Poemas neste tema
Propósito e Sentido da Vida
Fernando Pessoa
Cada momento que a um prazer não voto
Cada momento que a um prazer não voto
Perco, nem curo se o prazer me é dado;
Porque o sonho de um gozo
No gozo não é sonho.
Perco, nem curo se o prazer me é dado;
Porque o sonho de um gozo
No gozo não é sonho.
1 440
Fernando Pessoa
22 - RIVERS
Many rivers run
Down to many seas.
All my cares are one:
On what river of these
Could my heart have peace?
Two banks to each river.
None where I may stray
Hearing the rushes shiver
And seeing the river ever
Pass, yet seem to stay.
Maybe there is another
River, but far from Me.
There l may meet the Brother
Of my eternity.
In what God will this be?
Down to many seas.
All my cares are one:
On what river of these
Could my heart have peace?
Two banks to each river.
None where I may stray
Hearing the rushes shiver
And seeing the river ever
Pass, yet seem to stay.
Maybe there is another
River, but far from Me.
There l may meet the Brother
Of my eternity.
In what God will this be?
1 283
Fernando Pessoa
Saído apenas duma infância
Saído apenas duma infância
Incertamente triste e diferente
Uma vez contemplando dum outeiro
A tinha de colinas majestosa
Que azulada e em perfis desaparecia
No horizonte, contemplando os campos,
Vi de repente como que tudo
Desaparecer, tomando (...)
E um abismo invisível, uma cousa
Nem parecida com a existência
Ocupar não o espaço, mas o modo
Com que eu pensava o visível.
E então o horror supremo que jamais
Deixei depois, mas que aumentando e sendo
O mesmo sempre,
Ocupou-me...
Oh primeira visão interior
Do mistério infinito, em que ruiu
A minha vida juvenil numa hora!
Incertamente triste e diferente
Uma vez contemplando dum outeiro
A tinha de colinas majestosa
Que azulada e em perfis desaparecia
No horizonte, contemplando os campos,
Vi de repente como que tudo
Desaparecer, tomando (...)
E um abismo invisível, uma cousa
Nem parecida com a existência
Ocupar não o espaço, mas o modo
Com que eu pensava o visível.
E então o horror supremo que jamais
Deixei depois, mas que aumentando e sendo
O mesmo sempre,
Ocupou-me...
Oh primeira visão interior
Do mistério infinito, em que ruiu
A minha vida juvenil numa hora!
871
Fernando Pessoa
Se em verdade não sabes (nem sustentas
Se em verdade não sabes (nem sustentas
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
Operoso a não vives?
Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
Gozas menos que ganhas.
Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
De (...)
Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
Sem ele. (...)
Ah servidão irreprimível, nada
Da vida breve subsiste, que sabes
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.
Mas respondes-me: E os poemas que escreves
A quem os dás futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
O que o Destino manda.
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
Operoso a não vives?
Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
Gozas menos que ganhas.
Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
De (...)
Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
Sem ele. (...)
Ah servidão irreprimível, nada
Da vida breve subsiste, que sabes
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.
Mas respondes-me: E os poemas que escreves
A quem os dás futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
O que o Destino manda.
1 412
Fernando Pessoa
Ah, tudo é símbolo e analogia!
Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria
São outra cousa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo que vemos é outra cousa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.
Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão.
O vento que passa, a noite que esfria
São outra cousa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo que vemos é outra cousa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.
Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão.
1 657
Fernando Pessoa
Fausto no seu laboratório
FAUSTO: (só)
Ondas de aspiração que vãs morreis
Sem mesmo o coração e alma atingir
Do vosso sentimento; ondas de pranto,
Não vos posso chorar, e em mim subis,
Maré imensa rumorosa e surda,
Para morrer na praia do limite
Que a vida impõe ao Ser; ondas saudosas
D'algum mar alto Aonde a praia seja
Um sonho inútil, ou d'alguma terra
Desconhecida mais que a eterna aura
Do eterno sofrimento, e onde formas
Dos olhos d'alma não imaginadas
Vagam, essências lúcidas e (...)
Esquecidas daquilo que chamamos
Suspiro, lágrima, desolação;
Ondas nas quais não posso visionar,
Nem dentro em mim, em sonho, barco ou ilha,
Nem esperança transitória, nem
Ilusão nada da desilusão;
Oh ondas sem brancuras, asperezas,
Mas redondas, como óleos e silentes
No vosso intérmino e total rumor...
Oh ondas d'alma, decaí em lago
Ou levantai-vos ásperas e brancas
Com o sussurro ácido da espuma
Erguei em tempestades no meu ser.
Vós sois um mar sem céu, sem luz, sem ar
Sentido, visto não, rumorejante
Sobre o fundo profundo da minha alma!
Lágrimas, sinto em mim vosso amargor!
Não vos quero chorar. Se vos chorasse
Como chegar — tantas! — ao vosso fim?
Chegado ao vosso fim que encontraria?
Talvez uma aridez desesperada
Uma ânsia vã de não poder trazer-vos
Outra vez para mim para chorar-vos
Em vã consolação inda outra vez!
Não haver alma, inda ideia vã!
Havê-la e imortal, sonho pequeno
De término[?], embora coerente
À sua pequenez. Que mais? Havê-la,
Havê-la e ser mortal, morrer num Todo
Celeste? Vago, vão. Não haverá
Além da morte e da imortalidade
Qualquer cousa maior? Ah, deve haver
Além de vida e morte, ser, não ser,
Um Inominável supertranscendente
Eterno Incógnito e incognoscível!
Deus? Nojo. Céu, inferno? Nojo, nojo.
P'ra quê pensar, se há-de parar aqui
O curto voo do entendimento?
Mais além! Pensamento, mais além!
Ondas de aspiração que vãs morreis
Sem mesmo o coração e alma atingir
Do vosso sentimento; ondas de pranto,
Não vos posso chorar, e em mim subis,
Maré imensa rumorosa e surda,
Para morrer na praia do limite
Que a vida impõe ao Ser; ondas saudosas
D'algum mar alto Aonde a praia seja
Um sonho inútil, ou d'alguma terra
Desconhecida mais que a eterna aura
Do eterno sofrimento, e onde formas
Dos olhos d'alma não imaginadas
Vagam, essências lúcidas e (...)
Esquecidas daquilo que chamamos
Suspiro, lágrima, desolação;
Ondas nas quais não posso visionar,
Nem dentro em mim, em sonho, barco ou ilha,
Nem esperança transitória, nem
Ilusão nada da desilusão;
Oh ondas sem brancuras, asperezas,
Mas redondas, como óleos e silentes
No vosso intérmino e total rumor...
Oh ondas d'alma, decaí em lago
Ou levantai-vos ásperas e brancas
Com o sussurro ácido da espuma
Erguei em tempestades no meu ser.
Vós sois um mar sem céu, sem luz, sem ar
Sentido, visto não, rumorejante
Sobre o fundo profundo da minha alma!
Lágrimas, sinto em mim vosso amargor!
Não vos quero chorar. Se vos chorasse
Como chegar — tantas! — ao vosso fim?
Chegado ao vosso fim que encontraria?
Talvez uma aridez desesperada
Uma ânsia vã de não poder trazer-vos
Outra vez para mim para chorar-vos
Em vã consolação inda outra vez!
Não haver alma, inda ideia vã!
Havê-la e imortal, sonho pequeno
De término[?], embora coerente
À sua pequenez. Que mais? Havê-la,
Havê-la e ser mortal, morrer num Todo
Celeste? Vago, vão. Não haverá
Além da morte e da imortalidade
Qualquer cousa maior? Ah, deve haver
Além de vida e morte, ser, não ser,
Um Inominável supertranscendente
Eterno Incógnito e incognoscível!
Deus? Nojo. Céu, inferno? Nojo, nojo.
P'ra quê pensar, se há-de parar aqui
O curto voo do entendimento?
Mais além! Pensamento, mais além!
1 192
Fernando Pessoa
41 - TO ONE SINGING
O voice the angels kissed when unbreathed yet!
O lips made spiritual with uttering it!
O eyes wild with the lust of the divine
In thy felt presence, making thee its shrine!
O that this moment of thee were Thyself!
That thou ne’er fell'st from this Thou, and the pelf
Of gathered days with avarice of living,
Touched thee not from this moment of God's giving!
O eternal actuality of thee!
O by thy voice sculptured immutably
In some stone‑flesh of spirit! O set free
From being all contained in being seen!
O firmament of joy purely serene
With spaciousness of soul and stars of song
Above thyself, God's human heights among!
Sing on, and let thy singing be a couch
To that of me which to my soul doth vouch
Of God as of a self and of a home!
Dissolve me to thy notes! Make me become
An outside of myself, and have in me
Nought but a selfless sense of hearing thee!
Let me pertain to the sounds thou dost voice!
Let me be other than I and rejoice
Hearing time like a breeze pass by the place
Thy song imprisons in its halcyon grace!
Thy voice compels to parapets from heaven
Dim winged happinesses whence is woven
To our souls such a glamour, spirit‑fair,
That, feeling it, all life becomes despair
And all the sense of life to wish to die.
Sing on! Between the music's human cry
And thy song's meaning there is interposed
Some third reality, less life‑enclosed,
Some subtler tenderness than music makes
Or words sung, and its moonless moonlight takes
Our visionary moods by their child‑hand
And our tired steps begin to understand.
Sing, nor stop singing till bliss ache too much!
O that I could, without moving my hand,
Stretch forth some hand imaginary and touch
That body of thine thy singing giveth thee!
That kiss‑like touch would wake eternity
In me again, and, as by a great morn,
The night my body makes of me were torn
Away from being, and my unbodied shape
Would, like a ship doubling the final cape,
Come to that sight of port and shiver of coming
That God allows to those whose bliss of roaming
Is no more than the wish to find His peace
And mingle with it as a scent with the breeze.
O lips made spiritual with uttering it!
O eyes wild with the lust of the divine
In thy felt presence, making thee its shrine!
O that this moment of thee were Thyself!
That thou ne’er fell'st from this Thou, and the pelf
Of gathered days with avarice of living,
Touched thee not from this moment of God's giving!
O eternal actuality of thee!
O by thy voice sculptured immutably
In some stone‑flesh of spirit! O set free
From being all contained in being seen!
O firmament of joy purely serene
With spaciousness of soul and stars of song
Above thyself, God's human heights among!
Sing on, and let thy singing be a couch
To that of me which to my soul doth vouch
Of God as of a self and of a home!
Dissolve me to thy notes! Make me become
An outside of myself, and have in me
Nought but a selfless sense of hearing thee!
Let me pertain to the sounds thou dost voice!
Let me be other than I and rejoice
Hearing time like a breeze pass by the place
Thy song imprisons in its halcyon grace!
Thy voice compels to parapets from heaven
Dim winged happinesses whence is woven
To our souls such a glamour, spirit‑fair,
That, feeling it, all life becomes despair
And all the sense of life to wish to die.
Sing on! Between the music's human cry
And thy song's meaning there is interposed
Some third reality, less life‑enclosed,
Some subtler tenderness than music makes
Or words sung, and its moonless moonlight takes
Our visionary moods by their child‑hand
And our tired steps begin to understand.
Sing, nor stop singing till bliss ache too much!
O that I could, without moving my hand,
Stretch forth some hand imaginary and touch
That body of thine thy singing giveth thee!
That kiss‑like touch would wake eternity
In me again, and, as by a great morn,
The night my body makes of me were torn
Away from being, and my unbodied shape
Would, like a ship doubling the final cape,
Come to that sight of port and shiver of coming
That God allows to those whose bliss of roaming
Is no more than the wish to find His peace
And mingle with it as a scent with the breeze.
1 414
Fernando Pessoa
ARETHUSA
Still Arethusa keeps her course,
For, though the corporal dark of earth
Stifle, like an unconscious nurse,
The impulse for her second birth,
Yet her true will must ever be
These captive waves that shall be free.
So the forgotten water ever
With withdrawn life and hid emotion
Moves on in darkness, still a river,
Towards a sun upon an ocean;
And the found place there will not cease
To be the river's, not the sea's.
So keeps she, under the void dark
Of her oppressed seclusion still
Her careful self, whose soul shall work
Towards the outlet from the hill,
Past hived vaults and humid walls
And her dropped noise of waterfalls.
Uncaught throughout the spell of caves,
Forlorn under the mother stone,
Still the great destined river craves
Its purpose, liquid and alone,
And more, yet less, under the hills
Its unresisting motion wills.
And ever, while time frets the rocks
And space shuts dark the godless flow,
She runs, a will in waves that flocks
Around a darkness for a glow;
And onward still, because it is
What shall be, and the Gods are this.
And, still remembering to forget,
Still onward because Fate inclines,
Veiled Arethusa still doth wet
With purpose the weird cavern shrines,
Where, past their blind, dead, solid being,
Her watery will moves on to seeing.
Dim under phosphorescent zones
Of darkness wronged and stalactites,
Or complete darkness, where the moans
Of waters wail for destined sights,
Her course, that knows no day, doth still
Work out to day its nightly will.
Till, bright at last in the aired arms
Of the lone rocks laid in the sea,
Bare Arethusa free her charms
To light and to its panic glee,
And the sea clasp her, as she were
Venus there born and mistress there.
For, though the corporal dark of earth
Stifle, like an unconscious nurse,
The impulse for her second birth,
Yet her true will must ever be
These captive waves that shall be free.
So the forgotten water ever
With withdrawn life and hid emotion
Moves on in darkness, still a river,
Towards a sun upon an ocean;
And the found place there will not cease
To be the river's, not the sea's.
So keeps she, under the void dark
Of her oppressed seclusion still
Her careful self, whose soul shall work
Towards the outlet from the hill,
Past hived vaults and humid walls
And her dropped noise of waterfalls.
Uncaught throughout the spell of caves,
Forlorn under the mother stone,
Still the great destined river craves
Its purpose, liquid and alone,
And more, yet less, under the hills
Its unresisting motion wills.
And ever, while time frets the rocks
And space shuts dark the godless flow,
She runs, a will in waves that flocks
Around a darkness for a glow;
And onward still, because it is
What shall be, and the Gods are this.
And, still remembering to forget,
Still onward because Fate inclines,
Veiled Arethusa still doth wet
With purpose the weird cavern shrines,
Where, past their blind, dead, solid being,
Her watery will moves on to seeing.
Dim under phosphorescent zones
Of darkness wronged and stalactites,
Or complete darkness, where the moans
Of waters wail for destined sights,
Her course, that knows no day, doth still
Work out to day its nightly will.
Till, bright at last in the aired arms
Of the lone rocks laid in the sea,
Bare Arethusa free her charms
To light and to its panic glee,
And the sea clasp her, as she were
Venus there born and mistress there.
1 561
Fernando Pessoa
Do not think of me. Love me.
Do not think of me. Love me.
That shall somehow suffice.
……
……
Let us be purposeless
Sedately and for a task.
We can be nothing this
Dashes not with the mask
Of being anything...
Be we eer on the wing...
And towards nowhere flying,
Maybe we shall obtain
A thought of what our dying
May steal from life and pain...
That shall somehow suffice.
……
……
Let us be purposeless
Sedately and for a task.
We can be nothing this
Dashes not with the mask
Of being anything...
Be we eer on the wing...
And towards nowhere flying,
Maybe we shall obtain
A thought of what our dying
May steal from life and pain...
1 243
Fernando Pessoa
BLIND EAGLE
What is thy name? and is it true that thou
A land unknown of men inhabitest?
What pain obscure is figured on thy brow?
What cares upon thy heart contrive their nest?
Of human things the purest and the best
No constant beauty doth thy soul allow;
And through the world thou bear'st thy deep unrest
Lock'd in a smile thine eyes do disavow.
Being of wild and weird imaginings,
Whose thoughts are greater than mere things can bind,
What is the thing thou seekest within things?
What is that thought thy thinking cannot find?
For what high air has thy strong spirit wings?
To what high vision aches it to be blind?
A land unknown of men inhabitest?
What pain obscure is figured on thy brow?
What cares upon thy heart contrive their nest?
Of human things the purest and the best
No constant beauty doth thy soul allow;
And through the world thou bear'st thy deep unrest
Lock'd in a smile thine eyes do disavow.
Being of wild and weird imaginings,
Whose thoughts are greater than mere things can bind,
What is the thing thou seekest within things?
What is that thought thy thinking cannot find?
For what high air has thy strong spirit wings?
To what high vision aches it to be blind?
1 642
Fernando Pessoa
Quando penso
Quando penso
Em glória, fama, (...)
(...) tudo acabando em morte
Eu sinto um frio n'alma, um confranger,
Obscurecer de todo o pensamento,
Dissolver da clareza da consciência
Nos seus (...) elementos escuros.
Tudo formas
Do gélido sentimento de existir
Que é o frio habitual do meu sentir;
Sentir a vida como um arrepio,
Como um horror, como uma morte consciente.
O frio do mistério enche tudo
Porque o mistério é tudo e é tudo a vida.
Em glória, fama, (...)
(...) tudo acabando em morte
Eu sinto um frio n'alma, um confranger,
Obscurecer de todo o pensamento,
Dissolver da clareza da consciência
Nos seus (...) elementos escuros.
Tudo formas
Do gélido sentimento de existir
Que é o frio habitual do meu sentir;
Sentir a vida como um arrepio,
Como um horror, como uma morte consciente.
O frio do mistério enche tudo
Porque o mistério é tudo e é tudo a vida.
1 476
Fernando Pessoa
Montanhas, solidões, objectos todos,
Montanhas, solidões, objectos todos,
Ainda que assim eu tenha de morrer,
Revelai-me a vossa alma, isso que faz
Que se me gele a mente ao perceber
Que realmente existis e em verdade,
Que sois facto, existência, cousas, ser.
Quantos o sentem, quantos, ao ouvir-me
«Estou aqui» compreenderão
Íntima e inteiramente, ouvindo n'alma
A alma da minha voz?
A expressão
Fez-se para o vulgar, para o banal.
A poesia torce-a e dilacera-a;
Mas isto que eu em vão impor-lhe quero
Transcende-lhe o poder e a sugestão.
Metáfora nem símbolo o exprime;
Desespero ao ouvir-me assim dizer
Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o
E só falando não me compreendo.
No mais simples dos factos é que existe
O horror maior: nisto: que há existência.
Sentir isto, eis o horror que não tem nome!
Mas senti-lo a sentir, intimamente,
Não com anseios ou suspiros d'alma,
Mas com pavor supremo, com gelado
Inerte horror de desesperação.
Ainda que assim eu tenha de morrer,
Revelai-me a vossa alma, isso que faz
Que se me gele a mente ao perceber
Que realmente existis e em verdade,
Que sois facto, existência, cousas, ser.
Quantos o sentem, quantos, ao ouvir-me
«Estou aqui» compreenderão
Íntima e inteiramente, ouvindo n'alma
A alma da minha voz?
A expressão
Fez-se para o vulgar, para o banal.
A poesia torce-a e dilacera-a;
Mas isto que eu em vão impor-lhe quero
Transcende-lhe o poder e a sugestão.
Metáfora nem símbolo o exprime;
Desespero ao ouvir-me assim dizer
Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o
E só falando não me compreendo.
No mais simples dos factos é que existe
O horror maior: nisto: que há existência.
Sentir isto, eis o horror que não tem nome!
Mas senti-lo a sentir, intimamente,
Não com anseios ou suspiros d'alma,
Mas com pavor supremo, com gelado
Inerte horror de desesperação.
1 332
Fernando Pessoa
THE CLOWN
Through this mad mind relentless vaults
A grim ides weird and wild
With a meaning wilder than human fears
A clown in grotesque somersaults;
And I weep at him as a child
In a man's hard tears.
There is no roof, there is no floor;
Horror! no space is known in all!
‑ Relentlessly I see he vaults! ‑
There is the clown and nothing more,
Who ceaselessly doth rise and fall ‑
The clown in grotesque somersaults.
Relentless, how relentlessly
In me, who seek what means each thing,
This spaceless vision neatly vaults!
My legs to vault almost forget me.
What awful meaning can this bring
The clown in grotesque somersaults.
A grim ides weird and wild
With a meaning wilder than human fears
A clown in grotesque somersaults;
And I weep at him as a child
In a man's hard tears.
There is no roof, there is no floor;
Horror! no space is known in all!
‑ Relentlessly I see he vaults! ‑
There is the clown and nothing more,
Who ceaselessly doth rise and fall ‑
The clown in grotesque somersaults.
Relentless, how relentlessly
In me, who seek what means each thing,
This spaceless vision neatly vaults!
My legs to vault almost forget me.
What awful meaning can this bring
The clown in grotesque somersaults.
1 675
Fernando Pessoa
THE WORLD
The world, as far's I understand,
Which is no further than the blind
Of colour and of shade can find
In that obscurity of theirs,
This world sunlit and grand,
Of which we are the heirs
With a proud unconsciousness,
Is worth as much as all our rhymes,
As all our things, its gilded slimes -
Nothing, and that's the most I'll say
Ere on he bed of nothingness
I turn myself the other way.
Which is no further than the blind
Of colour and of shade can find
In that obscurity of theirs,
This world sunlit and grand,
Of which we are the heirs
With a proud unconsciousness,
Is worth as much as all our rhymes,
As all our things, its gilded slimes -
Nothing, and that's the most I'll say
Ere on he bed of nothingness
I turn myself the other way.
1 353
Fernando Pessoa
O que é haver haver? Porque é que o que é
O que é haver haver? Porque é que o que é
É isto que é? Como é que o mundo é mundo?
Ah, o horror de pensar, como que súbito
Desconhecer onde estou.
É isto que é? Como é que o mundo é mundo?
Ah, o horror de pensar, como que súbito
Desconhecer onde estou.
1 516
Fernando Pessoa
E assim estou, pensando mais que todos,
E assim estou, pensando mais que todos,
Braços cruzados (...) além da fé,
E raciocínio, e assim sem alegria
Nem dúvida, além delas, da tristeza
De quem aqui chegou, tornado apenas.
Não tenho, não, já dúvida ou alegria
Mas nem regresso mais a essa dúvida
Nem a essa alegria regressara,
Se possível me fosse; tenho o orgulho
De ter chegado aqui onde ninguém
Nem nas asas do doido pensamento
Nem nas asas da louca fantasia
Chegou. E aqui me quedo consolado
Nesta perene desolação.
Braços cruzados (...) além da fé,
E raciocínio, e assim sem alegria
Nem dúvida, além delas, da tristeza
De quem aqui chegou, tornado apenas.
Não tenho, não, já dúvida ou alegria
Mas nem regresso mais a essa dúvida
Nem a essa alegria regressara,
Se possível me fosse; tenho o orgulho
De ter chegado aqui onde ninguém
Nem nas asas do doido pensamento
Nem nas asas da louca fantasia
Chegou. E aqui me quedo consolado
Nesta perene desolação.
1 214
Fernando Pessoa
Condenados sem fim ao erro eterno.
Condenados sem fim ao erro eterno.
Porque não será isto a realidade?
Porque não há-de ser, fantasma eterno,
O abstracto e inúmero velado mundo,
Sempre velado e abstracto, a sua própria
Unidade uma imprecisão,
Um todo indefinido, e mais que um todo
Onde a verdade e o erro, pontos fixos,
Nada sejam senão um maior erro?
Porque não será isto a realidade?
Porque não há-de ser, fantasma eterno,
O abstracto e inúmero velado mundo,
Sempre velado e abstracto, a sua própria
Unidade uma imprecisão,
Um todo indefinido, e mais que um todo
Onde a verdade e o erro, pontos fixos,
Nada sejam senão um maior erro?
1 360
Fernando Pessoa
MEN OF SCIENCE
To toil through time and hate and to consume
Far more than life in Error's hard defeat,
Seeking e'er for the true, for the complete,
Careless of faith and misery and doom
Is there a nobler task, while life doth fleet,
Than this, to strive to make light amid gloom,
And with hands bleeding to part and make room
In life for weaker and more unsure feet?
The void o'th' world must with an arch be spanned,
The ways of Nature must be read aright
That there may be a wise and friendly hand
To make this dark world better and more bright.
Oh, with what joy and love I understand
These master-souls that ache for truth and light.
Far more than life in Error's hard defeat,
Seeking e'er for the true, for the complete,
Careless of faith and misery and doom
Is there a nobler task, while life doth fleet,
Than this, to strive to make light amid gloom,
And with hands bleeding to part and make room
In life for weaker and more unsure feet?
The void o'th' world must with an arch be spanned,
The ways of Nature must be read aright
That there may be a wise and friendly hand
To make this dark world better and more bright.
Oh, with what joy and love I understand
These master-souls that ache for truth and light.
1 490
Fernando Pessoa
Fausto ao espelho
Deus existe mas não é Deus» eis a chave transcendente de todo o ocultismo. É este o símbolo representado por «morte de Deus-Homem».
Pode Deus existir mas não ser Deus;
Transcendente mentira realmente
Existindo e cercando-nos,
O único Horror de um mistério maior.
Se Deus houvera dado
À verdade outro ser
Que não o ser pensando
O Como a conceber,
Não nos dera a verdade
Mas qualquer ilusão
Na cómoda eternidade
Da vasta escuridão.
Fora Deus Deus, Deus fosse menos que este
Pensamento que abre na minha alma
Um poço sem paredes, e eu pudesse
Ao pensamento exceder o sumo
Inexcedível, figurar mais vasto
Deus que Deus é... Como seria assim?
Por ser o ser que é absoluto ser!
Não haver para além do sempre além
Ou novas direcções do infinito,
Número infinito de infinitos.
[ ... ]
Ah, parar de pensar! Pôr um limite
Ao mistério possível. Ter o mundo
Este infinito [?] mundo por o mundo,
Por Deus o Deus que é dele e o fez e ama!
Este meu pensamento transciente
De transcendência, por magia ignota
Evoque do Incógnito um torpor
Com que se o mesmo casasse! Ah, um sono, um Sono
Um sono de pensar me roube a mim!
Treva! morte! Trevas e morte do Eu!
Matar-me dentro da alma! Que eu não pense
Por absoluta ausência e em mim descanse
Esta concentração multiplicada
De mais mundos que os mundos infinitos,
De mais seres que o ser que é mais que os seres!
E eu mesmo em morte inteira seja Abismo!
Vale-me o morte.
Pode Deus existir mas não ser Deus;
Transcendente mentira realmente
Existindo e cercando-nos,
O único Horror de um mistério maior.
Se Deus houvera dado
À verdade outro ser
Que não o ser pensando
O Como a conceber,
Não nos dera a verdade
Mas qualquer ilusão
Na cómoda eternidade
Da vasta escuridão.
Fora Deus Deus, Deus fosse menos que este
Pensamento que abre na minha alma
Um poço sem paredes, e eu pudesse
Ao pensamento exceder o sumo
Inexcedível, figurar mais vasto
Deus que Deus é... Como seria assim?
Por ser o ser que é absoluto ser!
Não haver para além do sempre além
Ou novas direcções do infinito,
Número infinito de infinitos.
[ ... ]
Ah, parar de pensar! Pôr um limite
Ao mistério possível. Ter o mundo
Este infinito [?] mundo por o mundo,
Por Deus o Deus que é dele e o fez e ama!
Este meu pensamento transciente
De transcendência, por magia ignota
Evoque do Incógnito um torpor
Com que se o mesmo casasse! Ah, um sono, um Sono
Um sono de pensar me roube a mim!
Treva! morte! Trevas e morte do Eu!
Matar-me dentro da alma! Que eu não pense
Por absoluta ausência e em mim descanse
Esta concentração multiplicada
De mais mundos que os mundos infinitos,
De mais seres que o ser que é mais que os seres!
E eu mesmo em morte inteira seja Abismo!
Vale-me o morte.
2 083
Fernando Pessoa
WALT WHITMAN
WALT WHITMAN
Onde não sou o primeiro, prefiro não ser nada, não estar lá,
Onde não posso agir o primeiro, prefiro só ver agir os outros.
Onde não posso mandar, antes quero nem obedecer.
Excessivo na ânsia de tudo, tão excessivo que nem falo,
E não falo, porque não tento.
«Ou Tudo ou Nada» tem um sentido pessoal para mim.
Mas ser universal — não o posso, porque sou particular.
Não posso ser todos, porque sou Um, um só, só eu Não posso ser o primeiro em qualquer coisa, porque não há o primeiro.
Prefiro por isso o nada de ser co-primeiro em ser nada.
Quando é que parte o último comboio, Walt?
Quero deixar esta cidade, a Terra,
Quero emergir de vez deste país, Eu,
Deixar o mundo com o que se comprova falido,
Como um caixeiro viajante que vende navios a habitantes do interior.
O fim a motores partidos!
Que foi todo o meu ser? Uma grande ânsia inútil —
Estéril realização com um destino impossível —
Máquina de louco para realizar o motu continuo,
Teorema de absurdo para a quadratura do círculo,
Travessia a nado do Atlântico, falando na margem de cá
Antes da entrada na água, só com eles e o cálculo,
Atirar de pedras à lua
Ânsia absurda do encontro dos paralelos Deus-vida.
Megalomania dos nervos,
Ânsia de elasticidade do corpo duro,
Raiva de meu concreto ser por não ser o auge-eixo
O carro da sensualidade de entusiasmo abstracto
O vácuo dinâmico do mundo!
Vamo-nos embora de Ser.
Larguemos de vez, definitivamente, a aldeia-Vida
O arrabalde-Mundo de Deus
E entremos na cidade à aventura, ao rasgo
Ao auge, loucamente ao Ir...
Larguemos de vez.
Quando parte, Walt, o último comboio p'ra aí?
Que Deus fui para as minhas saudades serem estas ânsias?
Talvez partindo regresse. Talvez acabando, chegue,
Quem sabe? Qualquer hora é a hora. Partamos,
Vamos! A estada tarda. Partir é ter ido.
Partamos para onde se fique.
Ó estrada para não-haver-estradas!
Término no Não-Parar!
Onde não sou o primeiro, prefiro não ser nada, não estar lá,
Onde não posso agir o primeiro, prefiro só ver agir os outros.
Onde não posso mandar, antes quero nem obedecer.
Excessivo na ânsia de tudo, tão excessivo que nem falo,
E não falo, porque não tento.
«Ou Tudo ou Nada» tem um sentido pessoal para mim.
Mas ser universal — não o posso, porque sou particular.
Não posso ser todos, porque sou Um, um só, só eu Não posso ser o primeiro em qualquer coisa, porque não há o primeiro.
Prefiro por isso o nada de ser co-primeiro em ser nada.
Quando é que parte o último comboio, Walt?
Quero deixar esta cidade, a Terra,
Quero emergir de vez deste país, Eu,
Deixar o mundo com o que se comprova falido,
Como um caixeiro viajante que vende navios a habitantes do interior.
O fim a motores partidos!
Que foi todo o meu ser? Uma grande ânsia inútil —
Estéril realização com um destino impossível —
Máquina de louco para realizar o motu continuo,
Teorema de absurdo para a quadratura do círculo,
Travessia a nado do Atlântico, falando na margem de cá
Antes da entrada na água, só com eles e o cálculo,
Atirar de pedras à lua
Ânsia absurda do encontro dos paralelos Deus-vida.
Megalomania dos nervos,
Ânsia de elasticidade do corpo duro,
Raiva de meu concreto ser por não ser o auge-eixo
O carro da sensualidade de entusiasmo abstracto
O vácuo dinâmico do mundo!
Vamo-nos embora de Ser.
Larguemos de vez, definitivamente, a aldeia-Vida
O arrabalde-Mundo de Deus
E entremos na cidade à aventura, ao rasgo
Ao auge, loucamente ao Ir...
Larguemos de vez.
Quando parte, Walt, o último comboio p'ra aí?
Que Deus fui para as minhas saudades serem estas ânsias?
Talvez partindo regresse. Talvez acabando, chegue,
Quem sabe? Qualquer hora é a hora. Partamos,
Vamos! A estada tarda. Partir é ter ido.
Partamos para onde se fique.
Ó estrada para não-haver-estradas!
Término no Não-Parar!
2 159
Fernando Pessoa
Não ter emoções, não ter desejos, não ter vontades,
Não ter emoções, não ter desejos, não ter vontades,
Mas ser apenas, no ar sensível das coisas
Uma consciência abstracta com asas de pensamento,
Não ser desonesto nem não desonesto, separado ou junto,
Nem igual a outros, nem diferente dos outros,
Vivê-los em outrem, separar-se deles
Como quem, distraído, se esquece de si...
Mas ser apenas, no ar sensível das coisas
Uma consciência abstracta com asas de pensamento,
Não ser desonesto nem não desonesto, separado ou junto,
Nem igual a outros, nem diferente dos outros,
Vivê-los em outrem, separar-se deles
Como quem, distraído, se esquece de si...
1 422
Fernando Pessoa
Hé-lá que eu vou chamar
Hé-lá que eu vou chamar
Ao privilégio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te
Todo o formilhamento humano do Universo,
Todos os modos de todas as emoções,
Todos os feitios de todos pensamentos,
Todas as rodas, todos os volantes, todos os êmbolos da alma.
Heia que eu grito
E num cortejo de Mim até ti estardalhaçam
Com uma algaravia metafísica e real,
Com um chinfrim de coisas passado por dentro sem nexo,
(...)
Ave, salve, viva, ó grande bastardo de Apolo,
Amante impotente e fogoso das nove musas e das graças,
Funicular do Olimpo até nós e de nós ao Olimpo,
Fúria do moderno concretado em mim,
Espasmo translúcido de ser,
Flor de agirem os outros,
Festa porque há a Vida,
Loucura porque não há vida bastante em um p'ra ser todos
Porque ser é ser bastardo e só Deus nos servia.
Ah, tu que cantaste tudo, deixaste tudo por cantar.
Quem pode vibrar mais que o seu corpo em seu corpo,
Quem tem mais sensações que as sensações por ter?
Quem é bastante quando nada basta?
Quem fica completo quando um só [vinco?] de erva
Fica com a raiz fora do seu coração?
Ao privilégio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te
Todo o formilhamento humano do Universo,
Todos os modos de todas as emoções,
Todos os feitios de todos pensamentos,
Todas as rodas, todos os volantes, todos os êmbolos da alma.
Heia que eu grito
E num cortejo de Mim até ti estardalhaçam
Com uma algaravia metafísica e real,
Com um chinfrim de coisas passado por dentro sem nexo,
(...)
Ave, salve, viva, ó grande bastardo de Apolo,
Amante impotente e fogoso das nove musas e das graças,
Funicular do Olimpo até nós e de nós ao Olimpo,
Fúria do moderno concretado em mim,
Espasmo translúcido de ser,
Flor de agirem os outros,
Festa porque há a Vida,
Loucura porque não há vida bastante em um p'ra ser todos
Porque ser é ser bastardo e só Deus nos servia.
Ah, tu que cantaste tudo, deixaste tudo por cantar.
Quem pode vibrar mais que o seu corpo em seu corpo,
Quem tem mais sensações que as sensações por ter?
Quem é bastante quando nada basta?
Quem fica completo quando um só [vinco?] de erva
Fica com a raiz fora do seu coração?
1 020
Fernando Pessoa
I - We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
I
We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
Age, duty, gods weigh on our conscious bliss.
Hope for the best and for the worst prepare.
The sum of purposed wisdom speaks in this.
We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
Age, duty, gods weigh on our conscious bliss.
Hope for the best and for the worst prepare.
The sum of purposed wisdom speaks in this.
1 289
Fernando Pessoa
Tudo é mistério para mim que o é...
Tudo é mistério para mim que o é...
A luz do sol: o mistério feito brilho,
Canto d'ave: o mistério feito voz
Entristecem-me pois. Só uma cousa
Uma vez descoberta não se evita
Nem evitar se pode: é o mistério
E o seu íntimo e (...) horror
O horror nitidamente negro e abismado.
A luz do sol: o mistério feito brilho,
Canto d'ave: o mistério feito voz
Entristecem-me pois. Só uma cousa
Uma vez descoberta não se evita
Nem evitar se pode: é o mistério
E o seu íntimo e (...) horror
O horror nitidamente negro e abismado.
1 310