transparência opaca
a surpresa viva entre todos os sinais
1 022
António Ramos Rosa
Sem Segredo Algum
Rodeio-te de nomes, água, fogo, sombra,
vagueio dentro das tuas formas nebulosas.
Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens.
Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido?
Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.
A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água
ou és o fogo azul das casas silenciosas?
Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada
ou és a evidência rápida, inacessível,
que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.
O que és não és, não há segredo algum.
Selvagem e suave, entre miséria e música,
o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem.
Estou no interior da árvore, entre negros insectos.
Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.
vagueio dentro das tuas formas nebulosas.
Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens.
Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido?
Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.
A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água
ou és o fogo azul das casas silenciosas?
Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada
ou és a evidência rápida, inacessível,
que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.
O que és não és, não há segredo algum.
Selvagem e suave, entre miséria e música,
o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem.
Estou no interior da árvore, entre negros insectos.
Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.
1 208
António Ramos Rosa
Mediadora do Silêncio
Onde o incandescente
centro das flores?
Entre margens de água
onde a alma se encurva?
Voz próxima do chão
onde estremecem palavras
na indivisa espera
de um vinho negro.
Respiram minuciosas
entre detritos verdes
e lâmpadas quebradas.
Não dizem a palavra.
Calar, calar talvez.
Querer dizer é demais.
centro das flores?
Entre margens de água
onde a alma se encurva?
Voz próxima do chão
onde estremecem palavras
na indivisa espera
de um vinho negro.
Respiram minuciosas
entre detritos verdes
e lâmpadas quebradas.
Não dizem a palavra.
Calar, calar talvez.
Querer dizer é demais.
984
António Ramos Rosa
Mediadora do Olvido
Não soam grandes vozes no olvido.
Move-se a água não sulcada
de viagens.
Marcas de luz percorrem o silêncio.
Não sinais já. Indícios esquivos.
Simples estar aqui flutuando
no inocente instante.
O eco de uma festa.
A sede de sentido, o ressurgir
no abandono da água do silêncio.
Gestação réptil.
Afirma-se o impenetrável na silenciosa memória.
Move-se a água não sulcada
de viagens.
Marcas de luz percorrem o silêncio.
Não sinais já. Indícios esquivos.
Simples estar aqui flutuando
no inocente instante.
O eco de uma festa.
A sede de sentido, o ressurgir
no abandono da água do silêncio.
Gestação réptil.
Afirma-se o impenetrável na silenciosa memória.
898
António Ramos Rosa
Dispersa Sede
Dispersa sede
a partir do fundo que não se oculta
nem é abismo
abrindo-se numa afirmação que ondula
em cadência que parece eterna
numa demora que é permanência clara.
a partir do fundo que não se oculta
nem é abismo
abrindo-se numa afirmação que ondula
em cadência que parece eterna
numa demora que é permanência clara.
593
António Ramos Rosa
No Centro do Mundo
Oscilante geometria tranquila
presença suficiente do ínfimo e do amplo
No centro do tempo não há tempo
Tranquilidade para ir ao encontro de
Estou dentro estou aberto habito
um limpo rosto de desconhecida frescura
Ramagens dispersão de nuvens indícios ténues
Sou uma linguagem límpida com o vento
Bebo nas múltiplas nascentes
do espaço puro
Acendo-me e apago-me e é a claridade que muda
Tranquilidade da folhagem crepitação de brasas
Durmo silencioso e mais desperto do que nunca
Sou o ar que se dissipa no ar
Como me perdi quem sou as interrogações cessaram
Estou dentro e fora na densidade subtil
Não há aqui imagens extravagantes rumores estranhos
Tudo se desenrola na lúcida amplitude tranquila
As palavras sucedem-se como vagarosas nuvens
O dia é límpido e lê-se como um livro aberto
presença suficiente do ínfimo e do amplo
No centro do tempo não há tempo
Tranquilidade para ir ao encontro de
Estou dentro estou aberto habito
um limpo rosto de desconhecida frescura
Ramagens dispersão de nuvens indícios ténues
Sou uma linguagem límpida com o vento
Bebo nas múltiplas nascentes
do espaço puro
Acendo-me e apago-me e é a claridade que muda
Tranquilidade da folhagem crepitação de brasas
Durmo silencioso e mais desperto do que nunca
Sou o ar que se dissipa no ar
Como me perdi quem sou as interrogações cessaram
Estou dentro e fora na densidade subtil
Não há aqui imagens extravagantes rumores estranhos
Tudo se desenrola na lúcida amplitude tranquila
As palavras sucedem-se como vagarosas nuvens
O dia é límpido e lê-se como um livro aberto
958
António Ramos Rosa
Unidade do Silêncio
Unidade do silêncio com o corpo da água
irradiação de uma montanha
cimo e abismo numa única linha
melancolia viva e fresca floresta e pomba
a beleza frágil a beleza serena
arde a opacidade arde a madeira do mundo
revela-se a superfície fundamental
invulnerável a harmonia que inunda
Frases frases já não complicadas
mas orientadas
para a plenitude do ser
Redes vindas do ignorado disseminam-se
Uma paciência de mil árvores
Dilata-se a estrela de água
Praias praias onde os segredos se desvelam
Por toda a parte mediações para o desconhecido
Vagas vagas de ligeireza primaveril
Clara visão do fundo vibrante continuidade
igual a tudo na soberania do simples
irradiação de uma montanha
cimo e abismo numa única linha
melancolia viva e fresca floresta e pomba
a beleza frágil a beleza serena
arde a opacidade arde a madeira do mundo
revela-se a superfície fundamental
invulnerável a harmonia que inunda
Frases frases já não complicadas
mas orientadas
para a plenitude do ser
Redes vindas do ignorado disseminam-se
Uma paciência de mil árvores
Dilata-se a estrela de água
Praias praias onde os segredos se desvelam
Por toda a parte mediações para o desconhecido
Vagas vagas de ligeireza primaveril
Clara visão do fundo vibrante continuidade
igual a tudo na soberania do simples
1 081
António Ramos Rosa
Igualando-Me Ao Fundo Sem Saber
Igualando-me ao fundo sem saber
num acorde último, insondável,
vejo um muro e o nada em que ele se ergue
no excesso de uma evidência inicial.
num acorde último, insondável,
vejo um muro e o nada em que ele se ergue
no excesso de uma evidência inicial.
1 130
António Ramos Rosa
Sem Desígnios Sem Pedir Transparências
Sem desígnios sem pedir transparências
procurar a estância nula.
Onde a afirmação sem fundo
onde secreta continua a linha
cuja vibração se esvai
até ao princípio onde se respira sem desígnios.
procurar a estância nula.
Onde a afirmação sem fundo
onde secreta continua a linha
cuja vibração se esvai
até ao princípio onde se respira sem desígnios.
1 071
António Ramos Rosa
Terra Aérea
Aqui o livro abriu-se
à claridade da água
*
Para o cimo plano lâmpadas incertas navegam
folhas e lábios reúnem-se
*
Livres onde a respiração é o movimento
a tranquila exaltação
*
As palavras onduladas indivisíveis múltiplas
*
Antes de começar e só quando começa
a circulação da luz
de um sol azul claro
*
Terra mais viva aérea terra amiga
sem segredos e obscura e viva
*
Sem movimento a boca exalta
o suspiro que alimenta e dilata
*
Com os lábios do fogo
com os lábios da água
subimos à torre da lucidez do silêncio
*
O cimo é azul como o sol do princípio
*
Nenhum apelo no silêncio das árvores
Quietude plena quase um frémito uma asa
A terra é uma frase completa e contínua
*
Subimos descemos pela escada esculpida
Em cada janela a terra tem um rosto igual
*
Nenhum segredo nenhuma voz O cimo é a delícia
de uma pura igualdade e permanência suave
*
Habitar a terra é ser o olhar e a luz
Não se diz o sim nem sequer se segreda
*
Um mais aéreo e íntimo movimento
Amplitude calma liberdade
*
Todo o olhar é uma confirmação do lugar e do ser
Força permanência suavidade
*
A quase totalidade do esplendor do ser
*
Uma festa mais extrema luz mais luminosa
Domínio do ar do espaço e do lugar
à claridade da água
*
Para o cimo plano lâmpadas incertas navegam
folhas e lábios reúnem-se
*
Livres onde a respiração é o movimento
a tranquila exaltação
*
As palavras onduladas indivisíveis múltiplas
*
Antes de começar e só quando começa
a circulação da luz
de um sol azul claro
*
Terra mais viva aérea terra amiga
sem segredos e obscura e viva
*
Sem movimento a boca exalta
o suspiro que alimenta e dilata
*
Com os lábios do fogo
com os lábios da água
subimos à torre da lucidez do silêncio
*
O cimo é azul como o sol do princípio
*
Nenhum apelo no silêncio das árvores
Quietude plena quase um frémito uma asa
A terra é uma frase completa e contínua
*
Subimos descemos pela escada esculpida
Em cada janela a terra tem um rosto igual
*
Nenhum segredo nenhuma voz O cimo é a delícia
de uma pura igualdade e permanência suave
*
Habitar a terra é ser o olhar e a luz
Não se diz o sim nem sequer se segreda
*
Um mais aéreo e íntimo movimento
Amplitude calma liberdade
*
Todo o olhar é uma confirmação do lugar e do ser
Força permanência suavidade
*
A quase totalidade do esplendor do ser
*
Uma festa mais extrema luz mais luminosa
Domínio do ar do espaço e do lugar
1 121
António Ramos Rosa
Há Quem Procure…
Há quem procure sob abóbadas e abóbadas
um reflexo de sol
há quem procure com a respiração rouca
o silêncio de um nome
a denotação de uma pedra
Há quem procure na trama da distância
uma hélice para uma boca
há quem se erga entre destroços e sementes apodrecidas
para escrever no solo com as mandíbulas crispadas
um nome sem sombra
Há quem destine à modulação de algumas cores
a forma viva e voraz de uma mulher
e encontre só o branco ferozmente árido
há quem procure com antenas incandescentes
uma espádua de álcool na abstracção das areias
Há quem julgue que já não há tempo para reflectir
na noite sem veias
e caminhe de encontro a um muro negro
há quem tenha perdido a sensação do intacto
e procure ainda uma lâmpada mas as lâmpadas extinguiram-se
há quem se decida a não esperar a não ouvir a não chamar
um reflexo de sol
há quem procure com a respiração rouca
o silêncio de um nome
a denotação de uma pedra
Há quem procure na trama da distância
uma hélice para uma boca
há quem se erga entre destroços e sementes apodrecidas
para escrever no solo com as mandíbulas crispadas
um nome sem sombra
Há quem destine à modulação de algumas cores
a forma viva e voraz de uma mulher
e encontre só o branco ferozmente árido
há quem procure com antenas incandescentes
uma espádua de álcool na abstracção das areias
Há quem julgue que já não há tempo para reflectir
na noite sem veias
e caminhe de encontro a um muro negro
há quem tenha perdido a sensação do intacto
e procure ainda uma lâmpada mas as lâmpadas extinguiram-se
há quem se decida a não esperar a não ouvir a não chamar
1 045
António Ramos Rosa
Tu Existes Na Lentidão de Um Círculo
Tu existes na lentidão de um círculo
numa latência imóvel. És uma
lâmpada que ilumina o início.
O ar rodeia-te e sulcas o inominado.
numa latência imóvel. És uma
lâmpada que ilumina o início.
O ar rodeia-te e sulcas o inominado.
1 079
António Ramos Rosa
A Imponderável Abordagem
Nada é necessário nada é suficiente
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
557
António Ramos Rosa
Saborear a Lenta Emanação
Saborear a lenta emanação
do limiar. Sorver a alteridade.
Abrir a luz com deslumbradas mãos.
Traçar a fugidia figura da origem.
do limiar. Sorver a alteridade.
Abrir a luz com deslumbradas mãos.
Traçar a fugidia figura da origem.
1 073
António Ramos Rosa
É Um Rumor Apagado Talvez
É um rumor apagado talvez
a esquiva expansão de um corpo.
Viver seguindo este impulso ténue
através do esquecimento.
a esquiva expansão de um corpo.
Viver seguindo este impulso ténue
através do esquecimento.
625
António Ramos Rosa
Interrompendo o Vazio
Interrompendo o vazio
busca os seus limites
negros
Divide-se no sol
cintila ou não no espaço
busca a nudez que é ele próprio
uma dança quase
e estes resíduos
em que se reproduz e se desfaz
busca os seus limites
negros
Divide-se no sol
cintila ou não no espaço
busca a nudez que é ele próprio
uma dança quase
e estes resíduos
em que se reproduz e se desfaz
972
António Ramos Rosa
68. Descontínuas, Desfechadas Linhas
68
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
1 078
António Ramos Rosa
86. Desobstruindo o Espaço Só Esta Mancha
86
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.
Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?
Dando lugar ao espaço à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.
Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?
Dando lugar ao espaço à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
867
António Ramos Rosa
21. Não Ao Espelho Em Que Ela Se Retira
21
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
1 084
António Ramos Rosa
Caminho Sem Saída…
Caminho sem saída porque é a incessante saída e a perda, o inesperado intervalo que se abre a outro intervalo que se abre, a sucessiva vida simultânea de uma parede de água, página respirada pela boca na árvore ou na mão da terra.
1 205
António Ramos Rosa
Se Avançar Num Caminho…
Se avançar num caminho na cegueira, com os próprios sinais do opaco no extremo, um quase e um nunca mais, entre o rumor e o silêncio, e a palavra, a incerta testemunha que oscila na aridez da busca, na deserta sede da interrogação.
1 058
António Ramos Rosa
11. o Desenlace a Marca o Timbre
11
O desenlace a marca o timbre
razão de escrever viver morrer
na ideia exemplar do jamais aqui.
Mas será aqui o cacho apaixonante
da uva desses olhos de um frio branco
o rosto da irmã amante de altas pernas.
Será no pó sem a estrutura e na estrutura
do território agreste o rosto brusco
gritando o rosto aqui ou o rastro dele.
O desenlace a marca o timbre
razão de escrever viver morrer
na ideia exemplar do jamais aqui.
Mas será aqui o cacho apaixonante
da uva desses olhos de um frio branco
o rosto da irmã amante de altas pernas.
Será no pó sem a estrutura e na estrutura
do território agreste o rosto brusco
gritando o rosto aqui ou o rastro dele.
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