Recomeço e Renascimento
António Ramos Rosa
Tu Que Renasces do Abandono Magia Verde
magia da montanha e do lago soberbo
tu que renasces soberba do outono
com a música do campo e o vermelho
e o negro e o húmido clamor contido
dá-me o teu seio de consolação nobre
dá-me o teu coração os teus olhos o teu sonho
de quem não és nem podes ser amor de ser
amor no horizonte do teu ser
António Ramos Rosa
Ó Boca Ferida, Inconsolável Boca
que entre o silêncio e o grito só conhece o gemido.
Daqui não se levanta o cavalo prostrado.
É aqui que se dorme o sono de uma pedra.
Eis o flagelo do silêncio, a negrura do sono.
Como desperta a pedra, como rebenta o ovo,
em que o sol e a lua renascerão vermelhos?
Uma centelha de súbito desperta
o cavalo que me iguala ao teu corpo solar.
António Ramos Rosa
Antes do Sol
O sol ainda não chegou.
Desta doçura matinal e indecisa
colho uma haste débil, quero moldá-la
no espaço: a clara espiga do dia.
Aí vem o sol: aquece o dorso e o quarto,
mas não encontrei ainda a linha viva
das palavras no branco,
alento puro.
Manchas de luz na página e na mão;
vou descer as persianas, desço-as; ondulam listas
de luz e sombra no papel.
Um galo canta, e o chilrear dos pássaros.
Mas não basta este silêncio de casulo cálido.
Uma pressa obscura e ansiosa
— para quê? Abrir na folha
o caminho em que respiro o ar do dia.
Atento em vão (de novo canta o galo)
— quem acorda a terra onde as palavras vibram?
Um frémito de inatenção, uma falha
que se abre — e eu vou dizer a clara
árvore ou espiga luminosa, ainda indecisa
e já aguda na água a luz incide.
Como igualar esta igualdade pura?
Eis a distância fatal que nos separa e onde caio.
Recomeço, recomeçar... Oh a urgência viva
do sopro no espaço verdadeiro, na folha alta!
Mas não te precipites... Pondera a própria água
que em ti pulsa... lança-te só quando se ergue a onda
— mas não és tu mesmo que a levantas, se te ergues?
Assim, tentas e pesas. Caminhas para uma praia,
caminhas numa praia onde a água aviva as pedras,
onde o esplendor igual te aniquila e te salva.
És um corpo aberto, móveis hastes respiram
e no espaço se unem, num obscuro tremor.
Uma espiga de luz condensa grão a grão
as palavras do dia, quando o sol já vai alto.
António Ramos Rosa
Sem Eu As Pressentir
mas já na febre e no desejo,
sinuosos sinais, frechas intermitentes,
interrompem a sombra, negam o meu silêncio.
Afluem, mas são lâminas e traços
que a mão inscreve. Não o liso
curso que amanhece. Um intervalo
na luz. Em sucessivos
arranques, os membros se reúnem
ou dispersam.
Mas se noite e luz reúnem
ferindo de surpresa
negam o muro que erguem
o próprio muro que são
e que atravessam.
Nada se dilui, pois tudo recomeça.
António Ramos Rosa
Bater o Metal
Com um músculo reteso sobre o silêncio. Sobre a casa. É para a parede, para a mesa, para a árvore. É para a mão. Para a boca. Para bater na boca, nos dentes, nos olhos. É para bater. Bater.
É para bater. Em ti ou no sono. É para bater aqui. Aqui. Com as sílabas, com os ossos, os nervos, as têmporas. Aqui. A pedra da cabeça, o martelo nos nervos, nos ossos, nos tímpanos. É para bater, bater.
É para que soe o metal, o metal dos ossos e da língua, o metal da parede, o metal verde, o metal do calafrio, o metal do osso, o metal dos dentes. É para o metal sob o sono. É para que soe o metal lúcido, límpido, mortal. É para bater o metal. O metal.
É para bater o combate. O puro combate do osso. É para bater uma veia viva, uma parede salva, um ouvido limpo, uma altura de chão, uma boca, um átrio.
É para bater, bater, bater. Até acordar, até morrer, até ser? Até nascer. É para bater, bater, bater até à fronte, ao corpo inteiro, à raiz viva. Até à língua do metal.
É para bater o fogo, para bater o sangue, o pão claro, o vento novo. É para uma pedra, para um pulso, para uma terra, para um ventre, para uma palavra.
António Ramos Rosa
Momento 1
sobre as colheres limpas
a construção repetida de bocas díspares
sobre um grande lago quase inexistente
O recomeço é uma hora de simplicidade
extremamente ténue
De novo voltamos
a uma hora mais leve
a um cavalo que segue silencioso
na infinita lisura do momento
António Ramos Rosa
Caminhando
que me enche
de ar
uma certeza rápida
e fresca
sem memória
a face gasta
sob os pés
um solo de grãos onde trepida o branco
António Ramos Rosa
Para Sair da Pedra
e desse frio instante jamais ultrapassado
oh que rosa de pedra
que aranha dura
extrema
final em cada pico
ó mole horror desse sorriso
Para sair da terra
morta na base
a haste
a raiz arranhando a parede ratada
a flácida nostalgia da timidez curvada
para sair no fim de cada indecisão
do adiado princípio
uma garra de fumo cobardia ante o ódio
ó praia sufocada ó impossível praia
nitidamente desenhada como um adeus-princípio
Um começar de água
a iluminar os dedos
em cada sulco árido
no ouvido da mão a rebentar o sol
a abandonada menina achada num sonho
é o sol do navio
o rouxinol na espuma
e o sabugo da rosa
o rebentar da pedra
e a andorinha
dizia o menino
O escuro rumor da casa
o miúdo calar de cada coisa
o claro romper das palavras
verticalmente duras
É preciso roer séculos para ajudar o verde
António Ramos Rosa
O Homem de Abril
Eis o homem de Abril.
Nasceu fraco e de pé.
De fraco, fez-se velho.
Fez-se velho a valer.
Sentou-se ao pé dum muro.
Atrás o sol nascia.
Uma rosa rompeu.
Era manhã. Bom dia!
António Ramos Rosa
Voz Inicial
se o disse na certeza
que começa outro ser
António Ramos Rosa
Foi No Horror Que Acordei
e o meu rosto de lava
perguntava porquê.
Consumido no ventre,
cheio de sangue esquecido,
perguntava porquê.
Ninguém ouvia o grito
nesta cara de terra.
Um bicho silencioso,
o meu nome e uma pedra.
E eu queria a harmonia.
O sol no centro. E a lágrima
era dura e morria.
E a terra me levava
para dentro da terra.
No silêncio da terra
uma árvore respirava.
Eu quero regressar
à essencial frescura.
Eu quero renascer
na morte completa.
Eis-me um homem
de horror, silêncio, sol.
Eis um homem de cal.
Ninguém me queira ver
na minha câmara clara.
(Aí sou negro e puro.)
Com as portas abertas
eu sou o mar que entra.
Mas sem esquecer o sangue,
eu escuto e sei e espero.
António Ramos Rosa
Se o Mar Entrar
com suas flores de som
inundar os tapetes
onde a cinza se instalou
com o tempo
e as minúcias do pó
O mar já está aberto
e voltado de borco
se o mar entrar
o chão já se rompeu
pelos buracos a cor
abre-se a floresta
é um tambor de paz
o dia fruto novo
António Ramos Rosa
De Escadas Insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro
Ruy Belo
Uma vez que já tudo se perdeu
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
Falo-te em nome seja de quem for
No princípio de tudo o coração
Como o fogo alastrava em redor
Uma nuvem qualquer toldou então
Céus de canção promessa e amor
Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
Lembro-te apenas o que te esqueceu
Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
Uma vez que já tudo se perdeu
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
Sophia de Mello Breyner Andresen
Glosa de «So, We’Ll Go No More A-Roving» de Byron
Pela noite fora
Embora a lua brilhe tanto como outrora
Embora como outrora
Não cesse do amor a voz uivante
Que me devora
Pois o coração gasta o peito
E a espada gasta a bainha
O tempo rói o coração desfeito
E a alma é sozinha
Embora a noite sempre peça amor
E o dia volte demasiado cedo
E o luar corte como espada nua
Não irei mais em pânico e segredo
Sob a luz da lua
Sophia de Mello Breyner Andresen
E Só Então Saí Das Minhas Trevas
Abri as minhas mãos como folhagens,
Intacta a luz brotava das paisagens,
Mas na doçura fantástica das coisas
As minhas mãos queimavam-se e morriam.
Dia perfeito, inteiro e luminoso,
Dia presente como a morte — luz
Trespassando os meus olhos de cegueira.
Cada voz, cada gesto, cada imagem
Na exaltação do sol se consumia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Devagar No Jardim a Noite Poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Descobrimento
Novas
O mundo parecia criado nessa mesma
Manhã
Sophia de Mello Breyner Andresen
Revolução — Descobrimento
Mundo recomeçado a partir da praia pura
Como poema a partir da página em branco
— Katharsis emergir verdade exposta
Tempo terrestre a perguntar seu rosto
Sophia de Mello Breyner Andresen
Oásis
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu — o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra
Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira
Nuno Júdice
O brilho das cinzas
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. "Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias do Juízo." Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.
Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 157 | Quetzal Editores, 1999
Fernando Pessoa
XI - Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.
Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?
Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...
E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...