Poemas neste tema
Saudade e Ausência
Vinicius de Moraes
Olhar Para Trás
Nem surgisse um olhar de piedade ou de amor
Nem houvesse uma branca mão que apaziguasse minha fronte palpitante...
Eu estaria sempre como um círio queimando para o céu a minha fatalidade
Sobre o cadáver ainda morno desse passado adolescente.
Talvez no espaço perfeito aparecesse a visão nua
Ou talvez a porta do oratório se fosse abrindo misteriosamente...
Eu estaria esquecido, tateando suavemente a face do filho morto
Partido de dor, chorando sobre o seu corpo insepultável.
Talvez da carne do homem prostrado se visse sair uma sombra igual à
minha
Que amasse as andorinhas, os seios virgens, os perfumes e os lírios da terra
Talvez... mas todas as visões estariam também em minhas lágrimas boiando
E elas seriam como óleo santo e como pétalas se derramando sobre o nada.
Alguém gritaria longe: — “Quantas rosas nos deu a primavera!...”
Eu olharia vagamente o jardim cheio de sol e de cores noivas se enlaçando
Talvez mesmo meu olhar seguisse da flor o voo rápido de um pássaro
Mas sob meus dedos vivos estaria a sua boca fria e os seus cabelos
luminosos.
Rumores chegariam a mim, distintos como passos na madrugada
Uma voz cantou, foi a irmã, foi a irmã vestida de branco! — a sua voz é
fresca como o orvalho...
Beijam-me a face — irmã vestida de azul, por que estás triste?
Deu-te a vida a velar um passado também?
V oltaria o silêncio — seria uma quietude de nave em Senhor Morto
Numa onda de dor eu tomaria a pobre face em minhas mãos angustiadas
Auscultaria o sopro, diria à toa — Escuta, acorda
Por que me deixaste assim sem me dizeres quem eu sou?
E o olhar estaria ansioso esperando
E a cabeça ao sabor da mágoa balançando
E o coração fugindo e o coração voltando
E os minutos passando e os minutos passando...
No entanto, dentro do sol a minha sombra se projeta
Sobre as casas avança o seu vago perfil tristonho
Anda, dilui-se, dobra-se nos degraus das altas escadas silenciosas
E morre quando o prazer pede a treva para a consumação da sua miséria.
É que ela vai sofrer o instante que me falta
Esse instante de amor, de sonho, de esquecimento
E quando chega, a horas mortas, deixa em meu ser uma braçada de
lembranças
Que eu desfolho saudoso sobre o corpo embalsamado do eterno ausente.
Nem surgisse em minhas mãos a rósea ferida
Nem porejasse em minha pele o sangue da agonia...
Eu diria — Senhor, por que me escolheste a mim que sou escravo
Por que me chagaste a mim cheio de chagas?
Nem do meu vazio te criasses, anjo que eu sonhei de brancos seios
De branco ventre e de brancas pernas acordadas
Nem vibrasses no espaço em que te moldei perfeita...
Eu te diria — Por que vieste te dar ao já vendido?
Oh, estranho húmus deste ser inerme e que eu sinto latente
Escorre sobre mim como o luar nas fontes pobres
Embriaga o meu peito do teu bafo que é como o sândalo
Enche o meu espírito do teu sangue que é a própria vida!
Fora, um riso de criança — longínqua infância da hóstia consagrada
Aqui estou ardendo a minha eternidade junto ao teu corpo frágil!
Eu sei que a morte abrirá no meu deserto fontes maravilhosas
E vozes que eu não sabia em mim lutarão contra a Voz.
Agora porém estou vivendo da tua chama como a cera
O infinito nada poderá contra mim porque de mim quer tudo
Ele ama no teu sereno cadáver o terrível cadáver que eu seria
O belo cadáver nu cheio de cicatriz e de úlceras.
Quem chamou por mim, tu, mãe? Teu filho sonha...
Lembras-te, mãe, a juventude, a grande praia enluarada...
Pensaste em mim, mãe? Oh, tudo é tão triste
A casa, o jardim, o teu olhar, o meu olhar, o olhar de Deus...
E sob a minha mão tenho a impressão da boca fria murmurando
Sinto-me cego e olho o céu e leio nos dedos a mágica lembrança
Passastes, estrelas... Voltais de novo arrastando brancos véus
Passastes, luas... Voltais de novo arrastando negros véus...
Nem houvesse uma branca mão que apaziguasse minha fronte palpitante...
Eu estaria sempre como um círio queimando para o céu a minha fatalidade
Sobre o cadáver ainda morno desse passado adolescente.
Talvez no espaço perfeito aparecesse a visão nua
Ou talvez a porta do oratório se fosse abrindo misteriosamente...
Eu estaria esquecido, tateando suavemente a face do filho morto
Partido de dor, chorando sobre o seu corpo insepultável.
Talvez da carne do homem prostrado se visse sair uma sombra igual à
minha
Que amasse as andorinhas, os seios virgens, os perfumes e os lírios da terra
Talvez... mas todas as visões estariam também em minhas lágrimas boiando
E elas seriam como óleo santo e como pétalas se derramando sobre o nada.
Alguém gritaria longe: — “Quantas rosas nos deu a primavera!...”
Eu olharia vagamente o jardim cheio de sol e de cores noivas se enlaçando
Talvez mesmo meu olhar seguisse da flor o voo rápido de um pássaro
Mas sob meus dedos vivos estaria a sua boca fria e os seus cabelos
luminosos.
Rumores chegariam a mim, distintos como passos na madrugada
Uma voz cantou, foi a irmã, foi a irmã vestida de branco! — a sua voz é
fresca como o orvalho...
Beijam-me a face — irmã vestida de azul, por que estás triste?
Deu-te a vida a velar um passado também?
V oltaria o silêncio — seria uma quietude de nave em Senhor Morto
Numa onda de dor eu tomaria a pobre face em minhas mãos angustiadas
Auscultaria o sopro, diria à toa — Escuta, acorda
Por que me deixaste assim sem me dizeres quem eu sou?
E o olhar estaria ansioso esperando
E a cabeça ao sabor da mágoa balançando
E o coração fugindo e o coração voltando
E os minutos passando e os minutos passando...
No entanto, dentro do sol a minha sombra se projeta
Sobre as casas avança o seu vago perfil tristonho
Anda, dilui-se, dobra-se nos degraus das altas escadas silenciosas
E morre quando o prazer pede a treva para a consumação da sua miséria.
É que ela vai sofrer o instante que me falta
Esse instante de amor, de sonho, de esquecimento
E quando chega, a horas mortas, deixa em meu ser uma braçada de
lembranças
Que eu desfolho saudoso sobre o corpo embalsamado do eterno ausente.
Nem surgisse em minhas mãos a rósea ferida
Nem porejasse em minha pele o sangue da agonia...
Eu diria — Senhor, por que me escolheste a mim que sou escravo
Por que me chagaste a mim cheio de chagas?
Nem do meu vazio te criasses, anjo que eu sonhei de brancos seios
De branco ventre e de brancas pernas acordadas
Nem vibrasses no espaço em que te moldei perfeita...
Eu te diria — Por que vieste te dar ao já vendido?
Oh, estranho húmus deste ser inerme e que eu sinto latente
Escorre sobre mim como o luar nas fontes pobres
Embriaga o meu peito do teu bafo que é como o sândalo
Enche o meu espírito do teu sangue que é a própria vida!
Fora, um riso de criança — longínqua infância da hóstia consagrada
Aqui estou ardendo a minha eternidade junto ao teu corpo frágil!
Eu sei que a morte abrirá no meu deserto fontes maravilhosas
E vozes que eu não sabia em mim lutarão contra a Voz.
Agora porém estou vivendo da tua chama como a cera
O infinito nada poderá contra mim porque de mim quer tudo
Ele ama no teu sereno cadáver o terrível cadáver que eu seria
O belo cadáver nu cheio de cicatriz e de úlceras.
Quem chamou por mim, tu, mãe? Teu filho sonha...
Lembras-te, mãe, a juventude, a grande praia enluarada...
Pensaste em mim, mãe? Oh, tudo é tão triste
A casa, o jardim, o teu olhar, o meu olhar, o olhar de Deus...
E sob a minha mão tenho a impressão da boca fria murmurando
Sinto-me cego e olho o céu e leio nos dedos a mágica lembrança
Passastes, estrelas... Voltais de novo arrastando brancos véus
Passastes, luas... Voltais de novo arrastando negros véus...
1 352
Vinicius de Moraes
Carne
Que importa se a distância estende entre nós léguas e léguas
Que importa se existe entre nós muitas montanhas?
O mesmo céu nos cobre
E a mesma terra liga nossos pés.
No céu e na terra é tua carne que palpita
Em tudo eu sinto o teu olhar se desdobrando
Na carícia violenta do teu beijo.
Que importa a distância e que importa a montanha
Se tu és a extensão da carne
Sempre presente?
Que importa se existe entre nós muitas montanhas?
O mesmo céu nos cobre
E a mesma terra liga nossos pés.
No céu e na terra é tua carne que palpita
Em tudo eu sinto o teu olhar se desdobrando
Na carícia violenta do teu beijo.
Que importa a distância e que importa a montanha
Se tu és a extensão da carne
Sempre presente?
1 275
Martha Medeiros
no mesmo vagão, eu e alguém
no mesmo vagão, eu e alguém
conversa vai, conversa vem
chega a estação
lembrança vai, lembrança vem
meu coração
até hoje não desceu do trem
conversa vai, conversa vem
chega a estação
lembrança vai, lembrança vem
meu coração
até hoje não desceu do trem
1 337
Martha Medeiros
tenho náuseas
tenho náuseas
e nostalgia
tomei uma aspirina
e a febre não passou
reli a tua carta
e quase morri de dor
e nostalgia
tomei uma aspirina
e a febre não passou
reli a tua carta
e quase morri de dor
1 084
Martha Medeiros
no começo eu prestava atenção
no começo eu prestava atenção
em todas as palavras que você ia me dizendo
me custava muito acreditar que aquilo tudo
estava acontecendo
eu sentia que você não queria me magoar
escolhia cada letra e cada pausa e desviava
o olhar
nas horas em que era inevitável dizer o que
pretendia
você pretendia me deixar, deixava claro
que juntos fomos ótimos parceiros mas
que de agora em diante
era cada um para o seu lado, e apesar da
saudade
era assim que tinha que ser
você não respondeu minhas perguntas,
foi evasivo, gaguejou
fugiu do assunto várias vezes e quando
voltava era pra repetir:
não dá mais
não dá mais, não posso mais,
não vou deixar você tirar minha paz,
eu concordo
aceito, assino a separação, não vou fazer
escândalo
e quando eu te encontrar com essa que
tomou o meu lugar
(é evidente, não venha negar), vou ser
civilizada
não vou quebrar os pratos nem te
constranger
você não vai me reconhecer, não vai
mais me proteger
não vai mais me amar, não vai mais
telefonar,
não vai mais aparecer, não vai mais dizer
meu nome,
não, eu agora já não estou te ouvindo mais
em todas as palavras que você ia me dizendo
me custava muito acreditar que aquilo tudo
estava acontecendo
eu sentia que você não queria me magoar
escolhia cada letra e cada pausa e desviava
o olhar
nas horas em que era inevitável dizer o que
pretendia
você pretendia me deixar, deixava claro
que juntos fomos ótimos parceiros mas
que de agora em diante
era cada um para o seu lado, e apesar da
saudade
era assim que tinha que ser
você não respondeu minhas perguntas,
foi evasivo, gaguejou
fugiu do assunto várias vezes e quando
voltava era pra repetir:
não dá mais
não dá mais, não posso mais,
não vou deixar você tirar minha paz,
eu concordo
aceito, assino a separação, não vou fazer
escândalo
e quando eu te encontrar com essa que
tomou o meu lugar
(é evidente, não venha negar), vou ser
civilizada
não vou quebrar os pratos nem te
constranger
você não vai me reconhecer, não vai
mais me proteger
não vai mais me amar, não vai mais
telefonar,
não vai mais aparecer, não vai mais dizer
meu nome,
não, eu agora já não estou te ouvindo mais
1 042
Martha Medeiros
ficas mais distante, cada dia
ficas mais distante, cada dia
cada noite, mais ausente
mais idoso, cada mês
cada instante, mais alheio
cada beijo, mais decente
mais fumante, cada ano
cada encontro, mais estranho
mais sofrido, cada vez
mais dolorido, mais parente
menos meu
cada noite, mais ausente
mais idoso, cada mês
cada instante, mais alheio
cada beijo, mais decente
mais fumante, cada ano
cada encontro, mais estranho
mais sofrido, cada vez
mais dolorido, mais parente
menos meu
1 249
Martha Medeiros
você não acredita como eu me importei
você não acredita como eu me importei
com você
como eu reparava nos teus cacoetes, ouvia
tua voz
e pelo tom eu percebia como andava o teu
humor,
como eu sabia bem dos teus horários, teus macetes
eu poderia ter escrito teu diário, tanto eu
te conhecia
dava para sentir de longe o teu cheiro,
entender tuas manias
eu já estava louca de tanta nostalgia de você,
um rapaz que eu nunca vi, nunca falei,
nunca toquei,
nunca soube se existia
com você
como eu reparava nos teus cacoetes, ouvia
tua voz
e pelo tom eu percebia como andava o teu
humor,
como eu sabia bem dos teus horários, teus macetes
eu poderia ter escrito teu diário, tanto eu
te conhecia
dava para sentir de longe o teu cheiro,
entender tuas manias
eu já estava louca de tanta nostalgia de você,
um rapaz que eu nunca vi, nunca falei,
nunca toquei,
nunca soube se existia
1 228
Martha Medeiros
embarquei minha filha no navio
embarquei minha filha no navio
e disse, minha filha, vai
disse, minha filha vai descobrir
o que há do outro lado do mar
embarquei e disse, vai
minha filha, descobrir o que há
que não se pode contar
disse, vai e olha com teus olhos
o que amor nenhum pode detalhar
vai, minha filha, sonhar
e conhecer melhor o mundo pra melhor navegar
disse, vai, minha filha
atravessar fronteiras e encontrar
o que existe do lado de lá, eu disse
vai, que eu fico te esperando aqui
minha filha, eu fico te aguardando
eu disse, vai que eu guardo o teu lugar
e disse, minha filha, vai
disse, minha filha vai descobrir
o que há do outro lado do mar
embarquei e disse, vai
minha filha, descobrir o que há
que não se pode contar
disse, vai e olha com teus olhos
o que amor nenhum pode detalhar
vai, minha filha, sonhar
e conhecer melhor o mundo pra melhor navegar
disse, vai, minha filha
atravessar fronteiras e encontrar
o que existe do lado de lá, eu disse
vai, que eu fico te esperando aqui
minha filha, eu fico te aguardando
eu disse, vai que eu guardo o teu lugar
1 618
Martha Medeiros
toda mulher tem um homem que se foi
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que a deixou por outra
um homem que a deixou por um câncer
um homem que nem mesmo a notou
um homem que a deixou por um ideal
um homem que sumiu num temporal
um homem que não passou de dois drinques
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que foi pego em flagrante
um homem que prometeu um brilhante
um homem que saiu pra jogar
toda mulher tem um homem
que esqueceu de voltar
um homem que a deixou por outra
um homem que a deixou por um câncer
um homem que nem mesmo a notou
um homem que a deixou por um ideal
um homem que sumiu num temporal
um homem que não passou de dois drinques
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que foi pego em flagrante
um homem que prometeu um brilhante
um homem que saiu pra jogar
toda mulher tem um homem
que esqueceu de voltar
1 196
Martha Medeiros
era verão ou qualquer troço assim
era verão ou qualquer troço assim
lua cheia ou algo parecido
uma saudade ou quase a mesma coisa
era amor ou mais ou menos isso
lua cheia ou algo parecido
uma saudade ou quase a mesma coisa
era amor ou mais ou menos isso
1 142
Martha Medeiros
já que vim mesmo
já que vim mesmo
vamos aos finalmentes
pra começo de conversa
não me toque, acabou
não tinha nada a ver
e eu já tenho outro
doa a quem doer
não venha com essa cara de choro
você sabia que isso um dia
iria acontecer
eu não tenho muito tempo
só vim pegar minhas coisas
e saber de você
tô te achando mais magro
a casa tá meio suja
você tem se alimentado direito?
embora eu não me arrependa
ainda sinto saudades daqui
lembra daquele domingo
esquece, deixa pra lá
eu só vim te avisar
pra me deixar no meu canto
toca tua vida, vai fundo
eu vou me virando
engraçado
parece que você que tá indo
e eu que tô ficando
vamos aos finalmentes
pra começo de conversa
não me toque, acabou
não tinha nada a ver
e eu já tenho outro
doa a quem doer
não venha com essa cara de choro
você sabia que isso um dia
iria acontecer
eu não tenho muito tempo
só vim pegar minhas coisas
e saber de você
tô te achando mais magro
a casa tá meio suja
você tem se alimentado direito?
embora eu não me arrependa
ainda sinto saudades daqui
lembra daquele domingo
esquece, deixa pra lá
eu só vim te avisar
pra me deixar no meu canto
toca tua vida, vai fundo
eu vou me virando
engraçado
parece que você que tá indo
e eu que tô ficando
1 128
Martha Medeiros
você bem que podia ter surgido na
você bem que podia ter surgido na
minha vida
vinte anos atrás, quando eu ainda tinha
planos
quinze anos atrás, quando eu estava me
formando
onze anos atrás, quando eu morava sozinha
dez anos atras, quando eu ainda era solteira
seis anoatrás, quando eu ainda estava
tentando
dois meses atrás, quando sobrava
alguma força
ontem à noite eu ainda estava te esperando
minha vida
vinte anos atrás, quando eu ainda tinha
planos
quinze anos atrás, quando eu estava me
formando
onze anos atrás, quando eu morava sozinha
dez anos atras, quando eu ainda era solteira
seis anoatrás, quando eu ainda estava
tentando
dois meses atrás, quando sobrava
alguma força
ontem à noite eu ainda estava te esperando
1 193
Martha Medeiros
a gente é meio on the road
a gente é meio on the road
só que muito mais moderno
adoro estar com ele e esse amor é único
e insiste
sobrevive em nós um sonho torto
a gente se permite cafonices
e se finge de casal
mata o tempo na tevê e quando vê somos
lençóis
morremos de saudade que não dói
ele dança na minha frente
e me atrai essa falta de jeito pra me amar
quando beija a boca me enlouquece
não posso recusar tanta meiguice
superfino bagaceiro engraçadíssimo
máximo de luxo me cobre de promessas
champanhe em Mônaco banho nus
Mediterrâneo
instantâneo ele me pede em casamento
e eu aceito
só que muito mais moderno
adoro estar com ele e esse amor é único
e insiste
sobrevive em nós um sonho torto
a gente se permite cafonices
e se finge de casal
mata o tempo na tevê e quando vê somos
lençóis
morremos de saudade que não dói
ele dança na minha frente
e me atrai essa falta de jeito pra me amar
quando beija a boca me enlouquece
não posso recusar tanta meiguice
superfino bagaceiro engraçadíssimo
máximo de luxo me cobre de promessas
champanhe em Mônaco banho nus
Mediterrâneo
instantâneo ele me pede em casamento
e eu aceito
1 017
Martha Medeiros
não faz diferença
não faz diferença
se você vem amanhã
ou não vem
desisti de esperar
por alguém
cuja ausência
me faz companhia
se você vem amanhã
ou não vem
desisti de esperar
por alguém
cuja ausência
me faz companhia
1 257
Martha Medeiros
nós que nós amávamos tanto
nós que nós amávamos tanto
hoje estamos tão longe
sem rima, sem sono
nem lembro
de como eu te achava estranho
hoje estamos tão longe
sem rima, sem sono
nem lembro
de como eu te achava estranho
1 196
Martha Medeiros
way out
way out
saída de metrô
South Kensington Station
você na cabeça
minha mente voou
um museu, um punk
uma saudade
falo inglês pensando em português
eu amo você
como você mudou
saída de metrô
South Kensington Station
você na cabeça
minha mente voou
um museu, um punk
uma saudade
falo inglês pensando em português
eu amo você
como você mudou
1 008
Martha Medeiros
a emoção que veio vermelha
a emoção que veio vermelha
virou saudade branca
e ficou a lembrança cor-de-rosa
do teu olhar azul
do meu sorriso amarelo
e daquele nosso desejo
tão cor da pele
virou saudade branca
e ficou a lembrança cor-de-rosa
do teu olhar azul
do meu sorriso amarelo
e daquele nosso desejo
tão cor da pele
1 237
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Manhã Estática Parada
Entre o Tejo azul e a Torre branca
Que branca e barroca sobe das águas
Manhã acesa de silêncio e louvor
Na breve primavera violenta
Assim a minha vida que era calma
De repente se tornou ânsia e saudade
Mas a brisa da varanda é doce e suave
Um pássaro canta porque alguém regou
Maio de 2000
Que branca e barroca sobe das águas
Manhã acesa de silêncio e louvor
Na breve primavera violenta
Assim a minha vida que era calma
De repente se tornou ânsia e saudade
Mas a brisa da varanda é doce e suave
Um pássaro canta porque alguém regou
Maio de 2000
1 293
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eurydice Em Roma
Por entre clamor e vozes oiço atenta
A voz da flauta na penumbra fina
E ao longe sob a copa dos pinheiros
Com leves pés que nem as ervas dobram
Intensa absorta — sem se virar pra trás —
E já separada — Eurydice caminha
A voz da flauta na penumbra fina
E ao longe sob a copa dos pinheiros
Com leves pés que nem as ervas dobram
Intensa absorta — sem se virar pra trás —
E já separada — Eurydice caminha
1 289
Sophia de Mello Breyner Andresen
Carta a Maria do Carvalhal Alvito
Querida Maria — subitamente o fino
Deste primeiro frio misturado
Com um sabor de lenha e de maçã
Algo recorda: tacteio na memória
Procurando o onde o quando o quem
E a tua casa reabre de repente as suas portas
E caminho nos quartos entre
Os raios da luz e o cismar das penumbras
E vens ao meu encontro e és meu abrigo
Pranto e saudade em cada gesto irrompem
Mas a irreversível alegria do ter sido
Não deixará jamais de estar comigo
E há um sabor de lenha e de maçã
E o tempo é jovem próximo e amigo
E rimos juntas nesse dia antigo
E entro na tua casa e és meu abrigo
Lisboa, Novembro de 1986
Deste primeiro frio misturado
Com um sabor de lenha e de maçã
Algo recorda: tacteio na memória
Procurando o onde o quando o quem
E a tua casa reabre de repente as suas portas
E caminho nos quartos entre
Os raios da luz e o cismar das penumbras
E vens ao meu encontro e és meu abrigo
Pranto e saudade em cada gesto irrompem
Mas a irreversível alegria do ter sido
Não deixará jamais de estar comigo
E há um sabor de lenha e de maçã
E o tempo é jovem próximo e amigo
E rimos juntas nesse dia antigo
E entro na tua casa e és meu abrigo
Lisboa, Novembro de 1986
1 243
Sophia de Mello Breyner Andresen
Xiv. Através do Teu Coração Passou Um Barco
Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho
1982
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho
1982
1 473
Sophia de Mello Breyner Andresen
Enquanto Longe Divagas
I
Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
— Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
— Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras
— Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
— Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba
II
O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso
III
Pois no ar estremece tua alegria
— Tua jovem rijeza de arbusto —
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso
Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso
Junho de 1974
Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
— Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
— Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras
— Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
— Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba
II
O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso
III
Pois no ar estremece tua alegria
— Tua jovem rijeza de arbusto —
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso
Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso
Junho de 1974
1 355