Poemas neste tema
Angústia
António Ramos Rosa
Há Quem Procure…
Há quem procure sob abóbadas e abóbadas
um reflexo de sol
há quem procure com a respiração rouca
o silêncio de um nome
a denotação de uma pedra
Há quem procure na trama da distância
uma hélice para uma boca
há quem se erga entre destroços e sementes apodrecidas
para escrever no solo com as mandíbulas crispadas
um nome sem sombra
Há quem destine à modulação de algumas cores
a forma viva e voraz de uma mulher
e encontre só o branco ferozmente árido
há quem procure com antenas incandescentes
uma espádua de álcool na abstracção das areias
Há quem julgue que já não há tempo para reflectir
na noite sem veias
e caminhe de encontro a um muro negro
há quem tenha perdido a sensação do intacto
e procure ainda uma lâmpada mas as lâmpadas extinguiram-se
há quem se decida a não esperar a não ouvir a não chamar
um reflexo de sol
há quem procure com a respiração rouca
o silêncio de um nome
a denotação de uma pedra
Há quem procure na trama da distância
uma hélice para uma boca
há quem se erga entre destroços e sementes apodrecidas
para escrever no solo com as mandíbulas crispadas
um nome sem sombra
Há quem destine à modulação de algumas cores
a forma viva e voraz de uma mulher
e encontre só o branco ferozmente árido
há quem procure com antenas incandescentes
uma espádua de álcool na abstracção das areias
Há quem julgue que já não há tempo para reflectir
na noite sem veias
e caminhe de encontro a um muro negro
há quem tenha perdido a sensação do intacto
e procure ainda uma lâmpada mas as lâmpadas extinguiram-se
há quem se decida a não esperar a não ouvir a não chamar
1 045
António Ramos Rosa
Trazem As Marcas do Suor da Noite
Trazem as marcas do suor da noite
Trazem a noite
E são já a noite
na velocidade branca desta escrita
Nulos impenetráveis (habitáveis lâmpadas?)
perdidos nos seus nomes
perdidos vivos
Não são já eles e são eles que
Trazem a noite
E são já a noite
na velocidade branca desta escrita
Nulos impenetráveis (habitáveis lâmpadas?)
perdidos nos seus nomes
perdidos vivos
Não são já eles e são eles que
1 089
António Ramos Rosa
As Pernas São o Grito
As pernas são o grito
no rosto no ventre A língua
contra a língua
ou antes as duas línguas que a destroem
Vertigem dos limites
contra a vertigem
Explosão esta figura
ao atingir a superfície branca
no rosto no ventre A língua
contra a língua
ou antes as duas línguas que a destroem
Vertigem dos limites
contra a vertigem
Explosão esta figura
ao atingir a superfície branca
1 057
António Ramos Rosa
Acende-Se Algo Na Garganta
Acende-se algo na garganta
A língua distensa ainda verde
dirá talvez o odor da tempestade
e o silvo terrífico nas chaminés
Mas o que está a arder tão baixo
é quase imperceptível
quase nulo
como este voo raso sobre o vazio
A língua distensa ainda verde
dirá talvez o odor da tempestade
e o silvo terrífico nas chaminés
Mas o que está a arder tão baixo
é quase imperceptível
quase nulo
como este voo raso sobre o vazio
993
António Ramos Rosa
Precipício: Vento Na Face
Precipício : vento na face
um nome
a lâmina de um nome
um nome
a lâmina de um nome
543
António Ramos Rosa
Uma Figura Na Profundidade
Uma figura na profundidade
no centro móvel foge
e deixa um intervalo de luz
uma obscura arcada para os dedos
na intensidade da luz ou do escuro
Parte-se a serpente se
e são pedaços
vivos na noite que se agitam
no centro móvel foge
e deixa um intervalo de luz
uma obscura arcada para os dedos
na intensidade da luz ou do escuro
Parte-se a serpente se
e são pedaços
vivos na noite que se agitam
1 080
António Ramos Rosa
Dançam Mas Não Na Praia Dançam Apenas Não Se Sabe
Dançam mas não na praia Dançam apenas não se sabe
o quê numa orla nocturna móvel Deserto na praia A
terra perdeu todos os sinais As únicas referências
são as do jogo Um obscuro combate para quê?
O que roçam os dedos ou o que eles segregam é um
muro de névoa ou uma muralha de astros
o quê numa orla nocturna móvel Deserto na praia A
terra perdeu todos os sinais As únicas referências
são as do jogo Um obscuro combate para quê?
O que roçam os dedos ou o que eles segregam é um
muro de névoa ou uma muralha de astros
1 034
António Ramos Rosa
Algo Se Duplica
Algo se duplica
e inclina-se
refracta-se
num novo espaço em que se recompõe
Vertigem densa angústia do não igual de um outro qual?
O acaso decisivo
e o gesto imprevisível
negam ao espaço a multidão de imagens
e inclina-se
refracta-se
num novo espaço em que se recompõe
Vertigem densa angústia do não igual de um outro qual?
O acaso decisivo
e o gesto imprevisível
negam ao espaço a multidão de imagens
989
António Ramos Rosa
O Tronco: o Tronco do Tronco
O tronco: o tronco do tronco
na boca
sem saliva
na boca
sem saliva
1 170
António Ramos Rosa
Sob a Palha do Sol As Sílabas
Sob a palha do sol as sílabas
soçobravam
intensidade próxima da cegueira
no cérebro da terra as fissuras abriam-se
e a boca sem caminho o seio sem o outro seio
nas lajes sem contacto à superfície nua
no obscuro deserto
de basalto
soçobravam
intensidade próxima da cegueira
no cérebro da terra as fissuras abriam-se
e a boca sem caminho o seio sem o outro seio
nas lajes sem contacto à superfície nua
no obscuro deserto
de basalto
1 045
António Ramos Rosa
Dói-Me Uma Noite de Terra Sobre a Fronte
Dói-me uma noite de terra sobre a fronte
mínimo coral nocturno suspensão presente
— promontório
sem a memória das imagens
no círculo
dos derradeiros insectos
mínimo coral nocturno suspensão presente
— promontório
sem a memória das imagens
no círculo
dos derradeiros insectos
999
António Ramos Rosa
Quase
Quase
a garganta forte a respiração do tronco
obsessão branca
a casa do nome
com o vento das ervas
e o fogo sem o nome
a garganta forte a respiração do tronco
obsessão branca
a casa do nome
com o vento das ervas
e o fogo sem o nome
1 077
António Ramos Rosa
O Que Permanece Ainda Enterrado Pobre
O que permanece ainda enterrado pobre
no vazio nocturno
minha terra latente
no tempo sem sinais em que os sinais prolongam
os sulcos de uma sombra maquinal e branca
e o meu desejo é uma imagem
minúscula
uma pobre frase com duas árvores nuas
no vazio nocturno
minha terra latente
no tempo sem sinais em que os sinais prolongam
os sulcos de uma sombra maquinal e branca
e o meu desejo é uma imagem
minúscula
uma pobre frase com duas árvores nuas
981
António Ramos Rosa
Entre Dois Espaços Entre Duas Sombras
Entre dois espaços entre duas sombras
as pálpebras abriram-se no caminho
entre dois espaços entre duas sombras?
no vento oscila uma lâmpada vazia
as pálpebras abriram-se no caminho
entre dois espaços entre duas sombras?
no vento oscila uma lâmpada vazia
1 116
António Ramos Rosa
87. o Sol Sobre a Pedra a Marca Verde
87
O sol sobre a pedra a marca verde
a resolução do ar a erva
só com a cabeça deserta
porquê? porquê e não porquê
com o sol nos cabelos com o sol
entre as árvores e sem a alegria
dos animais e a água.
Entrando na espessura sob as manchas
do silêncio sem amor mas no silêncio
das folhas eu vivo pelas pedras.
O sol sobre a pedra a marca verde
a resolução do ar a erva
só com a cabeça deserta
porquê? porquê e não porquê
com o sol nos cabelos com o sol
entre as árvores e sem a alegria
dos animais e a água.
Entrando na espessura sob as manchas
do silêncio sem amor mas no silêncio
das folhas eu vivo pelas pedras.
938
António Ramos Rosa
85. Vagos Sinais Dentes Na Pedra
85
Vagos sinais dentes na pedra
sem solução de árvore
marcação de um traço único
este, não o rosto, este
limite que não transponho que
não tem além o além o fogo azul
e
que nenhuma sombra atravessou
porque subsiste ou não algum ardor
porque os dentes enterram-se na pedra.
Vagos sinais dentes na pedra
sem solução de árvore
marcação de um traço único
este, não o rosto, este
limite que não transponho que
não tem além o além o fogo azul
e
que nenhuma sombra atravessou
porque subsiste ou não algum ardor
porque os dentes enterram-se na pedra.
528
António Ramos Rosa
86. Desobstruindo o Espaço Só Esta Mancha
86
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.
Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?
Dando lugar ao espaço à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.
Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?
Dando lugar ao espaço à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
867
António Ramos Rosa
40. o Cão Sem Sombra E a Face Oblíqua
40
O cão sem sombra e a face oblíqua
na infância azul da face
uma janela alta o vazio os astros.
Um gesto da matéria amorosa negra
a flecha do não ser na ferrugem do muro
a questão interrompida o sexo nu.
Quando no opaco a oblíqua ferida
rasga as paralelas do ser e a flecha fere
a outra flecha vermelha na ferrugem.
O cão sem sombra e a face oblíqua
na infância azul da face
uma janela alta o vazio os astros.
Um gesto da matéria amorosa negra
a flecha do não ser na ferrugem do muro
a questão interrompida o sexo nu.
Quando no opaco a oblíqua ferida
rasga as paralelas do ser e a flecha fere
a outra flecha vermelha na ferrugem.
1 074
António Ramos Rosa
74. Porque Não o Encontro E Não o Encontro
74
Porque não o encontro e não o encontro
aquém da força de que vive o pulso
aquém da face e da figura o esplendor.
Porquê a árvore oculta sob a árvore
a pedra não soando e sem a cor e sem
a força do sinal de pedra e o fogo
sem a mão do afago e tudo em vão
no vão de tudo ser o encontro aquém do encontro
a presença perdida na presença.
Porque não o encontro e não o encontro
aquém da força de que vive o pulso
aquém da face e da figura o esplendor.
Porquê a árvore oculta sob a árvore
a pedra não soando e sem a cor e sem
a força do sinal de pedra e o fogo
sem a mão do afago e tudo em vão
no vão de tudo ser o encontro aquém do encontro
a presença perdida na presença.
949
António Ramos Rosa
84. a Incerteza E a Certeza Dessa Escrita
84
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha chamamento
dilacerante e no entanto mudo.
E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras
caídas e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha chamamento
dilacerante e no entanto mudo.
E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras
caídas e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
1 009
António Ramos Rosa
28. Trémulas — de Quê — Ó Trémulas
28
Trémulas — de quê — ó trémulas.
Os raios imperceptíveis mas
cobrindo o aspecto da sombra e o seio da pomba.
Abrem-se e não cintilam pobres de
pobreza da terra não dita ou impossível
ou ainda e sempre e sempre oculta
o não da terra sendo a terra única.
Trémulas e pobres, pobres trémulas
vamos, abram-se aqui sem nenhuma
poesia na não terra mas terra pobre terra.
Trémulas — de quê — ó trémulas.
Os raios imperceptíveis mas
cobrindo o aspecto da sombra e o seio da pomba.
Abrem-se e não cintilam pobres de
pobreza da terra não dita ou impossível
ou ainda e sempre e sempre oculta
o não da terra sendo a terra única.
Trémulas e pobres, pobres trémulas
vamos, abram-se aqui sem nenhuma
poesia na não terra mas terra pobre terra.
1 064
António Ramos Rosa
30. Há Uma Luz Sobre As Arcadas
30
Há uma luz sobre as arcadas
e os indecisos contornos na agonia
nos limites que não resistem
e que resistem sílaba a sílaba
milimetricamente sinais de
uma preciosa intensidade de infância ardente.
Foi no súbito acesso na agonia
dos sinais que os sinais agregam
que a destruição não se destruiu
no seio inverso regressão da árvore.
Há uma luz sobre as arcadas
e os indecisos contornos na agonia
nos limites que não resistem
e que resistem sílaba a sílaba
milimetricamente sinais de
uma preciosa intensidade de infância ardente.
Foi no súbito acesso na agonia
dos sinais que os sinais agregam
que a destruição não se destruiu
no seio inverso regressão da árvore.
1 106