Poemas neste tema
Saudade e Ausência
Fernando Pessoa
A terra é sem vida, e nada
A terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração...
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!
Vive mais que o coração...
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!
2 475
Fernando Pessoa
Se ontem à tua porta
Se ontem à tua porta
Mais triste o vento passou —
Olha: levava um suspiro...
Bem sabes quem to mandou...
Mais triste o vento passou —
Olha: levava um suspiro...
Bem sabes quem to mandou...
1 562
Fernando Pessoa
2ª Ode - E eu era parte de toda a gente que partia.
2ª Ode
E eu era parte de toda a gente que partia.
A minha alma era parte do lenço com que aquela rapariga acenava
Da janela afastando-se de comboio...
O adeus do rapaz de boné claro
É dirigido a alguém dentro de mim
Sem que ele o queira ou o saiba...
E Paris-Fuentes d'Oñoro
Em letras encarnadas em fundo branco
Ao centro da carruagem, e no alto
Em letras que parecem mais vivas e sábias
Cª Internacional dos Wagons [...]
E o comboio avança — eu fico...
E eu era parte de toda a gente que partia.
A minha alma era parte do lenço com que aquela rapariga acenava
Da janela afastando-se de comboio...
O adeus do rapaz de boné claro
É dirigido a alguém dentro de mim
Sem que ele o queira ou o saiba...
E Paris-Fuentes d'Oñoro
Em letras encarnadas em fundo branco
Ao centro da carruagem, e no alto
Em letras que parecem mais vivas e sábias
Cª Internacional dos Wagons [...]
E o comboio avança — eu fico...
1 044
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS [d]
PASSAGEM DAS HORAS
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.
Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.
Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonde me esqueço de mim
Lembrando...
1 774
Fernando Pessoa
VI - Venho de longe e trago no perfil,
VI
Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.
Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...
Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...
E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...
Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.
Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...
Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...
E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...
1 196
Fernando Pessoa
X - Aconteceu-me do alto do infinito
X
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
818
Fernando Pessoa
XII - Ela ia, tranquila pastorinha,
XII
Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Seguia-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...
«Em longes terras hás-de ser rainha»
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...
Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora —
Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir...
Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Seguia-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...
«Em longes terras hás-de ser rainha»
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...
Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora —
Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir...
1 593
Fernando Pessoa
V - Ténue, roçando sedas pelas horas,
V
Ténue, roçando sedas pelas horas,
Teu vulto ciciante passa e esquece,
E dia a dia adias para prece
O rito cujo ritmo só decoras...
Um mar longínquo e próximo humedece
Teus lábios onde, mais que em ti, descoras...
E, alada, leve, sobre a dor que choras,
Sem querer saber de ti a tarde desce...
Erra no anteluar a voz dos tanques...
Na quinta imensa gorgolejam águas,
Na treva vaga ao meu ter dor estanques...
Meu império é das horas desiguais,
E dei meu gesto lasso às algas mágoas
Que há para além de sermos outonais...
Ténue, roçando sedas pelas horas,
Teu vulto ciciante passa e esquece,
E dia a dia adias para prece
O rito cujo ritmo só decoras...
Um mar longínquo e próximo humedece
Teus lábios onde, mais que em ti, descoras...
E, alada, leve, sobre a dor que choras,
Sem querer saber de ti a tarde desce...
Erra no anteluar a voz dos tanques...
Na quinta imensa gorgolejam águas,
Na treva vaga ao meu ter dor estanques...
Meu império é das horas desiguais,
E dei meu gesto lasso às algas mágoas
Que há para além de sermos outonais...
1 362
Fernando Pessoa
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda.
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda,
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
1 645
Fernando Pessoa
O som contínuo da chuva
O som contínuo da chuva
A se ouvir lá fora bem
Deixa-nos a alma viúva
Daquilo que já não tem.
[...]
A se ouvir lá fora bem
Deixa-nos a alma viúva
Daquilo que já não tem.
[...]
1 553
Fernando Pessoa
Tece, amor, as grinaldas com que queres
Tece, amor, as grinaldas com que queres
Coroar o amor que nem sabemos ter,
Com brancas mãos em lento movimento
De papoulas e pobres malmequeres...
Tece-as para que ao menos o momento
Em que as teces nos possa pertencer.
Se para coroar o amor as teces
Pensas no amor tecendo-as, e assim amas;
Se vendo-te, em ti vejo que o conheces
Amo contigo o amor em que tu pensas.
E um momento o amor queima as suas chamas
Na ara das nossas almas já pretensas.
Mas se a grinalda é feita, o amor cessou.
Se é preciso entre nós o gesto e o gozo
Nunca o pensado amor levanta o voo.
Nunca da nossa noite de sentir
Raiou o sol do acto, e o olhar cobiçou
Uma coisa real que vá fruir.
No sonho do que nunca pode haver
Entre nós, porque há em nós o pensamento,
Gastamos o desejo sem o ter.
A taça cai do gesto mal seguro
Porque pensamos em beber, e o intento
Cansa o braço, e é entornado o néctar puro.
Viemos, meu amor, no fim da tarde.
O que há de sol é o que resta acima
Dos montes, poesia baça e sonho que arde,
E só pura saudade os céus anima.
O nosso olhar não ousa olhar o outro.
Outros tiveram por seu tempo o dia
Gozaram outros quando o sol era alto,
A vergonha que há em nós de sua orgia
É a vergonha de nós a não ousarmos.
Nós pensamos no amor em sobressalto
E para amarmos só nos falta amarmos.
Os deuses foram-se, e consigo foi
A clareza de alma para (com) a vida.
O que ontem era o gozo, é o que hoje dói.
O que ontem era a coisa possuída
É hoje só a coisa apetecida,
Ainda desejada e não ousada.
Coroar o amor que nem sabemos ter,
Com brancas mãos em lento movimento
De papoulas e pobres malmequeres...
Tece-as para que ao menos o momento
Em que as teces nos possa pertencer.
Se para coroar o amor as teces
Pensas no amor tecendo-as, e assim amas;
Se vendo-te, em ti vejo que o conheces
Amo contigo o amor em que tu pensas.
E um momento o amor queima as suas chamas
Na ara das nossas almas já pretensas.
Mas se a grinalda é feita, o amor cessou.
Se é preciso entre nós o gesto e o gozo
Nunca o pensado amor levanta o voo.
Nunca da nossa noite de sentir
Raiou o sol do acto, e o olhar cobiçou
Uma coisa real que vá fruir.
No sonho do que nunca pode haver
Entre nós, porque há em nós o pensamento,
Gastamos o desejo sem o ter.
A taça cai do gesto mal seguro
Porque pensamos em beber, e o intento
Cansa o braço, e é entornado o néctar puro.
Viemos, meu amor, no fim da tarde.
O que há de sol é o que resta acima
Dos montes, poesia baça e sonho que arde,
E só pura saudade os céus anima.
O nosso olhar não ousa olhar o outro.
Outros tiveram por seu tempo o dia
Gozaram outros quando o sol era alto,
A vergonha que há em nós de sua orgia
É a vergonha de nós a não ousarmos.
Nós pensamos no amor em sobressalto
E para amarmos só nos falta amarmos.
Os deuses foram-se, e consigo foi
A clareza de alma para (com) a vida.
O que ontem era o gozo, é o que hoje dói.
O que ontem era a coisa possuída
É hoje só a coisa apetecida,
Ainda desejada e não ousada.
1 351
Fernando Pessoa
Amanhã estas letras em que te amo
Amanhã estas letras em que te amo.
Serão vistas, tu morta.
Corpo, eras vida para que o não foras,
Tão bela! Versos restam.
Quem o (...)
Serão vistas, tu morta.
Corpo, eras vida para que o não foras,
Tão bela! Versos restam.
Quem o (...)
1 376
Fernando Pessoa
Amei-te e por te amar
Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
1 720
Fernando Pessoa
Passando a vida em ver passar a de outros,
Passando a vida em ver passar a de outros,
Botões de flor de um esforço nunca aberto
Na antiga semelhança com os deuses
Que andam nos campos
A ensinar aos que as Parcas não ignoram
Como a vida se deve usar, e como
Há outro uso que agrícola dos campos
E outro das fontes
Que beber delas na hora da sede.
Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem (...)
Penélopes tristes.
Botões de flor de um esforço nunca aberto
Na antiga semelhança com os deuses
Que andam nos campos
A ensinar aos que as Parcas não ignoram
Como a vida se deve usar, e como
Há outro uso que agrícola dos campos
E outro das fontes
Que beber delas na hora da sede.
Passando assim a vida, destruindo
O que fiamos ontem (...)
Penélopes tristes.
1 368
Fernando Pessoa
Linda noite a desta lua,
Linda noite a desta lua,
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua,
Por onde ela não virá.
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua,
Por onde ela não virá.
1 657
Fernando Pessoa
O vaso de manjerico
O vaso de manjerico
Caiu da janela abaixo.
Vai buscá-lo, que aqui fico
A ver se sem ti te acho.
Caiu da janela abaixo.
Vai buscá-lo, que aqui fico
A ver se sem ti te acho.
1 579
Fernando Pessoa
NAVAL ODE
Alone, on the deserted quay, this summer morning,
I look towards the bar, I look towards the Indefinite,
I look and find pleasure in seeing,
Little, black and clear, a steamer coming in.
It is very far yet, distinct and classic after its own fashion.
It leaves on the distant air behind it the vain curls of its smoke.
It is coming in, and morn comes in with it, and on the river
Here, there, naval life awakes,
Sails arise, tugs advance,
Small boats jut out from behind the ships in the port.
There is a vague breeze.
But my soul is with the things that I see least,
With the in-coming steamer,
Because it is with Distance, with Morn,
With the naval meaning of this Hour,
With the painful softness that rises in me like a qualm,
Like a beginning of sea-sickness, but in my soul.
I look from afar at the steamer, with a great independence of mind
And a whell begins to spin in me, very slowly.
The steamers that enter the bar in the morning,
Bring to my eyes with their coming
The glad and sad mystery of all who arrive and depart.
They bring memories of distant quays, and of other moments
Of another kind of the same mankind in other ports.
Every (...), every departure of a ship,
Is — I feel it in me like my blood —
Unconsciously symbolic, terribly
Threatening metaphysical meanings
That startle in me the being I once …
Ah, every quay is a regret made of stone!
And when the ship leaves the quay
And we note suddenly that a space is widening
Between the quay and the ship,
There comes to me, I know not why, a recent anguish,
A mist of feelings of sadness
That shines in the sun of my mosy anguishes
Like the first window the morning strikes on,
And clings round me like some one else's remembrance
Which is somehow mysteriously mine.
Ah, who knows, who knows,
If I did not leave long ago, before Myself,
A quay; if I did not depart, a ship in
The oblique sun of morning,
From another kind of port?
Who knows if I did not leave, before the hour
Of the exterior world as I see it
Dawned for me,
A large quay full of few people,
Of a great half-awakened city,
Of a great city commercial, overgrown, apopletical,
As much as that can be outside Time and Space?
Ay, from a quay, from a quay somehow material,
Real, visible as a quay, really a quay,
The Absolute Quay on whose type, unconsciously imitated,
Insensibly evoked,
We men have built
Our quays in our harbours,
Our quays, of actual stone overlooking true water,
Which, once built, suddenly show themselves to be
Real-Things, Things-Spirits, Entities in Stone-Souls,
At certain moments of ours of root-sentiments
When it seems that a door is opened in the outer world
And, without anything changing
Everything reveals itself to be different.
Ah, the Great Quay whence we embarked in Ship-Nations!
The Great Earlier Quay, eternal and divine!
Of what port? Over what waters? And why do I think of this?
A Great Quay like all other quays, but the Only One.
Full, as they are, of murmurous silences in the fore-dawns
And budding with the dawns in a noise of cranes
And arrivals of goods-trains
And under the black, occasional and light cloud
Of the smoke of the chimneys of the near factories
Which clouds its ground, black with small shining coal,
As if it were the shadow of a cloud passing over dark water.
Ah, what essentiality of mystery and arrested senses
In a divine revealing ecstasy
At the hours coloured like silences and anguishes
Is the bridge between any quay and THE QUAY!
Quay blackly reflected in the still waters,
Suddle [?] on board the ships,
Oh wandering and unstable soul of the people who live in ships,
Of the symbolic people who pass and for whom, nothing lasts
For when the vessel returns to the port,
There is always some change on board!
On continual flights, goings, drunknness of the Different!
Eternal soul of navigators and navigations!
Hulls slowly reflected in the waters
When the ship leaves the port!
To float as soul of life, to depart as voice,
To live the moment tremulously on eternal waters!
To wake to more direct days than the days of Europe,
To see mysterious ports over the loneliness of the sea,
To double distant capes and see sudden great landscapes
Of unnumbred astonished alones!
Ah, the distant beaches, the quays seen from afar,
And then the near beaches and the quays seen from near.
The mystery of each departure and of each arrival,
The painful instability and incomprehensibility
Of this impossible universe
At each naval hour ever more deeply felt right in my skin.
The absurd sob that our souls spill
Over the ever-different tracts of seas with islands afar,
Over the distant lines of the coasts we merely pass by,
Over the clear growing-clear of ports, with their houses and their people,
When the ship nears the land.
Ah, the freshness of morns when we arrive,
And the paleness of the morns when we depart,
When our entrails are gripped up
And a vague sensation resembling a fear
— The ancestral fear of going away and leaving,
The mysterious ancestral terror of Arrivals and New Things —
Grips up our skin and gives us qualms
And all our anguished body feels,
As if it were our soul,
An unexplained desire to feel this in some other way:
A regret at something,
A perturbation of tendernesses towards what vague fatherland?
What coast? what ship? what quay?
That thought sickens within us
And only a great vaccum remains in us,
A hollow satiety of naval minutes,
And a vague anxiety that would be weariness or pain
If it knew how to be that…
The summer morning is, nevertheless, slightly cool,
A slight night-dullness lies yet on the shaken air.
The wheel within me quickens its motion slightly.
And the steamer keeps on coming in, because surely it must coming in,
And not because I see it moving in its excessive distance.
In my imagination it is already near and visible
In all the extent of the lines of its portholes,
And everything trembles in me, all my flesh and all my skin,
On account of that creature that never arrives in any ship
And whom I have come to await to-day on this quay, through an oblique command.
I look towards the bar, I look towards the Indefinite,
I look and find pleasure in seeing,
Little, black and clear, a steamer coming in.
It is very far yet, distinct and classic after its own fashion.
It leaves on the distant air behind it the vain curls of its smoke.
It is coming in, and morn comes in with it, and on the river
Here, there, naval life awakes,
Sails arise, tugs advance,
Small boats jut out from behind the ships in the port.
There is a vague breeze.
But my soul is with the things that I see least,
With the in-coming steamer,
Because it is with Distance, with Morn,
With the naval meaning of this Hour,
With the painful softness that rises in me like a qualm,
Like a beginning of sea-sickness, but in my soul.
I look from afar at the steamer, with a great independence of mind
And a whell begins to spin in me, very slowly.
The steamers that enter the bar in the morning,
Bring to my eyes with their coming
The glad and sad mystery of all who arrive and depart.
They bring memories of distant quays, and of other moments
Of another kind of the same mankind in other ports.
Every (...), every departure of a ship,
Is — I feel it in me like my blood —
Unconsciously symbolic, terribly
Threatening metaphysical meanings
That startle in me the being I once …
Ah, every quay is a regret made of stone!
And when the ship leaves the quay
And we note suddenly that a space is widening
Between the quay and the ship,
There comes to me, I know not why, a recent anguish,
A mist of feelings of sadness
That shines in the sun of my mosy anguishes
Like the first window the morning strikes on,
And clings round me like some one else's remembrance
Which is somehow mysteriously mine.
Ah, who knows, who knows,
If I did not leave long ago, before Myself,
A quay; if I did not depart, a ship in
The oblique sun of morning,
From another kind of port?
Who knows if I did not leave, before the hour
Of the exterior world as I see it
Dawned for me,
A large quay full of few people,
Of a great half-awakened city,
Of a great city commercial, overgrown, apopletical,
As much as that can be outside Time and Space?
Ay, from a quay, from a quay somehow material,
Real, visible as a quay, really a quay,
The Absolute Quay on whose type, unconsciously imitated,
Insensibly evoked,
We men have built
Our quays in our harbours,
Our quays, of actual stone overlooking true water,
Which, once built, suddenly show themselves to be
Real-Things, Things-Spirits, Entities in Stone-Souls,
At certain moments of ours of root-sentiments
When it seems that a door is opened in the outer world
And, without anything changing
Everything reveals itself to be different.
Ah, the Great Quay whence we embarked in Ship-Nations!
The Great Earlier Quay, eternal and divine!
Of what port? Over what waters? And why do I think of this?
A Great Quay like all other quays, but the Only One.
Full, as they are, of murmurous silences in the fore-dawns
And budding with the dawns in a noise of cranes
And arrivals of goods-trains
And under the black, occasional and light cloud
Of the smoke of the chimneys of the near factories
Which clouds its ground, black with small shining coal,
As if it were the shadow of a cloud passing over dark water.
Ah, what essentiality of mystery and arrested senses
In a divine revealing ecstasy
At the hours coloured like silences and anguishes
Is the bridge between any quay and THE QUAY!
Quay blackly reflected in the still waters,
Suddle [?] on board the ships,
Oh wandering and unstable soul of the people who live in ships,
Of the symbolic people who pass and for whom, nothing lasts
For when the vessel returns to the port,
There is always some change on board!
On continual flights, goings, drunknness of the Different!
Eternal soul of navigators and navigations!
Hulls slowly reflected in the waters
When the ship leaves the port!
To float as soul of life, to depart as voice,
To live the moment tremulously on eternal waters!
To wake to more direct days than the days of Europe,
To see mysterious ports over the loneliness of the sea,
To double distant capes and see sudden great landscapes
Of unnumbred astonished alones!
Ah, the distant beaches, the quays seen from afar,
And then the near beaches and the quays seen from near.
The mystery of each departure and of each arrival,
The painful instability and incomprehensibility
Of this impossible universe
At each naval hour ever more deeply felt right in my skin.
The absurd sob that our souls spill
Over the ever-different tracts of seas with islands afar,
Over the distant lines of the coasts we merely pass by,
Over the clear growing-clear of ports, with their houses and their people,
When the ship nears the land.
Ah, the freshness of morns when we arrive,
And the paleness of the morns when we depart,
When our entrails are gripped up
And a vague sensation resembling a fear
— The ancestral fear of going away and leaving,
The mysterious ancestral terror of Arrivals and New Things —
Grips up our skin and gives us qualms
And all our anguished body feels,
As if it were our soul,
An unexplained desire to feel this in some other way:
A regret at something,
A perturbation of tendernesses towards what vague fatherland?
What coast? what ship? what quay?
That thought sickens within us
And only a great vaccum remains in us,
A hollow satiety of naval minutes,
And a vague anxiety that would be weariness or pain
If it knew how to be that…
The summer morning is, nevertheless, slightly cool,
A slight night-dullness lies yet on the shaken air.
The wheel within me quickens its motion slightly.
And the steamer keeps on coming in, because surely it must coming in,
And not because I see it moving in its excessive distance.
In my imagination it is already near and visible
In all the extent of the lines of its portholes,
And everything trembles in me, all my flesh and all my skin,
On account of that creature that never arrives in any ship
And whom I have come to await to-day on this quay, through an oblique command.
1 686
Fernando Pessoa
«Vesti-me toda de novo
«Vesti-me toda de novo
E calcei sapato baixo
Para passar entre o povo
E procurar quem não acho.»
E calcei sapato baixo
Para passar entre o povo
E procurar quem não acho.»
1 349
Fernando Pessoa
Vai longe, na serra alta,
Vai longe, na serra alta,
A nuvem que nela toca...
Dá-me aquilo que me falta —
Os beijos da tua boca.
A nuvem que nela toca...
Dá-me aquilo que me falta —
Os beijos da tua boca.
918
Fernando Pessoa
O heavy day that comes with so much glee
O heavy day that comes with so much glee
Out of the East.
It turquoises the silence of the sea
And makes a feast
Of blueness of the waves that shiver and flee.
O heavy day because my love hath gone
And taken away
His white arms and his lips like poppies grown
Athwart that day
When I first saw him and felt my heart moan.
My hands are stretched towards his coming, and
He cometh not.
He seems a woman and his gesturing hand
Too oft bath wrought
Dreams of strange vice with him through my heart's sand.
He is scarce more than a child. His body is white,
His arms lie bare
Across my neck and cling like a delight
Of which my share
Is painful like a far sail in the night.
Oh, love, return! All this is dreams of thee
Return and wake
My trembling frame to that vile misery
That love doth take
For his body when the lovers are such as we.
Golden‑haired boy that cannot love me so
As I love him,
Look, life is short, our lips fade... Ay, I know
I am ugly and dim
But love a little or seem... Love me and go
Yet love ere going, and then let me dream
On what was real while life fades and goes slow...
Out of the East.
It turquoises the silence of the sea
And makes a feast
Of blueness of the waves that shiver and flee.
O heavy day because my love hath gone
And taken away
His white arms and his lips like poppies grown
Athwart that day
When I first saw him and felt my heart moan.
My hands are stretched towards his coming, and
He cometh not.
He seems a woman and his gesturing hand
Too oft bath wrought
Dreams of strange vice with him through my heart's sand.
He is scarce more than a child. His body is white,
His arms lie bare
Across my neck and cling like a delight
Of which my share
Is painful like a far sail in the night.
Oh, love, return! All this is dreams of thee
Return and wake
My trembling frame to that vile misery
That love doth take
For his body when the lovers are such as we.
Golden‑haired boy that cannot love me so
As I love him,
Look, life is short, our lips fade... Ay, I know
I am ugly and dim
But love a little or seem... Love me and go
Yet love ere going, and then let me dream
On what was real while life fades and goes slow...
1 469
Fernando Pessoa
38 - ANAMNESIS
Somewhere where I shall never live
A palace garden bowers
Such beauty that dreams of it grieve.
There, lining walks immemorial,
Great antenatal flowers
My lost life before God recall.
There I was happy and the child
That had cool shadows
Wherein to feel sweetly exiled.
They took all these true things away.
O my lost meadows!
My childhood before Night and Day!
A palace garden bowers
Such beauty that dreams of it grieve.
There, lining walks immemorial,
Great antenatal flowers
My lost life before God recall.
There I was happy and the child
That had cool shadows
Wherein to feel sweetly exiled.
They took all these true things away.
O my lost meadows!
My childhood before Night and Day!
1 147
Fernando Pessoa
Andei sozinho na praia
Andei sozinho na praia
Andei na praia a pensar
No jeito da tua saia
Quando lá estiveste a andar.
Andei na praia a pensar
No jeito da tua saia
Quando lá estiveste a andar.
2 141